O Livro das Religiões por Jostein Gaarder - Versão HTML

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O Livro das Religiões

Jostein Gaarder

Victor Hellern

Henry Notaker

O Livro das Religiões

TRADUÇÃO

ISA MARA LANDO

REVISÃO TÉCNICA E APÊNDICE

ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI

reimpressão

CIA. DAS LETRAS

Copyright © 1989 by Gyldendal Norsk Forlag

Título original:

Religionsboka

Traduzido da versão inglesa

The book of religions de James Anderson

Capa:

Silvia Ribeiro

sobre ilustração de Maria Eugênia

Preparação:

Márcia Copola

Revisão:

Ana Maria Barbosa

Ana Maria Alvares

As citações bíblicas que aparecem no texto foram extraídas

da Bíblia de Jerusalém (São Paulo, Sociedade Bíblica Católica/Paulus, 1985).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gaarder, Jostein, 1952-

O livro das religiões / Jostein Gaarder, Victor Hellern,

Henry Notaker ; tradução Isa Mara Lando ; revisão técnica

e apêndice Antônio Flavio Pierucci. — São Paulo:

Companhia das Letras, 2000.

Título original: Religionsboka.

ISBN 85-7164-994-4

1. Conduta de vida 2 . Religião - História 3. Religiões

I. Hellern, Victor. II. Notaker, Henry. III. Título.

00-1239 CDD-29I Índice para catálogo sistemático:

1. Religiões 291

2001

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32

04532-002 — São Paulo — SP — Brasil

Telefone: (11) 3846-0801

Fax: (11) 3846-0814 www.companhiadasletras.com.br

Sumário

Introdução,

Conhecimento religioso,

Religiões com origem na Índia,

Religiões do Extremo Oriente,

Religiões africanas,

Religiões surgidas no Oriente Médio: monoteísmo,

Filosofias de vida não religiosas,

Novas religiões e novas perspectivas,

Ética,

Apêndice: As religiões no Brasil,

Índice,

Introdução

Será que precisamos de uma filosofia de vida?

Imagine-se chegando a nossa galáxia, a Via Láctea. Durante

milhares de anos você voa sem rumo entre as estrelas e os sistemas

solares. De vez em quando, gira em torno de um planeta — sem

enxergar o menor sinal de vida. Você já está prestes a ir embora da

Via Láctea quando, de repente, avista um planeta transbordando de

vida no meio de uma das múltiplas espirais da galáxia. Nesse exato

momento você acorda. A viagem foi um sonho! Mas você percebe que o

planeta que descobriu em seu sonho é o planeta onde você vive.

Você talvez seja jovem. É bem possível que tenha uma longa

vida pela frente. Mas você também sabe que a vida não dura para

sempre. De que maneira decidirá viver sua primeira e única viagem

ao planeta Terra? Que perguntas fará e que respostas dará?

Durante o café da manhã, o estranho sonho não lhe sai da

cabeça. Você se dá conta de que viver na Terra é uma oportunidade

fantástica. Então você abre o jornal. Talvez, em meio a seu

maravilhamento e a sua alegria pela vida, lhe ocorram pensamentos

sombrios. Você começa a pensar no que está lendo: florestas

derrubadas, poluição, buracos na camada de ozônio, armas

nucleares, radiação no meio ambiente, AIDS. Até que ponto você

considera o futuro deste raro planeta responsabilidade sua7.

Muitas perguntas, mesmo as mais rotineiras, que lhe passam

pela cabeça quando você vai para a escola ou para o trabalho

nascem em seu íntimo. O amor e o sexo, as relações com os amigos e a

família, as notas nas provas e os estudos: tudo está conectado com

sua perspectiva, sua visão da vida.

A caminho de casa, você pode ir conversando sobre um jogo de

futebol, sobre sua próxima viagem nas férias de verão, sobre a chegada

do final do ano letivo. Mas até mesmo esses fatos estão relacionados

com sua perspectiva de vida. De que forma você decide passar seu

tempo livre? Entrará numa organização não-governamental? Ou vai

trabalhar nos momentos de folga para conseguir algum dinheiro

extra?

Mas, antes de tudo, há uma montanha de lição de casa para

fazer. No entanto, para que serve tudo isso? O que você vai ser

quando terminar a escola?

A noite, você se encontra com os amigos. Um deles conta que

mandou fazer seu mapa astral; acredita firmemente na astrologia. O

que será que lhe dá tanta certeza? Outro diz que tinha acabado de

pensar numa velha amiga quando ela lhe telefonou. Seria telepatia?

Afinal, a chamada percepção extra-sensorial é fato ou ficção? A

conversa avança para questões sobre a vida e a morte. Existe vida

após a morte?

E nesse ponto que você conta o sonho para eles. Você estava

fazendo uma longa viagem pelo espaço sideral. Cansado de tanto

gelo, das rochas e do calor escaldante, já ia se afastando da Via

Láctea quando, de repente, vislumbrou à distância um planeta azul e

branco. E foi nesse planeta que você acordou.

Você pergunta: "O que esse sonho significa?". Será que nossos

sonhos podem nos dizer algo sobre nós mesmos?

Quem sou? De onde venho? Para onde vou?

As crianças logo se tornam curiosas. Uma criança de três

anos pode fazer perguntas que os adultos não conseguem responder.

Uma de cinco anos pode refletir sobre os mesmos enigmas que um

idoso.

A necessidade de se orientar na vida é fundamental para os

seres humanos. Não precisamos apenas de comida e bebida, de calor,

compreensão e contatos físicos; precisamos também descobrir por

que estamos vivos.

Nós perguntamos:

* Quem sou eu?

* Como foi que o mundo passou a existir?

* Que forças governam a história?

* Deus existe?

* O que acontece conosco quando morremos?

Essas são as chamadas questões existenciais, pois dizem

respeito a nossa própria existência.

Muitas questões existenciais são bastante gerais e surgem

em todas as culturas. Embora nem sempre sejam expressas de

maneira tão sucinta, elas formam a base de todas as religiões. Não

existe nenhuma raça ou tribo de que haja registro que não tenha tido

algum tipo de religião.

Em certos períodos da história, houve gente que colocou

questões existenciais numa base puramente humana, não religiosa.

Mas foi só há pouco tempo que grandes grupos de pessoas pararam

de pertencer a qualquer religião reconhecida. Isso não implica

necessariamente que tenham perdido o interesse pelas relevantes

questões existenciais.

Alguém já disse que viver é escolher. Muitas pessoas fazem es-

colhas sem pensar com seriedade se estas são congruentes, ou se

existe alguma coerência em sua atitude com relação à vida. Outras

sentem necessidade de moldar a atitude delas de maneira mais

abrangente e estável.

Cada um de nós tem uma visão da vida. A questão é: até

que ponto fomos nós mesmos que a escolhemos, até que ponto ela é

nossa própria visão? Até que ponto estamos conscientes de nossa

visão?

Face a face com a morte

Duas histórias reais demonstram como a vida cotidiana pode

estar interligada a profundas questões existenciais. A primeira se

passou durante a Segunda Guerra Mundial; a outra, na América

Central de nossos dias.

Quando Kim Malthe Bruun tinha dezessete anos, a guerra

estourou e ele testemunhou a profanação de importantes valores

humanos por parte de uma potência estrangeira invasora. Após um

ano, em 1941, Kim foi ser marinheiro, mas no outono de 1944

desembarcou na Dinamarca e entrou no movimento ilegal de

resistência. Alguns meses depois acabou preso pelos alemães, e em

abril de 1945 foi condenado à morte e fuzilado.

Não era raro os jovens assumirem a luta contra a ditadura

nazista. Se ela acontecesse hoje, talvez você e seus amigos também se

envolvessem nessa luta. Como você acha que reagiria se fosse

condenado a morte? O que escreveria quando os guardas da prisão lhe

dessem lápis e papel para que você deixasse uma última carta a seus

parentes mais próximos?

O que Kim escreveu, nós sabemos. A última carta para sua

mãe contém a seguinte passagem:

Hoje Jörgen, Niels, Ludvig e eu nos apresentamos diante de

um tribunal militar. Fomos condenados à morte. Sei que você é uma

mulher forte e conseguirá suportar tudo isso, mas quero que

compreenda. Eu sou apenas uma coisa insignificante, e como pessoa

logo serei esquecido; mas a idéia, a vida, a inspiração de que estou imbuído continuarão a viver. Você as verá em todo lugar nas árvores na primavera, nas pessoas que encontrar, num sorriso

carinhoso.

Em março de 1983, Marianella Garcia Villas foi assassinada pelos militares na república centro-americana de El Salvador. Fazia vários

anos que as forças do governo e os guerrilheiros rebeldes travavam

uma feroz guerra civil. Durante essa guerra, uma facção do Exército,

juntamente com extremistas, havia raptado e assassinado milhares de

pessoas. A jovem advogada Marianella formou um comitê de direitos

humanos para investigar casos de desaparecimento e tortura. Em

decorrência, acabou indo para a "lista negra" dos terroristas. Ela sabia que sua vida corria perigo.

Como você teria reagido a uma ameaça desse tipo? A reação de

Marianella foi continuar a luta. No início de 1983, ela visitou uma

das zonas de guerra, numa missão do Comitê de Direitos Humanos.

Ela nunca mais voltou. Porém, uma carta que escreveu em 1980 nos

conta qual era o impulso que a movia:

Eu luto pela vida: um trabalho real, que vale a pena. Não

tenho nenhum desejo de morrer, mas já vivi tão perto da morte e de

suas consequências que a vejo agora como algo natural. Todos nós

devemos morrer um dia, mas a morte sempre virá cedo demais para o homem ou a mulher que tem uma intensa sede de viver. Cada minuto que passa tem um significado, uma profundidade maior do que

qualquer outra coisa, mesmo que pareça comum e rotineiro. Cada rajada de vento, cada canto da cigarra, cada revoada de pombos é como um poema.

Sei que os que trabalham pela justiça sempre terão o direito a

seu lado e receberão a ajuda de Deus; estes irão prevalecer, e a

verdade resplandecerá.

É melhor ser rico de espírito do que em bens materiais.