O Livro de Cesario Verde por José Joaquim Cesário Verde - Versão HTML

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Title: O Livro de Cesario Verde

Author: Cesario Verde

Release Date: August, 2005 [EBook #8698]

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Edition: 10

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE ***

Produced João Miguel Neves from images of the National Digital Library project from the National Library of Portugal.

O LIVRO DE CESARIO VERDE

Prefácio

A JORGE VERDE

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido Jorge--deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;--morri para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces!

O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada: peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de nós, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmão soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento:

--Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.

Adeus, meu querido Jorge!

S.P.

20 de julho de 1886.

Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás Lettras, como se as Lettras lá estivessem--no Curso. Eu matriculara-me, com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos--para a vida e para a morte.

Para a vida e para a morte.

Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle não teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas palavras suas de ha poucos dias:--«E como se dê o caso de tu seres o mais dedicado dos meus amigos...» Tenho aqui essas palavras: ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas, alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua primeira noite redimida...

Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um dia, trocámos estas palavras:--«Como tu tens tempo, meu amigo, para soffrer tanto!»--«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar no soffrimento!».

É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida, imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor da discussão--a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e largo sorriso de convencido; e então--meu querido amigo! meu santo poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido; e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente.

A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!

Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes e as rosas! A bondade summa está no poeta,--mais visivel, pelo menos, do que em Deus.

Artista--e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade, não me dispensarei d'esta indicripção: Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo, o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio.

Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus escrupulos: sim?...»

E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me

--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava irremediavelmente perdido!

Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior, quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado, meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu pallido agonisante illudido!

A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.

* * * * *

E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!

Foi ás cinco da tarde--ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,--nós os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase indifferente--e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão--como as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.

Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos que que me désse força, que me désse força nova,--pois que se prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos, ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo--do mesmo modo que o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se

--sem saber porque...

20 de Agosto

* * * * *

A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com um respiradouro em cruz;--rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á

porta está um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da minha raça--funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:--Está bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a gravidade do cypreste:--Bem; não houve novidade em toda a noite...

É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos--o Cesario e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos, horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que se lhe não consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado desprezo da vida. O meu santo está alli,--está resignado: é tudo.

Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado--o nosso querido morto impassivel!

E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz d'elle?--pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:--«Sê natural, meu amigo; sê natural!»

Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei n'uma angustia:--«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte!

Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora.

Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento

--do soffrimento amparado e protegido...

Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás minhas amarguras,--que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que a minha angustia encontrou na sua.

Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!

Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre, sempre bom--e todavia sempre justo!

A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias: conseguintemente, com a suppressão do trabalho,--do pão,--com a calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera, com todas as ciladas á minha fé... Ah, perdidos em paiz de Cafres!

Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova, esperando... Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da Justiça absoluta--da Justiça illuminada e serena;--espera que eu vá dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado, a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte, o seu amor!

Está alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, não saberei dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visões do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada do seu tumulo pelo Nordéste--menos frio do que a minha alma succumbida!

* * * * *

Silva Pinto.

Os versos

I

CRISE ROMANESCA

DESLUMBRAMENTOS

Milady, é perigoso contemplal-a,

Quando passa aromatica e normal,

Com seu typo tão nobre e tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que n'isso a desgoste ou desenfade, Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solemnidade,

Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me attrae como um thesoiro: O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro E o seu nevado e lucido perfil!

Ah! Como m'estontêa e me fascina...

E é, na graça distincta do seu porte, Como a Moda superflua e feminina, E tão alta e serena como a Morte!...

Eu hontem encontrei-a, quando vinha, Britannica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sósinha, E com firmeza e musica no andar!

O seu olhar possue, n'um fogo ardente, Um archanjo e um demonio a illuminal-o; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o pello d'um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo, E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomatico e orgulhoso

Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

E emfim prosiga altiva como a Fama, Sem sorrisos, dramatica, cortante; Que eu procuro fundir na minha chamma Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite, Que hão-de acabar os barabaros reaes; E os povos humilhados, pela noite, Para a vingança aguçam os punhaes.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, Sob o setim do Azul e as andorinhas, Eu hei-de ver errar, allucinadas, E arrastando farrapos--as rainhas!

SEPTENTRIONAL

Talvez já te esquecesses, ó bonina, Que viveste no campo só commigo,

Que te osculei a bocca purpurina, E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel,

Mulher como não ha nem na Circassia, Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, E regámos com prantos uma acacia.

Talvez já te não lembres com desgosto D'aquellas brancas noites de mysterio, Em que a lua sorria no teu rosto

E nas lages que estão no cemiterio.

Quando, á brisa outoniça, como um manto, Os teus cabellos d'ambar desmanchados, Se prendiam nas folhas d'um acantho, Ou nos bicos agrestes dos silvados, E eu ia desprendel-os, como um pagem Que a cauda solevasse aos teus vestidos; E ouvia murmurar á doce aragem

Uns delirios d'amor, entristecidos; Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, Pousarem borbeletas doudejantes

Nas tuas formosissimas madeixas,

D'aquellas côr das messes lourejantes, E no pomar, nós dois, hombro com hombro, Caminhavamos sós e de mãos dadas, Beijando os nossos rostos sem assombro, E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos N'um amor grande como um mar sem praias, Ouviamos os meigos dithyrambos,

Que os rouxinoes teciam nas olaias, E, afastados da aldeia e dos casaes, Eu comtigo, abraçado como as heras, Escondidos nas ondas dos trigaes, Devolvia-te os beijos que me déras; Quando, se havia lama no caminho, Eu te levava ao collo sobre a greda, E o teu corpo nevado como o arminho Pesava menos que um papel de sêda...

E foste sepultar-te, ó seraphim,

No claustro das Fieis emparedadas, Escondeste o teu rosto de marfim

No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte, N'esta velha cidade tão sombria,

Chorando afflictamente a minha sorte E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade, Se podéra na terra achar supplicios, Eu tambem me faria gordo frade

E cobriria a carne de cilicios.

MERIDIONAL

Cabellos

Ó vagas de cabello esparsas longamente, Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, E tendes o crystal d'um lago refulgente E a rude escuridão d'um largo e negro mar; Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva, Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús No barathro febril da vossa grande treva, Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

Deixae-me navegar, morosamente, a remos, Quando elle estiver brando e livre de tufões, E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom Como um licor rhenano a fermentar nos copos, Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

E ó magica mulher, ó minha Inegualavel, Que tens o immenso bem de ter cabellos taes, E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel, Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes; Consente que eu aspire esse perfume raro, Que exhalas da cabeça erguida com fulgor, Perfume que estontêa um millionario avaro E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possues balsamicos desejos, E vaes na direcção constante do querer, Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos, Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabelleira, errante pelas costas, Supponho que te serve, em noites de verão, De flaccido espaldar aonde te recostas Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor Que antigamente deu, nos circos dos romanos, Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

* * * * *

Ó mantos de veludo esplendido e sombrio, Na vossa vastidão posso talvez morrer!

Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

IRONIAS DO DESGOSTO

«Onde é que te nasceu»--dizia-me ella ás vezes--

«O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?

«Porque é que não possues a verve dos Francezes

«E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,

«As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,

«E abrigas tanto fel no peito, que não sente

«O abalo feminil das minhas expansões?

«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;

«Mas quando tentas rir parece então, meu bem,

«Que estão edificando um negro cadafalso

«E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

«Eu vim--não sabes tu?--para gosar em maio,

«No campo, a quietação banhada de prazer!

«Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,

«E os jubilos, que abril acaba de trazer?

«Não vês como a campina é toda embalsamada

«E como nos alegra em cada nova flor?

«E então porque é que tens na fronte consternada

«Um não sei quê tocante e enternecedor?

E eu só lhe respondia:--«Escuta-me. Conforme

«Tu vibras os crystaes da bocca musical,

«Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme

«Que te ha de corromper o corpo de vestal.

«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,

«Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,

«A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha

«E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

«E eu que daria um rei por cada teu suspiro,

«Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,

«Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro

«O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

HUMILHAÇÕES

(De todo o coração--a Silva Pinto) Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job, Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os; E espero-a nos salões dos principaes theatros, Todas as noites, ignorado e só.

Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz; As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos, Eu analyso as peças no cartaz.

Na representação d'um drama de Feuillet, Eu aguradava, junto à porta, na penumbra, Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ella marcha! Lembra um magnetisador.

Roçavam no veludo as guarnições das rendas; E, muito embora tu, burguez, me não entendas, Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Por não podia abandonal-a em paz!

Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa De vel-a aproximar, sentado na platéa, De tel a n'um binoculo mordaz!

Eu occultava o fraque usado nos botões; Cada contratador dizia em voz rouquenha:

--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?

E ouviam-se cá fóra as ovações.

Que desvanecimento! A perola do Tom!

As outras ao pé d'ella imitam as bonecas; Tem menos melodia as harpas e as rabecas, Nos grandes espetaculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger; Vi-a subir, direita, a larga escadaria E entrar no camarote. Antes estimaria Que o chão se abrisse para me abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropellar.

Era um municipal sobre um cavallo. A guarda Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, Cresci com raiva contra o militar.

De subito, fanhosa, infecta, rota, má, Pôz-se na minha frente uma velhinha suja, E disse-me, piscando os olhos de coruja:

--Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...

RESPONSO

I

N'um castello deserto e solitario, Toda de preto, ás horas silenciosas, Envolve-se nas pregas d'um sudario E chora como as grandes criminosas.

Podesse eu ser o lenço de Bruxellas Em que ella esconde as lagrimas singellas.

II

E loura como as doces escocezas,

D'uma belleza ideal, quasi indecisa; Circumda-se de luto e de tristezas E excede a melancolica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados E havia de escutar-lhe os seus peccados.

III

Alta noite, os planetas argentados Deslisam um olhar macio e vago

Nos seus olhos de pranto marejados E nas aguas mansissimas do lago

Podesse eu ser a lua, a lua terna, E faria que a noite fosse eterna.

IV

E os abutres e os corvos fazem giros De roda das ameias e dos pégos,

E nas salas resoam uns suspiros

Dolentes como as supplicas dos cegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V

E ella vaga nas praias rumorosas, Triste como as rainhas desthronadas, A contemplar as gondolas airosas, Que passam, a giorno illuminadas.

Podesse eu ser o rude gondoleiro

E alli é que fizera o meu cruzeiro.

VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas, Murmurando palavras afflictivas,

Vagueia nas umbrosas alamedas

E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquellas arvores frondosas E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou domina, a rezar, no pavimento

Da capella onde outr'ora se ouviu missa, A musica dulcissima do vento

E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

Podesse eu ser o mar e os meus desejos Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

VIII

E ás horas do crepusculo saudosas, Nos parques com tapetes cultivados, Quando ella passa curvam-se amorosas As estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu tambem granito e a minha vida Era vêl-a a chorar arrependida.

IX

No palacio isolado como um monge, Erram as velhas almas dos precítos, E nas noites de inverno ouvem-se ao longe Os lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter tambem uma procella E as lentas agonias ao pé d'ella!

X

E ás lages, no silencio dos mosteiros, Ella conta o seu drama negregado, E o vasto carmesim dos resposteiros Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapeçarias

Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI

E assim passa, chorando, as noites bellas, Sonhando nos tristes sonhos doloridos, E a reflectir nas gothicas janellas As estrellas dos ceus desconhecidos.

Podesse eu ir sonhar tambem comtigo E ter as mesmas pedras no jazigo!

XII

Mergulha-se em angustias lacrimosas Nos ermos d'um castello abandonado, E as proximas florestas tenebrosas Repercutem um choro amargurado.

Unissemos, nós dois, as nossas covas, Ó doce castellã das minhas trovas!

II

NATURAES

CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente; Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros Consecutivamente.

Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: Tanta depravação nos usos, nos costumes!

Amo, insensatamente, os acidos, os gumes E os angulos agudos.

Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes; Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes E engomma para fóra.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!

Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.

Lidando sempre! E deve a conta á botica!

Mal ganha para sopas...

O obstaculo estimula, torna-nos perversos; Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias, Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta No fundo da gaveta. O que produz o estudo?

Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo, Me tem fechado a porta.

A critica segundo o methodo de Taine Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.

Muitissimos papeis ineditos. A imprensa Vale um desdem solemne.

Com raras excepções merece-me o epigramma.

Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas ás fortunas, Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas, Independente! Só por isso os jornalistas Me negam as columnas.

Receiam que o assignante ingenuo os abandone, Se forem publicar taes cousas, taes auctores.

Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfructa fama honrosa, Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»; E a mim, não ha questão que mais me contrarie Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos; Eu raramente falo aos nossos litteratos, E apuro-me em lançar originaes e exactos, Os meus alexandrinos...

E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!

Ignora que a asphyxia a combustão das brazas, Não foge do estendal que lhe humedece as casas, E fina-se ao desprezo!

Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.

Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente, Oiço-a cantarolar uma canção plangente D'uma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.

Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas, Conseguirei reler essas antigas rimas, Impressas em volume?

Nas lettras eu conheço um campo de manobras; Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague, E esta poesia pede um editor que pague Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?

A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

A DEBIL

Eu, que sou feio, solido, leal,

A ti, que és bella, fragil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada N'uma existencia honesta, de crystal.

Sentado á mesa d'um café devasso, Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura, N'esta Babel tão velha e corruptora, Tive tenções de offerecer-te o braço.

E, quando soccorreste um miseravel, Eu, que bebia calices d'absintho, Mandei ir a garrafa, porque sinto Que me tornas prestante, bom, saudavel.

«Ella ahi vem!» disse eu para os demais; E puz-me a olhar, véxado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinaes.

Via-te pela porta envidraçada;

E invejava,--talvez que o não suspeites!--

Esse vestido simples, sem enfeites, N'essa cintura tenra, immaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarcha.

Triste eu sahi. Doía-me a cabeça; Uma turba ruidosa, negra, espessa, Voltava das exequias d'um monarcha.

Adoravel! Tu muito natural

Seguias a pensar no teu bordado;

Avultava, n'um largo arborisado,

Uma estatua de rei n'um pedestal.

Sorriam nos seus trens os titulares; E ao claro sol, guardava-te, no entanto, A tua boa mãe, que te ama tanto,

Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito

A limpidez do teu semblante grego; E uma familia, um ninho de socego, Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegancia e sem ostentação,

Atravessavas branca, esvelta e fina, Uma chusma de padres de batina,

E d'altos funccionarios da nação.

«Mas se a atropella o povo turbolento!

Se fosse, por acaso, alli pisada!»

De repente, paraste embaraçada

Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes faceis esbocetos, Julguei vêr, com a vista de poeta, uma pombinha timida e quieta

N'um bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu homem varonil, Quiz dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és tenue, docil, reconhecida, Eu, que sou habil, pratico, viril.

N'UM BAIRRO MODERNO

A Manuel Ribeiro

Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada;

Pelos jardins estancam-se os nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamisada.

Rez-de-chaussée repousam socegados, Abriram-se, n'alguns, as persianas, E d'um ou d'outro, em quartos estucados, Ou entre a rama dos papeis pintados, Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

Como é saudavel ter o seu conchego, E a sua vida facil! Eu descia,

Sem muita pressa, para o meu emprego, Aonde agora quasi sempre chego

Com as tonturas d'uma apoplexia.

E rota, pequenina, aramafada,

Notei de costas uma rapariga,

Que no xadrez marmoreo d'uma escada, Como um retalho de horta agglomerada, Pousára, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:

Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algodão azul da meia, Se ella se curva, esguedelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:

«Se te convém, despacha; não converses.

Eu não dou mais.» E muito descançado, Atira um cobre livido, oxidado,

Que vem bater nas faces d' uns alperces.

Subitamente,--que visão de artista!--

Se eu transformasse os simples vegetaes, Á luz do sol, o intenso colorista, N'um ser humano que se mova e exista Cheio de bellas proporções carnaes?!

Boiam aromas, fumos de cozinha;

Com o cabaz ás costas, e vergando, Sobem padeiros, claros de farinha; E ás portas, uma ou outra campainha Toca, frenetica, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,

Um novo corpo organico, aos bocados.

Achava os tons e as fórmas. Descobria Uma cabeça n'uma melancia,

E n'uns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite, Negras e unidas, entre verdes folhos, São tranças d'um cabello que se ageite; E os nabos--ossos nus, da côr do leite, E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.

Ha collos, hombros, boccas, um semblante Nas posições de certos fructos. E entre As hortaliças, tumido, fragrante, Como d'alguem que tudo aquilo jante, Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, emfim, que se dilate, Vi nos legumes carnes tentadoras, Sangue na ginja vivida, escarlate, Bons corações pulsando no tomate

E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céo. E a regateira, Como vendera a sua fresca alface

E déra o ramo de hortelã que cheira, Voltando-se, gritou-me prazenteira:

«Não passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...»

Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo; E, pelas duas azas a quebrar,

Nós levantámos todo aquelle peso

Que ao chão de pedra resistia preso, Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»

E recebi, náquella despedida,

As forças, a alegria, a plenitude, Que brotam d'um excesso de virtude Ou d'uma digestão desconhecida.

E em quanto sigo para o lado opposto, E ao longe rodam umas carruagens, A pobre afasta-se, ao calor de agosto, Descolorida nas maçãs do rosto,

E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira

D'uma janella azul; e, com o ralo Do regador, parece que joeira

Ou que borrifa estrellas; e a poeira Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

Chegam do gigo emanações sadias,

Oiço um canario--que infantil chilrada!--

Lidam ménages entre as gelosias,

E o sol estende, pelas frontarias, Seus raios de laranja distillada.

E pittoresca e audaz, na sua chita, O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, D'uma desgraça alegre que me incita, Ella apregôa, magra, enfezadita,

As suas couves repolhudas, largas.

E como as grossas pernas d'um gigante, Sem tronco, mas athleticas, inteiras, Carregam sobre a pobre caminhante, Sobre a verdura rustica, abundante, Duas frugaes aboboras carneiras.

CRYSTALISAÇÕES

A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros, Vibra uma immensa claridade crua.

De cocaras, em linha os calceteiros, Com lentidão, terrosos e grosseiros, Calcam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações seccaram do relento, E o descoberto sol abafa e cria!

A frialdade exige o movimento;

E as poças d'agua, como em chão vidrento, Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, Disseminadas, gritam as peixeiras; Luzem, aquecem na manhã bonita,

Uns barracões de gente pobresita.

E uns quintalorios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!

Tomam por outra parte os viandantes; E o ferro e a pedra--que união sonora!--

Retinem alto pelo espaço fóra,

Com choques rijos, asperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços, Cuja columna nunca se endireita,

Partem penedos; cruzam-se estilhaços.

Pesam enormemente os grossos maços, Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!

Que espessos forros! N'uma das regueiras Acamam-se as japonas, os colletes: E elles descalçam com os picaretes, Que ferem lume sobre pederneiras.

E n'esse rude mez, que não consente as flores, Fundêam, como a esquadra em fria paz, As arvores despidas. Sobrias côres!

Mastros, enxarcias, vergas! Valladores Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!--

Carros de mão, que chiam carregados, Conduzem saibro, vagarosamente;

Vê se a cidade, mercantil, contente: Madeiras, aguas, multidões, telhados!

Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria; Em arco, sem as nuvens fluctuantes, O ceu renova a tinta corredia;

E os charcos brilham tanto, que eu diria Ter ante mim lagôas de brilhantes!

E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos, Eu tudo encontro alegremente exacto.

Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.

E tangem-me, excitados, sacudidos, O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem De tão lavada e egual temperatura!

Os ares, o caminho, a luz reagem; Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem; Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo; Dois assobiam, altas as marretas

Possantes, grossas, temperadas d'aço; E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço E manso, tira o nivel das valletas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!

Que vida tão custosa! Que diabo!

E os cavadores pousam as enxadas, E cospem nas callosas mãos gretadas, Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No panno cru rasgado das camizas Uma bandeira penso que transluz!

Com ella soffres, bebes, agonisas: Listrões de vinho lançam-lhe divisas, E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, Surge um perfil direito que se aguça; E ar matinal de quem sahiu da toca, Uma figura fina, desemboca,

Toda abafada n'um casaco á russa.

D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento E a quem, á noite na plateia, attraio Os olhos lizos como polimento!

Com seu rostinho estreito, friorento, Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados Como lajões. Os bons trabalhadores!

Os filhos das lezirias, dos montados; Os das planicies, altos, aprumados; Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto, Furtiva a tiritar em suas pelles, Espanta-me a actrizita que hoje pinto, N'este dezembro energico, succinto, E n'estes sitios suburbanos, reles!

Como animaes communs, que uma picada esquente, Elles, bovinos, masculos, ossudos, Encaram-n'a sanguinea, brutamente: E ella vacilla, hesita impaciente Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça, Sem que inda o publico a passagem abra, O demonico arrisca-se, atravessa

Covas, entulhos, lamaçaes, depressa, Com seus pésinhos rapidos, de cabra!

NOITES GELIDAS

MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia, Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada, Mais alva que o luar de inverno que me esfria, Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada; Sob os abafos bons que o Norte escolheria, Com seu passinho curto e em suas lãs forrada, Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

SARDENTA

Tu, n'esse corpo completo,

Ó lactea virgem doirada,

Tens o lymphatico aspecto

D'uma camelia melada.

FLORES VELHAS

Fui hontem visitar o jardimzinho agreste, Aonde tanta vez a luz nos beijou, E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, Soberba como um sol, serena como um vôo.

Em tudo scintillava o limpido poema Com osculos rimado ás luzes dos planetas; A abelha inda zumbia em torno da alfazema; E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, A imagem que inspirava os castos madrugaes; E as virações, o rio, os astros, a pasizagem, Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

Diziam-me que tu, no florido passado, Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas, Aquelle teu olhar moroso e delicado, Que fala de languor e d'emoções mimosas; E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura, Que não me desgostou nem uma vez sequer, Eu não sabia haurir do calix da ventura O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores, Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; As falas quasi irmãs do vento com as flores E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas No ninho de affeições creado para ti, Por entre o riso claro, e as vozes das creanças, E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas, Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas, E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

E nosso bom romance escripto n'um desterro, Com beijos sem ruido em noites sem luar, Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro, Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, E eu não beijarei, ás horas somnolentas, Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por não ter sabido amar os movimentos Da estrophe mais ideal das harmonias mudas, Eu sinto as decepções e os grandes desalentos E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

E tudo emfim passou, passou como uma penna, Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes, E aquella doce vida, aquella vida amena, Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!

Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado, A areia em que rangia a saia roçagante, Que foi na minha vida o ceo aurirosado, Eu tinha tão impresso o cunho da saudade, Que as ondas que formei das suas illusões Fizeram-me enganar na minha soledade E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

Soltei com devoção lembranças inda escravas, No espaço construi phantasticos castellos, No tanque debrucei-me em que te debruçavas, E onde o luar parava os raios amarellos.

Cuidei até sentir, mais doce que uma prece, Suster a minha fé, n'um veo consolador, O teu divino olhar que as pedras amollece, E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves, Julguei-os esconder por entre as minhas mãos, E imaginei ouvir ao conversar das aves As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.

NOITE FECHADA

(L.)

Lembras-te tu do sabbado passado, Do passeio que démos, devagar,

Entre um saudoso gaz amarellado

E as caricias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruasinhas, Que ambos nós percorremos de mãos dadas: Ás janellas palravam as visinhas; Tinham lividas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste, Ante um pesado templo com recortes; E os cemiterios ricos, e o cypreste Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos proximo ao sol-posto, Mas seguiamos cheios de demoras;

Não me esqueceu ainda o meu desgosto Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,

Porque tu caminhavas com prazer,

Cara rapada, gordo e presumido,

O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cúpula da egreja Cobria parte do ventoso largo;

E essa bocca viçosa de cereja,

Torcia risos com sabor amargo.

A lua dava tremulas brancuras,

Eu ia cada vez mais magoado;

Vi um jardim com arvores escuras, Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei comtigo

N'um pateo velho que era d'um canteiro, E onde, talvez, se faça inda o jazigo Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flôr da tua pelle, Tua luva, teu veu, o que tu és!

Não sei que tentação é que te impelle Os pequeninos e cançados pés.

Sei que em tudo attentavas, tudo vias!

Eu por mim tinha pena dos marçanos, Como ratos, nas gordas mercearias, Encafunados por immensos annos!

Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros, Que apparecem ao fundo d'umas minas, E á crua luz os pallidos barbeiros Com oleos e maneiras femininas!

Fins de semana! Que miseria em bando!

O povo folga, estupido e grisalho!

E os artistas d'officio iam passando, Com as ferias, ralados do trabalho.

O quadro anterior, d'um que á candêa, Ensina a filha a ler, metteu-me dó!

Gosto mais do plebeu que cambalêa, Do bebado feliz que falla só!

De subito, na volta de uma esquina, Sob um bico de gaz que abria em leque, Vimos um militar, de barretina

E galões marciaes de pechisbeque, E em quanto elle fallava ao seu namoro, Que morava n'um predio de azulêjo, Nos nossos labios retinio sonoro

Um vigoroso e formidavel beijo!

E assim ao meu capricho abandonada, Errámos por travessas, por viellas, E passámos por pé d'uma tapada

E um palacio real com sentinellas.

E eu que busco a moderna e fina arte, Sobre a umbrosa calçada sepulchral, Tive a rude intenção de violentar-te Imbecilmente como um animal!

Mas ao rumor dos ramos e d'aragem, Como longiquos bosques muito ermos, Tu querias no meio da folhagem

Um ninho enorme para nós vivermos.

E ao passo que eu te ouvia abstractamente, Ó grande pomba tépida que arrulha, Vinham batendo o macadam fremente, As patadas sonoras da patrulha,

E atravez a immortal cidadesinha, Nós fomos ter ás portas, ás barreiras, Em que uma negra multidão se apinha De tecelões, de fumos, de caldeiras.

Mas a noite dormente e esbranquiçada Era uma esteira lucida d'amor;

Ó jovial senhora perfumada,

Ó terrivel creança! Que esplendor!

E ali começaria o meu desterro!...

Lodoso o rio, e glacial, corria;

Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro Na muralha dos caes de cantaria.

Nunca mais amarei, já que não me amas, E é preciso, decerto, que me deixes!

Toda a maré luzida como escamas,

Como alguidar de prateados peixes.

E como é necessario que eu me afoite A perder-me de ti por quem existo, Eu fui passar ao campo aquella noite E andei leguas a pé, pensando n'isto.

E tu que não serás sómente minha, Ás caricias leitosas do luar,

Recolheste-te, pallida e sósinha

Á gaiola do teu terceiro andar!

MANHANS BRUMOSAS

Aquella, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, bucolica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,

--Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!--

Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; E o meu desejo nada em epoca de banhos, E, ave de arribação, elle enche de surprezas Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandezas teem soberbos desmazelos!

Ella descobre assim, com lentidões ufanas, Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos; E como aquellas são maritimas, serranas, Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas, Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, Botões a tiracollo e applicações vermelhas; E á roda, n'um paiz de prados e barrancos, Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas, Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

E aquella, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, catholica, morena, Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

FRIGIDA

I

Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!

Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!

Mas elle eternisou-lhe a singular belleza E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

II

Admiro-a. A sua longa e placida estatura Expõe a magestade austera dos invernos.

Não cora no seu todo a timida candura; Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

III

Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante, N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!...

Ninguem me prende assim, funebre, extravagante, Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

IV

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca; Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite, É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

V

Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso, Ó gelida mulher bizarramente estranha, E tremulo depor os labios no seu pulso, Entre a macia luva e o punho de bretanha!...

VI

Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.

Ao encarar comsigo a phantasia pasma; Pausadamente lembra o silvo das giboias E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

VII

Metallica visão que Charles Baudelaire Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos, Permitta que eu lhe adule a distincção que fere, As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

VIII

Deslise como um astro, uma astro que declina; Tão descançada e firme é que me desvaria, E tem a lentidão d'uma corveta fina Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge, No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!

E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe O socegado espectro angelico da Morte!

X

O seu vagar occulta uma elasticidade Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, E a sua glacial impassibilidade

Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

XI

Porem, não arderei aos seus contactos frios, E não me enroscará nos serpentinos braços: Receio supportar febrões e calefrios; Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

XII

E se uma vez me abrisse o collo transparente, E me osculasse, emfim, flexivel e submisso, Eu julgaria ouvir alguem, agudamente, Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

DE VERÃO

A Eduardo Coelho

I

No campo; eu acho n'elle a musa que me anima: A claridade, a robustez, a acção.

Esta manhã, saí com minha prima,

Em que eu noto a mais sincera estima E a mais completa e séria educação.

II

Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro Da lyrica excursão, d'intimidade

Não pinto a velha ermida com seu adro; Sei só desenho de compasso e esquadro, Respiro industria, paz, salubridade.

III

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras; E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?

Apaga o teu cachimbo junto ás eiras; Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!

Quando me alegra a calma das debulhas!»

IV

E perguntavas sobre os ultimos inventos Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!

Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!

Olha: Os saloios vivos, corpulentos, Como nos fazem grandes barretadas!

V

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens Dos olivaes escuros. Onde irás?

Regressam os rebanhos das pastagens; Ondeiam milhos, nuvens e miragens, E, silencioso, eu fico para traz.

VI

N'uma collina azul brilha um logar caiado.

Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha, Com teu chapéo de palha, desabado, Tu continúas na azinhaga; ao lado Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

VII

N'isto, parando, como alguem que se analysa, Sem desprender do chão teus olhos castos, Tu começaste, harmonica, indecisa, A arregaçar a chita, alegre e lisa Da tua cauda um poucochinho a rastos.

VIII

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros; O sol abrasa as terras já ceifadas, E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, Sobre os teus pés decentes, verdadeiros, As saias curtas, frescas, engommadas.

IX

E, como quem saltasse, extravagantemente, Um rego d'agua sem se enxovalhar, Tu, a austera, a gentil, a intelligente, Depois de bem composta, déste á frente Uma pernada comica, vulgar!

X

Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!

No atalho enxuto, e branco das espigas Caidas das carradas no salmejo,

Esguio e a negrejar em um cortejo, Destaca-se um carreiro de formigas.

XI

Ellas, em sociedade, espertas, diligentes, Na natureza trémula de sede,