O Grande Conflito por Ellen G. White - Versão HTML

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O Grande Conflito

Ellen G. White

Índice:

Introdução / 7

I. O Destino do Mundo

1 - Predito o Destino do Mundo / 17

2 - O Valor dos Mártires / 39

3 - Como Começaram as Trevas Morais / 49

4 - Um Povo que Difunde Luz / 61

5 - Arautos de uma Era Melhor / 79

6 - Dois Heróis da Idade Média / 97

7 - A Influência de um Bom Lar / 120

8 - O Poder Triunfante da Verdade / 145

II. Despertam as Nações

9 - A Luz na Suíça / 171

10 - A Europa Desperta / 185

11 - Os Príncipes Amparam a Verdade / 197

12 - Os Nobres da França / 211

13 - A Liberdade nos Países Baixos / 237

14 - Progressos na Inglaterra / 245

15 - A Escritura Sagrada e a Revolução Francesa / 265

16 - O Mais Sagrado Direito do Homem / 289

III. Esperança Triunfante

17 - A Esperança que Infunde Alegria / 299

18 - Uma Profecia Muito Significativa / 317

19 - Luz Para os Nossos Dias / 343

20 - Um Grande Movimento Mundial / 355

21 - A Causa da Degradação Atual / 375

22 - Profecias Alentadoras / 391

23 - O Santuário Celestial, Centro de Nossa Esperança / 409

24 - Quando Começa o Julgamento Divino / 423

25 - A Imutável Lei de Deus / 433

26 - Restauração da Verdade / 451

27 - A Vida que Satisfaz – Como Alcançar Paz de Alma / 461

IV. A Única Salvaguarda

28 - O Grande Juízo Investigativo / 479

29 - Por que Existe o Sofrimento / 492

30 - O Pior Inimigo do Homem, e Como Vencê-lo / 505

31 - Invisíveis Defensores do Homem / 511

32 - Os Ardis de Satanás / 518

33 - É o Homem Imortal? / 531

34 - Oferece o Espiritismo Alguma Esperança? / 551

35 - Ameaça à Consciência /563

36 - O Maior Perigo Para o Lar e a Vida / 582

37 - Nossa Única Salvaguarda / 593

38 - O Último Convite Divino / 603

39 - Aproxima-se o Tempo de Angústia / 613

40 - O Livramento dos Justos / 635

41 - Será Desolada a Terra / 653

42 - O Final e Glorioso Triunfo / 662

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Introdução _ Pág. 7

Antes que o pecado entrasse no mundo, Adão gozava plena comunhão com seu Criador.

Desde, porém, que o homem se separou de Deus pela transgressão, a raça humana ficou

privada desse alto privilégio. Pelo plano da redenção, entretanto, abriu-se um caminho

mediante o qual os habitantes da Terra podem ainda ter ligação com o Céu. Deus Se tem

comunicado com os homens mediante o Seu Espírito; e a luz divina tem sido comunicada

ao mundo pelas revelações feitas a Seus servos escolhidos. “Homens santos de Deus

falaram inspirados pelo Espírito Santo.” II Ped. 1:21.

Durante os primeiros vinte e cinco séculos da história humana não houve nenhuma

revelação escrita. Aqueles dentre os homens que haviam sido feitos receptáculos das

revelações divinas comunicavam estas verbalmente aos seus descendentes, passando

assim o seu conhecimento para gerações sucessivas. A revelação escrita data de Moisés,

que foi o primeiro compilador dos fatos até então revelados, os quais enfeixou em

volume. Esse trabalho prosseguiu por espaço de mil e seiscentos anos – desde Moisés, o

autor do Gênesis, até João o evangelista, que nos transmitiu por escrito os mais sublimes

fatos do evangelho.

A Escritura Sagrada aponta a Deus como seu autor; no entanto, foi escrita por mãos

humanas, e no variado estilo de seus diferentes livros apresenta os característicos dos

diversos escritores. As verdades reveladas são dadas por inspiração de Deus (II Tim.

3:16); acham-se, contudo, expressas em palavras de homens. O Ser infinito, por meio de

Seu Santo Espírito, derramou luz no entendimento e coração de Seus servos. Deu sonhos

e visões, símbolos e figuras; e aqueles a quem a verdade foi assim revelada,

concretizaram os pensamentos em linguagem humana.

Os Dez Mandamentos foram pronunciados pelo próprio Deus, e por Sua própria mão

foram escritos. São de redação divina e não humana. Mas a Escritura Sagrada, com suas

divinas verdades, expressas em linguagem de homens, apresenta uma união do divino

com o humano. União semelhante existiu na natureza de Cristo, que era o Filho de Deus

e Filho do homem. Assim, é verdade com relação à Escritura, como o foi em relação a

Cristo, que “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós”. João 1:14.

Escritos em épocas diferentes, por homens de origem e posição diversas, e variando

entre si quanto à sua capacidade intelectual e espiritual, os livros da Bíblia oferecem um

singular contraste de estilos e uma variedade de formas dos assuntos expostos. A

fraseologia dos diferentes escritos diverge, expondo uns os mesmos fatos com maior

clareza do que outros. E como sucede, às vezes, tratarem um mesmo assunto sob

aspectos e relações diferentes, pode parecer ao leitor de ocasião e imbuído de algum

preconceito, que os seus conceitos divergem, quando um meditado estudo deixa

transparecer claramente o seu fundo harmônico.

Sendo tratada por individualidades distintas, a verdade nos é assim apresentada nos

seus diferentes aspectos. Um escritor se impressiona mais com uma face da questão e se

especializa naqueles pontos que têm relação mais direta com as suas experiências

pessoais o que ele melhor percebe e aprecia, ao passo que outro prefere encará-la por

outro prisma; cada qual, porém, sob a direção de um mesmo Espírito apresenta aquilo

que mais particular impressão exerce sobre o seu espírito, resultando daí uma variedade

de aspectos da mesma verdade, mas perfeitamente harmônicos entre si. As verdades

assim reveladas formam um conjunto perfeito que admiravelmente se adapta às

necessidades do homem em todas as condições e experiências da vida.

É assim que Deus Se agradou comunicar Sua verdade ao mundo por meio de agências

humanas que Ele próprio, pelo Seu Espírito, faz idôneas para essa missão, dirigindo-lhes

a mente no tocante ao que devem falar ou escrever. Os tesouros divinos são deste modo

confiados a vasos terrestres sem contudo nada perderem de sua origem celestial. O

testemunho nos é transmitido nas expressões imperfeitas de nossa linguagem,

conservando todavia o seu caráter de testemunho de Deus, no qual o crente submisso

descobre a virtude divina, superabundante em graça e verdade.

Em Sua Palavra, Deus conferiu aos homens o conhecimento necessário à salvação. As

Santas Escrituras devem ser aceitas como autorizada e infalível revelação de Sua

vontade. Elas são a norma do caráter, o revelador das doutrinas, a pedra de toque da

experiência religiosa. “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a

repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus

seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” II Tim. 3:16 e 17.

Todavia, o fato de que Deus revelou Sua vontade aos homens por meio de Sua Palavra,

não tornou desnecessária a contínua presença e direção do Espírito Santo. Ao contrário, o

Espírito foi prometido por nosso Salvador para aclarar a Palavra a Seus servos, para

iluminar e aplicar os seus ensinos. E visto ter sido o Espírito de Deus que inspirou a

Escritura Sagrada, é impossível que o ensino do Espírito seja contrário ao da Palavra.

O Espírito não foi dado – nem nunca o poderia ser – a fim de sobrepor-Se à Escritura;

pois esta explicitamente declara ser ela mesma a norma pela qual todo ensino e

experiência devem ser aferidos. Diz o apóstolo João: “Não creiais a todo o espírito, mas

provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no

mundo.” I João 4:1. E Isaías declara: “À lei e ao Testemunho! se eles não falarem

segundo esta palavra, não haverá manhã para eles.” Isa. 8:20.

Muito descrédito tem acarretado à obra do Espírito Santo o erro de certa gente que,

presumindo-se iluminada por Ele, declara não mais necessitar das instruções da palavra

divina. Tais pessoas agem sob impulsos que reputam como a voz de Deus às suas almas.

Entretanto o espírito que as rege não é de Deus. Essa docilidade às impressões de

momento, com desprezo manifesto do que ensina a Bíblia, só pode resultar em confusão

e ruína, favorecendo os desígnios do maligno. Como o ministério do Espírito tem

importância vital para a igreja de Cristo, é o decidido empenho de Satanás, por meio

dessas excentricidades de gente desequilibrada e fanática, cobrir de opróbrio a obra do

Espírito Santo e induzir o povo a negligenciar a fonte de virtude que Deus proveu para o

Seu povo.

Em harmonia com a Palavra de Deus, deveria Seu Espírito continuar Sua obra durante

todo o período da dispensação evangélica. Durante os séculos em que as Escrituras do

Antigo Testamento bem como as do Novo estavam sendo dadas, o Espírito Santo não

cessou de comunicar luz a mentes individuais, independentemente das revelações a

serem incorporadas no cânon sagrado. A Bíblia mesma relata como, mediante o Espírito

Santo, os homens receberam advertências, reprovações, conselhos e instruções, em

assuntos de nenhum modo relativos à outorga das Escrituras. E faz-se menção de

profetas de épocas várias, de cujos discursos nada há registrado. Semelhantemente,

após a conclusão do cânon das Escrituras, o Espírito Santo deveria ainda continuar a Sua

obra, esclarecendo, advertindo e confortando os filhos de Deus.

Jesus Cristo prometeu a Seus discípulos: O “Consolador, o Espírito Santo, que o Pai

enviará em Meu nome, Esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo

quanto vos tenho dito”. João 14:26. “Quando vier aquele Espírito de verdade, Ele vos

guiará em toda a verdade; ... e vos anunciará o que há de vir.” João 16:13. As Escrituras

claramente ensinam que estas promessas, longe de se limitarem aos dias apostólicos, se

estendem à igreja de Cristo em todos os séculos. O Salvador afirma a Seus seguidores:

“Estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.” Mat. 28:20. E Paulo

declara que os dons e manifestações do Espírito foram postos na igreja para “o

aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de

Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a

varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”. Efés. 4:12 e 13.

A favor dos crentes da igreja de Éfeso o apóstolo Paulo orava “para que o Deus de nosso

Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no

pleno conhecimento dEle, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a

esperança do seu chamamento. . . e qual a suprema grandeza do Seu poder para com os

que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder”. Efés. 1:17-19. Era a ministração

do Espírito na iluminação do entendimento e desvendação dos olhos do espírito humano

para penetração das coisas profundas da Palavra de Deus, que o apóstolo suplicava para

a igreja de Éfeso.

Depois da maravilhosa manifestação do Espírito Santo no dia de Pentecoste, Pedro

exortou o povo a arrepender-se e batizar-se em nome de Cristo, para a remissão de seus

pecados; e disse ele: “E recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz

respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus

nosso Senhor chamar.” Atos 2:38 e 39.

Em imediata relação com as cenas do grande dia de Deus, o Senhor, pelo profeta Joel,

prometeu uma manifestação especial de Seu Espírito (Joel 2:28). Esta profecia recebeu

cumprimento parcial no derramamento do Espírito, no dia de Pentecoste. Mas atingirá

seu pleno cumprimento na manifestação da graça divina que acompanhará a obra final

do Evangelho.

A grande controvérsia entre o bem e o mal há de assumir proporções cada vez maiores

até o seu final desenlace. Em todas as épocas a ira de Satanás esteve voltada contra a

igreja de Cristo, motivo pelo qual Deus a dotou do Seu Espírito e de Sua graça para que

pudesse enfrentar todas as oposições do mal. Ao receberem os apóstolos a incumbência

de levar o evangelho até os confins da Terra e escrevê-lo para as gerações futuras, Deus

lhes deu a iluminação do Seu Espírito. À medida, porém, que a igreja se aproxima da

hora de sua libertação definitiva, Satanás há de agir com redobrada energia. Ele desceu a

vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. Apoc. 12:12. Ele operará “com

todo o poder, e sinais e prodígios de mentira”. II Tess. 2:9. Durante seis mil anos esse

espírito superior, que ocupou outrora lugar preeminente entre os anjos de Deus, tem

estado devotado a uma obra de destruição e engano. E toda habilidade e astúcia

satânicas adquiridas, toda a crueldade desenvolvida nessa luta de longos séculos, serão

empregadas contra o povo de Deus no conflito final. É nesse tempo cheio de perigos que

os seguidores de Cristo terão de anunciar ao mundo a mensagem do segundo advento de

Cristo, a fim de preparar um povo “imaculado e irrepreensível” para a volta do Senhor. II

Ped. 3:14. Então, como nos dias dos apóstolos, a igreja terá necessidade de uma dotação

especial da graça e poder divinos.

Mediante a iluminação do Espírito Santo, as cenas do prolongado conflito entre o bem e o

mal foram patenteadas à autora destas páginas. De quando em quando me foi permitido

contemplar a operação, nas diversas épocas, do grande conflito entre Cristo, o Príncipe

da vida, o Autor de nossa salvação, e Satanás, o príncipe do mal, o autor do pecado, o

primeiro transgressor da santa lei de Deus. A inimizade de Satanás para com Cristo

manifestou-se contra os Seus seguidores. O mesmo ódio aos princípios da lei de Deus, o

mesmo expediente de engano, em virtude do qual se faz o erro parecer verdade, pelo

qual a lei divina é substituída pelas leis humanas, e os homens são levados a adorar a

criatura em lugar do Criador, podem ser divisados em toda a história do passado. Os

esforços de Satanás para representar de maneira falsa o caráter de Deus, para fazer com

que os homens nutram um conceito errôneo do Criador, e assim O considerem com temor

e ódio em vez de amor; seu empenho para pôr de parte a lei divina, levando o povo a

julgar-se livre de suas reivindicações e sua perseguição aos que ousam resistir a seus

enganos, têm sido prosseguidos com persistência em todos os séculos. Podem ser

observados na história dos patriarcas, profetas e apóstolos, mártires e reformadores.

No grande conflito final, como em todas as eras anteriores, Satanás empregará os

mesmos expedientes, manifestará o mesmo espírito, e trabalhará para o mesmo fim.

Aquilo que foi, será, com a exceção de que a luta vindoura se assinalará por uma

intensidade terrível, tal como o mundo jamais testemunhou. Os enganos de Satanás

serão mais sutis, seus assaltos mais decididos. Se possível fora, transviaria os escolhidos

(Mar. 13:22).

A medida que o Espírito de Deus me ia revelando à mente as grandes verdades de Sua

Palavra, e as cenas do passado e do futuro, era-me ordenado tornar conhecido a outros o

que assim fora revelado – delineando a história do conflito nas eras passadas, e

especialmente apresentando-a de tal maneira a lançar luz sobre a luta do futuro, em

rápida aproximação. Para alcançar esse propósito, esforcei-me por selecionar e agrupar

fatos da história da igreja de tal maneira a esboçar o desdobramento das grandes

verdades probantes que em diferentes períodos foram dadas ao mundo, as quais

excitaram a ira de Satanás e a inimizade de uma igreja que ama o mundo, verdades que

têm sido mantidas pelo testemunho dos que “não amaram suas vidas até à morte”.

Nestes relatos podemos ver uma prefiguração do conflito perante nós. Olhando-os à luz

da Palavra de Deus, e pela iluminação de Seu Espírito, podemos ver a descoberto os ardis

do maligno e os perigos que deverão evitar os que serão achados “irrepreensíveis” diante

do Senhor em Sua vinda.

Os grandes acontecimentos que assinalaram o progresso da Reforma nas épocas

passadas, constituem assunto da História, bastante conhecidos e universalmente

reconhecidos pelo mundo protestante; são fatos que ninguém pode negar. Esta história

apresentei-a de maneira breve, de acordo com o escopo deste livro e com a brevidade

que necessariamente deveria ser observada, havendo os fatos sido condensados no

menor espaço compatível com sua devida compreensão. Em alguns casos em que algum

historiador agrupou os fatos de tal modo a proporcionar, em breve, uma visão

compreensiva do assunto, ou resumiu convenientemente os pormenores, suas palavras

foram citadas textualmente; nalguns outros casos, porém, não se nomeou o autor, visto

como as transcrições não são feitas com o propósito de citar aquele escritor como

autoridade, mas porque sua declaração provê uma apresentação do assunto, pronta e

positiva. Narrando a experiência e perspectivas dos que levam avante a obra da Reforma

em nosso próprio tempo, fez-se uso semelhante de suas obras publicadas.

O objetivo deste livro não consiste tanto em apresentar novas verdades concernentes às

lutas dos tempos anteriores, como em aduzir fatos e princípios que têm sua relação com

os acontecimentos vindouros. Contudo, encarados como uma parte do conflito entre as

forças da luz e das trevas, vê-se que todos esses relatos do passado têm nova

significação; e por meio deles projeta-se uma luz no futuro, iluminando a senda daqueles

que, semelhantes aos reformadores dos séculos passados, serão chamados, mesmo com

perigo de todos os bens terrestres, para testificar “da Palavra de Deus, e do testemunho

de Jesus Cristo”.

Desdobrar as cenas do grande conflito entre a verdade e o erro; revelar os ardis de

Satanás e os meios por que lhe podemos opor eficaz resistência; apresentar uma solução

satisfatória do grande problema do mal, derramando luz sobre a origem e a disposição

final do pecado, de tal maneira a manifestar-se plenamente a justiça e benevolência de

Deus em todo o Seu trato com Suas criaturas; e mostrar a natureza santa, imutável de

Sua lei – eis o objetivo deste livro. Que mediante sua influência almas se possam libertar

do poder das trevas, e tornar-se participantes “da herança dos santos na luz”, para

louvor dAquele que nos amou e Se deu a Si mesmo por nós, é a fervorosa oração da

autora.

E.G.W.

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I. O Destino do Mundo

1 - Predito o Destino do Mundo

Pág. 17

“Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! mas

agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus

inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas; e te

derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra

sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação.” Luc. 19:42-44.

Do cimo do Monte das Oliveiras, Jesus olhava sobre Jerusalém. Lindo e calmo era o

cenário que diante dEle se desdobrava. Era o tempo da Páscoa, e de todas as terras os

filhos de Jacó se haviam ali reunido para celebrar a grande festa nacional. Em meio de

hortos e vinhedos, e declives verdejantes juncados das tendas dos peregrinos, erguiam-

se as colinas terraplenadas, os majestosos palácios e os maciços baluartes da capital de

Israel. A filha de Sião parecia dizer em seu orgulho: “Estou assentada como rainha, e não

… verei o pranto”, sendo ela tão formosa então e julgando-se tão segura do favor do Céu

como quando, séculos antes, o trovador real cantara: “Formoso de sítio, e alegria de toda

a terra é o monte de Sião … a cidade do grande Rei.” Sal. 48:2. Bem à vista estavam os

magnificentes edifícios do templo. Os raios do Sol poente iluminavam a brancura de neve

de suas paredes de mármore e punham reflexos no portal de ouro, na torre e pináculo.

Qual “perfeição da

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Pág. 18

formosura”, levantava-se ele como o orgulho da nação judaica. Que filho de Israel

poderia contemplar aquele cenário sem um estremecimento de alegria e admiração?!

Entretanto, pensamentos muito diversos ocupavam a mente de Jesus. “Quando ia

chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela.” Luc. 19:41. Por entre o universal regozijo

de Sua entrada triunfal, enquanto se agitavam ramos de palmeiras, enquanto alegres

hosanas despertavam ecos nas colinas, e milhares de vozes O aclamavam Rei, o

Redentor do mundo achava-Se oprimido por súbita e misteriosa tristeza. Ele, o Filho de

Deus, o Prometido de Israel, cujo poder vencera a morte e do túmulo chamara a seus

cativos, estava em pranto, não em conseqüência de uma mágoa comum, senão de

agonia intensa, irreprimível.

Suas lágrimas não eram por Si mesmo, posto que bem soubesse para onde Seus passos

O levariam. Diante dEle jazia o Getsêmani, cenário de Sua próxima agonia. Estava

também à vista a porta das ovelhas, através da qual durante séculos tinham sido

conduzidas as vítimas para o sacrifício, e que se Lhe deveria abrir quando fosse “como

um cordeiro” “levado ao matadouro”. Isa. 53:7. Não muito distante estava o Calvário, o

local da crucifixão. Sobre o caminho que Cristo logo deveria trilhar, cairia o terror de

grandes trevas ao fazer Ele de Sua alma uma oferta pelo pecado. Todavia, não era a

contemplação destas cenas que lançava sobre Ele aquela sombra, em tal hora de alegria.

Nenhum sinal de Sua própria angústia sobre-humana nublava aquele espírito abnegado.

Chorava pela sorte dos milhares de Jerusalém – por causa da cegueira e impenitência

daqueles que Ele viera abençoar e salvar.

A história de mais de mil anos do favor especial de Deus e de Seu cuidado protetor

manifestos ao povo escolhido, estava patente aos olhos de Jesus. Ali estava o Monte

Moriá, onde o filho da promessa, como vítima submissa, havia sido ligado ao altar –

emblema da oferenda do Filho de Deus (Gên. 22:9). Ali, o concerto de bênçãos e a

gloriosa promessa messiânica tinham sido confirmados ao pai dos crentes (Gên. 22:16-

18). Ali as chamas do sacrifício, ascendendo da eira de Ornã para o

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Pág. 19

céu, haviam desviado a espada do anjo destruidor (I Crôn. 21) – símbolo apropriado do

sacrifício e mediação do Salvador em prol do homem culpado. Jerusalém fora honrada

por Deus acima de toda a Terra. Sião fora eleita pelo Senhor, que a desejara “para Sua

habitação” (Sal. 132:13). Ali, durante séculos, santos profetas haviam proferido

mensagens de advertência. Sacerdotes ali haviam agitado os turíbulos, e a nuvem de

incenso, com as orações dos adoradores, subira perante Deus. Ali, diariamente, se

oferecera o sangue dos cordeiros mortos, apontando para o vindouro Cordeiro de Deus.

Ali, Jeová revelara Sua presença na nuvem de glória, sobre o propiciatório. Repousara ali

a base daquela escada mística, ligando a Terra ao Céu (Gên. 28:12; João 1:51) – escada

pela qual os anjos de Deus desciam e subiam, e que abria ao mundo o caminho para o

lugar santíssimo. Houvesse Israel, como nação, preservado a aliança com o Céu,

Jerusalém teria permanecido para sempre como eleita de Deus (Jer. 17:21-25). Mas a

história daquele povo favorecido foi um registro de apostasias e rebelião. Haviam

resistido à graça do Céu, abusado de seus privilégios e menosprezado as oportunidades.

Posto que Israel tivesse zombado dos mensageiros de Deus, desprezado Suas palavras e

perseguido Seus profetas (II Crôn. 36:16), Ele ainda Se lhes manifestara como “o

Senhor, Deus misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e

verdade” (Êxo. 34:6); apesar das repetidas rejeições, Sua misericórdia continuou a

interceder. Com mais enternecido amor que o de pai pelo filho de seus cuidados, Deus

lhes havia enviado “Sua palavra pelos Seus mensageiros, madrugando, e enviando-lhos;

porque Se compadeceu de Seu povo e da Sua habitação”. II Crôn. 36:15. Quando

admoestações, rogos e censuras haviam falhado, enviou-lhes o melhor dom do Céu, mais

ainda, derramou todo o Céu naquele único dom.

O próprio Filho de Deus foi enviado para instar com a cidade impenitente. Foi Cristo que

trouxe Israel, como uma boa vinha, do Egito (Sal. 80:8). Sua própria mão havia lançado

fora

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Pág. 20

os gentios de diante deles. Plantou-a “em um outeiro fértil”. Seu protetor cuidado

cercara-a em redor. Enviou Seus servos para cultivá-la. “Que mais se podia fazer à Minha

vinha”, exclama Ele, “que Eu lhe não tenha feito?” Posto que quando Ele esperou que

“desse uvas, veio a produzir uvas bravas” (Isa. 5:1-4), ainda com esperança compassiva

de encontrar frutos, veio em pessoa à Sua vinha, para que porventura pudesse ser salva

da destruição. Cavou em redor dela, podou-a e protegeu-a. Foi incansável em Seus

esforços para salvar esta vinha que Ele próprio plantara.

Durante três anos o Senhor da luz e glória entrara e saíra por entre o Seu povo. Ele

“andou fazendo o bem, e curando a todos os oprimidos do diabo” (Atos 10:38), aliviando

os quebrantados de coração, pondo em liberdade os que se achavam presos, restaurando

a vista aos cegos, fazendo andar aos coxos e ouvir aos surdos, purificando os leprosos,

ressuscitando os mortos e pregando o evangelho aos pobres (Luc. 4:18; Mat. 11:5). A

todas estas classes igualmente foi dirigido o gracioso convite: “Vinde a Mim, todos os que

estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.” Mat. 11:28.

Conquanto Lhe fosse recompensado o bem com o mal e o Seu amor com o ódio (Sal.

109:5), Ele prosseguiu firmemente em Sua missão de misericórdia. Jamais eram

repelidos os que buscavam a Sua graça. Como viajante sem lar, tendo a ignomínia e a

penúria como porção diária, viveu Ele para ministrar às necessidades e abrandar as

desgraças humanas, para insistir com os homens a aceitarem o dom da vida. As ondas de

misericórdia, rebatidas por aqueles corações obstinados, retornavam em uma vaga mais

forte de terno e inexprimível amor. Mas Israel se desviara de seu melhor Amigo e único

Auxiliador. Os rogos de Seu amor haviam sido desprezados, Seus conselhos repelidos,

ridicularizadas Suas advertências.

A hora de esperança e perdão passava-se rapidamente; a taça da ira de Deus, por tanto

tempo adiada, estava quase cheia. As nuvens que haviam estado a acumular-se durante

séculos de apostasia e rebelião, ora enegrecidas de calamidades, estavam prestes a

desabar sobre um povo criminoso; e Aquele

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Pág. 21

que unicamente os poderia salvar da condenação iminente, fora menosprezado,

injuriado, rejeitado e seria logo crucificado. Quando Cristo estivesse suspenso da cruz do

Calvário, teria terminado o tempo de Israel como nação favorecida e abençoada por

Deus. A perda de uma alma que seja é calamidade infinitamente maior que os proveitos

e tesouros de todo um mundo; entretanto, quando Cristo olhava sobre Jerusalém,

achava-se perante Ele a condenação de uma cidade inteira, de toda uma nação – sim,

aquela cidade e nação que foram as escolhidas de Deus, Seu tesouro peculiar.

Profetas haviam chorado a apostasia de Israel, e as terríveis desolações que seus

pecados atraíram. Jeremias desejava que seus olhos fossem uma fonte de lágrimas, para

que pudesse chorar dia e noite pelos mortos da filha de seu povo, pelo rebanho do

Senhor que fora levado em cativeiro (Jer. 9:1; 13:17). Qual não era, pois, a dor dAquele

cujo olhar profético abrangia não os anos mas os séculos! Contemplava Ele o anjo

destruidor com a espada levantada contra a cidade que durante tanto tempo fora a

morada de Jeová. Do cume do Monte das Oliveiras, no mesmo ponto mais tarde ocupado

por Tito e seu exército, olhava Ele através do vale para os pátios e pórticos sagrados, e,

com a vista obscurecida pelas lágrimas, via em terrível perspectiva, os muros rodeados

de hostes estrangeiras. Ouvia o tropel de exércitos dispondo-se para a guerra. Distinguia

as vozes de mães e crianças que, na cidade sitiada, bradavam pedindo pão. Via

entregues às chamas o santo e belo templo, os palácios e torres, e no lugar em que eles

se erigiam, apenas um monte de ruínas fumegantes.

Olhando através dos séculos futuros, via o povo do concerto espalhado em todos os

países, semelhantes aos destroços de um naufrágio em praia deserta. Nos castigos

prestes a cair sobre Seus filhos, não via Ele senão o primeiro gole daquela taça de ira que

no juízo final deveriam esgotar até às fezes. A piedade divina, o terno amor encontraram

expressão nestas melancólicas palavras: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e

apedrejas os que te são enviados! quantas vezes

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quis Eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e

tu não quiseste!” Mat. 23:37. Oh! se houveras conhecido, como nação favorecida acima

de todas as outras, o tempo de tua visitação e as coisas que pertencem à tua paz! Tenho

contido o anjo da justiça, tenho-te convidado ao arrependimento, mas em vão. Não é

meramente a servos, enviados e profetas que tens repelido e rejeitado, mas ao Santo de

Israel, teu Redentor. Se és destruída, tu unicamente és a responsável. “E não quereis vir

a Mim para terdes vida.” João 5:40.

Cristo viu em Jerusalém um símbolo do mundo endurecido na incredulidade e rebelião, e

apressando-se ao encontro dos juízos retribuidores de Deus. As desgraças de uma raça

decaída, oprimindo-Lhe a alma, arrancavam de Seus lábios aquele clamor extremamente

amargurado. Viu a história do pecado traçada pelas misérias, lágrimas e sangue

humanos; o coração moveu-se-Lhe de infinita compaixão pelos aflitos e sofredores da

Terra; angustiava-Se por aliviar a todos. Contudo, mesmo a Sua mão não poderia

demover a onda das desgraças humanas; poucos procurariam a única fonte de auxílio.

Ele estava disposto a derramar a alma na morte, a fim de colocar a salvação ao seu

alcance; poucos, porém, viriam a Ele para que pudessem ter vida.

A Majestade dos Céus em pranto! O Filho do infinito Deus perturbado em espírito,

curvado em angústia! Esta cena encheu de espanto o Céu inteiro. Revela-nos a imensa

malignidade do pecado; mostra quão árdua tarefa é, mesmo para o poder infinito, salvar

ao culpado das conseqüências da transgressão da lei de Deus. Jesus, olhando para a

última geração, viu o mundo envolto em engano semelhante ao que causou a destruição

de Jerusalém. O grande pecado dos judeus foi rejeitarem a Cristo; o grande pecado do

mundo cristão seria rejeitarem a lei de Deus, fundamento de Seu governo no Céu e na

Terra. Os preceitos de Jeová seriam desprezados e anulados. Milhões na servidão do

pecado, escravos de Satanás, condenados a sofrer a segunda morte, recusar-se-iam a

escutar as palavras

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de verdade no dia de sua visitação. Terrível cegueira! estranha presunção!

Dois dias antes da Páscoa, quando Cristo pela última vez Se havia afastado do templo,

depois de denunciar a hipocrisia dos príncipes judeus, novamente sai com os discípulos

para o Monte das Oliveiras, e assenta-Se com eles no declive relvoso, sobranceiro à

cidade. Mais uma vez contempla seus muros, torres e palácios. Mais uma vez se Lhe

depara o templo em seu deslumbrante esplendor, qual diadema de beleza a coroar o

monte sagrado.

Mil anos antes, o salmista engrandecera o favor de Deus para com Israel fazendo da casa

sagrada deste a Sua morada: “Em Salém está o Seu tabernáculo, e a Sua morada em

Sião.” Sal. 76:2. Ele “elegeu a tribo de Judá; o monte de Sião, que Ele amava. E edificou

o Seu santuário como aos lugares elevados”. Sal. 78:68 e 69. O primeiro templo fora

erigido durante o período mais próspero da história de Israel. Grandes armazenamentos

de tesouros para este fim haviam sido acumulados pelo rei Davi e a planta para a sua

construção fora feita por inspiração divina (I Crôn. 28:12 e 19). Salomão, o mais sábio

dos monarcas de Israel, completara a obra. Este templo foi o edifício mais magnificente

que o mundo já viu. Contudo o Senhor declarou pelo profeta Ageu, relativamente ao

segundo templo: “A glória desta última casa será maior do que a da primeira.” “Farei

tremer todas as nações, e virá o Desejado de todas as nações, e encherei esta casa de

glória, diz o Senhor dos exércitos.” Ageu 2:9 e 7.

Depois da destruição do templo por Nabucodonosor, foi reconstruído aproximadamente

quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, por um povo que, de um longo cativeiro,

voltara a um país devastado e quase deserto. Havia então entre eles homens idosos que

tinham visto a glória do templo de Salomão e que choraram junto aos alicerces do novo

edifício porque devesse ser tão inferior ao antecedente. O sentimento que prevalecia é

vividamente descrito pelo profeta: “Quem há entre

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vós que, tendo ficado, viu esta casa na sua primeira glória? e como a vedes agora? não é

esta como nada em vossos olhos, comparada com aquela?” Ageu 2:3; Esd. 3:12. Então

foi feita a promessa de que a glória desta última casa seria maior do que a da anterior.

Mas o segundo templo não igualou o primeiro em esplendor; tampouco foi consagrado

pelos visíveis sinais da presença divina que o primeiro tivera. Não houve manifestação de

poder sobrenatural para assinalar sua dedicação. Nenhuma nuvem de glória foi vista a

encher o santuário recém-erigido. Nenhum fogo do Céu desceu para consumir o sacrifício

sobre o altar. O “shekinah” não mais habitava entre os querubins no lugar santíssimo; a

arca, o propiciatório, as tábuas do testemunho não mais deviam encontrar-se ali.

Nenhuma voz ecoava do Céu para tornar conhecida ao sacerdote inquiridor a vontade de

Jeová.

Durante séculos os judeus em vão se haviam esforçado por mostrar que a promessa de

Deus feita por Ageu se cumprira; entretanto, o orgulho e a incredulidade lhes cegavam a

mente ao verdadeiro sentido das palavras do profeta. O segundo templo não foi honrado

com a nuvem de glória de Jeová, mas com a presença viva dAquele em quem habita

corporalmente a plenitude da divindade – que foi o próprio Deus manifesto em carne. O

“Desejado de todas as nações” havia em verdade chegado a Seu templo quando o

Homem de Nazaré ensinava e curava nos pátios sagrados. Com a presença de Cristo, e

com ela somente, o segundo templo excedeu o primeiro em glória. Mas Israel afastara de

si o Dom do Céu, que lhe era oferecido. Com o humilde Mestre que naquele dia saíra de

seu portal de ouro, a glória para sempre se retirara do templo. Já eram cumpridas as

palavras do Salvador: “Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta.” Mat. 23:38.

Os discípulos ficaram cheios de espanto e admiração ante a profecia de Cristo acerca da

subversão do templo, e desejavam compreender melhor o significado de Suas palavras.

Riquezas, trabalhos e perícia arquitetônica haviam durante mais de quarenta anos sido

liberalmente expedidos para salientar os seus

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esplendores. Herodes, o Grande, nele empregara prodigamente tanto riquezas romanas

como tesouros judeus, e mesmo o imperador do mundo o tinha enriquecido com seus

dons. Blocos maciços de mármore branco, de tamanho quase fabuloso, proveniente de

Roma para este fim, formavam parte de sua estrutura; e para eles chamaram os

discípulos a atenção do Mestre, dizendo: “Olha que pedras, e que edifícios!” Mar. 13:1.

A estas palavras deu Jesus a solene e surpreendente resposta: “Em verdade vos digo que

não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” Mat. 24:2.

Com a subversão de Jerusalém os discípulos associaram os fatos da vinda pessoal de

Cristo em glória temporal a fim de assumir o trono do império do Universo, castigar os

judeus impenitentes e libertar a nação do jugo romano. O Senhor lhes dissera que viria a

segunda vez. Daí, com a menção dos juízos sobre Jerusalém, volveram o pensamento

para aquela vinda; e, como estivessem reunidos em torno do Salvador sobre o Monte das

Oliveiras, perguntaram: “Quando serão essas coisas, e que sinal haverá da Tua vinda e

do fim do mundo?” Mat. 24:3.

O futuro estava misericordiosamente velado aos discípulos. Houvessem eles naquela

ocasião compreendido perfeitamente os dois terríveis fatos – os sofrimentos e morte do

Redentor, e a destruição de sua cidade e templo – teriam sido dominados pelo terror.

Cristo apresentou diante deles um esboço dos importantes acontecimentos a ocorrerem

antes do final do tempo. Suas palavras não foram então completamente entendidas; mas

a significação ser-lhes-ia revelada quando Seu povo necessitasse da instrução nelas

dada. A profecia que Ele proferiu era dupla em seu sentido: ao mesmo tempo em que

prefigurava a destruição de Jerusalém, representava igualmente os terrores do último

grande dia.

Jesus declarou aos discípulos que O escutavam, os juízos que deveriam cair sobre o

apóstata Israel, e especialmente o castigo retribuidor que lhe sobreviria por sua rejeição

e crucifixão do Messias. Sinais inequívocos precederiam a terrível culminação.

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A hora temida viria súbita e celeremente. E o Salvador advertiu a Seus seguidores:

“Quando pois virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está

no lugar santo (quem lê, atenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os

montes.” Mat. 24:15 e 16; Luc. 21:20. Quando os símbolos idolátricos dos romanos

fossem erguidos em terra santa, a qual ia um pouco além dos muros da cidade, então os

seguidores de Cristo deveriam achar segurança na fuga. Quando fosse visto o sinal de

aviso, os que desejavam escapar não deveriam demorar-se. Por toda a terra da Judéia,

bem como em Jerusalém mesmo, o sinal para a fuga deveria ser imediatamente

obedecido. Aquele que acaso estivesse no telhado, não deveria descer à casa, mesmo

para salvar os tesouros mais valiosos. Os que estivessem trabalhando nos campos ou nos

vinhedos, não deveriam tomar tempo para voltar a fim de apanhar a roupa exterior,

posta de lado enquanto estavam a labutar no calor do dia. Não deveriam hesitar um

instante, para que não fossem apanhados pela destruição geral.

No reinado de Herodes, Jerusalém não só havia sido grandemente embelezada, mas, pela

ereção de torres, muralhas e fortalezas, em acréscimo à força natural de sua posição,

tornara-se aparentemente inexpugnável. Aquele que nesse tempo houvesse

publicamente predito sua destruição, teria sido chamado, como Noé em sua época, doido

alarmista. Mas Cristo dissera: “O céu e a Terra passarão, mas as Minhas palavras não

hão de passar.” Mat. 24:35. Por causa de seus pecados, foi anunciada a ira contra

Jerusalém, e sua pertinaz incredulidade selou-lhe a sorte.

O Senhor tinha declarado pelo profeta Miquéias: “Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de

Jacó, e vós, maiorais da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é

direito, edificando a Sião com sangue, e a Jerusalém com injustiça. Os seus chefes dão as

sentenças por presentes, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas

adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no

meio de nós? nenhum mal nos sobrevirá.” Miq. 3:9-11.

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Estas palavras descreviam fielmente os habitantes de Jerusalém, corruptos e possuídos

de justiça própria. Pretendendo embora observar rigidamente os preceitos da lei de Deus,

estavam transgredindo todos os seus princípios. Odiavam a Cristo porque a Sua pureza e

santidade lhes revelavam a iniqüidade própria; e acusavam-nO de ser a causa de todas

as angústias que lhes tinham sobrevindo em conseqüência de seus pecados. Posto que

soubessem não ter Ele pecado, declararam que Sua morte era necessária para a

segurança deles como nação. “Se O deixarmos assim”, disseram os chefes dos judeus,

“todos crerão nEle, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação.” João

11:48. Se Cristo fosse sacrificado, eles poderiam uma vez mais se tornar um povo forte,

unido. Assim raciocinavam, e concordavam com a decisão de seu sumo sacerdote de que

seria melhor morrer um homem do que perecer toda a nação.

Assim os dirigentes judeus edificaram a “Sião com sangue, e a Jerusalém com injustiça”.

E além disso, ao mesmo tempo em que mataram seu Salvador porque lhes reprovava os

pecados, tal era a sua justiça própria que se consideravam como o povo favorecido de

Deus, e esperavam que o Senhor os livrasse dos inimigos. “Portanto”, continuou o

profeta, “por causa de vós, Sião será lavrada como um campo, e Jerusalém se tornará

em montões de pedras, e o monte desta casa em lugares altos dum bosque.” Miq. 3:12.

Durante quase quarenta anos depois que a condenação de Jerusalém fora pronunciada

por Cristo mesmo, retardou o Senhor os Seus juízos sobre a cidade e nação. Maravilhosa

foi a longanimidade de Deus para com os que Lhe rejeitaram o evangelho e assassinaram

o Filho. A parábola da árvore infrutífera representava o trato de Deus para com a nação

judaica. Fora dada a ordem: “Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente?” Luc.

13:7. Mas a misericórdia divina poupara-a ainda um pouco de tempo. Muitos havia ainda

entre os judeus que eram ignorantes quanto ao caráter e obra de Cristo. E os filhos não

haviam gozado das oportunidades nem

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recebido a luz que seus pais tinham desprezado. Mediante a pregação dos apóstolos e de

seus cooperadores, Deus faria com que a luz resplandecesse sobre eles; ser-lhes-ia

permitido ver como a profecia se cumprira, não somente no nascimento e vida de Cristo,

mas também em Sua morte e ressurreição. Os filhos não foram condenados pelos

pecados dos pais; quando, porém, conhecedores de toda a luz dada a seus pais, os filhos

rejeitaram mesmo a que lhes fora concedida a mais, tornaram-se participantes dos

pecados daqueles e encheram a medida de sua iniqüidade.

A longanimidade de Deus para com Jerusalém apenas confirmou os judeus em sua

obstinada impenitência. Em seu ódio e crueldade para com os discípulos de Jesus,

rejeitaram o último oferecimento de misericórdia. Afastou Deus então deles a proteção,

retirando o poder com que restringia a Satanás e seus anjos, de maneira que a nação

ficou sob o controle do chefe que haviam escolhido. Seus filhos tinham desdenhado a

graça de Cristo, que os teria habilitado a subjugar seus maus impulsos, e agora estes se

tornaram os vencedores. Satanás suscitou as mais violentas e vis paixões da alma. Os

homens não raciocinavam; achavam-se fora da razão, dirigidos pelo impulso e cega

raiva. Tornaram-se satânicos em sua crueldade. Na família e na sociedade, entre as mais

altas como entre as mais baixas classes, havia suspeita, inveja, ódio, contenda, rebelião,

assassínio. Não havia segurança em parte alguma. Amigos e parentes traíam-se

mutuamente. Pais matavam aos filhos, e filhos aos pais. Os príncipes do povo não tinham

poder para governar-se. Desenfreadas paixões faziam-nos tiranos. Os judeus haviam

aceitado falso testemunho para condenar o inocente Filho de Deus. Agora as falsas

acusações tornavam insegura sua própria vida. Pelas suas ações durante muito tempo

tinham estado a dizer: “Fazei que deixe de estar o Santo de Israel perante nós.” Isa.

30:11. Agora seu desejo foi satisfeito. O temor de Deus não mais os perturbaria. Satanás

estava à

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frente da nação e as mais altas autoridades civis e religiosas estavam sob o seu domínio.

Os chefes das facções oponentes por vezes se uniam para saquear e torturar suas

desgraçadas vítimas, e novamente caíam sobre as forças uns dos outros, fazendo

impiedosa matança. Mesmo a santidade do templo não lhes refreava a horrível

ferocidade. Os adoradores eram assassinados diante do altar, e o santuário contaminava-

se com corpos de mortos. No entanto, em sua cega e blasfema presunção, os

instigadores desta obra infernal publicamente declaravam que não tinham receio de que

Jerusalém fosse destruída, pois era a própria cidade de Deus. A fim de estabelecer mais

firmemente seu poder, subornaram profetas falsos para proclamar, mesmo enquanto as

legiões romanas estavam sitiando o templo, que o povo devia aguardar o livramento de

Deus. Afinal, as multidões apegaram-se firmemente à crença de que o Altíssimo interviria

para a derrota de seus adversários. Israel, porém, havia desdenhado a proteção divina, e

agora não tinha defesa. Infeliz Jerusalém! despedaçada por dissensões internas, com o

sangue de seus filhos, mortos pelas mãos uns dos outros, a tingir de carmesim suas ruas,

enquanto hostis exércitos estrangeiros derribavam suas fortificações e lhes matavam os

homens de guerra!

Todas as predições feitas por Cristo relativas à destruição de Jerusalém cumpriram-se à

letra. Os judeus experimentaram a verdade de Suas palavras de advertência: “Com a

medida com que tiverdes medido, vos hão de medir a vós.” Mat. 7:2.

Apareceram sinais e prodígios, prenunciando desastre e condenação. Ao meio da noite,

uma luz sobrenatural resplandeceu sobre o templo e o altar. Sobre as nuvens, ao pôr-do-

sol, desenhavam-se carros e homens de guerra reunindo-se para a batalha. Os

sacerdotes que ministravam à noite no santuário, aterrorizavam-se com sons

misteriosos; a terra tremia e ouvia-se multidão de vozes a clamar: “Partamos daqui!” A

grande porta oriental, tão pesada que dificilmente podia ser fechada por uns vinte

homens, e que se achava segura por imensas

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barras de ferro fixas profundamente no pavimento de pedra sólida, abriu-se à meia-noite,

independente de qualquer agente visível. – História dos Judeus, de Milman, livro 13.

Durante sete anos um homem esteve a subir e descer as ruas de Jerusalém, declarando

as desgraças que deveriam sobrevir à cidade. De dia e de noite cantava ele

funebremente: “Uma voz do Oriente, uma voz do Ocidente, uma voz dos quatro ventos!

uma voz contra Jerusalém e contra o templo! uma voz contra os noivos e as noivas! uma

voz contra o povo!” – Ibidem. Este ser estranho foi preso e açoitado, mas nenhuma

queixa lhe escapou dos lábios. Aos insultos e maus-tratos respondia somente: “Ai! ai de

Jerusalém!” “Ai! ai dos habitantes dela!” Seu clamor de aviso não cessou senão quando

foi morto no cerco que havia predito.

Nenhum cristão pereceu na destruição de Jerusalém. Cristo fizera a Seus discípulos o

aviso, e todos os que creram em Suas palavras aguardaram o sinal prometido. “Quando

virdes Jerusalém cercada de exércitos”, disse Jesus, “sabei que é chegada a sua

desolação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que estiverem

no meio da cidade, saiam.” Luc. 21:20 e 21. Depois que os romanos, sob Céstio,

cercaram a cidade, inesperadamente abandonaram o cerco quando tudo parecia favorável

a um ataque imediato. Os sitiados, perdendo a esperança de poder resistir, estavam a

ponto de se entregar, quando o general romano retirou suas forças sem a mínima razão

aparente. Entretanto, a misericordiosa providência de Deus estava dirigindo os

acontecimentos para o bem de Seu próprio povo. O sinal prometido fora dado aos

cristãos expectantes, e agora se proporcionou a todos oportunidade para obedecer ao

aviso do Salvador. Os acontecimentos foram encaminhados de tal maneira que nem

judeus nem romanos impediriam a fuga dos cristãos. Com a retirada de Céstio, os

judeus, fazendo uma surtida de Jerusalém, foram ao encalço de seu exército que se

afastava; e, enquanto ambas as forças estavam assim completamente empenhadas em

luta, os cristãos tiveram ensejo de deixar a cidade. Nesta ocasião o

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território também se havia desembaraçado de inimigos que poderiam ter-se esforçado

para lhes interceptar a passagem. Na ocasião do cerco os judeus estavam reunidos em

Jerusalém para celebrar a festa dos Tabernáculos, e assim os cristãos em todo o país

puderam escapar sem ser molestados. Imediatamente fugiram para um lugar de

segurança – a cidade de Pela, na terra de Peréia, além do Jordão.

As forças judaicas, perseguindo a Céstio e seu exército, caíram sobre sua retaguarda com

tal ferocidade que o ameaçaram de destruição total. Foi com grande dificuldade que os

romanos conseguiram efetuar a retirada. Os judeus escaparam quase sem perdas, e com

seus despojos voltaram em triunfo para Jerusalém. No entanto este êxito aparente

apenas lhes acarretou males. Inspirou-lhes aquele espírito de pertinaz resistência aos

romanos, que celeremente trouxe indescritível desgraça sobre a cidade sentenciada.

Terríveis foram as calamidades que caíram sobre Jerusalém quando o cerco foi

reassumido por Tito. A cidade foi assaltada na ocasião da Páscoa, quando milhões de

judeus estavam reunidos dentro de seus muros. Suas provisões de víveres, que a serem

cuidadosamente preservadas teriam suprido os habitantes durante anos, tinham sido

previamente destruídas pela rivalidade e vingança das facções contendoras, e agora

experimentaram todos os horrores da morte à fome. Uma medida de trigo era vendida

por um talento. Tão atrozes eram os transes da fome que homens roíam o couro de seus

cinturões e sandálias, e a cobertura de seus escudos. Numerosas pessoas saíam da

cidade à noite, furtivamente, para apanhar plantas silvestres que cresciam fora dos

muros da cidade, se bem que muitos fossem agarrados e mortos com severas torturas; e

muitas vezes os que voltavam em segurança eram roubados naquilo que haviam

rebuscado com tão grande perigo. As mais desumanas torturas eram infligidas pelos que

se achavam no poder, a fim de extorquir do povo atingido pela necessidade os últimos e

escassos suprimentos que poderiam ter escondido. E tais crueldades eram

freqüentemente praticadas por homens que se achavam, aliás, bem alimentados, e que

simplesmente estavam desejosos de acumular um depósito de provisões para o futuro.

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Milhares pereceram pela fome e pela peste. A afeição natural parecia ter desaparecido.

Maridos roubavam de sua esposa, e esposas de seu marido. Viam-se filhos arrebatar o

alimento da boca de seus pais idosos. A pergunta do profeta: “Pode uma mulher

esquecer-se tanto de seu filho que cria?” (Isa. 49:15) recebeu dentro dos muros da

cidade condenada, a resposta: “As mãos das mulheres piedosas cozeram os próprios

filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha de Meu povo.” Lam. 4:10.

Novamente se cumpriu a profecia de aviso, dada catorze séculos antes: “E quanto à

mulher mais mimosa e delicada entre ti, que de mimo e delicadeza nunca tentou pôr a

planta de seu pé sobre a terra, será maligno o seu olho contra o homem de seu regaço, e

contra seu filho, e contra sua filha; … e por causa de seus filhos que tiver; porque os

comerá às escondidas pela falta de tudo, no cerco e no aperto com que o teu inimigo te

apertará nas tuas portas.” Deut. 28:56 e 57.

Os chefes romanos esforçaram-se por infundir terror aos judeus, e assim fazê-los render-

se. Os prisioneiros que resistiam ao cair presos, eram açoitados, torturados e crucificados

diante do muro da cidade. Centenas eram diariamente mortos desta maneira, e essa

horrível obra prolongou-se até que ao longo do vale de Josafá e no Calvário se erigiram

cruzes em tão grande número que mal havia espaço para mover-se entre elas. De tão

terrível maneira foi castigada aquela espantosa maldição proferida perante o tribunal de

Pilatos: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” Mat. 27:25.

Tito, de boa vontade, teria posto termo à terrível cena, poupando assim a Jerusalém da

medida completa de sua condenação. Ele se enchia de terror ao ver os corpos jazendo

aos montes nos vales. Como alguém que estivesse em êxtase, olhava ele do cimo do

Monte das Oliveiras ao templo magnificente, e deu ordem para que nenhuma de suas

pedras fosse tocada. Antes de tentar ganhar posse desta fortaleza, fez ardente apelo

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aos chefes judeus para não o forçarem a profanar com sangue o lugar sagrado. Se

saíssem e combatessem em outro local, nenhum romano violaria a santidade do templo.

O próprio Josefo, com apelo eloqüentíssimo, suplicou que se rendessem, para se

salvarem a si, a sua cidade e seu lugar de culto. Suas palavras, porém, foram

respondidas com pragas amargas. Lançaram-se dardos contra ele, que era seu último

mediador humano, enquanto persistia em instar com eles. Os judeus haviam rejeitado os

rogos do Filho de Deus e agora as advertências e rogos apenas os tornavam mais

decididos a resistir até o último ponto. Nulos foram os esforços de Tito para salvar o

templo; Alguém, maior do que ele, declarara que não ficaria pedra sobre pedra.

A cega obstinação dos chefes dos judeus e os abomináveis crimes perpetrados dentro da

cidade sitiada, excitaram o horror e a indignação dos romanos, e Tito finalmente se

decidiu a tomar o templo de assalto. Resolveu, contudo, que, sendo possível, deveria o

mesmo ser salvo da destruição. Mas suas ordens foram desatendidas. Depois que ele se

retirara para a sua tenda à noite, os judeus, saindo repentinamente do templo, atacaram

fora os soldados. Na luta, um soldado arremessou um facho através de uma abertura no

pórtico, e imediatamente as salas revestidas de cedro, em redor da casa sagrada, se

acharam em chamas.

Tito precipitou-se para o local, seguido de seus generais e legionários, e ordenou aos

soldados que apagassem as labaredas. Suas palavras não foram atendidas. Em sua fúria,

os soldados lançaram tochas ardentes nas salas contíguas ao templo, e com a espada

assassinavam em grande número os que ali tinham procurado refúgio. O sangue corria

como água pelas escadas do templo abaixo. Milhares e milhares de judeus pereceram.

Acima do ruído da batalha, ouviam-se vozes bradando: “Icabode!” – foi-se a glória.

Tito achou impossível sustar a fúria da soldadesca; entrou com seus oficiais e examinou o

interior do edifício sagrado. O esplendor encheu-os de admiração; e, como as chamas

não houvessem ainda penetrado no lugar santo, fez um último

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esforço para salvá-lo; e, apresentando-se-lhes repentinamente, de novo exortou os

soldados a deterem a marcha da conflagração. O centurião Liberalis esforçou-se por

impor obediência a seu estado maior; mas o próprio respeito para com o imperador

cedeu lugar à furiosa animosidade contra os judeus, ao excitamento feroz da batalha, e à

esperança insaciável do saque. Os soldados viam tudo em redor deles resplandecendo de

ouro, que fulgurava deslumbrantemente à luz sinistra das chamas; supunham que

incalculáveis tesouros estivessem acumulados no santuário. Um soldado, sem ser

percebido, arrojou uma tocha acesa por entre os gonzos da porta: o edifício todo em um

momento ficou em chamas. O denso fumo e o fogo obrigaram os oficiais a retirar-se, e o

nobre edifício foi abandonado à sua sorte.

“Era um espetáculo pavoroso aos romanos; e que seria ele para os judeus? Todo o cimo

da colina que dominava a cidade, chamejava como um vulcão. Um após outro caíram os

edifícios, com tremendo fragor, e foram absorvidos pelo ígneo abismo. Os tetos de cedro

assemelhavam-se a lençóis de fogo; os pináculos dourados resplandeciam como pontas

de luz vermelha; as torres dos portais enviavam para cima altas colunas de chama e

fumo. As colinas vizinhas se iluminavam; e grupos obscuros de pessoas foram vistas a

observar com horrível ansiedade a marcha da destruição; os muros e pontos elevados da

cidade alta ficaram repletos de rostos, alguns pálidos, com a agonia do desespero, outros

com expressão irada, a ameaçar uma vingança inútil. As aclamações da soldadesca

romana, enquanto corriam de uma para outra parte, e o gemido dos rebeldes que

estavam perecendo nas chamas, misturavam-se com o rugido da conflagração e o rumor

trovejante do madeiramento que caía. Os ecos das montanhas respondiam ou traziam de

volta os gritos do povo nos pontos elevados; ao longo de todo o muro ressoavam alaridos

e prantos; homens que estavam a expirar pela fome reuniam sua força restante para

proferir um grito de angústia e desolação.

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“O morticínio, do lado de dentro, era até mais terrível do que o espetáculo visto fora.

Homens e mulheres, velhos e moços, rebeldes e sacerdotes, os que combatiam e os que

imploravam misericórdia, eram retalhados em indiscriminada carnificina. O número de

mortos excedeu ao dos matadores. Os legionários tiveram de trepar sobre os montes de

cadáveres para prosseguir na obra de extermínio.” – História dos Judeus, de Milman, livro