O Inverno das Fadas por Carolina Munhóz - Versão HTML

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— Desde pequeno, nas noites de Samhain, imaginava como seria

encontrar um Sídhe — comentou o rapaz durante a conversa.

— Nunca acreditei nessas coisas, mas quando garotinho até

sonhava com isso.

— Se não acreditava, o que estou fazendo aqui? — ela retrucou.

Ele deu uma pausa e continuou com expressão ainda mais fechada.

— Nasci em Keswick, então estou acostumado com as lendas de

seu povo. Só que apenas nos últimos tempos pensei nelas de verdade. Foi

quando comecei a sonhar e escrever sobre você.

Durante a conversa, Sophia percebeu que William sabia um pouco

da história das fadas e de como funcionava a barreira das dimensões, mas

em nenhum momento mencionou saber algo sobre as Leanan Sídhes, e

ela ficou aliviada. Se soubesse seu destino, seria catastrófico e o amor por

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ela não teria a mesma intensidade. Não recebendo a carga de energia

precisa, ela morreria e não podia se dar ao luxo de esquecer este detalhe

por causa de um mortal.

— Você sabia que eu ouvia as declarações?

— Seria possível você não ouvir o meu chamado? — ele

questionou.

Ela apenas sorriu, fazendo-o complementar:

— Em meu coração você me ouvia, mas minha mente achava que

estava ficando louco. Tenho sonhado há semanas com você. Estou feliz de

finalmente tê-la em meus braços.

Sophia aproximou-se do rapaz misterioso e encostou a cabeça em

seu ombro largo, colocando as pernas grossas apoiadas no colo dele.

Ficaram alguns minutos em silêncio observando as águas do lago se

moverem conforme a corrente. A química era tão forte e simples. Nada

forçado ou pensado, simplesmente o amor acontecia aos poucos. Se

aquilo fosse amor.

Quebrando o silêncio, ele disse:

— Está tendo festa na cidade. Todos estão animados, pois o

Halloween é um evento muito esperado.

Entrando em conflito de sentimentos, Sophia rebateu:

— Ainda não posso andar sem asas pela dimensão humana, porque

preciso ter mais contato com você para que desapareçam. Se quiser

aproveitar a festa, não tem problema — mentiu. — Sinta-se livre para ir

aonde quiser.

A verdade era que, por ser da família real, podia descer à Terra na

estatura normal, mas precisava de mais energia para poder aparecer

perante todos. Quem forneceria a energia seria William.

Ele sentiu o tom diferente na voz da menina. Reconheceu ser o

mesmo de todas as mulheres que se sentem ignoradas pela pessoa

amada. Por que até uma fada se sentiria assim? Ainda mais sendo tão

linda como ela. Parecia besteira.

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— Eu nunca iria querer estar em outro lugar que não fosse ao seu

lado. Promete nunca mais pensar o contrário?

Dizendo isso, William a envolveu nos braços, dando mais um

daqueles beijos. A pele era tão quente quanto a dela. A garota sentia

como se fossem pegar fogo a qualquer instante. Os dedos finos lhe

causavam calafrios. A boca era macia e ele a beijava como se dependesse

daquilo para viver. Novamente ela via que os movimentos dele ficavam

mais intensos e sensuais. Aos poucos o corpo do rapaz tombava sobre o

dela, fazendo-a quase se deitar no tronco da árvore.

Não era proibido dormir com um humano. Ao contrário, era

através desse tipo de amor que as Leanans conseguiam obter mais

energia. Só que a noite toda estava errada. Era para ele tê-la visto, se

encantado como um virgem e ficado horas declarando poesias, parecendo

um bobo apaixonado. Ao contrário disso, pela segunda vez, ela tentava

desacelerar para não acabar dormindo com o humano. Simplesmente não

podia ceder à tentação de agarrar aquele homem e o fazer seu. Isso

poderia afastá-lo. Esse romance seria perfeito para recarregar as forças

das quais tanto necessitava.

E iria tirar proveito disso.

Precisava.

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Well is it ill me that makes you sweat?

Ainda sou eu quem te faz suar?

A grama pinicava o corpo adormecido a céu aberto. Pétalas brancas

encontravam-se presas ao longo do cabelo da garota, jogado sobre o braço

forte do rapaz. Típica cena romântica clichê e adorável de casal

apaixonado, dormindo agarrado em posição de conchinha. William

apertou os olhos contra a claridade do amanhecer, tentando entender as

coisas ao seu redor. Aparentemente haviam passado a noite jogados à

mãe natureza e a linda mulher ainda continuava ao seu lado, dormindo

serenamente, com os olhos trêmulos por estar sonhando. Aquilo parecia

surreal. O rapaz passou a noite com uma fada. Aquelas descritas em

contos infantis. E ainda não havia dormido com ela da forma que

imaginou durante as últimas semanas, mas sim de uma forma mais

importante, significativa. Poderia ter dormido com ela, fazendo amor até

a alvorada, mas talvez a fada não estivesse mais ali em seus braços se

tivesse tomado tal atitude. Teria voado para longe, desaparecido no éter,

e ele nunca mais a tocaria.

William já preferia passar a eternidade apenas olhando para aquele

ser fantástico do que perdê-lo por uma simples questão de provar a

masculinidade. Ele não estava ali para provar nada a ninguém. Estava ali

para conhecê-la, saber sobre ela e isso bastava.

Puxou com cuidado o braço apoiado na criatura aparentemente

frágil, tentando enxergar as horas. Movimentava-se da forma mais gentil

possível, para não acordá-la. Ao perceber que já havia passado das sete

horas da manhã, se assustou e algum músculo do corpo se moveu, pois

na mesma hora ela enrugou a testa, formando algumas linhas tortas, e

abriu os olhos com dificuldade.

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— Nossa! Acho que acabamos pegando no sono — comentou com

voz sonolenta.

William a abraçou com força e sorriu. Como era linda, pensava.

Sentia-se o homem mais feliz do mundo. Poderia escrever um livro do

tamanho da Bíblia descrevendo como se sentia com o contato de seus

corpos e almas.

— A conversa foi boa ontem — disse ele. — Acabamos dormindo

aqui sem perceber.

Apesar da enorme vontade de dar continuidade ao momento, o

rapaz tentou olhar novamente as horas no relógio e confirmar se a

infelicidade de estar atrasado era real.

Sophia percebeu o movimento e levantou o dorso, dando a

possibilidade de William movimentar os braços. Porém, em vez de

reafirmar o horário, ele continuou a lhe admirar a beleza, viciado nela.

Isso fez Sophia voltar à realidade, saindo do transe feérico. Por que estava

dormindo com ele? Por que estava acordando feliz ao seu lado? Tudo

começou a atordoá-la. Deveria estar seduzindo-o e deixando-o na

vontade, O objetivo era esse, aguçar o desejo de carinho, atenção, toque e

sedução. Apenas vontade. No entanto, ele estava conseguindo mais e não

deveria. O rosto abobalhado do até então homem imponente voltava a

lembrá-la do menino que escrevia poesias, até mesmo sobre o brinco

usado por ela, O incrível charme dele na noite anterior, que parecia quase

um encanto, desaparecia aos poucos. Chegava a hora de sumir por uns

tempos para fazê-lo desejar mais. Querer mais.

Sophia levantou-se de supetão ao perceber todos os pensamentos

que teve e as situações pelas quais passou nas últimas horas. O rapaz

assustou-se com o movimento e mostrou que não tinha a intenção de

passar do ponto. Os dois, em pé, se encararam.

Ele desejando ficar mais com ela.

Ela precisando se afastar dele.

A sombra do homem atravessou o corpo do rapaz. Ele nova—

mente a tomou nos braços e pressionou os lábios carnudos contra os dela.

A Leanan não lutava, apenas apreciava. Quando o beijo terminou, sem

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dizer uma única palavra, se despediram em silêncio. Ele sentiu o coração

apertado e a famosa falta de ar. Ela...

Fingiu não sentir a mesma coisa.

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What if I wanted to break

E se eu quisesse terminar

Outra vez em Annwn, Sophia foi surpreendida:

— Some por uma noite inteira. Aparece, com o mesmo vestido de

ontem, e não quer que eu fique ansiosa para saber com quem estava? —

indagou a curiosa e, ao mesmo tempo, enciumada Lorena ao esbarrar

com Sophia nos gramados.

A loira riu internamente com a pergunta, limitando-se apenas a um

sorriso atrevido e discreto para a fada dos olhos verdes. Lorena lançou

um olhar de desaprovação, daqueles bem sérios, e seguiu em direção

oposta exibindo a pequena língua e fazendo a amiga rir. Lorena nunca

permanecia realmente brava com Sophia. As duas tinham uma relação de

coleguismo interessante. A Leanan não conseguia definir, contudo,

sempre foi muito boa.

Sophia havia dormido bem na noite passada, mas o local fora

desconfortável. O vestido, até então branco, encontrava-se com marcas de

sujeira amarronzadas por todos os lados. Folhas ainda estavam grudadas

pelo corpo e cabelo, por isso precisava se arrumar urgentemente. Mas

tudo o que passara com o jovem escritor parecia ter sido estranho; ainda

não suportava a falta de poder sobre ele. Certo, logo pela manhã o rapaz

já estava com cara de apaixonado. A típica expressão com que ela estava

acostumada, mas o domínio dele no momento do encontro havia sido

diferente.

Sentiu um poder diferente emitido por ele. Uma força muito

intensa conectando os dois, como se fossem uma alma só. Que força seria

aquela? Ela precisava descobrir.

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Sophia necessitava desabafar com alguém experiente, uma pessoa que

entendesse seus poderes. Infelizmente, o único que talvez pudesse ajudá-

la seria seu avô, e acharia estranho falar com ele sobre o rapaz e o modo

como a beijava. Discutir detalhes como a sensação diferente do seu tato

ou o gosto dos lábios não daria certo. Quem conversava esse tipo de coisa

com o avô? Seria um constrangimento total, não podia se submeter a isso.

Mas parecia não existir outra opção.

Subiu às pressas até os aposentos reais e bateu na porta por

educação, mesmo não achando necessário. Ouviu um murmúrio de

“pode entrar” vindo do outro lado da barreira maciça. Puxou, inverteu e

girou a pesada fechadura de ouro. Encontrou o governador arrumando as

vestes com cuidado, como somente um lorde inglês faria.

Por ser uma das figuras mais importantes da dimensão das fadas,

Arawn andava com roupas adequadas ao posto. Sempre se encontrava

muito elegante, parecendo um ator consagrado pela crítica. Ao ver a neta,

virou-se e foi em sua direção para cumprimentá-la. Pela roupa e pelo

estado do cabelo da garota, suspeitou do ocorrido, sentindo-se um pouco

desconfortável. Não seria fácil para ele ter aquela conversa. Na noite

anterior, o governador tinha rolado na cama, debatendo se deveria

permitir o encontro ou não. Algo o sufocava naquela história. Não

entendia por quê, mas no final acabou deixando passar.

Sophia entrou acanhada, ainda sem saber como conversar sobre o

assunto. Estava acostumada a seduzir rapazes e depois os deixar

agonizando até a morte. Simples e básico. Uma fórmula já conhecida

desde que era menina e com a qual nunca teve problemas mais sérios.

Jamais havia pedido conselhos sobre esse tipo de assunto para alguém,

até o momento. Não imaginava que seria justamente para o avô.

Vendo a expressão confusa da garota, como se tivesse um grande

ponto de interrogação na testa, Arawn resolveu começar a conversa para

quebrar o gelo e deixá-la mais confortável. Estava ciente de que Sophia

sempre havia sido muito reservada sobre sua vida.

— Com um olhar uma pessoa consegue dizer muitas coisas, minha

neta, O seu me mostra uma menina confusa e sei que você não é assim.

Conte-me o que aconteceu.

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Sophia, a fada fria como o inverno, que nunca se abalava, nem com

a morte, nem com a vida, simplesmente desatou a chorar, se jogando no

colo do avô. Ele a acolheu nos braços, beijando sua cabeça com carinho,

esperando que as lágrimas trouxessem alívio para as angústias. Não

conseguia ver a amada neta sofrer, afinal ela não era uma criatura feita

para padecer. Ela, ao contrário, fazia os outros sofrerem. Aquele deveria

ser o sentido certo de sua vida.

A garota contou em detalhes os acontecimentos da virada de

Samhain, desde a falta de deslumbramento de William até o fato de ele

tê-la dominado até o amanhecer. O avô a escutou pacientemente,

esperando compreender todos os sentimentos com que aquele doce, mas

ao mesmo tempo frio, coração lidava. Ele já não era mais moço e estava

sozinho havia muito tempo, desde o falecimento de sua amada. Sua vida

sempre foi difícil emocionalmente, por ter aguentado a passagem dela e

do filho, O que poderia fazer a respeito da dor da neta? Não suportaria

perdê-la para um desconhecido.

Eu entendo. O caso desse jovem parece diferente dos de sempre —

disse, ao ouvir os soluços da garota. — Contudo, não creio ser distinto.

Talvez apenas o biotipo dele destoe dos outros que você encantou no

passado. Não se esqueça: você é uma Leanan Sídhe e precisa da energia

desse rapaz para conseguir sobreviver.

Ele deu um longo suspiro e completou:

— Posso ficar tranquilo quanto a isso? Irá começar a deixar os

sentimentos de lado em relação a esse rapaz?

— Claro, vovô. Eu nunca esqueço. Afinal, não tenho como

esquecer, sei que sou uma assassina e sinto minhas veias saltarem quando

estou perto dele ou o ouço nos pensamentos — respondeu Sophia, entre

respirações pausadas e pesadas. — Só fiquei assustada, vulnerável,

talvez, por ser Samhain.

Arawn soltou um leve riso.

Todos ficamos vulneráveis quando a Deusa está mais presente em

nossas dimensões. Mas não se considere uma mera assassina. Você sabe

que caça porque segue desígnios. Não há maldade em você, minha

querida. Existe apenas o instinto de sobrevivência de que precisa, e deve

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ser grata por isso. Todos somos criaturas de algo maior, que nos moldou

para ser o que somos.

— Em alguns momentos não me sinto uma fada, vovô! se a Leanan,

ainda engolindo o choro engasgado. — Vejo garotas como Lorena, fadas

lindas do bem, cuidando da humanidade, e não consigo me comparar a

elas. Pareço mais uma vampira com asas. Não sei mais se mereço viver.

O avô a abraçou mais forte, dando a impressão de cobri-la com

todo o corpo. Tentava mostrar compreensão diante de toda a sua

angústia. Conviveu com a mãe de Sophia, outra Leanan Sídhe, e viu seu

desespero quando se apaixonou por seu filho. A maioria das Leanan

Sidhes gostava apenas de aproveitar a energia de suas vítimas. Mas

poucos casos, como o da mãe de Sophia, aconteciam. Uma Leanan era

capaz de desenvolver o sentimento do amor, mas, por não ter permissão

para amar, acabava sofrendo. E, em casos como o da mãe da garota,

acabavam morrendo. Temia que essa confusão de sentimentos

significasse alguma coisa forte relacionada àquele escritor. Ainda não

conseguia entender a diferença dele para os outros inúmeros artistas

seduzidos por Sophia no passado.

— Não fale besteira menina, pois os Deuses ouvem. Cada um

recebe o fardo que merece. Ou melhor, aguenta. Você não viria a esta

vida como uma Leanan se não estivesse preparada para aguentar as

dificuldades implicadas a isso — o governador fez uma longa pausa e

continuou. — Como tal, você aprendeu a amar muito mais que uma fada

ou humano qualquer. Os sentimentos desses rapazes absorvidos por você

são algo tão completo e perfeito que mesmo eu, governador de Annwn,

nunca terei o prazer e o êxtase de sentir. Seja grata, sempre grata por isso.

As lágrimas salgadas secaram no rosto, agora inchado, da bela

garota. Aparentava um leve tom macabro, parecido com o dos filmes de

Tim Burton, por estar envolto em sujeira, a maioria fuligem, lágrimas e

palidez. Sophia saiu do colo do avô, dando-lhe um longo beijo na testa,

tentando demonstrar com intensidade a gratidão por toda sabedoria

oferecida por ele. Não existia pessoa melhor no mundo para lhe dar

conselhos. Não existia pessoa melhor no mundo para lhe dar carinho. Em

troca, ela ficava grata por não o fazer sofrer fisicamente, por amá-lo e ser

amada. Ela sentia-se grata por poder contar com ele e não precisar matá-

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lo. Afinal, se ele a amava, poderia ser arriscado. Ficou com medo em

relação a essa questão durante alguns anos. Mas hoje aquilo não a

assustava mais. Ela não permitia.

Uma semana havia se passado desde o fim do verão. As aflições passadas

pela Leanan haviam sumido ou, pelo tempo, sido deixadas para trás.

Após atravessar a porta do aposento do avô naquele Jia, todas as vezes

que escutava súplicas ou declarações na mente, ou tinha visões do

escritor, simplesmente as ignorava. Fingia não ouvir. Precisava ir com

calma, reconquistar sua autoconfiança, para então decidir vê-lo

novamente. Tudo isso era necessário para a própria sobrevivência.

Sophia sentia-se muito sozinha desde pequena. Característica

normal de uma fada como ela, que precisava focar em homens para obter

sustento da alma. Ser sozinha não a afetava, até apreciava a solidão, mas

sofrer sozinha não era algo muito legal para qualquer garota.

Não via Lorena desde o retorno, Guillian não tinha mais entrado

em contato e não via Anna nem à distância. Com isso, na maior parte do

tempo, passava o dia no quarto escrevendo, lendo algum livro de

romance humano ou tentando bloquear os sussurros sensuais de Will.

Um bom hábito adotado por ela para se livrar desses pensamentos era

mergulhar no lago congelante de Annwn. O mesmo em que observara as

fadas nuas na semana anterior. A água gelada e a brisa do outono, que

cortava o rosto como garras afiadas, afastavam outros seres do local,

dando-lhe certa sensação de posse. A única maluca o bastante para

encarar o lago gelado parecia ser ela. Mas a sensação congelante não

passava de algo necessário para esfriar a cabeça borbulhando de ideias e

emoções confusas. Ficava horas dando braçadas de um lado a outro no

extenso lago. Ele não se comparava ao Bassenthwaite, e era possível fazer

a travessia a nado. Porém, não sabia se deveria continuar atravessando-o.

No final, sempre decidia fazê-lo, se esforçando até o limite do corpo.

Sophia não nadava nua como as outras fadas, prateado e o cabelo

platinado grudavam no corpo como se fossem parte da pele rosada.

Quando cansava de ficar na água escura, se jogava no leito úmido, onde

algumas ondas ainda a alcançavam, e olhava o céu cinzento ou às vezes

acobreado. Sentia falta do azul-turquesa, que não voltaria tão cedo.

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Quando o céu azul chegasse, talvez William não estivesse mais ao seu

lado para poder identificar os formatos das nuvens. Sentiu uma pontada

forte no peito quando pensou nele. Uma sensação semelhante a uma

agulha perfurando a veia de uma pessoa com pânico de hospital. Ela

queria a presença de William naquele momento? Talvez. Seu coração

parecia dizer que sim.

Sempre foi de assistir a muitos filmes produzidos pelos humanos,

na maioria histórias de amores proibidos ou secretos. Ela achava muito

bonita a forma como os mortais se amavam, partilhando suas vidas pela

eternidade. Algo que uma fada, elfo ou Leanan nunca iria compreender.

Essa dependência, o desejo de controlar ou ser controlado pelo outro,

tudo com o objetivo de permanecerem juntos até o fim de suas vidas, qual

tempo fosse. A. única forma de dependência sentida por ela era com

relação à energia, porque sentimentalmente não sentia falta de alguém ao

seu lado. Se não fosse por necessidade, talvez não se apaixonasse tantas

vezes, como havia feito no passado. Era muito arriscado...

Enquanto nadava, sentiu que William recomeçava a falar no fundo

de sua perturbada mente, dando a impressão de um murmúrio baixo e

irritante. Ficava um zumbido contínuo. Não conseguia entender as

palavras e, para fazê-lo, tinha de se concentrar e se conectar a ele. Algo

que evitava havia dias. Jogou-se na beirada do lago como um saco de

batatas, tremendo de frio, e fechou os olhos. Sentia a água bater na lateral

esquerda do corpo, fazendo-a arrepiar-se ainda mais, parecendo um gato

após o banho. Concentrou-se na voz e no que ela dizia. Depois de um

tempo, ouviu o sotaque. E aquela pronúncia encantadora.

Uma energia vinda do dedão do pé foi subindo pelo corpo,

formigando conforme passava. Era o desejo sexual sentido por ela. As

palavras ainda não faziam sentido, mas logo entenderia tudo. Quando

sentiu que a energia já havia caminhado para as pernas e se concentrava

na região íntima, uma sensação gostosa a inundou... a mesma que uma

mulher sente ao ser agarrada por um homem durante o ato sexual.

William tinha esse efeito sobre ela. A energia passou pela área úmida e

continuou a subir, até chegar à cabeça, fazendo despertar a compreensão

das palavras do rapaz. Não era uma declaração de amor, poema ou

qualquer coisa do gênero. Não parecia ser uma súplica desesperada de

um sujeito apaixonado, que não conseguia chegar perto da amada. Ela

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ouvia e, aos poucos, começava a enxergar, uma conversa entre ele e uma

garota esquisita, com aparência gótica e maluca. Os cabelos negros

bagunçados eram jogados para lá e para cá, enquanto conversava

flertando com William.

Com o seu William. Aquilo não era bom.

Sophia não entendia o que conversavam, mas percebeu claramente

a falta de interesse do rapaz nas palavras da garota esquisita. A gótica

falava gesticulando, sorria tentando mostrar o máximo dos dentes, mexia

no cabelo excessivamente e colocava a mão na perna grossa do rapaz. Ele

só olhava para a frente, parecendo distante, e no máximo concordava com

alguma coisa dita por ela. Sophia, ainda molhada, remexia de frio e raiva.

Quem visse a garota, iria achar que estava tendo um ataque à beira do

lago. Na verdade, até estava, de ciúmes do escritor que deveria estar

apaixonado por ela. Somente por ela. Como podia estar conversando com

outra garota, em vez de estar suplicando por seu amor? Como não sentia

falta? Como dava atenção à outra menina?

Assistir à outra mulher tocar nele, flertar com ele e dizer seu nome

havia sido a gota d’água. Se Sophia estava preparada ou não, era

irrelevante. O importante era não deixar a gótica ficar com seu mais novo

escolhido. Se encontrasse marcas vulgares de batom vermelho nas roupas

dele ou marcas de unhas pelo corpo, com certeza não controlaria sua

fúria. E um fato bom das Leanans era que, quando provocadas,

conseguiam ficar ainda mais irresistíveis. A violência e a raiva

estimulavam o sex appeal. Dava a ela um brilho sedutor, impossível de

ser ignorado. Como se ele tivesse coragem de ignorar um ser como ela.

Seria possível algo assim? Somente nos sonhos dele, não na realidade.

Sophia continuou concentrada, pois a cena do casal conversando

ainda parecia nítida. Agora via a garota encostar a cabeça no ombro de

William, dando risada de alguma coisa, parecendo uma apaixonada

histérica. Ele continuava pensativo, mas deixava a outra se encostar nele.

Ato não aceito pela fada. Fazendo um enorme esforço, juntou sua energia,

conseguindo mandar para o rapaz uma vibração através do plano

invisível e, na mente dele, um sussurro sexy foi trazido com o vento

suave, O sussurro só dizia “William”, mas ele sabia quem havia mandado

o recado. Só podia ser ela. A mulher que tirava seu sono, estragava seu

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humor, mas a quem desejava loucamente. Por que ela sussurrava seu

nome sendo que o ignorava havia dias? Não importa. Ele sorriu.

Ela estava de volta.

Uma mão pesada a tirou do transe bruscamente, empurrando-a de

um lado para o outro, tentando reanimá-la. Quem a sacudia era Henry,

um elfo com o qual Sophia havia estudado. A garota abriu os olhos

atordoada, com dor de cabeça e trêmula de um frio que, na verdade, em

sua consciência, não sentia, mas o corpo parecia notar. O garoto a havia

encontrado no lago tendo unia crise. Ele ainda a olhava espantado e

chocado com a cena. Encontrou a neta do governador estirada ao chão,

quase congelada, se mexendo como se estivesse tendo uma espécie de

convulsão. Henry abraçou a garota para ver se a mantinha quente com o

calor de seu corpo. Ela não reclamou, deixando-se ser carregada para

dentro do castelo, onde poderia se secar. As pessoas que os viam no meio

do caminho ficavam assustadas, O fato de ela estar de maiô e molhada

passava a impressão de afogamento e de que o garoto a havia resgatado.

Logo, uma toalha branca cheirando à lavanda estava sobre ela, e Henry já

se aproximava da escada que a levaria ao quarto. Ele estava sendo muito

atencioso. As empregadas do castelo vieram acudi-los e esperavam o

momento em que pudessem cuidar da Leanan.

O garoto a colocou na cama, mesmo molhada, e beijou-lhe a mão,

desejando melhoras. Agora ela seria cuidada pelas serviçais e logo o

governador estaria com a neta. Todos da dimensão sabiam que o homem

tinha um grande carinho por ela; seu bem-estar era uma das maiores

prioridades dele. Henry estava feliz por tê-la encontrado a tempo, pois

podia ter acontecido algo trágico. A fada poderia ter morrido congelada.

Ela nunca havia puxado conversa com ele durante o tempo em que

estudaram juntos. Não porque fosse esnobe ou algo do tipo, mas por ser

do estilo solitário. As fadas sempre possuíam um espírito borbulhante e

sorridente. Eram criaturas de paz e amor. Visavam o mundo em

harmonia. Mas não Sophia. Definitivamente aquela não era a melhor

forma de caracterizar uma Leanan Sídhe. Sempre a mais quieta, a fechada

da turma, que não tinha muitos amigos e mal abria a boca. Mas linda.

Como era linda! Não era à toa que sua existência girava em torno de

beleza. Até para uma fada, ela conseguia ser a mais bela. Porém,

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precisava tomar cuidado. Um elfo não se encantava facilmente por uma

Leanan Sídhe, como os humanos, mas, caso se permitisse, acabaria sendo

fisgado pelo feitiço como qualquer outro mortal. O pai de Sophia servia

de perfeito exemplo.

A garota ainda estava confusa. Não sabia muito bem o que

acontecia ao seu redor. Lembrava-se de ter visto uma menina com

William, ficado com muito ciúme da cena, de ter chamado a atenção dele

e de Henry, se esse era o nome do garoto que a havia achado no lago. Os

curandeiros diziam que ela teve princípio de hipotermia leve. A sensação

de frio, tremores, a letargia motora e os espasmos musculares mostravam

isso. A pele havia ficado fria, as extremidades do corpo apresentavam

tonalidade cinzenta e levemente arroxeada. Além disso, apresentava o

sintoma principal; confusão mental.

O avô chegou desesperado ao quarto, onde agora Sophia

encontrava-se quentinha, sob as cobertas grossas de lã pura, e, felizmente

de cabelos secos. Estava rodeada de pessoas, mas, com a entrada do

governador, a maioria saiu do aposento, ficando somente os curandeiros

ainda a observá-la.

— Que descuido, minha neta! Onde tem estado com a cabeça

ultimamente? — disse ele, um pouco bravo pelo incidente. — Eu sei. Essa

transição da fase jovem para a adulta deve estar lhe afetando, mas pelo

amor da Deusa, você podia ter morrido naquele lago. Eu não estava

gostando mesmo desses nados frequentes.

Ao ver a garota apenas o observando com uma expressão chocada

e triste, parou e respirou fundo. Não queria deixá-la deprimida. Ainda

mais depois de toda a situação passada, mas ela precisava entender que

todas as atitudes geravam consequências.

Uma Leanan deveria ter aprendido esta lei há muito tempo.

Após minutos de observação, a garota ameaçou falar. A expressão

tornou-se serena. Ela apenas murmurou um “desculpa” e fechou os olhos

mostrando intenção de dormir. O governador entendeu o recado e,

dando meia-volta, retirou-se do quarto.

O dia havia sido extenuante.

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I’m glad you came

Estou feliz que você vejo

As visitas foram proibidas. Sophia não queria ver ninguém. Desde

o acidente no lago, parecia que todos da dimensão resolveram tentar ser

seus amigos. Aquilo era estranho, já que muitos normalmente a evitavam.

Pensou em receber Henry, afinal ele salvou sua vida. E talvez até Lorena,

que ouviu gritar com um dos enfermeiros por não tê-la deixado entrar.

Mas achou melhor se isolar até ficar boa o bastante para sair do castelo.

No momento, não conseguia fazer nada fora do quarto. A sua energia

tinha baixado completamente depois do acontecido e, mais do que nunca,

precisava da energia de William. O avô e outras fadas mais poderosas

estavam rezando e preparando poções para ela ficar boa. Precisava descer

à dimensão dos humanos. Por estar fraca, não havia feito qualquer

contato com William. Se apenas mandasse uma palavra para ele ou

tentasse ver alguma coisa, provavelmente se esgotaria ainda mais.

E isso significaria a morte.

Tinha raiva ao pensar que talvez ele estivesse com a outra garota.

Talvez o rapaz pudesse querer se vingar dela, beijando a outra garota; e

Sophia não queria essa atitude. Agora além de querer vê-lo para

satisfazer o ego, queria-o ainda mais para recarregar o espírito. O bom do

afastamento era que William provavelmente já deveria ter enlouquecido

um pouco com a falta dos beijos. Tinha de ter enlouquecido. Mesmo

sendo diferente, seria impossível não ter ficado abalado por ela. No final

das contas, ela sempre seria uma mulher extremamente bonita, para

qualquer tipo de gosto masculino.

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Uma batida firme na porta foi ouvida. Possivelmente, alguma

serviçal ou curandeiro trazendo canja de galinha quente ou poção de cura

feita com amor. Só que Sophia ficou assustada ao ver Guillian parado na

porta. A asa dele estava com um tom mais escuro, o rosto não tinha o

sorriso exuberante de sempre. Para o garoto estar lá, do nada,

provavelmente Arawn tinha contado à Melanie Ame sobre o acidente. A

rainha devia ter comentado com ele, sabendo do carinho do rapaz por ela.

Ele entrou sem dizer uma palavra. Tirou o casaco bege aberto nas

Costas e também aproveitou para tirar os sapatos marrons. Sem ainda

dizer uma palavra, entrou embaixo das cobertas quentes ao lado de

Sophia e a abraçou. Como ela havia feito com William. Por que ele fazia

isso com ela? Na verdade, no fundo mesmo, portava para a garota.

Sentia-se bem naquele momento.

Ficaram horas assim.

O dia transformou-se em noite e os dois ainda estavam agarrados. Agora

dormindo serenamente, parecendo dois bebês. Ela acordou antes e ficou

olhando, pela janela aberta, as estrelas brilharem lá fora. Ele se moveu

mostrando estar acordado também. Virando -se a garota sorriu para o

rapaz, como uma forma de agradecimento pelo momento de carinho.

Guillian a puxou pela Cintura com uma força delicada e ficou mais perto

dela. Perto o bastante para sentir o ar quente sair pela boca da fada, O que

acontecia no momento era perigoso, mas necessário. Ele sabia que ela

precisava ficar forte para encontrar o maldito e sortudo mortal. E como a

amava secretamente, queria o melhor para ela. Não frequentava tanto o

palácio do governador por esse motivo. A presença dela embaralhava

seus sentimentos. Ele sempre corria risco ao se entre entregar aos seus

encantos.

Hoje era o dia em que iria, finalmente, atravessar o limite imposto

quando percebeu que ela tinha efeito sobre ele.

Depois disso, ele nunca mais veria Sophia Coldheart.

Simplesmente para não morrer.

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Ainda sentindo o bafo quente na nuca e observando o olhar confuso dela,

Guillian resolveu continuar. Com uma das mãos envolveu a cintura fina

da garota e com a outra o pescoço. Os lábios se tocavam levemente,

parecendo roçar um no outro. Os olhos dela perguntavam se ele

realmente queria fazer aquilo. Os dele responderam com o ato seguinte.

Ele a tomou com um beijo suave e emocionante, nada parecido com

aquele intenso e sedutor de William.

Para Sophia parecia quase como se estivesse beijando um irmão ou

uma pessoa querida. Quando percebeu o tipo de pensamento, resolveu

desligar a mente e aproveitar o momento. Sabia o porquê de Guillian

estar fazendo aquilo. Tinha noção da enorme ajuda.

Rendeu-se aos beijos no canto da boca e, aos poucos, às carícias. Foi

deixando as mãos grandes do rapaz lhe explorarem o corpo pequeno,

porém curvilíneo. Ele gentilmente foi se aproximando dos seios da

garota, apertando-os com carinho, emitindo pequenos suspiros de

excitação. Mordia levemente os lábios de Sophia e explorava com a língua

os cantos mais obscuros de sua alma. Ao beijar alguém, permite-se que a

outra pessoa conheça seu espírito. Ela aprendia a conhecer o dele. Sophia

ajudou o rapaz a abrir a camisola e revelou não estar usando nenhum

tipo de lingerie. Agora os movimentos até então infantis, de exploração

sexual, de amor juvenil, tornaram-se perigosos e quentes.

Ele também tirou a roupa e os dois corpos se encontraram expostos

ao prazer carnal, O beijo ficava mais intenso. Os olhares, também. As

mãos se esbarravam, enquanto um tentava explorar mais o corpo do

outro. Guillian acariciava as partes íntimas dela e a garota sentia as veias

começarem a pulsar. O êxtase proporcionado era maravilhoso. Ela

realmente se sentia em um transe, dopada por uma força maior. Via as

cores se intensificarem como se estivesse sob efeito alucinógeno. Sophia

começou a acariciá-lo e agora os sons começaram a ser ouvidos. Os

gemidos dele e os dela. Ambos aproveitavam a troca de sentimentos e

excitações. A permuta de carinho existente no ato sexual de um jovem

casal explorando o amor e o sexo.

Na urgência de energia, a fada resolveu bancar a amante, a

dominadora, a que iria comandar a dança. Deitou o homem à sua frente

na cama e subiu em seu colo, ficando sentada próxima a região desejada.

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Naquela posição ele a enxergava por inteiro e parecia ser seu melhor

ângulo. O longo cabelo iluminado ficava jogado pelos ombros curvados.

Os seios proporcionais ao seu tamanho, expostos na direção dele.

Conseguia ver a junção dos corpos, em uma visão favorecida. Ela

tombou, beijando-o mais uma vez, como se ainda estivesse pedindo

permissão para fazer aquilo. Pensamentos rolavam na mente e ela tentava

afastá-los. Precisava do momento. Necessitava.

O frenesi começou. Ao se deixar consumir, a fúria da Leanan foi

despertada e seu poder se intensificava cada vez mais. Guillian via os

ramos negros da pele da garota se moverem, dando a impressão de serem

criaturas vivas. Era uma exaltação violenta, uma sensação de

arrebatamento e inquietação de espírito. Simplesmente o melhor

momento da vida do rapaz alado, pois consistia em pura excitação.

A fada dançava se contorcendo em um movimento programado e

ondulado, como uma serpente encantada por um flautista marroquino.

Ela ficava linda se movendo daquela maneira. As mãos fortes dele

agarravam as coxas brancas de Sophia, deixando marcas avermelhadas.

Mas ela não ligava. Era uma dor gostosa. A dor e o frenesi descontrolados

a mantinham viva, a deixavam louca. Faziam-na querer mais. E mais.

Ficaram no ritmo por um bom tempo. O bastante para o garoto se

controlar e não terminar antes de ela receber a carga necessária, como em

um sexo tântrico. Os olhos da fada giravam. A região já estava mais do

que úmida e o momento perfeito estava para chegar. O instante breve e

profundo criado pelos Deuses e iluminado por todas as fadas e mulheres

do mundo. A hora do gozo das virgens e deleite dos homens.

Quando aconteceu, foi um momento único para Guillian. Para ela,

apenas mais um. Ao vê-la se deliciar, o garoto finalmente se sentiu

homem, aquele que fazia uma fada chegar ao clímax, porque todos os

pelos do corpo da garota ficaram arrepiados, os olhos apertados de

prazer, as unhas cravaram na carne do rapaz e um longo gemido poderia

ter sido escutado a quilômetros. A Leanan havia recuperado a carga de

energia necessária para voltar à vida normal, e assim atingiram o êxtase.

Sophia languidamente se jogou ao lado do garoto. Parecia exausta,

mas, na verdade, estava mais viva do que nunca. Ela esbanjava o maior

sorriso que ele já tinha visto em seu rosto. Parecia realmente feliz.

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Já ele...

Não estava nada bem.

Guillian levantou apressado e foi até a janela tentando sentir a brisa

da noite, por causa da falta de ar sentida pelos pulmões. Sophia ficou, da

cama, observando o corpo forte do rapaz, iluminado pela lua. Ela

entendia por que ele sentia os pulmões apertados. Sabia por que deveria

estar extremamente confuso. Ele havia dormido com uma Leanan, não

com uma fada qualquer. Mas ele era Guillian. Seu amigo de infância, com

quem sempre deu risada, companheiro de brincadeiras, O rapaz que a

cortejava com um tom bem-humorado e sempre estaria ali se ela

precisasse. Mas aquele era um ato único. Agora ele iria ficar atordoado,

provavelmente a rainha iria sedá-lo e afastá-lo de Sophia. Era triste.

Nunca mais veria Guillian Louis das Fadas.

Ele iria, infinitamente, sofrer um pouco por ter tido contato com

ela. Ela sabia, pois um pequeno ponto preto apareceu em seu pulso,

deixando-a assustada.

— Meu amor, o ponto surgiu. Você precisa fugir agora — disse

Sophia, sentindo vontade de chorar.

O rapaz continuava na janela, segurando a cabeça com as duas

mãos, parecendo estar tampando os ouvidos de alguma coisa que não

queria ouvir. Ele a chacoalhava para todos os lados e ela entendia a dor

que ele deveria estar sentindo.

— Não! — dizia ele. — Não, eu não quero sair daqui. É você,

Sophia. Sempre foi você.

Ela abaixou os olhos e cobriu o corpo com o lençol, sentando-se na

cama macia.

— Guillian, vá! - falou Sophia, tentando manter firmeza no tom de

voz. — Vá e nunca mais volte, O que fez esta noite eu nunca irei esquecer.

Tenho uma dívida eterna com você e um dos meus pagamentos é este. Vá

e não volte. Não quero que este ponto cresça em meu braço. Não quero

matá-lo, meu irmão.

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A fada se levantou e juntou as roupas do rapaz que continuava a se

contorcer. Colocou tudo nos braços e o enrolou na coberta, levando-o em

direção à porta. Precisava afastá-lo o mais rápido possível. Até o

momento, ela ainda conseguia controlar o poder, mas se ele continuasse

ao seu lado iria ser completamente fisgado. Não queria que isso

acontecesse. Não precisava ser o destino dele.

Guillian parecia voltar um pouco a si. Deixou as Coisas apoiadas

em um canto do quarto, vestiu a cueca branca, embrulhou-se novamente

e, pegando tudo, foi em direção à maçaneta. Antes de abrir a porta, olhou

para garota enrolada no lençol preto à sua frente.

— Eu te amo, Sophia!

E dizendo isso, saiu do quarto, levando consigo uma parte da alma

da menina. Pela primeira vez, ela sentiu uma pontada de remorso e

tristeza, após ter sentido o gozo da juventude.

— Nunca mais verei você... — disse ela em voz alta, sabendo que

estava sozinha no quarto.

No dia seguinte, já estava bem disposta. Todos do castelo imaginavam

por quê, mas ninguém comentava sobre o assunto, muito menos o

governador. Era uma situação muito delicada: saber que sua princesa na

verdade era uma mulher. Uma mulher dominadora. Arawn apenas

verificou com Melanie Ame se Guillian havia chegado bem. De acordo

com a rainha, ele tinha ficado febril a noite toda. Ela teve de sedá-lo para

o efeito da Leanan não penetrar em sua alma. Guillian teria de se

“desligar” do mundo por um tempo. Havia feito algo muito perigoso,

porém, tinha sido por uma boa causa, e disso todos sabiam.

Sophia encontrou o avô no café da manhã. Achou importante

sentar-se ao seu lado na refeição matinal, para mostrar seu bom estado.

Ele devia estar preocupado. Não queria perdê-la. Por isso, os dois ficaram

um bom tempo quietos enquanto comiam, mas logo os assuntos do reino

foram trazidos à tona e os minutos passaram tão rápido como foguetes.

Quando estavam para se retirar, Sophia resolveu avisar ao avô que

iria atrás de William. O governador não gostava do rapaz, por algum

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motivo desconhecido, mas entendia a atitude dela. Até concordava.

Afinal, Guillian havia arriscado a vida para que a garota tivesse força, a

fim de encontrar o escritor e finalmente atingir sua carga de energia

completa. Com isso feito, viveria por mais alguns meses tranquila.

—Espero que não se envolva demais com esse rapaz, Sophia

reforçou Arawn. — Não me traz uma boa energia esse relacionamento.

Compreendo a necessidade do contato entre vocês, mas tome cuidado.

Faça seu trabalho e pronto.

Ela aquiesceu e, pedindo licença, saiu para os jardins. Não seria

fácil sair da dimensão sem que ninguém a observasse como um fantasma.

Até o dia anterior, todos sabiam que estava muito doente, mas agora

aparecia saudável andando pela propriedade. Na mente dos fofoqueiros

de plantão, já constava a palavra que resolvia o mistério da cura da

Leanan: sexo. Aquilo a deixava muito encabulada. Contudo, não deveria

se preocupar com isso. Tinha de seguir em frente.

Sophia não queria perder nem mais um minuto. Andou até a

direção norte e atravessou o tecido das dimensões. Necessitava encontrar

o escritor o quanto antes, pois ainda pensava na cena dele com a menina;

e o ciúme continuava a incomodá-la.

Aquilo era estranho para ela. A maioria dos amantes que tinha

possuído no passado, em sua vida normal, tinham esposas e namoradas.

Algo comum de conviver, pois Sophia era apenas a musa, as esposas

eram as companheiras do dia a dia, O fato de sentir algo a mais por ele

acabava sendo intrigante. Não compreendia aquilo. Chegou até a lembrar

da esposa de Donald, que se envolveu em uma briga poucos meses antes.

Como sempre, o temperamento dela era semelhante ao dele e sentia falta

de Donald cantando músicas depressivas ao seu ouvido. As músicas de

uma geração inteira. Por que será que não sentia ciúmes da mulher de

Donald, mas da gótica sim? Precisava entender ou ficaria louca. Se já não

estivesse.

Resolveu deixar de lado os pensamentos obscuros e foi

caminhando a passos curtos até Keswick, para verse localizava William.

Pelas visões, conseguia enxergar o sebo de livros onde trabalhava e

queria surpreendê-lo. Havia ido à dimensão novamente como fada, então

ele a veria na multidão, mas ela não apareceria para os outros. Não iria

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gastar energia à toa. Ele provavelmente já ficaria feliz apenas de vê-la.

Pelo menos era o que Sophia esperava.

A Leanan parou em frente à loja revestida de madeira de aspecto

rústico. Perfeito lugar para os amantes de livros se esconderem por horas

nas prateleiras empoeiradas lotadas de informações. Verificou pela janela

que não havia ninguém no local e estranhou o fato, já que ainda era cedo

para fechar.

Uma senhora parou ao seu lado, sem saber que ela estava lá, e

grudou a face rosada no vidro cheio de marcas de dedos. A mulher bufou

algumas palavras, mostrando insatisfação com o fato de o

estabelecimento estar fechado e continuou seu caminho, ainda

resmungando. Ao dar apenas alguns passos, foi interrompida por uma

conhecida e fez um comentário interessante, para Sophia:

— O menino William deve estar na biblioteca. Ouvi dizer que foi

escolhido para representar a cidade no festival de literatura de Cúmbria.

A conhecida pareceu interessada na conversa e continuou a ouvir

com atenção. O coração de Sophia saltou do peito e ela entendeu que

precisava encontrar a biblioteca. O festival seria peru feito. Uma ótima

oportunidade para conseguir obter energia de William, porque

provavelmente o jovem teria de criar novos textos e poemas. Escritos que

necessitariam inspiração.

Escritos que necessitariam de uma musa.

Keswick não era uma cidade muito grande, então não foi difícil encontrar

a pequena biblioteca, localizada perto da prefeitura. Ela também ficava

nas proximidades de um bar que recentemente havia saído em várias

matérias de jornais. O local ficou famoso, pois nas câmeras de segurança

do estabelecimento haviam captado imagens de fantasmas após o horário

de funcionamento. Como antes o bar tinha sido uma funerária, não seria

estranho haver veracidade no fato. Sophia sabia que muitos espíritos não

conseguiam atravessar o véu e seguir seu caminho.

A biblioteca estava movimentada para um dia de semana e horário

comercial. Sophia reparou na exposição de arte que acontecia no local. Ao

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observar melhor, viu que eram desenhos e histórias de Beatrix Potter,

consagrada escritora inglesa do livro A história do Pedro Coelho,

conhecido como Peter Rabbit. A garota admirava muito o trabalho dela e

sabia que a cidade a amava, pois a escritora havia passado um verão nas

proximidades e utilizara as paisagens locais em suas histórias.

Andando pelo local, descobriu a ligação da exposição com o

comentário da senhora em frente ao sebo. Sophia encontrou um cartaz

colorido informando que um concurso literário estava para acontecer no

condado de Cúmbria e representantes de todas as cidades estavam sendo

selecionados, O prêmio levava o nome de Helen Beatrix Potter, uma

homenagem à escritora que já havia inspirado tantos escritores. Dizem

que até a autora de Harry Potter gostava das obras de miss Beatrix Potter.

O importante era que William Bass estava relacionado a este evento e

poderia ser nomeado ganhador desse título. Agora, Sophia iria se

encarregar de fazer isso acontecer. Afinal, o rapaz possuía talento, só

faltava um empurrãozinho de alguém mais experiente nas artes.

A fada aproximou-se do salão maior, onde um grupo de senhores e

senhoras animadas discutia táticas para o concurso. No meio do tumulto

encontrava-se William, com pensamento perdido e expressão levemente

preocupada no rosto. Era curioso, pois ele deveria estar feliz com a

indicação e por representar a cidade em algo que gostava tanto de fazer.

Quando ela ficou visível para ele, viu as linhas do rosto do rapaz se

comprimirem. Ele pareceu ainda mais confuso, talvez um pouco bravo,

sério. Enfim, não havia demonstrado muita felicidade ao vê-la.

Provavelmente, tentava entender o motivo de Sophia Coldheart aparecer

para ele novamente. Na última vez tinha passado uma noite maravilhosa

com ela e depois a garota demorara a aparecer.

William ainda estava rodeado de pessoas que chamavam sua

atenção a todo instante, porém, o jovem escritor não conseguia se

concentrar. Não enquanto a bela fada circulava pelos arredores,

encarando-o com desejo e sorrindo a todo o momento, O sorriso dela já

derretia qualquer tipo de frieza existente no coração. Ele tentava mostrar

indiferença à presença dela, mas era impossível, enquanto mais uma vez

sua atenção era solicitada.

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— Senhor Bass! — disse em tom de reprovação uma senhora de

cabelos vermelhos como tomates, presos em um coque. — Está muito

disperso para um jovem que acaba de ser nomeado representante de

nossa cidade. Algo o perturba?

William desculpou-se e pediu licença, dizendo não estar muito bem

de saúde. Precisava sair da reunião e pensar se iria falar com aquele ser

ou não.

Viu que Sophia o seguiu e, só pelas asas, já entendeu que apenas

ele podia vê-la. Entrou em um banheiro e esperou que ela o achasse.

— O que você quer? — perguntou o rapaz sério, com os braços

cruzados, ao vê-la abrir a porta.

Ele estava apoiado na pia e afastado da entrada. Parecia querer

manter certa distância dela. Sophia respeitou.

— Um dia me recebe com beijos e no outro me evita? — questionou

a garota com certo sarcasmo.

—Você sabe que não é assim. Não brinque comigo, pois eu não

estou brincando com você — Ele respirou fundo, parecendo revoltado. —

Você sabe como é a sensação de achar que está perdendo a cabeça? Que

ficou louco e não sabia? Maldição, garota! É assim que me sinto.

Batendo a mão com força na pia, ele se mostrava chateado com

toda a situação. Sophia ficou chocada com tudo. Já havia encontrado

homens com temperamentos fortes. Eles não gostavam do fato de

parecerem malucos ao falar com ela, mas nunca tinha presenciado algo

violento assim. William continuava a falar:

— Dias! Foram dias que passei aguardando sinais e no máximo

recebendo um mísero sussurro. O pior... o pior é que você resolve falar

comigo sempre no momento em que estou acompanhado ou como agora,

que estou em um dos melhores instantes de minha vida.

Sophia não sabia como reagir. No final, ele estava agindo conforme

ela precisava. Estava explodindo, pois queria atenção. A garota não havia

fornecido isso ainda. Por isso, iria aguardar William se acalmar, antes de

dar o próximo passo. E assim ficaram alguns minutos em silêncio, apenas

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ouvindo o barulho da água descendo pelos canos enferrujados. Ela estava

parada, agora com as costas apoiadas na parede, e ele continuava do

outro lado, perto da pia.

A porta do banheiro se abriu, deixando um senhor com cerca de 50

anos entrar. Era baixinho e o topo da cabeça parecia calvo. Sophia

reconheceu ser um dos senhores que estavam com William no salão

central. O homem, notando a expressão séria do garoto, percebeu algo

errado.

— Eu sei, rapaz! É uma pressão muito grande para um garoto tão

jovem como você. Mas, pense assim, você pode ser eleito o ganhador do

prêmio Helen Beatrix Potter! Isto é algo grande. Deixe o medo para lá.

Dizendo isso, o senhor deu dois toques nas costas de William para

demonstrar camaradagem e saiu do local, deixando o escritor ainda mais

confuso.

— Ele tem razão, William. Você precisa deixar o medo para lá —

Sophia arriscou dizer. — Mergulhe na loucura e viva a vida plenamente.

Você é muito talentoso e eu quero estar presente para ver seu talento

crescer.

Na verdade, tal comentário não era totalmente mentiroso. Ela

realmente queria estar presente no concurso, mas não apenas para torcer

pelo garoto.

As palavras de Sophia fizeram efeito sobre William, pois o garoto

começou a se aproximar dela. Vendo que esse poderia ser um sinal de

paz entre os dois, ela resolveu se aproximar também. Ao chegar bem

perto dele, começou a brincar com o colarinho de sua camisa, e, com uma

voz sedutora, quebrou o silêncio.

— Sei que tem muito o que fazer e as pessoas estão esperando. Por

isso gostaria de saber se você aceitaria me encontrar no Theatre by the

Lake hoje à noite?

O escritor ficou pensativo, mas ela estava tão perto que era

impossível raciocinar. Sim. Ele queria vê-la novamente. Desejava isso.

Vinha aguardando esse momento desde que começara a sonhar com ela.

Ainda mais quando se beijaram na noite de Halloween.

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— Nos encontramos às nove horas da noite, no píer de

Derwentwater. É próximo ao Theatre. Vou lhe esperar até às nove e

quinze. Se não aparecer, não precisa mais me procurar — resmungou

William.

E ao dizer isso, afastou-se abrindo a porta, deixando a alada em

dúvida. Sentia a cabeça latejar com tantos sentimentos e informações.

Afinal, quem comandava aquela relação? Não parecia mais ser ela.

Mas tinha de ser.

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Someone like you

Alguém como você

O dia passou rápido e logo a noite reinava no céu estrelado como í

luzes douradas em uma árvore de Natal. Era na escuridão que Sophia iria

começar, de verdade, a seduzir William. Agora, estava preparada, graças

a Guillian, e nada poderia impedi-la de obter o que queria do rapaz. Hoje

iria vê-lo escrever e recitar versos, que iriam lhe satisfazer a gula. Nessa

noite, a fada decidiu se arrumar o mais bonita possível, como se isso fosse

possível, além de tentar se parecer com uma humana. Desejava agradar o

escritor e, no mínimo, conseguiria acompanhá-lo ao teatro. Porém, não

era fácil concentrar energia o bastante para fazer sumir as asas e camuflar

as marcas do corpo. Eram elementos cravados na alma. Poderia então se

livrar facilmente para agradar o garoto? Mesmo sem saber, tentaria

permanecer como humana o máximo de tempo possível. Precisava de

mais tempo com ele. Iria conseguir naquela noite.

Sophia resolveu chegar cedo ao local, a fim de não dar motivos a

William para reclamar. Hoje, o queria de bom humor, como quando

começara a cortejá-la. Então, a garota caminhou pelo píer de madeira, que

de tão claro e brilhante chegava a ser dourado, e esperou por ele no final

do corredor, quase chegando à beira do lago. Era um local muito bonito, o

tipo de paisagem feita para fotos de artistas famosos. O píer não era

muito extenso, mas chegava até uma parte funda do lago. Ao redor,

canoas da mesma tonalidade ficavam amarradas nas margens. Todas

possuíam detalhes feitos à mão que pareciam ser de ferro, deixando-as

mais encantadoras. Um perfeito cenário de conto de fadas. A água, de

dia, tinha um tom azul-claro bonito, à noite passava a ser escura. De

longe era possível enxergar uma pequena ilha à frente e as enormes

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montanhas ao fundo. Montanhas que Sophia conhecia muito bem. As

montanhas onde os Sídhes reinavam. A fada se sentou na beirada e

deixou as pernas torneadas balançando para fora da plataforma. Com as

asas ainda aparentes, aguardava pelo rapaz.

— E não é que ela resolveu aparecer!

William havia chegado ao local, sentando-se ao lado de Sophia. Ele

sentia surpresa e felicidade, estava evidente em seu sorriso. Conseguia

ficar ainda mais bonito daquela forma, porque por mais que a expressão

séria fosse sexy, ela preferia ver o encanto do sorriso brilhante. O fato de

se sentar ao seu lado e pegar na sua mão mostrava que todas as

complicações deles haviam sido deixadas para trás.

— Eu adoro este píer. Aliás, eu adoro este lugar e estas montanhas.

Tudo me inspira, me deixa calmo, sinto uma paz gostosa que se traduz

em meus textos. Eu gosto de atingir uma densidade profunda em minhas

histórias. De mostrar algo a mais para o leitor. Este cenário, a cultura de

nossos povos e você me dão a estrutura para fazer isso acontecer.

Sophia riu.

— Realmente é um lugar muito bonito. Nunca havia descido até o

píer, nem mesmo vindo ao teatro, mas achei ser o lugar perfeito para

nosso primeiro encontro oficial — disse Sophia.

A fada esbanjou um leve sorriso e o garoto levantou-se, tendendo a

mão para ela, que a pegou e também se pôs de pé.

— Está na hora de nos divertirmos — disse William, virando-se

para sair do píer.

— Espere!

Sophia o interrompeu antes de começar a andar. Ela segurou suas

mãos e pediu para o rapaz olhá-la nos olhos. Ele, até o momento, não

entendia por que a garota estava fazendo aquilo. A onda de energia

passando do corpo dele para o dela começou a fazer efeito sobre Sophia e

sua transformação para aparência mortal acontecia. Primeiro as asas

começaram a encolher e os ramos negros na pele a clarear. Alguns deles

continuavam escuros, mas todos cobertos pela roupa. Se uma pessoa a

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visse, provavelmente a acharia uma jovem rebelde, com algumas

tatuagens a mais. E, ao mesmo tempo, a perfeita imagem de uma princesa

gótica. Sua presença, com certeza, iria intrigar os habitantes de Keswick,

acostumados a conhecer todo mundo da região. Então, se alguém se

aproximasse dos dois pensaria que ela era uma colega de Carlisle, em

visita.

William mostrava-se muito animado com o fato de não precisar

ficar falando sozinho pelo teatro. Naquela noite acontecia o festival de

jazz e gostaria muito de poder tirar Sophia para dançar. Ela, adotando

uma forma humana, possibilitava realizar tal desejo e queria aproveitar

esses momentos junto a ele. Após a transformação completa, o casal

resolveu seguir para a estrada que dava acesso ao teatro. A bilheteria

havia fechado às oito horas, mas William tinha passado antes para

comprar os ingressos, mesmo achando que teria uma cadeira vazia ao seu

lado. A noite de jazz sempre era muito concorrida.

O Theatre by the Lake era uma casa de shows muito respeitada no

condado de Cúmbria. Um lindo casarão de pedra a poucos metros de

distância do lago. No local aconteciam peças de teatro, festivais de música

e literatura. Também era um ótimo lugar para tomar um café quentinho e

espumante ou comer um pedaço de bolo caseiro no Stalls Bar. Então,

muitos casais, de várias idades, acabavam indo até o teatro para namorar.

Porém, o ambiente também era frequentado por famílias. Elas iam para

assistir aos espetáculos natalinos ou festivos oferecidos na programação

do teatro. Produções maravilhosas, capazes de encantar qualquer pessoa.

E por que não encantariam? A cidade de Keswick parecia um lugar

mágico escondido no mundo.

A casa de show encontrava-se lotada, a capacidade máxima era de

quinhentas pessoas. Haviam garantido um bom lugar em frente ao palco,

então poderiam curtir a música e, se desse vontade, iriam para os

corredores, onde muitos casais aproveitavam o espaço para dançar

abraçadinhos.

Sophia e William resolveram ir para os assentos na terceira fileira a

tempo de assistir ao início. Quando estavam quase chegando ao local,

foram interrompidos por um grande grupo de jovens que havia se

aproximado e cumprimentado William. Pelo que Sophia pôde perceber,

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parecia o grupo de amigos do rapaz, pois a menina gótica estava com eles

e, pela expressão no rosto dela, havia gostado de ver William com

alguém.

Um dos garotos do grupo engajou uma conversa animada com

William, até então surpreso por encontrar todos os amigos ali.

— Will, você sumiu o dia todo! Passamos no sebo e não te

encontramos. Não sabíamos se você viria para o festival.

— Eu fiquei preso na biblioteca, com o conselho da cidade, falando

sobre aquele concurso do qual vou participar. Acabei esquecendo

totalmente de ligar para ver se vocês viriam.

—Até imagino o porquê disso — disse o bonito rapaz alto e forte,

apontando com a cabeça para Sophia, até então calada. — Quem é a

senhorita? Não vai nos apresentar?

Sophia sorriu para o rapaz, fazendo-o corar. O efeito dela era muito

forte sobre as pessoas. Sem nem ao menos esperar para ver se William

iria apresentá-la, decidiu tomar as rédeas da conversa.

— Sophia Coldheart. Sou amiga do Will, de Carlisle.

— Amiga de Carlisle? — sussurrou pensativo o rapaz. —

Interessante o fato de ele nunca ter comentado sobre uma amiga tão

bonita assim em Carlisle. A única pessoa de lá que ele conhecia era a

chata da ex-namorada dele, e seu nome era Verônica.

— Conheço a Verônica. O Will é muito tímido... Mas, desta vez,

vou perdoá-lo por não me apresentar aos seus amigos. Entendeu, Will?

O garoto perdido na conversa dos dois, ao ouvir seu nome,

despertou.

— Desculpe, Soph! Pessoal, esta é minha amiga Sophia. Sophia, este

metido conversando com você é o Ryan, o de óculos Billy, o ruivo é

Charles, a escondida atrás dele é Margareth, ou Maggie, e esta é Louise.

Sophia ficou encarando Louise, a garota que flertava com William.

A Leanan não queria ver a gótica perto dele.

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— Prazer em conhecê-los! Espero poder sair com vocês qualquer

dia desses. Estou hospedada nas redondezas e pretendo encher muito a

paciência de William nas próximas semanas.

— O prazer seria nosso — complementou Ryan, beijando a mão de

Sophia em um ato de cavalheirismo. — Aproveitem a noite e converso

com você mais tarde, William. Não pense que vou deixar barato o fato de

você me esconder meninas lindas como esta. Acho que nunca vi uma

mulher tão bonita.

— Ryan! — disse Louise, cutucando com força o rapaz, que fez cara

de dor com o ato, mostrando para William sua infelicidade com a

situação. — Você não percebeu que eles estão em um encontro?

— Eu não fiz nada de errado em elogiar a menina — disse ele,

saindo da situação aos risos, enquanto os outros acenavam com as mãos e

iam para seus lugares, mais ao fundo do salão.

Sophia notou que William não havia gostado de se encontrar com a

turma e ela não entendia o porquê. Ele estava com uma bela garota ao seu

lado, talvez a mais bela, e parecia ter vergonha disso. Talvez o fato de

Louise estar no grupo o tivesse afetado e aquilo Sophia não tolerava.

Quem ele era para achar que poderia pensar em outra garota estando

com ela? Isso não existia! Os outros homens com quem já havia saído

eram casados, alguns até homossexuais, mas ao estar com ela esqueciam

o mundo.

— Muito bonita essa garota chamada Louise. Aparência diferente a

dela. Foi simpática ao mostrar para seu amigo que nós estamos juntos.

— Ela é 0K — disse ele seco.

— Você é muito amigo dela? Conversa com ela sempre?

— Um pouco. Não sou muito de andar com as meninas. Elas

apenas seguem o Ryan, o popular, mas eu falo com ela às vezes.

Louise gosta de ir ao sebo para ler histórias de vampiros.

— Bem a cara dela mesmo. E você já teve algo com ela? Gostaria de

estar com eles hoje?

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William mostrou-se irritado.

— Que papo, Soph! Eu estou com ela neste momento? Trouxe-a

para ver um festival de música comigo? Não, né? Então acho que você

não deveria estar me perguntando isso.

A fada ficou quieta. Realmente ele estava ali com ela e não com a

outra garota. Mas ela era uma mulher e todas as mulheres possuem o

direito de ter ciúmes de quem gostam. Não quer dizer que não confiasse

nele, não confiava em homens ou pessoas em geral. Todos nos

desapontam, pensava. Então, após as indagações, resolveram finalmente

sentar em seus lugares.

O festival iniciou-se em pouco tempo. As luzes baixaram e vários grupos

de jazz começaram a tocar em alto volume. William e Sophia