O Maravilhoso Mágico de Oz por L. Frank Baum - Versão HTML

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Lyman Frank Baum

O Mágico de Oz

Texto em português de Paulo Mendes Campos

Ilustrações de W. W. Denslow

EDIÇÕES DE OURO

© Título do original: "The Wonderful Wizard of Oz"

© Do texto em português — Editora Tecnoprint Ltda., 1969

Seleção e Preparação do Vocabulário pela equipe dos professores:

Aurely de Souza Pinto

Esther Simy Benayon

Helena de Oliveira Gallo Netto

Helenice Padovani Ferreira

Regina Célia Moreira da Cunha

Sônia Maria Ferreira Arruda

Vânia Henriques da Rocha

Coordenação de Betty Zimmerman.

EDITORA TECNOPRINT LTDA.

O Mágico de Oz

Sob diversos pseudônimos ou assinando seu próprio

nome, Frank Baum é autor de 60 livros, vários deles de

grande sucesso.

O Mágico de Oz, porém, é uma obra à parte. Pertence

àquela rara e privilegiada categoria de livros destinados à

imortalidade.

Reeditado sem interrupções, geração após geração, é

avidamente procurado e lido por milhões de jovens e adultos

de todos os países. A simplicidade e fluência de linguagem,

a originalidade do tema, a vivacidade da narração e o es-

plendor da fantasia justificam e explicam esse fascínio.

Vocabulário

As explicações contidas nas notas de rodapé visam um maior

entrosamento do leitor com o texto.

Muitas vezes, durante o decorrer da leitura, palavras ou formas de

expressão são apenas parcialmente interpretadas ou nem mesmo isso

acontece. Assim, o que se verifica é um mau aproveitamento do trabalho

literário e, o que é pior, um possível desinteresse pela leitura.

Objetivamos, então, dentro de cada texto e de acordo com o

contexto, abrir novas fronteiras para o pequeno leitor, oferecendo-lhe

maiores esclarecimentos, proporcionando-lhe um enriquecimento de

vocabulário e, ao mesmo tempo, um aprimoramento de sua forma de ex-

pressão.

Sempre existirão outras formas que não as usadas para fazer uma

criança compreender o que leu.

Em se tratando de interpretação, o trabalho estará sempre em aberto

para quaisquer modificações.

Esperamos, assim, atingir nossos propósitos.

A Equipe

Agradecimento

A Editora agradece a equipe de professores, escolhidos

criteriosamente em um colégio que há muitos anos vem utilizando,

sistematicamente, os livros das Edições de Ouro. Esta equipe foi

convidada pela Direção da Empresa para a difícil tarefa de examinar o

vocabulário de cada livro, procurar explicar o significado dos termos ao

nível de compreensão dos alunos e fazer uma classificação dos diversos

livros de acordo com a idade dos presumíveis leitores.

Sabíamos que muitas divergências poderiam surgir e ainda surgirão

no futuro, especialmente quanto ao modo de interpretar os vocábulos.

Por isso os professores insistiram na idéia de a Editora rever, no

futuro, parte do trabalho ora efetuado.

Assim a Editora espera que outros professores, no manuseio diário

destes livros, nos enviem sugestões e críticas para que possamos, com o

passar do tempo, aperfeiçoar o que já foi feito.

Desejamos expressar nossos agradecimentos pela tão valiosa

colaboração da equipe chefiada por Betty Zimmerman.

Edições de Ouro

Editora Tecnoprint Ltda.

L. Frank Baum

Lyman Frank Baum, autor teatral e escritor juvenil, nasceu em

Chittenango, Nova Iorque. Formou-se na Academia Militar de Peekskill.

Casou-se com Maude Gage. De 1888 a 1890 foi editor do "Saturday

Pioneer" e do "The Show Window", de 1897 a 1902.

Publica Mother Goose in Prose. Logo depois, Father Goose: His

Book, que se tornou best-seller, com uma tiragem de 90.000 exemplares

em apenas noventa dias. Animado pelo sucesso conseguido, continua a

escrever cada vez melhor e lança The Wonderful Wizard of Oz, obra-

prima, que no ano seguinte era encenada em Chicago com sucesso.

Vinte anos depois de sua morte, foi levada para a tela em Hollywood.

Com o cinema a imortal obra de Frank Baum foi mundialmente

conhecida e aplaudida.

Oz é um país utópico, onde não existe doença nem pobreza, nem

dissensões políticas, exceto nas regiões fronteiriças. A prodigiosa

imaginação de Frank Baum e a maneira extraordinária com que conduz

a história fazem dele o próprio mágico, conseguindo transportar o leitor

a uma fantasmagórica realidade. Sua leitura é agradável, e cada

capítulo contém uma surpresa.

A obra que apresentamos agora aos jovens leitores vem

acompanhada de excelentes ilustrações originais de W. W. Denslow,

que, segundo a crítica, são inseparáveis da história do mais fantástico

país imaginário — o País de Oz!

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Dorothy morava num longínquo recanto duma das grandes

planícies de Kansas, no meio dos Estados Unidos, com o Tio

Henry, fazendeiro, e a Tia Em, sua mulher. A casa era pequena,

porque a madeira empregada para construí-la teve de vir de muito

longe. Eram só quatro paredes, o assoalho e o teto, isto é, um único

aposento, contendo um fogão velho, um guarda-louça, a mesa, três

ou quatro cadeiras e as camas. Tio Henry e Tia Em dormiam na

cama grande, a um canto, e Dorothy numa pequenina, no lado

oposto do aposento.

Um alçapão, no centro do assoalho, dava acesso a um buraco

cavado no chão, onde a família podia abrigar-se, durante os

terríveis ciclones freqüentes no lugar, tão violentos que derrubam

às vezes muitas casas que encontram pela frente.

Da porta da casa, Dorothy só via a planície cinzenta e enrugada

que se estendia até o horizonte, sem uma árvore, sem uma vila. Até

o capim era raro e mirrado e tinha o mesmo tom cinzento que

caracterizava a planície.

longínquo recanto - lugar afastado

aposento = quarto

alçapão = entrada

terríveis ciclones - ventos fortes

A casa tinha sido pintada há tempos, mas o sol e a chuva se

encarregaram de desbotar a tinta, tornando-a também cinzenta e

triste como tudo em torno.

Tia Em, moça e bonita quando viera morar ali, tinha mudado

também com o sol e o vento. Os olhos brilhantes, os lábios

rosados, o rosto alegre e saudável, acabaram cinzentos e tristes

como tudo o mais.

Quando Dorothy ficou órfã e foi morar em sua companhia, Tia

Em levava sustos incríveis com o riso alegre da menina e olhava

espantada para Dorothy, sem entender como a sobrinha podia ser

alegre num lugar tão triste.

Tio Henry falava pouquíssimo e trabalhava sem parar, de

manhã à noite, não sabendo o que era alegria. Também ele, das

barbas até as botas, parecia feito de cinza.

Dorothy só não desaprendeu a rir e não ficou cinzenta graças a

Totó, um cãozinho preto, de pêlo comprido e sedoso, olhos escuros

e miúdos que piscavam alegremente, com o qual passava o tempo

brincando.

Mas aquele dia não parecia propício a brincadeiras. Tio Henry,

sentado à porta, olhava com aflição para o céu, mais escuro que de

costume. A seu lado, Dorothy também examinava o céu,

apreensiva, enquanto Tia Em lavava a louça.

O gemido do Vento Norte não acabava mais. Olhando a dança

doida do capinzal, Tio Henry e Dorothy sabiam que uma

tempestade estava a caminho, e quando o vento subitamente

mudou de direção, o velho gritou para a mulher:

— Vem aí um ciclone; vou recolher o gado. — E correu para os

telheiros, sob os quais se abrigavam as vacas e os cavalos.

Tia Em largou o trabalho e foi até a porta. Deu uma olhada na

planície, viu o perigo iminente e gritou para Dorothy:

— Depressa para o porão!

mirrado = sem vida

saudável = com saúde

sedoso = macio

propicio a = bom para

subitamente = rapidamente

recolher = guardar

abrigavam = protegiam

iminente = que se aproximava

Assustado, Totó pulou dos braços da amiga e escondeu-se

debaixo da cama. Enquanto a menina ia buscá-lo, Tia Em,

apavorada, desceu aos trambolhões a escadinha do pequeno

esconderijo. Dorothy, com Totó nos braços, preparava-se para

entrar no alçapão, quando uma violenta rajada de vento abalou a

casa toda e fez a menina cair sentada no chão.

Então, um fato muito esquisito aconteceu.

A casa rodopiou duas ou três vezes e subiu devagarinho no ar,

como se fosse um balão.

Os ventos do norte e do sul, que pareciam ter briga marcada, na

planície, depois de se encontrarem na casa de Dorothy, que ficava

bem no centro do ciclone, elevaram-na lentamente no ar e a

transportaram a quilômetros e quilômetros de distância.

Apesar da escuridão e do vento assustador, Dorothy sentiu

como se estivesse num barco. Depois dos primeiros e mais

violentos redemoinhos e de alguns perigosos sacolejos, a menina

teve a impressão de que a embalavam levemente num berço.

Totó não gostou nada e corria de um lado para outro, latindo

com força, enquanto Dorothy, sentada muito quietinha no chão,

aguardava os acontecimentos.

Em certo momento, Totó chegou tão perto do alçapão que a

menina chegou a dizer para si mesma: "Adeus, Totó..." Mas,

quando viu uma das orelhas do cachorrinho ficar em pé,

compreendeu que a forte pressão do ar o impediria de cair.

Arrastando-se até a abertura, agarrou Totó pela orelha e fechou o

alçapão, evitando futuros acidentes.

O tempo passava muito devagar. Dorothy, já refeita do susto,

começou de repente a ficar apavorada com a idéia de ter o corpo

despedaçado, quando a casa voltasse ao chão. Controlou, porém, os

nervos e resolveu ficar despreocupada, esperando calmamente o

que viesse acontecer. Arrastando- se outra vez pelo assoalho,

conseguiu alcançar a cama, deitando-se com Totó ao lado.

aos trambolhões = correndo

elevaram-na = levantaram-na

transportaram = levaram

redemoinhos = encontro de ventos muito fortes

acidentes = problemas

apavorada - assustada

despedaçado = quebrado

despreocupada = calma

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Apesar dos sacolejos da casa e dos gemidos da ventania, não

demorou a adormecer.

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Foi despertada por um choque, tão forte e repentino que poderia

ter-se machucado, caso não estivesse protegida pelo colchão.

Passado o primeiro momento de susto, ficou a imaginar o que teria

acontecido, enquanto Totó, com o focinho encostado em seu rosto,

gania apavorado. Sentando-se na cama, a menina percebeu que a

casa estava parada e a luz do Sol inundava a sala. Com Totó ao

lado, pulou da cama, saiu correndo e abriu a porta.

— Ah! — Seus olhos se arregalaram de espanto ante o

espetáculo maravilhoso.

O ciclone depositara a casa, com muita delicadeza — para um

ciclone, é claro — no centro dum cenário deslumbrante. Um tapete

de relva, pontilhado de lindas flores, estendia-se a perder de vista;

frutos de dar água na boca pendiam das árvores enormes, em cujos

galhos pássaros de plumagens estranhas se esmeravam em

arrebatadores gorjeios. Um pouco mais longe, entre rampas

verdejantes, corria um regato, e nada podia ser mais agradável aos

ouvidos duma menina, que vivera por tanto tempo na planície seca,

que o murmúrio de suas águas.

gania = latia

inundava = clareava

cenário deslumbrante = lugar muito bonito

pendiam = caíam

esmeravam = caprichavam

arrebatadores gorjeios = lindos cantos

Daí a pouco, notou ela que caminhavam em sua direção as mais

estranhas criaturinhas que já vira em toda a vida.

Eram três homens e uma mulher, tinham mais ou menos sua

altura e estavam vestidos dum modo esquisito. Seus chapéus

redondos — azuis os dos homens, branco o da mulher —

acabavam em ponta, quase meio metro acima da cabeça; e guizos

costurados na aba tilintavam ao menor movimento. A mulher usava

um manto branco, salpicado de estrelinhas que cintilavam ao sol,

enquanto os homens vestiam-se de azul, calçavam botas lustrosas e

deviam ter a mesma idade do Tio Henry, pois dois deles usavam

barbas. A mulherzinha era bem mais velha que os companheiros.

Toda enrugada, cabelos quase brancos, caminhava dura como um

cabo de vassoura.

Ao chegarem perto da casa, cochicharam entre si, receosos.

Mas a velha anãzinha aproximou-se de Dorothy, fez uma

reverência e falou docemente:

— Bem-vinda sejas ao País dos Anões, ilustre feiticeira. Imensa

é a nossa gratidão por teres eliminado a malvada Bruxa do Leste,

libertando o nosso povo.

Dorothy ouviu espantadíssima as palavras da velhinha. Que

história era aquela de ser chamada feiticeira e de ter matado a

Bruxa do Leste?! Não passava duma menina boazinha, incapaz de

matar uma mosca.

Mas a velhinha esperava uma resposta e Dorothy disse com

timidez:

— É bondade da senhora, mas deve haver ura engano. Nunca

matei ninguém.

— Então foi a tua casa — replicou a velhinha com uma risada.

— Mas dá tudo na mesma. Olha só! — A velhinha apontou para

um canto. — Lá estão os dois pés da bruxa, debaixo daquela viga.

Dorothy olhou na direção indicada e deu um gritinho de susto.

Bem debaixo duma das vigas que sustentavam a casa, repontavam

dois pés, calçados em sapatos prateados de bico fino.

guizos = bolinhas de metal

tilintavam = tocavam

reverência = cumprimento

incapaz = sem coragem

viga = madeira

sustentavam = seguravam

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— Oh, meu Deus! — gemeu a menina, torcendo as mãos. — A

casa deve ter caído em cima da coitada! Que podemos fazer?

— Não há nada a fazer — disse a velhinha com toda a calma.

— Quem era ela? — perguntou Dorothy.

— A malvada Bruxa do Leste, como já te disse. Durante anos e

anos obrigou os anões a trabalhar para ela como escravos. Agora

estão todos livres e muito gratos pelo grande favor.

— Quem são esses anões? — perguntou Dorothy.

— São os habitantes das Terras do Leste.

— A senhora é daqui mesmo?

— Não, mas sou amiga do povo desta região, vivo para as

bandas do Norte. Os anões mandaram avisar-me que a Bruxa do

Leste estava morta. Vim correndo. Sou a Bruxa do Norte.

— Nossa! — exclamou Dorothy. — A senhora é uma bruxa de

verdade?

— Claro que sou uma bruxa de verdade, mas uma bruxa

boazinha, e meu povo gosta muito de mim. Não sou porém tão

poderosa como a Bruxa Malvada que acaba de morrer; se fosse, eu

mesmo teria libertado essa gente.

— Pois eu achava que todas as bruxas eram más — falou a

menina, um pouco atemorizada por se ver na frente duma bruxa de

verdade.

— Oh, não! Que grande engano! Só existem quatro bruxas no

Reino de Oz; duas delas, a do Norte e a do Sul, são bruxas boas.

Sei disso, pois uma delas sou eu. As do Leste e do Oeste eram de

fato bruxas más. Agora, que você destruiu uma delas, resta só uma

bruxa malvada em todo o Reino de Oz: a Bruxa do Oeste.

Dorothy, depois de pensar um pouco, observou:

— Mas Tia Em me disse que as bruxas tinham desaparecido há

muitos anos.

— Quem é Tia Em? — indagou a velhinha.

— É a minha tia que mora em Kansas, de onde estou chegando.

A Bruxa do Norte pensou um pouco, olhando o chão.

— Nunca ouvi falar desse lugar. É civilizado?

— Claro, claro — respondeu Dorothy.

— Ah, estou entendendo: não existem mais bruxas nos países

civilizados. Nem feiticeiras. Nem mágicos. Mas o Reino de Oz,

sabe, nunca foi civilizado: ainda temos bruxas e mágicos.

— Que mágicos?

repontavam = apareciam

poderosa = importante

atemorizada = com medo

destruiu = matou

civilizado = adiantado

— Antes de tudo, Oz! Ele próprio é o Grande Mágico. — A

voz da velhinha virou um sussurro. — É mais poderoso que todos

nós juntos. Mora na Cidade das Esmeraldas.

Dorothy ia fazer outra pergunta, quando os anões deram um

grito fino e apontaram para a casa.

— Que aconteceu? — indagou a velha anãzinha. E, olhando na

direção indicada, desandou a rir. Os pés da Bruxa Malvada tinham

desaparecido, sobrando apenas os sapatos prateados.

— Ela era tão velha que ficou seca e sumiu. Acabou-se a Bruxa

Malvada. Os sapatos de prata agora são teus.

Pegou os sapatos, soprou a poeira e os entregou a Dorothy.

— A Bruxa do Leste — disse um dos anões — tinha muito

orgulho desses sapatos. Possuem um encantamento, mas não

sabemos qual.

Dorothy, depois de levar os sapatos para dentro, disse:

— Estou doida de vontade de voltar para minha casa — mas

lembrou-se de que não saíra da casa — para junto de meus tios.

Devem andar preocupadíssimos. Quem me dá uma ajuda?

Os anões e a bruxa entreolharam-se e balançaram a cabeça.

— Não longe daqui, no Leste — disse um dos anões — há um

grande deserto. E impossível atravessá-lo.

— Acontece a mesma coisa no Sul — disse outro. — Vi com

estes olhos. O Sul é a Terra dos Quadradinhos.

— E me contaram que no Oeste também há um deserto — falou

o terceiro. — A Região dos Pisca-Piscas é governada pela bruxa do

Oeste, que te prenderia para sempre.

— O Norte é o meu reino — disse a velhinha. — E dá também

para o deserto que cerca por todos os lados o País de Oz. Acho que

você vai ter de morar conosco, meu bem.

virou um sussurro = ficou baixinha

indagou = perguntou

desandou = começou

encantamento = mistério

entreolharam-se = olharam um para o outro

Dorothy começou a soluçar, sentindo-se infeliz por não poder

voltar para junto dos tios. Suas lágrimas comoveram os bondosos

anões, que puxaram os lenços e começaram também a chorar. Mas

a velhinha pôs-se a abanar com o chapéu a ponta do nariz,

enquanto contava solenemente: um... dois... três! Imediatamente o

chapéu transformou-se num quadro-negro, que trazia gravada, em

grandes letras a giz, esta inscrição: "LICENÇA PARA DOROTHY

ENTRAR NA CIDADE DAS ESMERALDAS".

— Teu nome é Dorothy, meu bem?

— É — respondeu a menina, enxugando as lágrimas.

— Então, é preciso que vás até a Cidade das Esmeraldas.

Talvez o Grande Oz possa ajudar-te.

— Onde fica essa cidade?

— Fica exatamente no centro do país, e é governada por Oz, o

Grande Mágico.

— Ele é um homem bom? — indagou a menina, aflita.

— É um bom mágico. Se é homem ou não, ignoro. Nunca vi o

Grande Oz.

— Mas como vou chegar lá?

— Terás que andar muito. A viagem é longa. Tens de passar

por um país que às vezes é bonito, outras escuro de dar medo. Mas

vou usar as minhas artes mágicas para evitar-te contratempos.

— A senhora não pode ir comigo? — suplicou a menina, que já

considerava a anãzinha sua única amiga.

— Não, não posso. Mas posso te dar um beijo. Ninguém ousará

maltratar uma pessoa que tiver recebido um beijo da Bruxa do

Norte.

Aproximou-se de Dorothy e deu-lhe um beijo na testa,

deixando um sinalzinho brilhante no local onde seus lábios

tocaram, como Dorothy em breve iria descobrir.

— A estrada para a Cidade das Esmeraldas está calçada de

pedras amarelas — disse a bruxa. — Não há possibilidade de erro.

Quando encontrares Oz, não banques a boba. Conta tua história e

pede-lhe auxílio. Adeus, minha querida.

comoveram = entristeceram

solenemente = com segurança

ignoro = não sei

contratempos = acontecimentos

ruins suplicou = pediu

auxílio = ajuda

Os três anões inclinaram-se, desejando-lhe uma boa viagem e

desapareceram entre as árvores. A bruxa deu-lhe adeus, rodopiou

três vezes pelo lado esquerdo e sumiu de repente, para grande

surpresa de Totó, que começou a latir furiosamente; enquanto a

velha lá esteve o animalzinho nem teve coragem de rosnar.

Dorothy achou natural que uma feiticeira se retirasse daquele

modo tão esquisito.

inclinaram-se = abaixaram-se

rodopiou = rodou

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Só então Dorothy percebeu que estava com fome. Abriu o

guarda-comida, lambuzou de manteiga uma fatia de pão, deu um

pedaço a Totó e, depois de comer o outro, pegou o balde sobre a

prateleira e foi até o regato. Totó começou a latir para os

passarinhos. Ao ir buscá-lo, Dorothy aproveitou a ocasião para

completar a refeição com as frutas gostosas do lugar.

Em casa, bebeu água fresca e iniciou os preparativos para a

viagem à Cidade das Esmeraldas.

Além do vestido do corpo, Dorothy tinha mais um, só um,

felizmente lavado, passado e pendurado num cabide do guarda-

roupa. Era estampado, de xadrez azul e branco; o azul andava meio

desbotado, mas era ainda um vestido bonitinho. Depois de tomar

um "banho caprichado" com a água do balde, a menina mudou de

vestido e ajeitou na cabeça seu chapéu cor-de-rosa, de abas largas.

Encheu uma cesta com os pães do guarda-comida e cobriu-a com

um guardanapo. Só então viu a tristeza de seus sapatos velhos.

— Meus sapatos não vão agüentar essa viagem, Totó.

— Totó virou-se para ela com seus olhinhos pretos e sacudiu o

rabo para mostrar que tinha entendido.

percebeu = sentiu

lambuzou = encheu

os preparativos = a arrumação

caprichado = muito bom

A menina lembrou-se então dos sapatinhos de prata.

— Será que me servem, Totó? Para longas viagens, não deve

existir nada melhor do que sapatos de bruxa: devem durar para

sempre.

Descalçou os sapatos de couro e calçou os de prata, que

pareciam feitos sob encomenda.

— Vamos, Totó. Vamos pedir ao Grande Oz que nos ensine o

caminho de volta para Kansas.

Trancou a porta da casa, guardou a chave e, com Totó todo

importante ao seu lado, começou a caminhada.

Não foi difícil achar a estrada de pedras amarelas, onde os

sapatinhos de prata começaram a ressoar com alegria. Brilhava o

Sol, cantavam os pássaros e, apesar de sozinha em terra estranha,

Dorothy não se sentia tão infeliz quanto se poderia imaginar.

A paisagem era um constante motivo de encantamento. Dos

lados da estrada erguiam-se cercas bem feitas, pintadas de azul-

claro, além das quais se estendiam grandes plantações de trigo e

legumes, e a menina chegou a acreditar que os anões deviam ser

excelentes lavradores.

Quando passava por uma casa, os moradores chegavam à porta

para cumprimentá-la, pois todos já sabiam de seu papel na

destruição da Bruxa Malvada.

As casas dos anões tinham um formato estranho: pareciam

canos grossos postos em pé e os tetos lembravam casquinhas de

sorvete voltadas para baixo. Eram todas pintadas de azul, cor

predileta dos Anões do Leste.

Ao escurecer, já cansada e sem saber onde passaria a noite,

chegou a uma casa um pouquinho maior do que as outras. No

gramado em frente, homens e mulheres dançavam. Cinco

violinistas baixinhos tocavam seus instrumentos no tom mais alto

possível. Um grupo de pessoas ria e cantava perto duma mesa

cheia de frutas, castanhas, tortas, bolos, e uma porção de apetitosas

iguarias.

que pareciam feitos sob encomenda = que lhe serviram

ressoar = fazer barulho

encantamento = alegria

formato = feitio

predileta = preferida

apetitosas iguarias = comidas gostosas

Muito bem recebida, Dorothy foi convidada para jantar e

dormir na casa, soube que a mesma era propriedade do anão mais

rico do lugar e que estavam comemorando a morte da Bruxa

Malvada e a liberdade dos habitantes da região.

Dorothy devorou o ótimo jantar, servido pelo próprio dono da

casa, o Anão Boq, sentando-se depois num sofá para olhar os pares

que dançavam.

Reparando nos sapatinhos de prata, Boq observou:

— Você deve ser uma grande feiticeira.

— Por quê? — indagou a menina.

— Por dois motivos: usa sapatos de prata e matou a Bruxa

Malvada. Além disso, só as feiticeiras se vestem de branco.

— Meu vestido é de xadrez azul e branco — disse ela, alisando

as pregas formadas durante a viagem.

— É uma gentileza de sua parte usar essa roupa — retrucou

Boq. — O azul é a cor dos anões e o branco das bruxas. Assim,

ficamos sabendo que você é uma bruxa amiga da nossa gente.

Dorothy ficou sem saber o que dizer, pois estavam convencidos

de que era mesmo uma feiticeira.

Quando se cansou de olhar as danças, foi conduzida pelo Anão

Rico para o interior da casa, onde lhe deram um quarto e uma cama

bonita. Debaixo dos lençóis azuis, dormiu até o amanhecer, com

Totó enroscado no tapete azul ao lado.

De manhã, enquanto tomava uma boa refeição, Dorothy

observava ura bebê anão, um tiquinho de gente que puxava o rabo

de Totó, entre risadas de contentamento. Dorothy achava muita

graça na curiosidade que todos demonstravam pelo cachorro,

animal que pareciam até então desconhecer. Perguntou a que

distância ficava a Cidade das Esmeraldas e Boq respondeu sério:

— Não sei, porque nunca estive lá. A não ser que se trate dum

assunto de muita importância, acho melhor a gente ficar longe de

Oz. Sei, porém, que a distância não é pouca. A terra aqui é boa,

mas, no caminho de Oz, há desertos e regiões perigosas.

devorou = comeu depressa

retrucou = disse

convencidos = certos

enroscado = enrolado

Dorothy ficou um pouco preocupada. Como sabia que só o

Grande Oz podia ajudá-la, resolveu ter coragem e continuar a

viagem.

Despediu-se dos amigos e retomou o caminho das pedras

amarelas.

Tendo percorrido vários quilômetros, achou que já era tempo

dum descanso. Sentou-se no alto duma cerca e pôs-se a contemplar

o imenso milharal que se estendia à sua frente. De repente

descobriu um espantalho, boneco cuja missão é impedir que os

pássaros devorem as espigas maduras.

Com a mão no queixo, pensativa, Dorothy ficou olhando o

espantalho. A cabeça do boneco era um saquinho cheio de palha,

onde estavam pintados os olhos, o nariz e a boca, e estava coberta

por um velho chapéu azul, que pertencera a alguns dos anões;

completava a figura uma roupa azul, usada e desbotada, também

recheada de palha. Os pés calçavam um velho par de botas, iguais

às usadas por todos os homens do lugar. O corpo estava preso a

uma estaca, que o mantinha de pé.

Enquanto, toda pensativa, olhava a cara pintada do espantalho,

notou com surpresa que um dos olhos do boneco piscava devagar

para ela. Pensou a princípio que se enganara, pois nunca tinha visto

um espantalho piscar. O boneco fez-lhe um gesto amigo com a

cabeça. Ela desceu da cerca e aproximou-se da estaca que o

sustentava, enquanto Totó corria em volta latindo. Com uma voz

meio rouca, o espantalho disse:

— Bom dia.

— Será que o ouvi mesmo falar?

— É claro — respondeu o Espantalho. — Como vai?

— Vou bem, obrigada — disse Dorothy, amável. — E você?

— Infelizmente, não posso dizer o mesmo — falou o

Espantalho, fazendo força para sorrir. — Cansa muito ficar aqui

dependurado, dia e noite, espantando os corvos.

desertos = área de areia, sem seres vivos e com pouca água

retomou = seguiu

milharal = plantação de milho

missão = trabalho

impedir = não deixar

estaca = pau

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— Por que você não desce daí?

— Porque a estaca está cravada nas minhas costas. Se puder

retirá-la para mim, nunca mais esquecerei o favor.

Dorothy levantou os braços, retirou a estaca e colocou a leve

figura no chão.

— Gratíssimo, gratíssimo — agradeceu o Espantalho. —

Estou-me sentindo um outro homem.A menina ficou intrigada. Era

muito estranho uma criatura de palha que sabe falar e andar!

gratíssimo = muito obrigado

— Quem é você? — perguntou o Espantalho depois de

espreguiçar-se e bocejar. — Para onde vai?

— Sou a Dorothy. Vou para a Cidade das Esmeraldas, pedir ao

Grande Oz que me ensine o caminho de volta para Kansas.

— Onde fica a Cidade das Esmeraldas? E quem é esse Oz?

— Ué! Vai me dizer que não sabe?

— Não; para falar a verdade, não sei nada. Como você está

vendo, sou cheio de palha; não sei raciocinar, por falta de cérebro.

— O boneco abaixou a cabeça e pareceu ficar triste.

— Sinto muito — disse Dorothy.

— Tive uma idéia: se eu for com você até a Cidade das

Esmeraldas, será que o Grande Oz me dará um cérebro para

pensar?

— Não posso garantir isso — respondeu logo a menina. — Mas

vamos raciocinar um pouco: mesmo que Oz não satisfaça o seu

pedido, você não tem nada a perder com a viagem.

— Lá isso é verdade — concordou o Espantalho. — Você

compreende — continuou em tom confidencial — não me importo

de ter as pernas e os braços recheados de palha: não me machuco

nunca. Se alguém pisar no meu pé ou enfiar um alfinete no meu

corpo, nem ligo, pois não sinto nada. Só não gosto é que me

chamem de bobo. Ora, se eu gear para sempre com a cabeça cheia

de palha, continuarei ignorante para o resto da vida. Dorothy ficou

com muita pena.

— Compreendo o seu caso. Se quiser vir comigo, vou pedir a

Oz para fazer por você tudo o que lhe for possível.

— Obrigado. — O boneco mostrava-se sinceramente re-

conhecido.

Dorothy ajudou o novo companheiro a saltar a cerca e os dois

tomaram a estrada de pedras amarelas, rumo à Cidade das

Esmeraldas.

intrigada = impressionada

espreguiçar-se e bocejar = esticar o corpo e abrir a boca

cérebro = parte dentro da cabeça

confidencial = baixo

recheados = cheios

ignorante = sem aprender

reconhecido = agradecido

A princípio, Totó não apreciou nada a nova companhia.

Farejava o boneco empalhado como se suspeitasse existir no seu

interior um ninho de ratos e, a toda hora, rosnava para o

Espantalho.

— Não faça caso de Totó — disse Dorothy ao novo amigo. —

Ele é assim implicante, mas não morde ninguém.

— Oh, que idéia! — riu-se o Espantalho. — Não sinto o menor

receio: quem é feito de palha, não tem medo de mordida.

O Espantalho pediu para carregar a cesta de Dorothy e falou em

voz baixa:

— Vou contar-lhe o meu segredo: Só tenho medo duma coisa

neste mundo.

— Já sei — quis adivinhar Dorothy. — É do anão que fez

você...

O Espantalho falou no ouvido da menina:

— Não. É de fósforo aceso!

apreciou = gostou

farejava = cheirava

receio = medo

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Depois de algumas horas de marcha, a estrada tornou-se muito

esburacada, com as pedras amarelas mal assentadas no chão,

fazendo com que o Espantalho tropeçasse a todo instante. Quando

se aproximavam dum buraco, Totó o transpunha dum salto,

Dorothy o contornava, mas o Espantalho, sem cérebro para

raciocinar, seguia em frente, tropeçava e caía.

As propriedades da região já não eram tão bem cuidadas. As

casas e as árvores iam rareando, à medida que avançavam, e a

paisagem se tornava cada vez mais triste e solitária.

Ao meio-dia, sentaram-se à beira dum regato. O Espantalho

recusou o pedaço de pão que a menina lhe ofereceu:

— Nunca tenho fome. É minha sorte, pois minha boca não é

boca de verdade: é só pintada. Se eu tivesse uma boca de verdade,

a palha sairia pela abertura, estragando o formato da minha cabeça.

Dorothy concordou com um gesto e começou a comer. A

pedido do Espantalho, falou sobre Kansas, da planície cinzenta e

de que modo o ciclone a transportara até aquele estranho país.

Depois de ouvi-la com atenção, o Espantalho observou:

muito esburacada = cheia de buracos

assentadas = colocadas

transpunha = pulava

solitária = abandonada

transportara = tinha trazido

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— Não compreendo como pode querer trocar este país tão

bonito por um lugar tão triste.

— É porque você não tem cérebro para raciocinar. Nós,

criaturas de carne e osso, jamais trocamos a nossa terra por

nenhuma outra por mais feia e triste que seja. Nosso lar é o melhor

lugar do mundo.

lar = casa

O Espantalho deu um suspiro:

— É claro que não posso entender. Se vocês também tivessem a

cabeça recheada de palha, como eu, aposto que também gostariam

de viver em lugares bonitos; em Kansas, não moraria mais

ninguém.

Mudando de assunto, a menina pediu ao Espantalho que lhe

contasse sua história:

— Minha vida é tão curta que, para ser sincero, nada tenho para

contar. Fui feito anteontem. Tudo que aconteceu no mundo antes

de anteontem é um grande mistério para mim. Felizmente, quando

o fazendeiro fez a minha cabeça, pintou em primeiro lugar as

orelhas, e pude assim ouvir tudo o que se passava. O primeiro som

que chegou aos meus ouvidos foi a pergunta que ele fez a outro

anão:

"— Que acha destas orelhas?"

"— Estão meio tortas" — disse o outro.

"— Não importa; de qualquer forma, são orelhas."

"— Agora, os olhos" — continuou o fazendeiro. Pintou então o

meu olho direito e, quando terminou, comecei a olhar para ele e

para tudo que me rodeava com grande curiosidade, pois era a

primeira vez que eu via o mundo.

"— O olho até que está bem bonito" — disse o anão amigo do

fazendeiro — "tinta azul é melhor para os olhos".

"— Acho que vou fazer o outro um pouco maior."

Quando o segundo olho ficou pronto senti que enxergava bem

melhor que antes. O fazendeiro pintou depois meu nariz e minha

boca, mas não falei logo, porque ainda não sabia para que servia a

boca. Foi engraçado, quando ele fez meu corpo, os braços e as

pernas. Quando, finalmente encaixaram-me a cabeça nos ombros,

senti um grande orgulho, pois estava crente que era um homem

igual aos outros.

deu um suspiro = respirou forte

sincero = correto

me rodeava = estava à minha volta

encaixaram-me = colocaram-me

crente - certo

"— Este boneco vai ser um bom espantador de corvos" —disse

o fazendeiro — "até parece um homem de verdade."

"— E não deixa de ser ura homem" — disse o outro, e eu

concordei com ele. O fazendeiro me levou debaixo do braço até o

milharal, e me colocou naquela estaca. Os dois se afastaram e

fiquei sozinho. Quis segui-los, mas meus pés não alcançavam o

chão. Começou então minha triste vida de espantalho, sem nada

para pensar, por ter sido feito há tão pouco tempo! Os corvos e

outros pássaros esvoaçavam sobre o milharal, mas, assim que me

viam, retiravam-se depressa, julgando-me um anão de verdade. Eu

achava isso muito bom: tinha a impressão de ser importante. Mas

de repente um corvo veio voando, olhou muito para mim, pousou

no meu ombro e falou:

"— Nem posso acreditar que esse fazendeiro tenha pensado

mesmo me tapear com um boneco tão mal acabado. Qualquer

corvo ura pouco mais esclarecido vê logo que você por dentro só

tem palha." — Pousou na minha frente e comeu milho à vontade.

Os outros, vendo que eu nada fazia, vieram em bando comer o

milho sob a minha guarda. Fiquei triste, pois vi que não era um

espantalho tão bom quanto julgava. O velho corvo procurou

consolar-me: "— Se você tivesse um cérebro dentro dessa cabeça

de palha, seria um homem tão bom quanto qualquer um deles, e até

melhor do que muitos. O cérebro — que serve para pensar — é o

maior bem que uma criatura pode desejar neste mundo, seja um

corvo ou um homem."

Depois que os corvos se foram, fiquei pensando nessas palavras

e resolvi fazer tudo para obter um pouco de inteligência. Foi sorte

minha você aparecer. Pelo que disse, o Grande Oz pode me dar de

presente um cérebro.

— Estou torcendo para isso — replicou Dorothy, meio ansiosa

— já que você tem tanta vontade de possuir um cérebro.

— Se tenho! Acho muito ruim ser um boboca.

esvoaçavam = voavam

julgando-me = achando-me

tapear = enganar

sob a minha guarda = que eu tomava conta

obter = conseguir

— Bem, vamos andando. — A menina entregou a cesta ao

Espantalho e retomaram a caminhada.

As cercas tinham desaparecido. À noitinha, chegaram a uma

floresta de árvores tão próximas umas das outras que seus ramos se

entrelaçavam sobre a estrada. Embora a escuridão fosse quase total,

continuaram a viagem.

— Se esta estrada entra na floresta, tem de sair — ponderou o

Espantalho. — E como vai dar na Cidade das Esmeraldas, teremos

de segui-la até chegar lá.

— Qualquer um tiraria a mesma conclusão.

— Evidentemente: até eu. Nem é preciso inteligência para dizer

o que eu disse.

Uma hora depois, os três ficaram na mais completa escuridão.

Dorothy nada conseguia enxergar, mas Totó via muito bem no

escuro e o Espantalho declarou enxergar tão bem quanto de dia, de

modo que a menina tomou-lhe o braço, prosseguindo a viagem.

— Se vir alguma casa ou abrigo onde possamos passar a noite,

me avise — pediu — pois é muito desagradável andar no escuro.

Ura pouco adiante, o Espantalho parou:

— Estou vendo uma cabana. Vamos até lá?

— Vamos logo. — Respondeu a menina. — Estou exausta.

O Espantalho a guiou até a cabana, onde a menina encontrou

um colchão de folhas secas e, com Totó enroscado ao lado,

mergulhou no sono. O Espantalho, sem saber o que era cansaço,

ficou de pé, num canto da sala, esperando pacientemente o

amanhecer.

entrelaçavam - cruzavam

tiraria a mesma conclusão = pensaria o mesmo

prosseguindo = continuando

exausta = muito cansada

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Quando Dorothy acordou, o Sol ia alto. Totó há muito deixara a

cabana, à caça de passarinhos e esquilos. O Espantalho continuava

de pé no seu canto, esperando com a mesma paciência.

— Temos de achar água — disse ela.

— Para quê?

— Para lavar a poeira do rosto e para beber; do contrário, o pão

seco nem passa pela minha garganta.

— Deve ser incômodo ser feito de carne — falou o Espantalho,

em tom pensativo. — É preciso dormir, comer e beber água. Em

compensação, vocês têm um cérebro para pensar, e só isso supera

todas as desvantagens.

Deixaram a cabana e embrenharam-se por entre as árvores até

encontrarem uma nascente de água fresca. Ao levantar o

guardanapo da cesta, Dorothy verificou que só restava pão

suficiente para um dia. Graças a Deus — pensou — o Espantalho

não está habituado a comer.

Quando se aprestava para voltar à estrada, assustou-se ao ouvir

por perto um profundo gemido.

incômodo - ruim

supera - é melhor

desvantagens = coisas ruins

embrenharam-se = entraram

aprestava = arrumava

— Que foi isso? — perguntou ao Espantalho.

— Não tenho a menor idéia; mas podemos dar uma olhada.

Mal deram alguns passos, Dorothy avistou um objeto que

brilhava sob os raios do Sol. Correu até lá e parou bruscamente

com um grito de surpresa.

Junto duma árvore enorme, com um machado erguido nas

mãos, um homem inteiramente feito de lata, com a cabeça, os

braços e as pernas bem ajustados ao corpo, permanecia imóvel,

como se estivesse encantado.

Dorothy contemplou-o com assombro, o Espantalho também,

mas Totó latiu e tentou morder as pernas de lata, machucando os

dentes.

— Você gemeu? — perguntou Dorothy.

— Gemi — respondeu o Homem de Lata. — Há mais de um

ano estou gemendo, sem que ninguém me socorra.

— Posso fazer alguma coisa por você? — perguntou a menina,

emocionada com a voz triste do homem.

— Passe um pouco de óleo nas minhas juntas — respondeu ele.

— Ficaram tão enferrujadas que nem posso mexê-las. Depois de

bem lubrificado, ficarei bom novamente. Na prateleira da minha

cabana há uma lata de óleo.

Dorothy correu à cabana, onde encontrou o objeto pedido. De

volta, perguntou ao homem imobilizado:

— Onde ficam as suas dobradiças?

— A primeira no pescoço — disse o Homem de Lata. A

menina lubrificou-a cuidadosamente mas a junta estava tão

enferrujada que o Espantalho teve de empurrá-la devagar, de um

lado para outro, até que o próprio dono do pescoço pudesse movê-

la por conta própria.

— Agora, as juntas dos braços.

Dorothy untou-as, e o Espantalho moveu-as de um lado para

outro, com muito cuidado, até ficarem livres da ferrugem.

bruscamente = rapidamente

contemplou-o com assombro = olhou-o com espanto

bem lubrificado = com óleo

imobilizado = sem movimentos

movê-la = mexê-la

untou-as = passou óleo nelas

O Homem de Lata deu um suspiro de alívio e encostou o

machado ao tronco da árvore.

— Que bom! — exclamou. — Desde que me enferrujei, estou

segurando este machado no ar. Agora, se fizerem a gentileza de

untar as juntas das pernas, ficarei completamente bom.

Quando o lenhador conseguiu movimentar-se livremente, não

se cansava de agradecer-lhes. Parecia muito bem-educado, e depois

de finalmente esgotada sua incomum capacidade de gratidão

declarou:

— Se vocês não tivessem aparecido, eu poderia ficar

imobilizado o resto da vida. Vocês me salvaram. Mas, ainda que

mal lhes pergunte, que andam fazendo por estas bandas?

— Estamos a caminho da Cidade das Esmeraldas, para falar

com o Grande Oz — respondeu Dorothy. — Paramos em sua

cabana para descansar.

— E o que desejam de Oz?

— Eu, voltar para Kansas; ele, um cérebro.

— Será que Oz pode me dar um coração?

— Acho que sim — disse Dorothy. — Deve ser fácil para ele.

— É verdade — concordou o Homem de Lata. — Se vocês me

admitirem no grupo, irei também à Cidade das Esmeraldas.

— Venha, sim — falou o Espantalho, animado.

Com a aprovação de Dorothy, o Homem de Lata pôs ao ombro

o machado e todos rumaram para a estrada de pedras amarelas.

O Homem de Lata pediu a Dorothy que levasse o óleo na cesta,

pois teria necessidade dele em caso de chuva.

Foi uma sorte terem encontrado o novo companheiro: pouco

mais adiante, os ramos das árvores se entrelaçavam de tal modo

que barravam a passagem e o Homem de Lata em pouco tempo

abriu caminho para o grupo.

Absorta em seus pensamentos, Dorothy só reparou que o

Espantalho tropeçara num buraco e rolara pelo chão, quando o

ouviu pedir socorro.

lenhador = cortador de árvores

admitirem = aceitarem

aprovação = aceitação

rumaram = foram

barravam = impediam

— Por que não contornou o buraco? — perguntou o Homem de

Lata intrigado.

— Minha inteligência não dá para isso — respondeu de bom

humor o Espantalho. — Minha cabeça é cheia de palha e é por isso

que vou até Oz pedir-lhe um cérebro.

— Ah, estou entendendo — disse o lenhador. — Mas, afinal

das contas, o cérebro não é a coisa mais importante do mundo.

— Você tem cérebro?

— Não, minha cabeça é completamente oca; mas já tive

cérebro e também coração. Depois de ter experimentado os dois,

prefiro mil vezes ter coração.

— Ué, por quê? — admirou-se o Espantalho.

— Você vai entender depois que eu lhe contar a minha vida.

E assim, enquanto avançavam pela floresta, o Homem de Lata

contou aos companheiros a seguinte história:

— Eu era uma criatura de carne e osso, filho de um lenhador.

Quando cresci, fui ser também lenhador e, depois da morte de

papai, cuidei de minha mãe até ela morrer. Com medo de ficar

sozinho no mundo, resolvi me casar. Apaixonei-me por uma linda

moça, que prometeu casar-se comigo assim que eu juntasse

bastante dinheiro para construir uma casa melhor. Meti mãos à

obra, mas a senhora idosa com quem a moça vivia, querendo ter

sempre quem lhe arrumasse a casa e cozinhasse, deu dois carneiros

e uma vaca à Bruxa do Leste para que ela impedisse nossa união. A

Bruxa enfeitiçou meu machado e um dia, quando trabalhava na

construção da casa, o machado me escapuliu das mãos e decepou-

me a perna esquerda. Com uma perna só, seria muito difícil

continuar no meu ofício de lenhador, mas não desanimei e

encomendei a um ferreiro uma perna de lata, que funcionava

perfeitamente depois que me acostumei a usá-la. A Bruxa do Leste

ficou uma fera e, mal retornei ao trabalho, o machado decepou-me

a perna direita.

avançavam = seguiam

impedisse nossa união = atrapalhasse nosso casamento

decepou-me = cortou-me

retornei = voltei

Voltei ao ferreiro, que me fez nova perna de lata, mas a Bruxa

entrou de novo em ação e o machado me cortou os braços, um

depois do outro. Mandei fazer dois braços de lata. A Bruxa

Malvada mandou o machado cortar minha cabeça. Pensei que

estivesse tudo acabado, mas o ferreiro deu um jeito e me fez outra

cabeça, também de lata. Julguei ter derrotado a Bruxa do Leste,

voltando a trabalhar com afinco. Não podia porém imaginar até

onde ia a maldade da minha inimiga que, procurando por todos os

meios impedir meu casamento com a linda Anãzinha, fez com que

o machado me cortasse o corpo em dois pedaços. Mais uma vez, o

ferreiro me valeu, fazendo para mim um corpo de metal e nele

aparafusando os braços e as pernas, de forma a permitir-me os

movimentos. Infelizmente, porém, eu não possuía mais coração e

não podendo sentir amor pela Anãzinha pouco me importava casar-

me ou não com ela. Acho que continua morando com a velha,

esperando minha volta. Com este corpo de lata, perdi o medo ao

machado e só um perigo me ameaçava: se minhas articulações se

enferrujassem, estaria perdido. Sempre tive à mão uma lata de óleo,

mas um dia fui surpreendido por uma tempestade, minhas juntas se

emperraram e fiquei paralisado na floresta até que vocês chegaram.

Foi um sofrimento horrível, mas, durante o ano que passei

imobilizado, pude compreender uma verdade: de tudo o que perdi,

era o coração que me fazia mais falta. Ninguém pode amar sem

coração. É por isso que resolvi ir ao Grande Oz. Se conseguir o que

desejo, volto para casar-me com a linda moça do País dos Anões.

Dorothy e o Espantalho ouviram interessadíssimos a história do

Homem de Lata. Compreendiam agora por que ele desejava tanto

um novo coração.

— Ainda assim — comentou o Espantalho — quero é um

cérebro. Um bobo não saberia o que fazer com o coração, mesmo

que tivesse um.

julguei ter derrotado = pensei que havia vencido

com afinco = muito

articulações = juntas

emperraram = endureceram

interessadíssimos = com muito interesse