O Homem Que Não Queria Ser Papa por Andreas Englisch - Versão HTML

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© 2011 by Andreas Englisch ( www.andreasenglisch.de), represented by AVA international GmbH,

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Originally published 2011 by C. Bertelmann Verlag, Munich, in der Verlagsgruppe Random House GmbH

© 2013 by Universo dos Livros

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1a edição - 2013

Diretor editorial

Luis Matos

Editora-chefe

Marcia Batista

Assistentes editoriais

Ana Luiza Candido

Bóris Fatigati

Raíça Augusto

Raquel Nakasone

Tradução

Gisele Andrade

Regina Canova

Colaboração

Marly Netto Peres

Arte

Francine C. Silva

Karine Barbosa

Capa

Zuleika Iamashita

Conversão para epub

Obliq Press

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Angélica Ilacqua CRB-8/7057

E48h

Englisch, Andreas

O homem que não queria ser papa / Andreas Englisch; tradução de Gisele Andrade, Regina Canova. –

São Paulo: Universo dos Livros, 2013.

560 p.

ISBN: 978-85-7930-378-4

Título original: Benedikt XVI

1. Bento XVI, Papa, 1927- 2. Papas – Igreja Católica I. Título II. Andrade, Gisele III. Canova, Regina

CDD 922.21

13-0155

Sumário

2005 Papa a contragosto

2006 O ano de Regensburgo

2007 Quem manda no Vaticano?

2008 Sucesso no fim do mundo, aborrecimentos em casa

2009 Conflitos vêm à tona

2010 Um papa no meio da tempestade

2011 O ano em que o papa se superou

2013 O discurso de renúncia do papa Bento XVI

2005

Papa a contragosto

Quem vai assumir?

Resumindo o que meus amigos e informantes no Vaticano me contaram, posso dizer que tudo começou da

seguinte maneira:

Cidade do Vaticano, Capela Sistina, abril de 2005. O silêncio na grande capela construída pelo papa

Sisto IV pesava sobre os 115 cardeais encarregados de eleger o novo papa. Todos eles sabiam que

milhares de pessoas que lamentavam a morte de Karol Wojtyla aguardavam a alguns passos dali, diante

do Vaticano. E eles, os cardeais da Igreja Católica, tinham a missão de resolver o mistério de quem seria

escolhido por Deus para suceder o “papa do milênio”. Escolher quem sairia do balcão como o 264˚

sucessor de Pedro. Depois de Karol Wojtyla, terminaram-se os dias em que a eleição do sumo pontífice

interessava somente à Igreja italiana porque um dos seus cardeais seria promovido a papa. O sumo

pontífice polonês tinha sabido criar uma Igreja globalizada, e era por isso que, dessa vez, o mundo

inteiro tinha os olhos postos em Roma.

Por séculos, os cardeais fizeram as eleições na capela sombria iluminada à luz de velas. A capela é

especialmente escura porque as janelas são altíssimas. Na opinião deles, isso a tornava mais fácil de

defender em caso de guerra. A fuligem negra das velas foi lavada dos afrescos coloridos de

Michelangelo Buonarroti, no teto e na parede frontal da capela. Até hoje, a cena do Juízo Final pintada

por Michelangelo ameaça os cardeais. Até hoje, o Satã no afresco agarra os pecadores. O chefe de

cerimônias, o bispo Piero Marini, fecha os cardeais a chave, ali, pouco depois da saída dos “extra

omnes” que observavam o mesmo homem. “Extra omnes” significa que todos os espectadores devem

deixar o recinto, e que só os cardeais e os médicos e seus ajudantes podem permanecer no conclave.

Todos olhavam para um italiano, o cardeal Carlo Maria Martini, eterno segundo. Há mais de uma

década seu nome sempre surgia quando se discutia quem poderia ser o próximo sumo pontífice. Nem era

preciso explicar aos cardeais dos países mais distantes quem era Martini e em qual banco ele se sentava.

O homem esbelto, que não tinha a aparência de italiano, parecia muito mais um dinamarquês ou sueco,

por causa de sua pele clara e sua altura impressionante. Ele era uma estrela da Igreja, e seus livros eram

conhecidos no mundo inteiro. Todos os cardeais conheciam a personalidade de Martini, que ficava

observando as pessoas de longe. Esse hábito dava a ele a aparência de uma águia. Martini observava

tudo ao seu redor, olhava por cima das pessoas, como se tivesse grandes coisas em mente, em vez de se

preocupar com futilidades. A mente brilhante de um homem que tinha a visão e a experiência de lidar

com uma grande diocese na Itália, em Milão, fazia dele um candidato perfeito. Alguns cardeais olhavam

para Martini com inveja. Cardeais esperavam por dias ou até semanas para alguma conferência ou sínodo

na vã esperança que algum jornalista solicitasse uma entrevista e pedisse a opinião deles.

Assim que Martini apareceu, uma multidão de pessoas da imprensa foi na direção dele. Ele tinha uma

necessidade extra de criar uma equipe de funcionários que deveriam interceptar a imprensa e marcar

cuidadosamente compromissos com todos para que eles pudessem falar com o grande cardeal. A Igreja

Católica começou a especular sobre Carlo Maria Martini depois que o porta-voz papal, Joaquín

Navarro-Valls, disse ao mundo que o papa João Paulo II tinha o mal de Parkinson e que isso poderia

fazer que ele deixasse o cargo. Especialistas em Teologia discutiram a delicada questão: poderia Martini

jurar obediência? Pois, sendo jesuíta, ele era obrigado a uma obediência especial ao sumo pontífice.

Para essa questão não havia casos anteriores que pudessem servir de exemplo, porque nunca um jesuíta

ocupou o trono do papa. Muitos políticos influentes, como George Bush sênior e Helmut Kohl,

procuraram se aproximar de Martini, imaginando que ele poderia ser o próximo papa.

Anos se passaram e o cardeal Carlo Maria Martini escreveu diversos livros e deu entrevistas

impecáveis. Várias obras foram escritas, especulando como seria a Igreja Católica sob o comando do

papa Carlo Maria Martini. Karol Wojtyla governou, sofreu e lutou, mas não saiu antes do tempo. Foi

assim que a época de Martini passou, aquela em que ele seria o sucessor perfeito para o trono de Pedro.

Agora, suas mãos trêmulas já não conseguiam mais esconder que ele também sofria do mal de Parkinson.

Velho e fraco, ele evitava, cabisbaixo, os olhares questionadores dirigidos a ele na capela. Mesmo

assim, muitos votaram em seu nome na primeira eleição, mas seus ombros caídos pareciam dizer “Não

consigo mais fazer isso. Estou velho e doente demais”.

Quando o cardeal Carlo Maria Martini saiu da disputa, começou o questionamento se havia chegado o

tempo da grande revolução. Seria finalmente a vez do primeiro papa do continente americano? Nas

últimas décadas, havia surgido o plano ousado de escolher um homem do Novo Mundo. Karol Wojtyla

nunca se cansava de dizer que a América Latina era a esperança. A maioria dos católicos do mundo, mais

de 550 milhões de pessoas, vive no continente americano. Quando o número de fiéis católicos e a

quantidade de candidatos ao seminário diminuíram drasticamente na Europa, a esperança se mudou para

a América. Um homem estava pronto para assumir essa empreitada: o argentino Jorge Mario Bergoglio.

Ele era considerado genial, corajoso e experiente. Conhecia a Igreja Católica no mundo inteiro e, além

disso, era considerado um excelente teólogo. Poucos pareciam surpresos com o número de votos que ele

estava conseguindo. Mas ele não ergueu o olhar para os cardeais que o observavam de suas mesas. Com

as sobrancelhas prateadas e bolsas escuras embaixo dos olhos, ele mais parecia um corvo velho

observando a urna de eleição. Com certeza, percebeu que ganhava cada vez mais votos. A expressão

amarga ao redor de sua boca deixava claro para os cardeais que ele sabia das vozes sussurrando atrás

dele, nos corredores vazios do hotel cardinalício Domus Sanctae Marthae. Seus inimigos dizem que ele

havia se aliado aos assassinos da junta militar argentina. Bergoglio não conseguiu fazer esses rumores

desaparecerem e sabia perfeitamente da suspeita que pesava sobre ele, de ter delatado alguns padres em

1976, para a junta militar.

Mas isso seria realmente verdade? Quem poderia saber e quem poderia provar? E quem poderia

garantir que isso não era verdade? O que aconteceria se ele fosse eleito sumo pontífice e depois

surgissem provas incontestáveis de que ele tinha mesmo sido um informante dos militares? Não era

suspeito o fato de Bergoglio nunca ter sido preso pelos carniceiros militares, que eram ateus? Ele

também não era um herói. Mas e se foi um cúmplice? Como os cardeais poderiam prestar homenagem a

tal papa? Eles não conseguiriam se livrar dele depois da eleição sem que isso se transformasse em

escândalo. Poderiam até contar com uma renúncia voluntária, mas, no pior dos casos, teriam que esperar

até sua morte. Muito arriscado. Bergoglio não era uma escolha segura.

Mas se não fosse Martini ou Bergoglio, então quem? O homem de cabelos brancos sentiu os olhares

dos cardeais. Muitos se perguntaram: por que não o teólogo da Bavária? Karol Wojtyla não tinha

enfatizado em seu último livro que ele não era apenas um bom funcionário, mas sim seu “melhor amigo”?

Então, por que não o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ( Congregatio pro Doctrina Fidei ),

o eterno companheiro de Wojtyla? Tudo parecia girar em torno do problema espinhoso que surgiu com a

morte do papa polonês: como escolher alguém que não fosse desaparecer ao ser comparado com o

chamado papa do milênio? Todos sabiam: escolher Joseph Ratzinger para sumo pontífice seria uma

crueldade, porque ele havia cometido um erro. Em seus escritos sobre a massa, a mesma massa que o

esperava do lado de fora, para cumprimentar o novo papa, ele quis banir as canções durante a missa e,

com isso, deixou claro para o conjunto de fiéis que ele considerava seu comportamento indigno de uma

missa sagrada.

Eleger Joseph Ratzinger sumo pontífice significaria fazer que justamente o homem que proibiu os

católicos mais fervorosos de festejarem durante a celebração da missa tivesse que ser forçado a entreter

a massa e encantá-la com seu carisma em todos os continentes. Obviamente, Joseph Ratzinger nunca

imaginou que seria colocado em uma posição na qual confrontaria as multidões. Joseph Ratzinger estava

certo que chegaria ao fim da vida do mesmo jeito de sempre, no silêncio de seu escritório. Como seria

possível mandar aquele homem, que disse claramente que não queria nada com as celebrações

barulhentas das missas, postar-se diante de multidões? A multidão de pessoas da Igreja iria fazê-lo pagar

por isso, e o desafiaria com seus aplausos? Como se quisessem dizer: “Vamos, papa Ratzinger, ouse nos

proibir de aplaudir e balançar nossas bandeiras! Agora tudo isso é para você”. Naquela ocasião, muitos

cardeais pensaram: “Não podemos fazer isso com ele, o cardeal Joseph Ratzinger não merece isso”. Ele

não tinha se candidatado à eleição e afirmou várias vezes que era completamente inadequado para aquela

nova imagem criada por Karol Wojtyla: um papa para ser tocado, um papa próximo, que possa ser

verdadeiramente amado pelas multidões.

Em meados de 2000, durante a Jornada Mundial da Juventude em Roma, Karol Wojtyla pediu a

milhões de pessoas que cantassem mais alto e que batessem palmas para que toda “Roma pudesse ouvir”.

Que contraste com o estilo do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que preferia fazer suas

orações bem baixinho, em pequenas igrejas com poucos participantes! Justamente esse Joseph Ratzinger

seria enviado diante das pessoas, para que multidões festejassem e comemorassem o sucessor digno de

Karol Wojtyla. Isso era muito desumano. Joseph Ratzinger sempre havia externado sua opinião e dito que

se imaginava em uma missa sóbria, sem aplausos e danças no altar, mas nunca tinha declarado saber

como manter as multidões sob controle. E agora os cardeais impunham justamente isso, como se

quisessem dizer: “Você disse que sabe mais, então nos mostre como melhorar”. Existe outro motivo do

porquê parecia impossível que Joseph Ratzinger fosse eleito o próximo sumo pontífice: sua

personalidade. Georg Gänswein, secretário de Ratzinger, me disse mais tarde em termos claros: “Joseph

Ratzinger não gosta de ser o centro das atenções”. Mas como se pode fazer de um homem o próximo papa

sabendo que ele odeia que fiquem olhando para ele e não gosta de fazer um verdadeiro espetáculo,

acenando do carro aberto, enquanto passa pela praça São Pedro e chama a atenção de todas as câmeras

de televisão? Parecia injusto exigir isso daquele homem idoso.

O terceiro motivo para não se votar nele é que o cardeal Joseph Ratzinger não sabia nada sobre a

política da Igreja. Ele nunca havia trabalhado como secretário de Estado. Pelo contrário, durante um

debate sobre a admissão da Turquia na União Europeia, ele tinha sido muito repreendido pelo cardeal

secretário de Estado Angelo Sodano. Quando Ratzinger se pronunciou contra a admissão da Turquia em

uma entrevista, Sodano esclareceu logo em seguida, e publicamente, que aquela era a opinião pessoal de

Joseph Ratzinger e não a opinião da Igreja.

Mas foi justamente o fato de Ratzinger não ter amigos ou pessoas de confiança no secretariado de

Estado que chamou a atenção dos cardeais que comandam a Igreja e viram nele a figura ideal para se

tornar o próximo sumo pontífice. Diversos cardeais desejavam que o secretariado de Estado recuperasse

a autonomia perdida com João Paulo II. Karol Wojtyla, Karol o Grande, tinha centralizado todas as

funções nele mesmo. As negociações do cardeal secretário de Estado com os chefes de Estado do mundo

eram uma piada. Karol decidia praticamente tudo, sem Karol nada acontecia. Ele era o chefe e o herói, e

mesmo seus inimigos assumiam que tinha incríveis habilidades políticas. Até Mikhail Gorbachev disse

que sem Karol Wojtyla a União Soviética não teria terminado pacificamente. Os cardeais da Cúria

conheciam a história verdadeira de Karol Wojtyla ter berrado ao telefone com o cardeal secretário de

Estado, Agostino Casaroli. É bem verdade que ele pediu desculpas, mas isso não muda o fato de ter

gritado com o cardeal. Esse era o equilíbrio de poder entre o papa e o cardeal secretário de Estado.

Muitos sonhavam que o próximo sumo pontífice permitisse que o secretário de Estado pudesse respirar

novamente e recuperasse a importância política do cargo. Mas isso também significava eleger um papa

que eles sabiam que perderia parte do poder de imediato, o que não poderia ser mantido em segredo por

muito tempo. O sumo pontífice teria de viver com isso e aparentar ser um papa muito mais fraco que seu

predecessor, ao menos para o público. Parecia injusto impor tudo isso ao quieto e educado Joseph

Ratzinger: reinar como um papa publicamente deposto, para garantir o bem-estar do secretariado de

Estado, que finalmente seria libertado do controle de um pontificado poderoso. O pacífico Joseph

Ratzinger conseguiria se impor na guerra interna emergente? Sempre que uma ação de política externa

fosse bem sucedida, ele seria felicitado, mas quando o resultado fosse negativo, ele levaria toda a culpa

sozinho, por não recorrer ao carisma necessário para impor as ideias ao secretariado de Estado. As

pessoas deveriam assistir a sua humilhação diversas vezes e se retirar da política do Vaticano? Um papa

que teria que se sujeitar a fazer o que o secretariado de Estado determinasse?

Escolha outro!

Joseph Ratzinger percebeu os olhares e já fazia ideia do que estava por vir. E foi cuidadosamente

refletida a descrição dada por ele mais tarde sobre sua eleição, ou melhor, sobre sua execução. No

momento em que ela estava ainda mais perto de acontecer, ele recebeu o instante como se “uma

guilhotina caísse sobre mim”.

Como lembraria mais tarde, no silêncio da Capela Sistina pediu a Deus: “Escolha outro, escolha

alguém mais jovem”. Ele sabia perfeitamente que iria sofrer não só pela mudança, mas pelo peso de uma

verdadeira catástrofe – significado, para qualquer pessoa, de ver o próprio fim se aproximar. Elegante

nos mínimos detalhes, o velho e bem cuidado barco a vela desliza pela vida de Joseph Ratzinger quase

sem ruído, e essa construção bem cuidada é de repente jogada contra um muro de concreto e se

despedaça em milhões de farpas. Joseph Ratzinger tinha moldado por décadas a fio aquela obra de arte

que era a sua vida. Vida de muito esforço intelectual, de transformar, com sua letra miúda, pensamentos

em escrita. Para ele, usar uma máquina de escrever já era algo horroroso; mais horroroso ainda seria

compartilhar os sons agonizantes que faz uma máquina esquisita conhecida entre alguns como

computador. Há muito, muito tempo, quando ainda era um jovem padre, ele poderia ter trocado o silêncio

de seu quarto de estudante pela agitação do trabalho com os fiéis do mundo, do lado de fora. Em vez de

dedicar seu tempo aos livros, poderia ter secado lágrimas de crianças, de doentes graves sem esperança;

poderia ter oferecido consolo, poderia ter aliviado o desespero de pais que perderam o emprego;

poderia, enfim, ter vivido no meio das pessoas, e não dos livros. Seu antecessor tinha sido assim. Logo

que foi eleito, despachou sem meias palavras a Sedia Gestatória – a cadeira oficial na qual os papas se

deixam transportar pela Catedral de São Pedro, há mais de quinhentos anos. Karol Wojtyla pendurou a

placa de “fora de serviço” na cadeira, pois não queria ser transportado ali; queria ficar próximo das

pessoas, queria tocá-las, abraçá-las e abençoá-las, dar milhões de apertos de mão, conversar com os

fiéis.

Mas a determinação de Joseph Ratzinger havia sido outra: o silêncio dos estudos, a pesquisa sobre os

Antigos, aqueles que a seus olhos talvez tenham sido os pais da Igreja. Se Deus não tivesse desejado

assim, ele o teria enviado para uma paróquia. Mas Deus não havia feito isso. Ele tinha previsto para

Joseph Ratzinger uma vida inteira de silêncio e de reflexão sobre Deus, e aquele velho homem que vivia

isolado, como se em uma ilha, era o mesmo que corria agora o risco de se exibir diante do mundo todo,

no palco da Igreja Católica com vista para o mundo. Esse silêncio, parte essencial de sua vida, ameaçava

agora ser sugado por um tornado e virar poeira de estrelas. Visto de longe, no Santo Ofício, o

apartamento do papa, reinava um ir e vir sem fim, telegramas que circulavam, visitas de Estado

esperavam por sua vez, discussões azedas haveriam de acontecer com o bispado. Sem uma dose de

severidade, um monarca não consegue dirigir uma organização tão grande como a Igreja, que conta com

mais de um milhão de membros, nem aceitar que todos os padres não sejam perfeitos. Poucos sabiam tão

bem quanto Joseph Ratzinger o quanto eles não o eram. Com consternação e abalo, a Igreja Mundial

relembrou a oração do cardeal Joseph Ratzinger na sexta-feira santa no Coliseu, poucas semanas atrás,

quando ele, a pedido do sumo pontífice, carregara a cruz pela antiga arena e de modo dramático lamentou

a “sujeira” que se espalhou pela Igreja Católica.

O teólogo Ratzinger sabia que estavam procurando um homem para o trono do papa, um homem que

não se conformasse com o tom ameno e com a compreensiva contribuição do professor de Teologia, um

homem com mãos fortes e que fizesse uso de uma vassoura de ferro para se livrar sem dó do que precisa

ser livrado. Mas aquele Joseph Ratzinger, o mesmo que em outra oportunidade havia varrido a “sujeira”

da Igreja no Coliseu, nunca quis ser o homem que teria que limpar a Igreja. Ali, no escritório dos papas,

não havia espaço para um teólogo silencioso e discreto, que precisava de tempo, liberdade e sossego

para formular seus pensamentos. Os cardeais procuravam um homem que esmurrasse a mesa, que tivesse

de tomar decisões amargas, mas que ao mesmo tempo não se cansasse com a rotina do gigantesco

maquinário da Igreja. No curto período como bispo de Munique e Freising, era justamente isso que

Joseph Ratzinger mais detestava: passar seu tempo tendo que cuidar desse tipo de coisa, com a

adequação da verba das férias, com a falta de vagas nas creches, brigar pelo orçamento destinado à

construção de igrejas.

Mas não se pode comparar o aparato administrativo da diocese de Munique e Freising com o Vaticano.

Em Munique ainda teria sido possível conhecer pessoalmente todos os padres e as pessoas da ordem se

ele reservasse um tempo para isso. Como papa, ele teria que comandar uma engrenagem composta por 5

mil bispos e 300 mil padres. Como um teólogo conseguiria lidar com um tarefa tão gigantesca? Logo ele,

que sempre tinha se ocupado do conteúdo mais requintado da história cristã, especialmente com o

começo do cristianismo. O homem Joseph Ratzinger ameaçava sumir, dado que ele era um pensador, um

homem quieto, um perfeccionista que amava preparar seu discurso meticulosamente e com esmero em sua

biblioteca e gostava de procurar citações que pudessem ser utilizadas para ilustrar as suas palavras.

Quase todos os outros cardeais no Vaticano, sem exceção, faziam seus discursos de improviso, pelo

menos com um tempo de preparação muito menor do que Joseph Ratzinger. O professor Ratzinger odiava

ter que abordar questões teológicas com restrição de tempo, ele odiava se sentir obrigado a deixar de

entrar em detalhes para caber no horário. Mas um papa tem que saber improvisar, porque um sumo

pontífice não tem tempo para se aprofundar em todos os problemas. Um papa tem que decidir em um

piscar de olhos o seu sentimento e tem que ter a confiança em Deus sem conhecer todos os detalhes. Ele

tem que saber de tudo o que acontece no mundo, os intermináveis conflitos na Terra Santa, a guerra

ameaçadora no Tschad, a epidemia de cólera na América Latina.

Este Joseph Ratzinger temia ser enfiado em um cargo onde o professor de Teologia não poderia se dar

ao luxo de ter tempo para as reflexões e com isso não pudesse continuar a preencher a sua trajetória de

vida. Joseph Ratzinger sabia que ele ainda teria que dizer algo, algo que lhe queimava a alma, a soma de

uma vida inteira de trabalho como teólogo. Ele queria formar a sua obra de arte em sua cabeça sob o

sossego de longos passeios pelos bosques alemães e na sua casa em Pentling, onde ele arrumaria as suas

ideias em seu quarto de estudo sob a proteção do silêncio interrompido apenas pelo soar dos arranhões

de sua pena no papel em que ele escreve. Mas essa soma de uma vida inteira de trabalho agora se via

ameaçada pela eleição dos cardeais. Para que ele precisaria da casa em Pentling, casa que custou muita

economia do professor e que foi cuidada com muito esmero por tantos anos, se agora ele não voltaria

mais a pisar nela? Como ele arrumaria tempo para a sua pausa diária, aquela que um senhor com mais de

oitenta anos naturalmente necessita para poder se concentrar e assim continuar a trabalhar, pausa

importante também para poder se defender do poderio do aparato do Vaticano, que o atropelaria

diariamente com dúzias e mais dúzias de documentos urgentes à sua espera, cuja maioria seria colocada

sob o tic-tac do relógio, documentos de casos que precisariam de decisões complexas, mas que teriam

que ser tomadas sem o tempo necessário de reflexão?

Joseph Ratzinger tinha uma boa ideia do que os bispos na Capela Sistina imputariam a ele. Ele

conhecia o quarto das lágrimas do lado esquerdo da parede frontal da capela pintada por Michelangelo

Buonarroti, quarto suspenso das tumbas, os mortos dos primórdios. Ele sabia que naquele cômodo seria

exigido dele o seu maior ato, a despedida do professor e teólogo Joseph Ratzinger; e sabia muito bem

que tal despedida não seria vitoriosa. O professor de Teologia não conseguia mais se separar de Joseph

Ratzinger, um tinha nascido do outro e vice-versa. O espírito de Joseph Ratzinger não permitiria ser

aprisionado pela mente administrativa e pelas obrigações do poder às quais um papa está submetido. Ele

continuaria pensando como o professor de Teologia Ratzinger. Seu intelecto continuaria a planar em

outras paragens, ocupado com o que pensadores como Agostinho ou Boaventura teriam querido dizer,

1600 ou 900 anos atrás, respectivamente, em vez de se preocupar com qual cidade seria estrategicamente

mais adequada para o próximo Dia Mundial da Juventude. Era impossível criar um novo homem, um

papa Joseph Ratzinger que não mais remetesse seus pensamentos ao mundo silencioso do Teólogo

Ratzinger. O futuro papa não deixaria de ser o professor de Teologia Joseph Ratzinger, mas esse homem

sabia com absoluta certeza qual seria a tarefa mais importante do sumo pontífice: se reinventar.

Era impossível ser melhor do que Karol Wojtyla, aquele professor de Teologia brilhante vindo da

Polônia que sempre fazia piada sobre o seu certificado de habilitação – que segundo ele não seria lá dos

melhores – e soube brilhar após ser escolhido como papa. Logo nas primeiras horas, depois de se

mostrar na sacada da Catedral de São Pedro, com seu carisma e um italiano imperfeito, ele encantou o

mundo da Igreja e o conquistou para sempre. Como que por encanto, Karol Wojtyla providenciou uma

nova personalidade. Criou uma nova persona, perfeitamente adequada à função para a qual tinha sido

eleito por seus pares, trazendo um novo fôlego de crença na Igreja Católica. Aquele homem que até então

passava despercebido, em meio à massa de cardeais, dava a impressão de ter vestido um novo traje de

reserva, trazido por Deus da Polônia para ser papa. Mas depois de sua eleição, o pardalzinho abriu as

asas e se transformou em orgulhosa águia, mostrando a todos como a escolha de Deus pode modificar a

vida de um ser humano. Como se tivesse recebido uma energia inacreditável vinda do céu, Karol Wojtyla

se transformou em um furacão ativo, um papa milenar, um homem renascido que ainda sim mantinha o

coração de um padre de paróquia, o mesmo que tinha lutado contra os comunistas em Nova Huta, para

que igrejas pudessem ser construídas.

Os amigos de Joseph Ratzinger sabiam que algo desse tipo não se repetiria. Nele não se escondia um

homem que ficaria deslumbrado ao olhar o mundo com olhos de papa. As décadas de serviços na

Congregação, de trabalho como teólogo e docente moldaram um homem que agora chegava ao final de

uma longa estrada. Ele não era alguém que conseguiria mudar de pele e se transformar, criando um

personagem que encantaria o mundo como sumo pontífice. A eleição para o papado ia destroçá-lo, em

uma vida extremamente diferente, uma vida que Ratzinger teria de assumir dali em diante. Quem tinha

desejado mal àquele homem cauteloso e quieto, arrancado do sossego de seu quarto de estudos e jogado

em uma roda viva, um carrossel que girava a toda velocidade, com ele a bordo e agora sob o olhar atento

do mundo todo?

O tímido Joseph Ratzinger não ia conseguir mudar assim, radicalmente. Nele não dormitava um homem

capaz de encantar o mundo como papa. O nó da questão, agora, era o quanto o professor de Teologia

cederia de espaço ao sumo pontífice, o quanto o substituto de João Paulo II poderia desabrochar em

Ratzinger. E naquele momento, ali na Capela Sistina, ele soube que não fazia parte de sua natureza

comandar uma Igreja sob instruções rigorosas e uma visão específica. O que ele podia e o que ele queria

era colaborar, com suas ideias e opiniões sobre as grandes discussões teológicas, mas em completa

liberdade. O que ele prezava mais do que tudo era a liberdade que seus opositores tinham de contestar as

ideias e opiniões do teólogo Joseph Ratzinger. E era justamente essa liberdade teórica que o Vaticano

pretendia arrancar daquele homem. Não havia outro jeito. Ele teria que ser um chefe, uma autoridade que

não se deixasse assustar com essa investida, que decepcionaria alguns dos interesses da Igreja, e que

eventualmente gritaria com eles, como tinha feito Karol Wojtyla. Ele não tinha alternativa a não ser criar

um espaço para aqueles que sempre o criticaram. Os ataques ou ofensas vindas dos colegas teólogos

eram algo que Ratzinger sempre recebeu de maneira reservada, mas agora não se tratava mais de sua

reputação pessoal, e sim da defesa da Igreja Católica. Essa seria sua missão a partir das 17h43 do dia 19

de abril, quando ele se postou à sacada e aceitou ser investido papa Bento XVI.

De adversário a papa

No crepúsculo daquela terça-feira, 19 de abril de 2005, a poucos minutos da escolha de Ratzinger para

papa, eu corria. Eu corria pela praça São Pedro, na qual centenas e mais centenas de pessoas

comemoravam a escolha do novo sumo pontífice. E eu estava feliz de poder correr. Correr significava

não ter que ficar sentado quieto em um canto qualquer, pensando no quanto era grande a catástrofe que

tinha se abatido sobre mim. Correr me dava a falsa impressão de que eu poderia correr do golpe, do

golpe violento que não demoraria a me alcançar. Alguém havia me dito que o cardeal alemão logo daria

uma coletiva de imprensa próximo à Catedral de São Pedro, bem ali, no lado esquerdo, no Campo Santo

Teutônico. Era para lá que eu correria. A adrenalina parecia ter acendido mil lâmpadas na minha cabeça

piscando um nome: Ratzinger. O meu celular tocava o tempo todo e eu sabia quem era: minha mulher, que

certamente ia me falar do seu espanto com a escolha, e que agora era o fim. Eu atendi ao telefone e nós

conversamos sobre o trajeto que havia começado em 1987, em cima de uma velha Honda Jazz, pelos

Alpes; na garupa, uma televisão que era da avó dela. Aquele trajeto que agora chegava ao fim. Aquela

etapa na Itália havia encontrado um ponto final, por causa do nome Ratzinger. O país em que nosso filho

engatinhou pelo chão de nossa primeira casa, a mesma onde nosso gato de estimação teve uma vida cheia

de mimos, principalmente depois de uma raposa ter rasgado sua barriga; casa que tinha se transformado

no lar do nosso cachorro vira-lata, retirado por policiais de uma gaiola enferrujada, em um viveiro

ilegal, e que usufrui do sofá de couro que nós oferecemos a ele pelo resto de seus dias.

Esse país que havia se tornado o nosso lar, nós teríamos que abandonar, sem sombra de dúvida. Eu

poderia ter ido ver a escolha do papa, eu poderia até mesmo ter previsto que Joseph Ratzinger se tornaria

o novo sumo pontífice em um programa de rádio qualquer da Bavária. Mas agora que ele de fato era o

papa, eu me senti estilhaçado e o motivo para isso era que eu havia escrito um livro sobre João Paulo II,

no qual o novo papa também figurava. A edição de bolso tinha sido publicada naqueles dias de abril de

2005. No livro, eu havia criticado um herói, Karol Wojtyla, mas não só – eu também tinha sido duro com

um homem: Joseph Ratzinger.

Eu via difundida em pormenores a minha decepção para com uma passagem de Joseph Ratzinger

Dominus Iesus”. O suor escorria pelas minhas costas - não só porque eu corria pelo Campo Santo com

um computador portátil pesado, mas também porque eu já via claramente o início daquele capítulo: eu

havia escrito que por inúmeras vezes, vezes de se perder a conta, eu havia pisado na sala de conferências

do trono sagrado, mas que, só uma vez em toda a minha vida eu tinha ficado decepcionado de verdade –

quando ouvi um discurso de Joseph Ratzinger. Ele menosprezou a Igreja Evangélica, a Igreja de minha

mulher, afirmando que o evangelismo não era uma Igreja e sim uma comunidade religiosa. Para irradiar o

astro de luz Karol Wojtyla, eu precisava de um inimigo; ao lado do homem que destruiu a muralha entre

as religiões, eu precisava de um opositor para tornar a história mais dramática. E esse opositor era

justamente Joseph Ratzinger, agora nomeado novo papa. A minha reação ao “ Dominus Iesus” tinha

seguramente aborrecido o novo sumo pontífice, mas muito pior foi outra coisa: o que escrevi sobre

Fátima e Joseph Ratzinger. Isso teve, sem sombra de dúvida, um efeito avassalador na escolha do papa

Bento XVI. Isso sim era um problema existencial. No ano 2000, João Paulo II tinha ido a Fátima e

revelado o terceiro segredo guardado havia décadas. O terceiro segredo dizia respeito ao atentado à vida

de um papa. João Paulo II acreditava que a profecia referia-se ao atentado sofrido por ele em 13 de maio

de 1981 na praça São Pedro, atentado que por um triz não lhe custou a vida.

João Paulo II havia pedido a Ratzinger que escrevesse um prefácio sobre a aparição de Maria. No

fundo, tratava-se de uma questão fulcral: as três crianças que em 1917 acreditaram ter visto a mãe de

Jesus e falado com ela, a tinham realmente visto, ou tiveram uma experiência interior e a partir dela

acreditaram ter tido uma visão? Ou teria, afinal, acontecido algo em Fátima que, de uma vez por todas,

apresentou indícios irrefutáveis de que Maria realmente fez uma aparição? Na verdade, tudo isso não

passava de uma discussão por conta de um galho. Desde 13 de maio de 1917, as três crianças, Lucia dos

Santos, Jacinta Marto e Francisco Marto, diziam ver uma vez por mês, sempre no dia 13, a mãe de Deus

sobre o galho do azinheiro em Fátima, Portugal. Assim que a mãe de Jesus veio até eles para falar-lhes,

“o galho vergou para baixo” como se algo invisível houvesse se sentado sobre ele, e não saído. Se isso

for mesmo verdade, se o galho vergou para baixo, então algo realmente tinha se instalado ali, indicando

que aquela não era uma experiência sensorial das crianças. O segundo problema tinha relação com anjos:

Lucia dos Santos declarou ter visto o corpo de Cristo, do qual emanava sangue. Anjos teriam capturado o

sangue de Cristo em ânforas. Joseph Ratzinger escreveu que tal descrição era a representação mais

corriqueira representada nos livros da época. Mas essa declaração produzia a sensação de que Joseph

Ratzinger considerava que Lucia dos Santos não havia visto realmente a mãe de Deus, mas sim sofrido

uma experiência particular, ilustrada por ela com imagens de seu subconsciente. Eu fiquei decepcionado,

sem entender a cautela e a reserva de Joseph Ratzinger. Por que, em sua apreciação, ele simplesmente

não escreveu que se tratava de um milagre, o milagre de Fátima, no qual o papa acreditava?

A consequência disso foi que fiéis vindos de todas as partes do mundo, grupos de oração e também

pessoas especializadas queriam saber, indignados, se era verdade que o chefe do Santo Ofício não

acreditava no evento de Fátima. Joseph Ratzinger teve que acalmá-los, explicando que não era bem isso

que ele tinha querido dizer. Claro, o que mais ele poderia afirmar, senão isso?

Apesar de toda bondade, algo inerente a um homem da Igreja, eu soube que Joseph Ratzinger devia

sem sombra de dúvida estar bem zangado comigo. Disso eu já tinha conhecimento, mas se ainda me

restava alguma dúvida sobre isso, ela desapareceu quando o próprio secretário pessoal de Ratzinger –

Georg Gänswein – fez questão de deixar isso bem claro. O homem que eu havia criticado mais do que

deveria era agora a autoridade maior de milhões de católicos, o vigário de Jesus Cristo, e com esse

homem é que eu havia criado sérios aborrecimentos.

O telefone tocou novamente enquanto eu me apressava, por entre as colunas da Catedral de São Pedro,

e me assustei quando reconheci o número no visor do telefone: era o adido de imprensa do sumo

pontífice, Joaquín Navarro-Valls. Eu parei, ensopado de suor, na frente da guarda suíça que havia me

manobrado na travessia pelo Campo Santo. “Ciao, Joaquin” , disse eu. “Ciao, Andreas! Eu queria

parabenizar você por seu papa alemão; agora, no Vaticano, tudo vai estar em casa”, disse ele brincando.

“Eu não sei”, respondi eu, paralisado. “Tudo de bom”, acrescentei; e desliguei.

Afastado em câmera lenta?

Ele não fazia ideia. Assim pensei eu. Ele ainda não fazia ideia, mas isso não iria durar muito tempo. Eu

havia vivenciado muitas catástrofes no Vaticano para saber exatamente o que iria acontecer. Não ia

demorar para que o novo papa chamasse o porta-voz Navarro-Valls para terem sua primeira conversa de

rotina no Vaticano. Os dois já se conheciam havia muitos anos. Em algum momento eles iriam tocar no

meu nome, e Joaquín contaria alguma história de anos atrás, na qual eu por acaso havia trabalhado com

ele – como eu havia lhe ensinado um punhado de palavras em alemão, ou como eu o havia feito chorar na

frente das televisões do mundo inteiro quando anunciei a ele a notícia da morte do papa João Paulo II,

ainda na sala de conferências do sagrado trono. Joaquín contaria algo do gênero e, de repente, sentiria um

tom frio na voz do novo papa. Isso seria mais do que o suficiente. Ele já estava há 24 anos na corte do

sumo pontífice, e sabia interpretar qualquer tom de voz. O fato por si só de o papa talvez não esboçar

nenhuma reação ao ouvir o meu nome não demonstraria de fato nenhum sinal que pudesse ser reconhecido

sobre o que quer que seja; ainda sim, isso já seria o suficiente para que Joaquín entendesse a situação.

Depois, era só uma questão de tempo, até que isso viesse a se transformar em um grande desastre

público. Em algum momento chegaria o dia – provavelmente isso aconteceria durante a primeira viagem

do sumo pontífice à Alemanha – de Joaquín arregimentar o exército de jornalistas alemães que

acompanhariam o novo papa; exatamente como nas viagens de Karol Wojtyla à Polônia, sempre na

companhia dos jornalistas polacos. Eu não constaria na lista, eu não estaria no grupo dos alemães cujas

mãos o papa apertaria; e no avião do papa todos iriam notar a minha ausência. Isso não podia ser

evitado, e nesse dia ficaria claro para toda a Cúria que eu tinha sido posto de lado. Esse seria meu fim:

velhos amigos da Cúria que eu telefonaria para marcar um encontro, para uma conversa atrás dos

bastidores, iriam de repente transferir compromissos e obrigações para que um encontro comigo não

coubesse em suas agendas. Primeiro, eu seria afastado do círculo de pessoas influentes e depois cortado

do acesso às informações, e no final não me restaria outra solução a não ser ir embora. Todo o esforço

dos anos passados, o longo caminho de acesso pessoal aos maiores especialistas do Vaticano havia sido

em vão.

Naquela noite, ainda ensopado de suor, eu adentrei o salão. Salão no qual estavam presentes o ex-

dirigente de Conferência do Bispado, o cardeal alemão Karl Lehmann, assim como os cardeais Joachim

Meisner, Walter Kasper, Wetter e Sterzinsky, todos reportando os momentos dramáticos da escolha do

novo sumo pontífice. Eu pensei: na realidade, não fazia mais sentido me sentar ali, ouvir os cardeais,

fazer perguntas e me comportar como se nada tivesse acontecido como se eu pudesse continuar a

trabalhar normalmente. Na realidade, esse era o fim. Eu queria me levantar e simplesmente deixar o

salão...

Deixar aquela cadeira e encontrar a porta de saída já seria o bastante, simplesmente porque, assim, eu

estaria em movimento. Tudo era melhor do que ter de ficar ali sentado matutando. Mas exatamente

naquele momento eu vi o rosto do cardeal Lehmann, que estava sentado ali, virado para frente, em

companhia de suas palavras minuciosamente ponderadas. Ele era o presidente de longos anos da

Conferência do Bispado Alemão. O mesmo presidente que certa vez, numa ocasião ímpar, tinha travado

uma briga duríssima frente ao Regimento da Igreja com um cardeal que estava bem ali a frente dele e

agora havia se tornado não só papa, mas também seu chefe: Joseph Ratzinger. As luzes da sala de

conferência no Campo Santo, a iluminação neon mesclada nas manchas de escuridão e as paredes quase

sem janelas deixavam qualquer um com uma aparência nebulosa. Definitivamente, aquele não era um

local para convenções amistosas, até mesmo em dias de júbilo ou de comemorações natalinas, nos quais

o champanhe rega muito mais do que a sede.

Até Lehmann parecia nublado. Desde 1994 ele havia tentado sem sucesso convencer o dirigente da

Doutrina da Fé – Joseph Ratzinger – de que a Igreja Católica deveria se manter relativamente firme ao

sistema de assessoria de gestações conflituosas, ainda que houvesse o risco de que, mesmo depois do

apoio oferecido pela Igreja, as mulheres se decidissem pelo aborto. Joseph Ratzinger sempre foi contra a

posição de Lehmann, mas Lehmann nunca desistiu. Ele optou pela luta contra Joseph Ratzinger na

esperança de que o papa fosse mudar de ideia e adotar uma opinião divergente da do prefeito da Doutrina

da Fé, mas o ônus dessa luta perdida pesava em seus ombros naquela noite, diante do olhar de todos os

presentes.

Eu me lembro claramente que a cada vez que Lehmann tentava expor sua posição em Roma, ele voltava

de lá derrotado por causa da reação de Ratzinger. Mas ele ainda continuava tendo a esperança de receber

um dia o apoio do Vaticano. Mais de uma vez eu o ouvi dizer: “Mas o Ratzinger não é o papa”. Agora

era.

Naquela noite, eu encontrei ainda um outro homem que estava na mesma situação – o cardeal Walter

Kasper. O vivaz ex-bispo de Rottenburg-Stuttgart também estava em posição delicada e tensa. O cardeal

Kasper nunca teve complicações sérias em sua vida com o regimento da Igreja ou com a Cúria, salvo uma

única vez, justamente com Joseph Ratzinger. No ano de 1993, Kasper usou em uma carta pastoral a

expressão “séria prova de consciência”, relativa à exclusão de modo categórico dos sacramentos as

mulheres e homens divorciados que se casavam pela segunda vez. A carta pastoral foi combatida

ferozmente pela Doutrina da Fé e por Joseph Ratzinger, até levar Kasper ao ponto de ter que se desculpar

e ser obrigado a retirar tal iniciativa da “pauta”. O relacionamento entre Ratzinger e Kasper nunca se

recuperou dos estilhaços dessa briga.

Ao final da nada amistosa Conferência dos Cardeais Alemães, me postei na entrada sombria que