O Imperador-Deus de Duna por Frank Herbert - Versão HTML

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Em Rakis, que outrora havia sido o desértico planeta Arrakis, apelidado Duna, são encontrados os diários do filho do Muad'Dib, de inestimável valor arqueológico e cujas interpretações são contraditórias.

Relata-se então o governo de Leto II, o descendente do messias Paul Atreides, sobre o Império multigalático descrito em Duna. O passo decisivo de Leto em relação a todos os seus antecessores é o abandono da forma humana, e o conseqüente desprezo pelos princípios morais que atormentavam seu pai. Não só isso: o uso continuado da "especiaria", a melange - que, além dos efeitos psíquicos e de longevidade, tem uma importância estratégica ainda mais vasta, valeu-lhe uma presciência quase absoluta, um controle genético e uma memória que abarca toda a História, reunindo numa única identidade confusa todos os seus ancestrais. Com esse poder, Leto transforma-se num tirano preocupado com a idéia da divindade e com a possibilidade de controlar o Tempo.

Frank Herbert, que na série Duna já abordara os aspectos político-religiosos e psicológicos do messianismo, examina agora uma tirania semi-religiosa. A pergunta marcante dos livros anteriores - pode-se mudar a História? - desloca-se da profecia e da guerra para as disputas sobre a fé, a fidelidade, a crença. Ressalta-se que nas mitologias e nas religiões é a invenção que cria História, tanto no passado quanto no futuro. Misturando elementos da cultura islâmica e da sociedade medieval com outros da Antigüidade e dos primórdios do Cristianismo, Herbert dá uma chave para a compreensão das múltiplas forças que compõem e direcionam os caminhos de Duna (e também os nossos): guerras e intrigas, mas igualmente a capacidade de persuasão das palavras.

Esse fascínio que a ficção exerce, a mistura de fantasia e realismo que Frank Herbert explora com mestria nos seus livros, continua conquistando cada vez mais leitores em todo o mundo, já tendo a saga de Duna ultrapassado os doze milhões de exemplares vendidos em mais de catorze idiomas.

Quando eu estava escrevendo Duna não havia lugar em minha mente para preocupações quanto ao sucesso ou fracasso do livro. Só me preocupava com o que estava escrevendo. Seis anos de pesquisas tinham antecedido aquele dia em que me sentei para estruturar a história, e a tessitura das muitas camadas de tramas que planejara exigia um grau de concentração que eu nunca antes experimentara.

Devia ser uma história explorando o mito do Messias.

Devia produzir uma visão diferente de um planeta ocupado pelo homem

como máquina energética.

Devia penetrar no funcionamento interligado da política e da economia.

Devia ser um estudo da previsão absoluta e de suas armadilhas.

Devia ter uma droga de expansão da consciência e revelar as conseqüências de uma dependência prolongada em relação a tal substância.

A água potável devia constituir uma analogia em relação ao petróleo e à própria água como substância cujo suprimento diminui a cada dia.

Devia ser um romance ecológico, portanto, com muitas nuanças, assim como uma história a respeito das pessoas e de suas preocupações humanas com os valores humanos.

E eu precisava monitorar todas essas coisas em cada estágio da criação do livro.

Não havia espaço em minha cabeça para pensar em outra coisa.

Seguindo-se à primeira edição, houve uma lenta resposta dos editores, que mais tarde se revelou imprecisa. Os críticos tinham malhado. E mais de 12 editores se haviam recusado a publicar o livro. Não houve publicidade, mas alguma coisa estava acontecendo lá fora.

Durante dois anos fui saturado de queixas de livrarias e leitores que não conseguiam encontrar o livro. The Whole Earth Catalog (Catálogo Integral da Terra) elogiou. E eu ficava recebendo telefonemas de pessoas me perguntando se estava iniciando alguma religião.

A resposta: "Meu Deus! Claro que não!”

O que estou descrevendo e a lenta concretização de um sucesso. Quando os três primeiros livros de Duna estavam prontos, já não havia mais dúvidas de que este era um trabalho popular - um dos mais populares em toda a história, disseram-me, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro. Agora, o que a maioria das pessoas me pergunta é: "O que esse sucesso representa para você?”

Ele me surpreende, já que; não o esperava. Tampouco esperava o fracasso.

Era um trabalho e eu o realizei. Certos trechos de O Messias de Duna e Os filhos de Duna foram escritos antes mesmo de eu terminar Duna. Eles tornaram-se mais vividos ao serem postos no papel, mas a história essencial permanecia intacta. Eu sou um escritor e estava escrevendo. O sucesso significava que eu poderia passar mais tempo escrevendo.

Olhando para trás agora, percebo que realizei a coisa certa instintivamente.

Não se escreve objetivando-se o sucesso. Isso tira a sua atenção daquilo que está criando. Se você o está fazendo realmente, com toda a dedicação, então escrever é tudo.

Existe um pacto implícito entre você e o leitor. Se alguém entra em uma livraria e paga pelo seu livro com dinheiro duramente ganho (energia), devemos a essa pessoa algum entretenimento, e tanto quanto possamos dar.

Essa foi realmente a minha intenção o tempo todo.

Para Peggy Rowntree com amor e profunda admiração e grande estima Trecho de uma palestra de Hadi Benotto anunciando as descobertas em Dar-es-Balat, no planeta de Rakis:

Não apenas é um prazer para mim anunciar a vocês, nesta manhã, nossa descoberta desse maravilhoso depósito contendo, entre outras coisas, uma monumental coleção de manuscritos inscritos em papel de cristal riduliano. Também tenho orgulho em lhes dar nossos argumentos quanto à autenticidade dessas descobertas e lhes revelar por que acreditamos ter encontrado os diários originais de Leto II, o Imperador-Deus.

Primeiramente, permitam-me que lhes recorde os tesouros históricos que todos conhecemos pelo nome de Os diários roubados, volumes de conhecida antigüidade que, através dos séculos, têm sido tão valiosos para nos ajudar no entendimento de nossos ancestrais. Como todos sabem, Os diários roubados foram decifrados pela Corporação Espacial, e a Chave de Tradução da Corporação foi usada para traduzir os volumes recém-descobertos. Ninguém nega a antigüidade da Chave de Tradução da Corporação, e ela, apenas ela, traduz esses volumes.

Em segundo lugar, esses volumes foram impressos por um sistema Ixiano cuja criação é realmente antiga. E Os diários roubados não deixam dúvida de que esse foi de fato o método empregado por Leto II para registrar suas observações históricas.

Terceiro, e nós acreditamos que isto é igual, em importância, à descoberta do próprio depósito: o repositório desses diários é sem dúvida um artefato Ixiano. Uma criação tão primitiva e, no entanto, tão maravilhosa que certamente irá lançar um novo entendimento sobre a época histórica conhecida como "A Dispersão". Como era de se esperar, o depósito encontrava-se muito bem oculto. Ele foi enterrado a uma profundidade maior do que o mito ou a História Oral nos levaria a esperar, emitindo e absorvendo radiação de modo a simular as características naturais de suas cercanias. Um mimetismo mecânico que em si mesmo não constitui surpresa. O que surpreende nossos engenheiros, entretanto, é o modo como foi construído, usando métodos dos mais rudimentares e verdadeiramente primitivos.

Percebo que alguns de vocês se encontram tão excitados com isso como nós próprios ficamos.

Acreditamos estar olhando para o primeiro Globo Ixiano, o não-espaço a partir do qual todos os aparelhos semelhantes se desenvolveram. Não se trata realmente do primeiro, mas acreditamos que deve ser "um" dos primeiros, incorporando os mesmos princípios do primeiro.

Permitam-me satisfazer sua óbvia curiosidade assegurando-lhes que serão conduzidos para uma breve inspeção do depósito dentro em pouco. Apenas solicitamos que mantenham silêncio quando estiverem lá dentro, pois nossos engenheiros e outros especialistas continuam a trabalhar na solução dos mistérios.

O que me conduz ao quarto ponto, e este pode ser o coroamento de nossas descobertas. É

com uma emoção difícil de descrever que lhes revelo agora outra descoberta feita no local - gravações orais verdadeiras que se encontram rotuladas como tendo sido feitas por Leto II na voz de seu pai, Paul Muad'Dib. Uma vez que registros autenticados do Imperador-Deus se encontram guardados nos Arquivos das Bene Gesserit, nós lhes enviamos uma amostra de nossas gravações, todas elas feitas a partir de um antigo sistema de microbolha, com um pedido formal à Irmandade para que realizasse um teste de comparação. Restam-nos poucas dúvidas de que esses registros serão autenticados.

Agora, por gentileza, voltem sua atenção para os trechos traduzidos que lhes entregamos quando chegaram. Permitam-me que eu aproveite a oportunidade para me desculpar pelo peso.

Ouvi alguns de vocês fazendo piadas a respeito. Nós usamos papel comum por uma razão prática

- economia. Os volumes originais foram escritos em símbolos tão pequenos que precisam ser ampliados substancialmente antes de poderem ser lidos. De fato, isso exige mais de 40 volumes comuns, do tipo que vocês agora estão segurando, apenas para reproduzir o conteúdo de um cristal riduliano original.

Se o projetor... sim. Agora estamos projetando parte de uma página original na tela à sua esquerda. É da primeira página do primeiro volume. Nossa tradução aparece nas telas à direita.

Chamo-lhes a atenção para a evidência interior, a poética vaidade das palavras, assim como o significado derivado da tradução. O estilo traduz uma personalidade que é coerente e identificável.

Nós acreditamos que isso só pode ter sido escrito por alguém que possuía uma experiência direta de memórias ancestrais, por alguém que estivesse trabalhando para compartilhar a experiência extraordinária de vidas anteriores de um modo compreensível apenas àqueles que carecem desse dom.

Olhem agora para o significado real do conteúdo. Todas as referências estão de acordo com tudo que a história nos revelou a respeito de uma pessoa, a qual acreditamos seria a única capaz de ter deixado tal registro.

Temos outras surpresas para vocês. Tomei a liberdade de convidar um poeta bem conhecido, Rebeth Vreeb, para compartilhar esta plataforma conosco nesta manhã e ler, dessa primeira página, uma curta passagem de nossa tradução. É de nossa opinião que, mesmo em uma tradução, essas palavras assumem uma característica diferente quando lidas em voz alta. Queremos assim partilhar com vocês uma qualidade verdadeiramente extraordinária que descobrimos nesses volumes.

Senhoras e senhores, por gentileza, dêem boas-vindas a Rebeth Vreeb.

Da leitura de Rebeth Vreeb:

Eu lhes afirmo que sou o livro do destino.

As perguntas são o meu inimigo, pois minhas perguntas explodem! As respostas saltam para o ar como um bando de aves assustadas, escurecendo o céu com memórias das quais não consigo escapar. Não há uma só resposta, nenhuma é suficiente.

Que prismas relampejam quando penetro no campo terrível do meu passado! Sou uma lasca de pedra fechada em uma caixa.

A caixa gira e estremece. Sou atirado em uma tempestade de mistérios. E quando a caixa se abre eu retorno a esta presença como um estranho em terra primitiva.

Lentamente (lentamente, eu digo), reaprendo o meu nome.

Mas isso, apenas, não é conhecer-me.

Essa pessoa que tem meu nome, esse Leto que é o segundo a ser chamado assim, descobre outras vozes em sua mente, outros nomes, outros lugares. Oh, eu lhes prometo (assim como me prometeram) responder a um único nome. Se me chamarem Leto, eu responderei. O

sofrimento faz isso possível. O sofrimento e mais uma coisa:

Eu seguro as rédeas!

Todas elas são minhas. Deixem-me imaginar um tópico - digamos... homens que morreram pela espada - e eu os tenho em toda a sua carnificina, cada imagem intacta, cada gemido, cada careta.

As alegrias de ser mãe. Eu penso e os leitos de parto são meus. Sorrisos de bebês desfilam em série, e assim os suaves balbucios de novas gerações. Os primeiros passinhos e as primeiras vitórias dos jovens são minhas para partilhar. Elas caem umas sobre as outras até que nada mais vejo senão igualdade e repetição.

"Mantenha isso tudo intacto", advirto a mim mesmo.

Quem poderá negar o valor de tais experiências, a riqueza de aprendizado através da qual eu visualizo cada novo instante?

Ah, mas isso é o passado.

Não compreendem?

É apenas o passado!

Esta manhã eu nasci num yurt na borda de uma planície num planeta que não mais existe. Amanhã nascerei alguém mais em outro lugar. Ainda não escolhi. Nesta manhã, entretanto... ah essa vida! Quando meus olhos aprenderam a localizar, olhei para a luz do sol e pisei na grama, e vi gente vigorosa indo e vindo nas suaves atividades de suas vidas. Onde... oh, para onde foi todo esse vigor?

- Os diários roubados

As três pessoas correndo para o norte, através das sombras do luar na Floresta Proibida, enfileiravam-se por quase meio quilômetro. O último corredor da fila estava menos de 100 metros à frente dos lobos D que os perseguiam. Os animais podiam ser ouvidos grunhindo e ofegando em sua avidez. Do modo como fazem quando estão com a presa à vista.

Com a Primeira Lua diretamente acima, a floresta estava bem iluminada, e embora essas fossem latitudes elevadas em Arrakis, ainda estava quente com o calor de um dia de verão. A brisa noturna, vinda do Último Deserto de Sareer, trazia o perfume de resinas e a umidade exalada pelo solo abaixo. De vez em quando uma brisa do Mar de Kynes, além do Sareer, flutuava no caminho dos corredores com seus odores de sal e peixes.

Por um capricho do destino, o último corredor chamava-se Ulot, o que na linguagem Fremen significa "Querido Extraviado". Ulot era de pequena estatura e com uma tendência à obesidade que colocara o peso extra de uma dieta em seu treinamento para essa aventura. Mesmo emagrecido para realizar essa carreira desesperada, seu rosto permanecia redondo, os grandes olhos castanhos vulneráveis numa sugestão de carne em demasia.

Para Ulot, tornara-se claro que não poderia correr muito mais. Ele ofegava e chiava. Ocasionalmente, tropeçava, mas não chamava seus companheiros. Sabia que não podiam ajudá-lo. Todos tinham feito o mesmo juramento, sabendo que não tinham defesas, exceto as velhas virtudes e lealdades dos Fremen. Isso permanecia verdadeiro, muito embora tudo que um dia se relacionara com os Fremen tivesse agora um caráter de museu - velhos recitais aprendidos em um Museu Fremen.

E era a lealdade dos Fremen que mantinha Ulot em silêncio, na perfeita compreensão do seu destino. Um belo exemplo dos antigos valores, e deveras lamentável pelo fato de nenhum dos corredores ter tido um conhecimento que não tivesse saído de livros e tradições orais a respeito das virtudes que adotavam.

Os lobos D corriam bem atrás de Ulot, gigantescas figuras cinzentas com quase a altura de um homem. Eles saltavam e ganiam em sua ferocidade, cabeças erguidas, olhos focalizados em suas presas traídas pelo luar.

Uma raiz prendeu o pé de Ulot e ele quase caiu. Isso lhe forneceu uma energia renovada. Ele disparou, ganhando talvez a distância do comprimento de um lobo sobre seus perseguidores. Seus braços moviam-se de modo ritmado, e ele respirava ruidosamente pela boca aberta.

Os lobos D não mudaram seu ritmo. Eram sombras prateadas avançando

através dos verdes odores da floresta. Sabiam que haviam ganho, era-lhes uma experiência familiar.

Novamente Ulot tropeçou. Equilibrou-se de encontro a um arbusto e

continuou sua ofegante carreira, as pernas tremendo, rebeladas contra tais exigências. Não havia mais energia para outra corrida.

Um dos lobos D, uma fêmea grande, avançou pelo flanco esquerdo de Ulot.

Ele se desviou, saltando em seu caminho. Dentes enormes rasgaram-lhe o ombro, e Ulot cambaleou. Ainda assim, não caiu. O cheiro de sangue adicionou-se aos odores da floresta. Um macho pequeno agarrou-lhe o quadril direito e finalmente Ulot tombou gritando. A matilha o envolveu e seus gritos interromperam-se abruptamente.

Sem pararem para comer, os lobos D reiniciaram a perseguição. Suas narinas sondavam o chão da floresta - as brisas errantes no ar, sentindo o rastro quente de mais dois seres humanos em fuga.

O corredor seguinte na fila era chamado Kwuteg, nome antigo e honrado em Arrakis, nome dos tempos de Duna. Um ancestral seu havia servido no Sietch Tabr como Mestre dos Alambiques da Morte, mas isso era tão distante, mais de 3 mil anos no passado, que a maioria tinha dúvidas a respeito. Kwuteg corria com passadas longas e um corpo alto e esguio que parecia perfeitamente adequado para semelhante esforço. Seus longos cabelos negros fluíam de suas feições aquilinas.

Assim como os companheiros, ele usava um traje de corrida negro, feito de algodão finamente trançado. Este revelava o movimento das nádegas e das coxas musculosas, o ritmo firme e profundo de sua respiração. Somente a passada de Kwuteg, marcadamente lenta, traía o fato de que ele havia ferido o joelho direito ao descer os precipícios feitos pelo homem que cercavam a cidadela-fortaleza do Imperador-Deus em Sareer.

Kwuteg ouvira os gritos de Ulot e o abrupto silêncio, depois os renovados ganidos de perseguição dos lobos D. Não permitiu que sua mente criasse a imagem de outro amigo sendo morto pelos monstros guardiões de Leto, mas a imaginação exerceu um encantamento sobre ele. Kwuteg pensou em uma maldição contra o tirano, mas não desperdiçou fôlego em pronunciá-la. Ainda restava uma chance de que pudesse alcançar o santuário do Rio Idaho. Kwuteg sabia o que seus amigos pensavam a respeito dele - até mesmo Siona. Sempre fora conhecido como um poupador. Mesmo quando criança ele reservava suas energias até o momento mais necessário, parcelando suas reservas como que por avareza.

A despeito do joelho ferido, Kwuteg acelerou o passo. Sabia que o rio estava próximo. O ferimento ultrapassara o limite da agonia, pulsando como uma chama que queimava toda a sua perna e o lado esquerdo do corpo. Conhecia os limites de sua resistência. Sabia também que Siona estava quase alcançando a água. O

corredor mais rápido de todos, ela carregava o pacote fechado e nele as coisas que haviam roubado da fortaleza no Sareer. Kwuteg focalizou os pensamentos naquele embrulho enquanto corria.

"Salve-o, Siona! Use-o para destruí-lo!”

O ruído dos lobos D penetrou na consciência de Kwuteg. Eles estavam muito perto e ele agora sabia que não ia escapar.

"Mas Siona deve escapar!”

Arriscou uma olhada para trás e viu um dos lobos correndo para flanqueá-lo.

O padrão de ataque imprimiu-se em sua consciência e, quando o lobo ao lado saltou, Kwuteg saltou também. Colocando uma árvore entre ele e a matilha, mergulhou por baixo do lobo do flanco e o agarrou por uma das pernas traseiras.

Sem parar, segurando-o com ambas as mãos, ele girou o lobo cativo como um cajado que espalhou os outros. Descobrindo que a criatura não era tão pesada quanto esperava, e quase apreciando a mudança na ação, ele golpeou os atacantes com sua arma viva, num rodopio que derrubou dois deles com um quebrar de crânios. Infelizmente, não podia guardar-se por todos os lados. Um macho magro o atingiu pelas costas, lançando contra uma árvore e fazendo-o perder sua arma.

— Deus! — gritou ele.

A matilha o cercou e Kwuteg alcançou a garganta do lobo magro com seus dentes. Mordeu com cada grama de seu desespero final. O sangue do lobo esguichou em seu rosto, cegando.

Rolando sem ter qualquer noção de para onde ia, Kwuteg agarrou outro lobo.

Parte da matilha se dissolveu numa turba, ganindo e rodopiando. Outra voltou-se contra os próprios companheiros feridos. Mas a maioria continuou sobre a vítima.

Dentes rasgaram a garganta de Kwuteg de ambos os lados.

Siona também ouvira o grito de Ulot, e então o inconfundível silêncio, seguido pelos ganidos dos lobos que reassumiam a perseguição. Tamanho ódio a tomou que ela sentiu que poderia explodir. Ulot fora incluído nessa missão devido à sua habilidade analítica, sua capacidade para enxergar o todo a partir de umas poucas partes conhecidas. Fora Ulot que, tirando o indispensável ampliador de seu estojo, examinara os dois estranhos volumes que haviam encontrado com as plantas da Cidadela.

— Creio que é um código - dissera Ulot.

E Radi, pobre Radi, que fora o primeiro da equipe a morrer... Radi dissera:

— Não podemos nos permitir o peso extra. Jogue-os fora.

Ulot fora contra:

— Coisas sem importância não são ocultas desse modo.

Kwuteg se unira a Radi:

— Viemos em busca dos planos da Cidadela, e estamos com eles. Aquelas coisas são muito pesadas.

Mas Siona concordara com Ulot:

— Eu as carrego.

Isso terminara a discussão.

"Pobre Ulot.”

Todos sabiam que ele era o pior corredor da equipe. Ulot era lento na maioria das coisas, mas a clareza de sua mente não podia ser negada.

"Ele é confiável.”

Ulot fora confiável.

Siona controlou o ódio e usou sua energia para aumentar o passo. Árvores passavam como manchas à luz da lua. Havia penetrado no vazio sem tempo dos corredores, onde nada mais restava senão seus próprios movimentos, seu próprio corpo fazendo o que fora condicionado a fazer.

Os homens a achavam bonita quando corria, Siona sabia disso. Seu cabelo comprido era preso num coque para evitar que chicoteasse ao vento. Havia acusado Kwuteg de ser tolo quando ele se recusara a lhe copiar o estilo.

"Onde estará Kwuteg?”

Seu cabelo não era como o de Kwuteg. Tinha aquele castanho escuro que às vezes se confunde com o preto, mas que não é realmente preto, não como o de Kwuteg, de fato.

Na maneira como os genes ocasionalmente fazem, suas feições copiavam as de uma ancestral há muito tempo morta: rosto suavemente oval com boca generosa e olhos de alerta consciência acima do nariz pequeno. O corpo tornara-se magro pelos anos de corrida, mas ainda enviava fortes estímulos sexuais aos homens em torno dela.

"Onde estará Kwuteg?”

A matilha ficara em silêncio e isso a enchia de preocupação. Eles tinham feito isso antes de derrubar Randi. E fora o mesmo quando pegaram Setuse.

Disse a si mesma que o silêncio poderia significar outras coisas. Kwuteg também era silencioso e forte. O ferimento não parecera incomodá-lo muito.

Siona começou a sentir dor no peito, o final do fôlego, coisa que ela conhecia muito bem dos longos quilômetros de treinamento. O suor ainda se derramava em seu corpo, sob o fino traje de corrida. A mochila, com a preciosa carga fechada para a travessia do rio, encontrava-se bem presa em suas costas. Ela pensou nos planos da Cidadela ali dobrados.

"Onde será que Leto esconde sua reserva de especiaria?”

Tinha que ser em algum lugar dentro da Cidadela. Tinha que ser. Em algum lugar das plantas haveria um indício. A especiaria melange pela qual a Bene Gesserit, a Corporação e todos os outros tinham fome... esse era um preço que valia o risco.

E aqueles dois volumes cifrados. Kwuteg estivera certo em uma coisa: o papel de cristal riduliano era pesado. Mas ela compartilhara a excitação de Ulot. Alguma coisa importante estava oculta naquelas linhas em código.

Uma vez mais os ávidos ganidos de caça dos lobos soaram na floresta atrás dela.

"Corra, Kwuteg! Corra!”

Agora, bem diante dela, através das árvores, podia ver a larga faixa de clareira que bordejava o Rio Idaho. Vislumbrou o brilho da lua além da clareira.

"Corra, Kwuteg!”

Ansiava por ouvir um som da parte dele, qualquer som. Somente eles dois restavam agora, dos 11 que tinham iniciado a corrida. Nove haviam pago com suas vidas por essa aventura:

Radi, Aline, Ulot, Setuse, Inineg, Onemao, Hutye, Memar e Oala.

Siona pensou em seus nomes e por cada um deles enviou uma prece silenciosa aos velhos deuses, não ao tirano Leto. Em especial, rezou ao Shai-Hulud.

"Eu rezo ao Shai-Hulud que vive nas areias.

De repente saiu da floresta, encontrando-se no trecho de solo ceifado, brilhando ao luar. Bem adiante, além da estreita praia de seixos, a água chamava por ela. A praia parecia prateada contra o fluir oleoso.

Um grito alto, vindo de trás das árvores, quase a fez vacilar. Reconheceu a voz de Kwuteg acima dos sons selvagens dos lobos. Kwuteg gritando para ela sem mencionar o nome, um grito inconfundível com uma única palavra que resumia incontáveis conversas - uma mensagem de vida e morte.

— Corra!

Os sons da matilha transformaram-se numa terrível comoção, um frenesi de ganidos e rosnados, e nada mais se ouviu de Kwuteg. Sabia agora que ele gastara as últimas energias de sua vida.

"Retardando-os para me ajudar a escapar.”

Obedecendo ao grito de Kwuteg, ela disparou para a beira do rio e mergulhou de cabeça na água. O rio foi um choque enregelante depois do calor da corrida.

Atordoou-a por um momento e ela se debateu para diante, lutando a fim de nadar e recuperar o fôlego. A mochila preciosa flutuava e batia na parte de trás de sua cabeça.

O rio Idaho não era largo naquele trecho, não tinha mais que 50 metros, fazendo uma curva suave, com um denteado de areia orlada de raízes e bancos luxuriantes de capim e juncos, onde a água se recusava a seguir as linhas retas projetadas pelos engenheiros de Leto. Siona sentiu-se mais forte ante o conhecimento de que os lobos D tinham sido condicionados para pararem na água.

Suas fronteiras territoriais tinham sido traçadas, desse modo, o rio de um lado e a muralha do deserto do outro. Ainda assim, ela nadou os últimos metros sob a água e emergiu nas sombras de um banco, antes de se voltar e olhar para trás.

A matilha parara, enfileirando-se ao longo da margem - todos, exceto um, que descera até a beira do rio e se inclinava sobre as patas dianteiras quase dentro da correnteza. Ela o ouviu ganir.

Siona sabia que o lobo podia vê-la. Sem dúvida, os lobos D eram notáveis por seu agudo senso de visão. Eram localizadores na ancestralidade dos guardiões florestais de Leto, e ele os cruzava apurando o sentido da visão. Perguntou a si mesma se dessa vez os lobos quebrariam o condicionamento. Eles eram

principalmente caçadores unidos. Se aquele na beira do rio entrasse na água, todos os outros poderiam segui-lo. Siona prendeu a respiração. Sentia a exaustão acumulada. Tinham atravessado quase 30 quilômetros, a metade disso com os lobos D nos calcanhares.

O lobo na beira do rio uivou e saltou de volta para se reunir aos

companheiros. Ante algum sinal silencioso, eles se voltaram, retornando à floresta.

Siona sabia para onde iam. Os lobos D tinham permissão para comer

qualquer coisa que abatessem na Floresta Proibida. Todos sabiam disso. Era o motivo pelo qual os lobos vagueavam na floresta - os guardiões do Sareer.

— Você pagará por isso, Leto — ela sussurrou. Era um som abafado, muito próximo do suave sussurro da água contra os juncos logo abaixo dela. — Você pagará por Ulot, por Kwuteg e por todos os outros. Você pagara.

Lançou-se para a frente com suavidade e flutuou na corrente até que seus pés encontraram a primeira praia estreita. Lentamente, arrastando o corpo fatigado, ela saiu da água e parou para verificar se os conteúdos fechados na mochila permaneciam secos. O selo não fora rompido. Ela olhou para aquilo por um momento, sob a luz do luar, então ergueu os olhos para a muralha da floresta do outro lado do rio.

"O preço foi pago. Dez amigos queridos.”

Lágrimas cintilaram em seus olhos, mas ela tinha a herança dos antigos Fremen e suas lágrimas foram poucas. A aventura através do rio, diretamente pela floresta, enquanto os lobos patrulhavam as fronteiras do norte, depois através do Último Deserto do Sareer e sobre as muralhas da Cidadela - tudo isso já assumia as nuanças de um sonho em sua mente... até mesmo a fuga dos lobos, que ela antecipara porque era certo que a matilha guardiã cruzaria a trilha dos invasores e estaria esperando... tudo um sonho. Era o passado.

"Eu escapei.”

Colocou o estojo na mochila fechada e a prendeu uma vez mais nas costas.

"Eu penetrei em suas defesas, Leto.”

Siona pensou então nos volumes cifrados. Tinha certeza de que alguma coisa oculta naquelas linhas em código abriria o caminho para a sua vingança.

"Eu vou destruí-lo, Leto!”

Não "nós o destruiremos!" Esse não era o caminho de Siona. Ela o faria sozinha.

Virou-se caminhando para os pomares além da margem ceifada do rio.

Enquanto caminhava, repetia o juramento, acrescentando em voz alta o velho enunciado Fremen que terminava com seu nome completo:

— Siona Ibn Fuad al-Seyefa Atreides é quem o amaldiçoa, Leto. Você pagará por tudo!

O que se segue é uma tradução de Hadi Benotto dos volumes descobertos em Dar-es-Balat: Eu nasci Leto Atreides II há mais de 3 mil anos padrão, medidos a partir do momento em que faço estas palavras serem impressas. Meu pai era Paul Muad'Dib. Minha mãe, sua consorte Fremen, Chani. Minha avó materna era Faroula, notável especialista em ervas entre os Fremen.

Minha avó paterna foi Jessica, produto do projeto de procriação Bene Gesserit em sua busca por um elemento masculino capaz de compartilhar os poderes das Reverendas Madres da Irmandade.

Meu avô materno foi Liet-Kynes, o planetólogo que organizou a transformação ecológica de Arrakis. Meu avô paterno foi O Atreides, descendente da casa de Atreus e possuidor de uma ancestralidade que recua diretamente até o original grego.

Basta dessas tolices!

Meu avô paterno morreu, como muitos bons gregos morreram, tentando matar seu inimigo mortal, o velho Barão Vladimir Harkonnen. Ambos agora repousam inconfortavelmente em minhas memórias ancestrais, e mesmo meu pai não está contente. Eu fiz o que ele temia fazer e agora sua sombra deve partilhar as conseqüências.

O Caminho Dourado o exige. E que é o Caminho Dourado?, você me pergunta.

É a sobrevivência da humanidade, nem mais, nem menos. Nós, que possuímos a presciência, que conhecemos as armadilhas em nossos futuros humanos, possuímos sempre essa responsabilidade.

Sobrevivência.

Como você se sente a respeito disso? Suas mesquinhas alegrias e mágoas, até mesmo seus enlevos e agonias, raramente nos preocupam. Meu pai tinha esse poder. Eu o possuo ainda mais forte. Nós podemos olhar, quando queremos, através dos véus do Tempo.

Este planeta Arrakis, a partir do qual dirijo meu Império multigaláctico, não é mais como era nos dias em que o conheciam como Duna. Naquele tempo o planeta inteiro era um deserto.

Agora existe apenas um remanescente muito pequeno, o meu Sareer. O gigantesco verme da areia não vagueia mais livremente produzindo a especiaria melange. A especiaria! Duna era notado apenas como fonte da melange, a única fonte. Que substância extraordinária! Nenhum laboratório jamais foi capaz de reproduzi-la. E se trata da substância mais valiosa que a humanidade jamais encontrou.

Sem a melange para disparar a presciência linear dos Navegadores da Corporação, as pessoas só conseguem atravessar os parsecs a passo de tartaruga. Sem a melange, a Bene Gesserit não pode produzir Reveladoras da Verdade e Reverendas Madres. Sem as propriedades geriátricas da melange, as pessoas vivem e morrem de acordo com as escalas antigas: não mais que uns 100

anos de vida. Agora, a única especiaria existente é a que está guardada nos depósitos da Corporação e da Bene Gesserit, além de uns pequenos tesouros entre o que restou das Grandes Casas e do meu gigantesco depósito, que todos ambicionam. Como eles gostariam de poder me assaltar! Mas não se atrevem. Sabem que eu destruiria a todos antes de me render.

Não. Eles chegam aqui de chapéu na mão e esmolam por melange. Eu a forneço como recompensa e a nego como punição. E como eles me odeiam por isso.

Esse é o meu poder, eu lhes digo. E a minha dádiva.

Com ela eu criei a Paz. Eles desfrutaram de mais de 3 mil anos da Paz de Leto. Uma tranqüilidade imposta que a humanidade só conheceu por breves períodos antes da minha ascensão. E, caso tenham esquecido, estudem a Paz de Leto uma vez mais nestes meus diários.

Eu comecei estes registros no primeiro ano da minha administração, nos primeiros espasmos da minha metamorfose, quando era principalmente humano, até mesmo visivelmente humano. A pele da truta da areia que eu aceitei (e meu pai recusou) e que me deu uma força ampliada, além da virtual imunidade a ataques convencionais e ao envelhecimento - essa pele cobria uma forma ainda reconhecível como humana: duas pernas, dois braços, um rosto humano emoldurado nas dobras de pergaminho da pele de truta da areia.

Ah, aquele rosto! Ainda o possuo - a única pele humana que exponho ao universo. Todo o resto da minha carne permanece coberto pelos corpos unidos daqueles pequenos vetores da areia profunda que um dia poderão converter-se em gigantescos vermes da areia.

Algo que eles farão... algum dia.

Freqüentemente penso em minha metamorfose final, aquela semelhança de morte. Conheço o modo pelo qual ela virá, mas não conheço o momento nem os outros seres que dela tomarão parte.

Essa é uma coisa que não posso saber. Só sei se o Caminho Dourado continua ou termina. E, enquanto faço com que estas palavras sejam registradas, o Caminho Dourado continua e, por isso, pelo menos, me sinto contente.

Não posso mais sentir os cílios da truta da areia sondando a minha carne, apreendendo a água do meu corpo dentro de suas barreiras placentárias. Somos virtualmente um corpo agora, elas são a minha pele e eu sou a força que as move como um todo... na maior parte do tempo.

Enquanto estou escrevendo isto, o todo pode ser considerado um tanto grosseiro. Meu corpo tem aproximadamente sete metros de comprimento e algo mais que dois metros de diâmetro, frisado na maior parte de sua extensão, com meu rosto Atreides posicionado na altura de um homem, em uma das extremidades.

Os braços e mãos (ainda bem reconhecíveis como humanos) vêm logo abaixo. As pernas e os pés? Bem, estes atrofiaram-se quase inteiramente. Apenas nadadeiras, é o que restou, e estas recuaram ao longo do meu corpo. Meu peso total é de aproximadamente cinco toneladas antigas.

Acrescento esses detalhes porque agora sei que serão de interesse histórico.

Como faço para carregar comigo todo esse peso? Principalmente na minha Carreta Real, manufaturada pelos Ixianos. Estão chocados? As pessoas invariavelmente odeiam e temem os Ixianos ainda mais do que me temem ou odeiam. Melhor o diabo, vocês sabem. Pois quem sabe o que os Ixianos podem construir ou inventar? Quem sabe?

Eu decerto não sei. Não inteiramente.

Mas tenho certa simpatia pelos Ixianos. Eles acreditam tão fortemente em sua tecnologia, em sua ciência, em suas máquinas. E como acreditamos (não importa a razão), nos entendemos entre nós, os Ixianos e eu. Eles fizeram muitos engenhos para mim, e acreditam conquistar assim a minha gratidão. Estas próprias palavras que estão lendo são impressas por um artefato Ixiano, um ditadeiro, como é chamado. Se eu produzir meus pensamentos de modo adequado, o ditadeiro é ativado. Só faço pensar desta maneira e as palavras são impressas para mim em folhas de cristal riduliano com apenas uma molécula de espessura. Algumas vezes mando fazer cópias impressas num material de menor capacidade de permanência. Duas cópias desse tipo é que me foram roubadas por Siona.

Ela não é fascinante, a minha Siona? Na medida em que compreenderem sua importância para mim, vocês poderão indagar se eu realmente teria permitido que ela morresse lá na floresta.

Não tenham dúvida quanto a isso. A morte é uma coisa muito pessoal, raramente interfiro com ela. Nunca no caso de alguém que deva ser testado, como é o caso de Siona. Eu a deixaria morrer em qualquer ocasião. Afinal, eu poderia produzir uma nova candidata em muito pouco tempo, da maneira como meço o tempo.

Mas até a mim ela fascina. Eu a observei lá na floresta. Observei-a através de meus engenhos Ixianos, e perguntando-me por que não previ essa aventura. Mas Siona é... Siona. Por isso não fiz qualquer movimento para deter os lobos. Estaria errado se o fizesse. Os lobos D não passam de uma extensão dos meus propósitos, e meus propósitos são os maiores predadores já conhecidos.

- Os diários de Leto II

O seguinte diálogo, de pouca extensão, é atribuído a um manuscrito chamado "O

Fragmento de Welbeck". Aponta-se como autor Siona Atreides. Os participantes do diálogo são a própria Siona e seu pai, Moneo, que era (como todas as histórias revelam) majordomo e ajudante-chefe de Leto II. Data de uma época em que Siona ainda não atingira os 20 anos e estava sendo visitada pelo pai em seus alojamentos na Escola das Oradoras Peixes, na Cidade Festival de Onn, o maior centro populacional do planeta agora conhecido como Rakis. De acordo com os papéis de identificação do manuscrito, Moneo visitava sua filha em segredo para avisá-la de que se arriscava a ser destruída.

SIONA: Como sobreviveu com ele por tanto tempo, pai? Ele mata todos aqueles que se encontram perto dele. Todos sabem disso.

MONEO: Não! Você está errada. Ele não mata ninguém.

SIONA: Não precisa mentir a respeito dele.

MONEO: Eu não minto. Ele não mata ninguém.

SIONA: Então, como explica as mortes conhecidas?

MONEO: É o Verme que mata. O Verme é Deus. Leto vive no colo de Deus, mas ele não mata ninguém.

SIONA: Então, como você sobrevive?

MONEO: Eu sei reconhecer o Verme. Posso vê-lo em seu rosto e em seus movimentos. Sei quando o Shai-Hulud se aproxima.

SIONA: Ele não é o Shai-Hulud!

MONEO: Bem, essa era a maneira pela qual eles chamavam o Verme nos dias dos Fremen.

SIONA: Já li sobre isso. Mas ele não é o Deus do Deserto.

MONEO: Fique quieta, menina tola! Você não conhece nada sobre estas coisas.

SIONA: Sei que o senhor é um covarde.

MONEO: Quantas coisas você desconhece. Nunca se colocou lá, o nde eu me coloco, e viu aquilo em seus olhos, nos movimentos de suas mãos.

SIONA: Que faz então quando o Verme se aproxima?

MONEO: Saio.

SIONA: Isso é prudente. Ele já matou nove Duncans Idahos, disso temos certeza.

MONEO: Eu lhe digo que ele não mata ninguém!

SIONA: E qual a diferença? Leto ou o Verme, eles são um só corpo agora.

MONEO: Mas são duas coisas distintas - Leto, o Imperador, e O Verme que é Deus.

SIONA: Você está louco!

MONEO: Talvez. Mas eu sirvo a Deus.

Eu sou o mais ardente observador de pessoas que já existiu. Eu as observo dentro de mim e do lado de fora. Passado e presente podem fundir-se em estranhas colocações dentro de mim. E

enquanto a metamorfose continua em minha carne, coisas maravilhosas acontecem aos meus sentidos.

É como se eu visse tudo em dose. Tenho a audição extremamente aguda, assim como a visão, além de um olfato extraordinariamente sensível. Posso detectar e identificar feromônios a três partes por milhão. Eu sei, já testei isso. Você não pode esconder muita coisa dos meus sentidos.

Creio que você ficaria horrorizado com o que posso detectar apenas pelo cheiro. Seus feromônios revelam-me o que você está fazendo ou se preparando para fazer. E gesto e postura! Certa vez fiquei olhando, durante metade de um dia, um velho sentado num banco em Arrakeen. Ele era um descendente de quinta geração de Stilgar, o Naib, e nem mesmo sabia disso. Observei o angulo do seu pescoço, as dobras da pele abaixo do queixo, os lábios rachados e a umidade em torno das narinas. Os poros atrás das orelhas e os fios de cabelo grisalho escapando por detrás do capuz de um antiquíssimo traje destilador. Nem uma vez ele detectou que estava sendo observado.

Ah! Stilgar teria percebido num segundo ou dois. Mas esse velho estava apenas esperando por alguém que nunca chegou. Acabou por se levantar e sair. Estava muito rígido depois de todo aquele tempo sentado. Eu sabia que nunca mais o veria em carne e osso novamente. Ele estava muito perto da morte e sua água certamente seria desperdiçada. Bem, isso não importava mais.

- Os diários roubados

Leto pensava que fosse o lugar mais interessante de todo o universo, o lugar onde ele esperava a chegada de seu atual Duncan Idaho. Pela maioria dos padrões humanos, era um espaço gigantesco, o núcleo de uma intrincada série de catacumbas embaixo de sua Cidadela. Câmaras com 30 metros de altura e 20 de largura partiam como raios do eixo onde ele aguardava. Seu carro fora posicionado no centro de uma câmara circular abobadada, com 400 metros de diâmetro e 100

de altura no ponto mais elevado acima dele.

Ele achava essas dimensões tranquilizadoras.

Era início da tarde na Cidadela, mas a única luz na câmara vinha da disposição casual de alguns globos luminosos, presos a suspensores que flutuavam ajustados para um brilho laranja. A luz não penetrava muito longe dentro dos raios, mas as memórias de Leto lhe revelavam a posição exata de tudo que havia lá - a água, os ossos, a poeira de seus ancestrais e dos Atreides que haviam vivido e morrido desde os tempos de Duna. Todos eles se encontravam ali, ao lado de alguns recipientes de melange para criar a ilusão de que esse era todo o seu tesouro, se algum dia a situação chegasse a tal extremo.

Leto sabia por que o Duncan se aproximava. Idaho soubera que os Tleilaxu estavam fazendo outro Duncan, outro ghola criado segundo as especificações exigidas pelo Imperador-Deus. E este Duncan temia estar sendo substituído após quase 60 anos de serviço. Era sempre alguma coisa dessa natureza que iniciava a subversão dos Duncans. Um enviado da Corporação tinha aguardado Leto mais cedo para adverti-lo de que os Ixianos haviam entregue uma arma laser a esse Duncan.

Leto riu. A Corporação continuava extremamente sensível a qualquer coisa que pudesse ameaçar seu minguado suprimento de especiaria. Eles ficavam aterrorizados ao pensar que Leto constituía a última ligação com os vermes da areia, produtores dos suprimentos originais de melange.

"Se eu morrer longe da água, não haverá mais especiaria - nunca mais.”

Esse era o temor da Corporação. E seus historiadores-contabilistas

asseguravam que Leto repousava sobre o maior suprimento de melange de todo o universo. Isso transformava os membros da Corporação em aliados quase confiáveis.

Enquanto aguardava, Leto executou, com os dedos e a mão, os exercícios de sua herança Bene Gesserit. As mãos eram seu orgulho. Debaixo da membrana cinzenta, da pele de truta da areia, seus longos dedos e polegares em oposição podiam ser usados como qualquer mão humana. Já as quase nadadeiras, que um dia haviam sido seus pés e suas pernas, eram mais uma inconveniência do que uma vergonha. Ele podia arrastar, rolar e lançar seu corpo com uma velocidade espantosa, mas algumas vezes caía sobre as nadadeiras, e então havia dor.

Que estaria retardando o Duncan?

Leto imaginava o homem vacilando, olhando de uma janela para o horizonte fluido do Sareer. O ar estava vivo com o calor do dia e, antes de descer à cripta, Leto vira uma miragem a sudoeste. O espelho do calor inclinara-se transmitindo uma imagem através da areia. Mostrara-lhe um bando de Fremen de Museu avançando diante de um Sietch de Exibição para instruir um grupo de turistas.

Era frio na cripta, sempre frio, a iluminação sempre reduzida. Os túneis que serviam de raios eram buracos escuros subindo e descendo em suaves gradientes para acomodarem a Carreta Real. Alguns túneis estendiam-se para além de falsas paredes através de muitos quilômetros. Passagens que Leto havia criado para si mesmo com ferramentas Ixianas - túneis de alimentação e caminhos secretos.

Enquanto antevia a próxima entrevista, um senso de nervosismo começou a crescer em Leto. Achou que essa era uma emoção interessante, que ele se acostumara a apreciar. Leto sabia que se tornara orgulhoso do atual Duncan e em si permanecia a esperança de que o homem sobrevivesse à próxima entrevista.

Algumas vezes acontecia. Havia pouca probabilidade de que Duncan representasse uma ameaça mortal, embora isso devesse ser deixado ao acaso. Leto tentara explicar tal coisa a um dos primeiros Duncans... bem ali nessa mesma câmara.

— Você vai julgar estranho que eu, com os meus poderes, possa falar em sorte e acaso — Leto dissera.

O Duncan estava furioso.

— Você não deixa nada ao acaso. Eu o conheço!

— Que ingenuidade. A casualidade é a própria natureza do nosso universo.

— Não a casualidade! A discórdia. E você é o causador da discórdia!

— Excelente, Duncan. A discórdia é um grande prazer. E pelo modo como lidamos com a discórdia que afiamos nossa criatividade.

— Você não é nem mais humano! — Oh, como aquele Duncan estava

furioso.

Leto achara tal acusação irritante, como um grão de areia no olho. Ele se agarrava aos vestígios de humanidade em sua personalidade com inegável rigidez, embora a irritação fosse o mais próximo que pudesse chegar da raiva.

— Sua vida está se tornando um clichê — acusou Leto.

Com isso o Duncan retirara um pequeno explosivo das dobras de seu manto.

Que surpresa!

Leto adorava surpresas, mesmo perversas.

— Eis uma coisa que não previ! — disse ele para Duncan, que permanecia ali, estranhamente indeciso, agora que uma decisão lhe era absolutamente exigida.

— Isto poderia matá-lo — disse o Duncan.

— Sinto muito, Duncan. Causará um pequeno dano, não mais que isso.

— Mas disse que não previra isto! — A voz do Duncan tornara-se aguda.

— Duncan, Duncan, a previsão absoluta é que é igual à morte para mim.

Como a morte é insuportavelmente aborrecida.

No último instante, o Duncan tentara atirar o explosivo para um lado, mas o material era muito instável e detonara cedo demais. O Duncan morrera. Ah, bem...

os Tleilaxu sempre tinham outro em seus tanques axolotl.

Um dos globos luminosos acima de Leto começou a piscar. A excitação o dominou. Sinal de Moneo! O fiel Moneo alertando seu Imperador de que o Duncan estava descendo a cripta.

A porta do elevador humano, entre duas passagens no arco noroeste da câmara, se abriu. Duncan caminhou decidido, uma figura pequena na distância, mas os olhos de Leto discerniam até mesmo minúsculos detalhes — um amarrotado no cotovelo do uniforme, revelando que o homem estivera inclinado em algum lugar, com o queixo apoiado na mão. Sim, ainda havia marcas da mão no queixo. O odor do Duncan o precedeu: o homem estava saturado da própria adrenalina.

Leto permaneceu silencioso enquanto o Duncan se aproximava, observando detalhes. Esse Duncan ainda caminhava com o passo de um jovem, apesar de seu longo tempo de serviço. Ele podia agradecer por isso a uma pequena ingestão de melange. O homem usava o velho uniforme dos Atreides, preto com o falcão dourado do lado esquerdo do peito. Uma declaração interessante esta:

— Eu sirvo à honra dos velhos Atreides!

Seu cabelo ainda era um gorro negro de karakul, as feições fixas numa agudeza de rocha, com maçãs do rosto salientes.

"Os Tleilaxu criam bem os seus gholas", pensou Leto.

O Duncan carregava uma pequena valise de fibra marrom escura trançada, uma que ele carregara por muitos anos. Geralmente continha o material no qual ele baseava seus relatórios, mas hoje ela se avolumava com alguma carga mais pesada.

"A arma laser Ixiana.”

Idaho mantinha sua atenção no rosto de Leto enquanto caminhava. O rosto permanecia desconcertadoramente Atreides, feições esguias com olhos de um azul total, que os mais nervosos tomavam como uma intrusão física. Eles observavam bem de dentro do capuz cinzento de truta da areia que, Idaho sabia, podia desenrolar-se para a frente, protetoramente, num tremulante reflexo - um piscar do rosto em vez de um piscar de olhos. A pele era rosada dentro de sua moldura cinzenta. Era difícil evitar o pensamento de que o rosto de Leto era uma obscenidade, um fragmento perdido de humanidade preso dentro de alguma coisa totalmente alienígena.

Parando a apenas seis passos da Carreta Real, Idaho não tentou esconder sua furiosa determinação. Nem mesmo pensava se Leto sabia a respeito da arma laser.

Esse Império se afastara em demasia da velha moralidade Atreides, tornara-se uma crença cega e impessoal que esmagava os inocentes em seu caminho. Tinha de acabar!

— Eu vim para lhe falar a respeito de Siona e de outras questões - disse Idaho. Colocou a valise numa posição em que pudesse tirar a arma laser com facilidade.

— Muito bem — a voz de Leto estava cheia de tédio.

— Siona foi a única que escapou, mas ela ainda possui uma base de

companheiros rebeldes.

— Acha que não sei disso?

— Conheço sua perigosa tolerância para com os rebeldes! O que não conheço é o conteúdo daquele embrulho que ela roubou.

— Oh, isto. Ela tem as plantas completas da Cidadela.

Por apenas um instante, Idaho era o Comandante da Guarda de Leto,

profundamente chocado com semelhante quebra na segurança.

— E você a deixou escapar com isso?

— Não, foi você.

Idaho estremeceu com essa acusação. Lentamente, o assassino recentemente decidido que agora havia nele recuperou sua predominância.

— É tudo que ela conseguiu? — perguntou Idaho.

— Eu tinha dois volumes, cópias do meu diário, com as plantas. Ela roubou as cópias.

Idaho observou a face imóvel de Leto.

— O que havia nesses registros? Às vezes você diz que é um diário, às vezes que é uma história.

— Um pouco de ambos. Você poderia mesmo dizer que é um manual.

— Incomoda-lhe que ela se tenha apoderado desses volumes?

Leto permitiu-se um suave sorriso que Idaho aceitou como resposta negativa.

Uma tensão momentânea ondulou através do corpo de Leto enquanto Idaho levava a mão à delgada pasta. Que seria: a arma ou os relatórios? Embora o núcleo do seu corpo possuísse uma poderosa resistência ao calor, Leto sabia que parte de sua carne era vulnerável a pistolas laser, especialmente o rosto.

Idaho tirou um relatório da valise e, antes mesmo de começar a leitura, os indícios já eram óbvios para Leto. Idaho estava buscando respostas, não fornecendo informações. Desejava obter uma justificativa para um curso de ação que já escolhera.

— Nós descobrimos um Culto de Alia em Giedi Prime — disse Idaho.

Leto permaneceu em silêncio enquanto Idaho contava os detalhes. "Que coisa chata." Deixou que os pensamentos vagueassem. Os adoradores de sua tia, há muito morta, só serviam nesses dias para provocarem um divertimento ocasional.

Os Duncans, previsivelmente, viam tal atividade como uma espécie de ameaça subterrânea.