O Judas em Sábado de Aleluia por Martins Pena - Versão HTML

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O JUDAS EM SÁBADO DE ALELUIA

Martins Pena

Comédia em 1 ato

PERSONAGENS

JOSÉ PIMENTA, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional

CHIQUINHA

MARICOTA } suas filhas

LULU (10 anos)

FAUSTINO, empregado público

AMBRÓSIO, capitão da Guarda Nacional

ANTÔNIO DOMINGOS, velho, negociante

Meninos e moleques

A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1844.

ATO ÚNICO

Sala em casa de JOSÉ PIMENTA. Porta no fundo, à direita, e à esquerda uma janela; além da porta da direita uma cômoda de jacarandá, sobre a qual estará uma manga de vidro e dois castiçais de casquinha. Cadeiras e mesa. Ao levantar do pano, a cena estará distribuída da seguinte maneira: CHIQUINHA sentada junto à mesa, cosendo; MARICOTA à janela; e no fundo da sala, à direita da porta, um grupo de quatro meninos e dois moleques acabam de aprontar um judas, o qual estará apoiado à parede. Serão os seus trajes casaca de corte, de veludo, colete idem, botas de montar, chapéu armado com penacho escarlate (tudo muito usado), longos bigodes, etc. Os meninos e moleques saltam de contentes ao redor do judas e fazem grande algazarra.

CENA I

CHIQUINHA, MARICOTA e meninos.

CHIQUINHA – Meninos, não façam tanta bulha...

LULU, saindo do grupo – Mana, veja o judas como está bonito! Logo quando aparecer a Aleluia, havemos de puxá-lo para a rua.

CHIQUINHA – Está bom; vão para dentro e logo venham.

LULU, para os meninos e moleques – Vamos pra dentro; logo viremos, quando aparecer a Aleluia. (Vão todos para dentro em confusão.)

CHIQUINHA, para Maricota – Maricota, ainda te não cansou essa janela?

MARICOTA, voltando a cabeça – Não é de tua conta.

CHIQUINHA – Bem o sei. Mas, olha, o meu vestido está quase pronto; e o teu, não sei quando estará.

MARICOTA – Hei de aprontá-lo quando quiser e muito bem me parecer. Basta de seca – cose, e deixa-me.

CHIQUINHA – Fazes bem. (Aqui Maricota faz uma mesura para [a] rua, como a pessoa que a cumprimenta depois a fazer acenos com o lenço.) Lá está ela no seu fadário! Que viva esta minha irmã só para namorar! É forte mania! A todos faz festa, a 1

todos namora...

MARICOTA, retirando-se da janela – O que tu estás a dizer, Chiquinha?

CHIQUINHA – Eu? Nada.

MARICOTA – Sim! Agarra-te bem à costura; vive sempre como vives, que hás de morrer solteira.

CHIQUINHA – Paciência.

MARICOTA – Minha cara, nós não temos dote, e não é pregada à cadeira que acharemos noivo.

CHIQUINHA – Tu já o achaste pregada à janela?

MARICOTA – Até esperar não é tarde. Sabes tu quantos passaram hoje por esta rua, só para me verem?

CHIQUINHA – Não.

MARICOTA – O primeiro que vi, quando cheguei à janela, parado no canto, foi aquele tenente dos Permanentes, que tu bem sabes.

CHIQUINHA – Casa-te com ele.

MARICOTA – E por que não, se ele quiser? Os oficiais dos Permanentes têm bom soldo. Podes te rir.

CHIQUINHA – E depois do tenente, quem mais passou?

MARICOTA – O cavalo rabão.

CHIQUINHA – Ah!

MARICOTA – Já te não mostrei aquele moço que anda sempre muito à moda, montado em um cavalo rabão, e que todas as vezes que passa cumprimenta com ar risonho e esporeia o cavalo?

CHIQUINHA – Sei quem é – isto é, conheço-o de vista. Quem é ele?

MARICOTA – Sei tanto como tu.

CHIQUINHA – E o namoras sem o conheceres?

MARICOTA – Oh, que tola! Pois é preciso conhecer-se a pessoa a quem se namora?

CHIQUINHA – Penso que sim.

MARICOTA – Estás muito atrasada. Queres ver a carta que ele me mandou esta manhã pelo moleque? (Tira do seio uma cartinha.) Ouve: (lendo:) “Minha adorada e crepitante estrela!” (Deixando de ler:) Hem? Então?...

CHIQUINHA – Continua.

MARICOTA, continuando a ler – “Os astros que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores olhos ofuscaram em tão subido ponto o meu discernimento, que me enlouqueceram. Sim, meu bem, um general quando vence uma batalha não é mais feliz do que eu sou! Se receberes os meus sinceros sofrimentos serei ditoso, e se não me corresponderes, serei infeliz, irei viver com as feras desumanas da Hircânia, do Japão e dos sertões de Minas – feras mais compassivas do que tu. Sim, meu bem, esta será a minha sorte, e lá morrerei... Adeus. Deste que jura ser teu, apesar da negra e fria morte. – O mesmo”. (Acabando de ler:) Então, tem que dizer a isto? Que estilo! Que paixão!...

CHIQUINHA , rindo-se – É pena que o menino vá viver por essas brenhas com as feras da Hircânia, com os tatus e tamanduás. E tu acreditas em todo este palanfrório?

MARICOTA – E por que não? Têm-se visto muitas paixões violentas. Ouve agora esta outra. (Tira outra carta do seio.)

CHIQUINHA – Do mesmo?

MARICOTA – Não, é daquele mocinho que está estudando latim no Seminário de S. José.

CHIQUINHA – Namoras também a um estudante de latim?! O que esperas deste 2

menino?

MARICOTA – O que espero? Não tens ouvido dizer que as primeiras paixões são eternas? Pois bem, este menino pode ir para S. Paulo, voltar de lá formado e arranjar eu alguma coisa no caso de estar ainda solteira.

CHIQUINHA – Que cálculo! É pena teres de esperar tanto tempo...

MARICOTA – Os anos passam depressa, quando se namora. Ouve: (lendo:) “Vi teu mimoso semblante e fiquei enleado e cego, cego a ponto de não poder estudar minha lição.” (Deixando de ler:) Isto é de criança. (Continua a ler.) “Bem diz o poeta latino: Mundus a Domino constitutus est”. (Lê estas palavras com dificuldade e díz:) Isto eu não entendo; há de ser algum elogio... (Continua a ler.) “... constitutus est. Se Deus o criou, foi para fazer o paraíso dos amantes, que como eu têm a fortuna de gozar tanta beleza. A mocidade, meu bem, é um tesouro, porque senectus est morbus. Recebe, minha adorada, os meus protestos. Adeus, encanto. Ego vocor – Tibúrcio José Maria.”

(Acabando de ler:) O que eu não gosto é escrever-me ele em latim. Hei de mandar-lhe dizer que me fale em português. Lá dentro ainda tenho um maço de cartas que te poderei mostrar; estas duas recebi hoje.

CHIQUINHA – Se todas são como essas, é rica a coleção. Quem mais passou?

Vamos, dize...

MARICOTA – Passou aquele amanuense da Alfândega, que está à espera de ser segundo escriturário para casar-se comigo. Passou o inglês que anda montado no cavalo do curro. Passou o Ambrósio, capitão da Guarda Nacional. Passou aquele moço de bigodes e cabelos grandes, que veio da Europa, aonde esteve empregado na diplomacia.

Passou aquele sujeito que tem loja de fazendas. Passou...

CHIQUINHA, interrompendo – Meu Deus, quantos?... E a todos esses namoras?

MARICOTA – Pois então? E o melhor é que cada um de per si pensa ser o único da minha afeição.

CHIQUINHA – Tens habilidade! Mas dize-me, Maricota, que esperas tu com todas essas loucuras e namoros? Que planos são os teus? (Levanta-se.) Não vês que te podes desacreditar?

MARICOTA – Desacreditar-me por namorar! E não namoram todas as moças?

A diferença está em que umas são mais espertas do que outras. As estouvadas, como tu dizes que eu sou, namoram francamente, enquanto as sonsas vão pela calada. Tu mesma, com este ar de santinha – anda, faze-te vermelha! – talvez namores, e muito; e se eu não posso assegurar, é porque tu não és sincera como eu sou. Desengana-te, não há moça que não namore. A dissimulação de muitas é que faz duvidar de suas estrepolias.

Apontas-me porventura uma só, que não tenha hora escolhida para chegar à janela, ou que não atormente ao pai ou à mãe para ir a este ou àquele baile, a esta ou àquela festa?

E pensas tu que é isto feito indiferentemente, ou por acaso? Enganas-te, minha cara, tudo é namoro, e muito namoro. Os pais, as mães e as simplórias como tu é que nada vêem e de nada desconfiam. Quantas conheço eu, que no meio de parentes e amigas, cercadas de olhos vigilantes, namoram tão sutilmente, que não se pressente! Para quem sabe namorar tudo é instrumento: uma criança que se tem ao colo e se beija, um papagaio com o qual se fala à janela, um mico que brinca sobre o ombro, um lenço que volteia na mão, uma flor que se desfolha – tudo, enfim! E até quantas vezes o namorado desprezado serve de instrumento para se namorar a outrem! Pobres tolos, que levam a culpa e vivem logrados, em proveito alheio! Se te quisesse eu explicar e patentear os ardis e espertezas de certas meninas que passam por sérias e que são refinadíssimas velhacas, não acabaria hoje. Vive na certeza, minha irmã, que as moças dividem-se em duas classes: sonsas e sinceras... Mas que todas namoram.

CHIQUINHA – Não questionarei contigo. Demos que assim seja, quero mesmo 3

que o seja. Que outro futuro esperam as filhas-famílias, senão o casamento? É a nossa senatoria, como costumam dizer. Os homens não levam a mal que façamos da nossa parte todas as diligências para alcançarmos este fim; mas o meio que devemos empregar é tudo. Pode ele ser prudente e honesto, ou tresloucado como o teu.

MARICOTA – Não dizia eu que havia sonsas e sinceras? Tu és das sonsas.

CHIQUINHA – Pode ele nos desacreditar, como não duvido que o teu te desacreditará.

MARICOTA – E por quê?

CHIQUINHA – Namoras a muitos.

MARICOTA – Oh, essa é grande! Nisto justamente é que eu acho vantagem.

Ora dize-me, quem compra muitos bilhetes de loteria não tem mais probabilidade de tirar a sorte grande do que aquele que só compra um? Não pode do mesmo modo, nessa loteria do casamento, quem tem muitos amantes ter mais probabilidade de tirar um para marido?

CHIQUINHA – Não, não! A namoradeira é em breve tempo conhecida e

ninguém a deseja por mulher. Julgas que os homens iludem-se com ela e que não sabem que valor devem dar aos seus protestos? Que mulher pode haver tão fina, que namore a muitos e que faça crer a cada um em particular que é o único amado? Aqui em nossa terra, grande parte dos moços são presunçosos, linguarudos e indiscretos; quando têm o mais insignificante namorico, não há amigos e conhecidos que não sejam confidentes.

Que cautelas podem resistir a essas indiscrições? E conhecida uma moça por namoradeira, quem se animará a pedi-la por esposa? Quem se quererá arriscar a casar-se com uma mulher que continue depois de casada as cenas de sua vida de solteira? Os homens têm mais juízo do que pensas; com as namoradeiras divertem-se eles, mas não se casam.

MARICOTA – Eu to mostrarei.

CHIQUINHA – Veremos. Dá graças a Deus se por fim encontrares um velho para marido.

MARICOTA – Um velho! Antes quero morrer, ser freira... Não me fales nisso, que me arrepiam os cabelos! Mas para que me aflijo? É-me mais fácil... Aí vem meu pai! (Corre e assenta-se à costura, junto à mesa.)

CENA II

JOSÉ PIMENTA e MARICOTA. Entra JOSÉ PIMENTA com a farda de cabo-de-esquadra da Guarda Nacional, calças de pano azul e barretão – tudo muito usado.

PIMENTA , entrando – Chiquinha, vai ver minha roupa, já que estás vadia.

(Chiquinha sai.) Está muito bom! Está muito bom! (Esfrega as mãos de contente.) MARICOTA , cosendo – Meu pai sai?

PIMENTA – Tenho que dar algumas voltas, a ver se cobro o dinheiro das guardas de ontem. Abençoada a hora em que eu deixei o ofício de sapateiro para ser cabo-de-esquadra da Guarda Nacional! O que ganhava eu pelo ofício? Uma tuta-mea.

Desde pela manhã até alta noite sentado à tripeça, metendo sovela daqui, sovela dacolá, cerol pra uma banda, cerol pra outra; puxando couro com os dentes, batendo de martelo, estirando o tirapé – e no fim das contas chegava apenas o jornal para se comer, e mal.

Torno a dizer, feliz a hora em que deixei o ofício para ser cabo-de-esquadra da Guarda Nacional! Das guardas, das rondas e das ordens de prisão faço o meu patrimônio. Cá as arranjo de modo que rendem, e não rendem pouco... Assim é que é o viver; e no mais, saúde, e viva a Guarda Nacional e o dinheirinho das guardas que vou cobrar, e que muito sinto ter de repartir com ganhadores. Se vier alguém procurar-me, dize que 4

espere, que eu já volto. (Sai.)

CENA III

MARICOTA, – Tem razão; são milagres! Quando meu pai trabalhava pelo ofício e tinha um jornal certo, não podia viver; agora que não tem ofício nem jornal, vive sem necessidades. Bem diz o capitão Ambrósio que os ofícios sem nome são os mais lucrativos. Basta de coser. (Levanta-se.) Não hei de namorar o agulheiro, nem casar-me com a almofada. (Vai para a janela. Faustino aparece na porta do fundo, donde espreita para a sala.)

CENA IV

FAUSTINO e MARICOTA

FAUSTINO – Posso entrar?

MARICOTA, voltando-se – Quem é? Ah, pode entrar.

FAUSTINO, entrando – Estava ali defronte na loja do barbeiro, esperando que teu pai saísse para poder ver-te, falar-te, amar-te, adorar-te, e...

MARICOTA – Deveras!

FAUSTINO – Ainda duvidas? Para quem vivo eu, senão para ti? Quem está sempre presente na minha imaginação? Por quem faço eu todos os sacrifícios?

MARICOTA – Fale mais baixo, que a mana pode ouvir.

FAUSTINO – A mana! Oh, quem me dera ser a mana, para estar sempre contigo! Na mesma sala, na mesma mesa, no mesmo...

MARICOTA, rindo-se – Já você começa.

FAUSTINO – E como hei de acabar sem começar? (Pegando-lhe na mão:) Decididamente, meu amor, não posso viver sem ti... E sem o meu ordenado.

MARICOTA – Não lhe creio: muitas vezes está sem me aparecer dois dias, sinal que pode viver sem mim; e julgo que pode também viver sem o seu ordenado, porque...

FAUSTINO – Impossível!

MARICOTA – Porque o tenho visto passar muitas vezes por aqui de manhã às onze horas e ao meio-dia, o que prova que gazeia sofrivelmente, que leva ponto e lhe descontam o ordenado.

FAUSTINO – Gazear a repartição o modelo dos empregados? Enganaram-te.

Quando lá não vou, é ou por doente, ou por ter mandado parte de doente...

MARICOTA – E hoje que é dia de trabalho, mandou parte?

FAUSTINO – Hoje? Ah, não me fales nisso, que me desespero e alucino! Por tua causa sou a vitima a mais infeliz da Guarda Nacional!

MARICOTA – Por minha causa?!

FAUSTINO – Sim, sim, por tua causa! O capitão da minha companhia, o mais feroz capitão que tem aparecido no mundo, depois que se inventou a Guarda Nacional, persegue-me, acabrunha-me e assassina-me! Como sabe que eu te amo e que tu me correspondes, não há pirraças e afrontas que me não faça. Todos os meses são dois e três avisos para montar guarda; outros tantos para rondas, manejos, paradas... E

desgraçado se lá não vou, ou não pago! Já o meu ordenado não chega. Roubam-me, roubam-me com as armas na mão! Eu te detesto, capitão infernal, és um tirano, um Gengis-Kan, um Tamerlan! Agora mesmo está um guarda à porta da repartição à minha espera para prender-me. Mas eu não vou lá, não quero. Tenho dito. Um cidadão é livre...

enquanto não o prendem.

MARICOTA – Sr. Faustino, não grite, tranqüilize-se!