O Manual do Bruxo, Um dicionário do mundo mágico de HP por Allan Zola Kronzek e Elizabeth Kronzek - Versão HTML

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Quem foi o verdadeiro Nicholas Flamel? De onde vem o

poder da Pedra Filosofal? Quais foram as primeiras palavras

mágicas? Será que J.K. Rowling sonhou com o aterrador

basilisco ou com as sedutoras Veelas? Se essas e outras

criaturas fantásticas não foram inventadas por ela, quem as

criou?

Recheadas de feitiços, maldições e criaturas

imaginárias, as aventuras de Harry Potter e seus amigos têm

fascinado milhões de leitores ao redor do mundo. Mas o que

muitos fãs do feiticeiro não sabem é que existem séculos de

histórias reais, folclore e mitologia por trás do seu universo

mágico.

O MANUAL DO BRUXO dá ao leitor curioso a chance de

pesquisar qualquer coisa "mágica" que apareça nos primeiros

quatro livros de Harry Potter. Poções e encantos, gigantes e

dragões, caldeirões e bolas de cristal — todos têm histórias

fascinantes com raízes em lendas, na literatura ou em fatos

reais.

Este livro é mágico. Com verbetes organizados em

ordem alfabética e belas ilustrações, ele pode ser lido de

ponta a ponta ou consultado de acordo com o seu interesse.

De adivinhação e amuletos até zumbis, você vai aprender

aqui:

• quem usou o primeiro manto da invisibilidade

• dicas de herbologia

• como ler a sorte nas folhas de chá

• como identificar um demônio.

O MANUAL DO BRUXO é um livro indispensável na

estante de todo fã de Harry Potter.

Título da edição original em inglês: The Sorcerer's Companion

2001 por Allan Zola Kronzek e Elizabeth Kronzek

tradução

Rubens Figueiredo Sabrina Ricci Netto

preparo de originais

Carlos Irineu da Costa

revisão técnica

Carlos Irineu da Costa

Raquel Lins

revisão

Antônio dos Prazeres Sérgio Bellinello Soares

ilustração de capa

Cliff Nielsen

capa

Porto Martinez

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projeto gráfico e diagramação

Valéria Teixeira

fotolitos

R. R. Donnelley América Latina

Para Ruby,

com amor.

A.Z.K.

Para minha mãe,

sempre presente.

E.K.

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Sumário

Introdução

Magia

Adivinhação

Amuleto

Anão

Aritmancia

Artes das trevas

Astrologia

Barrete vermelho

Basilisco

Bicho-papão

Bola de cristal

Bruxas

Bruxedo

Bruxo

Caça às bruxas

Caldeirão

Cão de três cabeças

Centauro

Circe

Cobra

Coruja

Demônio

Diabrete

Dragões

Duende

Elfo

Encantamento

Esfinge

Espelho mágico

Espírito agourento

Fada

Fantasma

Feitiço

Fênix

Floresta proibida

Gato

Ghoul

Gigante

Gnomo

Grindylow

Hag

Herbologia

Hinkypunk

Hipogrifo

Horóscopo

Iéti

Kappa

Leprechaun

Ler a sorte nas folhas do chá

Lobisomem

Mágico

Mago

Maldição

Mandrágora

Manticore

Manto da invisibilidade

Merlim

Morgana

Múmia

Nicholas Flamel

Palavras mágicas

Pedra filosofal

Petrificação

Poções

Poltergeist

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Quiromancia

Runas

Salamandra

Sapo

Sereianos e sereias

Sibila

Sinistro

Sonhos

Talismã

Tapetes voadores

Transfiguração

Trasgo

Unicórnio

Vampiro

Varinha mágica

Vassoura voadora

Veela

Zumbi

Introdução

Se você é como a maioria dos fãs de Harry Potter, na

certa sabe que o objeto de estimação de Harry é a sua

vassoura voadora, que o assunto favorito de Hermione é a

aritmancia e que uma criatura fantástica chamada hipogrifo

ajudou Sirius Black em sua fuga. Mas por acaso você sabia

que, no passado, as pessoas acreditavam que os magos

voavam sobre forcados, que a aritmancia é uma antiga forma

de adivinhar o futuro e que quem montou no hipogrifo pela

primeira vez foram os lendários cavaleiros de Carlos Magno?

Ou que Nicholas Flamel, criador da Pedra Filosofal e amigo do

professor Dumbledore, existiu de fato?

As aventuras espantosas de Harry e seus amigos

passam tão depressa que poucas vezes temos chance de

refletir sobre a riqueza da mitologia, do folclore e das histórias

reais que estão brilhando abaixo da superfície. Um dos

maiores prazeres de ler os livros de Harry Potter vem, justa-

mente, dessa riqueza extraordinária do universo mágico que

eles contêm — universo criado, em parte, pela imaginação

aparentemente ilimitada de J. K. Rowling e, em parte, pela

vasta tradição popular de magia, espalhada pelo mundo todo.

Poções e encantos, gigantes e dragões, caldeirões e bolas de

cristal — todos têm histórias fascinantes e muitas vezes

surpreendentes que remontam a centenas e, às vezes, a

milhares de anos. Varinhas mágicas como aquelas vendidas

no Beco Diagonal foram, no passado, feitas por feiticeiros

druidas com galhos do teixo sagrado. Poções de amor são

muito antigas e já podiam ser encontradas na Grécia . e Roma

antigas. Livros de feitiços e de maldições — de leitura

obrigatória na Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts —

eram muito populares (mas também muito malvistos) na

Idade Média.

O Manual do Bruxo dá, ao leitor curioso, a chance de

pesquisar qualquer coisa "mágica" que apareça nos primeiros

quatro livros de Harry Potter e descobrir uma fascinante e

inesperada riqueza de informações. De onde vem o poder da

Pedra Filosofal? Quais foram as primeiras palavras mágicas?

Será que J. K. Rowling sonhou com o aterrador basilisco, com

as sedutoras veelas, ou com o terrível grindylow? E, se essas

e outras criaturas fantásticas não foram inventadas por ela,

quem as criou? O Manual do Bruxo traz as respostas.

A história de todas as crenças mágicas é muito ampla.

Ao escrever este livro, tivemos de deixar de fora mais coisas

do que fomos capazes de incluir nele. As ricas tradições da

magia e da mitologia da China, da África, da Índia, do Japão,

da Austrália e da América do Sul quase não são mencionadas.

Em vez disso, nos restringimos às lendas e mitos diretamente

ligados ao mundo de Harry. Quase todas as práticas de magia

ensinadas na Escola de Hogwarts têm raízes na tradição da

magia ocidental, surgida nos antigos impérios do Oriente

Médio, da Grécia e de Roma. Criaturas imaginárias como o

centauro, a manticora e o unicórnio provêm dessa mesma

tradição. Muitos dos outros seres mágicos, como os elfos, os

gnomos, os duendes, os hinkypunks e os trasgos, têm raízes

no folclore do norte da Europa e das ilhas britânicas.

Quando começamos a escrever O Manual do Bruxo,

perguntamos a fãs de Harry Potter quais eram os assuntos

mais interessantes para eles. Alguns queriam conhecer mais a

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respeito de feitiços, encantamentos e maldições. Outros

estavam ansiosos para conhecer melhor os bichos-papões, os

barretes vermelhos e outras criaturas mágicas. Claro que você

terá seus próprios interesses em particular: fique à vontade

para explorar e consultar este livro da forma que preferir. Este

livro também é mágico e pode ser lido como você preferir. Se

quiser, leia tudo, de uma ponta à outra. Ou então vá pulando

entre os verbetes, que colocamos em ordem alfabética para

facilitar a consulta. Talvez você prefira começar pelo verbete

Magia, que é uma boa introdução sobre esse assunto

fascinante. Mas pode começar por onde bem entender — e na

certa vai acabar passando por todas as páginas. O importante

é que você se divirta e aprenda coisas interessantes em sua

leitura.

Em cada verbete, tentamos dar uma visão geral do

assunto e mostrar suas raízes na mitologia, no folclore e na

história. Quando uma palavra estiver em negrito, significa que

há um verbete específico para ela. No final da maioria dos

verbetes, você encontrará este símbolo e uma abreviatura

que indica o ponto em que o assunto aparece nos livros de

Harry Potter. "Pedra Filosofal, 5", por exemplo, remete a Harry

Potter e a Pedra Filosofal, capítulo 5. "Câmara Secreta"

remete a Harry Potter e a Câmara Secreta, "Prisioneiro de

Azkaban" remete a Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e

"Cálice de Fogo" remete a Harry Potter e o Cálice de Fogo.

Todas as referências correspondem às edições brasileiras.

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Fazendo nossas pesquisas para O Manual do Bruxo,

aprendemos muitas coisas curiosas que nunca havíamos

imaginado. Por exemplo: como ler a sorte nas folhas de chá,

como livrar-se de duendes, como colher raízes de mandrágora

sem correr nenhum risco e como usar a aritmancia para

escolher o que você vai comer no almoço. Sentimo-nos mais

seguros agora que sabemos como identificar um demônio e o

que fazer quando formos atacados por um ghoul (nunca,

jamais, bata nele duas vezes!). É bom ter essas informações

por perto: nunca se sabe quando poderemos precisar delas!

Aos onze anos, Harry Potter tem a maior surpresa de

sua vida. Ao contrário da tia Petúnia e do tio Válter, ao

contrário do horrível primo Duda e de todos que ele conhece,

Harry é capaz de fazer mágicas. Pode fazer crescer uma

cabeleira da noite para o dia, fazer uma vidraça desaparecer

no zoológico e encolher um suéter feioso, sem a ajuda de uma

máquina de secar. E, conforme Hagrid lhe explica com muita

satisfação, um breve período de treinamento na Escola de

Bruxaria e Magia de Hogwarts vai permitir que ele faça mais,

muito mais.

No mundo da bruxaria, a magia é um modo de realizar

coisas impossíveis pelas leis naturais, que limitam o resto das

pessoas. Os bruxos podem usar o pó de flu para ir de um

lugar para o outro, ao passo que os não-magos são obrigados

a ir a pé ou pegar um ônibus. Alvo Dumbledore pode apontar

sua varinha mágica e pronunciar algumas palavras mágicas

para encher o salão de Hogwarts com sacos de dormir. Uma

pessoa comum teria que ir a uma loja, comprar os sacos de

dormir, carregá-los em uma caminhonete, trazê-los até a

escola e levar tudo para dentro. Sirius Black pode usar a

magia para se transformar em um cão, enquanto quem não é

mago tem de se contentar em vestir uma fantasia.

Por mais que nos encante ler a respeito das proezas

desses magos ficcionais, a maioria das pessoas no mundo

moderno não acredita em magia. Apreciamos as

apresentações de mágicos nos teatros ou circos, que nos dão

a experiência da magia, mas na verdade não esperamos que

eles façam o impossível acontecer. E também não são muitos

os que acreditam em uma outra idéia comum da magia, no

passado — a idéia de que o mundo é controlado por seres

sobrenaturais, cujo poder pode ser subjugado e usado por

humanos a fim de alcançar seus objetivos.

Porém, ao longo de quase toda a história ocidental, as

pessoas acreditaram de fato na magia e confiavam em forças

invisíveis e sobrenaturais para exercer poder sobre os outros

ou para controlar o mundo natural. As pessoas praticavam a

magia para adquirir conhecimento, amor e riqueza, para curar

doenças e prevenir-se contra perigos, para prejudicar ou

enganar os inimigos, para garantir o sucesso ou a

produtividade e para conhecer o futuro. Os métodos mágicos

compreendiam muitas das técnicas ensinadas em Hogwarts,

como feitiços, poções, encantamentos e adivinhação, bem

como rituais e cerimônias minuciosas, destinadas a invocar

deuses, demônios e fantasmas. A prática da magia ajudava as

pessoas a aliviar suas aflições e ter a sensação de que faziam

alguma coisa para controlar o curso de suas vidas.

 A ORIGEM DA MAGIA 

A palavra magia deriva do nome dos altos sacerdotes

da antiga Pérsia (o atual Irã), chamados magi. No século VI

a.C., os magi eram conhecidos por sua profunda sabedoria e

por seus dons de profecia. Adeptos do líder religioso

Zoroastro, eles interpretavam sonhos, praticavam a astrologia

e davam conselhos aos soberanos a respeito de questões

importantes. Quando os magi se tornaram conhecidos nos

mundos grego e romano, eram vistos como figuras

extremamente misteriosas, senhores de segredos profundos e

de poderes sobrenaturais. Ninguém sabia, na verdade,

exatamente que poderes eram esses (afinal, eram secretos!),

mas durante um longo tempo qualquer coisa considerada

sobrenatural era tida como criação dos magi e chamada de

"magia". De fato, o próprio Zoroastro foi muitas vezes

chamado de o inventor da magia.

É claro que, na verdade, nenhum indivíduo e nenhuma

cultura isolada inventaram a magia. Os procedimentos

mágicos transmitidos de geração em geração, ao longo dos

séculos, tiveram origem em muitas civilizações, inclusive nas

dos antigos persas, babilônios, egípcios, hebreus, gregos e

romanos. A tradição mágica ocidental, como hoje a conhece-

mos, deve muito à troca de idéias entre membros de

diferentes culturas.

Esse contato ocorreu com freqüência cada vez maior

após o século III a.C., quando o general grego Alexandre o

Grande conquistou a Síria, a Babilônia, o Egito e a Pérsia e

fundou a cidade de Alexandria, no Egito, destinada a ser o

centro intelectual do mundo antigo.

 MAGIA E RELIGIÃO 

Em todas as sociedades antigas, a magia e a religião

estavam interligadas. Acreditava-se que havia muitos deuses

e espíritos secundários, bons ou maus, que controlavam a

maioria das coisas da vida, eram responsáveis pelo sol e pela

chuva, pela prosperidade e pela pobreza, pela doença e pela

saúde. O propósito da magia era agradar ou controlar esses

espíritos. Assim como a religião, a magia compreendia rituais

e cerimônias que apelavam aos deuses. As pessoas

acreditavam que os mágicos, assim como os sacerdotes,

tinham um acesso privilegiado aos deuses. Só que, em vez de

adorar essas divindades, os mágicos lhes pediam, ou até

exigiam, favores.

Às vezes os mágicos apelavam aos deuses

simplesmente para obter ajuda quando queriam lançar um

feitiço ou proferir uma maldição. Mas muitas vezes também

tentavam fazer essas divindades aparecerem "em pessoa".

Depois de cumprir uma cerimônia especial a fim de convocar

ou invocar um espírito, um mágico da antiga Babilônia ou do

Egito podia ordenar ao espírito que levasse embora a doença,

abatesse um inimigo ou garantisse alguma vitória política. Era

costume ameaçar uma divindade menor com um castigo a ser

aplicado por espíritos mais poderosos, caso as exigências do

mágico não fossem satisfeitas. Em seguida, o mágico

dispensaria a divindade, enviando-a de volta para o mundo

dos espíritos. Centenas de documentos da antigüidade

confirmam que tentar recrutar espíritos era uma atividade

comum, ainda que muitas vezes frustrante, na Grécia e na

Roma antigas.

Quase todas as formas de magia antiga dependiam do

conhecimento prévio dos nomes secretos dos deuses.

Pensava-se que muitas divindades tinham dois conjuntos de

nomes, os nomes comuns, que todos sabiam, e os nomes

secretos, conhecidos apenas pelas pessoas que estudaram as

artes mágicas. De certo modo, esses nomes secretos foram as

primeiras palavras mágicas. Faladas ou escritas, julgava-se

que elas tinham um grande poder, pois se acreditava que

saber o nome verdadeiro de um deus tornava o mágico capaz

de invocar todos os poderes que o deus representava. Os

sacerdotes egípcios davam a suas divindades nomes

compridos, complicados e muitas vezes impronunciáveis, para

que forasteiros não pudessem aprendê-los com facilidade.

Dizia-se que Moisés havia dividido as águas do mar Vermelho

ao pronunciar o nome secreto de Deus, com setenta e duas

sílabas, que só ele conhecia. E, segundo o escritor grego

Plutarco, o nome da divindade guardiã de Roma foi mantido

em segredo após a fundação da cidade e era proibido

perguntar qualquer coisa a respeito dessa divindade — nem

mesmo se era macho ou fêmea —, para que os inimigos de

Roma não descobrissem esse nome e invocassem o deus para

seus próprios fins.

A medida que as civilizações antigas foram entrando em

contato umas com as outras, tornou-se cada vez mais comum

que os mágicos de uma cultura "experimentassem" os nomes

dos deuses de outras regiões. Alguns dos manuscritos mais

antigos com registros de práticas mágicas, redigidos nos

séculos III e IV, contêm listas compridas com os nomes dos

deuses de muitas religiões, que poderiam ser inscritos em

talismãs e amuletos, ou incorporados a feitiços e

encantamentos. Um dos encantamentos mais famosos entre

os mágicos gregos e egípcios do século III, supostamente tão

poderoso que "o sol e a terra se curvam, humildes, quando o

escutam; rios, mares, pântanos e fontes se congelam quando

o escutam; pedras explodem quando o escutam", era

composto com os nomes de cem divindades reunidos.

 ALTA MAGIA E BAIXA MAGIA 

A magia antiga é muitas vezes dividida em duas

categorias — "alta magia" e "baixa magia" — que podem ser

diferenciadas, fundamentalmente, pelos objetivos de seus

praticantes.

A alta magia, que tem muito em comum com a religião,

era motivada pelo desejo de adquirir um tipo de sabedoria

inacessível por meio da experiência comum. Quando os altos

magos (entre os quais figuras notáveis como o filósofo e

matemático grego Pitágoras) apelavam a deuses e espíritos,

tinham os objetivos mais elevados. Esperavam receber visões

proféticas, tornar-se capazes de curar doenças, alcançar o

conhecimento de si mesmos ou até se tornarem semelhantes

aos deuses.

Muitos sistemas de alta magia também ensinavam que

todo ser humano era uma versão do universo em miniatura e

continha dentro de si todos os elementos do mundo externo.

Acreditava-se que, ao desenvolver seus poderes interiores de

imaginação e de intuição, o mágico acabaria por tornar-se

capaz de provocar mudanças reais (e aparentemente

sobrenaturais) no mundo, simplesmente concentrando suas

emoções, sua vontade e seu desejo. Mas adquirir os poderes

prometidos pela "alta magia" era tarefa para uma vida inteira.

Muitas outras pessoas se dedicavam à magia com

objetivos mais imediatos e mais práticos. Queriam trazer

sorte, riqueza, fama, sucesso político, saúde e beleza.

Desejavam prejudicar inimigos e conseguir o amor, vencer no

esporte, conhecer o futuro e resolver problemas práticos

cotidianos. A busca desses objetivos é, em geral, conhecida

como "baixa magia" — categoria que, popularmente, inclui

também ler a sorte, preparar poções, lançar feitiços e usar

encantamentos e amuletos. A partir do século IV a.C,

centenas ou milhares de homens e mulheres tornaram-se

feiticeiros e adivinhos profissionais, oferecendo magia em

troca de um pagamento. Embora muitos deles tivessem

reputação de fraudulentos, os registros históricos mostram

que pessoas de todas as classes sociais consultavam esses

mágicos profissionais com regularidade, alguns publicamente,

outros às escondidas.

 A REPUTAÇÃO DA MAGIA 

Em geral, a magia era mais temida do que admirada no

mundo antigo. Mesmo quem nada sabia a respeito acreditava

que podia ser prejudicado ou influenciado pela magia de outra

pessoa. Se um político se perdia no meio de um discurso ou

se alguém ficava doente sem mais nem menos, não era raro

supor que a culpa era da maldição de um inimigo. A reputação

sinistra da magia tomou impulso por causa de suas ligações

com a bruxaria, na imaginação popular. A literatura grega e

romana era repleta de descrições muito imaginativas, e

muitas vezes apavorantes, de bruxas e de seus métodos

desleais. Ericto, uma bruxa criada pelo escritor grego Luciano,

do século II, usa partes do corpo humano em suas poções,

enterra os seus inimigos ainda vivos e traz cadáveres

putrefatos de volta à vida. Embora obviamente se trate de um

personagem de ficção (aliás, um personagem inesquecível),

Ericto, e outras bruxas como ela, exerceu um impacto muito

forte na imagem popular da magia e da bruxaria.

Embora a magia fosse popular entre o público que

queria consultar adivinhos e comprar encantamentos e

amuletos protetores, as pessoas em posições de poder

desconfiavam de astrólogos que prediziam sua morte e de

feiticeiros que podiam ser contratados por seus inimigos para

prejudicá-los por meio de maldições. Em 81 a.C., o ditador

romano Cornélio Sula decretou a pena de morte para

"videntes, encantadores e aqueles que usam a feitiçaria com

propósitos malévolos, que invocam demônios, desencadeiam

as forças da natureza [ou] empregam bonecos de cera com

fins destrutivos". Uma série de leis do mesmo tipo foi insti-

tuída nos séculos seguintes, de tal forma que, no século IV

d.C., todas as formas de magia e adivinhação foram

decretadas ilegais no Império Romano. Ao mesmo tempo, a

Igreja cristã, que vinha ganhando poder rapidamente, fez um

esforço concentrado para suprimir a magia, tida como

concorrente da fé cristã. Decretou-se que todas as formas de

magia eram ligadas aos demônios (e, portanto, ao Diabo) e

foram proibidas pela lei da Igreja.

A igreja e o governo continuaram a trabalhar juntos

contra a magia, ao longo da Idade Média. No entanto as

crenças e os métodos mágicos, sobretudo quando ligados à

medicina popular (curas mágicas), continuaram a ser

transmitidos secretamente e tornaram-se parte do repertório

dos "rezadores" ou magos de aldeia dos séculos posteriores

(ver herbologia, mágico).

 MAGIA NA LITERATURA MEDIEVAL 

A partir de meados do século XII, a magia começou a

ser apresentada de forma muito mais favorável, pelo menos

por escritores de ficção. Primeiro na França e depois na

Alemanha e Inglaterra, poetas criaram aventuras

maravilhosas, passadas em épocas remotas e repletas de

magia, com façanhas de cavaleiros valentes, lindas donzelas e

reis heróicos. Esses relatos, hoje conhecidos como "romances

medievais", diminuíam as associações negativas existentes

entre a magia, os demônios e a bruxaria. A palavra "magia"

era muitas vezes evitada e os autores, em seu lugar, usavam

"maravilha", "assombro" e "encantamento". Os heróis

possuíam espadas que lhes davam força sobre-humana,

pratos que se enchiam de comida sozinhos, barcos e

carruagens que não precisavam de cocheiro e anéis que

tornavam seu usuário invulnerável ao fogo, ao afogamento e

a outras catástrofes. Fadas e monstros da mitologia também

apareciam com muita regularidade e muitas vezes era uma

fada que dava ao herói exatamente aquilo de que ele

precisava para concluir a sua missão. Poções, adivinhação

astrológica, feitiços e ervas que curavam tinham também um

papel de destaque nessas obras épicas. Embora a noção de

"magia negra" ainda persistisse, com feiticeiros e bruxas

malignos que surgiam de vez em quando, a maior parte

desses relatos apresentava a magia de forma positiva e o

público gostava tanto de sua leitura quanto nós, hoje em dia.

 MAGIA NATURAL 

A magia se tornou novamente respeitável nos séculos

XV e XVI, devido à ascensão da "magia natural", que não

supõe a ajuda de demônios nem de seres sobrenaturais. A

magia natural, uma espécie de ciência na época, se baseava

na crença de que tudo na natureza — gente, plantas, bichos,

pedras e minerais — estava repleto de forças ocultas,

chamadas de "virtudes ocultas". Acreditava-se, por exemplo,

que as pedras preciosas continham o poder de curar doenças,

afetar o estado de ânimo e até trazer sorte. As ervas tinham

virtudes ocultas, capazes de promover a cura, e às vezes bas-

tava suspendê-las acima do leito de um paciente. Até cores e

números tinham poderes ocultos. Além disso, todos os

elementos da natureza estavam ligados entre si, por meios

fascinantes, porém ocultos. Os mágicos naturais — categoria

que incluía os médicos — tinham o desafio de descobrir essas

forças e essas ligações e utilizá-las de forma positiva.

Mas não era nada simples ser um mágico natural sério.

Era preciso pesquisar, estudar e observar cuidadosamente a

natureza. Às vezes a "virtude oculta" de uma substância era

revelada por sua aparência. Por exemplo, a erva scorpius (cujo

nome deriva da sua semelhança com o escorpião) era tida

como um remédio eficaz contra picadas de aranha.

Acreditava-se que plantas e animais com formatos

semelhantes tinham propriedades similares. Porém o mais

importante para dominar a magia natural era o estudo da

astrologia, pois acreditava-se que muitas relações e

propriedades ocultas na natureza emanavam diretamente dos

planetas e das estrelas. A pedra preciosa esmeralda, o metal

cobre e a cor verde, por exemplo, possuíam propriedades

oriundas do planeta Vênus. Ciente disso, o mágico natural

estava apto a usar esses elementos em diversas combi-

nações, na tentativa de afetar áreas da vida "regidas" por

Vênus, como a saúde, a beleza e o amor. Usar o metal

chumbo, a pedra ônix e a cor negra era um meio provável de

produzir o efeito exatamente contrário, pois os três eram

regidos por Saturno e ligados à morte e ao abatimento.

Além disso, o praticante precisava ter vastos

conhecimentos de anatomia e herbologia, pois curar doenças

era um objetivo importante na magia natural, e uma doença

provocada por uma influência planetária podia ser curada por

uma erva regida pelo mesmo planeta ou, em certos casos,

pelo planeta oposto. O mágico natural era um tipo de mago

do mundo natural e um mestre das combinações —

misturando, combinando e explorando as propriedades

ocultas da natureza de modo a alcançar resultados milagrosos

e benéficos.

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A magia natural ensinava que plantas e animais de aspecto

semelhante

tinham as mesmas propriedades mágicas.

Enquanto nos séculos IX ou X uma pessoa respeitável

na certa evitaria qualquer ligação com a magia, no

Renascimento a magia natural era aceita como uma área de

estudo adequada a intelectuais, médicos, sacerdotes e todos

que tivessem um sentimento de curiosidade científica. De

fato, os estudiosos da época se sentiriam muito à vontade se

estivessem em Hogwarts, onde muitas matérias da magia

natural — herbologia, astrologia, quiromancia, aritmancia e a

preparação de horóscopos — fazem parte do currículo.

 MAGIA RITUAL 

Mas a possibilidade de invocar espíritos nunca ficou

inteiramente esquecida. Entre os séculos XV e XVIII surgiu em

toda a Europa, e em vários idiomas, uma série sensacional de

livros, chamados grimoires (ou Livros Negros). Em sua

maioria, eram escritos de forma anônima mas atribuídos a

fontes antigas (quanto mais antigo parecesse o livro, mais

secreta a sabedoria que ele parecia conter), inclusive Moisés,

Aristóteles, Noé, Alexandre o Grande e o famosíssimo rei

bíblico Salomão. As vendas e a circulação eram secretas, no

início, pois possuir e usar um livro desses era um crime grave.

Essas obras ensinavam métodos que supostamente permitiam

invocar espíritos e demônios de épocas antigas.

Os grimoires prometiam magia para todos os fins

imagináveis: conseguir amor, riqueza, beleza, saúde,

felicidade e fama. Derrotar, amaldiçoar ou matar inimigos. Ou

ainda começar guerras, curar doentes, adoecer pessoas sãs,

ficar invisível, encontrar tesouros, voar, predizer o futuro e

abrir portas sem ter a chave. Não admira que essas

promessas tenham tornado esses livros muito populares,

sobretudo durante o século XVII, quando edições baratas de

certos grimoires se tornaram amplamente acessíveis.

Estudantes e sacerdotes, crentes devotados e gente apenas

curiosa, todos seguiam as instruções para ver o que

acontecia.

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Como exigiam cerimônias e rituais complicados, os

métodos ensinados pelos grimoires eram conhecidos como

"magia ritual" ou "magia cerimonial". Em essência, a magia

ritual seguia os mesmos passos utilizados, milhares de anos

antes, para invocar deuses e espíritos. Primeiro, o mágico

traçava um grande círculo no chão, no qual inscrevia palavras

mágicas, nomes sagrados e símbolos. Em seguida, se

colocava dentro do círculo (que o protegia dos espíritos que ia

invocar), pronunciava os encantamentos que fariam surgir o

demônio e que garantiriam que seus desejos fossem

atendidos. Depois, apresentava suas exigências e mandava o

demônio embora. Pelo menos, era isso que se esperava.

Uma edição francesa do século XVII de A Chave de Salomão,

o mais famoso de todos os grimoires.

Mas, antes que tudo isso pudesse ser posto à prova,

haveria semanas, e até meses, de preparação. Segundo

muitos grimoires, todo o aparato usado na cerimônia — velas,

perfumes, incenso, a espada usada para traçar o círculo

mágico, a varinha mágica — tinha de ser novo em folha.

Também não se podia simplesmente ir ao Beco Diagonal e

comprar as coisas necessárias. As velas cerimoniais tinham de

ser moldadas pessoalmente pelo mágico, com cera fabricada

por abelhas que nunca tivessem feito cera antes. A varinha

mágica tinha de ser recém-entalhada, de um galho de

aveleira cortado de uma árvore com um golpe de uma espada

recém-fabricada. As tintas coloridas usadas para traçar

desenhos nos talismãs mágicos tinham de ser preparadas na

hora e guardadas num tinteiro novo. Além disso, segundo A

Chave de Salomão, a pluma usada para desenhar os talismãs

tinha de ser feita com a terceira pena da asa direita de um

ganso. Cada etapa tinha de ser cumprida segundo os

princípios da astrologia, sob a influência dos planetas

adequados, conforme as várias épocas do ano. O mágico

também tinha de se preparar espiritualmente para a

cerimônia mediante uma dieta especial, jejum, banho ritual e

outros procedimentos de purificação.

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Um mágico ritual do século XVI ordena a um demônio que

cumpra suas exigências. Acreditava-se que o círculo mágico

protegia o mágico contra todo mal.

Nada disso, é claro, garantia que algo iria acontecer

durante a cerimônia. Na verdade, as instruções eram tão

minuciosas, tão específicas e, em geral, tão bizarras, que era

quase impossível executar tudo conforme vinha determinado.

Não admira, portanto, que, apesar de repetidas súplicas,

encantamentos e de toda a sinceridade, os espíritos

costumassem não aparecer, exceto na imaginação de certos

praticantes e dos autores de g rimoires. Mas era fácil explicar

os fracassos: com tantos detalhes complicados, em algum

ponto, de alguma forma, tinha de se cometer um engano.

 A MAGIA HOJE 

A crença na magia entrou em declínio em meados do

século XVII, quando as pessoas começaram a descobrir

maneiras mais práticas e eficientes de enfrentar seus

problemas. A química moderna permitiu a criação de novos

medicamentos que substituíram os tratamentos criados

segundo os princípios da herbologia, da astrologia e da magia

natural. Com a ascensão do pensamento científico, as idéias

sobre como o mundo funcionava passaram a ser testadas em

experiências e o poder das palavras mágicas, feitiços e

talismãs foi cada vez mais questionado.

Hoje, a idéia de conseguir poderes extraordinários por

meio da invocação de espíritos desapareceu na maior parte

do mundo moderno. Mas também é verdade que o mundo é

hoje mais mágico do que nunca. Coisas julgadas impossíveis,

como voar ou conversar com uma pessoa que está do outro

lado do mundo, são fatos cotidianos. As aspirações da magia

natural — descobrir e controlar as forças ocultas da natureza

— foram realizadas pela ciência moderna. E, embora os

princípios da astrologia tenham sido invalidados, revelou-se,

ironicamente, que todas as virtudes ocultas na natureza

vieram, de jato, das estrelas, pois agora sabemos que todos

os elementos do mundo natural, inclusive nós mesmos,

tiveram origem na matéria oriunda da explosão de sóis. Assim

como era para os antigos, o universo continua um lugar

surpreendente, repleto de maravilhas, cheio de possibilidades

impossíveis e de magia.

As aventuras de Harry Potter e seus amigos têm sido

apreciadas exatamente da mesma forma que os romances

medievais, no passado, só que por um número de pessoas

muito maior. A magia teatral é mais popular do que em

qualquer outra época. Seja na forma literária, seja na forma

teatral, a magia confirma a nossa intuição de que há uma

"outra realidade". Embora a magia possa não fazer sentido

para nossas mentes lógicas, faz muito sentido para nossas

mentes criativas e intuitivas, que funcionam segundo um

conjunto de regras distinto. O apelo da magia parece não ter

nada a ver com o fato de ela ser ou não "real". A magia veio

da imaginação e alimenta a imaginação. Acreditamos que

será sempre assim.

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Com quem vou casar? Quanto tempo vou viver? Que

número será sorteado? Será que este produto vai vender

bem? Será que este avião vai cair? Venceremos a guerra?

Desde adolescentes apaixonados até líderes mundiais,

todos querem saber o que está para vir. Por isso a adivinhação

— arte de prever o futuro — existiu, de uma forma ou de

outra, em todas as culturas que a história registra. Hoje, em

qualquer cidade, podemos encontrar praticantes das formas

mais populares de adivinhação — astrologia, tarô, bola de

cristal, leitura das mãos, numerologia e leitura da sorte nas

folhas de chá. E esses exemplos são apenas uma pequena

amostra de centenas de sistemas divinatórios desenvolvidos

ao longo dos séculos.

Muitos métodos de adivinhação tiveram início na antiga

Mesopotâmia, há mais de 4.000 anos. Lá, as artes divinatórias

eram praticadas pelos sacerdotes, que pesquisavam os

movimentos das estrelas e dos planetas e examinavam as

entranhas de animais sacrificados em busca de indicações

sobre o bem-estar do rei e da comunidade. Alguns adivinhos

buscavam indicações de fatos futuros entrando num transe e

procurando orientação no mundo dos espíritos. Outros

buscavam presságios na natureza. Um eclipse, uma

tempestade de granizo, o nascimento de gêmeos ou a

maneira como a fumaça subia no ar — quase qualquer coisa

podia ser interpretada como um sinal de acontecimentos

futuros.

Na Grécia e Roma antigas, existiam dois níveis de

adivinhação: adivinhos profissionais, altamente treinados,

trabalhavam para o governo, enquanto videntes comuns

prestavam serviço a qualquer pessoa que pudesse pagar seus

honorários. Entre os adivinhos oficiais, o mais reverenciado,

na Grécia, era o Oráculo de Delfos, a quem as pessoas formu-

lavam suas perguntas (muitas vezes em forma de múltipla

escolha). A resposta vinha diretamente do deus Apoio,

transmitida por uma sacerdotisa. Emissários de reis de países

vizinhos consultavam o Oráculo a respeito de assuntos

importantes, como onde construir um templo novo ou quando

dar início a uma guerra. Em Roma, os adivinhos indicados pelo

Estado eram conhecidos como "augures", do latim avis, que

significa "ave", e garrire, que significa "conversar". De fato,

eles se inspiravam na observação dos pássaros para dar ao

Estado seus respeitados conselhos. Entre todas as criaturas

da terra, as aves eram as mais próximas do céu, portanto é

compreensível que fossem vistas como boas indicações do

que podia ou não agradar aos deuses. Eles baseavam as

interpretações em muitos tipos de observação, inclusive o

número e a espécie das aves e sua forma de voar, piar e

cantar, sua direção e sua velocidade. Júlio César, Cícero,

Marco Antônio e outros romanos eminentes serviram-se de

augures.

Adivinhos menos ilustres punham-se à disposição de

todos (até escravos algumas vezes tinham permissão para

fazer uma consulta) e ler a sorte foi um grande negócio

durante toda a antigüidade. A interpretação dos sonhos e a

astrologia eram os sistemas mais respeitados, porém havia

outros sistemas bastante populares, tais como a aritmancia,

a consulta ao cristal (parente da vidência através da bola de

cristal) e a quiromancia, bem como sistemas ligados a aves,

dados, livros, flechas, machados e outros objetos bem

surpreendentes. Os adivinhos populares, muitos dos quais

também vendiam talismãs e amuletos, não tinham o

mesmo respeito que os adivinhos oficiais. O mais provável é

que fossem impostores e os comediantes adoravam satirizar

as pessoas que se amontoavam em torno deles, atrás de

conselhos para os assuntos mais triviais.

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O chapéu, o manto, o cetro e os livros do adivinho jazem com

que ele seja facilmente reconhecível. Este adivinho do século

XVII segura um astrolábio para simbolizar seu conhecimento

de astrologia.

Pessoas de todas as camadas sociais consultavam adivinhos

profissionais.

Aqui, um jovem fidalgo ouve o que as cartas revelam sobre o

seu futuro.

Muitos sistemas divinatórios antigos sobreviveram ao

longo da Idade Média, apesar da oposição da Igreja, na

Europa. Videntes profissionais continuaram a trabalhar nas

cidades mais importantes, adivinhos itinerantes se

deslocavam de uma cidade para outra e magos e benzedeiras

de aldeia prestavam serviços de adivinhação para suas

comunidades. Deve-se notar que os magos de aldeia deviam

ser capazes de conhecer tanto o futuro como o passado.

Muitas vezes lhes pediam que localizassem objetos perdidos,

identificassem ladrões, descobrissem o paradeiro de pessoas

desaparecidas e encontrassem tesouros enterrados. Sobre

esses tesouros, é bom lembrar que, séculos atrás, os bancos

eram raros e muito distantes um do outro, então muita gente

enterrava seus bens preciosos num buraco escavado no solo,

costume que levava outras pessoas a tentar localizá-los e

retirá-los da terra, obviamente sem avisar os donos. Pessoas

comuns também podiam praticar, por conta própria, algum

tipo de adivinhação, aprendida em livretos ilustrados

ordinários que tratavam de quiromancia, astrologia e outros

assuntos, à venda desde o século XVI. No geral, porém, a

adivinhação continuou nas mãos de profissionais que

afirmavam possuir informações, treinamento e um "dom" ao

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qual os outros não tinham acesso.

Nos últimos séculos acrescentaram-se dois sistemas de

adivinhação ao arsenal dos adivinhos. A cartomancia —

adivinhação por meio de cartas de baralho — se desenvolveu

em meados do século XVII, cerca de 150 anos após o

surgimento das cartas de baralho na Europa, e logo se tornou

a marca registrada dos adivinhos ciganos itinerantes. A

adivinhação pelas folhas de chá, embora praticada na China

desde o século VI, só apareceu na Europa em meados do

século XVIII. Esses dois novos sistemas tornaram-se populares

rapidamente, talvez porque o baralho e o chá já fossem parte

da vida cotidiana das pessoas. Embora muitos sistemas de

adivinhação tenham sido abandonados, todos os sistemas

ensinados em Hogwarts permanecem em uso até hoje.

Prisioneiro de Azkaban, 6

Aritmancia, quiromancia e

outras artes da adivinhação

O que o temível inseto verde e predador, da família dos

mantídeos, conhecido como louva-a-deus tem a ver com os

sistemas de adivinhação? Quase nada, exceto uma curiosa li-

gação lingüística: a palavra grega

mantikós, que significa "profeta", deu

origem ao nome da família de insetos a

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que ele pertence, os mantídeos. Em virtude da natureza

profética da adivinhação, nos dicionários a terminação

"mancia" é usada para indicar qualquer forma de adivinhação.

Ler a palma da mão é a Quiromancia (quiro, em grego,

significa "mão"), a interpretação de sonhos é a oniromancia

(oniros, em grego, significa "sonho", e também gerou a

palavra "onírico" em português), e assim por diante. O nome

da família do voraz louva-a-deus (mantídeos) e o seu próprio

nome (louva-a-deus) derivam da posição habitual de suas

patas dianteiras, levantadas e unidas, que sugerem a imagem

de um profeta de mãos postas em oração. Em geral, porém, o

louva-a-deus se dedica mais a suas atividades de predador do

que às de pregador...

 GLOSSÁRIO DA ADIVINHAÇÃO 

Criaram-se centenas de sistemas de adivinhação ao

longo dos séculos. Eis alguns de nossos favoritos:

AEROMANCIA: Neste antigo sistema de adivinhação, em

vez de se tentar prever o tempo, o próprio tempo é que

indicava o futuro. Os adeptos viam presságios nos fenômenos

atmosféricos, como os trovões, os relâmpagos, a forma das

nuvens, a direção e a força do vento, a presença de halos no

Sol e na Lua. A aeromancia era praticada pelos sacerdotes da

Babilônia e é um dos mais antigos sistemas divinatórios.

ALECTRIOMANCIA: Um galo (alektor, em grego) era a

chave deste antigo sistema de adivinhação. As letras do

alfabeto eram dispostas em um grande círculo e punham-se

grãos de trigo em cima de cada letra. A ordem em que o galo

comia os grãos soletrava uma mensagem. Se as palavras não

fizessem sentido, o adivinho as interpretaria. Os grãos eram

imediatamente substituídos, tão logo consumidos, para que

todas as letras pudessem aparecer na mensagem tantas

vezes quanto necessário.

ALOMANCIA: No passado, em muitas regiões do mundo,

acreditou-se que o sal tinha propriedades mágicas. Neste

sistema de adivinhação, o praticante jogava um punhado de

sal numa superfície e depois interpretava as formas que

surgissem. Pode-se relacionar esse antigo costume à

superstição segundo a qual derramar sal dá azar, ou jogar sal

sobre o ombro, em geral o ombro esquerdo, dá sorte ou afasta

o azar.

APANTOMANCIA: No passado, acreditava-se que

encontros acidentais com bichos eram repletos de

significados. Na Europa medieval, encontrar-se

acidentalmente com uma cabra ou uma lebre era sinal que

você teria sorte em pouco tempo, sobretudo se a lebre

estivesse fugindo de cães de caça. Ver um morcego, um corvo

ou um burro, prenúncio de doença. As interpretações de um

mesmo encontro variam conforme as culturas. Nos Estados

Unidos, quando um gato preto atravessa o caminho de uma

pessoa é sinal de azar, mas, na Inglaterra, o sentido pode ser

o oposto.

ASTRAGALOMANCIA: A adivinhação mediante um lance

de dados remonta ao Egito antigo e muitos sistemas foram

transmitidos de geração em geração, no decorrer dos séculos.

(Se você quer saber de onde veio esse nome, trata-se do

grego astragalos, que se refere ao osso de uma junta ou de

uma vértebra de um animal, matéria-prima originalmente

usada para fabricar dados.) Um sistema simples, conforme

explicado num livreto medieval, consistia em jogar três dados.

Tirar três seis significava que seus desejos iam se tornar

realidade. Dois seis e um dois indicavam sucesso, mas com

dificuldade. Um seis e dois quatros significavam que era

melhor esquecer o assunto — ou seja, aquilo que você

desejava era uma má idéia que deveria ser posta de lado.

BIBLIOMANCIA: A única coisa necessária é um livro. O

adivinho faz uma pergunta, abre um livro ao acaso e, de olhos

fechados, aponta com o dedo um local qualquer da página. A

frase ou parágrafo em que o dedo tocar é tida como uma

resposta — ou, pelo menos, como um comentário à pergunta.

A Bíblia foi o livro escolhido para isso, durante séculos, mas

recentemente os clássicos — Homero, Virgílio e Shakespeare

— tornaram-se mais populares. Mas qualquer livro serve —

até mesmo este!

CEROMANCIA: Este sistema antigo e amplamente

praticado consistia em derreter cera numa bacia de metal.

Então, bem devagar, vertia-se a cera quente dentro de outra

bacia cheia de água fria. Quando a cera tocava a água, se

solidificava em várias formas, interpretadas pelo vidente. Ao

longo dos séculos, compilaram-se modelos de interpretação,

que resultaram num sistema que qualquer pessoa podia

aprender. As mesmas interpretações foram, posteriormente,

aplicadas à leitura das folhas de chá.

GEOMANCIA: Um punhado de terra solta é amontoado

na palma da mão e depois é jogado, de leve, sobre o solo. O

vidente interpreta os desenhos que se formam. Numa versão

posterior, chamada geomancia de papel, o adivinho faz uma

pergunta e, de olhos fechados, bate com a ponta de um lápis

numa folha de papel, deixando marcas aleatórias. Decorrido o

tempo que a pessoa julgar apropriado, passa-se então à

interpretação dos desenhos que se formaram no papel.

HIDROMANCIA: A água era um elemento importante em

várias formas de adivinhação. Num dos métodos, praticado na

antiga Grécia, lançavam-se três pedras, uma de cada vez,

dentro de um poço de água parada. A primeira pedra era

redonda, a segunda, triangular, e a terceira, retangular. O

adivinho examinava os desenhos de ondulações concêntricas

e procurava imagens ou reflexos que pudessem ser

interpretados.

MIOMANCIA: Adivinhação baseada na aparência, na cor

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e nos sons dos camundongos. Muitas previsões, desde guerra

até períodos de fome, se apoiavam na observação direta de

camundongos e às vezes também de ratos, bem como nos

sinais reveladores da sua presença, como pegadas ou marcas

de dentes. O historiador grego Heródoto relatou a derrota de

um exército em virtude de uma infestação de ratos. No entan-

to isso parece ter sido antes uma questão prática do que uma

profecia, pois os ratos roeram os sacos de flechas e os arcos

dos soldados, deixando-os quase desarmados.

PODOMANCIA: Semelhante à quiromancia, só que é a

sola dos pés, e não a palma das mãos, que é usada para a

interpretação. Esse sistema de adivinhação foi amplamente

usado na antiga China.

XILOMANCIA: Os videntes dos tempos bíblicos

examinavam e interpretavam os desenhos formados sobre o

solo por galhos, ramos, brotos e outros pedaços de árvore. No

início, só se usavam galhos que tivessem caído de forma

natural. Num método posterior, os adivinhos retiravam

metade da casca dos galhos e os jogavam sobre a terra,

formando um desenho aleatório. Os galhos que caíssem com

a face descascada para cima seriam interpretados.

Breve história do tarô

Embora o aspecto surpreendente e as imagens

misteriosas das cartas de tarô possam dar a impressão de que

foram criadas para ler a sorte, na verdade eram,

originalmente, apenas um bonito baralho de cartas de jogar.

Criadas no século XV, eram usadas para um jogo popular

chamado tarrochi (de onde veio o nome tarô), um parente

distante do moderno jogo de bridge. As figuras coloridas,

estampadas nas cartas, com representações de personagens

e de situações tão variadas como o Eremita, o Trapaceiro, o

Enforcado, a Carruagem, a Sacerdotisa e o Castelo, sugerem

que as cartas também podem ter sido usadas para contar

histórias.

As cartas de tarô foram associadas à adivinhação na

década de 1770, depois que um francês chamado Antoine

Court de Gebelin inventou uma teoria muito sofisticada, e

completamente errada, sobre a origem e o significado delas.

De Gebelin acreditava que as cartas de tarô tinham sido

criadas no antigo Egito e eram uma fonte de uma sabedoria

secreta. Embora, mais tarde, tenha sido desmentida toda e

qualquer ligação com o antigo Egito, essa teoria fantasiosa

atraiu uma atenção renovada para o tarô. Em 1785, um

cartomante profissional chamado Jean-Baptiste Alliette foi

autor do primeiro manual completo para ler a sorte por meio

das cartas de tarô. Criou também um baralho original,

desenhado por ele mesmo, e estabeleceu um significado

específico para cada carta. Alliette ensinou seu método a mais

de 150 alunos e ajudou a dar a arrancada inicial que levaria o

tarô a tornar-se um dos sistemas de adivinhação mais

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conhecidos no mundo.

Cartas de tarô suíças de 1800, aproximadamente:

a Carruagem, a Torre e o Enforcado.

Por acaso você pega resfriados e infecções com muita

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facilidade? Tem tendência a atrair a atenção das pessoas

erradas? É perseguido pelo azar? Se a resposta a alguma

dessas perguntas for sim, talvez o médico lhe recomende

exatamente um amuleto. De fato, séculos atrás, os médicos

realmente indicavam um amuleto para prevenir doenças, evi-

tar o azar ou espantar os maus espíritos.

Um amuleto (da palavra latina amuletum, que significa

"método de defesa") é um objeto concebido para proteger do

mal, por meios mágicos, o seu dono. Os amuletos podem ser

de qualquer tamanho, formato ou material. Quando Hogwarts

é atacada por uma misteriosa epidemia de Petrificação,

Neville Longbottom tenta proteger-se com um amuleto feito

de uma cebola verde e fedorenta! Os amuletos vão desde

pequenos pingentes, anéis e sachês de ervas (usados ao

redor do pescoço para prevenir doenças) até volumosas

estátuas e tapeçarias de parede destinadas a proteger uma

casa inteira, um prédio ou uma vila. Os antigos habitantes da

Babilônia gostavam de espantar os maus espíritos usando

pequenos cilindros de argila incrustados com pedras

preciosas. Os romanos colecionavam esculturas de Príapo, o

deus da sorte e da fertilidade, e muitas pessoas, sobretudo no

campo, até hoje penduram ferraduras acima da porta a fim de

evitar o azar e as visitas indesejáveis.

Á cruz de Ankh simbolizava a vida eterna e era

usada como proteção contra as doenças.

Os amuletos estão presentes em quase todas as

sociedades desde o início da história da humanidade. Os

amuletos mais antigos provavelmente foram apenas

fragmentos de pedra ou de metal cujas cores brilhantes ou

formatos incomuns davam a impressão de que talvez

tivessem algum poder mágico. (Na Índia e na Tailândia, ainda

são usados pedaços de coral cor-de-rosa para espantar o

mau-olhado.) Ao longo do tempo, porém, virou costume fazer

amuletos na forma de animais, de figuras de deuses e deusas,

bem como de símbolos mágicos. Imagens de chifres e mãos

(que simbolizam a fertilidade e a vida) e desenhos ou entalhes

do olho humano (que sugerem a vigilância eterna) aparecem

em amuletos no mundo inteiro. Muitos amuletos também

trazem inscritas palavras mágicas, breves encantamentos

ou o nome de deuses.

Embora o seu apelo seja quase universal, os amuletos

estão mais estreitamente associados aos antigos egípcios,

que os usavam em todos os lugares — até em suas

sepulturas. Em geral, as múmias eram sepultadas com uma

porção de amuletos em forma de besouros, chamados

escaravelhos. Os egípcios acreditavam que essas pequeninas

estatuetas de pedra, que têm o mesmo nome de um tipo de

besouro encontrado no Egito, impediam que a alma do morto

fosse devorada por Ammit o Devorador — uma tenebrosa

mistura de leão, hipopótamo e crocodilo que protegia a

balança da justiça no reino dos mortos dos egípcios. Ao que

tudo indica, quanto mais importante era a pessoa, mais

escaravelhos levava para o reino dos mortos. Quando o corpo

do rei Tutancâmon foi desenterrado, há cerca de oitenta anos,

encontraram-se mais de 140 amuletos enfiados entre as tiras

de pano da sua múmia! Outros amuletos comuns no Egito,

como o ankh (um hieroglifo egípcio que representava a vida) e

o wadjet (comumente conhecido como o Olho de Hórus),

serviam a fins mais práticos: proteger os egípcios da morte,

da doença e do mau-olhado.

Infelizmente, os amuletos têm suas limitações. Por

exemplo, só podem proteger a pessoa dos perigos específicos

para os quais se destinam. Um escaravelho pode espantar

Ammit o Devorador, mas é inútil contra vampiros,

hinkypunks e arqueólogos que estão cavando atrás de

tesouros. E se formos travar uma batalha contra as forças do

mal, é importante não confundir os amuletos com os seus

primos, os talismãs.

Ao contrário das espadas encantadas, dos mantos da

invisibilidade e de outros talismãs clássicos, os amuletos

não dão poderes mágicos a seus donos. Não se pode usar um

amuleto como arma, mas apenas como proteção. Assim, se

você estiver planejando alguma aventura épica — como

matar um dragão, por exemplo —, provavelmente é melhor