O Guineu Da Coxa por Charles Dickens- - Versão HTML

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O GUINÉU DA COXA

O céu estava sombrio, um céu de Dezembro e o empedrado das ruas

desaparecia debaixo da neve, aquela neve de Londres meio derretida e

lamacenta. Nunca se me varreu da memória a recordação dessa neve apesar

de já terem passado quinze anos sobre a última vez que a vi com a sua

triste cor. Ali a tinha, à minha frente, com os mesmos sulcos, ocultando os mesmos perigos para os transeuntes. Havia somente uma hora que eu tinha

chegado da América do Sul a bordo do barco-correio de Southampton, e

agora ora estava encostado à janela do meu quarto no hotel Morley, Charing Cross, contemplando com ar sombrio os efeitos dos jogos de água da praça

de Trafalgar, ora passeava agitadamente de um extremo ao outro do

aposento, fazendo esforços para me distrair, pensando que não era um

vagabundo desterrado, mas um homem que regressava ao seu país.

Aproximei a cadeira da chaminé e enquanto atiçava o lume, evocava através

da chama o quadro da minha vida passada. Recordei-me da infância que

tornou extremamente desgraçada a dependência de um tio velho e rico que

me olhava como a um obstáculo porque não acreditava que eu pudesse vir

um dia a honrar o seu nome e os seus benefícios. Esta excelente pessoa

tinha quase tanto de ávaro como de vaidoso. Sentia a necessidade de

estímulo e se me tivessem obrigado com algumas palavras ternas a abrir o

coração juvenil, teriam descoberto o reconhecimento mais sincero, uma

ânsia de carinho, o instinto e o amor por tudo quanto é bom e belo. Mas,

todos estes belos sentimentos se tinham fechado na minha alma

amarfanhados pela ironia de quantos me rodeavam. Que contente ficou meu

tio quando lhe disse que estava disposto a ir procurar a fortuna do outro

lado dos mares! Com que frieza se despediu de mim o meu único primo!

Como compreendi que havia chegado por fim a hora de me separar de um

país onde, na opinião da minha própria família, era incapaz de usar

honradamente o meu nome e de conquistar uma posição social. Parti na

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triste convicção de que me encontrava só no mundo e impaciente por

demonstrar aos meus desdenhosos parentes que não merecia um conceito

tão depreciativo.

Quando regressei, ao fim de quinze anos, ignorava tudo o que se passara

com a minha família, que talvez se tivesse esquecido de mim logo que me

perdeu de vista. Chamei e entrou no quarto um criado velho de cuja

fisionomia me recordava. Conhecia meu primo Jorge que, outrora, sempre

que vinha a Londres, se hospedava no hotel Morley, como nosso tio. Mas,

actualmente, Jorge chegara à posição demasiado alta para frequentar um

hotel de segunda ordem, quando, pela Primavera, ia passar na capital um ou dois meses. Nesta época do ano Jorge Rutland não abandonava o seu

castelo solarengo e eu tinha a certeza de o encontrar em Rutland-Hall, que ficava no condado de Kent.

Apressei-me a escrever-lhe a seguinte carta:

Querido Jorge:

Estou convencido de que te causará tanto espanto reconhecer a minha letra

como se o meu espectro te surgisse. Tranquiliza-te quanto à aparição do

espectro. Como sabes, estou há muito convencido de que para nada sirvo, e

deves saber também que o céu não me concedeu a felicidade de morrer.

Sinto vergonha ao confessar-te que não cheguei do outro mundo com a minha fortuna feita. Asseguro-te, contudo, que trabalhei para a conseguir; mas no mundo não basta querer; é preciso, também, sorte para conseguir.

Felizmente ainda tenho tempo para reparar a perda dos quinze melhores

anos da minha vida, e estou disposto a lançar mão de tudo, sempre que a

ocupação seja digna de um cavalheiro. Entretanto, desejo imenso ver-te e

aos teus. Uma longa ausência da pátria e da família é o que mais nos faz

compreender quanto vale o calor de uma mão amiga. Não espero, pois, que

me respondas. Depois de amanhã seguirei para Kent e devo estar aí à hora

de jantar. Como vês confio no teu bom acolhimento e hospitalidade durante

algumas semanas, até que me consiga tomar uma resolução.

Hoje como sempre, meu querido Jorge, é teu velho amigo e primo

Guy Rutland.

Dobrei a carta e meti-a no envelope.

- Breve saberei o que são na realidade os meus queridos parentes, pensei

com alegria enquanto escrevia a direcção:

Jorge Rutland, esq.

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Rutland-Hall

(Kent)

Eram aproximadamente sete da tarde quando cheguei ao imponente

vestíbulo de Rutland-Hall. O primo Jorge não veio ao meu encontro. Esqueci-me, sem dúvida, dos costumes do país. Provavelmente o primo Jorge

espera-me no alto da escada. Avancemos.

Junto da escada recebeu-me um criado grave, como um autómato, como se

o meu regresso para junto dos parentes fosse um facto que acontecesse

todos os dias. Introduziu-me numa sala, mas nem ali pisavam o tapete os

pés impacientes do cerimonioso dono da casa.

- Ah! pensei, talvez haja mais alguma regra de etiqueta que eu tenha

esquecido. Sem dúvida, meu primo espera-me no salão a fim de me dar o

tempo necessário para que me lave e escove e fique apresentável para a

hora do jantar.

- Acompanhe-me ao quarto que me destinam, disse a outro criado que

tomou conta da minha manta de viagem.

Segui este novo guia com resignação, observando que me destinavam

aposentos lá no alto do castelo; mas quando fiquei só pensei que talvez

tivesse sido precedido por alguns outros hóspedes que ocupassem quartos

melhor mobilados que o meu.

Quando, à pressa terminei a minha toilette, toquei a campainha; apareceu novamente o criado a quem pedi que me acompanhasse ao salão. Pelo

caminho, fui estudando algumas frases discretas para entabular conversação com os diferentes membros da minha família. Não sou fluente, mas quando

quero ser agradável consigo-o muitas vezes e naquela altura, estou bem

certo de que não teria representado muito mal o meu papel.

O criado abriu a porta e retirou-se imediatamente, fechando-a atrás de si.

Em vez de ser eu a fazer qualquer surpresa, fiquei, sim, surpreendido ao

encontrar-me só numa enorme sala, mal alumiada, se é que não estava

completamente às escuras.

Mas não, não me encontrava só; numa poltrona, junto do fogão, estava

preguiçosamente sentada uma menina em cujo rosto se reflectiam as

labaredas vermelhas da chaminé. Era uma rapariga de quinze ou dezasseis

anos, modestissimamente vestida com uma bata de lã escura, que

estropiava a vista lendo à luz do fogão. Tinha a cabeça encostada ao

espaldar da poltrona, coberta com as madeixas da abundante cabeleira

loura, e sustentava o livro aberto à altura dos olhos.

A jovem estava tão absorvida com a leitura, a porta tinha sido aberta tão de mansinho e a sala era tão grande, que me vi obrigado a tossir uma ou duas

vezes para chamar a sua atenção. A princípio assustou-se; depois, deixando 5

cair o livro, endireitou-se na cadeira, estendeu a mão e pegou num objecto que eu ainda não tinha visto e estava junto da poltrona: era uma muleta.

Apoiando-se à muleta, levantou-se, e ficou de pé diante de mim... A pobre

menina era coxa.

Apresentei-me e o meu nome tranquilizou-a. Convidou-me a sentar-me

dando-se ares de pessoa da casa. Levantou o livro, colocou-o sobre os

joelhos, e depois, metendo a mão num dos ângulos da poltrona, tirou uma

rede em cujas malhas aprisionou os fartos cabelos. Terminada a operação

ficou com as mãos apoiadas nas muletas (porque eram duas) como se se

preparasse para me deixar só logo que eu lhe dissesse que estava ali de

mais.

- Tompson, disse-me como quem se desculpa, julgou certamente que não

estava aqui ninguém. Fico sempre nos aposentos dos meninos, salvo quando

os senhores saem. Nessas ocasiões desço ao salão para me entreter com um

pouco de leitura.

- O Sr. Rutland não está em casa? perguntei.

- Não; foram jantar fora.

- Deveras? Então seu pai não recebeu a minha carta!

Ouvindo estas palavras, a jovem ruborizou-se.

- Não sou filha de Rutland. Chamo-me Thereza Ray, e sou órfã. Meu pai, que era parente afastado e amigo do Sr. Rutland, recomendou-me a ele à hora

da morte... e o Sr. Rutland trouxe-me para aqui... por caridade.

Pronunciou as últimas palavras com amargura; mas, depois de morder os

lábios, continuou:

- Nada sei portanto, em relação à carta de que me fala; mas parece-me ter

ouvido dizer que esperavam alguém... Sem dúvida não julgavam que o

senhor chegasse esta noite, visto que toda a família foi jantar a casa de uns vizinhos.

- Bela conclusão! disse para mim próprio e fiquei a reflectir na afectuosa recepção que me fizera meu primo Jorge. Se era eu que ele esperava, não

havia dúvida de que a carta tinha chegado ao seu destino; portanto sabia,

não só o dia, mas também a hora da minha chegada.

- Oh, Jorge, meu bom primo, nada mudaste!

Enquanto pensava assim, notei que a jovem fixara em mim os seus grandes

olhos observadores, cuja curiosa expressão podia facilmente traduzir. E se tivesse coragem, ter-me-ia dito:

- Também leio claramente no seu pensamento, senhor, e tenho pena de si.

Veio aqui com uma esperança que vai ser frustrada. Melhor teria procedido

se esperasse que o convidassem. Que vem o senhor cá fazer? Eu, se

pudesse sair desta casa nunca mais tornaria a por cá os pés. Se nesse

mundo donde o senhor vem houvesse qualquer caminho aberto, tenha a

certeza de que me meteria por ele com decisão, apoiando-me nas minhas

muletas. Juro-lhe que não tornaria a ter o gosto de ver-me aqui, nem sequer 6

para roubar uma hora ao aborrecimento nesta magnífica poltrona estofada.

Como se pode dizer tanto num olhar? Eis um mistério; mas o que é certo é

que o olhar de Thereza Ray dizia tudo isto, palavra por palavra. Um laço de simpatia nos uniu rapidamente.

- Miss Ray, disse-lhe; que pensará de um homem que depois de passar

quinze anos da sua vida no estrangeiro, tem a falta de vergonha de voltar à pátria sem um xelim nas algibeiras? Não lhe parece que merecia ser

apedrejado?

- Supunha isso mesmo, respondeu ela mexendo a cabeça e dirigindo-me

outra vez o seu penetrante olhar. Supus isso mesmo quando soube que lhe

destinavam um dos piores quartos, reservando os melhores para as visitas

que são esperadas na próxima semana. No dia de Natal a casa estará

cheia... Eu não posso compreender o que o senhor me disse.

- Que é o que não pode compreender? perguntei.

- Que não tenha um xelim no bolso. Rir-se-iam todos à sua custa e os

criados sabê-lo-iam logo. Eu tenho um guinéu que a boa lady Thornton me

deu no dia do meu aniversário. Se me permite que lho empreste, dar-me-á

com isso muito prazer. Não me faz falta e o senhor pagar-me-á quando for

rico.

Este oferecimento foi feito com tanta gravidade, que tive de fazer um

esforço para não desatar a rir. A pequena tomava-me evidentemente sob a

sua protecção e, sonhando para mim afrontas que considerava seu dever

evitar, amparava-me com a sua experiência, e com a sua superior

perspicácia. Achei muito divertido o deixar-me proteger por ela e entregar-me ao amável interesse que lhe despertara a minha má situação financeira.

Deixando-me arrebatar por intimidade tão espontânea, respondi-lhe com a

maior gravidade:

- Agradeço e aceito o seu oferecimento. Traz consigo o guinéu.

- Não, mas vou já buscá-lo. Apoiando-se nas muletas saiu para voltar

poucos minutos depois com uma bolsinha que me entregou. Abri-a e

encontrei um guinéu cuidadosamente envolvido em papel prateado.

- Sinto não ter mais, disse-me ao ver que eu metia a bolsinha na algibeira, mas recebo tão poucos presentes deste género!

Nesse momento, o orgulhoso criado que me tinha acompanhado até à porta

do salão, veio informar-me de que tinha o jantar na mesa.

Quando acabei de comer tive o desgosto de saber que a minha pequena

benfeitora estava junto dos meninos. Não a tornei a ver naquela noite e

dormi descansadamente até pela manhã do dia seguinte.

II

No dia seguinte, ao almoço, apresentaram-me a todos os parentes.

Encontrei primos e primas tal como os havia imaginado. O primo Jorge

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tinha-se convertido num grave chefe de família.

- Alegra-me muito tornar a ver-te - disse apertando-me a mão. Logo

compreendi que não era tanta a alegria. A mamã Rutland acolheu-me

também o mais cortesmente possível... foi pelo menos o que disse. Os

jovens priminhos trataram-me com um desdém, do melhor tom. Era

necessário ser mais cândido do que me julgara na véspera a minha

protectora para não perceber o lugar que me reservavam... debaixo da

mesa.

Estava condenado a esse papel que só se aceita no caso de uma

necessidade extrema: o papel de uma pessoa sem importância.

Jorge entreteve-se durante alguns dias mostrando-me as suas extensas

propriedades; mas quando chegaram hóspedes de mais consideração

deixou-me abandonado aos meus próprios recursos para passar o tempo. As

filhas de Rutland dispensaram-se da honra de aceitar a minha escolta

quando passeavam a cavalo e logo que tiveram outros cavaleiros mais

distintos à sua disposição já não voltou a haver cavalo para mim. Quanto à castelã, à minha nobre prima, dissimulava mal o aborrecimento que lhe

causava a minha importuna visita, se bem que nem Jorge nem sua mulher

ocupassem a alta situação que a herança de meu tio lhes conferia no

condado. Se não eram, nobres de fresca data, não deixavam de ser de uma

grande mesquinhez. Sentiam-se humilhados tendo na sua nobre companhia

um parente pobre que ainda por cima lhes chamava primos. Confesso que

experimentava um prazer maligno em fingir que não percebia o papel que

desempenhava em Rutland-HalI. Tudo me parecia bem, inclusive a troça que

de mim faziam, que em vez de me incomodar, me esforçava por parecer

cada vez mais amável, agradecendo mesmo todas as atenções de que não

era objecto. Bem sabia que não era este o melhor meio para me tornar

simpático aos olhos de meus primos. Mais lhes agradaria de certo um pouco

de susceptibilidade da minha parte; mas sentia-me tão feliz desfrutando a

hospitalidade daquele sumptuoso castelo! Representava um porto de

salvação depois duma viagem tormentosa... E vendo-me tão bem acolhido

por tão carinhosos parentes, como não havia de sentir-me bem humorado!

Além disso, tinha tanta liberdade como os outros hóspedes de Rutland-Hall, que de «motu próprio» escolhiam as suas distracções e dispunham do seu

tempo. Quando me aborrecia com as conversas no salão, ia para os

aposentos das crianças, onde cresciam cinco rebentos da família. Havia uma hora do dia em que nem o pai, nem a mãe, nem os irmãos mais velhos

entravam naquele pequeno reino: às cinco da tarde, quando os meninos

tomavam chá. Tinha conquistado pouco a pouco a boa vontade de Jenny, a

criada particular dos meus pequenos primos, muito sensível aos presentes

que eu lhe dava intencionalmente, e muito discreta quando sabia que a sua

discrição seria recompensada. Até os próprios pequenos me tinham um certo

afecto, conquanto não fossem precisamente uns anjos; mas eu tinha

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encontrado o caminho dos seus corações presenteando-os com livros de

estampas, polichinelos, bonecas e guloseimas que adquiria com o guinéu de

Thereza Ray. Esta admirava-se das coisas que eu comprava com uma única

moeda de ouro e elogiava a minha habilidade em obter tudo tão barato.

Por má que fosse a minha situação em Rutland-Hall, a de Thereza Ray, era

simplesmente intolerável. Uma alma menos resoluta teria sucumbido, e uma

natureza menos delicada teria perdido toda a doçura com que o céu a

tivesse dotado. Os criados não tinham por ela a menor atenção, os pequenos achincalhavam-na, sacrificando-a a todos os seus caprichos. Só Jenny tinha certa simpatia pela pobre rapariga, mas apenas a defendia da perseguição

dos seus tiranos quando podia fazê-lo sem se expor também à sua tirania.

Infelizmente não estava autorizada a fazê-los entrar na ordem pela forma

que mais teria impressionado aqueles meninos mal educados. Pelo que

respeitava as filhas mais velhas de Rutland, a presença fugaz da órfã ou o simples apontar do seu nome, bastavam para que a paz de suas almas se

perturbasse.

- Que havemos de fazer desta rapariga? ouvi dizer um dia à senhora de

Rutland, falando com uma de suas filhas. Se não fosse coxa poderíamos

obrigá-la a ganhar o pão de uma maneira ou de outra; mas assim,

necessitando de muletas para andar...

Se a senhora de Rutland não acabou a frase, o seu pensamento ficou

claramente expresso num desdenhoso movimento de ombros e certo trejeito

com que os seus lábios supriam perfeitamente as reticências da linguagem.

Como suportava a pobre Thereza Ray tudo isto? Sem uma queixa, sem um

protesto, sem lágrimas e sem sequer entreabrir os lábios. Sob o seu simples trajo negro havia uma verdadeira couraça de resignação angélica. A

experiência parecia demasiadamente amarga, mas ela submetia-se sem

humildade degradante, com uma expressão tranquila no olhar, que parecia

dizer:

- Por muitos que sejam os sofrimentos que me imponham saberei calar-me,

porque nada me devem e talvez sofresse mais noutra parte. A gratidão

impede-me de qualquer queixa.

Por acaso encontrei pela segunda vez a minha pequena benfeitora um dia ou

dois depois da nossa primeira entrevista no salão. Nos terrenos anexos ao

solar reatámos a conversação do dia anterior, e havia para mim tal doçura

na sua simpatia, que acrescentei mais alguns capítulos à novela da minha

falta de recursos e de todas as dificuldades que me esperavam no país natal, onde quinze anos de ausência me tornaram quase estrangeiro. Com que

encantadora credulidade me escutava! Que admiráveis conselhos me deu!

Com que amável interesse se se ofereceu, ao separarmo-nos, para dar-me

em melhor ocasião outros conselhos!

Mesmo que meu querido primo e minhas simpáticas primas não me tivessem

abandonado tanto, privando-me do prazer de os acompanhar nas suas

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excursões, eu teria preferido sempre procurar Thereza Ray nos seus

passeios solitários ou nos aposentos dos pequenos, onde praticava o meu

sistema de corrupção com o mesmo cuidado que empregaria se se tratasse

de uma intriga eleitoral. A conversação nos passeios agradava-me muito

mais que na sala barulhenta das crianças, onde mantinha a minha

popularidade e a minha influência com tão pouco dinheiro. Mais de uma vez

me esqueci dos rigores da estação escutando Thereza Ray que, coxeando

nos atalhos da horta, queria resolver algum novo problema que eu propunha

para aprender com ela a arte de conseguir com pouco dinheiro uma

existência agradável. Um dia parou subitamente e cravando as muletas na

neve endurecida, disse-me:

- O senhor devia deixar Rutland-Hall e procurar trabalho... Oh! se eu

pudesse trabalhar!...

III

Chegou a Rutland-Hall um tal sir Harry. Como não estou muito certo da

maneira como se escreve o seu outro apelido, creio que não há necessidade

de mencioná-lo. Era um solteirão rico, pertencente a uma família nobre, e a castelã observava com interesse todos os seus actos e movimentos. O tal sir Harry tinha o capricho de ir todos os dias fumar um charuto para a horta,

encontrando ali, mais de uma vez a minha pequena benfeitora, que notando

que ele a olhava com modo muito singular, acabou por provocar uma púdica

exaltação na cor do seu rosto, tão lindo como fresco. Torceu caminho, como a lebre que espera despistar o caçador; mas sir Harry conseguiu encontrá-la de novo e assediou-a com os seus galanteios, cheios de lugares comuns.

Chegou o caso aos ouvidos da senhora de Rutland, que inventou uma porção

de perfídias a propósito da pobre órfã. Ignoro as tristes acusações que lhe fez, dando-lhe por fim uma repreensão que durou uma hora; mas nessa

noite, quando entrei nos aposentos dos pequenos com uma bola de borracha

para Jack, o mais novo e o menos tirano da família, percebi pelos olhos

inchados de Thereza Ray que a pobrezinha chorara, que dos seus olhos

brotava uma torrente de lágrimas. Contive-me para não dizer em voz alta o

que pensava da senhora de Rutland, e quando Jenny interveio para acalmar

o tumulto promovido porque o primo Guy não tinha trazido um presente para cada menino, disse a Thereza Ray:

- Então! Para quando guarda a sua filosofia? Doravante não aceitarei

nenhum conselho seu se continuar a dar-me tão mau exemplo.

Thereza não respondeu uma única palavra nem desviou o olhar do guarda-

fogo. O golpe tinha sido rude e a ferida profunda. Ah! senhor Harry e

senhora de Rutland, com que prazer eu teria feito carambolar as vossas

cabeças nesse momento!

- Thereza, disse-lhe, a menina ainda tem um amigo, embora de fraco

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valimento...

Então dirigiu-me uma dessas respostas mudas de que estou bem certo ter

traduzido literalmente e que dizia:

- Tem razão; deposito em si toda a confiança, mas neste momento não

posso falar.

Recobrou, contudo, gradualmente a tranquilidade e aproximou-se da mesa

para tomar a sua xícara de chá e comer alguns biscoitos, enquanto eu

consertava o arco desmantelado de Tommy.

Tommy era o mais turbulento e malicioso daqueles pequenos selvagens, um

pequeno chefe bárbaro, a quem, dois dias depois, gostaria de ter dado uma

boa sova. Lembrou-se de fazer a Thereza uma das suas graçolas mais

pesadas. Tirou-lhe as muletas, e servindo-se delas, imitando a pobre coxa, saiu da sala e só voltou depois de as ter feito em pedaços. Todas as súplicas de Thereza foram inúteis ao maldoso garoto. A pobrezinha ficou prisioneira durante as festas do Natal, sem poder fazer outra coisa que contemplar os

campos atrás dos vidros da janela.

Tommy ria-se da sua resignação - mas talvez não proceda bem acusando

Tommy.

Suspeitava então e continuo a suspeitar que outra cabeça, que não era a

daquele diabinho, fora a instigadora da conspiração contra o pobre pássaro, a fim de que não saísse da sua gaiola.

O pássaro definhava no seu ninho, mas quem se compadecia dele? Talvez

Jenny, que por compaixão ou porque participava das generosidades do meu

inesgotável guinéu, se atreveu a lamentar em voz alta a situação da

prisioneira e condenar o procedimento de Tommy.

Não desejo fazer acreditar ao leitor que o inesgotável guinéu era uma dessas milagrosas moedas de ouro que, nos contos de fada, recheiam a bolsa de

Fortunato. Sem explicar ainda todo o mistério, afirmarei que havia, como eu, outra pessoa que se interessava pela órfã, e essa pessoa era a mesma lady

Thornton que lhe havia dado a moeda. Nem só bastante rica, mas também

bastante caridosa, para se eu lhos tivesse pedido, ter-me emprestado mais

alguns guinéus. Lady Thornton vinha de vez em quando a Rutland-Hall e eu

fizera todo o possível para conquistar a sua simpatia.

Durante a prisão de Thereza Ray deu-se uma dessas visitas e quis o acaso

que eu estivesse só no salão quando ela entrou. Vinha convidar toda a

família e todos os seus hóspedes, grandes e pequenos, a festejarem a Noite de Natal no seu castelo, que ficava a três ou quatro milhas de Rutland-Hall.

Aproveitei a ocasião para lhe contar a história das muletas de Thereza.

- Que pequeno tão travesso! Que pequeno tão travesso! - exclamou. É

preciso que Thereza tenha outras muletas para a festa do Natal.

A boa lady fixou em mim um olhar perscrutador através das lentes dos seus

óculos.

- Que espécie de interesse lhe merece Thereza? - perguntou.

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- Eu e Thereza somos dois bons amigos.

- O senhor e Thereza! Permita-me que lhe peça explicações, porque ignoro

se o senhor sabe que Thereza Ray tem dezoito anos.

- Dezoito anos? Seriamente? Pois eu julgava-a ainda uma criança!

- Thereza não é uma criança, senhor Guy Rutland. Thereza é já uma

senhora.

Thereza Ray uma senhora! Não pude deixar de rir. Como, então? A minha

pequena benfeitora, a minha mamã zinha... O meu riso devia ter

escandalizado lady Thornton, mas Christina Rutland, que entrou nessa altura no salão, pôs termo à difícil situação.

No entanto, mais de uma vez naquele dia desatei à gargalhada, ao lembrar-

me do caso. Thereza Ray uma senhora! Que ideia !...

IV

Faltavam ainda cinco ou seis dias para a festa que lady Thornton nos havia convidado, quando se deu um incidente curioso, que determinou um

conselho de família dos donos da casa, antes do almoço, na biblioteca.

Chegara de Londres uma grande caixa, endereçada a miss Thereza Ray e

quando a abriram depararam um par de muletas.

E que par de muletas! Uma obra de arte no seu género, de madeira

esculpida, com incrustações de madrepérola, aplicações de prata e

almofadas de veludo bordado.

Os senhores de Rutland ficaram assombrados! Quem teria feito aquele

magnífico presente? Quem? E quem, fora de Rutland-Hall, tinha ouvido falar de Thereza Ray? Recaíram suspeitas em sir Harry, e eu esfreguei as mãos

de contente, rindo perdidamente, ao ter conhecimento do que sucedera.

Mas o grande conselho ponderou ainda sobre o seguinte: Entregariam a

Thereza Ray tão rico presente? De forma alguma; o melhor seria fingir

ignorância. Aquelas muletas não estavam em harmonia com a situação da

órfã e podiam inspirar-lhe ideias absurdas! Apesar das suas novas muletas, Thereza Ray continuaria prisioneira. Ocultaram a caixa e ninguém falou

sobre a sua existência.

Esperei alguns dias para ver se os senhores de Rutland reconsideravam,

mas tudo foi em vão. O pássaro continuava a definhar na gaiola, sem que

nenhuma mão amiga se mostrasse disposta a abrir-lha, entregando-lhe

novamente a liberdade.

Enquanto toda a família se movia em volta de Thereza Ray, preparando-se

para gozar o convite de lady Thornton, Thereza continuava sentada, fazendo costuras em aventais para as criadas ou remendando as meias dos

pequenos, que a viam impávidos, arrastando-se pela sala ou deitando os

seus olhares tristes para a janela. Mostravam-lhe os fatos que estreariam na noite da festa e os laços que lhe adornariam os chapéus. Naquele dia, como 12

em todos os restantes do ano, Thereza ficaria só em casa, com o seu

vestidinho preto. Suspirando, Thereza tinha-se despedido daquela festa,

para a qual fora convidada inutilmente, como os que lhe diziam: «despacha-

te, Thereza, que se vai aproximando o dia: ainda é preciso pôr estas fivelas nos sapatos ou fazer aquele laço para o vestido». Certamente, estas

palavras eram de todo desnecessárias, porque a pobre mamãzinha

trabalhava com a actividade de uma obreira.

A ninguém ocorria perguntar a Thereza:

- E tu, que vestido vais levar?

Como imaginar que Thereza podia ir também com a sua perna coxa e sem

muletas?

Contudo, alguém pensava nisto; alguém tinha dito: um vestido novo de seda

ficaria divinamente em Thereza, e um laço cor-de-rosa ou azul destacar-se-

ia muito bem entre os seus cabelos louros.

No próprio dia da festa tive que tratar de um assunto urgente na cidade

mais próxima, e à tarde, antes de voltar a Rutland-Hall, entrei em casa da melhor modista para trazer uma grande caixa de cartão.

- Quer ver o vestido da senhora?

Abriram a caixa e desdobraram um vestido de seda com aplicações de

rendas, que não posso descrever nos termos adequados, mas em que

admirei a elegância do corte e a harmonia das cores.

- Desculpe-me, mas afigura-se-me de que a saia está um pouco larga.

- Como o senhor disse que era para uma menina de dezoito anos e as

raparigas vestem agora tal como as senhoras...

Era já tarde quando voltei a Rutland-Hall e vi partir as carruagens cheias de alegres convidados. Subi rapidamente aos aposentos dos pequenos com a

minha caixa debaixo do braço e encontrei Thereza só com Jenny, a fronte

apoiada na mão, contemplando melancolicamente a alcatifa coberta de

pedacinhos de gaze e de seda.

Ao ver-me, o seu rosto iluminou-se.

- Ah! - disse-me, pensei que tinha ido com os outros.

- Ainda não, mas não tardarei a reunir-me a eles e venho buscá-la.

- A mim! - exclamou tristemente; bem sabe que não posso ir, porque

mesmo que tivesse muletas nada tinha que vestir.

- Um amigo mandou-lhe um vestido e eu sei, também, arranjar-lhe as

muletas. Jenny tome conta desta caixa e ajude a vestir a menina Thereza,

pois a carruagem espera-nos.

Thereza ruborizou-se e os seus olhos marejaram-se de lágrimas; depois

empalideceu, sufocada pela comoção, enquanto Jenny, a quem eu tinha feito

um bom presente de Natal, se extasiava diante do vestido que tirara da

caixa.

- Thereza, disse-lhe pela segunda vez, não podemos perder tempo, estarei

de volta para vir buscá-la dentro de dez minutos.

13

E deixei-a trémula e docemente emocionada, entregue a Jenny, que

começou imediatamente a vesti-la.

Thereza estava já pronta quando entrei com as muletas incrustadas de prata e madrepérola.

Quando afirmo que Thereza estava vestida não quero dizer que encontrei

uma menina com o trajo próprio das que vão a uma festa de crianças, mas

que o vestido tinha transformado a minha mamãzinha, a minha pequena benfeitora numa jovem elegante, que, vendo a sua imagem no espelho, se assombrava da metamorfose.

Da Thereza de há pouco, apenas conservava a linda cabeça de expressão

cândida... Quanto ao resto... agora compreendia porque lady Thornton falara verdade quando me dissera que a órfã era já uma senhora.

Jenny, que até esta altura tinha tratado Thereza como uma criança, não era a menos assombrada dos três, e eu ignoro o indefinível sentimento que

sucedeu à minha surpresa, porque era um misto de medo e de satisfação.

Quando entreguei as muletas a Thereza, Jenny olhou-me como se eu fosse

algum desses príncipes possuidores do talismã das Mil e uma noites.

Thereza experimentou as muletas e imediatamente atravessou a sala com

passo seguro descendo a escada até ao vestíbulo. As muletas desapareciam

entre as pregas da saia e as aplicações de tule que lhe envolviam os ombros alvos.

Com que satisfação me lembrei, naquele momento de certa bolsinha e de

certo guinéu que ainda estavam ocultos na velha mala que tinha escolhido

para ir passar uns dias em Rutland-Hall!

A carruagem esperava-nos. Era já tarde para me arrepender daquela acção

preparada tão discretamente, apesar de me sentir muito mais tímido do que

tinha previsto, ao ver-me frente a frente com a actriz, a quem até então

tinha atribuído um papel tão passivo.

Não descreverei o que se passou naquela memorável noite, nem a sensação

que produziu a nossa entrada em casa de lady Thornton. Lady Thornton,

deixando os hóspedes entregues à sua mortificação, aproximou-se de mim e

disse-me ao ouvido maliciosamente:

- Estou ansiosa por ver o desenlace de tudo isto.

Thereza, sem reflectir no caso, entregara-se desde o primeiro momento ao

prazer de proporcionar uma surpresa aos seus amigos; mas não tardaram

nela os receios de ter ofendido os senhores de Rutland. Mais de uma vez

tremeu nos momentos mais alegres da festa, pensando na tempestade que

mais tarde ou mais cedo se desencadearia sobre a sua cabeça. Meu primo

Jorge e sua mulher não dissimulavam o seu desgosto, e quando chegou a

hora do regresso a Rutland-Hall, tivemos a sorte de encontrar ainda a

carruagem em que tínhamos vindo, porque não nos ofereceram lugar nos

carros da família.

Quando chegámos fomos avisados de que os senhores de Rutland nos

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esperavam na biblioteca, onde os encontrámos. A senhora de Rutland

encarregou-se de Thereza, deixando-me entregue a seu marido.

Não quero entrar nos detalhes desta história.

- Cavalheiro, disse-me o meu amável primo ao terminar, sofremos

demasiado tempo a tua insolente intervenção, e peço-te que te retires daqui amanhã.

- Primo Jorge, respondi; não tenho inconveniente em partir já amanhã, mas

com a condição de Thereza Ray me acompanhar se assim o desejar.

Olhou-me surpreendido.

- Sabes, que se trata de uma órfã sem um «penny», que recolhi por

caridade?

- Quero fazer dela minha mulher, se tiver a felicidade de Thereza aceitar a minha mão, afirmei com solenidade.

- E uma vez casados, disse-me com ironia: Como pensam viver? Do ar ou

então à custa da família?

- Podes ter a certeza de que não será à tua custa - respondi-lhe, deitandolhe um olhar que nada tinha de humilde. Conheço-te muito bem, Jorge

Rutland.

- Palavras, isso não passa de palavras! Pois bem, não te esqueças de que eu lavo as minhas mãos relativamente ao que possa suceder-te e a Thereza

Ray.

- Amen - respondi, e rodando sobre os calcanhares, retirei-me para o meu

quarto.

No dia seguinte muito cedo, bati à porta que dava ingresso aos aposentos

das crianças, pedi a Jenny que acordasse miss Ray para lhe dizer que eu a

esperava no jardim.

Era no dia de Natal, dia de paz e de amor e embora não possa dizer que a

paz reinava no meu coração quando abracei com o olhar a paisagem branca

de neve, devo confessar que nessa altura não sentia ódio a ninguém.

Thereza não tardou, mas pareceu-me a mesma Thereza que vira com o seu

vestidinho preto e um tanto envergonhada das suas novas muletas. Senti

uma enorme alegria ao vê-la assim, porque a linda rapariga que eu

surpreendera na noite anterior causara-me medo. Contudo, quanto mais a

olhava mais me via obrigado a reconhecer que não era já a simples Thereza

a quem eu tratara como uma criança antes da metamorfose. Mudara muito,

ou talvez fosse em mim que a mudança se tivesse operado... ou então nos

dois... Apesar de tudo, essa mudança nada tinha de desagradável.

Saímos juntos do jardim e tomámos por um dos nossos atalhos favoritos, e

aí abrimos os nossos corações. Quando voltámos a casa, disse a Thereza;

- Em conclusão, Thereza, não receia viver comigo na miséria? Consente em

correr esse perigo?

Thereza respondeu movendo a linda cabecinha.

- Prepare-se, pois, para sairmos daqui depois do almoço. Não traga nada,

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Thereza. Ainda me resta algum dinheiro do troco do guinéu e com ele

compraremos tudo o que for necessário.

Thereza foi buscar o chapéu e voltou. Partimos e ao cabo de uma hora

estávamos casados. Rezámos juntos na igreja, um ao lado do outro, e

depois voltámos a Rutland-Hall para fazermos as nossas despedidas.

Eu creio que nos tomaram a mim por um doido varrido e a ela por

estouvada, pelo menos até meu primo Jorge receber a carta-ordem que eu

lhe enviei no dia seguinte contra um banqueiro de Londres, para que

cobrasse a importância da despesa feita por minha mulher na sua casa.

Daí em diante e pelo que me dizia respeito, começaram a mudar de opinião.

Percorri o continente com minha mulher. A enfermidade dela não era

incurável: o tempo e os cuidados inteligentes tornaram inúteis as muletas.

Ninguém, pois, estranhara que ao voltarmos a Inglaterra os nossos parentes tivessem dificuldade em reconhecer Thereza na senhora Guy Rutland,

casada com um milionário. Lady Thornton acolheu-nos com a sua graciosa

amabilidade... Mostrei-lhe o milagroso guinéu, que ainda tenho muito bem

guardado e a que chamo o dote de Thereza. Será necessário dizer que as

preciosas muletas incrustadas de prata e madrepérola não tinham sido um

presente de sir Harry?

Também as conservo ainda com amor, como uma relíquia de família.

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