O Inspector Geral por Nikolai Gogol - Versão HTML

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A UNESCO anunciou o ano de 2009 como “o ano de Gógol” e inúmeras exposições e eventos estão previstos para

este ano na Rússia e no mundo todo em comemoração ao bicentenário do nascimento deste gigante da literatura

russa.

Personalidade bastante singular, altamente enigmática, Gógol deixa-se revelar em mutiso de seus escritos. A obra de Gógol como um todo tem sido considerada por uma parcela da crítica como expressão satírica da realidade

russa na primeira metade do século 19, detectando-se uma maneira peculiar de “ver” o mundo e as coisas, isto é,

sua “óptica desautomatizante”.

O traço da obra gogoliana se revela por meio de uma espécie de acumulação absurda de detalhes que fazem da

realidade um aglomerado de elementos contraditórios, mas que revelam na sua mais profunda essência, tornando

esse caos fantástico e desconexo a sua mais fiel expressão.

Nos textos de Gógol o sobrenatural e o inusitado surgem naturalmente do real e o absurdo que daí resulta se

destaca do cotidiano mais comezinho no qual todos os opostos se tocam e onde o trágico e o cômico se mesclam

a elementos de terror e humor.

Os textos de Gógol são, portanto, poesia em ação e, como tal, podem desvelar os mistérios do irracional, mesmo

que, muitas vezes, sob as máscaras da racionalidade.

Sumário

Personagens ......................................................................... 11

Ato 1 ........................................................................................ 13

Ato 2 ....................................................................................... 41

Ato 3 ........................................................................................ 69

Ato 4 .......................................................................................105

Ato 5 ...................................................................................... 157

O Inspetor Geral

Comédia em 5 atos

(1836)

A culpa não é do espelho se a cara é torta.

Provérbio popular

Personagens

Antón Antónovitch Skvozník-Dmukhanóvski: prefeito

Ana Andréievna: sua esposa

Mária Antónovna: sua filha

Luká Lukítch Khlópov: inspetor de escolas

Sua Esposa

Amós Fiódorovitch Liápkin-Tiapkin: juiz

Artémi Filípovitch Zemlianíka: encarregado da assitência social

Ivan Kuzmítch Chpékin: chefe dos correios

Piótr Ivánovitch Dóbtchinski: pequeno proprietário de terras

Piótr Ivánovitch Bóbtchinski: pequeno proprietário de terras

Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv: funcionário de Petersburgo

Óssip: seu criado

Khristian Ivánovitch Guíbner: médico da província

Fiódor Andreiévitch Liuliukóv: aposentado, cidadão respeitado

Ivan Lázarevitch Rastakóvski: aposentado, cidadão respeitado

Stepan Ivánovitch Koróbkin: aposentado, cidadão respeitado

Stepan Ilitch Ukhoviórtov: comissário de polícia

Svistunóv: policial

Púgovitsin: policial

Derjimórda: policial

Abdúlin: comerciante

Fevrônia Petróvna Pochliópkina: a mulher do serralheiro

Michka: criado do prefeito

Um criado de hotel

Convidados e convidadas, comerciantes, pequenos burgueses e solicitantes

Ato 1

Sala na casa do prefeito.

Cena 1

O prefeito, o encarregado da assistência social, o inspetor de

escolas, o juiz, o comissário de polícia, o médico e dois policiais.

Prefeito

Chamei-os aqui, meus senhores, para lhes dar uma notícia bem desagradável.

Está a caminho um inspetor geral.

Amós Fiódorovitch

Como? Um inspetor?!!

Artémi Filípovitch

Como? Um inspetor?!!

Prefeito

Um inspetor de Petersburgo, incógnito. E, ainda por cima, em missão secreta.

Amós Fiódorovitch

Essa não!!

Artémi Filípovitch

Era só isso que faltava!!

Luká Lukítch

Santo Deus! E ainda por cima em missão secreta!

Prefeito

Eu bem que pressentia: sonhei durante toda a noite com duas ratazanas

impressionantes. Palavra de honra, nunca vi nada parecido: pretas, de tamanho

sobrenatural! Chegaram bem perto, cheiraram e foram embora. Vou ler para os

senhores a carta que recebi de Andrei Ivánovitch Tchmykhov, aquele que o

senhor, Artémi Filípovitch, conhece bem. Olha o que ele escreve: “Meu caro

amigo, compadre e benfeitor”... (Balbucia palavras a meia-voz, correndo os

olhos com rapidez.) “...em informá-lo...” Ah! Aqui: “A propósito, apresso-me em

informá-lo de que chegou um funcionário autorizado a inspecionar todo o estado

e principalmente o nosso distrito. (Levanta um dedo de forma significativa.)

Soube disso por meio de gente de confiança, apesar de o ditocujo se apresentar

como um indivíduo qualquer. Como sei que você, como todo mundo, tem lá os

seus pecadilhos, pois você é um homem inteligente e não gosta de deixar passar

o que lhe cai nas mãos...” (Interrompe.) Bem, já que estamos entre nós...

“...então aconselho-o a tomar precauções, mesmo porque ele pode chegar a

qualquer momento, se é que já não chegou e está hospedado incógnito em

algum canto... Ontem eu...” Bem, aqui já vêm assuntos de família: “Minha irmã

Ana Kirílovna veio nos visitar com seu marido; Ivan Kirílovitch engordou muito e

continua tocando violino...” e etc. etc. Vejam só que situação.

Amós Fiódorovitch

É verdade. Que situação extraordinária, muito extraordinária! E não deve ser à

toa.

Luká Lukitch

Mas para quê, Antón Antónovitch, para que isso? O que vem fazer aqui um

inspetor?

Prefeito

Por quê?! Só pode ser coisa do destino! (Suspira.) Até hoje, graças a Deus, só se

meteram com outras cidades, agora chegou a nossa vez.

Amós Fiódorovitch

Eu acho, Antón Antónovitch, que isso aí tem uma razão mais sutil e bem política.

É o seguinte: a Rússia... é isso mesmo... a Rússia deseja fazer a guerra e aí,

vejam só, o ministério manda um funcionário espionar se há traição em algum

lugar.

Prefeito

Mas que asneira! Um homem inteligente como você! Traição numa cidadezinha

dessas! Por acaso estamos numa fronteira? Daqui desta cidade, nem viajando

três anos seguidos você pode chegar a algum lugar.

Amós Fiódorovitch

Não, não é bem assim, o senhor não... eu quero dizer... Esses superiores são

bem espertos: mesmo longe, estão sempre de olho vivo.

Prefeito

Estejam ou não de olho, os senhores já estão avisados. Prestem atenção: de

minha parte, já dei algumas ordens e os aconselho a fazer o mesmo.

Principalmente o senhor, Artémi Filípovitch! Sem dúvida nenhuma, o tal

funcionário vai querer, antes de mais nada, averiguar as instituições da

assistência social sob sua responsabilidade; por isso, faça tudo ficar bem

decente: os gorros devem estar limpos para que os doentes não pareçam

ferreiros como sempre.

Artémi Filípovitch

Isso é o de menos. Até que dá pra eles ficarem limpos.

Prefeito

Isso mesmo. E também em cada cama deve-se escrever, em latim ou em

qualquer outra língua — isto já é com o senhor, Khristian Ivánovitch -, o nome de

cada doença, quando o sujeito adoeceu, data, hora... Também não é bom que os

seus pacientes fumem um tabaco tão forte, que faz a gente espirrar, logo ao

entrar. E seria ainda melhor se tivéssemos menos pacientes: podem até achar

que são mal assistidos ou que o médico não sabe nada de seu ofício.

Artémi Filípovitch

Ah! Quanto à questão clínica, eu e Khristian Ivánovitch já tomamos providências:

quanto mais próximo da natureza, melhor. Não usamos remédios caros. Gente

pobre é simples: se tem de morrer, morre mesmo; se tem de sarar, então sara

mesmo. E também é muito difícil para Khristian Ivánovitch se fazer entender: ele

não sabe uma palavra de russo.

(Khristian Ivánovitch deixa escapar um som meio parecido com a. letra “i” e um

pouco com a letra “e”.)

Prefeito

E ao senhor, Amos Fiódorovitch, eu aconselharia a prestar mais atenção nas

repartições públicas. Lá nas ante-salas, onde normalmente ficam os solicitantes,

os contínuos criam gansos, e seus gansinhos ficam se enfiando entre as nossas

pernas sem parar. E natural cuidar de animais domésticos, é digno de louvor, e

por que um contínuo não poderia fazê-lo? Só que, você sabe, num lugar desses,

não dá... Sempre quis chamar sua atenção para isso; mas, sei lá, me esqueci.

Amós Fiódorovitch

Pois hoje mesmo vou mandá-los todos para a cozinha. Se quiser, até pode vir

almoçar.

Prefeito

Além do mais, não é bom que ponham para secar em sua repartição toda

espécie de porcarias e que sobre a papelada Kc veja um chicote de caça. Eu sei

que o senhor gosta de caçar, mas é melhor, pelo menos por um tempo, tirá-lo

dali. E, quando o inspetor for embora, então o senhor pode pôr tudo de novo no

lugar. Agora, o seu juiz-assistente... ele, sem dúvida, é competente, mas tem um

cheiro, como se tivesse acabado de sair de uma destilaria - isso também não é

bom. Há limito tempo que eu queria lhe falar sobre isso, mas houve, não me

lembro bem, um contratempo qualquer. Se, de fato, como ele diz, o seu cheiro

lhe é inato, então há remédio contra isso. Vamos aconselhá-lo a comer cebola,

ou alho, ou qualquer coisa que o valha. Nesse caso, Khristian Ivánovitch pode

ajudá-lo com diversos medicamentos.

(Khristian Ivánovitch deixa escapar aquele mesmo ruído.)

Amós Fiódorovitch

Não, já não é mais possível remediar: ele diz que, quando criança, a ama-de-leite

o derrubou e, desde então, sai dele esse cheirinho de vodca.

Prefeito

Bem, eu só queria lembrá-lo. No que diz respeito à organização interna e àquilo

que Andréi Ivánovitch em sua carta chama de pecadilhos, eu não tenho nada a

dizer. E até estranho falar disso. Não há uma pessoa que não tenha lá seus

pecados. Foi assim que o próprio Deus determinou e não adianta os voltairianos

protestarem contra.

Amós Fiódorovitch

O que é que o senhor, Antón Antónovitch, entende por pecadilhos? Há pecados e

pecados. Posso falar abertamente para todo mundo que recebo propinas, mas

que tipo de propina? Filhotinhos de cachorro. Mas isso já é outra coisa.

Prefeito

Ora, filhotinhos ou outra coisa qualquer, tudo é suborno.

Amós Fiódorovitch

Não senhor, Antón Antónovitch. Pois veja, por exemplo, se o casaco de peles de

certas pessoas custa quinhentos rublos, ou o xale para a esposa...

Prefeito

Bem, e daí se o senhor recebe cachorros como propina? Em compensação, o

senhor não acredita em Deus e nunca vai à igreja; mas eu, pelo menos, tenho

uma fé inabalável e todos os domingos vou à igreja. Mas o senhor... Ah!, eu

conheço o senhor muito bem: é só começar a falar da criação do mundo e os

cabelos se põem em pé.

Amós Fiódorovitch

E olha que tudo isso com minha própria inteligência.

Prefeito

Mas veja que em alguns casos é pior ter muita inteligência do que não ter

nenhuma. Aliás, eu apenas falei no tribunal de Justiça por falar, porque, pra dizer

a verdade, é pouco provável que alguém vá lá algum dia xeretar: é um lugar tão

formidável... está protegido por Deus. Quanto ao senhor, Luká Lukítch, como

diretor de um estabelecimento de ensino, deve cuidar em particular dos

professores. São pessoas bern cultivadas, sem dúvida alguma, com formação

superior e tudo, mas têm condutas muito esquisitas, o que se deve, certamente,

à sua condição de conceituadas. Um deles, por exemplo, aquele que tem uma

cara gorda... não me lembro o nome dele, toda vez que sobe ao púlpito, não

pode deixar de fazer uma ca reta assim (Faz a careta.) e depois, por debaixo da

gravata, começa a passar a mão na barba. Ë claro que, se ele faz a tal careta

diante de um aluno, ainda vai; talvez tenha que ser assim mesmo. Não posso

dizer nada a respeito. Mas, pensem bem, se ele fizesse isso diante de um

visitante, pegaria mal: o senhor inspetor, ou seja lá quem for, poderia tomar a

ofensa para si, e aí, só o diabo sabe como tudo poderia acabar.

Luká Lukitch

Mas o que é que eu posso fazer? Já lhe falei várias vezes. Há alguns dias, quando

nosso conselheiro entrou na classe, ele fez uma tal careta, coisa igual eu nunca

tinha visto. Ele fez aquilo com as melhores das intenções, mas eu é que recebi o

sermão: para que incutir na juventude ideias tão liberais?

Prefeito

Também tenho que lhe falar a respeito do professor de história. Ele sabe muita

coisa, é evidente, um poço de conhecimentos, mas explica tudo com tamanho

ardor que fica fora de si. Certa vez, fui ouvi-lo. Enquanto falava sobre os assírios

e os babilónios, tudo bem, mas quando chegou em Alexandre Magno, nem posso

descrever o que aconteceu. Deus me livre, ele desceu correndo do púlpito, até

pensei que a escola estava pegando fogo, tal foi a força com que ele jogou uma

cadeira no chão! E verdade que Alexandre Magno é um herói, mas para que

quebrar as cadeiras? Para dar prejuízo ao erário!

Luká Lukitch

Ele é mesmo muito esquentado! Várias vezes já lhe chamei a atenção... e ele

diz: “Seja como for, pela ciência dou a própria vida”.

Prefeito

É, é uma lei inexplicável do destino: todo homem inteligente ou é bêbado, ou faz

cada careta de que até Deus duvida.

Luká Lukitch

Deus nos livre de mexer com o ensino público, a gente tem medo de tudo.

Qualquer um mete o nariz para mostrar que também é inteligente.

Prefeito

Isso ainda não é nada. O problema é esse incógnito maldito! De repente ele

aparece: “Ah, vocês estão aí, meus pombinhos! Quem aqui é o juiz?” - “Liápkin-

Tiápkin”. - “Pois que tragam aqui Liápkin Tiápkin! E quem é o diretor da

assistência social?” - “Zemlianíka”. - “Pois que tragam aqui Zemlianíka!” Isso é

que é o pior!

Cena 2

Os mesmos e o chefe dos correios.

Chefe dos Correios

Meus senhores, que funcionário é esse que está vindo para cá?

Prefeito

Por acaso o senhor não ouviu nada a respeito?

Chefe dos Correios

Ouvi sim. Piótr Ivánovitch Bóbtchinski acabou de me contar lá na agência.

Prefeito

E então? O que acha de tudo isso?

Chefe dos Correios

O que eu acho? Que vai haver guerra com os turcos.

Amós Fiódorovitch

E isso mesmo! É isso que eu também acho.

Prefeito

É... mas que fora deram esses dois!

Chefe dos Correios

É guerra com os turcos, sim. Tudo sujeira dos franceses.

Prefeito

Mas que guerra com os turcos que nada! Nós é que vamos entrar bem, não os

turcos. Isso eu já sei: recebi uma carta.

Chefe dos Correios

Se é assim, então não vai haver mais guerra com os turcos.

Prefeito

Bem, e aí, Ivan Kuzmítch, o que diz?

Chefe dos Correios

Eu? Sei lá! E o senhor, Antón Antónovitch?

Prefeito

Eu? Bem, não é que sinta medo; mas, assim, um pouquinho... Os comerciantes e

a população estão me causando alguns aborrecimentos. Dizem que lhes enfio a

faca, mas eu, pelo amor de Deus, se tomei algo de alguém, juro mesmo, foi sem

nenhuma maldade. Eu até estou achando (Segura-o pelo braço e o conduz para

um canto.), até estou achando que houve uma denúncia contra mim. Por que,

afinal de contas, tem que vir aqui um inspetor? Ouça, Ivan Kuzmítch, não seria

possível, quer dizer, para o nosso bem geral, abrir e dar uma lidinha nas cartas

que entram e saem da sua repartição, ver se não se trata de alguma denúncia

ou se apenas são correspondências? Se nada houver, então que se feche

novamente a carta, ou, pensando bem, entregue-a aberta assim mesmo.

Chefe dos Correios

Já sei, já sei... Não precisa me ensinar, isso eu já faço, nem tanto por precaução,

mas só por curiosidade: sou louco pra saber o que há de novo no mundo. Olha,

vou lhe dizer, é uma leitura superinteressante. Algumas cartas a gente lê com tal

deleite, há passagens tão variadas, algumas tão edificantes... Bem melhores do

que as do Correio de Moscou!

Prefeito

Está bem, mas não encontrou nada sobre algum funcionário de Petersburgo?

Chefe dos Correios

Não. De Petersburgo não há nada, mas de funcionários de Kostroma e Sarátov

há muita coisa. Que pena que o senhor não leia essas cartas. Há trechos

maravilhosos! Não faz muito tempo, um tenente escreveu a um amigo,

descrevendo um baile de maneira tão frívola... muito bom mesmo: “Minha vida,

meu querido amigo, corre às mil maravilhas: mulheres, muitas mulheres,

música, bandeiras galopando...” E com que emoção descreveu tudo isso. Eu até

quis ficar com a carta. Quer que eu a leia?

Prefeito

Essa agora, o momento não é para isso. Então, faça-me a gentileza, Ivan

Kuzmítch, se por acaso cair nas suas mãos alguma queixa ou denúncia, retenha-

a sem a menor hesitação.

Chefe dos Correios

Com o maior prazer.

Amós Fiódorovitch

Cuidado, pois isso ainda pode lhe custar caro.

Chefe dos Correios

Ai, santo Deus!

Prefeito

Ora, não é nada, nada. Seria outra coisa se você tornasse isso público, mas na

realidade é um assunto familiar.

Amós Fiódorovitch

Sim senhor, mas o que eu acho é que estamos numa bela encrenca! Confesso

que queria vir aqui, Antón Antónovitch, só para lhe dar uma cadelinha. Irmã de

sangue daquele cachorro que o senhor conhece. E o senhor soube que

Tcheptovitch e Varkhovinski estão em litígio, o que para mim é a maior

maravilha: caço coelhos nas terras de um e de outro.

Prefeito

Deus do céu, os seus coelhos agora não me dão o menor prazer: esse maldito

incógnito não me sai da cabeça. A gente fica esperando que, de repente, a porta

se abra e... pronto...

Cena 3

Os mesmos, Dóbtchinski e Bóbtchinski; ambos entram ofegantes.

Bóbtchinski

Um acontecimento extraordinário!

Dóbtchinski

Uma notícia inesperada!

Todos

O quê? Mas o que foi?

Dóbtchinski

Uma coisa imprevista! Estávamos chegando ao hotel...

Bóbtchinski

(Interrompendo.) Eu e Piótr Ivánovitch estávamos chegando ao hotel...

Dóbtchinski

(Interrompendo.) Desculpe, Piótr Ivánovitch, eu vou contar.

Bóbtchinski

Ah, não, me desculpe, por favor, me desculpe, eu é que., você, assim, quer dizer,

não tem lá muito estilo...

Dóbtchinski

E você, vai se confundir todo e não vai se lembrar de nada.

Bóbtchinski

Palavra de honra que eu vou me lembrar. Vou me lembrar. Então não me

atrapalhe que eu vou contar tudo, mas não me atrapalhe! Senhores, façam a

gentileza de não deixar que Piótr Ivánovitch me atrapalhe.

Prefeito

Pois falem logo, pelo amor de Deus! O que aconteceu? Meu coração não vai

aguentar. Sentem-se, senhores! Peguem as cadeiras! Piótr Ivánovitch, aqui está

uma cadeira!

(Todos se sentam ao redor dos dois Piótrs Ivánovitchs.) Então, o que foi que

aconteceu?

Bóbtchinski

Espera aí, espera aí; vou contar tudo pela ordem. Nem bem eu tive o prazer de

sair daqui, logo depois que o senhor se dignou a ficar bastante desconcertado

com o recebimento da carta, bem... então dei um pulo lá... por favor, Piótr

Ivánovitch, não me interrompa! Sei tudo, tudo, tudo, tudinho. - Então, pois bem,

dei um pulo até a casa de Koróbkin. Como o tal Koróbkin não se encontrava,

resolvi entrar na casa de Rastakóvski, mas como Rastakóvski também não

estava, passei então pela casa de Ivan Kuzmítch para contar a novidade, que o

senhor tinha recebido... é isso, saindo de lá me encontrei com Piótr Ivánovitch...

Dóbtchinski

(Interrompendo.) Perto da barraquinha onde se vendem pastéis.

Bóbtchinski

Perto da barraquinha onde se vendem pastéis. Daí, ao encontrar Piótr Ivánovitch,

digo-lhe: “Por acaso já sabe da última? Que Antón Antónovitch recebeu por carta

fidedigna?” Mas Piótr Ivánovitch já tinha ouvido falar disso pela sua despenseira,

Avdótia, que não sei por que tinha sido mandada à casa de Filipe Antónovitch

Potchetchúiev...

Dóbtchinski

(Interrompendo.) Foi buscar um barrilzinho para a vodca francesa.

Bóbtchinski

(Desviando a mão dele.) Buscar um barrilzinho para a vodca francesa. Aí, então,

fui com Piótr Ivánovitch à casa de Potchetchúiev... Não, não, não, Piótr

Ivánovitch, não me interrompa, por favor, não me interrompa!... Pois fomos à

casa de Potchetchúiev, mas, pelo caminho, Piótr Ivánovitch diz: “Vamos dar uma

passadinha na hospedaria. Sabe, o meu estômago... não comi nada desde cedo,

o meu estômago está tremendo...” É sim, o estômago de Piótr Ivánovitch estava

mesmo. “Na hospedaria”, - disse ele - “agora deve ter um salmão fresquinho e

podemos também tomar umas e outras.” Nem bem entramos no hotel e, de

repente, um jovem...

Dóbtchinski

(Interrompendo.) Bem-apessoado e à paisana...

Bóbtchinski

Bem-apessoado e à paisana, estava andando de um lado para o outro e com um

tal raciocínio no rosto... uma cara... um jeito, e aqui (Aponta a testa.) muita, mas

muita coisa. Tive logo um pressentimento e disse a Piótr Ivánovitch: “Aqui tem

coisa”. Tem sim. Então, Piótr Ivánovitch logo estalou os dedos para chamar o

dono da hospedaria, o Vlass, sabem quem é? Há três semanas a mulher dele

teve um menino tão espertinho, na certa vai ser tal qual o pai, dono de

hospedaria. Nem bem Piótr Ivánovitch chamou Vlass, perguntou baixinho:

“Quem é aquele moço?”, e Vlass respondeu: “Aquele”, disse... ah, não me

interrompa, Piótr Ivánovitch, por favor, não me interrompa. O senhor não

consegue contar, santo Deus, não pode! O senhor fala assobiando! Eu sei que o

seu dente tem um buraco... - “Aquele”, disse então, “é um jovem funcionário -

sim senhor, vem de São Petersburgo... E o seu nome é Ivan Aleksándrovitch

Khlestakóv. Vai para Sarátov, diz ele. E tem reações estranhas: já está

hospedado aqui há quase duas semanas e não vai embora, compra tudo fiado e

não paga um tostão.” Assim que ele me contou isso, logo me bateu uma ideia, e

eu disse a Piótr Ivánovitch: “Hum!”

Dóbtchinski

Não senhor, Piótr Ivánovitch, fui eu quem disse “Hum!”

Bóbtchinski

Primeiro foi o senhor, mas depois fui eu. “Hum!”, dissemos Piótr Ivánovitch e eu.

Mas por que diabo ele está aqui quando o seu destino é Sarátov? É isso mesmo!

É ele o tal funcionário.

Prefeito

Quem, que funcionário?

Bóbtchinski

Aquele funcionário sobre o qual fala a notificação que o senhor recebeu, o

inspetor geral.

Prefeito

(Em pânico.) Pelo amor de Deus, o que está dizendo! Não pode ser ele.

Dóbtchinski

É ele sim! Não paga e não vai embora. Quem poderia ser? Só pode ser ele. No

documento consta que vai para Sarátov.

Bóbtchinski

É ele, é ele, meu Deus, ele mesmo... E que observador... observa tudo. Viu até

que eu e Piótr Ivánovitch comíamos salmão. Tudo por causa do estômago de

Piótr Ivánovitch... é, e até ficou espiando o nosso prato. Me deu um medo!

Prefeito

Que Deus nos perdoe, pobres pecadores! Onde é que ele está hospedado?

Dóbtchinski

No quarto número cinco, debaixo da escada.

Bóbtchinski

No mesmo quarto onde brigaram aqueles oficiais no ano passado.

Prefeito

E faz tempo que ele está aqui?

Dóbtchinski

Umas duas semanas. Chegou no dia de São Nunca.

Prefeito

Duas semanas! (À parte.) Meu Deus! Valham-me todos os santos! Nessas duas

semanas espancaram a mulher do subtenente! Não alimentaram os presos! As

ruas viraram uma zona, uma imundície! Uma vergonha! Uma calamidade! (Põe

as mãos na cabeça.)

Artémi Filípovitch

O que fazer, Antón Antónovitch? Pois vamos todos ao hotel em missão oficial.

Amós Fiódorovitch

Não, de jeito nenhum! Em primeiro lugar, tem que ir o conselheiro-chefe, o clero,

os comerciantes, é assim que mandam os dez mandamentos.

Prefeito

Não senhores, não! Por favor, eu mesmo vou resolver. Já passei por maus

momentos na vida e consegui escapar e até me agradeceram; quem sabe Deus

me ajude agora também. (Dirige-se a Bóbtchinski.) O senhor disse que ele é um

jovem homem?

Bóbtchinski

Jovem. Não mais que vinte e três ou vinte e quatro anos.

Prefeito

Melhor ainda: é mais fácil sondar um jovem. Um velho diabo é que seria uma

desgraça, um jovem é claro como a água. Meus senhores, de vossa parte,

preparem-se, enquanto eu vou em pessoa, ou sei lá, com Piótr Ivánovitch para,

digamos assim, dar um passeio não oficial para ver se os viajantes não estão

tendo aborrecimentos. Ei, Svistunóv!

Svistunóv

Às suas ordens.

Prefeito

Vá depressa buscar o comissário d.e polícia. Não, espere, preciso de você.

Mande alguém trazer, o quanto antes, o comissário de polícia e volte logo.

(O soldado corre às pressas.)

Artémi Filípovitch

Vamos, vamos, Amos Fiódorovitch! Ainda pode acontecer uma desgraça.

Amós Fiódorovitch

Mas você tem medo de quê? Ponha uns gorros limpos nos doentes e acabou a

história.

Artémi Filípovitch

Que gorros, que nada! Mandaram dar uma sopa de aveia aos doentes, mas nos

corredores há um cheiro de repolho que a gente até tapa o nariz.

Amós Fiódorovitch

Mas eu, com relação a isso, estou tranquilo. Na verdade, quem vai querer se

meter num tribunal de província? E se alguém der uma espiada em qualquer

papel, vai se arrepender de ter nascido. Pois eu, há quinze anos no cargo de juiz,

fico só sentado e quando me ocorre dar uma olhadinha nos processos - ah!

Deixo pra lá. Nem o próprio Salomão pode resolver onde começa a verdade e

acaba a mentira.

(O juiz, o encarregado da assistência social, o inspetor de escolas e o chefe dos

correios saem e, à porta, chocam-se com o soldado que está de volta.)

Cena 4

O prefeito, Bóbtchimki, Dóbtchinski e o soldado.

Prefeito

A carruagem está pronta?

Soldado

Está, sim senhor.

Prefeito

Vá para a rua... não, espere! Vá e me traga... Mas onde é que estão os outros?

Será possível que você está sozinho? Eu já ordenei que também Prókhorov

estivesse aqui. E onde está Prókhorov?

Soldado

Está na delegacia de polícia. Só que não pode ser útil no caso.

Prefeito

Como assim?

Soldado

Explico: trouxeram o dito-cujo de madrugada, bêbado de cair. Jogaram dois

baldes de água em cima dele e até agora nada.

Prefeito

(Pondo as mãos na cabeça.) Ai, meu Deus, meu Deus! Vá depressa lá para a rua,

ou não... Vá correndo ao meu quarto, está ouvindo, e me traga a espada e meu

novo chapéu. Vamos embora, Piótr Ivánovitch!

Bóbtchinski

E eu? E eu?... Permita que eu vá também, Antón Antónovitch!

Prefeito

Não senhor, Piótr Ivánovitch. Impossível! Não é conveniente. E, além do mais,

não vamos caber todos na carruagem.

Bóbtchinski

Não faz mal, não faz mal. Vou correndo como um pintinho atrás de vocês. Eu só

quero dar uma espiadinha, olhar pela fresta da porta e observar como ele se

comporta...

Prefeito

(Pega a espada do soldado e diz a ele.) Agora vá correndo, reúna alguns

sargentos e que cada um traga... Diabo, a espada está toda arranhada! Esse

maldito comerciantezinho Abdúlin - vê que o prefeito está usando uma espada

velha e não lhe manda uma nova. Gente malandra! Esses vigaristas, aposto que

já estão com suas petições no bolso do colete. Que cada um desses sargentos

pegue na mão uma rua, que diabo, uma vassoura! Que varram toda a rua que

leva à hospedaria. E que deixem tudo muito bem limpo. Está ouvindo? Olhe aqui:

eu te conheço! Conheço muito bem! Faz os seus trambiques e ainda por cima

esconde colheres de prata nas botinas. Estou de olho em você!! O que você fez

com o comerciante Tcherniaiev, hein? Ele te deu dois archins* de tecido para a

farda e você lhe roubou a peça toda. Você que se cuide! A sua posição não é

para tanto! Vá!

* Archim: medida russa equivalente a 0,71 metro.

Cena 5

Os mesmos e o comissário de polícia.

Prefeito

Ah! Stepan Ilitch! Pelo amor de Deus, onde você se meteu? Como é que é isso?

Comissário de Polícia

Estava bem pertinho daqui.

Prefeito

Então, ouça, Stepan Ilitch! O tal funcionário de Petersburgo já chegou. Que

providências você já tomou?

Comissário de Polícia

Conforme o senhor ordenou, mandei o soldado Púgovitsin com os sargentos

varrerem as calçadas.

Prefeito

E onde está Derjimórda?

Comissário de Polícia

Derjimórda foi sentado em cima das mangueiras dos bombeiros.

Prefeito

E Prókhorov, está bêbado?

Comissário de Polícia

Bêbado.

Prefeito

Como você permitiu uma coisa dessas?

Comissário de Polícia

Só Deus sabe. Ontem houve uma briga fora da cidade. Ele foi lá só pró forma e

voltou bêbado.

Prefeito

Pois veja o que você tem a fazer: o soldado Púgovitsin... que é bastante alto,

deve ficar na ponte, dando uma olhada. Mande retirar imediatamente aquela

velha cerca ao lado do sapateiro e coloque lá algumas placas de palha, para dar

a impressão de um certo planejamento urbano. Quanto mais tudo estiver

quebrado, mais se denota a atividade do dirigente. Ah! Santo Deus! Já ia me

esquecendo de que ao lado dessa mesma cerca estão amontoadas quarenta

carroças com toda espécie de lixo. Que cidade horrível! Basta a gente colocar

em algum lugar um monumento qualquer ou uma simples cerca, e pronto — só o

diabo sabe de onde trazem tanta porcaria! (Suspira.) E se o tal funcionário

perguntar aos policiais: “Estão todos satisfeitos?” - Respondam: “Muito

contentes, excelência”. E aquele que não estiver contente vai ver depois comigo

o que é estar descontente... Ufa! Culpado, sou culpado. (Em vez do chapéu,

pega a caixa.) Queira Deus que eu saia são e salvo de tudo isso o mais rápido

possível e então vou acender uma vela tão grande como ninguém jamais fez e

vou exigir de cada um desses comerciantes espertinhos três puds* de cera. Ah,

meu Deus, meu Deus! Vamos embora, Piótr Ivánovitch. (Em vez ao chapéu,

tenta vestir a caixa de papelão.)

* Pud: medida antiga, equivalente a 13,3 quilos.

Comissário de Polícia

Antón Antónovitch, isso aí é uma caixa, e não o seu chapéu.

Prefeito

(Joga fora a caixa.) E por que não a caixa? Que me importa a caixa! Ah, e se

perguntarem por que ainda não foi construída a igreja junto à Casa de

Misericórdia, para a qual há cinco anos recebemos uma boa soma, não

esqueçam de dizer que... que começamos a construir, mas que pegou fogo. Já

apresentei um relatório sobre isso. Porque, senão, pode alguém dizer por

esquecimento, ou por bobeira mesmo, que nem chegamos a começar a obra. E

diga a Derjimórda que contenha um pouco os seus punhos; para manter a

ordem, ele deixa todo mundo com o olho roxo, culpado ou inocente. Então

vamos embora, vamos, Piótr Ivánovitch! (Sai e volta.) Ah, e não deixem os

soldados saírem à rua sem roupa: esses miseráveis vestem só a parte de cima

do uniforme por cima da camisa, e por baixo mais nada.

(Saem todos.)

Cena 6

Ana Andréievna e Mária Antónovna entram correndo.

Ana Andréievna

Onde é que eles estão? Onde? Ah, santo Deus!... (Abrindo aporta.) E meu

marido? Antocha! Antón! (Fala muito rápido.) Tudo por sua causa, por sua causa!

Que moleza: “Um alfinetinho, um lencinho”... (Corre até a janela, e grita.) Antón,

para onde você vai, para onde? O quê? Já chegou? O inspetor? Tem bigodes?

Que tipo de bigodes?

Voz do Prefeito

Mais tarde, benzinho, mais tarde!

Ana Andréievna

Como, mais tarde? Essa agora, mais tarde! Não quero saber de mais tarde... Só

quero saber uma coisa: quem é ele, é coronel? Hein? (Aborrecida.) — Foi

embora! Você vai ver só! E tudo por sua causa: “Maezinha, maezinha, espere,

estou prendendo o lencinho na cabeça, já estou indo”. Viu o que você fez? Agora

não sabemos nada de nada! Tudo por causa desse seu maldito coquetismo! Foi

só ouvir que o chefe dos correios estava aqui e se pôs toda faceira diante do

espelho: olha de um lado, e do outro... Você pensa que ele arrasta uma asinha

por você, mas é só você virar as costas para ele logo lhe fazer uma careta.

Mária Antónovna

O que se há de fazer, mãezinha? De todo modo, daqui a duas horas vamos saber

tudo.

Ana Andréievna

Daqui a duas horas! Muito obrigada. Que bela resposta! E que tal dizer que só

daqui a um mês saberemos tudo ainda melhor? (Curva-se na janela.) Eh!

Avdótia! O quê? Avdótia, você sabe se chegou alguém... Não sabe? Sua

estúpida! Alguém está acenando? Pois que acene. Você bem que poderia ter

perguntado. Saber alguma coisa! Mas nessa cabeça só tem besteira, só pensa

em namorados. O quê? Saíram depressa? E você não correu atrás? Então vá, vá

agora mesmo! Corra e descubra para onde eles foram. Isso mesmo, procure

saber direitinho, que tal esse forasteiro, como é ele, está entendendo? Olhe pela

frestra e veja tudo, que olhos ele tem, se são pretos ou não. E volte bem

rapidinho, está me ouvindo? Vá depressa, depressa, depressa, depressa! (Fica

gritando junto à janela, enquanto cai o pano. O pano esconde as duas.)

Ato 2

Quarto pequeno de hotel. Uma cama, mesa, uma mala, uma

garrafa vazia, botas, escova de roupas etc.

Cena 1

Óssip

(Deitado na cama do patrão.) Que diabo! Estou com uma fome! E minha barriga

está fazendo um barulho como se um regimento inteiro estivesse tocando

cornetas. Duvido que cheguemos em casa! O que é que se há de fazer? Já faz

mais de um mês que saímos de Peter! Esbanjou o dinheiro todo pelo caminho e,

agora, o meu anjinho fica aí, com o rabo entre as pernas, desanimado. E até que

a gente tinha um bom dinheirinho; mas, não, ele tem que se bacanear em cada

cidade. (Imita.) “Eh, Óssip! Vá lá, vê se acha o melhor quarto, e a comida

também, peça a melhor que houver: refeições ruins, é duro de suportar, preciso

do bom e do melhor.” Ainda se fosse alguém que se preze, mas, qual nada, é um

funcionariozinho de quinta categoria! Nem bem conhece um viajante, e já vai

logo para a mesa de jogo. Bem feito! Tomou na cabeça! Ah! Estou farto dessa

vida! Lá no campo é bem melhor: não tem tanta animação, mas também tem

menos preocupação. Você se casa com uma mulherona, fica deitado a vida

inteira no quentinho, perto do forno, comendo bolos e tortas. Mas quem duvida?

E bem verdade que a vida em Peter é melhor. Mas tem que ter dinheiro. E a

vida, aí sim, é coisa fina, vida de cidade: teatros, dança de cachorros, tudo o que

a gente quiser. Todo mundo fala com finura, até parecem nobres. Você vai ao

mercado e os comerciantes gritam: “Ilustríssimo!” Quando a gente pega a barca,

pode se sentar ao lado de um alto funcionário público; se quer companhia, então

vai a uma lojinha: ali um velho veterano se põe a contar a vida militar e até vai

explicar o significado de cada estrela no céu, de modo que tudo fica tão claro

como se estivesse na palma de sua mão. A esposa velhusca do oficial passa por

lá e também alguma criada pode aparecer... fiu, fiu! (Sorri e balança a cabeça.)

Que diabo, quanto galanteio! Nunca se ouve uma palavra grosseira. E todo

mundo trata a gente por “senhor”. Se a gente se cansa de ir a pé, é só tomar

uma carruagem e vai sentado, feito um nobre. E se, por acaso, você não quer

pagar, não tem problema: em cada casa há sempre duas saídas e você pode se

safar de tal maneira que nem mesmo o diabo vai conseguir alcançar. Só uma

coisa é que não presta: às vezes a gente quase explode de tanto comer, outras

vezes, morre de fome como agora. E a culpa é todinha dele. O que é que a gente

vai fazer? O papaizinho manda dinheiro, mas em lugar de poupar - qual nada! -

se põe a farrear: só anda de carruagem, todos os dias compra um bilhete para o

teatro e, depois de uma semana, manda vender o seu novo fraque na feira. Às

vezes se livra até da última camisa e fica só com o terno e o capote. Juro por

Deus que é verdade! E o tecido é tão caro! Pura lã inglesa! Só o fraque deve ter

custado cento e cinquenta rublos, mas, no mercado, vão arrematá-lo por uns

vinte rublos. As calças, então, nem se fale - uma ninharia. E tudo isso por quê?

Porque ele não quer saber de nada. Em vez de ir para a repartição, vai passear

pelas ruas, jogar cartas. Ah! Se o meu velho patrão soubesse disso tudo! Não se

importaria nem um pouco de ser ele um funcionário e levantaria a sua roupinha

para lhe cobrir tanto de palmadas que lhe deixariam coceiras por mais de quatro

dias. Se tem que trabalhar, então trabalhe. E agora o dono do hotel disse que

não vai lhe dar mais nada de comer enquanto não pagar o que deve. E se a

gente não pagar? (Suspira.) Ah! Meu Deus do céu! Pelo menos uma sopinha

qualquer! Acho que seria capaz de comer o mundo inteirinho. Estão batendo,

deve ser ele. (Pula da cama apressadamente.)

Cena 2

Óssip e Khlestakóv.

Khlestakóv

Pegue isso! (Dá-lhe o chapéu e a bengala.) E de novo jogado na minha cama?

Óssip

E pra que eu preciso ficar jogado na sua cama? Por acaso nunca vi uma cama?

Khlestakóv

Mentiroso! Ficou na minha cama sim! Olha lá, está toda desarrumada!

Óssip

Pra que me serve a sua cama? Por acaso eu não sei o que é uma cama? Tenho

pernas, posso muito bem ficar de pé! Pra que é que preciso da sua cama?

Khlestakóv

(Passeia pelo quarto.) Vá lá ver no saquinho, não tem mais tabaco?

Óssip

E como é que vai ter tabaco? O senhor fumou o último já faz quatro dias!

Khlestakóv

(Caminha mordendo os lábios de diferentes formas. Por fim, diz em voz alta e

decidido.) Escute aqui, Ossip!

Óssip

O que deseja?

Khlestakóv

(Em voz alta, mas menos decidido.) Vá lá embaixo.

Óssip

Lá embaixo onde?

Khlestakóv

(Com voz já nada decidida, bem menos alta e semelhante a uma súplica.) Lá

embaixo, na copa... Vá lá e diga que me dêem de comer.

Óssip

Ah, não! Não quero ir não!

Khlestakóv

Como é que se atreve, seu idiota?

Óssip

E também tanto faz, ir ou não ir. Não vai adiantar nada. O dono já disse que não

vai dar mais nada pra gente comer.

Khlestakóv

Como se atreve, não vai dar? E um absurdo!

Óssip

E ainda disse mais. Disse que vai ao prefeito, que o senhor há quase três

semanas não paga. “Você e seu patrão”, disse ele, “são dois vigaristas, e o seu

patrão é um trapaceiro. Conhecemos muito bem vagabundos e patifes dessa

laia”, ele disse.

Khlestakóv

E você ainda fica feliz, animal, de me contar tudo isso?

Óssip

E disse mais: “Dessa maneira, qualquer um chega aqui, se instala, fica

endividado e depois não há como enxotá-lo. Eu não brinco em serviço, vou direto

dar queixa para que o levem logo para a cadeia”.

Khlestakóv

Já chega, seu idiota! Vá, vá já falar com ele. Que porco!

Óssip

E melhor que eu chame o dono para que ele mesmo venha

aqui falar com o senhor.

Khlestakóv

Mas para que o dono vir aqui? Vá lá e fale com ele.

Óssip

Mas, senhor, será que...

Khlestakóv

Então vá se danar! Chame o dono.

(Óssip sai.)

Cena 3

Khlestakóv

(Sozinho.) Estou morrendo de fome! Fui dar uma voltinha para ver se perdia o

apetite, mas que nada, diabos, a fome não passa. E..., se não fosse aquela farra

em Penza, até que o dinheiro daria para chegar em casa. Aquele capitão de

infantaria me limpou mesmo. Que lances impressionantes! Em um quarto de

hora me depenou. Apesar disso, bem que eu queria jogar mais uma vez. Ainda

não tive ocasião de me encontrar com ele. Para tudo é preciso a ocasião. Mas

que cidadezinha horrível! Nem nas quitandas querem vender fiado! E uma

verdadeira infâmia! (Começa a assobiar o início da ópera Roberto, depois

cantarola uma canção popular e por fim qualquer coisa sem sentido.) Ninguém

quer vir para cá!

Cena 4

Khlestakóv, Óssip e o Criado da hospedaria.

O Criado

O patrão mandou perguntar o que é que o senhor deseja.

Khlestakóv

Como vai? Boa saúde?

O Criado

Graças a Deus!

Khlestakóv

E aí? Como é que vão indo as coisas na hospedaria? Tudo em ordem?

O Criado

Tudo bem, graças a Deus.

Khlestakóv

Muitos hóspedes?

O Criado

Bastante.

Khlestakóv

Escute aqui, meu querido, até agora não me trouxeram o almoço. Então, por

favor, peça que se apressem, está me entendendo, porque depois do almoço

tenho mais o que fazer.

O Criado

E, mas o patrão disse que não vai lhe dar mais nada para comer. Ele, pelo jeito,

até queria ir hoje se queixar para o prefeito.

Khlestakóv

Mas se queixar por quê? Pense bem, meu querido, como é que pode? Pois eu

preciso comer. Senão posso até ficar fraco. Tenho muita fome. Não estou

brincando.

O Criado

Está bem. Mas ele disse: “Não vou lhe dar comida até que me pague os

atrasados”. Foi assim que ele falou.

Khlestakóv

Mas você tem que lhe explicar, tem que convencê-lo.

O Criado

O que é que eu posso dizer?

Khlestakóv

Você apenas lhe explique muito seriamente que eu preciso comer. Agora, o

dinheiro é outra coisa... Ele pensa que só porque pode passar um dia sem comer

nada, os outros também podem! Essa é muito boa!

O Criado

Está bem. Vou falar com ele.

Cena 5

Khlestakóv sozinho.

Khlestakóv

Se por acaso ele não me der nada pra comer, a coisa vai ficar feia. E se eu

fizesse um negócio com alguma peça de roupa? Que tal vender as minhas

calças? Ah não, é melhor passar fome do que chegar em casa sem a minha

roupa de Petersburgo. Pena que lokhín não me alugou a carruagem. Já pensou,

que diabo, chegar em casa de carruagem, passar pela entrada de um vizinho

qualquer, feito um diabo, com os faróis acesos e o Óssip atrás, vestido de libré?

Posso imaginar, todo mundo em alvoroço: “Mas quem é ele, quem é esse aí?” E

o lacaio entra: (Ergue-se, imitando o lacaio.) “Ivan Aleksándrovitch Khlestakóv,

de Petersburgo, pode ser recebido?” Esses ignorantes nem sabem o que quer

dizer “pode ser recebido”! Se chega algum ricaço proprietário de terras, então

se atira feito um urso na sala de visitas. E quando a gente se aproxima da filha,

uma gracinha, é preciso dizer: “Senhorita, como eu...” (Esfrega as mãos e faz

uma reverência.) Arre! (Cospe.) Tenho enjoo de tanta fome.

Cena 6

Khlestakóv, Óssip e depois o Criado.

Khlestakóv

E então?

Óssip

O almoço vem vindo!

Khlestakóv

(Batendo palmas e pulando da cadeira.) Oba! Oba! Oba!

O Criado

(Com pratos e um guardanapo.) O patrão disse que é a última vez.

Khlestakóv

E daí, o patrão, o patrão... Que ele se dane! O que é que tem aí?

O Criado

Sopa e carne assada.

Khlestakóv

O quê? Só dois pratos?

O Criado

Só, sim senhor.

Khlestakóv

Mas é um absurdo! Só isso aí não vai dar! Diga ao seu patrão que isso aí é muito

pouco.

O Criado

Não senhor, o patrão acha que está bom demais.

Khlestakóv

E cadê o molho?

O Criado

Molho não tem.

Khlestakóv

Mas como não? Eu mesmo, ao passar pela cozinha, vi que estavam cozinhando

um monte de coisas. E hoje pela manhã bem que vi no restaurante dois

baixinhos comendo salmão e muitas outras coisinhas.

O Criado

Bem, pode ser que tenha e pode ser que não tenha.

Khlestakóv

Como não?

O Criado

Não, porque não.

Khlestakóv

E o salmão, o peixe, as almôndegas?

O Criado

Isso é só para pessoas dignas.

Khlestakóv

Ah! Seu idiota!

O Criado

Sim senhor!

Khlestakóv

Seu porco! E como pode: eles comem e eu não? Por que, diabos, eu também não

posso comer? Será que não são hóspedes como eu?

O Criado

A gente sabe que não.

Khlestakóv

E como são eles?

O Criado

Ora, como são eles! Todo mundo sabe: gente que paga.

Khlestakóv

Chega de conversa, idiota. (Despeja a sopa e come.) Mas que porcaria de sopa é

essa? Você despejou água no prato ou o quê? Não tem gosto de nada e ainda

por cima fede. Não quero essa sopa. Traga outra.

O Criado

Posso levar, senhor. O patrão disse: quer, quer... não quer, não quer.

Khlestakóv

(Defendendo o prato com a mão.) Está bem, está bem, tá bom... Deixa aí, seu

tonto. Está acostumado a tratar os outros assim, mas comigo é diferente, meu

irmão. Vou avisando que comigo... (Come.) Santo Deus! Mas que sopa!

(Continua a comer.) Acho que ninguém nesse mundo já comeu uma sopa

dessas! Só tem penas nadando, em vez de azeite! (Corta a galinha.) Ai, ai, ai!

Mas que galinha é essa? Me dá aqui o assado! Sobrou um pouco de sopa, Óssip,