O Inverno das Fadas por Carolina Munhóz - Versão HTML

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O inverno das

Fadas

A magia ocorre ao longo das estações. As piores no inverno...

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Prólogo

Why do all good things come to an end?

Por que todas as coisas boas chegam ao fim?

Ele deu um tiro na cabeça.

Depressão? Falta de amor próprio? De amor pelos outros? Quem

sabe!

A única certeza era que das orelhas escondidas no cabelo loiro

ensebado escorria uma grande quantidade de sangue vermelho vivo, e a

espingarda tão bem cuidada, que a esposa jurava nunca ter visto, estava

apontada em direção à cabeça do antigo gênio revoltado.

Donald, pregador do lema da liberdade da dor, mostrava que o

suicídio era o melhor tipo de fuga para os problemas. Só assim poderia

descansar em paz. Poderia mesmo? Claro que não. Esse era um discurso

mentiroso para pessoas fracas. As que não aguentam o dia a dia e pensam

estar fazendo bem à humanidade, esquecendo as inúmeras vidas

destruídas com algumas tentativas de suicídio.

Porque, sim, elas esquecem. E, sim, isso machuca muito.

Quem diria que o suicida chegou a ser uma criança bonita e alegre,

como qualquer uma deveria ser. O tipo de menino que as mães

agarravam as bochechas gorduchas. Aquele parecendo um anjinho no

canto do playground, quietinho, enquanto os outros pulavam e gritavam

tentando chamar a atenção das mães.

Porém, desde tenra idade, trocava melosas juras de amor com o ser

que o deixaria transtornado, a ponto de enlouquecer, pegar a espingarda

reluzente e BANG, “Ele ouve vozes”, dizia a mãe aos sussurros para as

colegas de bairro. A mesma que o havia feito passar a infância calado,

ouvindo gritos de dor emitidos por ela, ao ser espancada pelo padrasto

inúmeras vezes. Teria ela realmente acreditado que o filho fosse maluco?

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Pelas atitudes, provavelmente sim. Ele seria para sempre o rapaz

perturbado. Engraçado que de perturbado todos temos um pouco.

Ah, a liberdade da dor, pensava. Queria provar não ser louco. Queria

chacoalhá-la, mostrando o quanto era errado se deixar manipular e

abusar. Em ter no corpo magro, e principalmente na alma, marcas

profundas feitas por um imbecil não merecedor sequer de seu olhar. E

como sentia nojo do olhar de superioridade do homem que lhe pediam

para chamar de pai. Ele não queria um pai como aquele. Até porque, para

início de conversa, já tinha um. Distante, mas existia.

Donald tinha, sim, um amigo imaginário, mas nunca foi louco. Ao

crescei; o transformou em uma amiga e, naquele momento, no quinto dia

do quarto mês, a mesma sugava sua última gota de energia. Ele perdia a

alma à medida que esquecia o motivo de sua existência e, ao ter os

últimos sopros devida extraídos por ela, sentiu-se em um forte dia de

inverno, mesmo sendo uma ensolarada manhã de primavera. Contudo,

nada poderia ser feito para reverter aquela situação. Talvez até existisse

uma forma. Quem sabe? Mas para ele não, pois nunca teve poder contra

ela e pouco falou sobre seu caso, tentando manter em segredo a relação.

Fazia isso porque a queria somente para si e tinha medo de que ela

pudesse se encantar por alguém, e o abandonasse.

O restante do talento daquele jovem foi deixado de lembrança no

bilhete suicida, dirigido à amiga secreta, dizendo não ter mais força para

ouvir, muito menos para criar música.

Triste pensar no rapaz que ouvia cantores do momento falar sobre

Jude, garota que pegaria uma música triste e transformaria em algo

melhor. Através deles, na infância, descobriu gosto pela música. Na

adolescência, a descoberta do porquê dela: refúgio. Como adulto, fez

igual à garota da melodia, mudando tudo para algo melhor. Logo depois,

cometeu suicídio.

Afinal...

Nada mais fácil do que se matar e acabar com a dor.

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Dizia a todos que chegava a ficar doente de tanto amar. Besteira

pensarem que era por causa da paixão pela recente namorada. Ele só

cantava porque a amiga imaginária o seduzia. Quando comentava sobre

esse sentimento chegava quase a vomitar de excitação, desprezo e,

também, paixão. Tinha ânsia, quase falta de ar, que só quem já foi

loucamente apaixonado consegue entender. Aquele sentimento de vazio e

preenchimento. De solidão e vida a dois. Sentimentos antagônicos. A

paranoia de pensar na pessoa amada se interessando por alguém que não

é você. E como poderia se interessar por outra pessoa? Donald não

aceitava isso. Ela seria eternamente dele. Ponto.

Ao contrário do que se pensava, o efeito alucinógeno provocado

pelo cheiro de desodorante não era sua fonte real de inspiração. Na

verdade, sempre foi o cheiro de espírito jovem que a criatura alada trazia

consigo ao invadir a casa. A gota de suor escorrendo pelas costas

curvadas, o contato quente dos dedos macios no cabelo, o aperto forte nos

mamilos, os olhos a girar e as besteiras sexuais murmuradas o

incentivavam.

Encontrava inspirações quando faziam amor alucinadamente,

recitavam poesias antigas e quando ela dizia baixinho ao pé do ouvido

que o amava. Mas sempre a via voar pela janela com um pedacinho a

mais de sua alma. E para Donald tudo era óbvio: no dia seguinte teria

material suficiente para fazer um hit que dominaria a indústria

fonográfica.

Por causa dela, era rei.

Mas não queria ser. Queria apenas tê-la nos braços.

Depois de alguns anos, pensou que a entrada da esposa em sua

vida fosse uma forma de senti-la mais próxima. Em seguida imaginou ser

a filha, mas como sempre estava enganado. Ela nunca seria dele. Jamais

ficaria com ele. A maldita sempre o enganou. O conto de fadas não tinha

passado de noites de orgasmos cósmicos e dias longos de lamentações

depressivas. Noitadas descontroladas acabadas em overdoses nos quartos

de hotéis cinco estrelas pelo mundo. A esposa, os amigos, a banda, os fãs,

enfim, todos ficavam ali, vendo a autodestruição sem saber como agir.

Algo extremamente dificil, muitas vezes doloroso. Como impedir uma

pessoa de usar o livre-arbítrio? Como demonstrar sua importância e a

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necessidade de viver? Engraçado pensar: muitos dariam tudo para ter sua

vida, seu dinheiro. Mas infelizmente viam sua alma esvaziar a cada show

lotado, beijo trocado, rima criada, palavra de amor sussurrada, droga

cheirada e copo esvaziado.

Sophia o amava. Isso era fato. Porém, parecia impossível impedir

um caçador de caçar. Doloroso para ela resistir ao talento do jovem de

traços irlandeses, que se drogava para se manter vivo, criativo, e se

matava para tentar perceber se valia a pena viver.

Ele não era o primeiro. Não seria o último.

E assim, nas proximidades das águas do gélido lago Washington, o

rei jazia em paz, livre dos pecados. Paz adquirida por não conseguir

esquentar o frio paralisante de sua alma. Por não ser correspondido por

aquela mulher.

A maldita fada que amava.

With the lights md it less dangerous... Here we are now, entertain us.

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You smile in your sleep

Você sorri enquanto dorme

Sophia sempre soube que poucos humanos viviam com o povo das

fadas. Para achar o místico portal dos Sídhes era necessária muita sorte,

estar no dia certo e no local estratégico. Logo aconteceria um desses

momentos, com a realização do Sanhain, uma das passagens mágicas do

ano, em que apenas alguns humanos enxergariam, nas altas e

exuberantes colinas, os bons vizinhos. A festividade marcava a época de

quando o véu dos mundos físico e espiritual se tornava mais tênue, sendo

fácil para as fadas e elfos olharem os mortais, podendo ouvir seus

pensamentos. Se ela gostava desse dia, ainda era uma incógnita. Mas a

cada Samhain tentava se convencer que sim. Precisava acreditar nisso.

Para os humanos, sempre foi um choque encontrar o Outro Mundo,

lugar regado de maravilhas e eterna juventude. Onde não existiam

doenças e sempre havia fartura de comida. No entanto, parecia

engraçado ver como eles agiam no Samhain. Os que não compreendiam

as tradições vestiam fantasias malucas como a de uma abóbora ou

jogador de futebol americano, se empanturravam de doces, na maioria

das vezes caramelos grudentos cheirando a tutti frutti, e entravam no

clima animado de festa. Isso era bom, pois o Samhain era uma celebração

que merecia festividade. Não seria por falta de entendimento que

perderiam as boas vibrações.

Talvez não entendessem de onde elas vinham, mas com certeza

sentiam a magia no ar.

Os tocados pelo dom faziam outros tipos de rituais simples, mas

muito eficazes. Um exemplo? Usavam vassouras de piaçava para varrer o

chão, com intenção de banir o passado, abrindo espaço para o novo.

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Também montavam fogueiras de mais de cinco metros para queimarem

papéis rabiscados com as coisas das quais queriam se livrar. Era Ano

Novo para as bruxas, daí a origem desse ritual.

Enfim, era hora de recomeçar. Qualquer ser, humano ou não,

poderia refazer sua vida em datas como aquela. Por que então não tentar

de tudo? Se fosse para o bem da humanidade, qualquer coisa valeria a

pena.

Muitos Sídhes aproveitavam o enfraquecimento do tecido das

dimensões no Samhain para ir à Terra visitar os mortais. A maioria descia

com a intenção de buscar conhecimento, outros para captar boas emoções

e alguns para assustar pessoas merecedoras de castigo. As Leanans

Sídhes eram diferentes, iam em busca de amor; e por isso Sophia

Coldheart tinha um dilema. Confusão de sentimentos. Não sabia se

desejava ir em busca de mais um amor. Mas era forçada pela sua

natureza a isso. Sempre parecia ser forçada a alguma coisa.

Mesmo em sono profundo, respirando lentamente, tendo consciência de

que a alma vagava pelo plano astral, por horas revirava na cama,

agarrando com força o travesseiro macio feito de pena de ganso. Mais

uma vez ele visitava seus sonhos. Aquilo a atordoava. Era gostoso e ao

mesmo tempo irritante escutar os sussurros suaves das palavras na

mente, como se fossem parte de uma música antiga e sinistra, tocada na

vitrola enferrujada no fundo de uma sala. Aquilo a incomodava, mas

também seduzia. Ainda não entendia o porquê disso. Mas se via

encantada e muitas vezes desejando o sonho. Desejando vê-lo.

Outra vez aquela voz envolvente estava lá, soando calma como a

de um padre, sedutora e esperançosa como a de um rapaz apaixonado.

Novamente uma noite inesquecível, que a faria acordar feliz, com um

sorriso estampado no rosto, e latejando de tão excitada. Porém, ele era

apenas mais um idiota apaixonado por ela e com isso iria sofrer. Muito.

Ela o ouvia recitar a declaração de amor com a sensação de estar

perante um bardo. Aquele tipo que contava histórias sobre rapazes da

plebe, apaixonados por princesas intocáveis de longos cabelos trançados.

Ele dizia em palavras doces:

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Minha musa, com quem tanto sonho, mas nunca encontro. Como é lindo olhá-la

dormindo, serena, sem se preocupar com este vasto mundo.

Minha menina sonhadora, mas guerreira, que enfrenta as dificu1dades como

líder, mas é simples o bastante para andar descalça no barro molhado, cometer

loucuras juvenis, ser notada por homens mais velhos, sentir a chuva bater na

face, comer um bolo com muita cobertura e se apaixonar por um completo

estranho. Minha santa que assusta, mas segue em frente, ainda que o

desconhecido lhe cause medo. Sua sinceridade nas palavras e gestos me envolve

todos os dias.

Vejo você tão perto, formosa, deitada na cama, cabelos loiros brilhantes

esparramados no travesseiro branco. Tão sensual, com um pequeno brinco de

pérola a brilhar. Parece até pintura, de tão graciosa. Poderia ficar horas

analisando a perfeição divina.

Conforme as palavras eram ouvidas, a garota se remexia de um

lado para o outro na larga cama de casal perfumada. Mesmo

desacordada, teve consciência de sentir os dedos finos tocarem o brinco

gelado e sorriu com o fato de ele realmente estar lhe vendo. O garoto

parecia inspirado naquela noite. As palavras faziam o coração de Sophia

bater mil vezes mais rápido. Seria aquilo uma forma de mostrar para ela a

importância do rapaz? Definitivamente sim. Impossível um bardo mais

sensual. Ela encontrava o mais novo candidato a príncipe encantado.

As veias de Sophia saltavam da pele arrepiada de excitação. As

energias emitidas por ele entravam na corrente sanguínea como se fossem

heroína, queimando cada pedaço do corpo, a fazendo enlouquecer. E

assim ele continuou com a jura de amor:

Porém, está tão distante, em outro lugar, outra dimensão, que não consigo

penetrar, a fim de, finalmente, chegar perto de um ser tão encantador como você.

Como gostaria de estar em seus sonhos, nas lindas passagens que imagino ao ler

aquele conto de amor eterno, que nos faz esquecer da vida e me traz para mais

perto de ti.

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Você, minha amada, é o tipo de mulher que os homens gostariam de

carregar no colo. Isso é a coisa que mais quero na minha vida. Quando irá me

permitir realizar tal desejo?

Não era a primeira vez que sonhava com William Bass. O jovem escritor

que ficava horas escrevendo em folhas de papéis amarelados, recitando

versos de amor para ela, sentado descalço à beira do lago Bassenthwaite

na região de Keswick, no condado de Cúmbria, na Inglaterra. Isso já

vinha se repetindo nas últimas semanas, mas pela primeira vez ele pedia

para encontrá-la. Aquele sinal Sophia já conhecia, e dele sentia ódio.

Deveria estar acostumada com todo o processo de sedução, pois

fazia parte de sua essência, porém nunca se sentiu bem com o instinto de

sobrevivência. Todas as vezes que ouvia o rapaz de cabelos negros como

carvão, pele bronzeada de sol e olhos penetrantes falar se sentia péssima

por estar começando a ter influência sobre ele. Ao mesmo tempo,

percebia a boca rosada salivar de desejo com as palavras recitadas. Era

revigorante sentir o poder de ser amada por alguém. Já notava a energia

do rapaz correndo pelas veias, por todo o corpo metafísico.

Sophia, neta do governador Arawn, era uma criatura chamada

Leanan Sídhe, conhecida como a “fada-amante” ou simplesmente a

“fada-namorada”. Havia décadas vagava pelo mundo em busca de amor,

mas não apenas um amor, vários deles. Pois nenhum homem seria forte o

bastante para resistir ao seu encantamento.

Ela tinha o poder de fazer qualquer homem ou mulher com dons

artísticos ser o melhor de sua época, em um estalar de dedos. E quando o

humano se encantava, a Leanan tirava proveito e pulava para o próximo,

porque nunca se prendia a alguém. Se apaixonar parecia um grande risco

para uma criatura como ela. Já havia presenciado e também ouvido

situações complicadas assim. Se aconteceria, era impossível saber, mas

rezava todas as noites para que não acontecesse. Não queria passar por

aquele sofrimento.

Na terra dos humanos, seria descrita como uma jovem com cerca

de 18 anos. Longos cabelos dourados que iam até a altura da cintura fina,

finalizando em pequenos cachos parecendo feitos profissionalmente. A

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pele branca como mármore vivia quente. Os olhos violeta de longos cílios

negros combinavam com as cores divertidas das asas, discretamente

abertas nas costas. No corpo havia vários riscos negros e finos

desenhados como se fossem tatuagens. Cada risco representava uma

alma que havia possuído. A marca penetrava sua alma atormentada. O

contraste da cor escura dos ramos dava-lhe um ar exótico. Todas as

Leanans Sídhes possuíam esses desenhos e Sophia nunca soube o porquê

dessa demonstração física. Sentia ser apenas uma punição constante.

Seria mesmo isso? Só o destino iria responder. O problema sempre foi

esperar pelas respostas do destino. Maldito seja ele.

Quando abriu os olhos, sentiu a claridade invadir. A sensação de ver um

novo dia amanhecendo era gostosa, deixando-a mais animada para

continuar, pois andava muito depressiva. Desde o último romance se

encontrava fraca, parecia que toda a fixação de ser musa não a fascinava

mais; aliás, sentia-se pior, pois percebia que sua energia não estava sendo

mais recarregada. Seu corpo funcionava como uma máquina: quando não

recarregada, perdia todo o poder. Nunca tinha chegado a ver como era

um corpo totalmente sem forças, pois temia a morte. E com razão. Isso

provavelmente poderia acontecer.

Existiam poucas Leanans no mundo. As que Sophia conhecia

normalmente amavam ser daquele modo instintivo e ela não entendia por

que também não gostava. Talvez estivesse mesmo precisando de mais um

príncipe encantado, afinal, tantos homens haviam passado por sua vida e

tantas vidas tinha tirado pelo sim- pies fato de acharem-na boa demais

para ser verdade. Algo inalcançável e mágico. Como se todo humano

também não fosse um ser incrível, pois ela pensava dessa forma. Tudo

para ela parecia fantástico.

Por ser Sambam, decidia se desceria até a Terra. Se fosse à

dimensão dos humanos, apareceria para William e ele se viciaria nela.

Sem dúvidas. A alma seria recarregada, provavelmente ele se apaixonaria

como um jovem tolo e ela proporcionaria os melhores momentos de

prazer para o rapaz inexperiente. Mais um nerd de quem tiraria a

virgindade.

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Decidiu então parar de filosofar sobre a vida e foi se banhar para ir

ao encontro do avô. Não eram apenas os humanos e as bruxas que

comemoravam o Samhain, haveria festa no Outro Mundo, lugar

conhecido pelos Sídhes como Annwn e pelos humanos como Fairyland.

No geral, os mortais não sabiam que apenas uma parte da dimensão das

fadas possuía esse nome. Ela ainda tinha de ajudar nos preparativos para

os rituais, pois nenhuma festividade mágica funcionava sem os devidos

preparos. Não entendia por que sempre a colocavam nas tarefas, já que se

mostrava muito preguiçosa. Mas como a haviam colocado, era hora de

correr.

Após sair do banho, enrolou-se na toalha fofa cor-de-rosa e parou

em frente ao espelho levemente embaçado. Ficou analisando o corpo

secar por alguns instantes. As marcas pareciam estar mais fortes do que o

normal, talvez por causa da água quente. Deixou a toalha cair no carpete

felpudo e começou a passar os dedos pelas linhas desenhadas nos ombros

ainda umedecidos. Sempre parecia estranho para ela pensar que cada um

dos sinais ali marcados era a alma de uma pessoa encantada. Humanos

brincavam que cada homem com quem uma mulher se deita deixa uma

marca, e com Sophia isso era verdade. Ainda lembrava-se das marcas

feitas pelos cantores com suas músicas depressivas. Outras que

inspiraram livros, futuros best-sellers. As mais profundas geradas pelas

grandes pinturas nas capelas, pelos poemas recitados mesmo depois de

terem sido criados há séculos, e pelas atuações merecedoras de Oscar e

inspiradas na dor. Como ela ainda aguentava se olhar no espelho,

sabendo o significado daqueles sinais, era uma incógnita. Mas o fato era

simples: naquele momento estava olhando.

O corpo começou a ficar arrepiado, por isso resolveu desviar o

olhar do espelho para se vestir. Foi até o guarda-roupa de madeira

maciça, pegou um longo vestido azul de festa e também um par de

sapatos brancos um pouco mais baixo do que o habitual. Quando estava

para sair, virou-se, olhando para a cama ainda desarrumada. Conseguia

ouvir os sussurros do rapaz dizendo:

“como é lindo olhá-la dormindo, serena, sem se preocupar com este vasto

mundo.” Ironia achar que ao dormir esquecia de tudo. Nunca seria

possível se esquecer dele. Todas as noites se conectava com William.

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Fechou a porta e foi em direção à escadaria. A mesma que levava à

grande entrada do castelo. Essa área consistia em um enorme espaço

onde o governador de Annwn se manifestava perante os Sídhes.

Provavelmente iria encontrar o avô na região ou no aposento real, era ele

quem tinha a última palavra nas decisões do reino. Sempre ficava cercado

de pessoas pedindo opiniões. Como os preparativos já haviam começado,

ela sabia que ele deveria estar preocupado com sua ausência. Para piorar,

ao olhar o relógio, percebeu estar atrasada para os deveres. Nunca

entenderia o excesso de cuidado do avô com ela. Mas, no fundo, até

gostava da atenção.

Ao chegar ao salão, encontrou outros elfos e fadas decorando

cuidadosamente o local, preparando os caldeirões borbulhantes. Um

cheiro bom de comida pairava no ar e se misturava com o aroma dos

incensários, postos em locais estratégicos pelo castelo. A garota deu uma

olhada geral e não o viu. Ficou preocupada. Resolveu irem direção ao

aposento. Por um momento cogitou a ideia de que talvez pudesse estar

na rocha, tentando entrar em contato com os outros governantes. A

dimensão dos Sídhes era muito grande: diversos governantes, reis e

rainhas foram designados para cuidar do povo e preservá-lo. A rocha

consistia em um poço no alto da colina de Annwn, onde através das

águas cristalinas parecia ser possível fazer contato com qualquer pessoa

no mundo, humana ou não. Se o avô não estivesse no aposento real,

poderia estar combinando os últimos detalhes do Samhain com a rainha

Melanie Ame, de Fairyland. Felizmente, o encontrou atravessando a

porta, em direção à saída.

— Achei que sua alma não havia voltado para o corpo — brincou.

A garota sorriu.

— Perdão, vovô. Estive em um debate interno quanto à minha ida,

hoje, às terras humanas.

Arawn ficou olhando para ela, o tipo de olhar dado por avôs

realmente preocupados. Ele sempre sentiu que a alma da neta era

diferente das outras Leanans, provavelmente porque a mãe, uma Leanan,

havia se casado com seu filho, um elfo. O destino da mãe de Sophia não

deveria ter sido esse, pois ela tinha de se apaixonar apenas por humanos.

O resultado foi trágico. Ela, uma criatura acostumada a ver o parceiro

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definhar, acabou assistindo ao marido adoecer, o que fez com que

perdesse as forças e falecesse. O elfo, logo em seguida, também não

aguentou. Ambos sabiam que um amor entre um elfo e uma Leanan era

suicídio, mas quando se está apaixonado parece aceitável cometer esse

tipo de loucura. A sorte foi que a união durou tempo o bastante para

Sophia nascer, e, com isso, o avô cuidou dela como se fosse a própria

filha. Infelizmente, alguma marca do amor dos pais ainda corria em seu

sangue, fazendo o desejo de conquista não se tornar mais tão atrativo. Ela

sofria com isso.

— Visualizei um rapaz hoje em meus sonhos e ele se declarava a

você — comentou o sábio governador. — Creio ser um jovem escritor, de

uma região não tão distante daqui.

Ela respirou fundo, após ouvir o avô.

— Ele é de um condado no norte da Inglaterra — começou a

explicar. — Faz fronteira com a Escócia. Percebi, através de flashes, que

ele mora em uma cidade chamada Keswick. Não possui mais do que

cinco mil habitantes.

O governador gargalhou por alguns minutos pensando no

acontecido. Uma gargalhada gostosa, até demais, para um momento

como aquele. Além de o rapaz ser um poeta, vivia em uma cidade de

interior. Típico garoto que iria sofrer ao ver Sophia, pois seria a coisa mais

incrível de sua pacata existência. Uma vida assim nunca pareceu ruim,

mas Arawn sabia o efeito que a neta exercia sobre os humanos. Como um

rapaz do interior poderia resistir a ela? Impossível. Esse não teria um

pingo de sorte.

Não conseguia esquecer o poder da frágil criatura à sua frente. Já a

havia visto enlouquecer cantores e guitarristas famosos, levando-os a

overdoses de cocaína. Quantas vezes havia assistido aos namorados se

suicidarem ou definharem por amor a ela? Há alguns anos, um cantor de

rock brasileiro, símbolo da revolução alternativa, havia sofrido uma

parada cardíaca em um flat após finalmente desistir de tê-la tios braços.

E, nos últimos anos, um belo ator hollywoodiano sucumbira ao fato de

não mais a ter como inspiração para o filme mais sombrio que realizaria.

O sorriso macabro do personagem estava marcado na recente linha no

braço direito da garota.

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— Se decidir encontrar o rapaz, vá até o lado norte de Annwn à

meia-noite — disse o avô. — Quando o tecido cair, você ficará visível nas

montanhas do lago Bassenthwaite. Creio que é nessa área que ele tem

estado.

Sophia bufou. Deveria encontrar o rapaz? Será que o avô tinha

razão em lhe indicar o caminho? Isso ficava martelando em sua mente

confusa. Mesmo sem ter certeza, aquiesceu e pediu bênção. Ainda tinha

que ir para as cavernas preparar as poções, precisava se apressar.

Ao sair, começou a andar pela mata e viu como era refrescante

fazer aquilo. Conseguia sentir a brisa suave como uma pluma e gélida

como um forte dia de inverno passar pelo rosto de feições delicadas. A

grama raspava no vestido, sujando-o de barro, e a luz brilhante ofuscava

a visão. Por ser dia de festa, enormes fogueiras estavam sendo montadas

por todo o campo e a movimentação de pessoas era grande. Todos

estavam empenhados em ajudar, e quando algum conhecido passava

perto, cumprimentava animada. No meio do caminho encontrou Lorena,

uma delicada fada comum, que normalmente aparecia para os humanos

em florestas e matas. A jovem feérica, de longos cabelos lisos negros e

olhos tão verdes semelhantes à esmeralda, seguia para o mesmo local.

Sophia conhecia o caminho para as cavernas de trás para a frente, mas

sentia sempre um apelo de estar próxima a essa fada. Não sabia o motivo.

Um dia precisaria descobrir.

Em pouco tempo estavam no interior da caverna. A luz do dia não

penetrava no local e os olhos das garotas ficaram confusos com a

mudança. Sophia sentiu os dedos suaves de Lorena tocar os seus

delicadamente. O choque do contato a surpreendeu. De mãos dadas

andaram até o centro da caverna, onde as outras fadas combinaram o

encontro. Velas douradas estavam acesas por todos os cantos, parecendo

brilhantes pontos de luz. O lugar estava abafado, bem mais quente do

que no exterior. Havia seis fadas e um elfo. Sophia pensava se aquele

grupo era o suficiente para terminar o trabalho proposto. Todos já

estavam em transe quando chegaram, ou pelo menos pareciam

concentrados nas magias que tinham de desenvolver.

Ao entrar no recinto, Lorena soltou a mão e se aproximou de

Sophia, de uma forma intimidante, quase grudando o corpo curvilíneo no

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dela. Deu-lhe um leve beijo no rosto, parecendo um sopro de vento,

fazendo-a arrepiar e sussurrou uma bênção: “Que a Grande Mãe nos

proteja”. Nos lábios carnudos, um leve sorriso se formou, muito meigo e

sincero, mostrando o carinho da fada morena pela Leanan. Sophia

tentava entender por que Lorena gostava dela. Também o porquê de ela

sentir carinho por Lorena. Mas só os Deuses saberiam a resposta.

A Leanan tomou lugar no círculo mágico, viu a outra fada se

afastar e começou a se concentrar. As longas asas, formadas de finos fios

de energia, batiam levemente embalando para o transe necessário. Um

caldeirão estava preparado com todos os materiais junto a ele, O fogo

ardia intensamente, parecendo ser do inferno, e a água, vinda do riacho,

borbulhava quase transbordando do caldeirão.

Era necessário preparar poções de cura, para serem entregues na

madrugada. Alguns humanos, às vezes sem saber, suplicavam às fadas

por milagres e curas. Ao contrário do que pensavam, todas as vezes elas

ouviam e debatiam sobre o caso. Assim, em noites mágicas, como o

Samhain, aproveitavam a glória da mãe protetora, abençoando essas

pessoas com uma segunda chance. Como o transe já fazia efeito, Sophia

começou a ser guiada pelas mãos da Deusa. Pensava se deveria ter medo,

mas achava que não. Agora era a Deusa quem preparava a magia e a

garota só servia de instrumento divino. Como isso era uma bênção, não

precisaria temer.

Pegou um pequeno pilão de madeira talhada e nele colocou pétalas

e folhas de uma planta australiana chamada sempre-viva. Com uma

grossa colher de pau começou a triturá-las, fazendo uma mistura de cor

alaranjada. Acrescentou alecrim, tomilho e lavanda, cortados com uma

adaga mágica abençoada pelo próprio Arawn. O cheiro da mistura era

atraente, adocicado, mas ao mesmo tempo cítrico. Continuou a amassar

todas as ervas juntas e uma gosma verde predominou. Como a água já

estava bem quente, acrescentou a mistura ao caldeirão para que fervesse.

Iria criar um chá consistente, para substituir pela água ao lado da cama

dos humanos presenteados. As Pixies, outro tipo de fada, fariam o

trabalho de confundi-los a fim de beberem a poção.

Sophia pegou a varinha de condão, dada de presente pela Deusa

quando aprendeu todos os passos de uma fada adulta, e a mergulhou no

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líquido efervescente. Mexeu no sentido horário várias vezes e aos poucos

imaginou os chacras do corpo humano brilhando à sua frente. Recitando

palavras de poder sobre a água, começou a sentir a magia exalando

através da fumaça cheirosa. Quem bebesse o trabalho seria curado

definitivamente, pois existia muita força naquela mistura. Quando o chá

ficou pronto, colocou-o em pequenos frascos transparentes e fechou-os

com rolhas de vinho. Havia uma enorme cesta de vime cheia deles no

canto mais reservado da câmara central. Foi até o local e acrescentou os

seus.

Percebeu que William aparecia várias vezes em sua mente, e a

imagem dele, sentado embaixo de um pilriteiro, um tipo de arbusto,

completava mais um dos sinais sagrados. A árvore em que se encontrava

era celebrada por poetas e romancistas, podendo ser achada em muitas

partes da Europa. Além disso, aquela árvore agradava muito a Sophia.

Sempre passou um ar romântico para a garota. Um sentimento de amor.

Provavelmente, os pais namoraram embaixo de um pilriteiro. Mas isso

poderia ser coisa da cabeça dela. Como muitas outras coisas.

Pensando em William percebia como de era lindo. Também em

como provavelmente deixaria qualquer coração de mortal balançado,

ainda mais com as palavras doces e sensuais recitadas por seus lábios,

mas aquilo não funcionava com ela. O tesão ao acordar, depois de sonhar

com ele, era pela sensação de poder e não por qualquer outro sentimento.

O magnetismo vindo do talento dele a fazia ficar descontrolada, como um

viciado precisando buscar droga, mas não pelo rapaz em si. Até porque

beleza não afetava uma fada como ela. Beleza era uma palavra criada

após o nascimento dela, pois seria difícil achar uma criatura mais bela

que uma Leanan Sídhe.

Ao sair da quente caverna, que mais parecida com um forno de

assar pão, ouviu Anna, fada-rainha dos ciganos húngaros, chamá-la. A

mulher tinha belos olhos escuros e pele negra. Sua aparência era delicada,

mas Sophia sempre teve medo de seu tom de voz autoritário. A garota

percebeu a expressão tensa estampada no rosto da outra e estranhou. A

fada-rainha havia acabado de sair de um transe mágico dentro da

caverna, e deveria estar relaxada. Todos os seres relaxavam quando em

contato tão direto com a Deusa. Por que Anna não havia se tranquilizado

parecia um mistério. Sophia iria tentar descobrir.

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— Querida, poderia falar um minuto com você? — perguntou a

mulher de traços fortes, alcançando-a.

Após concordar, as duas andaram um pouco e sentaram na grama

fofa, deixando os vestidos claros esparramados pelo chão.

— Como estão as marcas? Você tem sentido algum chamado?

Em choque, Sophia respondeu sem muito ânimo, não entendendo o

motivo da pergunta.

— Tudo bem com elas. Tenho ficado preocupada com isso, mas

estou esperando mais um sinal de um jovem escritor.

A mulher pareceu ficar aliviada com a resposta. Pela reação,

deveria estar preocupada. Sophia sempre soube que Anna fora uma

grande amiga de sua mãe, mas nunca haviam sentado para conversar

sobre isso.

— Se precisar de alguém, estarei aqui para escutar — disse,

pegando as mãos da garota, levantando-a. — Conte comigo!

— Contarei — respondeu a loira sem graça.

Após um forte abraço, a fada-rainha dos ciganos saiu em direção ao

castelo, deixando Sophia ainda abismada com a curta conversa.

A Leanan viu de longe Lorena passar conversando com um elfo,

bem mais velho, mas ao mesmo tempo charmoso, que ela não conhecia.

Por algum motivo, sentiu uma pitada de ciúmes. Como ela ainda estava

parada no mesmo lugar, observando a amiga, resolveu se mexer. O dia

passava rápido demais e logo seria a hora do ritual.

Correu até as altas fogueiras, pegou um pedaço de papel branco e

começou a escrever a lista que iria ser queimada quando acendessem o

fogaréu. Acabou achando um belo pilriteiro e, sorrindo com ironia,

começou a fazer as anotações. Escreveu tudo de ruim que lhe veio à

mente. Queria aqueles pensamentos longe de sua vida. E como “o diabo

mora nos detalhes”, se esquecesse de mencionar algo, acabaria fazendo

toda a diferença, então ficou atenta. Depois que o papel estava todo

escrito, andou até a fogueira mais próxima, posicionando-o entre os

troncos. Talvez não fosse ter tempo de ver a queima, então preferiu se

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prevenir. Tudo dependeria de achar melhor encontrar o rapaz ou não. A

dúvida permanecia na mente e no coração. Contudo o coração batia mais

forte ao pensar nele. Aquilo era um recado.

A garota se dirigiu ao castelo construído com pedras claras e, perto

da escadaria da entrada, avistou um amigo de infância que havia tempos

não encontrava. Seu nome era Guillian Louis das Fadas e pertencia à

família real e era primo da rainha Melanie Ame das Fadas: Impossível

esquecer o cabelo espetado alaranjado do rapaz e o sorriso sexy sempre

estampado no rosto. A família “das Fadas” tinha essa característica.

— Ora, ora! — caçoou o feérico ao se aproximar. — Quem diria que

a neta do governador estaria passeando por aí em plena organização de

Samhain.

Abrindo um sorriso sarcástico, Sophia respondeu:

— Pelo visto você está acompanhando meu passeio, pois em pleno

dia sagrado deixou sua prima cuidando de tudo, não é, bonitão?

Os dois acabaram gargalhando tão alto que alguns alados

repararam no casal ao passar. Sophia pulou em seu colo abraçando-o com

força, parecendo uma menina de 5 anos de idade, feliz ao ganhar um

presente. As pernas se encontravam entrelaçadas na cintura do rapaz.

— Caramba! Como é bom ver você, menina! — comentou alegre,

com a fada ainda pendurada em seu corpo. — Encantando e destruindo

algum pobre garoto como sempre?

— Idiota! — disse Sophia, fingindo estar brava, saindo do abraço e

voltando ao chão. É bom te ver também. Mas para seu conhecimento,

quem leva a alma do garoto embora é a Deusa, não eu. E não tenho culpa

de ser irresistível.

Achando graça do comentário e dando uma piscadela para a

menina, ele argumentou:

— Tudo isso se resolveria se você aceitasse se casar comigo,

mademoiselle.

Ela riu.

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— Como se eu quisesse — acrescentou. — Ao contrário, querido.

Não se esqueça da lição de vida que meus pais nos ensinaram.

O jovem casal de alados foi conversando até o interior do castelo.

Guillian começou a contar os problemas enfrentados pela prima no reino

e também as últimas trapalhadas em que se metera. Era bom conversar

com um amigo que não ligava para o fato de ela ser uma Leanan. Guillian

sempre fora alguém com quem podia conversar. O tipo de pessoa que

inspira confiança para ficar horas e horas contando detalhes da vida.

Infelizmente, sempre que vinha para aquele lado do Outro Mundo,

Guillian estava com pressa e nunca tinha tempo para nada. O rapaz tinha

ido ao encontro de Arawn e, ao achar o governador, Sophia os deixou a

sós, mas não antes de dar novamente um abraço apertado no rapaz.

— Sinto sua falta. — disse baixinho em seu ouvido, apoiando a

cabeça loura em seu peito.

- Eu também... eu também! — respondeu o outro desanimado.

Em seguida, ela subiu para o quarto. Logo teria que começar o

ritual de Samhain e não havia tempo a perder. Finalmente havia

decidido: iria encontrar William Bass naquela noite.

Só faltava o último sinal.

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2

I’m afraid of open water

Eu tenho medo de mar aberto

William havia passado a noite em claro. Perto da enferrujada caixa

registradora, ainda estavam os papéis rasurados da última declaração de

amor que havia escrito para ela. Estava um pouco cansado pela falta de

sono, mas tinha um longo dia de trabalho pela frente e não podia

fraquejar. Ainda por cima a noite era de Halloween e tinha a sensação de

ser uma data importante. Não só para todos os moradores, mas

principalmente para ele que passou a noite pensando nisso.

O rapaz espanava a empoeirada seção esotérica do sebo que

gerenciava. Negócio familiar, O pai sempre soube comprar muito bem as

coisas para o acervo, mas nunca foi bom em vender os livros, CDs, vinis e

filmes conquistados durante a carreira. Então, a pilha de mercadorias foi

crescendo nos últimos anos e o lucro só começou a entrar quando

William decidiu salvar o negócio, informatizando-o. Agora, enviava

livros para toda a Europa e parecia ter nascido para o negócio.

Questionava-se se isso poderia ser possível, pois se via em outra

profissão. Sua vontade era publicar livros como aqueles espalhados ao

seu redor.

— Rapaz — interrompeu lhe o pensamento um cliente com cara de

estrangeiro. — Você saberia dizer se tem algum vinil dos Beatles por

aqui?

O garoto largou o espanador, seguindo para a seção de discos mais

procurada: a dos clássicos do rock. Os vinis dos Beatles até o momento

ainda eram os mais cobiçados.

— Serviria algum destes, senhor?

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Largando a pilha de discos na frente do estrangeiro, rumou até o

caixa para receber o dinheiro de uma senhora que comprava um romance

trivial. Aquilo era algo fácil de encontrar em sebos. Adorava as velhinhas

que apareciam por lá, pois sempre eram muito simpáticas e, às vezes,

paravam para conversar e contar histórias de vida. Esses acontecimentos

serviam de inspiração para os livros de William. Ele havia escrito vários

ao longo dos anos, pois tinha o dom.

A dádiva da escrita. E aquelas histórias de vida ajudavam.

O turista voltou a questionar detalhes acerca do disco. Queria obter

informações sobre a época em que foram lançados, quais músicas fizeram

sucesso, entre outras coisas. William não necessariamente precisava saber

de tudo, mas detinha o conhecimento por interesse próprio e acabava por

compartilhá-lo com os clientes.

Uma coisa aprendida no sebo era que não havia necessidade de ler

ou ouvir tudo contido ali. Se soubesse o básico e essencial, com certeza

deixaria a clientela satisfeita. Havia reforçado a teoria com uma ex-

namorada que trabalhava em uma rede de livrarias em Carlisle, capital

de Cúmbria, cidade bem maior que Keswick. Lá a gerente exigia dos

funcionários, no mínimo, a leitura do resumo dos principais livros e que

estivessem atualizados com as notícias literárias. Se soubessem do que se

tratava e do porquê da notoriedade de determinada obra, BINGO, a

captação do cliente era certa e, consequentemente, a venda concluída.

Quantas e quantas vendas a ex havia conseguido fazer com essa tática?

Quantas ele também obteve, após aprender a utilizá-la? Não precisa ser

gênio, é só ter o mínimo de cultura, pois com inteligência e conhecimento

conseguia se virar no mundo.

No final das contas, o turista, que revelou ser um alemão, resolveu

ficar com um dos LPs, Ao perguntar o preço, a expressão de surpresa se

estampou no rosto rosado do homem. Se realmente achou um absurdo o

preço, William nunca saberia, mas que o cliente iria choramingar por ele,

parecia certo. Todo o tempo gasto em informações e conversa sobre a

raridade do disco sumiram na hora. Agora para o comprador, aquilo era

um absurdo. Como poderia ser tão caro um vinil que, hoje em dia, nem

era mais utilizado? Afinal, quem ainda tinha vitrola em casa?

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Bobo achar isso, pensava o garoto. Os vinis estavam, aos poucos,

voltando ao mercado, sendo possível encontrar material como aquele dos

Beatles em grandes lojas por preços absurdos. O que cobrava não era

nada por tamanha preciosidade como aquela. Como o homem podia não

sentir a sensação enriquecedora de estar perante algo tão raro como

aquele vinil? Era uma falta de consideração pela arte. Fato que William

não tolerava.

Respondeu para o cliente educadamente, com a frase já treinada:

— Infelizmente esses preços são tabelados e vêm da nossa matriz

central. Sou apenas um funcionário.

Fazendo isso, ele havia tocado no ponto fraco do homem. Ao dizer

que o preço vinha da matriz, o cliente sempre mudava de atitude, pois o

simples sebo de cidade pequena não parecia mais tão simples assim. Ele

tinha preço tabelado. Era de uma matriz. Isso era chique, certo? E coitado!

O rapaz, trabalhando em um sebo, que futuro tinha?

Como acontecia na maioria das vezes, o consumidor acabava

pagando o preço e saía com dó do garoto que espanava livros velhos.

Mais bobos ainda de terem esse pensamento, refletia. A maioria das coisas

recebidas no sebo eram oriundas de doações ou lotes que o pai conseguia

a preço de banana. Mesmo William sabendo o valor da preciosidade, não

podia esquecer o mundo capitalista, e também o fato de que acabara de

ganhar 100% de lucro em cima do disco raro. Era bom sentir as notas

pesarem no bolso.

Trabalhar no sebo, algumas vezes, chegava a ser gostoso. Distraía-

o. Porém, gostava mesmo era de folhear as páginas emboloradas dos

livros antigos e imaginar quem os tinha escrito. Imaginava se em algum

momento, um rapaz qualquer como ele iria gostar de folhear um livro seu

e no que pensaria.

Escrevia desde pequeno. Infelizmente pouco praticava, já que

gostava de ser independente e para isso precisava ganhar dinheiro.

Frequentemente, os tumultuosos problemas familiares ou amorosos

faziam-no perder o foco. E odiava ser atrapalhado e perceber que havia

jogado fora oportunidades e tempo precioso. Tempo em que poderia ter

terminado uma obra. Ele realmente se arrependia, pois sabia que tinha a

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capacidade de escrever quando quisesse, e sobre qualquer coisa. Isso

dava certo alívio, pois essa era a principal qualidade para ser realmente

um escritor.

Ele odiava o papo de inspiração. Aquela conversinha de sentar pela

primeira vez e escrever uma historinha achando estar arrasando, Para ele,

escrever era passar dias e noites em claro, lutando com as palavras para

conseguir montar algo que, um dia, iria modificar a vida de uma pessoa.

Naquele momento, estaria tocando o interior dela.

Sua função como escritor e ser humano estaria completa.

Mas, nos últimos meses, algo o perturbava, O garoto que nunca foi

de fantasiar em suas histórias começou a perceber que inseria seres

mágicos nas obras. Talvez o fato de morar em uma região considerada

mística o estivesse afetando. Keswick possuía milha res de lendas sobre

Sídhes, povo sobrenatural vinculado às fadas e elfos de outras tradições,

cujo mundo, o Outro Mundo, era o reino dos mortos, lar das divindades e

fortaleza de outros espíritos e entidades. Os moradores da cidade

chamavam essas criaturas de os Bons Vizinhos, o Povo das Fadas, os

Nobres ou simplesmente o Povo, na esperança de que fossem gentis com

eles, caso aparecessem. Ele sempre achou tudo unia bela maluquice, só

que vinha sonhando com um ser que com certeza se tratava de uni Sídhe.

O porquê disso não sabia. Mas era certo que aquela criatura maravilhosa

era uma fada e sonhava com ela todas as noites. Tinha visões estranhas,

escrevia poemas de amor e acordava excitado com sonhos eróticos tidos

somente com ela.

O que está acontecendo com a minha mente?, perguntava-se.

Só poderia estar maluco. Por que tanto sonhava com aquele ser

iluminado de cabelos dourados?

No início, achava que era só ilusão. Depois de um tempo, percebeu

que começava a acreditar que a fada realmente pudesse existir.

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Whataya want from me

O que você quer de mim

A noite caía e com ela a pressão da Leanan. Estava de jejum, como

ditava o costume antes de realizar o ritual do sabbat de Sambam. Logo o

corpo não aguentaria a falta de nutrientes, então resolveu respirar fundo

e começar os preparativos. Eles não tomariam muito de seu tempo, mas

aquilo era importante.

Sophia tentava entrar em seu modo concentrado, contudo algo a

atrapalhava. Poderia ser William com os sussurros, as dúvidas

martelando na mente, a data especial ou algo inexplicável, mas alguma

coisa mexia com ela.

A banheira branca estava pronta para o primeiro passo.

Provavelmente preparada por uma das fadas que trabalhava no

gigantesco castelo. Sophia tinha de realizar o ritual de purificação. Ele se

resumia em água salgada morna para o banho e alguns sais especiais. Sua

função? Limpar o corpo e a alma de todas as impurezas e energias

negativas. Diziam que funcionava. Precisava estar renovada para

começar a magia do Ano Novo.

Saiu do banho pingando grossas gotas salgadas e começou a se

vestir rapidamente, pois estava assustada com o frio. Pegou a roupa e a

deslizou pelo corpo arrepiado. As bruxas costumavam usar vestes

cerimoniais de uma forma um pouco diferente das fadas. Para elas, era

costume usar longos vestidos pretos grudados ao corpo. Porém, não

ficavam muito tempo com eles. Parecia ser normal para as mulheres em

seus covens se despirem, após certa parte do sabbat. Já as fadas usavam

longas vestes brancas de um tecido fino como seda pura e esvoaçante,

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deixando-as ainda mais encantadoras. Lembrando desenhos de livros

infantis. Contudo, tirando a cor e o tecido, os outros acessórios eram

praticamente iguais. O colar rústico feito à mão em torno do pescoço e a

coroa de folhas de carvalho na cabeça.

Sentia-se bonita. A perfeita visão para alguém se apaixonar.

Provavelmente, no dia mais propício para tal fato ocorrer entre um

humano e uma fada. O ritual seria feito pouco antes da meia-noite e

terminaria bem na hora de ir ao lado norte e aparecer nas altas colinas

para William. O pensamento fazia o coração de Sophia ficar mais

apertado.

O movimento no castelo estava intenso, lembrando realmente um

dia de festa. A penumbra era constante em todos os lugares, mas tochas

encharcadas de gasolina estavam sendo acesas. Logo, também as imensas

fogueiras iriam começar a queimar de forma selvagem. Carregando uma

cesta de palha envernizada com todos os utensílios mágicos, Sophia

caminhou um pouco, indo em direção à região dos jardins. Lá havia uma

parte, perto do coreto, que seria perfeita para fazer o círculo mágico

necessário para seu ritual. Estava sozinha, então teria mais privacidade.

Porém, ouvia os murmúrios das conversas e da música celta começando a

ser tocada no campo. O barulho parecia ser feito pelos responsáveis por

animar a festa. Pensava se aquilo iria atrapalhar seu Ano Novo, mas

achava não ser possível. Como algo tão mágico poderia ser interrompido?

Ainda mais por um sentimento tão bonito como a alegria.

A fada iniciou o processo, traçando um círculo de três metros de

diâmetro no chão, usando giz branco. Depois de pronto, respirou fundo e

passou para a próxima etapa. Conforme foi andando, colocou 13 velas

pretas e laranjas em torno do extenso círculo. À medida que acendia cada

uma, dizia: “queimo a vela do Samhain, representante do fogo. Vejo-a tão

brilhante à minha frente. Com isso, consagro este círculo com luz”

De longe, ouviu uma risada alta de alguma pessoa que começava a

ficar embriagada. A bebida, principalmente o vinho, era muito utilizada

para induzir ao transe mágico. Mas não ligou para o ocorrido, pois já

estava entregue à Deusa.

Andou até o centro do círculo em passos firmes e iniciou o altar,

tomando cuidado de montá-lo voltado para o norte. No centro,

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posicionou três velas: uma branca, uma vermelha e uma preta, para

representar cada uma das fases da Deusa Tripla. À esquerda das velas,

colocou um cálice cravejado de pedras preciosas com sidra e um prato

preto de porcelana contendo sal marinho. À direita, colocou um

incensário romeno de ervas mágicas e uma pequena tigela com água pura

do lago. Diante das velas, acrescentou um sino dourado, o punhal

consagrado e uma maçã vermelha, que a lembrava, por algum motivo, da

personagem Branca de Neve, dos contos infantis. Estava de joelhos, então

resolveu se levantar e apanhar o sino. O fez soar três vezes, dizendo:

“Perante o nome sagrado da Deusa e sob sua proteção, inicio agora o meu

ritual de sabbat. Que este Samhain seja mágico e que homenageie minhas

irmãs queimadas na fogueira.”

Sophia salpicou um pouco de sal e água em cada ponto do círculo

para limpar o espaço de qualquer negatividade ou influência maligna.

Pegou o punhal com a mão direita e falou: “ouçam bem, elementos: ar,

fogo, água e terra. Pelo sino e pela lâmina, eu vos convoco nesta sagrada

noite de alegria. Que o poder das fadas transforme o mundo.”

A imagem de um exuberante homem mascarado veio à mente. Pelo

tom de pele e porte físico, percebeu ser William. Outras milhares de

imagens começaram a borbulhar: Donald, River, Brad, Gael, Britney,

Jade, Richard e tantos outros que havia ferido. Todos os artistas

encantados por ela. Seria aquilo um teste divino? Não sabia responder.

A Deusa lhe ensinava uma importante lição: não podia fugir do seu

destino. Os traços negros tatuados ardiam como brasa e queimavam a

carne, mas a dor a deixava excitada. Aquilo não parecia ser normal.

Fazendo isso, mergulhou a lâmina do punhal no cálice com sidra e

retornou: “eu te ofereço, minha Deusa, este néctar da estação. Faço isso

em tua homenagem.”

Colocando o punhal de volta ao altar, acendeu o incenso aromático

e as três velas. “Três velas eu acendo em tua honra. A branca para a

virgem. A vermelha para a mãe. A preta para a anciã. E é para ti que ergo

este templo sagrado.”

A garota pegou o cálice com ambas as mãos e derramou algumas

grandes gotas de sidra sobre a maçã vermelha. “Ao ventre da Deusa mãe

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retorna agora o Deus, até o dia em que novamente renascerá. A grande

roda solar gira mais uma vez e o ciclo das estações nunca termina.”

Respirando profundamente, de olhos fechados, continuou:

“abençoadas sejam as almas daqueles que já se foram. Eu derramo este

néctar em honra à sua memória. Que os espíritos os abençoem com luz,

beleza e alegria. Abençoados sejam!”

Sophia sabia a importância daquelas palavras. O poder delas. Não

entendia como os humanos conseguiam passar a vida inteira sem sentir

aquele poder sobre eles, invadindo-os com felicidade. Para ela, parecia

um desperdício de vida sagrada.

Bebeu o restante da sidra e então colocou o cálice no altar. Fez soar

o sino mais três vezes, desfazendo o círculo. Apagou todas as velas de

cores laranja e preta, começando do leste, pegando a maçã de aparência

suculenta do altar. Então a enterrou no jardim para nutrir as almas dos

que morreram no último ano.

Assim... o ritual de Samhain estava completo.

A pele parecia ter um brilho especial, quase cósmico. Sentia a

vibração diferente e aquilo fazia bem a ela. Recolheu tudo o que foi

utilizado, colocando na cesta, preparando-se para sair de lá. Queria

deixar o material no castelo e dar uma espiada nas festividades antes de ir

embora. As badaladas da meia-noite se aproximavam e o encontro

também. Tudo dependeria se William iria mostrar o último sinal. O gesto

final de seu amor por ela.

Descia com pressa as escadas brancas para ir até as fogueiras,

quando viu a amiga Lorena sorridente atravessar o salão com outras

fadas. Todas carregavam flores em abundância e pareciam felizes. Os

sorrisos chegavam a contagiar. Vendo a cena, resolveu segui-las.

As garotas foram na direção contrária da que Sophia imaginava,

então ficou observando, à distância, o que faziam. Todas vestiam branco,

levando flores coloridas da estação para o gelado lago reluzente perto do

castelo. Flores também decoravam seus longos cabelos esvoaçantes.

Sophia assistiu às fadas correrem para dentro do lago, não se importando

de molharem as belas roupas. Elas formaram um círculo dentro da água

e, depois, arrancaram os vestidos, jogando-os às margens. As fadas ainda

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seguravam as flores e Sophia viu que começaram a cantar uma melodia

suave lembrando canções de bardos. Era uma cena muito bonita. A

Leanan não sabia se era a música, a capela, a nudez, as asas ou,

simplesmente, o toque mágico que fazia tudo ficar mais encantado, mais

bonito. As aladas soltaram as flores na superfície do lago e Sophia viu aos

poucos as pétalas flutuarem para cada vez mais longe.

Para mais distante das encantadas.

A garota percebeu Lorena notar sua presença, pois sentia alguém

encará-la de longe. A bela abriu um grande sorriso capaz de iluminar

uma cidade inteira e Sophia ficou feliz. Virando as costas, foi em direção

às pessoas que dançavam em torno do fogo e bebiam vinho feito pelos

gnomos. A festa estava boa e animada, como deveria ser. Não perderia a

oportunidade de contagiar-se por aquela energia, certo? Precisava ir até

lá.

Sophia foi para perto do avô, sentado em seu trono dourado,

decorado com brasões e rubis tão brilhantes que eram capazes de cegar

alguém. Haviam levado o bendito trono para as festividades, pensava.

Sentada sobre o gramado, perto dos pés do governador, encostou a

cabeça delicadamente em seu joelho já gasto pela idade. Em seguida,

sentiu a velha mão do avô acariciar lhe o cabelo e aquilo foi reconfortante.

Ela agia como uma criança carente, precisando de atenção. Os olhos

miravam a fogueira. Sentia a falta dos pais e de uma presença mais forte.

Foi quando olhava para o fogo que veio a visão.

Para invocar uma Leanan Sídhe, bastava bater três vezes no tronco de

uma árvore antiga com flores brancas como a neve para que ela

percebesse o chamado. Sophia assistia à cena em que William fazia isso

no belo pilriteiro, sob o qual costumava ficar sentado. Se ele tinha

consciência do que fazia, ela não sabia, mas que este era o último sinal

parecia ser certo.

— Está na hora, minha menina — disse o avô, sem ela precisar falar

nada.

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Sorriu para ele e levantou da grama quente pelo poder da fogueira.

Correu na direção norte, ao encontro da nova presa.

Uma ventania começou, a música alta ainda era ouvida e as palmas

que a acompanhavam também. Sentia um ritmo forte dominando o

corpo. O cabelo parecendo fios de ouro voava desgovernado para todos

os lados e a garota começou a perceber a magia ao redor.

TUM... TUM... TUM!

Ouviu os três toques para a meia-noite. Silêncio.

Era Samhain. Era Ano Novo.

Hora em que o frio do outono levava ao quase inverno.

Do alto da colina, viu o nevoeiro ficar mais claro, e pequenos

fragmentos de luz surgiam, parecendo vaga-lumes. Aos poucos, era

possível enxergar a água extremamente azul do lago Bassenthwaite, com

a lua refletida nele, deixando um feixe de luz nas águas calmas. Tudo

ficava nítido. Entrou na dimensão dos humanos, chegando mais perto de

William. O rapaz estava em pé, braços cruzados, corpo rígido apoiado na

preciosa árvore escolhida. Vestia uma camisa social branca, dando

contraste à pele morena. Usava calça preta e sapato da mesma cor. Sophia

o achou muito bem-arrumado. Viu que na mão segurava uma máscara

bonita de festa, então entendeu que talvez acabasse de sair de uma

comemoração de Halloween ou estivesse indo para alguma. De qualquer

forma, parecia um galã dos filmes antigos que ela costumava assistir

imaginando a vida dos humanos. Aquilo a deixava excitada. Ele a

deixava daquela forma.

William não havia notado a presença. Não era qualquer pessoa que

estivesse na região naquele momento que conseguiria vê-la: ele era a

única pessoa com tal poder. Sophia voou para a beira das águas do lago.

A luz da lua a deixava iluminada, o loiro dos cabelos e o branco da roupa

chamavam a atenção na escuridão. Uma atenção quase sombria, contudo

mágica. Mas o que se destacavam mais, na verdade, eram as asas em tom

prateado reluzente batendo em um ritmo sedutor.

O rapaz, que até então não a tinha visto, parecia ter se cansado de

esperar e se virou em direção à cidade ainda em festa. Nesse momento,

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viu o ponto de luz perto do lago. Aquela claridade era estranha para a

região. Com o susto, derrubou a máscara preta no chão e começou a

caminhar em direção a ela. A cada passo dado, Sophia ficava com mais

frio na barriga. Alguma coisa em William parecia diferente. Não sabia se

era o modo como andava decidido ou a expressão fechada que tinha na

face, porém, alguma coisa a atraía.

Os passos foram ficando cada vez mais rápidos, parecendo um

coiote perseguindo sua presa. Ele já conseguia vê-la claramente. Com

isso, Sophia sorriu com timidez para o bonito rapaz, mas ele não

retribuiu. Aquilo não era normal. Algo no feitiço não estava funcionando.

Ele parou à sua frente, a um palmo do rosto. A face séria, os olhos a

encaravam, e a menina, por algum motivo, não conseguia desviar o olhar.

Era ele quem comandava o encontro, não ela. E isso nunca havia

acontecido. Começou a tremer, mas não sentia frio, O que ocorria? Por

que não o estava encantando? Precisava fazer algo para impedir aquela

conexão.

A aproximação deixou-a intimidada, de tal forma que não

conseguiu falar, nem se tivesse alguma coisa a dizer. Provavelmente

gaguejaria. Mas Sophia não era alguém que gaguejava. Uma Leanan

Sídhe com medo de falar? Tudo parecia estranho, mas ele continuava ali,

encarando-a, decidido, como uma águia observando, sem piscar os

penetrantes olhos ou mover um músculo sequer.

Nessa hora um grupo de jovens, levemente alcoolizados, passou

perto do local batendo em bumbos improvisados e cantando músicas

irlandesas sobre duendes e seres mágicos. Uma música alegre e diferente,

que a fez desviar o olhar para o festeiro grupo. Mas ele não deixou.

E como ela gostou disso.

Pela primeira vez teve a sensação de ser beijada por um homem de

verdade. O homem com H maiúsculo, sobre o qual ouvia as humanas

comentarem, mas sem compreender do que falavam.

Ele a agarrou pela cintura com uma força gostosa, diminuindo o

pequeno espaço que existia entre os dois. Com a outra mão trouxe-lhe o

queixo em direção à sua boca, não lhe dando tempo de dizer uma

palavra. Parou, olhou-a profundamente nos olhos, leu sua alma em

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segundos e, em um aperto mais intenso, beijou-a da forma mais sedutora

e quente possível. Os lábios pressionavam os dela, criando uma dança

envolvente. A mão deslizou para os cabelos e segurou-os com a mesma

força. Sophia ficou totalmente submissa ao rapaz, ela que nunca

obedecera a ninguém. Enquanto sentisse os braços do estranho à sua

volta, o mundo não precisava existir. Se pudesse escolher, nunca

terminaria o gostoso beijo. O que será que estava acontecendo? Ela não

conseguia compreender.

Os dois estavam ofegantes e excitados. Nos breves momentos em

que não se abraçavam, Sophia conseguia ver o prazer estampado nos

olhos dele. O homem a desejava. Sem dúvidas! Agora ela o desejava

também. Queria seu beijo. Os toques.

Sentiu as mãos de William irem em direção à alça fina do vestido

esvoaçante. A garota arregalou os olhos em choque com o movimento

dele. Definitivamente aquilo não era normal. Aquele homem não era

normal.

Mesmo não querendo interromper o momento gostoso, respirou

fundo, e, com uma força que não parecia dela, colocou as duas mãos no

peito do rapaz, criando coragem para falar.

— Não podemos fazer isso — disse em sussurro. O tipo de sussurro

forçado de algo que não queria fazer, mas devia.

William afastou-se e ficou observando-a pensativo, até demais para

o gosto dela. Passou as costas da mão em seu rosto, fazendo-a fechar os

olhos. Pegou sua mão, saindo do local para se sentar sobre um tronco de

árvore caído. Ele a conduzia com firmeza e ela achou a atitude nobre.

Toda aquela aparência de bom menino, inocente, que passava através dos

sonhos, não existia.

Ele não era um menino. Era um homem.

E parecia ser o tipo de homem que sabia apreciar a mulher a seu

lado.

— Pensei que, mais uma vez, não viesse — disse o rapaz, deixando-

a surpresa.

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Já tinha ouvido sua voz nos sonhos, mas Sophia não conseguia

dizer se ainda parecia mais sexy pessoalmente. O sotaque do rapaz era

gostoso de ouvir. Provocava um formigamento pelo corpo.

— Como sabia que eu viria? — perguntou a garota.

— Sempre soube. Um dia me encontraria.

— E se não fosse hoje?

Ele riu.

— Eu estaria aqui amanhã. E depois. E depois...

Nos primeiros minutos de conversa, ficaram tímidos. Ela por não

estar acostumada à situação. Ele por estar perante uma fada. Conforme o

tempo foi passando, o papo começou a fluir e quem os visse acharia que

eram amigos de infância. Não faltava assunto. William tinha os mesmos

gostos, o mesmo estilo de pensamento, quase a mesma personalidade de

Sophia. As diferenças se transformavam em um complemento para cada

um. Ele mais focado em futuro e trabalho. Ela querendo encontrar

alguém para compartilhar a vida. Sendo que, como ele, possuía ambição

e, no fundo, ele também desejava uma companheira. Parecia uma

conexão perfeita. Algo de outra encarnação.