O Evangelho do Cristo Redivivo por Gustavo Gollo - Versão HTML

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redivivo

(ROMANCE)

Gustavo Gollo

Capa: Aline Montesino Fávaro

Editora Virtual

O evangelho do Cristo redivivo

Em um Rio de Janeiro futurista, pós-olimpíadas, policiais,

milicianos e bandidos se digladiam em uma atmosfera violenta e

cruel, em uma guerra sem fim pelo poder das ruas.

Nesse panorama sujo, surge a igreja do Cristo redivivo, uma

seita que crucifica um Cristo anualmente para nos salvar.

Ele veio para tirar os pecados do mundo; Ele está no meio de

nós.

Esse é o Seu evangelho.

Gustavo Gollo

José Carlos, ou JC como era chamado, permanecia ansioso ante a expectativa do resultado da escolha do Cristo; aos trinta e três anos, chegava à final do concurso pela terceira vez consecutiva, sabia que seria a última. Agora fazia planos. Evitava conjeturar não ser o escolhido, situação que o obrigaria a dar novos rumos a sua vida, não sabia quais. Um sentimento de tristeza intensa e apreensão quase desesperadora se apossavam de sua alma assim que considerava essa hipótese, impossibilitando-o pensar com clareza, e traçar planos minimamente aceitáveis após tal derrota.

Contrastando com essa possibilidade havia o sonho: ser o escolhido.

Já havia perdido a conta da quantidade de vezes em que se candidatara a Cristo, sonho de infância, repetidamente reacendido desde a adolescência, tendo havido, desde os treze de idade, apenas um ano em que não se candidatara; não o fez por uma infantilidade, uma birra, por não ter sido escolhido no ano anterior, mas se arrependeu. Desde então, passou a viver sob a meta de se tornar o Cristo, o Salvador, e toda a sua vida se voltou para esta finalidade única, de maneira que agora chegava aos trinta e três sem qualquer outra expectativa.

À sua frente o comovente espetáculo se desenrolava esplendorosamente ante os olhares atentos da multidão emocionada. Caminhava solitário em meio ao mar de gente, empurrado pelo povo. Assistia à crucificação do Cristo com as emoções eclipsadas pela apreensão relativa à escolha do novo Salvador. Pouca atenção prestava ao espetáculo, ou à multidão em torno, embora houvesse aguçado sua percepção ao extremo nos parcos momentos em que teve a sorte de se encontrar próximo o suficiente do Cristo para contemplar-lhe as feições, como em uma espécie de deformação profissional a guiar seus olhares independentemente de qualquer decisão consciente, conduzidos apenas pela força do hábito.

Havia visto inúmeras fotos do Cristo, e já lhe tinha estudado profundamente as expressões corporais e faciais, movimentos e gestos. Também conhecia em detalhes o seu sorriso, suas inflexões verbais, tonalidades... sabia imitá-lo com perfeição, e até mais que isso, acreditava conseguir igualar, e até superar a elegância de seus gestos e a veracidade de suas ações. Mesmo assim, convinha vê-lo ao vivo, sem retoques fotográficos ou qualquer outro truque gráfico. Era importante ver o seu suor, sua impressão na multidão, sua aura. Assim, quando se aproximou do Cristo atentou para cada detalhe de seu corpo, de sua expressão. Viu sua musculatura delineada sob a pele, seu porte atlético, apesar do cansaço por ter carregado a cruz, seus cabelos suados agitados ao vento em desalinho. Olhou em seus olhos e percebeu mais júbilo que piedade ou medo, fato que o inquietou. Uma constatação, no entanto, teve um efeito fortemente tranquilizador sobre si: eram ambos indiscutivelmente parecidos: a mesma altura, o mesmo porte, a mesma cor, em suma o mesmo tipo, havendo até um ou outro traço fisionômico assemelhado. Sabia que a semelhança teria um peso favorável na escolha do próximo Cristo; conviria haver uma continuidade entre ambos.

Em cada lado do Cristo, um homem estropiado pendia de uma cruz. Difícil adivinhar-lhe as feições disformes, bastante alteradas pela pancadaria da turba. Suas cabeças pendiam inertes, com as faces voltadas para baixo. Já não tinham os sentidos, se acaso ainda vivessem. Suas cruzes, em segundo plano, eram menores que a do Cristo, em destaque, e plantadas em um nível mais baixo, além de mais discretamente iluminadas que a dele. Estavam ali apenas para ressaltar a grandiosidade do Salvador, e escassos olhares se dirigiam a elas.

Uma mosca deixou a narina de um dos crucificados, evidenciando sua morte.

Fato análogo já lhe havia causado repulsa em anos anteriores, não no ladrão, mas esvoaçando e penetrando no Cristo. Inseto pestilento e sacrílego; havia tentado em vão arquitetar algum plano para evitar tão sutil imundície. Planejou passar inseticida em torno das narinas, mas constatou que a boca incontrolavelmente aberta era entrada muito mais convidativa para elas. Pensou em dar instruções para que lhe vedassem os orifícios faciais, após a morte, com algodão embebido em pesticida, mas considerou a alternativa excessivamente artificial. Lembrava-se com clareza ainda, e com um misto de ironia e repulsa, do Cristo dândi, de anos anteriores, cujos cabelos volumosos e repletos de mechas coloridas e luminosas, após todo o suplício, mantinham o aspecto de haver acabado de sair do cabeleireiro.

Teve pena dos homens secundando o Cristo, aos seus lados; linchados pela turba, punidos com rigor desmedido por crime tão leve. Veio-lhe à mente, uma vez mais, a reminiscência muito antiga, a pergunta infantil, ainda nas aulas de catecismo: e se ninguém roubar?

A encenação pressupunha a presença de dois ladrões crucificados ao lado do Cristo. Já a pergunta ingênua presumia a necessidade do roubo para qualificar um ladrão. A truculência da pena sugeria a impropriedade do furto em tais circunstâncias: que louco arriscaria morrer linchado pelo povaréu, achacado pela multidão como castigo para tão leve delito? Por outro lado, que forças poderiam inibir hábitos já firmemente enraizados? Fosse como fosse, dezenas de ladrões eram flagrados e justiçados todos os anos durante as festividades, havendo dificuldade apenas em encontrá-los ainda com vida. Mandamento inolvidável durante os festejos era: não corra! Na falta de um ladrão, o primeiro a correr se incriminava. Quanto às denúncias verbais, eram frequentemente rebatidas por acusação recíproca, não sendo rara a tentativa de fuga do delator, incapaz de sustentar tão vasta quantidade de olhares inquisitivos e acusadores. À fuga, seguiam-se inexoravelmente a captura, a condenação e o martírio do infeliz, sem que qualquer direito à defesa fosse ao menos aventado. Havia duas cruzes ao lado do Cristo, e alguém tinha que ocupá-las.

O potente sistema de som, magistralmente camuflado, iniciava os vibrantes acordes de Jerusalem, prenunciando o ápice da cerimônia. A versão abusiva, e ainda mais alucinada que a original, musicada sobre o poema do pintor e poeta britânico William Blake soava exalando fervor místico. O som do órgão cedia lugar à voz do cantor, que iniciava amena e ponderada:

Teriam esses pés, em tempos antigos, caminhado sobre os verdes morros do Rio de Janeiro?

E ainda que mantivesse certa suavidade na estrofe seguinte, era saudada entusiásticamente pela multidão à beira do delírio:

E teria o Sagrado Cordeiro de Deus sido visto nas aprazíveis pastagens cariocas?

A frase profética! A história registrava que o profeta J.C. de Deus teria sobrevivido a uma incursão punitiva de um caveirão, tanque blindado da polícia carioca, a um morro do Rio de Janeiro. Na mesma operação, doze homens foram mortos; nenhum sobrevivente ferido, como aliás era norma de ação do batalhão especial da polícia. J.C. de Deus teria sido alvo de intensa fuzilaria, juntamente com outros seis homens, todos eles crivados por dezenas de balas, ao som da mesma canção que soava no sistema sonoro naquele momento. Quando o caveirão deixou o local, repetindo a mesma música em seus auto-falantes, J.C. de Deus saiu de baixo da pilha de cádaveres banhado em sangue da cabeça aos pés, mas ileso.

Miraculosamente, nenhuma das centenas de balas disparadas sobre os infelizes deitados no chão o atingira sequer de raspão. Sua irrupção repentina de sob os mortos, assustou os políciais ali remanescentes que, embora acostumados à sangueira mais bizarra e aos massacres mais atrozes, apavoraram-se com a figura ensandecida e ensanguentada a correr e a gritar.

Enquanto os policiais, enlevados pela pientíssima canção, fuzilavam os favelados, e ainda sob a mortualha, J.C. de Deus teria tido a visão do Cristo redivivo, do Cristo ressucitado para salvar o mundo uma vez mais. Era a pedra fundamental da Igreja do Cristo Redivivo.

E o Divino Semblante, teria brilhado sobre nossas colinas ensolaradas?

As sucessivas perguntas formuladas na canção eram respondidas com gritos desvairados do povo, que ecoava também as expressões centrais de cada frase:

“Divino Semblante” replicava a multidão entre gritos descontrolados.

E foi a Terra Santa erguida aqui, em meio a estes negros moinhos satânicos?

“Moinhos satânicos” repetia o povo, enquanto tentava encontrar algum alvo que se encaixasse na descrição. As expressões nos rostos anônimos se alteravam drasticamente, refletindo a piedade do divino semblante, para em seguida mascarar-se com o satanismo dos moinhos aventados. Em seguida, a voz do cantor quase se descontrolava para exigir em brados roucos e fervorosos:

Tragam meu arco de ouro brilhante!

Tragam minhas flechas do desejo!

Tragam minha lança: Oh sombras, revelem-se!

Tragam minha Carruagem de Fogo!

Embalado pelos versos enfáticos, o cantor era pura paixão, enquanto o órgão e o restante da harmonia musical complexa ganhavam volume como se evoluíssem de si mesmas. A sonoridade adquiria corpo e tensão, enquanto as palavras eram pronunciadas alucinada e fervorosamente:

Não cessarei os embates mentais;

Nem minha espada descansará em minha mão

Até que tenhamos erigido a Terra Santa

Nas verdejantes e agradáveis terras cariocas.

O fervor febril com que a última estrofe era cantada revelava uma comoção profunda. Contam que ao término da canção, durante as gravações no estúdio, o cantor teria tido uma síncope, da qual teria emergido profundamente tocado por revelações místicas atingidas durante o delírio.

As vibrações musicais ricas e complexas prosseguiam após o término das palavras enfáticas do cantor, findando repentinamente, deixando no ar um silêncio quase contundente. A luminosidade que inundava tudo ao redor da multidão também se extinguia abruptamente, restando apenas um intenso foco sobre o Cristo na cruz.

Ouviu-se um “oh” pronunciado pela multidão extática, dissolvido rapidamente em um silêncio profundo, pio e tenso. A cena era obvimente o prenúncio de algo grandioso.

– PAI!

Era a voz do Cristo ecoando por toda a área através da aparelhagem de som oculta. O som cheio e rico alcançava os ouvidos de todos. Embora a presença do Cristo não chegasse a ser imponente, como a de outros anteriores, sua voz era convincente: clara, cristalina, mas, sobretudo, sumamente encantadora. Pronunciava as palavras com um sotaque irreconhecível, certamente construído com base em fonemas de diversos ramos linguísticos. O “p”, em especial, era pronunciado com muita energia, explosivamente, criando um efeito pesado e contundente; dava à palavra “pai” uma força inaudita, muito mais ainda aos ouvidos dos que podiam contemplá-lo a erguer a face para os céus, entre os braços abertos pregados à cruz, de onde o sangue jorrava em profusão. A inserção dos cravos nos punhos era feita com perícia para fazer o líquido escorrer abundantemente, enquanto as mãos eram posicionadas em altura superior à dos braços, de modo a derramar o sangue através deles sobre todo o corpo, de maneira espetacular.

A prece do Cristo dirigia-se ao todo poderoso; correspondia a um pedido de perdão pelos imensos pecados cometidos por toda a humanidade, impotentes e reles mortais, ignorantes de suas próprias ações e destino. O pedido comovente do moribundo endereçava-se aos céus, mas era a multidão que o ouvia inebriada e muda.

– PAI!

Uma vez mais, ouviu-se o brado enfático do Sagrado Cordeiro de Deus, do Homem imolado perante a multidão extasiada. Novos pedidos de desculpas à humanidade, implorados em um tom ainda mais contundente. As palavras pareciam ecoar nas nuvens que se fechavam sobre as cabeças da multidão.

Após um suspense proporcionado por nova pausa, pela terceira vez soou o brado:

– PAI!

Então ouviu-se um forte estrondo, como o arrastar de pesadíssimas ferragens, para, imediatamente, entreabrirem-se as nuvens em uma manifestação miraculosa incontestável! Enquanto a multidão se ajoelhava piedosamente, milhares de pessoas dentre elas desmaiavam em meio a gritos alucinados, apavorados, apaixonados!

Indescritível o conjunto de sensações manifestando-se simultaneamente na multidão a mirar os céus extasiada.

O brado do Cristo redivivo ainda reverberava, quando as nuvens se abriram desvelando algo indescritível entre elas. Algo gigantesco, que não podia ser mirado.

Algo intensamente sentido, mas indefinível. A presença permanecia imensa entre as nuvens abertas, quase certamente apoiava-se nelas, e mesmo assim não podia ser fixada, não permitia que olhos a captassem, apenas a sugerissem. O ser imenso estava lá, todos os olhos assim o garantiam, e mesmo assim nenhum deles era capaz de perceber-lhe a forma, nem tampouco a cor, ou qualquer das características que compõem os seres que conhecemos e que usualmente contemplamos com nossos olhos. A figura imensa se manifestava indiscutivelmente sobre as milhões de cabeças reunidas, mas não se permitia mirar com nitidez, evitava o foco da visão da multidão, permanecendo inerte às vistas de todos.

A voz do Cristo ganhou um tom mais cálido, uma vez ciente de que as preces eram ouvidas. Implorou novamente que perdoasse os homens: “eles não sabem o que fazem”.

Difícil interpretar o ribombar de trovões que se seguiu aos apelos, mas tanto eles, quanto os raios advindos simultaneamente eram apavorantes; explodiam pelos céus em cores nunca vistas, riscando mensagens cósmicas indecifráveis por toda a abóbada celeste, até cessarem subitamente deixando um céu estrelado e límpido.

As últimas palavras do Cristo trouxeram os olhares da multidão novamente para si. Os que estavam ajoelhados, quase todos, se ergueram em uma ola imensa e expontânea. As luzes voltaram a se concentrar sobre Ele, quando o pelotão de centuriões o cercou e, às vistas de todos, cravou a lança no peito do Senhor crucificado, arrancando-lhe um último grito lancinante, seguido rapidamente pelo suspiro final.

*

*

*

Instantaneamente, JC lembrou que o resultado da escolha estaria sendo divulgado logo após a morte do Cristo, trazendo-lhe de volta toda a ansiedade que os momentos finais do espetáculo haviam desanuviado. Erguendo a cabeça acima da multidão, tentou encontrar algum atalho que lhe permitisse, de algum modo, contorná-la, mas percebeu que os centuriões, após uma pausa durante os momentos cruciais, voltavam a tanger o povo.

Sempre em grupos de três, e normalmente ladeados por paisanos, os centuriões, garantiam o fluxo contínuo da multidão. Embora armados com pistolas, eram desencorajados a usar as armas de fogo contra a turba, mas não poupavam o uso da espada, com a qual tangiam o povaréu como se fossem bois, golpeando-lhes o lombo com a face da lâmina quando assim julgavam necessário, guardando o fio para eventuais justiçamentos, decorrentes, normalmente, de discórdias relativas ao uso anterior do instrumento. Assim sendo, não convinha a ninguém aproximar-se deles, sendo bastante sensato se afastar o mais possível, após uma aproximação imprudente ou forçada.

Conhecia de cor todas as etapas do espetáculo, e, vasculhando ao longe, notou um acesso ao posto de saúde entre a estação seguinte, onde ocorreria o enforcamento do Judas, e o ponto em que se situava. Desagradava-lhe aquela parte da encenação; o pobre Judas, quase sempre um homossexual amedrontado, era escolhido entre a multidão e coagido a participar da encenação enforcando-se. Nada ganharia com ela, exceto o opróbrio e o direito de evitar cair nas mãos da plebe irada.

Se JC tivesse estado indeciso quanto a seu destino momentâneo, a consideração acima seria suficiente para levá-lo até o atalho antes da última estação. Mas a apreensão quanto ao resultado da escolha do Cristo já era suficiente para guiá-lo até a saída. Caminhou buscando se situar mais à direita do fluxo, se aproveitando de sua altura avantajada para se manter fixo em seu alvo. Chegando à altura do posto médico, deixou o caminho principal e se embrenhou em sua direção, de lá direcionaria seu caminho para a saída, tomando o cuidado de cruzar a multidão apenas com uma margem enorme para chegar ao outro lado. Sabia ser impossível contrariar o fluxo, ou mesmo evitá-lo. Cada quilômetro seria arrastadamente percorrido.

Pouco antes de chegar à saída, quando já se encontrava em adensamento leve o suficiente para permitir determinar a velocidade do passo, ouviu o soar de metralhas.

A quantidade de disparos o levou a concluir se tratar da execução de traficantes, palavra utilizada para descrever a população marginal aniquilada por policiais na região.

Enquanto o coração se apressava, apertou o passo em busca do resultado da escolha do novo Cristo, a ser divulgado na tenda maior, na saída do imenso palco ao ar livre.

Assim que adentrou a tenda foi interpelado por um desconhecido:

– Sr JC?

– Sou eu...

– Poderia me acompanhar, por favor? A abordagem era auspiciosa; nos dois anos anteriores, quando também tinha sido finalista e entrado ali pelo mesmo motivo, tinha tido alguma dificuldade para conseguir obter o resultado, tendo passado certo agastamento por isso. Desta vez o surpreendia o fato de ter sido reconhecido. Antes de ter cruzado todo o espaço da tenda já caminhava como o Cristo. Foi conduzido a uma ante-sala bem decorada onde lhe pediram que aguardasse.

O senhor que o recebeu com uma deferência incomum, comunicou-lhe o que naquele momento já imaginava: tinha sido o escolhido. Como último requisito restava apenas a confirmação. Foi-lhe explicado que sua escolha tinha sido baseada em testes exaustivos, e que não cabia mais nenhuma dúvida quanto à sua aptidão, sendo necessária, no entanto, a sua confirmação.

Apesar dos cabelos brancos e da pele desgastada pelos anos, o senhor olhava para o Cristo com a mesma expressão com que, várias décadas atrás, teria mirado o próprio pai, enquanto perguntava se JC confirmava o seu desejo de se tornar o Cristo, e morrer na cruz como Salvador. Depois de breve pausa meditativa JC respondeu com expressão altiva e voz empostada que confirmava o seu desejo, já tantas vezes expresso, de ser o Cristo e de morrer na cruz pela salvação dos homens, transformando o olhar filial de seu interlocutor em um verdadeiro manancial de devoção. Em seguida, sob o testemunho de seis devotos, jurou morrer na cruz pelos homens, em um ritual já previamente ensaiado por ele. Agora JC era o Cristo.

Recebeu instruções para resguardar sigilo sobre a escolha. Nos dias seguintes adotaria a máxima: “em time que está ganhando não se mexe”, de modo a manter basicamente a mesma rotina que vinha seguindo nas últimas semanas, evitando com isso também a suspeita de que algo em sua vida houvesse mudado. No terceiro dia, o domingo, ressuscitaria como Cristo.

*

*

*

No dia seguinte, sábado de aleluia, o Cristo acordou radiante, antes de clarear o dia já estava desperto. Consultou o relógio e se permitiu levantar. Achou que o tempo passava vagarosamente, embora estivesse a usufruir cada momento. Levantou e colocou água para ferver; durante a espera da fervura fazia uns agachamentos e subidas nas pontas dos pés. Coou o café, e enquanto o tomava, com umas gotas de adoçante, executou uns alongamentos para costas e pernas.

Barbeado e lavado, encaminhou-se à academia de ginástica. Era a sua rotina diária, mas estava especialmente alegre e bem disposto naquela manhã. Sempre sorridente, costumava irradiar alegria mesmo em dias comuns, mas nesse dia venturoso o contentamento parecia se lhe derramar.

Antes de sair para a academia de ginástica lembrou-se de tomar uma gota de vitamina, o que talvez lhe adicionasse algum vigor; seu efeito psicológico, no entanto, certamente seria considerável; iria se sentir especialmente forte naquela manhã.

Ao sair do prédio em que morava, percebeu que ainda estava escuro, cedo demais para entrar na academia, certamente. Decidiu encaminhar-se para a praia, bem perto, e estender a caminhada por lá para gastar o tempo e iniciar algum aquecimento.

Andou só mais um quarteirão pela praia, e ao consultar o relógio de rua, constatou que já era hora. Voltou, e em dois minutos adentrou a academia naquele início de manhã ainda escuro, com o ar de jovialidade contrastando com a sonolência dos presentes.

Como de hábito, pedalou durante cinco minutos para aquecer os músculos, e se encaminhou em seguida para o aparelho no qual iniciava sua série mais pesada de exercícios musculares. Acrescentou mais uma anilha de peso à quantidade que usava normalmente no primeiro exercício, conforme planejara na cama, antes de dormir,.

Apesar desse aumento, exercitou-se com facilidade, levando-o a acreditar que conseguiria majorar o peso em todos os exercícios seguintes nos quais isso ainda fosse possível; em alguns deles já utilizava o limite máximo do aparelho, nesses, tencionava aumentar o número de repetições. O ânimo adicional conseguido após ter sido escolhido Cristo, dava-lhe forças para superar a si mesmo nas atividades musculares que costumava executar diariamente.

Terminadas as três séries longas de quinze repetições cada, dirigiu-se ao aparelho seguinte, e foi com imenso prazer que notou a facilidade com que erguia os pesos; sentia uma vitalidade exuberante que parecia não caber dentro dele!

Aproveitou o embalo para executar cada movimento com precisão extrema, embora tivesse tido certa dificuldade em controlar a ânsia de apressar a movimentação.

Os exercícios transcorreram com rapidez e com um vigor até então inaudito que o espantou e o alegrou ainda mais. Tendo feito ainda uns alongamentos finais, deixou a academia de ginástica, quase aos pulos, sentindo-se com a força de um super-herói imbatível. Deslocou-se rapidamente até sua casa, onde vestiu o calção de banho e saiu imediatamente para a praia. A sensação de vigor extremo que sentia o levou a atropelar seus próprios planos; chegando à areia, retirou a blusa e iniciou imediatamente uma corrida de ida e volta por toda a extensão da praia.

Tendo terminado a corrida de oito quilômetros, percebeu que lhe faltava algo.

Costumava fazer esse mesmo percurso todos os dias, mas normalmente corria só uma parte dele, durante a restante caminhava, aproveitando o momento para pensar em todas as coisas e, especialmente, planejar os eventos do dia. Apesar de certa exiguidade de tempo, considerou necessário estender um pouco a caminhada, acreditava que as idéias lhe vinham mais claras e fáceis durante essas jornadas pela areia. Precisava planejar sua vida, tinha ainda um ano inteiro pela frente, mas considerou que, os dias seguintes teriam uma importância especial: era imperioso se preocupar com o presente, uma vez que sua vida se encontrava radicalmente instável.

Nunca tinha imaginado viver tanto, tinha sempre tido a certeza de que seria escolhido Cristo, e, portanto, imolado, e nem mesmo supunha que tal fato só viesse a acontecer tão tardiamente, na idade que considerava limite, razão pela qual não havia se preparado para um futuro considerado inexistente.

Naquele momento, suas finanças, se encontravam em um grau de precariedade, sendo nítido que precisaria de um apoio financeiro para chegar à paixão em plenas condições. Deveria aproveitar a caminhada para fazer os cálculos de suas necessidades econômicas. Era premente avaliar suas parcas posses, restos de uma herança já antiga, suas necessidades, e encaminhar um pedido à direção da igreja para o financiamento de tais encargos. Não haveria nisso nenhum esbanjamento, mas apenas a constatação das despesas com comida e habitação, principalmente, acrescidas de outras, como livros, roupas, transporte, além da mensalidade da academia de ginástica, assim como vitaminas e complementos alimentares convenientes para um atleta em atividade. Considerou a elaboração de uma lista completa de despesas, incluindo e discriminando telefone, despesas com papéis e computadores, eventuais despesas médicas, e outras igualmente pouco previsíveis, mas a constatação da imprevisibilidade de várias delas o levou a conjeturar que o melhor seria fazer a avaliação de uma renda que provavelmente viesse a ser satisfatória, acrescentasse a ela uns vinte por cento, como margem de erro para não precisar ficar repetindo os pedidos em virtude de eventualidades fortuitas, e redigisse uma solicitação formal a ser encaminhada à direção da igreja o mais rápido possível, preferencialmente ainda naquela tarde, quando no seu primeiro encontro como Cristo com os chefes supremos da organização. Anotou mentalmente a necessidade de, ao chegar em casa, avaliar seus gastos com precisão, lavrar o pedido acrescido das razões que o justificassem, e tê-lo pronto com antecedência, de modo a ainda poder reconsiderá-lo e corrigi-lo até o final da tarde.

Tendo tomado essa decisão, que de fato o aliviava de preocupação gravíssima que já lhe incomodava intensamente havia meses, quando considerava a

eventualidade de não vir a ser o escolhido, passou a tratar mentalmente de questões mais amenas. Lembrou-se de seus passarinhos encantados, quase esquecidos ultimamente, embora prontos para a execução do vídeo já tão claramente planejado e delineado.

Possuía em casa, já havia algum tempo, três gaiolas contendo cinco

passarinhos; um casal deles em cada uma das grandes, e mais um, jovem solteiro, em outra gaiola. Tinha acostumado a soltá-los e pegá-los novamente, encantados que eram, e pretendia aproveitar esse dom para filmá-los de maneiras que poderiam ser descritas como muito íntimas, revelando detalhes do comportamento das pequenas aves, desconhecidos até por ornitólogos. Além disso, tinha a capacidade de “dirigi-los” com precisão, definindo seus locais de pouso, os momentos de vôo, e até induzindo-os a cantar e dançar em frente às câmeras, na tentativa de seduzir a fêmea.

Considerou que a tranquilidade financeira lhe proporcionaria a calma perdida necessária para a execução das filmagens, e que o destino dos passarinhos também deveria ser decidido o mais rápido possível. Pretendia filmá-los voando pelas matas do forte do exército situado no canto da praia, onde posteriormente os deixaria viver em liberdade total, tendo o cuidado de alimentá-los e lhes prover abrigo aceitável enquanto estivessem se readaptando à vida livre.

Durante a caminhada pelas areias encontrou um peixe morto, com as vísceras expostas. Ao olhar para o cadáver repugnante não pode deixar de avaliar-lhe as entranhas, atividade que considerou odiosa. Desde muito tenra idade, tinha se preparado para ser o Cristo, e estudado diversas disciplinas que supostamente o levariam a ser o escolhido, como inúmeras artes divinatórias, entre elas a necromancia, que agora lhe repugnava vivamente. Apesar de tal repulsa, uma espécie de deformação profissional guiava seus olhares, impedindo evitar que lesse as informações expressas nas entranhas expostas do bicho. Imediatamente, viu-se obrigado a voltar o rosto para o lado oposto, numa manifestação de desgosto a certos ensinamentos passados, angariados ainda na infância, em idade na qual não podia julgar sobre os valores morais do que lhe fosse apresentado. Preferiu voltar o olhar para os pássaros marinhos que perscrutavam a costa elegantemente em busca de peixes e analisar-lhes o vôo.

Deixou seu olhar acompanhar um atobá que planava lentamente contra o vento, quase parado no ar, quando seus olhos foram puxados por uma cabeça humana entre as ondas, quase abaixo do pássaro. Continuou caminhando com o olhar fixo na pessoa jogada pelas ondas. Avaliava seus movimentos enquanto se aproximava da altura em que a pessoa se encontrava, suspeitando fortemente que estivesse em dificuldades. Notou que a maré estava enchendo, o que reduzia francamente o perigo de afogamento, embora as ondas estivessem se erguendo até altura considerável.

Adentrou as águas e se aproximou da pessoa, uma moça, que o olhou de modo quase desesperado, permitindo, em seu cansaço, que uma onda explodisse sobre si.

Aproveitando o repuxo das águas que voltavam da areia para o oceano,

mergulhou e nadou com possantes braçadas em direção à moça, alcançando-a na arrebentação, no mesmo instante em que uma grande onda os atingia a ambos.

Segurou o braço da moça com firmeza, e ao som de um “vamos” imperioso, puxou-a vigorosamente em direção à areia, utilizando o braço livre como remo, e os pés para corrida enérgica, assim que puderam tocar o fundo. O resgate foi simples e imediato.

A maré enchendo traria qualquer coisa para a areia, o que reduzia muitíssimo o perigo de afogamento. Mesmo assim, a sucessão de ondas altas fazia com que o banhista temeroso, já embrulhado por seguidas vagas, permanecesse impedido de cruzar de volta a arrebentação. Isso poderia levá-lo à exaustão, fazendo-o beber tão enorme quantidade de água que acabava passando muitíssimo maus pedaços antes de chegar à areia, podendo mesmo sucumbir, coisa não rara naquela praia, como em tantas outras.

Caminhou puxando a moça até carregá-la para onde as águas não chegavam aos joelhos, quando ela pediu que a largasse, sentindo-se segura com os pés no chão, e respirando ar e não água, mas exausta. Estacou ainda sem ter chegado à areia, mostrando sinais óbvios de fadiga, reclinando e erguendo o corpo em movimentos sucessivos, e tentando formular palavras de agradecimento. JC permanecia preocupado com a possibilidade de que uma onda mais forte ainda os pudesse abarcar ali, e manteve os olhos no mar, mas assim que notou os sinais da rápida recuperação tornou os olhos para a moça.

Encontrava-se em completo desalinho, com os cabelos escorrendo sobre o rosto como os de uma bruxa, de um modo tal, que as moças nunca permitem serem vistas por homens. Mais desalinhadas ainda apresentavam-se suas roupas: o pequeno soutien cobria apenas parcialmente um dos seios, enquanto o outro jazia completamente exposto. Eram belíssimos.

JC viu-se enfeitiçado não apenas pelos seios aparentes, mas pelo corpo escultural da moça, e após alguns desses instantes que duraram eternidades, apesar de rapidíssimos, como por mágica, perdeu sua respiração no mesmo instante em que a jovem recuperava a dela, ajeitando cabelos e roupa, revelando um rosto tão belo quanto o corpo. Encantado com a beleza da moça esperou que ela se recuperasse por completo, e acompanhou-a até onde deixara seus pertences, na areia mais alta, bem perto do posto salva-vidas, aparentemente abandonado naquele momento.

Conversaram muito brevemente. Não trocaram mais que nomes. Madeleine

parecia se sentir profundamente envergonhada com o acontecido, dificultando estabelecer o contato buscado com avidez por JC, que se despediu encantadíssimo, e intensamente tocado com a visão da moça.

Voltando às proximidades de casa, deu mais um mergulho, ainda sob o

encantamento da jovem recém conhecida, não conseguia pensar em outra coisa.

Refrescado pela água, voltou para casa.

*

*

*

Chegando em casa, JC foi aprontar seu almoço imediatamente. Preparou uma variação de tabule, adicionando muita soja, aveia e linhaça ao trigo, além de queijo; a musculação garantia-lhe um apetite voraz e uma ânsia intensa por proteína, além do desejo por carboidratos, oriundo principalmente da corrida. Preparada a refeição, tomou um banho frio, e vestido apenas de um short de pijama, serviu-se e foi devorar uma enorme quantidade da comida já preparada, acompanhada por um suco de frutas batidas no liquidificador.

Enquanto almoçava, ligou a televisão e procurou o canal que transmitia a paixão. A Rediviva, o canal da igreja, tinha uma programação eminentemente religiosa, entremeada por uma ampla variedade de programas dos mais diversos gêneros, e por um espectro de propagandas tão diversificadas quanto o de qualquer outra emissora comercial.

O canal transmitia ao vivo, todos os anos, e com exclusividade, a representação da paixão do Cristo redivivo, sendo esse o ponto alto de sua programação, seu programa de maior audiência. Para o ano seguinte, havia negociações com outra emissora, mais antiga e de maior prestígio, para um acordo de seção recíproca dos direitos de transmissão da paixão e do carnaval, os dois maiores acontecimentos cobertos pela televisão brasileira. A Rediviva cederia a exclusividade de seus direitos de transmissão do espetáculo religioso, e em troca, iria poder transmitir, juntamente com a outra emissora, o carnaval. De fato tais negociações já haviam sido tentadas outras vezes, sendo do interesse de ambas as redes. Apesar disso, não conseguiam chegar a acordo sobre questões contratuais significativas. A popularidade crescente da paixão, não só no Brasil, mas em todo o mundo, tendia a apressar a efetuação do contrato de transmissão conjunta.

A paixão não estava sendo encenada naquele instante, mas JC sabia que os melhores momentos da véspera passariam no jornal do almoço de todos os canais com grande destaque. Sua própria atuação, ao ressuscitar, no domingo à noite, apareceria em rede nacional no programa de maior audiência da televisão. Conforme esperado, o canal da igreja apresentava um especial com o compacto do espetáculo da véspera. Devido às múltiplas repetições, aos comentários, câmaras lentas e outros artifícios inseridos na cobertura da representação teatral, o “compacto” tinha uma duração quase duas vezes maior que a do evento original, sem contar as propagandas.

Excetuando o café com adoçante ao acordar, fazia apenas duas refeições diárias, a principal no almoço, e um lanche repleto de frutas variadas à noitinha, de modo que tinha que suprir a enorme necessidade de alimento gerada pelos exercícios pesados, em duas grandes porções. Em decorrência disso, a quantidade de salada ingerida no almoço era espantosa.

Satisfeito o apetite, deitou-se e dormiu por quase uma hora, como fazia todos os dias. Acreditava revigorar-se com o sono e estar pronto até mesmo para uma nova seção de musculação. De fato, no início da noite ainda costumava fazer mais exercícios, aeróbicos, ou de alongamento, dependendo do dia da semana, permitindo-se ainda fazer alguma complementação às séries de musculação que executava pela manhã. Naquela tarde, no entanto, tinha encontro com a direção da igreja, e excepcionalmente, não executaria a ginástica noturna.

Ao acordar, conforme o planejado, começou a redigir suas convicções acerca da igreja, das ações e do significado do Cristo redivivo, e questões éticas e morais relativas ao tema. Explicou a necessidade de um Cristo ressuscitado e imolado anualmente, em virtude da imensa quantidade de pecados perpetrados a todo o momento. Depois de esboçar as principais idéias defendidas no ensaio, recuperou um texto escrito tempos antes, uma abordagem rápida e pessoal sobre a história do Brasil, com ênfase em sua cidade, o Rio de Janeiro. Tendo relido o texto com satisfação e corrigido uns pontos marginais, encaminhou o texto para a publicação pela editora da igreja. Nos dias que se seguiriam, aproveitaria sua celebridade recém adquirida para divulgar inúmeras idéias defendidas havia muitos anos.

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História do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro

Em algum tempo muito antigo, estimado entre cinquenta mil, e quinze mil anos, chegaram ao Brasil os antepassados de nossos índios. Tinha-se como certo que eles teriam saído da Ásia, atravessado o estreito de Bering durante uma glaciação, cruzado a América do Norte e a Central, chegando posteriormente à América do Sul através de longuíssima e demorada jornada. Achados recentes no Piauí sugerem uma ocupação muito mais antiga que a pleiteada na marcha descrita acima, sendo provável também que os antepassados de nossos índios tenham chegado aqui através de sucessivas levas. Fato é que se estabeleceram por toda a América do Sul, povoando todo o nosso país. Da história desses povos pouco se sabe, mas reconhecem-se variadas etnias, correspondentes a variados ramos linguísticos, corroborando a idéia de sucessivas invasões.

No final do século XV, Portugal e Espanha, já supondo a existência de terras por estas bandas, e planejando explorá-las, celebraram o acordo de Tordesilhas, que repartia as terras de cá. Além de certa linha, definida pelo tratado, todas as terras seriam espanholas, antes dela, portuguesas. Não sei o que pensaram ingleses, franceses, holandeses e outros sobre o referido tratado, mas penso que seu significado corresponde a uma aliança: até tal linha eu não me meto, depois dela não se mete você, e ambos nos havemos com todos os outros. Também suspeito que exploradores espanhóis já houvessem rondado a região e garantido a inexistência de quantidades de terra significativas por aqui, deixando para Portugal apenas eventuais ilhotas que viessem a ser descobertas: enganaram-se.

Como é sabido, poucos anos após a grande descoberta de Colombo, Cabral aportou em terras anteriores à linha de Tordesilhas, era o início do massacre.

Havia já algum tempo, europeus vinham se especializando em massacrar, aviltar, espoliar, e, enfim, submeter outros povos a seus propósitos bestiais. Vinham exercitando todas essas atividades internamente havia séculos, embora mergulhados em uma miséria avassaladora. Após uma relativa recuperação econômica, trataram de espraiar sua brutalidade pelas redondezas, invadindo sucessivamente o Oriente Médio, a costa da África e o norte da Ásia. Quando os portugueses fundearam nas costas do que hoje chamamos Bahia, já estavam habituados a cometer as chacinas eufemisticamente intituladas “conquistas”.

Os nativos tiveram imensas dificuldades de se opor aos vilões devido a duas circunstâncias fundamentais, ambas decorrentes do fato de viverem em pequenas comunidades: habitando cidades populosas, os europeus estavam sujeitos, havia séculos, a sucessivas pestes que os devastavam. Estas pestes dizimaram as primeiras populações locais a entrar em contato com os alienígenas. Além disso, eram incapazes de juntar e manter grandes exércitos, não possuindo a logística para isso, o que os obrigou ao combate de guerrilha, no que não tiveram um insucesso absoluto, já que, durante séculos, conseguiram impedir que os estrangeiros se fixassem em terras interiores, deixando-os quase que exclusivamente no litoral. Apesar desse modesto sucesso, acabaram por ser dizimados extensamente.

Mas o propósito dos portugueses não era o massacre pelo massacre, o que desejavam era enriquecer, fosse de que modo fosse, não se importando minimamente com as populações que eventualmente encontrassem: só eles agiam em nome de Deus.

As descobertas de novas terras e de estranhas culturas levavam à Europa uma enorme quantidade de modismos, tornava-se chique temperar as comidas com especiarias vindas das índias, ou fumar, como os índios daqui, e em todas as cortes desejava-se com avidez conhecer e usufruir dos novos hábitos. É provável que a predominância de monarquias favorecesse enormemente as futilidades.

Um dos produtos exóticos em moda era o açúcar, derivado da cana, uma

cultura tropical que não poderia ser cultivada na Europa, onde alcançava altos preços.

Certas dificuldades no transporte de especiarias das índias, especialmente devidas à pirataria britânica, sugeriram a fabricação do produto por aqui.

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O Cristo permaneceu escrevendo sua “História do Brasil” até o final da tarde, quando se admirou com o adiantado da hora. Vestiu suas roupas surradas, e partiu apressadamente para a sede da igreja.

A catedral era mais imponente por dentro que por fora. Entrava-se diretamente em um grande salão, cuja extensão avantajada ficava diminuída pela altura imensa. À

primeira vista, dava quase a impressão de um espaço comum, apenas relativamente grande; era quase sempre a percepção da movimentação de pessoas diminutas ao fundo que acentuava a sensação de estranheza.

Além do teto gigantesco, as portas imensas e o vasto espaço vazio na entrada, sugeriam aos olhos o apequenamento de todas as coisas, de modo que as pessoas circulando ao fundo, em segundo plano, ficavam reduzidas ao tamanho de insetos.

Uma sensação peculiar se apossava dos que ali entravam pela primeira vez, acentuada na tendência de negar humanidade às pessoinhas contempladas ao longe, e mais assemelhadas a bichinhos. Tal efeito decorria principalmente dos imensos arcos dispostos nas paredes. Assemelhando-se a portas, iludiam os olhos, insinuando-lhes dimensões insignificantes aos que se aproximavam, sugestão corroborada ainda pela altura imensa do teto.

Era impossível se perder em espaço tão aberto, mas a amplidão imensa

acarretava um sentimento de desamparo. Nenhuma mobília ornamentava a entrada do átrio, cujo chão era decorado de maneira a sugerir caminhos. JC escolheu o caminho do meio, que parecia levar a lugar nenhum, embora constituísse a trilha principal, e após alguns passos, ergueu os olhos para mirar o imenso cristal no topo da sala, filtrando a luz do sol e dissipando-a por todo o ambiente.

Caminhando sempre em frente, atingiu o centro do salão, marcado por uma enorme espiral por onde umas poucas pessoas caminhavam com ar contrito.

Contornou-a e continuou na direção oposta à de onde vinha. Ainda bem próximo ao centro, estacou e se voltou para a entrada às suas costas, surpreendendo-se com a amplidão do ambiente e com as distorções ópticas experimentadas ali. Retomou o caminho que vinha fazendo, até que as pessoas que se encontravam próximas à parede oposta começaram a ganhar contornos e dimensões inequivocamente humanas. Pode então avaliar as dimensões dos arcos gigantescos, assemelhados a portas, e que pareciam reduzir as pessoas nas proximidades a uma estatura minúscula, menor ainda que a de uma criança, fazendo-as parecer pequeninos bonecos, animados.

Também os quadros, ou afrescos, eram imensos, retratando, usualmente em cores gritantes, algumas das cenas mais alegóricas da bíblia. Uma imensa torre, certamente Babel, chamava a atenção pela semelhança com o exterior da catedral, ao seu lado, Jonas singrava os mares capitaneando uma baleia; batalhas sangrentas se alternavam com cenas do paraíso, enquanto o criador soprava a vida a um boneco de barro em suas mãos. Os terrores do apocalipse se desenrolavam ao lado dos magníficos jardins do Éden, numa barafunda de imagens, histórias, sensações e cores, mas quase sempre expostas numa turbulência altamente energética na qual, embora o colorido berrante desse um tom mais carnavalesco que artístico, acabava por constituir uma decoração surpreendentemente equilibrada, apesar dos excessos, tanto da temática, quanto das tintas, quando observadas nas proximidades. Observado de uma distância adequada, aquele mundo descomunal ganhava até certa sobriedade, e um sentimento inequívoco de aproximação com o sobrenatural.

No altar central ocorria uma cerimônia de casamento bastante concorrida. Os palcos laterais se encontravam praticamente vazios exceto dois deles, onde alguma cerimônia parecia ter acontecido, ou estar prestes a ocorrer. Os palcos se deslocavam lenta e silenciosamente para se apresentarem na melhor posição na hora certa.

Passou rente à platéia central, de onde pode apreciar tanto a cerimônia, quanto os convidados. Prosseguiu caminhando até chegar ao ponto diametralmente oposto ao que havia entrado, onde pegaria o elevador central. Ao chegar nas imediações da imensa parede circular, conseguiu perceber os pequenos pontos luminosos que constituíam as telas artísticas acima. Não poderia tê-lo notado sem o conhecimento prévio do fato. Sabia também, sem o conseguir notar, que as imagens se moviam sutilmente, de uma maneira tão leve que nunca podia ser fixada pelo observador, e que só era notada subliminarmente, criando um efeito mágico, uma sensação de movimento em uma tela de pintura, que de fato acontecia, e dava às figuras um aspecto hiper-realista, mais real, de certo modo, que a própria realidade representada.

À primeira vista, todo o prédio parecia constituir exclusivamente o único salão gigantesco, mas as paredes do imenso ambiente formavam uma enorme espiral por onde se podia subir até o ápice da estrutura, havendo inclusive, no alto, uma abertura para um belíssimo terraço. O corredor espiralado quilométrico que margeava toda a estrutura, até o topo, ligava um vasto conjunto de salas, e era ligado por várias escadas, de modo que, embora fosse possível atingir o cimo do prédio percorrendo as sucessivas voltas do longo corredor, podia-se abreviar o caminho tomando alguma das escadas, havendo também elevadores capazes de facilitar ainda mais o percurso.

Um elevador imenso aguardava passageiros com as portas abertas. Era ainda mais alto que espaçoso, gerando novamente a sensação de apequenamento causada pelas dimensões do átrio. JC parecia uma criança adentrando o elevador de teto imenso que o levou ao terceiro andar. Sabia que os andares se superpunham uns aos outros sem interrupções; percorriam-se todos eles pelo imenso corredor lateral, cuja inclinação imperceptível era suficiente para voltar acima da própria cabeça após um giro completo pelo prédio descomunal, de modo que a numeração dos andares era, de certa forma, arbitrária. Mesmo assim, desceu no andar indicado pelo número da sala cujo endereço procurava, encontrando-a rapidamente. Chegava na hora exata em que havia marcado. Entrou e foi recebido por uma belíssima secretária que prontamente comunicou sua chegada a seu superior.

O chefe de cerimoniais veio recebê-lo imediatamente, apresentando-se a si mesmo, e cumprimentando-o com o ar amistoso que teria um velho conhecido, deixando-o extremamente à vontade. Também o impressionou a ponto de o deixar admirando a capacidade que algumas pessoas têm de transformar, mesmo as situações mais incomuns, em fatos naturais, dissipando toda a carga inibidora que os contatos pessoais tendem a exercer sobre os mais tímidos e introvertidos.

Congratulou o Cristo pela recente escolha, consultou o relógio, e o guiou pelo longo corredor, onde o apresentou a vários líderes da igreja. Em seguida chegaram a um elevador quase camuflado, e de dimensões usuais, contrastantes com quase todas as estruturas em torno. Subiram até um andar bem elevado, saindo em um corredor deserto, cuja curvatura era muito mais acentuada que a do anterior, fazendo relembrar a forma cônica do prédio vista de fora. Mais luxuoso que o anterior, era ladeado por paredes sutilmente luminosas e nenhuma outra luz capaz de ferir os olhos; uma das paredes era ornamentada por belas esculturas e pinturas, a outra ostentava quadros com as figuras mais proeminentes da igreja. Adentraram uma sala onde uma secretária lindíssima comunicou que o concílio os aguardava; levantando-se, abriu a porta para a qual o mestre de cerimônias já se dirigia.

Os sete membros do Santo Concílio Canônico os aguardavam sentados a uma grande mesa elevada à beira da ampla janela. Todos eles se levantaram para cumprimentar o Cristo. A elevação da mesa parecia agigantar aquelas figuras, impressão que não se sustentava após um surpreendente aperto de mão, suficiente para explicitar a reduzida estatura de todos os indivíduos do grupo. Excetuando um deles, de altura média, todos os outros podiam ser considerados baixos, sendo alguns deles, de fato, muito baixinhos, o que contrastava com a altura avantajada do Cristo, bastante acima da média.

Um dos mais baixinhos tomou a dianteira aproximando-se do grandalhão com os braços abertos, indicando a intenção de um abraço, e parecendo à distância uma criancinha a implorar o colo do pai. Ostentava a expressão benevolente de quem recebe um familiar retornando ao seio da família. Apresentou-se como professor Francisco, esperando sorridente pelo reconhecimento que não tardou, tendo chegado com um espanto indisfarçável, decorrente mais da estatura do homem, que da surpresa por encontrá-lo, acrescida ainda de uma carga emocional considerável, revivida após tanto tempo.

Não tinha sido preciso ao professor revelar mais que o nome e o sorriso, para evocar lembranças esquecidas havia muito. Tinha dirigido a escola onde fizera seus primeiros estudos, ministrando-lhe também as primeiras noções de catecismo; entre tantas professoras, tinha sido o seu primeiro professor, e por muito tempo, o único.

Era considerado um diretor sisudo e zangado, a própria identificação da autoridade, razão pela qual assumira no imaginário da criança que era o Cristo então, a estatura de um gigante extremamente imponente.

As lembranças de tempos tão remotos, aliadas às emoções infantis descobertas e expostas tão abruptamente, tiveram certo efeito puerilizador sobre o homenzarrão surpreso, que não se furtou medir-se com o nanico, atitude que obviamente não deixou de ser notada, evocando tanto o espichamento ainda maior do corpo do baixinho, quanto a troca do sorriso afável por uma grave expressão de rosto, que o relembrou ainda mais vivamente o temível diretor de épocas passadas. A nova impressão foi também percebida imediatamente, acarretando risos desanuviadores de quaisquer embaraços por ambas as partes, selados por um abraço afetuoso que revelava antigos sentimentos de afeição, sobrepujados agora pela admiração ao discípulo

Ao término do longo abraço, o mais baixinho do grupo se destacou dos demais, perguntando ao Cristo se reconheceria o professor Vítor. Dessa vez o Cristo escondeu sua surpresa imensa com a estatura do mestre que então se apresentava, evitando medir-se com o homem cuja altura mal sobrepujava a de seu estômago. Tinha sido seu professor ali pela época de sua puberdade, tendo sempre acreditado que sua estatura advinha de sua autoridade, bastante marcada, diga-se de passagem. Naquele momento, se admirava muito mais de sua altura minúscula, que do fato surpreendente de reconhecê-lo entre os dignitários da igreja.

Havia ainda entre os sete, o padre que o acompanhara desde a primeira comunhão. Nunca tinha tido uma relação mais pessoal com o homem, visto como uma espécie de ser celestial. Para a criança que agora se transformara no Cristo, os que usavam batinas ou outros hábitos tinham, com toda a certeza, uma origem divina; haviam de morar, todos eles, entre nuvens, ou em outras paragens celestiais, coabitando com anjos e santos, de modo que o padre Antônio, não tinha tido para ele uma identidade pessoal propriamente dita, sendo apenas uma espécie de emissário divino a fazer a ponte entra céus e terra. Assim sendo, lembrava-se de seu nome, e, surpreendentemente, de sua voz grave, o que nitidamente o envaideceu ao ouvir a confissão, mas lhe disse não se recordar de seu rosto, como era esperado pelo padre, que mais se admirou com as lembranças do Cristo que com a falta delas.

Com um ar de consternação, o padre iniciou conversa bastante pessoal.

– Lembro muito de sua mãe, que Deus a tenha.

A mãe do Cristo havia falecido uns anos antes, ainda nova, vítima de uma das doenças da época.

– Estou percebendo nesse momento, o quanto me surpreende a clareza com que a primeira recordação que tenho de sua mãe ainda me vem à mente, o que anotarei hoje mesmo para fortalecer seu processo de canonização; sabe que isso está em andamento, não? O Cristo assentiu com um gesto da cabeça, permitindo que o padre prosseguisse: – Estas coisas são demoradas, mas acredito que a justiça será feita e que ela será logo santificada, corrigindo uma lacuna deixada desde o seu falecimento.

– Como me vem clara a lembrança de sua mãe desolada com o bebê no colo.

Você estava em maus lençóis, só pele e osso, com uma cor meio esverdeada, a pele sem plasticidade. Quando o vi achei que já tivesse batido as botas e que sua mãe o queria ressuscitar, mero desespero. Ela se lamentou, estava muito triste e abatida, e me contou uma história de doença que eu nem fiz questão de ouvir, tamanha a certeza de que, na eventualidade de ainda estar vivo, você não passaria daquele dia. Não se movia e jazia derramado nos braços da mãe, feiínho e raquítico. Estava desenganado pelos médicos, tinha feito todos os tratamentos sem responder a nenhum, só lhe restava aguardar a morte. Mas para sua mãe, restou ainda uma última tentativa: vir à igreja e fazer uma promessa.

– Eu havia me convertido recentemente ao Cristo Redivido – prosseguiu o padre –, originalmente tive formação católica, e cheguei a exercer o sacerdócio na igreja romana. Éramos uma seita pequena, então, apenas uns poucos seguidores, e todos aqui na cidade. Sempre me espanta perceber o quanto crescemos nesses anos.

– Como último recurso, sua mãe tinha trazido o bebê em busca de um milagre.

Aspergi-lhes um pouco de água, benzi ambos, e em seguida os encaminhei à sala do cristal, esse mesmo que agora energiza a nossa igreja lá do alto, nosso primeiro tesouro. A mulher então orou e meditou sob os raios miraculosos da pedra sagrada.

Quando a encontrei, horas depois, ao me encaminhar para fechar o templo, sua mãe já ostentava um semblante muito mais ameno. Relatou ter percebido uma luz morna, sentido um toque sobre a cabeça, e em seguida um enorme alívio, a retirada de um imenso peso sobre todo o seu ser, invadido imediatamente por uma leveza comovente, sentindo também que novo sopro de vida revivificava seu bebê. Deu-lhe de mamar imersa em otimismo e alegria.

– Ouvi, consternado, a história que sua mãe me contava, acreditando ser um dos tantos sinais ilusórios que nos chegam em momentos de dor, apenas para evitar que percamos nossas últimas forças. Mas então ela me mostrou o bebê, que horas antes me parecera morto. Tinha adquirido uma coloração muito mais viva sob o cristal, e sua pele já não mostrava o aspecto inorgânico que me impressionara anteriormente. Não é necessária a formação médica, nem experiência para se notar coisa tão evidente. Tinha restado apenas uma mísera centelha de vida na criança dormindo no colo da mãe. Enquanto contemplava o bebê revigorado, lembro agora, nitidamente, que por uns instantes ele abriu os olhos e me fitou com esses mesmos olhos impressionantemente azuis que agora revejo.

– Sua mãe só voltou uma semana depois, e não a reconheci imediatamente, estava radiante. Comunicou que sua recuperação tinha sido impressionante, demonstrando sinais de cura já na manhã seguinte, estando plenamente recuperado uma semana depois, tendo ganhado peso e toda a energia perdida. Disse saber que tal graça tinha sido alcançada por milagre, e que teria que retribuir tão imensa benção da maneira que combinara em suas preces. Também disse que gostaria de se converter à igreja, pedindo instruções para isso. Desde então, e até o fim de seus dias, permaneceu devota fiel da igreja, cumpridora de todos os seus deveres e obrigações, sendo esta a razão por que você foi criado no seio da igreja.

– De minha parte vejo mais um milagre se incorporando nesta história, ao rememorar tão nitidamente todos esses fatos. Posso atestar agora, asseverou em tom enfático, que o que acabo de relatar são visões, tão vívidas quanto as do futuro, reveladas pelos profetas As visões que acabam de me iluminar, embora relativas ao passado, a mim parecem ter caráter tão excelso quanto profecias, podendo com elas atestar a modificação miraculosa ocorrida na criança em tão breve tempo.

O padre estava visivelmente emocionado, e parecia mesmo descrever visões; fechava os olhos e parecia perscrutar uma tela de cinema em sua mente. Em seguida, relembrou uma parte da história da igreja, de seus primórdios, quando tudo era difícil em meio a uma pobreza abrangente e aparentemente insuperável.

– Naquela época, todos os nossos fiéis, que eram muito poucos, eram também paupérrimos. Sustentavam-nos com as contribuições precárias que espremiam das migalhas que recebiam. Sua mãe foi a primeira pessoa de posses a compartilhar os bancos de nossa igreja. Foi também, por muito tempo, quem a manteve, não apenas com as contribuições mensais a que qualquer fiel consciente se compromete, mas comparecendo nos momentos mais delicados em que as vicissitudes nos impõem os maiores desafios. Era nesses momentos que sua mãe revelava sua imensa generosidade, tendo sido, mais de uma vez, uma das principais responsáveis por evitar a ruína da igreja, antes de sua consolidação.

O colóquio se estendeu demasiadamente, obrigando os outros membros a se apresentarem rapidamente, para em seguida retornarem, todos, à grande mesa redonda que ocupavam antes da chegada do Cristo. Conversaram sobre a última crucificação, elogiaram a presença do novo Cristo, e lhe ofereceram um ordenado, –

foi essa a expressão que usaram –, muito superior ao que havia planejado pedir, fazendo-o considerar a hipótese de sugerir uma redução da quantia, eximindo-se do excesso de que não precisaria. Depois de titubear, mais em virtude de certa timidez, acabou considerando que a redundância não seria prejudicial, podendo talvez até vir a ser necessária, após o aumento de suas necessidades em decorrência da ampliação de suas possibilidades, o que por sua vez o desgostou. Mesmo assim calou-se e aceitou a generosa quantia que lhe fora oferecida.

Posteriormente a discussões sobre as temáticas momentaneamente mais

polêmicas na igreja, necessárias para traçar o perfil do Cristo, e de outras tantas recordações trazidas à baila pelos já conhecidos, a reunião se encerrou, tendo acarretado sentimentos amistosos, e as melhores impressões em todos os presentes.

O concílio concluía haver encontrado um Cristo mais adequado que o que haviam sonhado. Também o Cristo se despediu satisfeitíssimo e retornou a sua casa entre inúmeros planos e sonhos.

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História do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro – Comentários do Cristo Escravidão

Um outro modismo vigente na época, este verdadeiramente execrável, consistia na escravidão de seres humanos. A coisa funcionava basicamente assim: um bando de facínoras adentrava as regiões habitadas por homens negros, com o intuito de sequestrar alguns deles. Encontrando-os, capturavam os que lhes aprouvessem, não se importando em dizimar qualquer um que tentasse se opor a tão brutal atividade. Não tenho ideia dos preços atingidos por tal mercadoria, mas apostaria que as crianças, muito mais maleáveis e dóceis que os adultos, atingissem preço consideravelmente mais alto. Também não tenho dúvidas de que as mulheres belas também tivessem seu preço fartamente aumentado.

Depois de sequestradas, essas pessoas eram agrilhoadas e aglutinadas em currais humanos, à espera de um navio que os trouxesse para o novo mundo – a maioria vinha para cá –, em seguida eram jogadas em porões imundos, onde permaneciam durante a penosa viagem da África até aqui. Podemos imaginar uma enorme quantidade de pessoas moralmente abatidas pela condição de sequestradas, machucadas pelos grilhões, e pela luta durante a captura, tratadas como um bando de animais, comendo restos de comida, sem condições de higiene, jogadas em um ambiente escuro, fétido e ameaçador, sem nenhuma noção de seu destino.

Em tais condições, um número considerável de pessoas morria logo no início da viagem nauseante, e quando seus corpos fétidos eram retirados do ambiente, liberavam espaço para os remanescentes, de modo que alguns deles acabavam chegando ao destino. Mas em que condições. Em meio às fezes e vômitos de mortos e vivos. Desanimados, doentes.

Ao chegar ao novo mundo, tendo sido tratados como animais por toda a

mórbida viagem, eram então expostos aos compradores, a população brasileira.

Dessa maneira, os animais vilipendiavam suas vítimas, fazendo-os passar por bestas a serem vendidas como qualquer outro gado.

Miscigenação

Talvez tais descrições apavorassem a população européia, talvez houvesse outras ainda piores, fato é que apenas homens se dispunham a sair da Europa para desbravar o novo mundo, raríssimas mulheres se prestavam a tal. Desse modo, uma massa de homens europeus, vivia em meio a índios e africanos. O resultado não poderia ter sido outro que não a miscigenação entre os povos; essa é a origem da população brasileira.

Capital

Salvador, cidade próxima de onde haviam desembarcado os descobridores da terra, era a capital da colônia, o que significava que parasitava as capitais das províncias, por sua vez parasitas dos municípios, que parasitavam os cidadãos, que parasitavam os escravos. Salvador, por seu turno, era parasitada por Portugal.

Tal sistema de parasitismo vigia na Eurásia havia tempos, e também em partes da África, e era altamente contagioso. Posto em contato com uma população livre, rapidamente se alastrava por ela, o que sucedeu também por aqui.

Como já foi expresso anteriormente, os índios não possuíam sistema de parasitismo análogo, e em consequência, não conseguiam se aglutinar em grandes grupos, de modo que suas pequenas aglomerações, meras famílias, eram incapazes de fazer frente às forças da espoliação européia.

Salvador, a capital designada pela metrópole, encarregava-se assim de coordenar e sorver toda a arrecadação financeira, fruto desses variados tipos de parasitismo.

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No domingo, o Cristo acordou novamente cedíssimo, extremamente bem

disposto para cumprir sua rotina de exercícios e outras, conforme vinha planejando.

Chegou bem cedo à academia de ginástica, assim que ela abria as portas, e executou com vigor e rapidez sua longa série de exercícios, acrescidas de peso, como na véspera, completando assim um aumento de carga em todo o seu treinamento de força, exceto naqueles em que já se encontrava no máximo. Alternava, em dias subsequentes, duas séries distintas com nove exercícios cada, cobrindo todos os grupos musculares. Sentia-se exuberantemente forte, e se exercitava com firmeza e disposição. Ao final, tendo feito o breve alongamento usual, terminou sua prática física alguns minutos antes do planejado, o que o satisfez. Mesmo assim, se encaminhou com rapidez para casa, com o intuito de trocar de roupa e chegar o mais cedo possível na praia.

Assim foi feito, e chegando à areia iniciou sua caminhada diária. Logo no início uma bolacha d’água foi jogada a seus pés pelas ondas; lembrou ter havido uma época, em sua infância, em que elas eram extremamente comuns, mas raríssimas agora. Mesmo assim, não chegou a parar para olhá-la, prosseguiu refletindo sobre as modificações ocorridas no mundo. Em nenhuma época tinha sido tão clara a impermanência de todas as coisas; em outros tempos teria sido difícil se convencer de tal fenômeno.

Chegou rapidamente ao ponto da praia onde planejava iniciar a corrida. Dali, foi até o final da praia e voltou correndo ao mesmo local, chegando bastante esbaforido devido ao forte embalo final

Continuou a caminhada de volta em ritmo lento. A corrida tinha o efeito de levantar ainda mais o seu astral, acarretando uma sensação de exuberância, um entusiasmo ainda maior que o anterior, que surpreendia por caber em um único corpo, enquanto a caminhada proporcionava as condições ideais para planejar sua nova vida, seus últimos dias.

Considerou estar com uma rotina básica mais que satisfatória, bastante desejável, e que deveria sofrer apenas pequenos ajustes, estimulados pela melhoria de suas condições financeiras conseguidas nas vésperas. Sua alegria desmedida consentia certo acréscimo nos treinos, sabia que tal estado mental permitiria a consecução de uma intensidade de exercícios que seus músculos não aguentariam em circunstâncias usuais. Notava que o excesso de peso utilizado durante os exercícios na véspera, não tinha acarretado nenhuma dor muscular, nenhum incômodo físico e que, ao contrário, sentia como se todo o seu corpo tivesse sido lubrificado.

Planejou manter as marcas conseguidas nos dois últimos dias na academia, e aumentar a intensidade dos exercícios aeróbicos.

Tinha conseguido chegar ao dia da ressuscitação extremamente magro,

conforme planejara, no limite mínimo de gordura aceitável, propiciando uma verossimilhança à condição: parece bastante plausível que, após a morte, deva-se retornar magro, demonstrando certo abatimento. O plano consistia ainda em, após ressuscitar como Cristo, esculpir o corpo com o uso dos exercícios e de anabolizantes. Sabia que tais substâncias, além de propiciar diretamente um acréscimo de massa muscular, permitiriam o aumento na intensidade dos exercícios, acrescentando assim ainda mais músculos ao seu corpo.

Esperava que essa combinação modelasse seu talhe quase à perfeição, tomando apenas o cuidado de manter-se extremamente magro e seco, evitando o encorpamento excessivo que acarreta também a ocultação do desenho da musculatura. Pretendia chegar à apresentação derradeira, em um ano, no máximo de exuberância que seu corpo permitisse. Também considerou que, tendo planejado tomar anabolizantes, conviria imensamente fazer uma avaliação médica prévia, além dos exames necessários para evitar os riscos inerentes à medicação.

Tendo concluído o planejamento relativo ao uso das substâncias anabolizantes, e sonhado com os resultados obtidos, deu mentalmente por encerrado o assunto, tratando imediatamente de buscar algum outro. Seus olhos percorriam a praia alegremente, fitava as ondas e a luminosidade intensa da manhã. Veio-lhe à mente a lembrança da Mama.

Carol era sua grande amiga. Tendo sido eleita Mama recentemente, ou “Papa mulher” da igreja católica, JC tinha perdido as esperanças reais de encontrá-la pessoalmente. Morando no Vaticano, não havia nem como sonhar em um encontro.

Agora, todavia, com o ordenado prometido pela igreja, poderia ir até lá, mais uma alegria a se somar a outras tantas. Os dias que lhe restavam, fruídos com enorme consciência, prometiam inúmeros momentos de felicidade. Sabia não dever revelar a ninguém sua condição de Cristo até a ressuscitação, e só por essa razão não corria para lhe telefonar contando, mas assim que obtivesse as condições financeiras iria encontrá-la.

JC continuava sua longa caminhada por toda a praia, retornando à altura de sua rua. Como de costume, mergulhou e nadou alguns metros, nesse dia com mais vigor que usualmente, mas saiu logo da água, apreensivo que estava com o espetáculo que a esta altura já se desenrolava. Dirigiu-se para casa, e foi direto para o banho.

Em seguida, preparou um almoço rápido, embora ainda fosse muito cedo.

Comeu apenas uma salada acompanhada de um suco de frutas, pretendia se apresentar bem magro. Depois dormiu somente uns minutos, e despertou com alegria e ansiedade. Vestiu-se, e foi direto para o local do espetáculo, apesar de ainda ser cedo.

Foi recebido pelo assessor do diretor de cena, que o conhecia bem e confiava em sua atuação. Ambos sabiam estar bem preparado para o espetáculo, conhecendo de cor todas as passagens, já ensaiadas durante tantos anos, mesmo assim se dirigiram ao palco onde as marcações estavam preparadas e repassaram as cenas uma vez mais.

Depois se encaminhou ao maquiador. Precisava ser uma continuação do Cristo anterior, tendo estudado e repetido seus gestos e trejeitos à exaustão. Usaria os mesmos apliques no cabelo, a mesma maquiagem, o mesmo tom de voz; imitaria seu porte e maneiras, convenceria a multidão de ser o Cristo redivivo.

A transformação demorou muito mais que o esperado, mas atingiu um

resultado inacreditável. Durante a preparação, ator e maquiador assistiam à representação derradeira do Cristo, reviam as cenas sob múltiplos ângulos, ouviam suas palavras. Ao término, interpretou seu papel com precisão: JC era o Cristo redivivo! Maquiadores, cabeleireiros e demais profissionais ao redor, embora acostumados com representações magistrais, admiraram-se com a semelhança completa, de rosto voz e gestos, e mesmo cônscios da farsa ali ensaiada, surpreenderam-se com tão enorme similaridade. Uma breve representação improvisada pelo Cristo resultou em aplausos entusiásticos.

Antes da apresentação fizeram ainda um último ensaio com os outros atores, depois restou apenas a tensão da espera.

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Chegava a hora: Maria, Madalena e Salomé dirigiram-se à sepultura do Cristo carregando perfumes.

Madalena: Quem vai tirar a pedra?

Em resposta houve um tremor intenso no palco. O efeito de terremoto era dos mais delicados, constituído basicamente por duas ações: primeiro deixavam-se cair dois monolitos imensos do alto do morro. Havia grande risco nessa operação, pois embora o alvo para a queda dos rochedos estivesse previamente isolado e preparado para amortecer a queda, impedindo que alguma delas rolasse ou espargisse pedregulhos, ou mesmo muita poeira ao redor, havia sempre a possibilidade de as rochas se partirem devido ao choque, alvejando a multidão com estilhaços letais. A onda de choque causada pela avalanche podia ser sentida pelos pés dos circunstantes, provocando a sensação de terremoto, o que podia até mesmo disseminar o pânico pela multidão; era necessária uma instrução prévia para que o pessoal de apoio contivesse a aglomeração, evitando uma correria desenfreada.

A outra ação consistia em um chacoalhamento do palco onde as três mulheres se situavam, ocorrida logo em seguida ao estrondo causado pelo lançamento das rochas, o que chamava a atenção da platéia para o movimento, contribuindo para acentuar a sensação de desequilíbrio, tendendo a acentuar o princípio de pânico induzido pelo estrondo.

As mulheres se equilibraram segurando as jarras de perfumes. A iluminação do palco se estendeu até a porta da gruta:

Madalena: Oh, a pedra foi retirada!

As mulheres se aproximaram da entrada da gruta onde jaziam uns panos de linho, seu interior se iluminou revelando um jovem vestido de branco ali sentado. As mulheres se assustaram, mas a voz dulcíssima e tranquilizadora do rapaz ecoou pelos auto-falantes entremeados pela multidão:

Jovem: não fiquem assustadas, estão procurando Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ele ressuscitou, não está aqui! Vão contar aos outros.

As mulheres correram assustadas, mas alegres para dar a notícia aos discípulos.

Um dos corredores demarcados pelas cordas se encontrava parcialmente invadido, dificultando o percurso das moças. Auxiliadas pela segurança do evento, elas alcançaram o palco onde os onze seguidores estavam reunidos, e deram a notícia a eles, que não acreditaram no que ouviram, permanecendo entristecidos.

As cenas se desenvolveram, com uma conversa lúgubre entre eles. A

iluminação intensa ressaltava os atores no palco elevado, contrastando fortemente o cenário com a multidão circunstante, atribuindo-lhes uma aura mística, reforçada pelo gestual teatral dos apóstolos e pelo som encorpado das palavras que reverberavam para o público. Luzes e sons estavam perfeitos, ambos artificialmente intensos, drasticamente teatrais, adicionando uma vigorosa dramaticidade à representação, um hiper-realismo ao mesmo tempo radiante e sobrenatural.

Repentinamente o Cristo surgiu à frente dos discípulos. A multidão manifesta um “oh” sonoro e prolongado:

Cristo: Alegrem-se! (Os apóstolos ajoelham-se). A paz esteja com vocês.

Ficaram espantados, amedrontados. Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? Vejam minhas mãos e pés, sou eu mesmo.

Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, e como podem ver eu os tenho (enquanto mostrava-se aos discípulos atônitos). Vocês têm alguma coisa para comer? (Ofereceram-lhe peixe e ele comeu).

A voz do Cristo retumbava plena e cheia por entre a multidão. Os efeitos de encorpamento da voz, obtidos através de múltiplas reverberações sintetizadas pela aparelhagem sonora, já acrescidos parcialmente às vozes de Madeleine e dos discípulos, eram agora superpostos às palavras do Cristo em toda a sua intensidade.

Também a iluminação sobre ele atribuía-lhe uma aura sobrenatural

Cristo: É preciso que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na lei de Moisés, dos profetas, e nos salmos. Assim está escrito: o Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia, e no seu nome serão anunciados o perdão e a conversão, e o perdão dos pecados a todas as nações, e vocês são testemunhas disso.

Vão pelo mundo e anunciem a boa notícia para toda a humanidade.

Cristo: Toda a autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra. Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ensinei. Eis que estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo. Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês. (Soprando sobre eles), recebam o Espírito Santo.

Cristo: (braços abertos, olhando para o alto em atitude devota) Pai! (A pronúncia sonora, com o “p” explosivo característico do Cristo Redivivo ecoou pelo espaço ao redor, era a senha para o início da subida)

Cristo: Subo para junto do meu pai que é pai de vocês, do meu Deus que é o Deus de vocês.

Depois de falar com os discípulos, o Cristo elevou-se ao céu com expressão e pose etéreas, e os cabelos e roupas ondulando ao vento. A subida era o ponto alto da representação, roubando uma sonora interjeição da multidão boquiaberta que se ajoelhava pasma diante da cena. A sonorização do espetáculo era então complementada pelos rumores e farfalhos da platéia que se ajoelhava extasiada a contemplar o Cristo subindo ao céu, erguido por uma corda quase invisível, iluminado por uma luz que abandonava o palco e que o focava exclusivamente, reduzindo-se conforme a altura, intensificando a impressão de distância causada pela subida, até desaparecer na escuridão das alturas. A multidão imensa era testemunha: o Cristo tinha subido ao céu!

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A rede de televisão da igreja era responsável pela transmissão direta do evento para todo o país, e para alguns outros, era também responsável pela execução e distribuição do vídeo “Cristo Redivivo” editado todos os anos e vendido no mundo inteiro, cujas vendas já ameaçavam superar as do registro do carnaval. Um entrevistador da rede já o aguardava na chegada ao prédio dos camarins, descendo pelo terraço onde dava a primeira entrevista como Cristo, ao vivo, em rede nacional, e sob a ventania estrepitosa de um helicóptero. Com o semblante radiante e a fisionomia de um vencedor, tentava em vão recompor a figura do Cristo construída no palco, sob o sopro das hélices e a luz chapada das câmeras. Respondeu às poucas perguntas vazias feitas pelo apresentador de TV, que teve o bom senso de não molestá-lo demoradamente, permitindo-lhe tempo para se recompor antes da entrevista coletiva marcada para meia hora mais tarde.

O Cristo foi levado aos camarins onde reencontrou os outros atores, e retirou a maquiagem feita com o propósito principal de assemelhá-lo ao crucificado. Agora era de fato o Cristo, não meramente eleito, mas já consagrado. Toda a imprensa o esperava. Era o centro absoluto das atenções, todos os outros, meros coadjuvantes.

Durante a apresentação, tinha se preocupado imensamente com a continuidade, em se assemelhar ao Cristo crucificado às vésperas, o que lhe parecia agora não importar à maioria, mesmo assim, era esse o principal enfoque dos elogios dos outros atores, embora não fosse o dos meios de comunicação. Estes enalteciam a comovente subida ao céu, o apogeu da representação, além de sua voz, dulcíssima, mas profunda e marcante. Também elogiavam o porte do Cristo, que teria retornado mais magro de entre os mortos e, no entanto, mais forte e imponente que antes. Insistiam que o Cristo teria roubado inúmeros suspiros das jovens, tornando-se desde já o Cristo mais atraente. Mais tarde, cauteloso e sábio que era, tentou encontrar as críticas à sua pessoa; temia herdar as de seu antecessor, devido à necessidade de representá-lo, mas tinha cuidado de abrandar as facetas usualmente criticadas do outro. Notou com satisfação que as críticas recentes que encontrou eram dirigidas fundamentalmente ao espetáculo como um todo, ou à própria igreja, poucas delas tinham como alvo sua pessoa, ou mesmo a representação, e essas tinham como foco sua sensualidade, o que o surpreendeu. Suspeitou e temeu ser lembrado como o Cristo sensual, embora o rótulo em certa medida também o envaidecesse.

A entrevista coletiva foi um grande sucesso. Ao contrário de seus antecessores, quase todos figuras decorativas extremamente ignorantes, o novo Cristo era intelectualmente muitíssimo preparado, respondendo as perguntas com correção e sabedoria, demonstrando não só cultura, mas ponderação, e até um senso de humor sumamente perspicaz, notado apenas por uma pequena minoria. Ao ser inquirido pelos periódicos e televisões estrangeiras, tratou de responder na própria língua do entrevistador, demonstrando um domínio muito natural sobre as principais línguas europeias, fato que as televisões locais enfatizaram repetindo até as náuseas suas respostas em italiano, francês e inglês, incompreensíveis para a imensa maioria dos assistentes locais, e supostamente atestadoras de sua enorme cultura, como se o domínio de línguas estrangeiras constituísse a mais profunda manifestação de conhecimentos que um homem pudesse exibir.

Embora arriscasse ser considerado pedante ao se pronunciar em línguas estrangeiras, o Cristo caiu nas graças das emissoras de televisão, e, consequentemente, do público. Também teria preferido, sinceramente, ser lembrado como o Cristo sábio, ou até mesmo o pedante, mas após a coletiva as televisões já o definiam como o Cristo sensual.

Naquela noite, dormiu profundamente, imerso em grande satisfação. Acordou ainda de madrugada, mas já revigorado, enérgico. Tinha a sensação de estar se fortalecendo a cada dia. Chegou bem cedo na academia, no mesmo instante em que ela abria suas portas. Foi cumprimentado efusivamente pelos funcionários, instrutores, e pelos poucos usuários da academia que àquela hora já se encontravam no local. Durante as pausas entre os exercícios, outros colegas de ginástica o abordaram com entusiasmo, tendo tirado fotos com quase todos os presentes. Apesar das interrupções, exercitou-se com afinco, com uma determinação maior que a costumeira, embora a mesma dos últimos dias, desde sua eleição. Terminou rapidamente sua série de exercícios, seguida pelo breve alongamento, e voltou em casa para trocar de roupa. Durante a curta jornada até em casa foi cumprimentado diversas vezes pela vizinhança, as mesmas pessoas com quem cruzava em branco todos os dias.

Vestiu o calção de banho rapidamente e se encaminhou para a praia, com um entusiasmo maior que o usual. Pretendia correr mais que o habitual; percorria diariamente toda a praia de quatro quilômetros de extensão, mas normalmente corria apenas durante um quarto da distância, caminhando o restante; algumas vezes corria a metade dela, e só raramente corria por todos os oito quilômetros de ida e vinda, do início ao fim da praia, naquele dia, extremamente disposto como estava, planejou a corrida mais longa, por toda a extensão da praia.

Embora ainda fosse cedo, os circunstantes já o paravam para cumprimentos durante o breve caminho até a areia, continuando a fazê-lo na beira d’água, sua pista de corrida e caminhada. Não estava acostumado àquele assédio, mais incômodo que lisonjeiro, e se já planejava a longa corrida, iniciou-a logo, já nos primeiros metros.

Foi saudado inúmeras vezes pelos passantes, não apenas pelos que assim o faziam todas as manhãs, mas por muitos outros, tanto os nunca vistos, quanto pelos caminhantes assíduos vistos todos os dias, embora sem trocas nem de olhares.

Vários dos frequentadores se interpunham à sua frente, obstaculizando a corrida, o que o chateava e o levava a contornar o interpelante, percebendo que a corrida ajudava duplamente nessa ação: por facilitar a movimentação, e por justificar a evasão. Estava surpreso com a intensidade do assédio. Já esperava algum, mas imaginava que ele só se manifestaria mais tarde, quando houvesse mais gente na praia. Percebeu que tamanha perseguição lhe seria imensamente incômoda, e após correr por toda a praia, decidiu caminhar por ela um pouco mais, na esperança de dissipar desde já a novidade, e se tornar uma celebridade corriqueira. Havia na vizinhança várias pessoas famosas que agiam desse modo, dissipando assim a ânsia, ou fosse lá o que movesse as pessoas a interpelá-lo tão peremptoriamente.

O sol iluminava a praia intensamente, chamando os cariocas para a praia, e embora relativamente pouca gente caminhasse pela areia, naquela manhã de segunda-feira após feriado prolongado, a aglomeração que se formou ao seu redor depois de uma parada concedida devido ao apelo de passantes, foi excessivamente sufocante.

Tendo parado para conversar com interpelantes, outros foram se somando aos primeiros, sobrepondo apelos e conversas uns sobre os outros, gerando um diálogo multifacetado incompreensível, recortado por palavras gritadas apressadamente e eventuais empurrões. Embora a altura o favorecesse, permitindo um certo distanciamento por manter a cabeça erguida sobre a pequena multidão ao redor, reduzindo a sensação de sufocação, a falta de mobilidade e até o contato físico eventual que já se impunha inescapável, garantiam um sentimento de profundo desagrado, e uma ânsia por se livrar do bando barulhento.

O problema seguinte consistiu em descobrir como contornar tudo aquilo, e se livrar da pequena multidão que o assediava. Não sabia, e provavelmente nem conviesse, ser grosso o suficiente para dar um grito, espantando os circunstantes e abrindo espaço para a fuga. De fato, viria a aprender depois: o necessário em tais momentos era um comando imperativo, firme, mas não brutal, não humilhante, apenas claro e decidido. O resultado do desconhecimento foi uma espécie de fuga, de derrota, entre reiterados pedidos de licença e desculpas. Vendo-se livre, tratou de apertar o passo na direção de casa, evitando na medida do possível a aproximação com outras pessoas. Decidiu comprar óculos escuros e outros acessórios capazes de compor um disfarce.

A popularidade excessiva não só o desagradava, mas o inquietava francamente.

Estava aturdido com o acontecido, preocupado com a possibilidade de que aquilo se repetisse constantemente. Durante o banho, recuperou a tranquilidade suficiente para começar a escrever suas reflexões religiosas. Pretendia esclarecer o papel do Cristo redivivo, e o de sua igreja. Começou com uma espécie de tratado histórico sobre o tema, que talvez viesse, posteriormente, complementar suas considerações históricas mais gerais.

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História do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro, parte III – Invasão Francesa Ocorre que tal sistema de parasitismo (instituído pelos europeus) é altamente competitivo, de modo que, com muita frequência, dois ou mais parasitas se engalfinhavam no intuito de abocanhar partes do repasto um do outro. Num desses momentos, a França se encontrava especialmente fortalecida, e se achou no direito, portanto, de tomar Portugal, com intuitos parasitários. Sem meios efetivos para se contrapor aos exércitos franceses, o rei de Portugal, juntamente com o enxame de parasitas que sempre lhe acompanhavam, fugiu para o Brasil.

Até então, a colônia era mantida em isolamento quase completo com o restante do mundo, sendo-lhe permitido apenas o contato com Portugal. Além disso, era conservada também em profunda ignorância, havendo nessas terras raríssimas escolas de alfabetização, e nenhum centro de formação superior.

Nesse contexto de ignorância, alienação e selvageria, patrocinado pela realeza, chega ao Brasil a corte de Portugal, obviamente com destino a sua região mais rica e desenvolvida: a capital, Salvador.

Chegando lá, os europeus se depararam com a população mestiça, fruto da descendência dos homens vindos de sua terra, com mulheres índias, e outras trazidas de África.