O Executor Elétrico por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“O Executor Elétrico” – H. P. Lovecraft e Adolphe de Castro

Tradução: Renato Suttana

Quem é Renato Suttana?

Renato Suttana é doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), em Guarapuava-PR. É autor de Uma poética do deslimite: o poema como imagem na obra de Manoel de Barros (dissertação de mestrado, PUC-MG, 1995), de João Cabral de Melo Neto: o poeta e a voz da modernidade (tese de doutorado, UNESP-Assis, 2003) e do livro de poesias Visita do fantasma na noite (2002). Suttana também mantem seu site na web: http://www.arquivors.com. Contatos com o tradutor podem ser feitos pelo e-mail: rsuttana@arquivors.com

ara alguém que nunca encarou o perigo de uma execução legal, tenho um muito peculiar horror quando o assunto é a cadeira elétrica.

P

Com efeito, creio que o tópico me faz

estremecer mais do que a certos homens que já foram a julgamento com o risco de suas vidas. A razão está em que associo a coisa a um incidente de quarenta anos atrás – um incidente bastante estranho que me levou à borda do abismo negro e desconhecido.

Em 1889 eu era auditor e investigador ligado à Companhia Mineradora Tlaxcala de São Francisco, que comandava diversas pequenas extrações de cobre e de prata nas Montanhas San Mateo, no México. Ocorrera algum problema na mina número 3, onde atuava um taciturno e furtivo superintendente auxiliar chamado Arthur Feldon; e em 6 de agosto a Companhia recebeu um telegrama informando que Feldon tinha arribado, levando consigo todas as anotações de estoque, notas fiscais e outros papéis e deixando a situação funcional e financeira numa verdadeira polvorosa.

Esse acontecimento foi um golpe severo para a Companhia, e ao entardecer o presidente McComb me chamou ao seu escritório para me dar ordens de que recuperasse os papéis a qualquer preço. Haviam ocorrido, ele sabia, graves prejuízos. Eu nunca tinha visto Feldon e dispunha apenas de algumas fotografias inexpressivas para minha orientação. Além disso, meu próprio casamento estava marcado para quinta-feira da semana seguinte – apenas nove dias à frente –, de modo que eu não me achava nem um pouco ansioso para ser enviado ao México numa caçada humana cuja duração seria imprevista. A necessidade, no entanto, era tamanha que McComb teve motivo para me pedir que partisse imediatamente. De minha parte, concluí que isso talvez valesse a pena, pois poderia fazer que meu status na companhia subisse alguns pontos.

Minha partida fora marcada para aquela noite; eu iria no carro do presidente até a Cidade do México, após o que tomaria uma pequena estrada de ferro em direção às minas. Jackson, o superintendente da número 3, me daria todos os detalhes e todas as indicações possíveis assim que eu chegasse; e então a busca começaria de imediato – através das montanhas, descendo pela costa, ou pelos arredores da Cidade do México, conforme fosse o caso. Estabeleci, com firme determinação, que concluiria o assunto – e com sucesso – o mais rápido possível e temperei meu descontentamento com antevisões de um retorno breve com os papéis e o culpado e também de um casamento que seria quase uma cerimônia triunfal.

Tendo informado minha família, minha noiva e meus principais amigos, e feitos os preparativos apressados para a viagem, encontrei o presidente McComb às oito da noite no depósito da Southern Pacific, recebi dele algumas instruções escritas e um talão de cheques e parti em seu carro a fim de tomar o trem transcontinental das oito e quinze com destino à fronteira. A jornada seguinte perecia fadada à monotonia; depois de uma boa noite de sono desfrutei do conforto de um vagão especialmente reservado, a ler minhas instruções com cuidado e a formular planos 1

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para a captura de Feldon e para a recuperação dos documentos. Eu conhecia a região de Tlaxcala bastante bem – provavelmente melhor do que o fugitivo – e assim teria um certa vantagem na busca, a não ser que ele já tivesse também utilizado a ferrovia.

De acordo com as instruções, Feldon tinha sido durante algum tempo motivo de preocupação para o superintendente Jackson, agindo secretamente e trabalhando irregularmente no laboratório da companhia nas horas mais esquisitas. Havia fortes suspeitas de que ele estivesse implicado junto com um chefe mexicano e vários peões em alguns roubos de minério; no entanto, embora os nativos tivessem sido despedidos, não havia suficiente evidência para garantir qualquer prova contra o sutil oficial. Na verdade, apesar de sua dissimulação, parecia haver mais desafio do que culpa no comportamento do homem. Ele era orgulhoso e falava como se a companhia o estivesse enganando, em vez de ele à companhia. A óbvia vigilância de seus colegas, Jackson escreveu, parecia irritá-lo ainda mais, e agora ele tinha fugido com tudo o que havia de importante no escritório. Acerca de seu paradeiro nenhuma conjetura era feita, conquanto o último telegrama de Jackson sugerisse as escarpas selvagens de Sierra de Malinche, aquele alto pico rodeado de mitos e com a silhueta em forma de cadáver, de cujas vizinhanças dizia-se que os nativos ladrões tinham vindo.

Em El Paso, que alcançamos às três da manhã do dia seguinte, meu vagão particular foi desconectado do trem transcontinental e engatado a uma locomotiva especialmente encomendada, por telegrama, para conduzi-lo em direção ao sul até a Cidade do México.

Continuei a preguiçar até o amanhecer e durante o dia seguinte inteiro me vi exposto ao tédio da paisagem deserta e plana de Chilhauhau. A tripulação informou-me que estava previsto chegarmos à Cidade do México por volta do meio-dia de sexta-feira, mas eu logo vi que incontáveis demoras nos fariam perder horas preciosas. Houve esperas em paradas durante todo o percurso, e aqui e ali um superaquecimento dos eixos ou outra dificuldade viria para atrapalhar ainda mais as previsões.

Chegamos a Torreon com seis horas de atraso, e eram quase oito da noite de sexta-feira –

portanto um atraso de doze horas – quando o condutor consentiu em andar mais depressa para ganhar tempo. Meus nervos estavam no limite, e eu não podia fazer nada além perambular em desespero pelo carro. No fim concluí que a velocidade fora comprada a um preço alto, pois dentro de meia hora os sintomas de um superaquecimento se mostraram também em meu carro; de forma que, depois que uma espera enlouquecedora, a tripulação decidiu que todos os pertences teriam que ser despejados, após uma coxeadura a um quarto da velocidade, na próxima estação com depósitos – a cidade industrial de Queretaro. Foi a gota d’água, e eu quase esperneei como uma criança. De fato, às vezes me surpreendia a empurrar a poltrona, como se tentando fazer o trem avançar mais depressa.

Já eram quase dez da noite quando entramos em Queretaro, e eu passei uma hora de agrura na plataforma da estação enquanto meu vagão era puxado para um canto e vasculhado por uma dúzia de mecânicos nativos. Por fim me disseram que o problema era demais para eles, desde que o eixo dianteiro precisaria de umas partes novas que não poderiam ser arranjadas a não ser na Cidade do México. Tudo parecia, de fato, estar contra mim; senti mesmo meus dentes rilharem à idéia de que Feldon estaria se afastando mais e mais – talvez em direção a algum refúgio em Vera Cruz, que dispunha de navios, ou na Cidade do México, com sua variada oferta de trens – ao passo que novos contratempos me mantinham ali inerte e impotente. Decerto, Jackson já teria notificado a polícia em todas as cidades da redondeza, mas eu não tinha ilusões quanto à eficiência dessa polícia.

O máximo que podia fazer, logo percebi, era tomar o expresso noturno regular para a Cidade do México, que saía de Aguas Calientes e fazia uma parada de cinco minutos em Queretaro. Ele 2

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passaria por volta de uma da madrugada, se não estivesse atrasado, e chegaria à Cidade do México por volta das cinco da manhã de sábado. Quando adquiri minha passagem, soube que o trem seria composto de carruagens-compartimentos em estilo europeu, em vez dos longos vagões americanos com fileiras de duplos assentos. Esse tipo de carros tinha sido bastante usado nos primórdios da ferrovia mexicana, devendo-se aos interesses da construção européia nas primeiras linhas; e em 1889 a Central Mexicana dispunha de um bom número deles para pequenas viagens. Geralmente tenho preferência pelo tipo americano, desde que detesto ver as pessoas olhando para mim, mas nessa ocasião me alegrei com as carruagens estrangeiras. A essa hora da noite havia boa possibilidade de conseguir um compartimento exclusivo, e no meu cansado e nervosamente hipersensível estado saudaria de bom grado a solidão – bem como o confortável interior com poltronas e travesseiros, estendidos ao longo de todo o veículo.

Comprei um bilhete de primeira classe, requisitei minha valise no vagão imobilizado, telegrafei para o presidente McComb e para Jackson informando o que tinha acontecido e me sentei na estação para esperar pelo expresso noturno tão pacientemente quanto meus nervos desgastados o permitiriam.

Espantosamente, o trem estava apenas meia hora atrasado; mesmo assim, a solitária vigília na estação tinha quase esgotado minha resistência. O condutor, introduzindo-me num compartimento, disse-me que esperava compensar o atraso e alcançar a capital ainda a tempo; e eu me estendi confortavelmente no banco que faceava com a dianteira do vagão, na expectativa de uma plácida corrida de três horas e meia. A luz da lâmpada sobre minha cabeça jorrava suavemente baça; e eu me perguntava se conseguiria dormir um pouco, a despeito de minha ansiedade e da tensão nervosa. Pareceu-me, enquanto o trem disparava adiante, que estivesse só, e me alegrei bastante com isso. Meus pensamentos saltavam à frente na perquirição, enquanto eu cabeceava ao ritmo cada vez mais célere da comprida linha de vagões.

Então percebi subitamente que não estava de todo só. No canto oposto a mim, encolhido de modo que sua face não pudesse ser vista, sentava-se um homem rudemente vestido, de tamanho inusual, o qual a débil luz não revelara antes. Ao seu lado havia uma enorme valise, surrada e algo repleta, e firmemente segura mesmo em seu sono por mãos incongruentemente delgadas.

Quando a locomotiva apitou numa curva ou cruzamento, o adormecido pareceu despertar nervosamente para uma espécie de vigília semidesperta, levantando a cabeça e expondo agradáveis feições anglo-saxônicas, de barbas e olhos negros e brilhantes. Ao me ver, como que sua vigília se tornou completa, e pude perceber o modo hostil e selvagem de seu olhar. Sem dúvida, pensei, ele se ressentiria de minha presença quando teria esperado desfrutar do compartimento só para si, tal como eu também me desapontei ao encontrar uma companhia estranha na meia-luz do vagão. O melhor que podíamos fazer, no entanto, era aceitar a situação de modo educado; assim me pus a pedir desculpas ao homem pela minha presença. Como parecesse tratar-se de um confrade americano, talvez nos sentíssemos mais à vontade após algumas cortesias. Então poderíamos deixar-nos um ao outro em paz para agüentar as sacudidelas da viagem.

Para minha surpresa, o estranho não emitiu sequer uma palavra em resposta aos meus cumprimentos. Em vez disso, continuou olhando para mim de um modo feroz e quase avaliatório e afastou para o lado minha embaraçada oferta de cigarros com um movimento da mão desocupada. Sua outra mão permaneceu agarrada à grande e sovada valise, e toda a sua pessoa dava mostras de exalar uma obscura malignidade. Após algum tempo, ele voltou abruptamente o rosto em direção à janela, embora não houvesse nada para ver na densa escuridão exterior.

Estranhamente, pareceu-me estar olhando alguma coisa de um modo tão atento como se houvesse realmente alguma coisa para olhar. Decidi abandoná-lo aos seus modos curiosos e às suas meditações, sem o incomodar mais; assim, me recostei ao assento, puxei a aba do chapéu 3

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sobre meu rosto e fechei os olhos num esforço para reatar aquele princípio de sono que há pouco vinha me tomando.

Não devo ter cochilado por muito tempo ou muito profundamente, quando meus olhos se abriram como se em resposta a alguma força externa. Fechando-os outra vez com determinação, renovei minha demanda pelo sono, entretanto inutilmente. Uma incógnita influência parecia manter-me desperto; levantando a cabeça, corri os olhos pelo compartimento mal iluminado para ver se alguma coisa estava errada. Tudo parecia normal, mas notei que o estranho do canto oposto olhava para mim muito atentamente – atentamente, sem a camaradagem ou a amabilidade que pudessem indicar uma mudança em sua atitude anterior. Desta vez não tentei iniciar conversa, mas permaneci recostado no assento, com os olhos entrefechados, como se ainda cochilasse, e no entanto a observá-lo furtivamente por baixo da aba do chapéu.

Enquanto o trem rumorejava através da noite, observei que uma sutil e gradual metamorfose baixara sobre as feições atentas do homem. Evidentemente satisfeito de que eu estivesse dormindo, ele deixou aflorar em seu rosto uma curiosa mistura de emoções, a natureza das quais seria tudo menos confiável. Ódio, medo, triunfo e fanatismo bruxulearam confusamente na linha de seus lábios e nos cantos de seus olhos, enquanto seu olhar se tornou um facho alarmante de raiva e ferocidade. De repente me ocorreu que esse homem poderia ser um louco assaz perigoso.

Seria mentira dizer que não fiquei bastante e profundamente amedrontado quando me dei conta do estado de coisas. Um suor frio começou a me inundar, e só com muito esforço eu pude manter minha atitude de relaxamento e sonolência. A vida ainda me parecia repleta de atrativos, e a idéia de ter de lidar com um maníaco homicida – provavelmente armado e capaz num grau inimaginável – era desalentadora e terrificante. Minha impotência em qualquer tipo de luta era enorme, e o homem parecia um verdadeiro gigante, possivelmente na sua melhor forma atlética, enquanto eu sempre fora frágil e me encontrava exausto devido à ansiedade, à ausência de sono e à tensão nervosa. Foi, inegavelmente, um péssimo momento; e me senti bem perto de uma morte horrível ao observar o furor de loucura que havia nos olhos desse estranho. Acontecimentos do passado retornaram à minha consciência como se para um adeus – tal como se diz que um homem prestes a se afogar vê toda a sua vida passar diante de seus olhos num único momento.

Decerto eu tinha ainda meu revólver no bolso do colete, mas qualquer esforço que fizesse para sacá-lo seria instantaneamente percebido. Além disso, se o apanhasse, não havia como predizer que efeito esse gesto teria sobre o maníaco. Mesmo que eu o alvejasse uma ou duas vezes, ele ainda teria força suficiente para arrebatar a arma e acabar comigo à sua própria maneira, ou se ele próprio estivesse armado poderia atirar em mim ou me esfaquear sem sequer tentar me desarmar. Pode-se tentar dominar um insano ameaçando-o com uma pistola, mas a completa indiferença de um insano às conseqüências de seus atos lhe dá força e audácia quase sobre-humanas. Mesmo naqueles dias pré-freudianos, eu tinha uma percepção, provinda do senso comum, da perigosa força de que dispõem as pessoas que não têm inibições normais. E de que o estranho no canto estava mesmo em vias de esboçar alguma ação assassina, seu olhar flamejante e suas feições retorcidas não me permitiam duvidar.

Subitamente senti que sua respiração se tornara ofegante e vi seu peito inflar em gradual excitação. Com pouco tempo para uma providência, comecei a pensar desesperadamente no que fazer. Sem deixar de fingir que estivesse dormindo, minha mão deslizou lenta e discretamente em direção ao bolso contendo a pistola, ao mesmo tempo em que eu vigiava fixamente o homem para ver se ele detectaria o movimento. Infelizmente ele o fez – um segundo antes de que o registrasse em sua expressão. Com um salto incrivelmente ágil e abrupto para um homem de seu tamanho, ele se lançou sobre mim antes mesmo que eu compreendesse o que tinha ocorrido, assomando e avançando como um ogro gigante das lendas e imobilizando-me com mão poderosa 4

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enquanto com a outra me impedia de alcançar o revólver. Arrancando-o de meu bolso e depositando-o no seu, ele me largou com desdém, certo de que seu enorme físico me manteria à sua mercê. Então se pôs inteiramente de pé – sua cabeça quase tocando o teto do vagão – e mirou-me com olhos cuja fúria tinha rapidamente se convertido num ríctus de desprezo e vulturino cálculo.

Não me movi, e depois de um instante o homem retomou seu assento original, sorrindo sombriamente enquanto abria sua enorme valise e extraía dela um artigo de muito peculiar aparência – uma gaiola grande de arame semi-flexível, trançado mais ou menos à maneira de uma máscara de beisebol, mas modelado no formato de um capacete para escafandro. Seu topo estava conectado a um cordão cuja outra extremidade permanecia na valise. Esse engenho ele o tratava com óbvia afeição, aninhando-o em seu colo enquanto olhava para mim novamente e lambia os pêlos em torno de seus lábios com um movimento felino da língua. Então, pela primeira vez, ele falou – numa voz moderada e doce, de uma suavidade e de uma ponderação calculada que contrastavam com suas vestimentas rústicas e seu aspecto desalinhado.

“Você é um afortunado, sir. Vou usá-lo antes de todos os outros. Você entrará para a história como o primeiro fruto de uma notável invenção. Vastas conseqüências sociológicas – minha luz há de brilhar, como convém. Tenho brilhado o tempo todo, mas ninguém sabe disso. Agora você saberá. Cobaia inteligente. Gatos e burros – funcionou até com um burro...”

Fez uma pausa, enquanto suas feições peludas esboçaram um convulsivo movimento, em sincronia com um vigoroso estremecimento giratório de toda a cabeça. Era como se ele estivesse se livrando de alguma nebulosa substância que o incomodasse, pois o gesto foi seguido por uma clarificação ou sutilização de expressão que escondia a mais evidente insanidade numa aparência de suave compostura, através da qual a malignidade transparecia apenas imperfeitamente.

Percebi de imediato a diferença e aventei uma palavra para ver se poderia reconduzir sua mente a menos perigosos canais. “Parece que você tem em mãos um maravilhoso e sutil instrumento, se sou capaz de julgar. Não me diria como veio a inventá-lo?”

Anuiu com a cabeça.

“Mera reflexão lógica, meu caro senhor. Estudei as necessidades da época e agi em concordância com elas. Outros poderiam ter feito o mesmo, tivessem disposto de uma mente tão poderosa –

isto mesmo, tão capaz de concentração prolongada – quanto a minha. Eu tinha a convicção – o indispensável poder de vontade –, e eis tudo. Concluí, como ninguém antes teria concluído, que era imperativo remover todos os homens da face da terra antes que Quetzalcoatl retornasse, e concluí também que isso devia ser feito elegantemente. Detesto carnificina de qualquer tipo, e o enforcamento é barbaramente grosseiro. Você sabe que no ano passado o legislativo de Nova Iorque votou pelo emprego da execução elétrica para condenados – mas todo o aparato que eles têm em mente é tão primitivo quanto o 'foguete' de Stephenson ou a primeira engenhoca elétrica de Devenport. Eu conhecia um meio mais apropriado, e lhes disse isso, mas eles não me deram atenção. Por Deus, os idiotas! Como se eu não soubesse tudo o que se deve saber sobre homens e morte e eletricidade – estudante, homem e menino – tecnólogo e engenheiro – mercenário...”

Ele se reclinou e estreitou as pálpebras.

“Estive no exército de Maximiliano há mais de vinte anos. Iam fazer de mim um nobre. Então esses esfarrapados o mataram, e eu tive de voltar para casa. Mas eu vim – vim e voltei, vim e voltei. Vivo em Rochester, Nova Iorque...”