O Homem que andava de rastros por Arthur Conan Doyle - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
index-1_1.jpg

Sherlock Holmes

em:

O homem que andava de

rastros

Por Sir Arthur Conan Doyle

PDF por ZOHAR (zohar@bol.com.br)

CPTurbo.org

O sr. Sherlock Holmes foi sempre de opinião que eu devia publicar os

estranhos fatos relacionados com o professor Presbury, com o objetivo de

destruir de uma vez por todas os boatos que, há uns vinte anos atrás, agitaram

a universidade e repercutiram nos círculos científicos de Londres. Havia,

contudo, alguns obstáculos no caminho, e a autêntica história desse curioso

caso permaneceu encerrada na caixa de estanho que contém tantos relatos de

aventuras do meu amigo. Agora, finalmente, obtivemos permissão para ventilar

os fatos que constituíram um dos últimos casos de que Holmes se incumbiu

antes de deixar suas atividades. Mas, mesmo agora, têm de se manter certas

reticências e certa discrição ao se expor o caso diante do público.

Numa tarde de domingo, no princípio de novembro do ano de 1903, recebi

mais uma das lacônicas mensagens de Holmes:

"Venha imediatamente, se não for incômodo; se for, venha da mesma forma.

S. H."

As relações entre nós, naqueles últimos tempos, eram muito especiais. Ele

era um homem de hábitos restritos e concentrados, e eu me tornara um desses

hábitos. Na qualidade de instituição, eu era como o violino, o tabaco forte, o

velho cachimbo preto, os livros de índice, e outras tantas coisas talvez menos

desculpáveis. Quando se tratava de um caso de trabalho ativo e se precisava

de um companheiro com cujos nervos ele podia contar, eu entrava

inevitavelmente em cena. Mas afora isso, eu tinha os meus préstimos. Era o

atiçador do seu intelecto. Estimulava o detetive. Ele se comprazia em pensar

alto na minha presença. A rigor, não se podia dizer que as suas observações

fossem feitas para mim (dir-se-ia que muitas delas eram antes endereçadas à

cabeceira da sua cama), mas, sem dúvida, uma vez adquirido o hábito, tornara-

se de certo modo proveitoso eu intervir com os meus comentários. Se eu o

irritava com uma certa morosidade sistemática do meu modo de pensar, essa

irritação até servia para fazer com que as suas próprias intuições e impressões, de si já tão brilhantes, cintilassem ainda com mais vivacidade e rapidez. Era

esse o meu modesto papel na nossa aliança.

Ao chegar à Baker Street, encontrei-o encolhido na sua cadeira de braços,

com os joelhos erguidos, o cachimbo na boca e um largo sulco na fronte

cismadora. Era evidente que algum angustioso problema lhe atazanava o

espírito. Com um aceno de mão, indicou a minha velha cadeira de braços, mas,

exceto isso, durante meia hora não deu qualquer indício de ter notado a minha

presença ali. Então, com um estremecimento do corpo, pareceu despertar do

seu devaneio, e com o habitual sorriso excêntrico, deu-me as boas-vindas por

me ver de regresso àquela casa que já tinha sido o meu lar.

— Há de me desculpar uma certa abstração de espírito, meu caro Watson —

disse ele. — Contudo, foram submetidos à minha apreciação alguns fatos

curiosos, que, nas últimas vinte e quatro horas, deram por sua vez origem a

algumas especulações de caráter mais geral. Tenho pensado seriamente em

escrever uma pequena monografia a respeito da utilidade dos cães no trabalho

do detetive.

— Mas isso, Holmes, já é assunto explorado — disse eu. — Cães policiais...

— Não, Watson, não. Esse aspecto do assunto é naturalmente conhecido. Mas

existe outro muito mais sutil. Deve se recordar de que, no caso que você, no

seu estilo sensacional, associou às Copper Beeches, eu consegui, observando

o espírito da criança, formular uma dedução relativa aos hábitos criminosos do

pai, burguês de respeito.

— Sim, lembro-me muito bem.

— O curso das minhas idéias relativamente aos cães é análogo. O cão reflete a

vida da família. Onde é que já se viu um cão espevitado numa família

sorumbática, ou um cão tristonho numa família jovial? Gente rabugenta tem

cães rosnadores, gente perigosa tem cães perigosos. E as disposições de

espírito passageiras destes talvez reflitam as disposições passageiras dos seus

donos.

Abanei a cabeça.

— Há de convir, Holmes, que isso é um pouco forçado.

Ele tornara a encher o cachimbo e sentou-se direito, sem tomar

conhecimento do meu comentário.

— A aplicação prática do que acabo de dizer prende-se intimamente ao

problema que estou investigando. A meada, como vai ver, tem muitas voltas, e

ando à procura do fio que provavelmente está na seguinte pergunta; por que é

que Roy, o fiel cão do professor Presbury, tem tentado mordê-lo?

Enterrei-me na minha cadeira, um tanto desapontado. Então era por uma

questão tão trivial que tinham me arrancado do meu trabalho? Holmes olhou-

me de esguelha.

— Sempre o mesmo Watson! — disse ele. — Você não se convence de que as

mais graves questões podem depender das menores coisas. Diga-me: é ou

não é estranho que um sisudo filósofo, homem de certa idade (você decerto já

conhece Presbury de nome, o famoso fisiologista de Camford), cujo cão se tem

mostrado seu dedicado amigo, haja agora sido atacado duas vezes pelo seu

próprio animal? Que diz a isso?

— O cão está doente.

— Bem, isso tem de ser levado em conta. Mas o animal não ataca ninguém

mais, nem consta que incomode o dono a não ser em ocasiões muito

especiais. Curioso, Watson, muito curioso. Mas o jovem sr. Bennett se

antecipou, se é que é ele que está tocando a campainha. E eu, que esperava

poder conversar longamente com você antes que ele chegasse...

index-4_1.jpg

Ouviram-se passos rápidos na

escada, uma forte pancada na porta, e

logo o novo cliente surgiu diante de

nós. Era um homem alto e simpático,

dos seus trinta anos, elegantemente

vestido, mas com qualquer coisa na

atitude que mais fazia pensar no

acanhamento de um estudante do que

na calma de um homem de sociedade.

Apertou a mão de Holmes e depois

olhou para mim um pouco surpreso.

— O assunto é bastante delicado, sr.

Holmes — disse ele. — Basta

considerar as minhas relações com o

professor Presbury, tanto em particular

como em público. Na verdade, eu

dificilmente poderia me justificar se

falasse disso diante de uma terceira

pessoa.

— Não tenha receio, sr. Bennett. O dr. "Watson é a própria discrição, e posso lhe assegurar que é um assunto no qual é provável que eu venha a precisar de

um ajudante.

— Como quiser, sr. Holmes. Estou certo de que compreenderá o motivo desta

minha reserva sobre o assunto.

— Você, Watson, poderá compreendê-la bem quando eu lhe disser que este

cavalheiro, o sr. Trevor Bennett, é assistente profissional do grande cientista, em cuja casa reside, e é noivo de sua filha única. Certamente, temos de

concordar em que o professor tem todo o direito à sua lealdade e dedicação.

Mas a coisa se tornará mais patente se entrarmos logo no assunto, a fim de

esclarecer esse mistério tão estranho.

— Assim o espero, sr. Holmes. Não é outro o meu intento. O dr. Watson

conhece a situação?

— Não tive tempo de lhe explicar.

— Então talvez seja melhor eu recapitular os fatos antes de acrescentar algum

ponto mais recente.

— Eu me incumbirei disso — disse Holmes —, a fim de provar que tenho os

acontecimentos na devida ordem. O professor, Watson, é homem de reputação

européia. A sua vida tem sido acadêmica. Jamais pairou perto dele a sombra

de um escândalo. É viúvo e tem uma filha, Edith. De acordo com informações

por mim colhidas, é homem de caráter viril e positivo, e quase se poderia dizer

combativo. Assim eram as coisas até alguns meses atrás.

"Então o curso da sua vida sofreu uma interrupção. Apesar de seus sessenta

e um anos, ficou noivo da filha do professor Morphy, seu colega na cadeira de

anatomia comparada. Segundo estou informado, não se tratou de um galanteio

ponderado de um homem de idade, mas antes do delírio apaixonado de um

jovem, pois ninguém seria capaz de se mostrar amante mais devotado. A

noiva, Alice Morphy, era uma jovem prendada tanto física como moralmente,

circunstância que justificava perfeitamente o entusiasmo que ela inspirou ao

professor. Sem dúvida, esse namoro não recebeu plena aprovação da família

do próprio professor Presbury.

— Julgamos essa paixão um tanto excessiva — comentou o nosso visitante.

— Isso mesmo. Excessiva e um pouco violenta e forçada. Contudo, o professor

Presbury é rico, e não havia objeção da parte do pai. Quanto à filha, ela tinha

outros planos, e pretendentes não lhe faltavam, os quais, se eram menos

cotados sob o ponto de vista das conveniências sociais, não tinham contra si a

diferença de idade. A jovem parecia gostar do professor, apesar das suas

excentricidades. O único óbice era a idade.

"Por essa época, um ligeiro mistério estendeu de repente uma sombra sobre

a pacata existência do professor. Ele fez uma coisa que antes nunca fizera.

Saiu de casa sem deixar nenhuma indicação de seu destino. Esteve ausente

durante duas semanas, e ao voltar apresentava sinais de cansaço. Não disse

uma palavra sobre o lugar onde estivera, embora fosse em geral um homem

muito expansivo. Entretanto, aconteceu que o nosso cliente, o sr. Bennett,

recebeu casualmente uma carta de um condiscípulo de Praga, em que este

exprimia a sua satisfação por ter visto o professor naquela cidade, embora não

tivesse podido falar com ele. Só dessa maneira é que as pessoas da casa

souberam onde Presbury tinha estado.

"Agora é que entra o ponto principal. Dessa época em diante, operou-se no

professor uma curiosa mudança. Ele se tornou esquivo e dissimulado. As

pessoas das suas relações tinham sempre a impressão de que ele já não era o

homem que elas tinham conhecido, que havia alguma sombra que lhe

obscurecia as altas qualidades. A inteligência não fora afetada. Suas preleções

eram brilhantes como sempre. Mas havia algo de novo, de sinistro, de

inesperado. A filha, que lhe dedicava grande afeição, redobrou os esforços

para fazê-lo voltar ao que era ou ao menos para retirar aquela máscara que o

pai parecia ter afivelado nas feições. O cavalheiro aqui presente, conforme

chegou ao meu conhecimento, fez o mesmo, mas tudo em vão. E agora, sr.

Bennett, conte com suas próprias palavras o episódio das cartas.

— Devo informá-lo, dr. Watson, que o professor não tinha segredos para mim.

Se eu fosse seu filho ou seu irmão mais novo, não poderia gozar de mais

confiança do que gozava. Na qualidade de seu secretário, passavam pelas

minhas mãos todos os papéis que chegavam para ele. Era eu que abria e

separava as cartas. Pouco depois do seu regresso, tudo mudou. Ele me disse

que era possível que viessem de Londres certas cartas que trariam como

marca uma cruz logo abaixo do selo. Elas teriam que ser postas de parte, pois

só ele deveria lê-las. O que posso dizer é que várias destas cartas passaram

pela minhas mãos, traziam a marca E.C. e eram escritas em péssima letra. Se

o professor respondeu a essas cartas, as respostas não passaram pelas

minhas mãos nem foram depositadas no cesto de cartas onde se juntava toda

a nossa correspondência.

— E a caixa? — lembrou Holmes.

— Ah, é verdade. Ao voltar das suas viagens, o professor trouxe uma pequena

caixa de madeira. Foi a única coisa que sugeria a idéia de que tivesse viajado

pelo continente, porque a caixinha é um desses objetos curiosamente lavrados

que logo nos trazem à lembrança a Alemanha. Colocou-a no armário onde

estão os seus instrumentos. Um dia, procurando uma cânula, peguei a caixa.

Para surpresa minha, ele se mostrou muito zangado e, com palavras

desabridas, censurou a minha curiosidade. Era a primeira vez que tal coisa

acontecia, e fiquei profundamente magoado. Esforcei-me por explicar que

pegara aquela caixa por mero acaso, mas durante toda a tarde reparei que me

olhava com ar carrancudo e que o incidente não lhe saía da memória, tendo-o

irritado muito. — Aqui, o sr. Bennett tirou do bolso uma pequena agenda. —

Isso foi a 2 de julho — acrescentou.

— O senhor é certamente uma testemunha ideal — disse Holmes. — Posso vir

a precisar de algumas dessas datas que o senhor tão cuidadosamente

assentou no seu diário.

— Do meu grande mestre aprendi, entre outras coisas, a observar método em

tudo. Desde a época em que notei certo desequilíbrio no seu procedimento,

senti que era meu dever estudar o caso. Assim, tenho anotado que foi nesse

mesmo dia, 2 de julho, que Roy atacou o professor, quando ele saía do seu

gabinete para o vestíbulo. Em 11 de julho, deu-se novamente uma cena

semelhante, e trago aqui apontado que a mesma coisa se reproduziu no dia 20.

Depois disso, tivemos que mandar o cão para o estábulo. Roy era um animal

muito afeiçoado a todos nós... Mas receio fatigá-lo.

O sr. Bennett disse essas últimas palavras em tom de censura, porque era

evidente que Holmes não lhe prestava atenção. Seu rosto estava rígido, e os

olhos fitavam distraidamente o teto. Com um esforço, conseguiu concentrar de

novo a atenção.

— Estranho! Muito estranho! — murmurou. — Esses pormenores são novos

para mim, sr. Bennett. Creio que já dispomos agora de dados inéditos, não é

verdade? Mas o senhor disse que ia acrescentar episódios mais recentes.

A fisionomia agradável e aberta do nosso visitante anuviou-se, naturalmente

com alguma recordação triste.

— O que vou narrar passou-se há duas noites — disse ele. — Eu estava

deitado mas desperto, por volta das duas horas da madrugada, quando notei

um som abafado que vinha do corredor. Abri a porta do meu quarto e espiei.

index-7_1.jpg

Devo explicar que o professor dorme no fim do corredor...

— E a data?... — indagou Holmes.

Nosso visitante aborreceu-se visivelmente com essa interrupção tão

impertinente.

— Eu disse que o fato se deu há duas noites, isto é, a 4 de setembro.

Holmes aprovou com a cabeça e sorriu.

— Queira continuar — disse.

— Ele dorme no fim do corredor, e tinha

de passar diante de minha porta a fim de

alcançar a escada. Foi um espetáculo

verdadeiramente constrangedor, sr.

Holmes. Creio que tenho os nervos em

ordem, como qualquer pessoa normal,

mas fiquei abalado com o que vi. O

corredor estava escuro; apenas uma

janela, localizada mais ou menos no meio

dele, projetava uma réstia de luz. Pude ver

que alguma coisa vinha avançando pelo

corredor, uma coisa preta e encolhida. E

eis que de repente essa coisa penetrou na

claridade, e vi que era ele. Andando de

rastros, sr. Holmes...de rastros! Não se

arrastava propriamente sobre as mãos e

os joelhos. Eu diria antes que caminhava

sobre as mãos e os pés, com o rosto

enterrado entre as mãos. No entanto,

parecia mover-se com desembaraço. Tão

fulminado me senti com o que via que só

quando ele ia passar pela minha porta é que consegui dar um passo em frente

e perguntar-lhe se podia ajudá-lo. Sua resposta foi extraordinária. Pôs-se de pé num pulo, pronunciou um palavrão atroz e passou por mim como um raio,

desaparecendo na escada, que desceu a toda a pressa. Esperei mais ou

menos uma hora, mas ele não voltou. Deve ter regressado ao quarto já ao raiar

do dia.

— Então, Watson, que diz a isso? — perguntou Holmes, com o ar do

patologista que apresenta um espécime raro.

— Lumbago, provavelmente. Sei de um caso grave que obrigou um homem a

caminhar exatamente desse modo, e não pode haver nada que ponha uma

pessoa mais nervosa.

Bravo, Watson! Tem resposta para tudo. Mas dificilmente poderemos

acreditar em lumbago, uma vez que Presbury pôde pôr-se de pé num instante.

— O homem nunca esteve melhor de saúde — disse Bennett. — Podem

acreditar em mim: conheço-o há anos, e nunca o vi tão bem-disposto. Mas os

fatos aí estão, sr. Holmes. Não se trata de um caso em que possamos

consultar a polícia, e todavia não temos a mínima idéia do que nos compete

fazer, e aflige-nos o pressentimento de que está iminente uma catástrofe.

Edith, quer dizer, a srta. Presbury, é, como eu, de opinião que já não devemos

aguardar passivamente.

— Não há a menor dúvida de que estamos diante de um caso muito curioso e

sugestivo. Que pensa você a este respeito, Watson?

— Falando como médico — disse eu —, parece ser um caso para um

psiquiatra. Os processos cerebrais desse homem idoso sofreram um distúrbio

por causa da aventura amorosa em que se meteu. O professor viajou na

esperança de se libertar da paixão. As cartas e a caixa podem ter relação com

qualquer outra transação privada... um empréstimo, talvez, ou certificados de

títulos que estão na caixa.

— E o cão sem dúvida reprovou a transação financeira. Não, não, Watson,

nessa história há mais do que isso. E o que posso sugerir...

O que Sherlock Holmes ia sugerir jamais será conhecido, porque naquele

momento a porta se abriu, e uma jovem surgiu na sala. Quando ela surgiu no

limiar, o sr. Bennett levantou-se imediatamente com uma exclamação e correu,

com as mãos estendidas, ao encontro da recém-chegada, que também lhe

estendia as suas.

— Edith querida! Espero que não haja nenhuma novidade...

— Tive de vir à sua procura. Oh, Jack, fiquei com tanto medo! É horrível ficar lá sozinha.

— Sr. Holmes, esta é a jovem de quem falei. É a minha noiva.

— Pouco a pouco, íamos chegando a essa conclusão, não é verdade, Watson?

— disse Holmes, com um sorriso.

— Suponho, srta. Presbury, que haja algum novo aspecto no caso que achou

conveniente trazer ao nosso conhecimento. Não é assim?

A nossa nova visitante, uma jovem simpática, de um tipo inglês

convencional, retribuiu o sorriso de Holmes enquanto se sentava ao lado do sr.

Bennett.

— Quando verifiquei que o sr. Bennett não estava no hotel, calculei que

poderia encontrá-lo aqui. É claro que ele tinha me dito que viria consultá-lo.

Mas, oh, sr. Holmes, será que não pode fazer nada pelo meu pobre pai?

— Tenho algumas esperanças, srta. Presbury, mas o caso ainda está um

index-9_1.jpg

pouco obscuro. Talvez o que a senhorita traz lance uma nova luz sobre o

assunto.

— Foi a noite passada, sr. Holmes. Meu pai tinha estado muito esquisito o dia

todo. Estou certa de que em algumas ocasiões ele não se recorda do que faz.

Vive num estranho sonho. Ontem foi um desses dias. Não era meu pai a

pessoa com quem eu estava vivendo. O invólucro exterior estava ali, mas não

era ele realmente.

— Conte-me o que aconteceu.

— Acordei de noite com o cão ladrando furiosamente. O pobre Roy agora está

amarrado à corrente, perto do estábulo. Durmo sempre com a porta do meu

quarto fechada à chave, porque, como Jack, isto é, como o sr. Bennett poderá

lhe dizer, temos todos um pressentimento de desgraça iminente. Meu quarto

fica no segundo andar. Aconteceu que o estore da minha janela estava

suspenso, e havia luar. Enquanto eu, deitada, tinha os olhos fixos no feixe de

luz, escutando o ladrar frenético do cão, fiquei assombrada ao ver o rosto do

meu pai, olhando para mim. Sr. Holmes, quase morri de susto e de horror. Lá

estava ele, seu rosto, colado à vidraça, e uma das mãos parecia erguer-se

como que para abrir a janela. Se ela tivesse sido aberta, creio que eu teria

enlouquecido. Não era ilusão, sr. Holmes. Não vá pensar que acredito em

fantasmas. Ouso dizer que, durante uns vinte segundos mais ou menos, fiquei

paralisada, olhando para aquele rosto. Então o rosto desapareceu, mas faltou-

me ânimo para saltar da cama e seguir meu pai. Continuei deitada, gelada,

tremendo até de manhã. Quando nos encontramos para a primeira refeição, ele

se mostrou desabrido e rude, sem fazer qualquer alusão à aventura da noite.

Eu também não toquei no assunto, mas, dando uma desculpa, vim à cidade e

dirigi-me para cá.

Holmes pareceu muito surpreso com a

narrativa da srta. Presbury.

— Minha cara, diz então que seu quarto

fica no segundo andar. Existe no jardim

alguma escada de mão?

— Não, sr. Holmes; aí é que o assombro

culmina. Não há possibilidade de se

alcançar a janela, e contudo meu pai

chegou lá.

— E a data foi 5 de setembro — comentou

Holmes. — Isso certamente complica a

questão.

Então quem se surpreendeu foi a jovem.

— É a segunda vez que o senhor alude à

data, sr. Holmes — disse Bennett. — Será

possível que isso tenha alguma relação com o caso?

— É possível, muito possível, e no entanto, presentemente, não disponho de

todos os dados de que preciso.

— Quem sabe o senhor está pensando na relação entre a loucura e as fases

da Lua?

— Não, pode ficar certo de que não é isso. O curso das minhas idéias vai bem

além desse ponto. Creio que não porá objeção em deixar comigo sua agenda,

para que eu possa me orientar quanto às datas. Agora creio, Watson, que

nosso rumo já está bastante claro. Esta jovem acaba de nos informar (e tenho

a maior confiança na intuição dela) que seu pai pouco ou nada se lembra do

que sucede em certos dias. De modo que iremos a sua casa, como se ele nos

tivesse marcado uma entrevista em tal data. Ele deve considerar a coisa como

falta de memória de sua parte. E assim iniciaremos nossa campanha,

observando-o de perto.

— Excelente idéia — disse o sr. Bennett. — Previno-o, entretanto, de que o

professor às vezes é irascível e violento.

Holmes sorriu.

— Há razões para irmos imediatamente, razões prementes, se é que minhas

teorias têm uma boa base. Amanhã, sr. Bennett, estaremos com toda a certeza

em Camford. Lá existe, se bem me lembro, uma estalagem chamada Tabuleiro

de Xadrez, onde o porto é acima do medíocre e o asseio, irrepreensível. Estou

desconfiado, Watson, de que a nossa sorte, nos próximos dias, está em

lugares menos aprazíveis.

A manhã de segunda-feira surpreendeu-nos a caminho da famosa cidade

universitária — esforço fácil da parte de Holmes, que não tinha coisa alguma

que o prendesse, mas nada fácil para mim, que, naquela época, estava com

uma clientela que não era de desprezar, sendo-me necessário modificar planos

e andar depressa para perder o mínimo de tempo possível. Holmes não fez

nenhuma referência ao caso até depois de guardarmos nossas malas na velha

hospedaria de que havia falado.

— Watson, creio que podemos apanhar o professor pouco antes do almoço.

Ele dá aula às onze horas, e aproveitaremos em sua casa o intervalo que se

segue.

— Que pretexto temos para visitá-lo?

Holmes relanceou os olhos pelo seu bloco.

— Houve um período de agitação em 26 de agosto. Vamos supor que ela

tenha a memória um tanto nublada em relação ao que faz em tais dias. Se

insistirmos em que nos encontramos ali de acordo com uma combinação

prévia, acho que dificilmente se arriscará a nos contradizer. Você tem o

descaramento necessário para fazer isso?

— Vamos experimentar.

— Excelente, Watson! Vamos experimentar... será o lema de nossa firma. Não

faltará um amável nativo para nos servir de guia.

Um deles, empoleirado no alto de um fiacre, transportou-nos velozmente ao

longo de uma série de colégios tradicionais, e, finalmente, entrando num

caminho de veículos ladeado de árvores, parou à porta de uma casa

encantadora, cercada de relva e coberta de glicínias roxas. O professor

Presbury sabia rodear-se não só de conforto, mas de luxo.

Exatamente no momento em que parávamos à sua porta, uma cabeça

grisalha assomou à janela da frente, e vimos dois olhos penetrantes que,

debaixo de sobrancelhas bastas, nos examinaram através de grandes óculos

de tartaruga. Daí a pouco, penetrávamos no seu lar, e o misterioso cientista,

cujos devaneios nos tinham trazido de Londres, estava diante de nós. Não

havia indício de extravagância, quer nas suas maneiras quer na sua aparência,

pois era um homem imponente, de feições largas, sisudo, alto, trajando

sobrecasaca, com aquele porte cheio de dignidade que assenta bem num

catedrático. O traço dominante eram os olhos, penetrantes, observadores e tão

atilados que raiavam a astúcia.

Leu os nossos cartões.

— Queiram sentar-se, cavalheiros. Em que lhes posso ser útil?

Holmes sorriu delicadamente.

— Era essa a pergunta que eu ia lhe fazer, professor.

— A mim, cavalheiro?

— É possível que haja algum equívoco. Soube por uma pessoa que o

professor Presbury, de Camford, precisava dos meus serviços.

— Oh, deveras? — Tive a impressão de ver brilhar uma chispa de malícia nos

seus penetrantes olhos cinzentos.

— Então soube? Posso lhe perguntar o nome de seu informante?

— Sinto muito, professor, mas o assunto foi um tanto confidencial. Se houve

equívoco da minha parte, não há nenhum mal nisso. Posso apenas apresentar

as minhas desculpas.

— De maneira nenhuma. Desejo tirar a limpo este caso. É do meu interesse. O

senhor não terá qualquer fragmento escrito, uma carta ou telegrama, que

confirme sua afirmação?

index-12_1.jpg

— Não, não tenho.

— Presumo que não vá chegar ao ponto de dizer que eu o mandei chamar.

— Prefiro não responder a perguntas — disse Holmes.

— Compreendo, compreendo — tornou o professor, com aspereza. —

Contudo, a pergunta que lhe faço tem resposta fácil, sem a sua ajuda.

Atravessou o aposento para alcançar a campainha. Nosso amigo de

Londres, o sr. Bennett, atendeu a chamada.

— Entre, sr. Bennett. Estes dois cavalheiros vieram de Londres com a

impressão de que foram chamados aqui. O senhor, que trata de toda a minha

correspondência, tem algum bilhete dirigido a uma pessoa de nome Holmes?

— Não, senhor — respondeu Bennett, corando.

— Isso é bastante concludente — disse o professor, encarando enfurecido o

meu companheiro. — Agora, cavalheiros — acrescentou, curvando-se para a

frente com as duas mãos sobre a mesa —, parece-me que a sua posição é um

tanto duvidosa.

Holmes encolheu os ombros.

— Só posso reiterar as minhas

desculpas por ter vindo incomodá-lo

desnecessariamente.

— É inútil, sr. Holmes — gritou o velho

com voz estridente, ao mesmo tempo

em que sua fisionomia não deixava

dúvidas quanto aos seus propósitos.

Interpôs-se, ao falar, entre nós e a

porta, e gesticulava com ambas as

mãos furiosamente. — O senhor não

escapa assim tão facilmente. — Suas

feições estavam alteradas; na sua

raiva, mostrava-nos os dentes e dizia

palavras sem nexo. Estou convencido

de que, se não fosse a intervenção do

sr. Bennett, só poderíamos ter saído

dali usando a violência.

— Meu prezado mestre — gritou ele —, pense na sua posição! Considere o

escândalo na universidade! O sr. Holmes é um homem bastante conhecido, e

não é prudente que o senhor o trate com tanta descortesia.

De má vontade, o dono da casa saiu do caminho, franqueando-nos a porta.

Demo-nos por felizes quando nos vimos fora da casa e no sossego do caminho

arborizado. Holmes parecia comprazer-se grandemente com o episódio.

— Os nervos do nosso douto amigo estão um pouco fora do lugar — disse. —

Talvez nossa invasão ao seu lar tenha sido um tanto intempestiva, e contudo

lucramos com este contato pessoal, que eu desejava. Mas, caramba, Watson,

não será ele que aí vem? O vilão ainda nos persegue.

Ouviam-se sons de passos de alguém que corria atrás de nós, mas com

alívio verificamos que não era o professor, mas seu assistente, quem emergia

na curva do caminho. Chegou ofegante.

— Sinto muito o que se passou, sr. Holmes. Desejava apresentar desculpas.

— Não se preocupe, meu caro sr. Bennett. São os ossos do ofício.

— Nunca o vi com um humor tão insuportável! O homem torna-se cada vez

mais sinistro. Creio que o senhor, agora, compreende por que a filha dele e eu

andamos tão alarmados. E, no entanto, ele está perfeitamente lúcido.

— Lúcido demais! — conveio Holmes. — Aqui é que os meus cálculos

falharam. É evidente que ele pode confiar na sua memória mais do que eu

supunha. Já que aqui estamos, sr. Bennett, seria possível vermos, antes de

partir, a janela do quarto da srta. Presbury?

O sr. Bennett guiou-nos por entre arbustos, e daí a pouco víamos uma parte

lateral da casa.

— É ali. A segunda à esquerda.

— Deveras? Parece quase inacessível! E, contudo, o senhor há de notar que

existe uma trepadeira embaixo e um cano de água em cima que oferecem

algum apoio.

— Eu não seria capaz de subir ali — disse o sr. Bennett.

— Acredito. Seria uma proeza para qualquer homem normal.

— Há outra coisa que eu queria lhe dizer, sr. Holmes. Tenho o endereço do

homem de Londres a quem o professor escreve. Parece que ele lhe escreveu

hoje de manhã. Consegui o nome no mata-borrão. É uma vileza para um

secretário de confiança, mas que mais podia eu fazer?

Holmes olhou para o papel e colocou-o no bolso.

— Dorak... nome curioso. Eslavo, suponho. Bem, trata-se de um importante elo

da cadeia. Voltamos para Londres hoje, depois do meio-dia, sr. Bennett. Não

vejo vantagem na nossa permanência aqui. Não podemos prender o professor,

porque ele não cometeu nenhum crime, e não podemos interná-lo num

manicômio, porque não se pode provar que esteja louco. Por enquanto nada há

a fazer.

— Então, em que ficamos?

— Tenha um pouco de paciência. As coisas em breve tomarão novo rumo. Ou

muito me engano ou na próxima terça-feira se dará uma crise. Nesse dia,

certamente estaremos em Camford. Entretanto, a situação geral é, sem dúvida,

desagradável, e se a srta. Presbury puder prolongar sua ausência...

— Isso é fácil.

— Então, ela que fique onde está até que possamos lhe assegurar que o

perigo já passou. Nesse meio tempo, ele que faça livremente o que lhe

apetecer. Que ninguém o contrarie. Enquanto o homem estiver de bom humor,

tudo irá bem.

— Lá está ele — disse Bennett num cochicho. Olhando por entre os ramos,

vimos o vulto alto, ereto, surgir na porta de entrada e olhar em redor. Inclinava-se para a frente, mexendo as mãos diante de si e balançando a cabeça de um

lado para o outro. Com um aceno de mão, o secretário esgueirou-se por entre

as árvores, e vimo-lo daí a pouco alcançar o seu chefe, entrando ambos em

casa em animada, ou melhor dizendo, agitada palestra.

— Quero crer que o velho, depois do que se passou, esteja tentando tirar suas

conclusões — disse Holmes, ao tomarmos a direção do hotel. — Da rápida

visita que lhe fizemos, tive a impressão de que possui um cérebro

notavelmente lúcido e lógico. O caráter é violento, sem dúvida, mas afinal, sob

o seu ponto de vista, ele tem certa razão para se mostrar assim, por ter

verificado que já há detetives e médicos no seu encalço e por desconfiar que

quem os chamou foram pessoas da sua própria casa. É bem provável que o

amigo Bennett esteja passando um mau quarto de hora.

Holmes parou numa agência do correio e mandou um telegrama. A resposta

apanhou-nos à tarde, e ele deu-a a mim, para que a lesse. "Visitei Commercial Road e vi Dorak. Bom tipo, idoso, da Boêmia. Dono de grande armazém.

Mercer."

— O signatário já é do seu tempo — disse Holmes. — É meu factótum quando

se trata de negócios em geral. Era importante saber alguma coisa do homem

com quem nosso professor se corresponde em tão grande segredo.

Coincidentemente, ele é natural do país que o professor visitou.

— Ainda bem que alguma coisa coincide com outra — observei. —

Presentemente, parece-me que estamos diante de uma série de incidentes

inexplicáveis, que não têm nenhuma relação lógica uns com os outros. Por

exemplo que relação pode existir entre um cão furioso e uma viagem à Boêmia,

ou entre qualquer dessas duas circunstâncias e um homem que se arrasta pelo

chão, à noite, num corredor? Mas o que mais espanto me causa, pela sua

obscuridade, são as suas datas.

Holmes sorriu e esfregou as mãos. Estávamos na velha sala de visitas do

antigo hotel, diante de uma garrafa do famoso vinho a que Holmes se referira.

— Bem, vamos falar primeiro nas datas — disse ele, com as pontas dos dedos

juntas e com o jeito de quem está se dirigindo a alunos em aula. — O diário

daquele excelente sr. Bennett mostra que houve sério transtorno em 2 de julho,

e daí por diante parece que a coisa se reproduziu com intervalos de nove dias,

com uma única exceção, se bem me lembro. Assim, a derradeira manifestação

violenta do fenômeno verificou-se no dia 3 de setembro, que também se

enquadra na série, tal como se deu em 26 de agosto, que foi a data

precedente. Não se pode dizer que isso seja mera coincidência.

Tive de concordar.

— Formulemos, pois, para argumentar, a teoria que de nove em nove dias o

professor toma alguma droga forte, que produz um efeito passageiro mas

altamente prejudicial. A índole do homem, já naturalmente violenta, manifesta-

se ainda mais com a beberagem. Ele soube da existência dessa droga

enquanto estava em Praga, e quem agora lhe fornece isso é um sujeito natural

da Boêmia, residente em Londres. Há aqui alguma falta de lógica, Watson?

— Mas, e o cão, e o rosto na janela, e o homem de rastros pelo corredor?

— Bem, bem, estamos apenas começando. Não posso dispor de nenhum novo

dado antes da próxima terça-feira. Nesse meio tempo, cumpre-nos não perder

contato com o amigo Bennett e ir aproveitando os encantos desta amena

cidadezinha.

Pela manhã, o sr. Bennett apareceu para nos dar conta das últimas

novidades. Conforme Holmes previra, a coisa não tinha sido muito fácil para

ele. Sem propriamente responsabilizá-lo por nossa visita, o professor mostrara-

se bastante áspero e rude em sua linguagem, e evidentemente sentia-se vítima

de uma perseguição. Naquela manhã, entretanto, encontrava-se no seu estado

normal, tendo feito de maneira brilhante sua preleção habitual a uma classe

repleta.

— Sem falar naqueles seus esquisitos acessos — disse Bennett —, agora

possui mais energia e mais vitalidade do que nunca, e jamais lhe vi tamanha

lucidez. Mas já não é o mesmo, não é de forma nenhuma o homem que

conhecíamos.

— Ao que me parece, o senhor nada terá a recear pelo menos durante uma

semana — respondeu Holmes. — Sou um homem atarefado, e o dr. Watson

tem seus clientes para atender. Fica combinado que nos encontraremos aqui, a

esta mesma hora, na próxima terça-feira, e muito surpreso ficarei, sr. Bennett,

se antes de nos irmos daqui novamente não pudermos explicar-lhe o motivo de

suas apreensões; digo mais, se não formos capazes de pôr talvez um fim

nessas apreensões. Entretanto, queira escrever-nos se houver qualquer coisa

de importância.

Nos dias seguintes, não vi meu amigo, mas na segunda-feira, à tardinha,

recebi um bilhete dele pedindo-me que nos encontrássemos na terça-feira, no

trem. Pelo que me disse durante nossa viagem a Camford, tudo ia bem,

mantendo-se inalterável a paz na casa do professor, sendo o seu

comportamento perfeitamente normal. Foi essa também a informação que nos

deu o próprio sr. Bennett quando nos procurou à tarde, em nosso aposento do

Tabuleiro de Xadrez.

— Ele hoje teve notícias de seu correspondente em Londres. Chegou uma

carta e também um pequeno pacote, ambos com a tal cruz abaixo do selo, para

me advertir que não lhes tocasse. Nada mais houve.

— Isso deve ser o bastante — disse Holmes, um tanto preocupado. — Sr.

Bennett, creio que esta noite havemos de chegar a uma conclusão. Se estão

certas as minhas deduções, teremos oportunidade de levar o caso a uma

definição qualquer. Para conseguirmos isso, é necessário observar de perto o

professor. Eu proporia, portanto, que o senhor ficasse acordado e de vigília. Se o ouvir passar por sua porta, não o interrompa, mas acompanhe-o o mais

discretamente que puder. O dr. Watson e eu não estaremos longe. A propósito,

onde está a chave da pequena caixa de que o senhor falou?

— Ele a leva na corrente do relógio.

— Parece-me que nossas pesquisas devem se voltar nessa direção. Na pior

das hipóteses, a fechadura não deve ser muito resistente. Há por acaso algum

outro homem válido na casa?

— Há o cocheiro, MacPhail.

— Onde é que ele dorme?

— Em cima do estábulo.

— É possível que venhamos a precisar dele. Por ora, nada mais podemos

fazer até ver o rumo que as coisas tomam. Até logo... mas espero que nos

vejamos antes do amanhecer.

Era quase meia-noite quando nos instalamos no nosso posto de observação

entre uns arbustos, bem em frente à porta de entrada do professor. A noite

estava linda mas fria, e folgamos por ter roupa suficiente para nos agasalhar.

Soprava uma brisa, e as nuvens galopavam através do céu, tapando de vez em

quando o crescente. Seria uma vigília tristonha se não fosse a expectativa e o

nervosismo que nos impeliam, e a afirmação de meu camarada de que

provavelmente estávamos quase atingindo o fim da estranha seqüência de

acontecimentos que vinham prendendo nossa atenção.

— Se o ciclo de nove dias se mantiver, hoje à noite teremos o professor no seu

pior papel — disse Holmes. — O fato de esses estranhos sintomas terem

começado depois de sua ida a Praga, de ele estar se correspondendo

secretamente com um negociante da Boêmia estabelecido em Londres, que

presumivelmente representa alguém de Praga, e de ter recebido hoje um

pacote, tudo isso mostra um único rumo. O que ele toma e por que o faz são

coisas que ainda se encontram fora do nosso alcance, mas que isso de algum

modo provém de Praga, parece-me bastante claro. Ele toma a droga seguindo

instruções definidas, que regulam esse sistema de nove dias, primeiro ponto

que chamou a minha atenção. Mas os sintomas que o professor apresenta são

notáveis. Você observou suas articulações?

Tive de confessar que não.

— Grossas e calosas, de uma forma inteiramente nova para mim. Olhe sempre

primeiro para as mãos, Watson. Depois para os punhos da camisa, as

joelheiras e o sapato. Articulações muito esquisitas só podem ser explicadas

pelo modo de progressão observado por... — Holmes fez uma pausa e de

repente bateu com a mão na testa. — Oh, Watson, Watson, que idiota tenho

sido! Parece incrível, mas deve ser verdade. Tudo indica um rumo único. Como

foi possível que me escapasse tal conexão de idéias? Aquelas articulações...

como foi possível que elas não me sugerissem nada? E o cão! E a hera! É

tempo de acabar com os meus devaneios. Atenção, Watson! Lá está ele!

Vamos ter ensejo de vê-lo com nossos próprios olhos.

A porta da entrada tinha se aberto vagarosamente, e no fundo, iluminado por

uma lâmpada, vimos a figura do professor Presbury. Vinha vestido com um

roupão. De pé, de perfil, à entrada, apresentava-se rígido, mas curvado para a

frente, mexendo os braços, como quando o víramos da última vez. No

momento em que pôs os pés no caminho destinado aos carros, uma estranha

mutação se apoderou dele. Agachou-se e foi se movendo sobre as mãos e os

pés, saltitando a espaços como que transbordando de energia e vitalidade.

Caminhou assim pela frente da casa e em seguida deu a volta pelo canto.

Depois de desaparecer, Bennett esgueirou-se pela porta da entrada e foi

seguindo-o mansamente.

— Venha, Watson, venha! — disse Holmes.

Introduzimo-nos o mais brandamente possível por entre os arbustos, até

alcançarmos um lugar de onde podíamos ver o outro lado da casa, banhado

pela claridade da lua. Via-se nitidamente o professor, de cócoras, no sopé da

parede coberta de hera. Enquanto o observávamos, o homem começou de

súbito a subir por ela com incrível agilidade. Pulava de ramo em ramo, sem

errar o pé e com mão firme, trepando aparentemente por mera alegria de

possuir tais poderes, sem qualquer objetivo definido em vista. Com o roupão

esvoaçando de cada lado do corpo, parecia um descomunal morcego grudado

à sua própria casa, formando uma grande mancha negra sobre a parede

iluminada pela lua. Não tardou a cansar-se da brincadeira, e, deixando-se cair

da hera, uma vez no solo, tomou a estranha postura anterior, de cócoras, e

assim foi caminhando para o estábulo, sempre de rastros, como antes. O cão

já se encontrava do lado de fora, ladrando furiosamente, e ficou mais furibundo

que nunca quando avistou o dono. Forçava a corrente que o prendia e tremia

de ânsia e de raiva. O professor, propositadamente, conservava-se de gatinhas

quase ao. alcance do cão, e começou a provocá-lo de todas as maneiras

possíveis. Enchia as mãos de seixos apanhados na estrada e atirava-os ao

index-18_1.jpg

focinho do animal, cutucava-o com uma vara que colhera por ali, agitava as

mãos apenas a alguns centímetros da boca escancarada do cão, esforçando-

se de todos os modos para aumentar a fúria do animal, que já não podia se

conter de raiva. Em todas as nossas aventuras, não me lembro de ter visto

cena mais grotesca do que aquela figura impassível e mesmo assim

imponente, numa postura de sapo, no chão, estimulando a ferocidade e a

cólera do cão enfurecido (que se encabritava e dava pinotes diante dele) de

todas as maneiras que lhe sugeria o engenho e a calculada crueldade.

E eis que num momento a coisa aconteceu! Não foi a corrente que se partiu,

mas a coleira que escorregou, pois tinha sido feita para um terra-nova de

pescoço grosso. Ouvimos o tinir do metal que caía, e no mesmo instante

homem e cão se engalfinharam rolando juntos pelo chão, um rugindo de raiva,

o outro soltando gritos estridentes de pavor. A vida do professor esteve por um

triz. O feroz cão de guarda aferrara-o firmemente pela garganta, cravando-a

com seus dentes agudos, e o homem já havia perdido os sentidos antes que os

alcançássemos e pudéssemos apartá-los. Para nós, aquela seria uma missão

perigosa, porém a voz e a presença de Bennett acalmaram instantaneamente o

canzarrão. A algazarra fizera o cocheiro, sonolento e atónito, sair de seu

quarto, nos altos do estábulo.

— Isso não me surpreende — disse ele,

sacudindo a cabeça. — Vi-o, mais de uma

vez, provocando o animal. Sabia que este,

mais cedo ou mais tarde, haveria de

agarrá-lo.

O cão voltou à corrente, e juntos

carregamos o professor até seu quarto,

onde Bennett, que também era formado

em medicina, me ajudou a tratar-lhe da

ferida. Por pouco os dentes agudos não

atingiram a carótida, mas a hemorragia

era, não obstante, grave. Dentro de meia

hora, o perigo passara, e apliquei no

enfermo uma injeção de morfina que o fez

cair em profunda letargia. Somente então

é que pudemos olhar uns para os outros e

avaliar a situação.

— Penso que deve ser examinado por um

bom cirurgião — opinei eu.

— Não, pelo amor de Deus! — exclamou Bennett. — Por enquanto, o

escândalo está confinado às paredes desta casa. Só assim o episódio pode

ficar em segredo. Mas se transpuser estas paredes, nada mais o deterá. É

preciso ter em conta a posição do professor na universidade, sua fama

européia, e os sentimentos da filha.

— Tem razão — disse Holmes. — Creio que é perfeitamente possível

guardarmos reserva a respeito do caso e também evitar sua repetição, agora

que temos ampla liberdade para fazê-lo. Sr. Bennett, a chave que está presa à

corrente do relógio! MaçPhail ficará tomando conta do doente e nos avisará se

houver qualquer novidade. Vamos ver o que há dentro da misteriosa caixa do

professor.

Não havia muita coisa, mas era o suficiente: um frasco vazio, outro quase

cheio, uma seringa hipodérmica, várias cartas escritas em claudicante

ortografia de estrangeiro. Os dados dos envelopes mostravam que eram os

mesmos que haviam chamado a atenção do secretário, e todas eram escritas

da Commercial Road e traziam a assinatura "A. Dorak". Eram simples faturas comerciais que anunciavam a remessa de um novo frasco ao professor

Presbury, ou recibos que acusavam a chegada do dinheiro. Havia, contudo,

outro envelope, em letra mais firme, com um selo austríaco e carimbo postal de

Praga.

— Aqui está o nosso material! — disse Holmes, rasgando o invólucro.

"Ilustre colega: [dizia a carta]

Desde sua apreciada visita, tenho pensado muito em seu caso, e conquanto

em suas circunstâncias existam certas razões especiais que indicam o

tratamento, eu recomendaria, no entanto, cautela, uma vez que os resultados

por mim obtidos mostram que o tratamento não exclui certo perigo.

É possível que o soro do antropóide seja melhor. Conforme lhe expliquei,

tenho utilizado o Langur de focinho preto porque tive um espécime ao alcance.

O Langur anda sem dúvida de rastros e sabe trepar, ao passo que o antropóide

caminha ereto e está, em todos os sentidos, mais próximo de nós.

Peço-lhe que use a maior precaução possível para que não haja qualquer

prematura revelação do processo. Possuo outro cliente na Inglaterra, e Dorak é

meu agente para ambos.

Fico-lhe grato se, semanalmente, me enviar informações.

Seu, com elevado apreço,

H. Lowenstein."

Lowenstein! O nome trouxe-me à memória um fragmento qualquer de jornal

que falava de um obscuro cientista que andava empenhado em obter o

segredo do rejuvenescimento e o elixir da vida. Lowenstein, de Praga! O

descobridor do maravilhoso soro que dava robustez, repelido pelos colegas por

ter se recusado a revelar seu segredo. Em poucas palavras, disse aquilo de

que me lembrava. Bennett tirou da estante um manual de zoologia.

— "Langur" — leu —, "o grande macaco de cara preta das vertentes do Himalaia, o maior símio trepador e o mais parecido com o homem." Seguem-se

vários pormenores. Bem, graças ao senhor, sr. Holmes, está claríssimo que

descobrimos a origem do mal.

— A verdadeira origem — disse Holmes — está sem dúvida naquele tardio

caso de amor que inspirou ao nosso impetuoso professor a idéia de que só

poderia pôr em prática seu desejo se se transformasse num homem jovem.

Quem tenta erguer-se acima de sua natureza arrisca-se a cair abaixo dela. O

mais perfeito tipo de homem pode voltar à condição de animal se abandona o

caminho reto do destino. — Sentando-se, ficou refletindo um pouco com o

frasco na mão, olhando para o líquido claro ali contido. — Quando eu escrever

a esse homem e lhe disser que o considero responsável criminalmente pelos

venenos que espalha, cessarão os atuais transtornos. Mas talvez voltem.

Outros hão de poder encontrar um caminho mais desimpedido. Há nisso um

perigo... um perigo real para a humanidade. Reflita, Watson, como os

materialistas, os sensuais e os mundanos hão de querer todos prolongar suas

vidas desprezíveis. Até mesmo os que vivem pelo espírito talvez não resistam

à tentação, julgando-se chamados para coisas mais altas. Seria a

sobrevivência do menos apto. Em que espécie de cloaca se transformaria este

nosso pobre mundo?

De repente, o sonhador desapareceu, e Holmes, o homem de ação, deu um

pulo da cadeira.

— Creio que não há mais nada a acrescentar, sr. Bennett. Agora, os vários

incidentes vão se enquadrar facilmente no esquema geral. É claro que o cão

percebeu a mudança muito mais rapidamente que o senhor. Isso se deve ao

faro. Não era o professor, mas o macaco, que atormentava Roy. Trepar pelas

paredes e árvores era um prazer para o pobre vivente, e só por mero acaso,

segundo suponho, é que a brincadeira o levou até a janela da jovem. Watson,

há um trem que sai cedo para a cidade, mas creio que ainda teremos tempo de

beber uma xícara de chá no Tabuleiro de Xadrez antes de irmos para a

estação.

Você pode estar interessado...

  • Sangue
    Sangue Mistério e Terror por A.R.
    Sangue
    Sangue

    Downloads:
    15

    Publicado:
    Sep 2019

    Em mais um episódio das Crônicas Vampirescas, Anne Rice, a mestra do terror gótico moderno, brinda seus leitores com um romance que transcende épocas, mitos...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • A luz
    A luz Mistério e Terror por Taylor C.
    A luz
    A luz

    Downloads:
    53

    Publicado:
    Aug 2019

    Os acontecimentos e personagens deste livro não foram inventados. Aos críticos, reporto-me à evidência da História. Aos que acharem que há nele demasiada vio...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Represalias
    Represalias Narrativa por Peter G.
    Represalias
    Represalias

    Downloads:
    27

    Publicado:
    Aug 2019

    Nos três ensaios que compõem este livro sucinto e brilhante, Peter Gay mobiliza sua proverbial erudição para analisar alguns dos romances-chave do realismo no...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Orfanato
    Orfanato Mistério e Terror por R.R.
    Orfanato
    Orfanato

    Downloads:
    51

    Publicado:
    Aug 2019

    O orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares é um romance que mistura ficção e fotografia. A história começa com uma tragédia familiar que lança Jac...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT