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O Feitiço de um Highlander por Karen Marie Moning - Versão HTML

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Karen Marie Moning

O feitiço do guerreiro

HIGHLANDERS 7

Disponibilização: Dream

Tradução: YGMR

Revisão: Vanessa Straioto

Revisão Final: Gis Miranda

Formatação: Gis Miranda e YGMR

PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Argumento

Poderoso. Sensual. Sedutor. Ele é tudo que é descaradamente sexual em um homem.

Um diabolicamente atraente guerreiro celta apanhado no tempo... E uma mulher disposta a

pagar o máximo preço para lhe libertar. Antiqüíssimos segredos os perseguem. O perigo mortal e

um desejo irresistível escurecem cada um de seus movimentos. É uma relação para toda a

eternidade. E tudo o que os separa são "simplesmente" mil e trezentos anos...

Jessi St. James tem que arrumar uma vida. Muitas horas estudando objetos antigos fez com

que a trabalhadora estudante de arqueologia não pudesse tirar o sexo da cabeça. Assim imagina

que está sonhando quando parece ver um homem muito bonito, seminu olhá-la através do

prateado reflexo de um antigo espelho. Mas quando uma rápida decisão a salva de um atentando

contra sua vida, Jessi encontra-se de repente frente a mais de um metro e oitenta de ardente e

insaciável macho alfa.

Herdeiro da antiga magia de seus antepassados druidas faz onze séculos que Cian MacKeltar

foi apanhado dentro do Cristal Escuro, um dos quatro cobiçados cristais sagrados, objetos de um

poder inenarrável. Quando o Cristal Escuro é roubado, um ancião inimigo não se deterá ante nada

para reclamá-lo, destruindo tudo o que se interpõe em seu caminho... Incluindo à mulher que

pode ter a chave para romper o feitiço que recai sobre este highlander do nono século. Para Jessi, o

fornido Deus do sexo do espelho não só é absolutamente real, mas também lhe oferece seu

amparo... Do que, não está segura. E tudo o que ele quer em troca é o delicioso prazer de

compartilhar sua cama.

Entretanto, inclusive enquanto anseia o insaciável, e Cian começa a exercer sua escura magia

em Jessi, seu antigo inimigo está a ponto de conseguir o último e mais perigoso dos Cristais

Sagrados, e o highlander deve impedi-lo. Em jogo se encontra nada menos que a própria

existência do universo e duas vidas apaixonadamente entrelaçadas... Enquanto Cian e Jessi lutam

por reclamar o tipo de amor que aparece uma vez a cada idade do gelo...

Este é para meu marido, Neil Sequoyah Dover.

Se não estivesse aí, eu tampouco estaria.

Quero-te

Querida leitora:

Quando não estou segura de como pronunciar certas palavras em um livro, meu cérebro

começa a gaguejar cada vez que aparecem em um texto e isso me distancia da rapidez do

momento.

Para evitá-lo, acrescentei esta breve lista de nomes importantes junto a sua pronúncia:

Cian: Ki-on.

Dageus: Dava-gis.

Drustan: Drus-tin.

Os draghar: Drug-gar.

Tuatha dê danaan: Tua -day -dhanna.

Aoibheal: Ah-veel.

2

Sincronicismo: 1. A incidência simultânea de dois ou mais acontecimentos

significativos, mas não relacionados causalmente. 2. A coincidência ou alinhamento de diferentes

forças para criar um acontecimento ou circunstância dentro do universo. 3. Uma colisão de

possibilidades tão incalculavelmente improváveis que se diria que obedecem a uma intervenção

divina.

Não há coincidências neste mundo, Drustan.

SILVAN MACKELTAR,

Século VI da era cristã

Prólogo

Alguns homens nascem com boa estrela.

Cheio de cuidados femininos do esperado momento de seu nascimento no seio de uma

família de sete formosas moças, mas, aí, nenhum varão, seu pai tinha morrido em um acidente de

caça duas semanas antes, ao chegar ao mundo Cian MacKeltar pesava cinco quilogramas e já era o

laird do castelo. É fácil que algo assim suba à cabeça de um bebê.

Ao amadurecer e fazer-se homem, Cian herdou os rasgos físicos típicos dos Keltar:

corpulento e de ombros muito largos, seus músculos ondulavam em um corpo magnífico coroado

pelo rosto escuro e grosseiramente formoso de um anjo vingador. Seus nobres antepassados celtas,

com sua agressiva herança de guerreiros aristocratas, também lhe legaram uma tremenda

sexualidade; um intenso erotismo que só esperava a ocasião de ser liberado dava forma ao seu

andar, e estava presente em cada um de seus movimentos.

Aos trinta anos, Cian MacKeltar era o Sol, a Lua, e as estrelas.

E sabia.

Se por acaso isto fosse pouco, ainda era um druida.

E, a diferença da imensa maioria de seus ancestrais, sempre sérios e meditabundos (algo

que logo seriam superados pela pletora de figuras realmente sombrias que ainda tinham que

nascer), gostava de sê-lo.

Gostava de tudo o que tinha a ver com ser um druida.

Gostava do poder que sentia pulsar em suas veias. Gostava de passar largas horas na

biblioteca da câmara subterrânea do castelo Keltar, em companhia de um bom uísque e a grande

coleção de artefatos e textos da antiga sabedoria, para estudar o conhecimento oculto, combinar

um feitiço de resultados imprevisíveis com uma arriscada poção, e assim ser cada vez mais forte e

poderoso.

Gostava de percorrer as colinas cobertas de urze depois de uma tormenta enquanto

pronunciava as antigas palavras que curavam a terra e às pequenas criaturas selvagens. Gostava

de celebrar os ritos das estações, essas noites em que cantava sob a grande lua alaranjada das

colheitas enquanto o vento das Highlands lhe enredava os largos cabelos escuros e convertia em

3

pilares de fogo as fogueiras sagradas que tinha acendido, porque sabia que os todo-poderosos

tuatha dê danaan dependiam dele.

Gostava de seduzir às mulheres formosas e as fazer sua sob seu corpo firme como a

rocha, e nesses instantes sempre recorria a suas artes druidicas para lhes fazer sentir o tipo de

prazer ilimitado que se murmurava só um exótico amante do povo mágico podia dar.

Inclusive gostava que uma grande parte de seu mundo não pudesse evitar lhe ter um

pouco de medo, ao ser ele um druida Keltar e ter herdado a velha e aterradora magia dos Antigos.

O laird responsável pela continuação do sagrado legado Keltar a finais do século IX era

obscuramente sedutor e ninguém podia resistir a seu encanto, e não tinha existido um druida mais

capitalista que ele.

Cian MacKeltar não tinha tido que fazer frente a nenhuma classe de oposição ou desafio,

e ninguém lhe tinha superado. Em honra à verdade, nem sequer lhe tinha passado pela cabeça a

possibilidade de que um dia algo ou alguém pudesse fazê-lo.

Até aquele maldito Samhain de seu trigésimo ano. Alguns homens nascem com boa

estrela.

Cian MacKeltar não.

Pouco depois daquilo, a câmara subterrânea que continha a biblioteca ficou selada para

não voltar a ser mencionada nunca, e todas as referências a Cian MacKeltar foram apagadas dos

anais escritos dos Keltar.

Os Keltar da atualidade gostam de enredar-se em apaixonados debates sobre se esse

ancestral tão controvertido existiu em realidade.

E ninguém sabe que agora mais de mil e cem anos depois, Cian MacKeltar ainda vive.

Se à existência infernal que leva agora pode chamar de vida.

Primeira parte

Chicago

1

Sexta-feira, 6 de outubro

A chamada que trocou o curso da vida da Jessica St. James chegou à noite de uma sexta-

feira sem nada de particular, que não diferia significativamente das outras noites de sexta-feira de

sua excessivamente previsível existência, e esse era um dos temas sobre os que Jessi preferia não

falar porque se caracterizava por não ter nada de particular.

Sentada na escada de incêndios junto à janela da cozinha de seu apartamento, no terceiro

piso do 222 da Elizabeth Street, Jessi desfrutava de um anoitecer mais quente do que o habitual no

outono.

Esticava o pescoço para a esquina do edifício de pedra avermelhada sem incomodar-se

em dissimular que tinha saído para bisbilhotar e observava a todos que, diferente dela, tinham

tempo para viver sua vida, falavam e riam na calçada em frente ao clube noturno que havia do

outro da rua.

Já fazia uns minutos que não podia apartar a vista de uma ruiva de pernas longas e seu

noivo, um bonitão com jeans e camiseta branca de cabelo escuro, pele bronzeada e montões de

músculos. O bonitão empurrou a ruiva para a parede e assim que a teve presa ali, levantou-lhe as

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mãos por cima da cabeça e a beijou como se o mundo fosse acabar-se nesse dia, com todo seu

magnífico corpo concentrado no trabalho. (E que agitação de quadris! O bonitão se esfregava

contra sua garota com tanto entusiasmo que era como vê-los fazer amor em plena rua.)

Jessi tragou ar.

Deus tinham-na beijado assim alguma vez? Como se o homem estivesse impaciente por

penetrá-la? Como se quisesse devorá-la, tão cheio de desejo que não pararia até haver entrado na

pele?

A ruiva apartou as mãos da parede para posá-las sobre o traseiro do bonitão, e Jessi

apertou os punhos quando a viu curvar os dedos sobre aquelas nádegas tão musculosas.

Quando as mãos do bonitão subiram para os peitos da ruiva e começaram a lhe apertar os

mamilos com os polegares, Jessi sentiu endurecer os seus como duas pequenas pérolas. Quase

podia imaginar que era ela quem estava beijando aquele pedaço de homem, que era ela a que

estava a ponto de afogar-se em uma tórrida paixão animal.

«Por que não posso ter esse tipo de vida?», pensou.

«Claro que pode tê-la recordou uma voz interior, mas antes tem que fazer o doutorado.»

O aviso distou muito de ser tão efetivo como quando acabava de matricular-se na

universidade. Jessi estava farta de dedicar metade de sua existência à faculdade, de ter que fazer

equilíbrios para chegar ao fim do mês, de correr constantemente de sua aula para sua exaustiva

jornada trabalhista como ajudante do professor Keene e logo correr a casa e começar a estudar de

novo ou, se realmente tinha um de seus estranhos dias de sorte, se permitir quatro ou cinco horas

de sono antes de levantar-se da cama e voltar a correr.

Seu horário estava tão rigidamente organizado e exigia tanto dela que não ficava tempo

para levar uma vida social. Isso sempre tinha sido um problema, e Jessi levava pior que nunca.

Havia casais em qualquer lugar que fosse e todos estavam muitos interessados em mostrar ao

mundo que eram um casal, e pareciam maravilhosamente bem enquanto o faziam.

Mas Jessi não. Em sua vida simplesmente não havia tempo para dedicar a um casal. Jessi

não era uma dessas afortunadas que podem passar pela universidade com todos os gastos pagos.

Ela tinha que economizar, fazer todo tipo de economia, e assegurar-se de tirar o maior proveito a

cada centavo e cada momento. Não só tinha que fazer frente ao programa acadêmico e a uma

larga jornada trabalhista, mas também dava aulas. Isso apenas deixava tempo para comer, tomar

banho e dormir.

Nas incomuns ocasiões em que tentava sair com alguém, seus homens em seguida se

fartavam de que Jessi pudesse vê-los tão pouco e, combinado com o muito abaixo que pareciam

estar em sua lista de prioridades e o pouco disposta que se mostrava a deitar-se com eles, a não ser

conhecê-los (a maioria dos universitários pareciam convencidos de que se à terceira entrevista

ainda não tinham conseguido anotar o tanto, devia ser porque aquela garota tinha algo estranho

com os homens), fazia que não demorassem a procurar pastos mais verdes.

Mesmo assim, logo tudo teria valido a pena. Por muito que algumas pessoas pensassem

que chegar a ser arqueóloga e dedicar o resto de sua vida a brincar com coisas velhas, cheias de pó

ou freqüentemente mortas, não era uma perspectiva particularmente emocionante (ou ao menos

isso pensava sua mãe, que detestava a especialidade acadêmica escolhida por Jessi e não entendia

por que sua filha não estava felizmente casada e trazia para o mundo um bebê atrás do outro

como faziam suas irmãs), Jessi não podia imaginar uma carreira mais apaixonante. Possivelmente

não encabeçasse a lista de sonhos de outras pessoas, mas ocupava o primeiro lugar na sua.

Doutora Jessica St. James. Estava tão perto que quase podia tocá-lo com as pontas dos

dedos. Outro ano e meio e teria terminado de preparar o doutorado.

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Então sairia com todos os homens que pusessem a tiro, e se apressaria a recuperar todo o

tempo perdido. Mas até então, não tinha trabalhado tão duro e contraído tantas dívidas para se

agarrar ao primeiro homem que encontrasse só porque seu sistema hormonal cismou em fazer

horas extras.

Dentro de uns anos, consolou-se Jessi sem apartar o olhar da concorrida rua, os que agora

foram a esse clube provavelmente seguiriam indo a ele, sem que suas vidas tivessem trocado

grande coisa, enquanto ela viajaria a lugares longínquos para desenterrar restos do passado e

viver grandes aventuras.

E o melhor, o Senhor Apropriado a estaria esperando em algum dessas futuras jazidas

arqueológicas. Sempre tinha a possibilidade de que houvesse tocado em sorte o tipo de vida que

leva atraso no plano de vôo, e agora teria que armar-se de paciência enquanto via separar a outros

antes que chegasse seu turno.

Mãe de Deus, o bonitão acabava de colocar a mão nas calças da ruiva. E ela acabava de

lhe pôr a mão em cima da… OH, ali onde Deus e o mundo inteiro podiam vê-los!

Além da janela, em algum lugar daquele apartamento tão pequeno e cheio de coisas ao

qual não iria mal que fossem para o lixo e uma boa limpeza, o telefone começou a soar. Jessi pôs

os olhos em branco. A parte mundana de sua existência sempre sabia escolher os momentos

menos apropriados para intrometer-se.

Ring. Ring.

Jessi devorou uma última porção ocular daquela descarada exibição de sexo na calçada, e

logo subiu, a contra gosto, na beira da janela da cozinha para entrar no apartamento. Sacudiu a

cabeça para tentar limpar a mente e logo baixou à persiana. Olhos que não vêem, coração que não

sente. Ou ao menos não muito, em todo caso.

Riiing.

Onde estaria esse bendito telefone?

Finalmente o localizou no sofá, quase enterrado sob um montão de almofadas, pacotes de

caramelos e uma caixa de pizza que continha –puaj— um pouco de pelinhos arrepiados que

reluziam com um verdor fosforescente. Enquanto apartava com cautela a caixa, Jessi titubeou e

sua mão ficou suspensa no ar sobre o telefone.

Por um instante, o mais breve e peculiar dos interlúdios, Jessi experimentou a

inexplicável, mas muito intensa sensação de que não deveria agarrá-lo.

Que deveria deixá-lo no sofá para que soasse e soasse. Possivelmente durante todo o fim

de semana.

Mais tarde, lembraria-se daquela sensação.

O tempo pareceu deter seu curso durante aquela estranha porção de segundos cheios de

significado, e Jessi sentiu que o universo continha a respiração à espera de ver o que ela faria em

seguida.

A idéia era tão ridícula e egocêntrica que enrugou o nariz só de pensá-lo.

Como se o universo tivesse reparado alguma vez em Jessi St. James.

Agarrou o telefone.

Lucan Myrddin Trevayne ia e vinha ante o fogo que ardia na chaminé.

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Quando empregava o sortilégio de um feiticeiro para ocultar sua verdadeira aparência -

coisa que fazia sempre que havia alguém presente—, Lucan era alto, arrumado, de constituição

ainda muito robusta aos quarenta e poucos anos que aparentava, e sua abundante cabeleira negra

tão somente mostrava um pouco de prata nas têmporas. Era o tipo de homem que as mulheres

voltavam à cabeça para olhá-lo, e os homens retrocedessem instintivamente para lhe ceder o

passo. Seu porte dizia uma coisa: « Poder? Eu o tenho, e você não. “E se pensar o contrário, me

ponha a prova.» Seus rasgos eram puro Velho Mundo, e seus olhos cinza eram tão frios como as

águas de um lago escocês sob um céu de tormenta. Sua verdadeira aparência era muito menos

atrativa.

Lucan tinha acumulado uma tremenda quantidade de riqueza e poder no curso de sua

existência, que tinha sido muito mais longa que a da maioria dos humanos. Tinha participações

majoritárias em muitas empresas de diferentes naturezas, desde bancos até meios de comunicação

e companhias petrolíferas. Possuía residências em uma dúzia de cidades. Tinha a seu serviço um

seleto grupo de homens que tinham sido submetidos a um adestramento muito peculiar, assim

como a umas quantas mulheres às que recorria de vez em quando para seus assuntos mais

privados.

A sua esquerda, sentado em uma grande poltrona, um daqueles homens permanecia

imóvel em uma tensa espera.

—Isto é absurdo, Román — grunhiu Lucan. — por que diabos estão demorando tanto?

Roman se revolveu em sua poltrona, à defensiva. Com suas feições tão classicamente

opostas como as de uma moeda antiga e seu cabelo comprido e loiro, vê-lo era como contemplar a

uma estátua da Roma clássica que tivesse cobrado vida.

—Tenho vários homens trabalhando nisso, senhor Trevayne—Disse, com a sombra de um

acento russo. — Os melhores homens de que dispomos. O problema é que seguiram uma dúzia de

direções diferentes. Venderam-nas no mercado negro. Ninguém tem nomes. Precisamos de

tempo...

—O tempo é algo do que não disponho — o interrompeu Lucan com aspereza—. Cada

hora, cada momento que passa, faz menos provável que chegue a recuperá-las. Essas malditas

coisas devem ser encontradas.

«Essas malditas coisas» eram as Consagrações Escuras ou «Invisíveis» dos tuatha dê

danaan, artefatos dotados de um imenso poder criados por uma antiga civilização que tinha

passado a figurar, séculos antes e de maneira completamente errônea, nos livros de história do

homem como uma raça mítica: os daoine sidhe ou fae.

Lucan acreditou que não podia haver um lugar melhor onde guardar seus tesouros que a

bem custodiada residência privada que tinha em Londres.

Estava equivocado. Terrivelmente equivocado.

Não estava seguro do que foi que aconteceu exatamente fazia uns meses, enquanto ele

estava fora do país seguindo uma pista que esperava que pudesse levá-lo até o Livro Negro, a

última e mais capitalista das quatro Consagrações Invisíveis, mas em algum lugar de Londres — e

seu epicentro teve que estar no leste da cidade, porque Lucan ainda podia sentir os últimos

resíduos de poder— tinha ocorrido algo que reverberou através de toda a Inglaterra. Um poder

imenso e muito antigo tinha aflorado por um breve período de tempo, e suas descomunais

emanações neutralizaram todas as outras classes de magia na Grã-Bretanha.

Este fato tivesse carecido de importância para Lucan, pois o que fosse aquilo voltou a

esfumar-se tão depressa como tinha chegado, a não ser porque sua repentina aparição tinha feito

pedacinhos às formidáveis, supostamente inatacáveis, defesas que protegiam suas posses mais

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apreciadas. Protegiam-nas tão bem que a idéia de complementá-las com algum moderno sistema

de segurança sempre lhe tinha parecido risível.

Agora já não lhe parecia tão risível.

Apressou a fazer instalar o sistema mais avançado disponível da atualidade, com

câmaras que varriam todos os ângulos em cada uma das habitações, porque enquanto ele estava

fora do país, um ladrão tinha irrompido no museu privado de sua residência e roubado artefatos

que Lucan tinha em seu poder desde fazia séculos, entre eles suas insubstituíveis Consagrações: a

caixa, o amuleto e o espelho.

Por sorte uns vizinhos viram o ladrão enquanto partia com seu butim. Desgraçadamente,

quando o pessoal cuidadosamente selecionado por Lucan conseguiu identificar ao bastardo e lhe

seguir o rastro, este já tinha vendido os artefatos ao primeiro de uma larga série de escorregadios

intermediários.

Artefatos como aqueles, de uma natureza tão fabulosa e cuja procedência não podia ser

localizada, indevidamente terminavam em um de dois lugares: em mãos das autoridades de

algum país depois de que os tivesse interceptado em trânsito, ou vendidos no mercado negro por

uma pequena fração de seu valor antes de desaparecer, às vezes durante centenas de anos, até que

se voltasse a ouvir falar deles em algum vago rumor. Puderam obter uns quantos nomes que, além

disso, obviamente eram falsos, do ladrão antes que morresse. Os homens de Lucan levavam meses

seguindo um rastro que tinha sido deliberada e astutamente turvado. E o tempo começava a ser

vital.

—... Embora tenhamos recuperado três dos manuscritos e uma das espadas, não

pudemos averiguar nada a respeito da caixa ou o amuleto. Mas parece que possivelmente

tenhamos uma boa pista sobre o espelho — estava dizendo Roman.

Lucan se enrijeceu. O espelho. O Cristal Escuro era a única Consagração que necessitava

com urgência. De todos os anos em que podiam havê-lo roubado, tinha tido que ser precisamente

neste, quando terei que pagar o dízimo! As outras Consagrações Escuras podiam esperar um

pouco mais, embora não muito: eram muito perigosas para que andassem soltas pelo mundo.

Cada Consagração conferia a seu possuidor um dom em troca de um preço, sempre que o

possuidor contasse com o conhecimento e o poder necessário para utilizá-la. O Dom Escuro do

espelho era a imortalidade, sempre que seu possuidor cumprisse as condições impostas pelo

espelho. Lucan levava mais de mil anos as cumprindo. E não tinha nenhuma intenção de deixar de

fazê-lo.

—Um envio que se murmurava poderia corresponder ao que andamos procurando saiu

da Inglaterra com rumo aos Estados Unidos através da Irlanda faz uns dias. Acreditam que irá

para alguma universidade de Chicago, a uma...

—E então o que faz sentado aqui, merda? —disse Lucan friamente—. Se tiveres uma pista

sobre o espelho, a que seja, quero que a siga pessoalmente. Já. Tinha que recuperar o espelho antes

do Samhain. Ou do contrário...

Esse «ou do contrário» era uma eventualidade em que Lucan se negava a pensar. O

espelho seria encontrado, o dízimo seria pago: uma pequena quantidade em ouro puro passava

através do espelho cada cem anos; segundo a forma de medir o tempo que usavam os Antigos, o

que equivalia a mais de um século de acordo com a cronologia moderna, exatamente a meia-noite

da festividade do Samhain, ou Halloween, como a chamava o século atual. O dízimo devia pagar-

se em um prazo de vinte e seis dias, ao cabo dos quais o espelho voltaria a estar em poder de

Lucan... Ou “O Pacto” que obrigava a seu cativo ficaria quebrado.

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Enquanto o homem loiro recolhia seu casaco e suas luvas, Lucan reiterou sua posição no

que concernia às Consagrações Escuras.

—Nada de testemunhas, Roman. Qualquer pessoa que chegue, embora, só seja a

vislumbrar uma das Consagrações...

Roman inclinou a cabeça em silenciosa aquiescência.

Lucan não disse nada mais. Não precisava. Roman sabia como gostava que levassem seus

assuntos, ao igual que sabiam todos os que trabalhavam a seu serviço e ainda estavam vivos.

Passado um momento, pouco depois de meia-noite, Jessi voltava ao campus pela terceira

vez aquele dia, à ala sul do Departamento de Arqueologia. Abriu a porta do escritório do

professor Keene com sua chave.

Perguntou-se ironicamente por que se incomodou em ir-se dali. Dado seu horário de

trabalho, mais valeria levar um cama de armar a esse velho quartinho, ao final do corredor, para

ser deixado entre todos aqueles esfregões, vassouras e cubos que levavam anos sem usar-se.

Assim não só conseguiria dormir mais, mas também economizaria em gasolina.

Quando o professor Keene a chamou do hospital para lhe contar que tinha tido «uma

colisão sem importância» enquanto voltava para campus em seu carro —«umas quantas fraturas e

contusões sem importância, nada pelo que teria que preocupar-se», apressou-se a assegurar—, o

primeiro que pensou Jessi foi que o professor ia pedir lhe que se fizesse cargo de suas classes

durante os próximos dias (o que significaria que sua janela de sono ficaria reduzida de só quatro

ou cinco horas a um enorme zero), mas seu chefe a informou que já tinha chamado ao Mark

Troudeau e acordado que ele se encarregaria das classes até sua volta. «Mas tenho que lhe pedir

um pequeno favor, Jessica. Estou esperando um pacote. “Tinha que recebê-lo em meu escritório a

primeira hora da noite», tinha-lhe explicado o professor Keene, com aquela voz tão profunda dele,

que, inclusive depois de vinte e cinco anos longe do Country Louth, Irlanda, nunca tinha perdido

seu acento.

Jessi adorava essa forma de falar tão musical. Sonhava com o dia em que a pudesse ouvir

de lábios de todos os paroquianos de um pub enquanto dava boa conta de um guisado irlandês,

uma grande fatia de pão de centeio e uma Guinness com a quantidade justa de espuma. Depois,

naturalmente, de passar um dia inteiro no Museu Nacional da Irlanda contemplando com olhos

cheios de deleite tesouros tão fabulosos como o broche da Tara, o cálice do Ardagh e a coleção

dourada Broighter.

Com o telefone apertado entre a orelha e o ombro, Jessi olhou seu relógio e o dia

luminoso lhe indicou que passavam dez minutos das dez.

—Que classe de pacote é esse para que o entreguem à uma hora tão tardia?— perguntou-

se Jessi.

—OH, não se preocupe por isso. Assine a confirmação de recebimento, fecha com chave e

vete a casa. É tudo o que necessito que faça.

— Claro, professor, mas o que...?

— Você assina, fecha com chave e te esqueça do assunto. Uma pausa, um silêncio muito

significativo, e logo: Não há razão para que o mencione a ninguém. É um assunto pessoal. Não

tem nada que ver com a universidade.

9

Jessi piscou, um pouco surpreendida; nunca tinha ouvido esse tom na voz do professor.

As palavras tinham sido articuladas com uma estranha precisão, e soaram um pouco à defensiva,

quase..., bom, como se o professor tivesse algo que ocultar.

— Tenha cuidado, que eu me encarregarei de tudo. Descanse, professor. Não se preocupe

com nada— se apressou a tranqüilizá-lo, depois de chegar à conclusão de que o pobrezinho tinha

que estar um pouco alterado pelos calmantes que lhe estariam dando no hospital. Jessi ainda se

lembrava da vez que tomou Tylenol com codeína, e logo demorou horas em deixar de sentir-se

irritável e ter picadas por todo o corpo. Com todas essas contusões múltiplas, estava segura de que

ao professor lhe teriam dado algo mais forte que um pouco de Tylenol.

Deteve-se embaixo dos fluorescentes que zumbiam brandamente no teto do corredor da

universidade e esfregou os olhos ao tempo que bocejava aparatosamente. Estava esgotada.

Levantou-se as seis e quinze porque tinha que dar uma aula as sete e vinte e quando conseguisse

chegar a casa essa noite - bem, essa manhã - e voltar a meter-se na cama, teria que fazer frente à

outra jornada de vinte e quatro horas. Uma mais.

Jessi fez girar a chave na fechadura, empurrou a porta do escritório, procurou as cegas o

interruptor da luz e o acionou. Entrou no escritório do professor e inalou, saboreando a mescla de

aroma de livros, couro e polimento para madeira que flutuava no ar junto com o aroma do tabaco

do cachimbo favorito do professor. Algum dia ela também teria seu próprio escritório, e se

pareceria muito a esse.

A espaçosa habitação tinha estantes que iam do chão até o teto e umas grandes janelas

que, durante o dia, banhavam de sol um antigo tapete tecido com uma intrincada teia de fios

vermelhos, marrons e âmbar. O mobiliário de teca e mogno era muito masculino: um majestoso

escritório cujas patas terminavam em forma de garras; um suntuoso sofá de couro Chesterfield em

uma cor grão de café intensamente torrado; duas poltronas em conjunto. Havia numerosos

aparadores de cristal para curiosidades e umas quantas mesas auxiliares com as réplicas mais

valoradas pelo professor. A reprodução de um abajur Tiffany completava seu escritório. O

computador, com sua tela plana de vinte e uma polegadas, era o único que parecia destoar

naquele ambiente. Bastaria tira-lo, e Jessi estaria na biblioteca de uma casa de campo inglesa do

século XIX.

—Aqui dentro — disse aos repartidores por cima do ombro. O envio resultou não ser

exatamente o que ela esperava. Pelo modo em que o professor lhe falou dele, Jessi tinha

imaginado um envelope muito grosso, possivelmente um pequeno pacote.

Mas em realidade se tratava de uma caixa de madeira enorme. Era alta, larga,

aproximadamente do tamanho de um..., bom, de um sarcófago ou algo pelo estilo, e conduzir

aquilo através dos corredores da universidade não estava resultando nada fácil.

—Com cuidado, homem. Inclina-o! Inclina-o! Ai! Que me esmaga o dedo. Retrocede um

pouco e ponha em ângulo!

Uma desculpa com voz afogada. Mais grunhidos.

—Esta maldita coisa resiste horrores. O corredor é muito estreito.

—Já quase chegaram disse Jessi a modo de ajuda—. Só um pouquinho mais.

De fato, uns instantes depois os dois homens baixavam com cuidado dos ombros a caixa

oblonga e a depositavam sobre o tapete.

—O professor me disse que teria que assinar algo - disse Jessi, sem dissimular seu intento

por lhes apressar. Tinha por diante um dia inteiro de trabalho e estudo amanhã..., ou seja, hoje.

—Necessitamos algo mais que isso, senhora. Este envio não se pode deixar no destino até

que tenha sido verificado.

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—Verificado? —repetiu Jessi—. E isso o que significa?

— Que este envio vale um montão de grana, e a pela seguradora que contratou sua

apólice, o transportador precisa dispor de uma verificação visual e uma comutação de

responsabilidades. Vê? Aqui o tem. O carregador mais corpulento lhe estendeu uma tabuleta para

sujeitar papéis em que havia umas quantas folhas. Dá-me igual quem o faça, senhora, como tal de

que alguém me tire de cima os formulários.

Assim era, porque na folha de envio estava estampado em grandes letras vermelhas

VERIFICAÇÃO VISUAL E REQUER COMUTAÇÃO, E logo havia duas páginas de pedante e

pomposo jargão legal com toda uma série de términos e definições que detalhavam os direitos da

naval e o comprador.

Jessi passou a mão por seus curtos cachos escuros e suspirou. O professor não ia gostar de

nada daquilo. Havia dito que era algo pessoal.

—E se não deixar que abram o envio e o inspecionem?

—Então voltará para lugar de que veio, senhora. E asseguro que o transportador encherá

o saco muitíssimo.

—Sim. — disse o outro homem.— Assegurar essa coisa há flanco um rim e parte do

outro. Se tiver que devolvê-la, seu professor terá que cobrir com os gastos da viagem de volta. Ele

também se encherá o saco muitíssimo.

Os dois repartidores ficaram olhando-a com expressão desafiante, remissos a tornar-se ao

ombro pela segunda vez aquela caixa tão difícil de manobrar, levá-la pelo corredor, colocá-la na

caminhonete e devolvê-la ao armazém, para logo voltar a fazer a entrega passado um tempo. Nem

sequer lhe tinham falado a seus peitos, algo que os homens estavam acostumados a fazer, sobre

tudo no primeiro encontro, o que lhe deixou muito claro que estavam impacientes por livrar-se

daquela carga e reatar suas vidas.

Jessi olhou o telefone. Logo olhou seu relógio.

Não sabia o número da habitação do professor e suspeitava que se chamasse o posto

telefônico do hospital nunca passariam para ele a essas horas. Embora o professor tivesse insistido

em que não tinha nada grave, Jessi sabia que os médicos não o teriam internado se as lesões não

tivessem sido bastante sérias. Os hospitais de hoje em dia davam as altas ao mesmo ritmo que os

ganhos.

Preocuparia-se mais o professor se ela abrisse a caixa, ou se rechaçava a entrega e logo lhe

custava uma fortuna ter que carregar com os custos de voltar a transportá-la?

Jessi suspirou de novo, tão temerosa de abrir a caixa como de não fazê-lo.

Ao final foi quão universitária nunca tinha um centavo a que se encarregou de tomar a

decisão.

—Perfeito. Pois então façamo-lo. Abram a caixa.

Vinte minutos depois, os repartidores tinham posto a boa cobrança a assinatura rabiscada

pela Jessi e partiram, levando consigo os restos da caixa.

E agora Jessi, em pé ante o objeto, contemplava-o com curiosidade. Não era um sarcófago

depois de tudo. De fato, a maior parte do conteúdo da caixa resultou ser um recheio protetor

acompanhado de uma grande quantidade de papel.

11

Os repartidores rebuscaram entre capas e mais capas de recheio misturado até extrair um

espelho e, depois de perguntar onde queria que o pusessem, foram para as estantes e o deixaram

apoiado nelas.

Trinta centímetros mais alto que Jessi, o marco do espelho reluzia com suaves brilhos

dourados. Formas e símbolos esculpidos de tal uniformidade e coesão que pareciam implicar um

sistema de escritura que cobriam até o último centímetro daquele grande adorno. Jessi entreabriu

os olhos e ficou a examinar as talhas, mas sua especialidade não era a lingüística, e os símbolos

não se correspondiam com nada que, sem rebuscar em livros ou notas, pudesse identificar como

uma letra, palavra ou símbolo. Dentro do pomposo marco dourado, as bordas exteriores do cristal

prateado se achavam turvados pelo que parecia ser alguma classe de nebulosa mancha negra,

mas, além disso, o espelho era assombrosamente limpo. Jessi imaginou que em algum momento

de sua existência se teria quebrado e sido substituído, com o que ao final resultaria ser séculos

mais jovem que o marco. Nenhum espelho da antigüidade tinha conseguido alcançar semelhante

nível de claridade. Embora os espelhos artificiais mais antigos descobertos até o momento pelos

arqueólogos se remontavam ao ano 6200 a.C., não eram feitos de cristal, mas sim de obsidiana

polida. Os primeiros espelhos de cristal de um tamanho realmente significativo — painéis de

metro por metro e meio— não se fizeram até 1680 pelo vidraceiro italiano Bernardo Perrotto para

o Salão dos Espelhos do palácio do Versalles, encarregados pelo extravagante Rei Sol, Luis XlV. Os

excepcionais espelhos de cristal das dimensões do que Jessi tinha diante de si — com seus

impressionantes quase dois metros de altura— geralmente resultavam ter só umas quantas

centenas de anos, no melhor dos casos.

Tendo em vista como parecia antigo o azougue daquele, devia ter menos de um século de

antigüidade, e ninguém tinha enlouquecido ou morrido ao envenenar-se lentamente por mercúrio

enquanto o fazia. Muitos chapeleiros e fabricantes de espelhos tinham pagado com a vida sua

maneira de ganhar o sustento, mas por sorte isso já pertencia ao passado.

Jessi voltou a entreabrir os olhos, pensativa, e submeteu o espelho a um minucioso

escrutínio. A arqueóloga que levava por dentro morria de vontade de conhecer a procedência

daquela peça, e já começava a se perguntar se o marco estaria datado com exatidão.

Franziu o sobrecenho. Para que podia querer o professor um espelho, em todo caso? Essa

classe de objetos não correspondia em nada com seus gostos habituais, decantados para as

reproduções de armas e relógios antigos como o astrolábio alemão do século XVI que adornava

seu escritório. E como podia permitir o professor adquirir com seu salário acadêmico algo que

valia «um montão de grana»?

Jessi tirou a chave do bolso dos jeans e deu meia volta para ir embora. Fazia o que lhe

tinha pedido o professor. Ela já tinha terminado.

Apagou a luz e no momento em que se dispunha a sair pela porta sentiu um calafrio. O

pêlo da nuca se arrepiou de repente com um súbito formigamento, como se acabasse de eletrizar-

se. O coração começou a palpitar freneticamente, e teve a súbita e terrível certeza de que a estavam

observando.

Do modo em que se observava a uma presa.

Com um estremecimento, Jessi voltou novamente para o espelho.

Suavemente iluminado pela pálida claridade azulada do protetor de tela do computador,

o artefato apresentava um aspecto fantasmal. O dourado tornou se prateado; o azougue do

espelho se obscureceu e estava povoado de sombras.

E então algo se moveu dentro daquelas sombras.

12

Jessi tragou ar com uma inspiração tão brusca que se engasgou e começou a tossir

enquanto gesticulava em busca do interruptor d a luz.

Uma súbita corrente de claridade caiu do teto e alagou a habitação.

Jessi cravou o olhar no cristal oblongo e apertou a garganta com uma mão ao tempo que

tragava convulsivamente.

Seu reflexo lhe devolveu o olhar.

Passado um instante, Jessi fechou os olhos. Logo os abriu de um golpe. Voltou a olhar no

espelho.

Só viu si mesma.

Um calafrio atrás de outro lhe subia pelas costas. O pulso freneticamente no oco do

pescoço sob a palma da mão. Jessi abriu muito os olhos e percorreu a habitação com o olhar, entre

nervosa e assustada.

O escritório do professor estava exatamente como devia estar. Passado um instante que

lhe fez eterno, Jessi tentou rir. Mas o que tivesse devido ser uma gargalhada se converteu em um

ofego entrecortado que ressoou por todo o escritório com um sem-fim de eco desagradáveis, como

se a quantidade de metros quadrados disponível e o espaço realmente ocupado não coincidissem

de tudo.

— Jessi, começaram a afrouxar os parafusos — sussurrou. Estava no escritório do

professor, a sós com um espelho e sua imaginação hiperativa.

Jessi sacudiu a cabeça, voltou-se, apagou a luz e esta vez fechou a porta energicamente e

sem olhar atrás.

Cruzou o corredor com rápidas pernadas, saiu ao estacionamento na parte de atrás e se

encaminhou para seu carro, tão depressa que deixou a seu passo uma esteira de folhas vermelhas

e douradas.

Quanto maior era a distância que se interpunha entre ela e o edifício, mais ridícula se

sentia Jessi. Como tinha chegado a assustar-se dessa maneira só porque era de noite e estava

sozinha no campus? Algum dia trabalharia em alguma escavação arqueológica de qualquer rincão

perdido do mundo, muito provavelmente a altas horas da noite e às vezes sozinha. Não podia

permitir-se essa classe de fantasias. Havia momentos, entretanto, nos que a imaginação começava

a fazer das suas, sobre tudo quando tocava um broche druida de dois mil e quinhentos anos ou

examinava uma espada fabulosa do período de La Tène (segundo período da idade do ferro -

500ac). Certas relíquias do passado pareciam conter pequenas quantidades de energia, o resíduo

das vidas cheias de paixões de quem as havia tocado.

Embora nunca nada nem remotamente parecido ao que ela acreditou ver fazia uns

instantes.

—Que diabos foi isso? —resmungou, ao tempo que sentia um último estremecimento—.

Deus, está claro que levo o sexo metido no cérebro.

Ver em ação ao bonitão e seu ruiva fazia um momento parecia havê-la afetado

profundamente. Isso, combinado com o esgotamento e a pouca luz, decidiu Jessi firmemente

enquanto abria a porta de seu carro e se sentava ao volante, teve que ser muito para sua mente e,

por um instante, tinha-lhe feito ter uma espécie de alucinação/fantasia com os olhos abertos.

Porque por um instante tinha estado convencida de ver um homem meio nu, um deus do

sexo feito homem, para falar a verdade em pé no escritório do Keene, que lhe devolvia o olhar.

Deixou-se enganar pela luz, algum estranho jogo de sombras, devia ser isso.

Um homem imponente, obscuramente belo e musculoso, que gotejava poder. E avidez. E

sexo. A classe de sexo do que nunca chegam a desfrutar, as garotas boas.

13

«OH, querida, precisa encontrar um namorado!»