O Matuto por Franklin Távora - Versão HTML

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O Matuto, de Franklin Távora

Fonte:

TÁVORA, Franklin. O matuto : crônica pernambucana. Rio de Janeiro : Garnier, 1902.

Texto proveniente de:

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A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

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O MATUTO

Franklin Távora

I

Pasmado é uma velha povoação, outr’ora aldeia de índios, duas léguas ao norte de Iguarassú, na estrada de Goiana. É célebre por seus ferreiros, ou mais especialmente pelas facas de ponta que estes fabricam, as quais passam pelas melhores de Pernambuco onde têm estendida e tradicional nomeada. Não há terra que se não distinga por usança, defeito, qualidade ou particularidade local, que vem a ser o seu como traço característico, a sua feição dominante. Quem passa por Tigipió, na estrada de Jaboatão, encontra a cada canto tocadores de viola que vêm alegres, e pé no mato pé no caminho. Dos casebres do Barro o que logo se mostra aos olhos do viandante são mulheres metediças, com as cabeças cobertas com flores, os cabeções arrendados e decotados, os seios quase de fora. Costumes dos povoados onde ainda não tiveram grande entrada o trabalho e a instrução.

Passando-se por Goiana ouve-se daqui uma trompa, dali um baixo, adiante um pistom, além um trombone, uma clarineta, uma flauta, um assobio, uma harmonia ou uma melodia qualquer, e não se vê sala nem corredor que não tenha nas paredes uma, duas ou três ordens de gaiolas com passarinhos cantadores e chilreadores. Há ai o instinto musico da Bohemia.

Quem atravessa Pasmado pela primeira vez, tem a ilusão de que todas as arapongas da mata próxima estão ali a soltar seus estrídulos acentos. Mas logo vê homens tisnados batendo com o martelo sobre a bigorna, foles assopradores, carvões ardentes e flamejantes. Então a ilusão muda. O que parece é que todas as forjas de Vulcano foram transportadas para aquele imenso laboratório de instrumentos mais destruidores do que conservadores da vida e do sossego alheio.

Neste particular, o de ser largo e opulento mercado de armas malfazejas, talvez Pasmado só possa contar em todo o império brasileiro uma rival – a côrte do sobredito império, na qual a navalha do capoeira disputa a primazia, em gênero, numero e caso, á faca do matuto do norte. A côrte e a província neste ponto cortam-se bem. Uma não tem que falar da outra. No que Pasmado se parece com todos os velhos povos, é em ter casas esburacadas; entulhos e matos pelo meio das ruas; aqui uma baixa, ali um barreiro, onde, de inverno, coaxam os sapos dia e noite, respondendo á vozeria desentoada dos seus semelhantes que moram nas moitas formadas por dentro dos largos, sem licença nem proibição da municipalidade. A rua mais pública e principal da povoação é aquela por onde corre a própria estrada. Perto ficam os olhos-d’água nativa onde os moradores vão prover-se da de que precisam, quando não aparam, por sua comodidade, como costumam, em potes e gamelas a que cai das biqueiras da casa durante as chuvas. O certo é que, ou indo busca-la nas fontes ou aparando-a na porta da casa, não curtem sede os moradores de Pasmado dias e noites, ainda de verão, como curte a pobreza deste esplendida e orgulhosa cidade – primeira capital da América do Sul.

Em um rancho ou garapeira que se via algumas dezenas de passos antes da povoação, estavam reunidos, por uma noite de 1706, á roda de um fardo de fazendas, vários matutos que voltavam do Recife, onde tinham ido vender algodão. Entre eles havia dois almocreves das proximidades de Goiana, um por nome Francisco, o outro Victorino.

O rancho não era mais do que o prolongamento da garapeira, com a qual tinha comunicação interior. Era, como são tais pontos, apenas envarado até meia altura e coberto de telhas. De um lado estava a longa manjedoura em que os cavalos dos rancheiros passavam a noite aproveitando, de mistura com alguns pés de capim, cortados de tarde, os talos e retraços que nela tinham deixado os cavalos dos rancheiros na noite anterior. Do outro lado o alpendre mostrava-se inteiramente livre, como convinha, a fim de terem os hospedes espaço para as suas redes, que eles armavam de um enchamel para outro, e donde a qualquer hora da noite podiam ver os seus animais alguns passos de distância, comendo se havia o que, ou estudando como muitas vezes acontecia. O dono da garapeira, responsável pela segurança dos animais, fechava as portas do puxado quando via os rancheiros recolhidos, e só reaparecia ai de madrugadinha para receber destes a respectiva paga. Muitas vezes, estava ele ainda deitado quando ouvia uma voz que lhe dizia:

-

Aqui fica o dinheiro, seu Ignacio.

Era a voz do rancheiro, o qual punha por baixo da porta a quantia devida. Nunca nenhum se ausentou sem ter primeiro cumprido o seu dever, com a proverbial probidade do matuto e do sertanejo do norte.

No tocante ao traje, ver um dos matutos era o mesmo que ver os demais. Camisa por cima de ceroulas de algodão – eis em que ele consistia.

Todos tinham os pés nus, e quase todos por cima do cós das ceroulas o longo cinto de fio, cofre portátil onde traziam o dinheiro, terminando em cordões com bolotas nas pontas, os quais serviam para dar muitas voltas em torno da cintura antes do laço final. Metida entre o cinto e o cós guardava cada um sua faca de ponta presa pela orelha da bainha.

Da arma só aparecia o cabo, figurando a cabeça de uma serpente que tinha o restante do corpo oculto.

Já era noite, e dentro do rancho lançava crepuscular claridade o candeeiro de azeite, que pendia, por uma corda corrediça, de um dos caibros da coberta.

Alguns dos rancheiros estavam com as mangas arregaçadas como se foram prestes para entrar em pugilato de vida e morte.

E de feito não era de outro gênero o mister ou a luta que os ajuntara ali, uns de pé, outros inclinados sobre a barriga, todos com as vistas concentradas na superfície do fardo, onde uma taboa se pusera para servir de base a dois braços diferentes que nesse momento se alçaram e logo após se uniram pelas mãos, ficando firmes sobre os cotovelos.

Um dos pegadores da queda-de-braço chamava-se Manoel Francisco; o outro era o Victorino. A queda-de-braço era já nesse tempo em grande uso entre os almocreves do norte.

Manoel Francisco era acaboclado, feio, baixo, grosso e reforçado; Victorino procedia de mulata e mameluco, era seco,, nervoso e de semblante bem assombrado.

- Sustenta o motivo, Mané Francisco, senão Victorino te lambe – disse um dos circunstantes, quando viu os braços inimigos se entesarem e ouviu o fardo ranger aos primeiros ensaios das duas forças que se experimentavam e mediam para uma grande luta, posto que dentro de acanhada arena.

- Este braço que estão vendo – respondeu Manoel Francisco – tem botado abaixo enquanto o inimigo esfrega um olho, muito curema rebingudo das ribeiras do Ceará e do Piauí.

- Agora é que havemos de ver ele para quanto presta, e se tudo isto o que você está dizendo não passa de uma história, retorquiu Victorino. Quando quiser cair, diga.

- Se você é homem, mostre agora o seu talento – replicou Manoel Francisco, retesando o braço, como quem queria entrar sem detença no momento decisivo.

Pegaram-se definitivamente os dois atletas.

O braço de Manoel Francisco dava dois do de Victorino; mas a resistência que encontrou neste, fez que não passasse nem uma linha da posição em que de principio se colocara. Eram duas pirâmides pétreas, imóveis, inabaláveis, uma talhada para competir com a outra na rijeza e na resistência.

A queda-de-braço tem graça justamente quando os lutadores medem forças iguais. Dá-se então o que é natural de pleitos idênticos. Dividem-se as opiniões sobre a probabilidades da vitoria. Uns, levando em conta as condições físicas dos combatentes, não hesitam em decretar, para o que lhes parece mais favorecido de tais circunstancias, as honras da peleja; outros publicam que essas honras hão de caber, não a este mas àquele contendor, autorizados por precedentes ou por outros muitos elementos de indução e convicção. Fora da arena dos pelejadores reais, forma-se uma arena em que começam de porfiar os assistentes á pugna, discutindo, altercando, apostando cada qual pelo que supõe ter por se mais probabilidades para o vencimento.

Foi o que se deu no rancho logo depois de se terem colocado defronte um do outro, ficando o fardo de permeio, o Victorino e o Manoel Francisco.

Ao cabo de alguns minutos, que bastaram a trazer os contendores cobertos de suor pelo esforço despendido, e antes deste pelo brio empenhado no jogo de honra, disse um dos rancheiros:

-

Já você está sabendo, Mané Francisco, que o Victorino não é quem você julgava.

Ora que tem isso? retrucou o que se achava mais próximo do que acabava de falar. Ha de cair como os outros; não há santos que o acudam.

-

Deixe-se disso, Renovato, deixe-se disso. Você não vê que ambos eles são dois cabras de talento?

Sim, é verdade; mas você não dá o desconto. Olhe que Mané Francisco já tinha pegado com Damião e Thomaz, e a todos botou por terra.

- Ele me botou, é verdade – acudiu Thomaz despeitado; mas de outra feita talvez não tenha a mesma felicidade.

Olhe como o braço já lhe está tremendo, batido por Victorino.

-

Aquilo é um peneirado que ele sabe.

-

Sustenta o motivo, Mané Francisco – gritou Damião ao que minutos antes o tinha derribado.

-

A coisa está feia. O que cair para a aguardente.

-

E o rancho.

- Está

dito.

Caiu, caiu, Mané Francisco! Gritaram neste ponto muitas vozes, formando uma algazarra imensa, que repercutiu fora do alpendre.

-

Ainda não, ainda não – retorquiram outros no mesmo diapasão.

-

Não foi mais do que uma negaça. Vejam lá como se levanta.

De feito o caboclo, depois de derreado quase inteiramente o braço, o levantara lentamente até á altura em que se achavam no começo da luta: mas dai não passou.

-

Quem vence? perguntou um, logo que viu novamente restabelecidas a indecisão e a duvida.

Nenhum vence – respondeu Francisco. Está visto que Mané Francisco e Victorino têm as forças iguais.

-

Não, senhor. É preciso ir até ao fim. Um deles há de poder com o outro.

-

Não, não; disseram alguns da opinião de Francisco. Têm as forças iguais, está acabado.

Eu não me levanto se Victorino não se levanta – disse Manoel Francisco a modo de contrariado por ter encontrado no contendor força com que não contara. Eu não me levantarei senão depois da sua queda – respondeu Victorino sem se alterar, antes com evidente serenidade.

-

Levantam-se ambos, que já é tarde, e vem por ai o Valentão-do-Timbaúba.

O Valentão-do-Timbaúba! exclamaram os rancheiros, pondo-se de pé, inclusivamente os dois lutadores, que se separaram e com a vista percorreram como sobressaltados todo o âmbito do alpendre.

-

Quem disse que ele vem ai? perguntou Victorino.

-

Digo eu – respondeu Francisco. Por isso é preciso estar preparado para o receber.

Se vier, há de encontrar gente. Somos onze. Não há de chegar um pedacinho dele para cada um de nós.

Pelo sim, pelo não – disse Thomaz – vou pôr nova escorva na minha espingarda. Vendo Thomaz encaminhar-se para o lugar onde estava encostada a arma a que aludira, Francisco rindo, atirou-se dentro da rede e disse aos companheiros ainda sobressaltados:

-

Qual valentão, nem meio valentão! Rezem-lhe pela alma.

- Ele

morreu?

-

Morreu, sim senhor, e ficou bem morto.

-

Você está gracejando, Francisco.

-

Estou falando serio. Vou contar como o caso foi.

O Valentão-da-Timbaúba era um malfeitor que por aquele tempo cometi roubos e assassinatos na redondeza de muitas léguas de Pasmado. Esta alcunha foi-lhe dada pelo povo. Seu nome era Valentim. Não teve a fama extensa do Cabeleira, ao qual foi muito inferior na índole natural, na coragem e no físico; mas no pequeno teatro das suas façanhas adquiriu tamanha celebridade, especialmente nos ranchos, que de seu nome e feitos ainda hoje restam ai lembranças enlutadas.

Era mais ladrão do que assassino; usava primeiro o subterfúgio, o laço, a astucia, que a arma mortífera; mas, quando a manha não bastava, ou quando era surpreendido antes do resultado em que pusera a mira, então o encontravam facinoroso, cruel. Esfaqueava, matava, contanto que se apossasse do alheio que excitará a sua cobiça.

Era cabra-negro, magro, anguloso. Tinha os olhos vermelhos, as orelhas largas, o queixo fino, a barba espalhada e carapinha. Havia nele alguma coisa do vampiro. Mas a voz, que aliás era áspera e estridente, ele adocicava e abemolava por tal jeito que quem o não conhecesse, o teria por inofensivo e lhe daria esmola se ele a pedisse, o que muitas vezes praticou para se disfarçar.

Em luta pessoal com outro valentão, recebera deste uma facada no olho direito. De outra vez levou-o ás portas da morte um tiro que lhe desfechará sobre a perna esquerda certo sertanejo, a quem roubará objetos de valor, e de cujas mãos conseguiu escapar, não obstante o ferimento. Resultou destes desastres ficar torto e coxo, o que se por um lado lhe diminuiu as faculdades do movimento e da inspeção, lhe aumentou pelo outro os meios e pretextos de iludir e explorar a credulidade dos transeuntes.

Morava ele em uma palhoça que distava três a quatro léguas de Maricota, obscura povoação que o forte combate de que em 1848 foi cenário, entre as forças praieiras e as do governo, tornou ilustre e histórica.

Valentim levantará de intenção sua morada naquelas alturas para comodidade nos seus latrocínios.

O comboio que por ali passava duas ou três horas antes do pôr do sol, tinha de sujeitar-se a uma destas duas alternativas: ou pedia rancho na própria casa do malfeitor e pagava caro a hospedagem, deixando de ordinário um cavalo, uma saca de lã, uma barrica de açúcar ou de bacalhau, que no dia seguinte nenhum esforço, por maior que fosse, era bastante a descobrir; ou ia descarregar adiante; á sombra de alguma arvore, e o tributo vinha a ser mais pesado ainda do que o primeiro, visto que, por escusas veredas, o ladrão ia ter ao rancho, e em vez de um, trazia dois ou três cavalos, duas ou três sacas, enfim muitos objetos de grande valor. Valentim vingava-se com usura de quem procurava escusar-se ao tributo que ele cobrava no deserto.

É curioso o estratagema que ao principio usava para enganar a vigilância e a simplicidade dos rancheiros.

A’hora que conjeturava estarem todos já deitados, aparecia no pouso sorrateiramente e com voz melíflua e vagarosa dizia estas palavras, que eram há bem pouco tempo tradicionais naqueles caminhos:

-

Coitados dos comboieiros! Como estão enfadados!

Assim falando e repetindo sempre com razoáveis intervalos, estes fingidos e traiçoeiros dós, metia-se por entre as redes dos rancheiros, muitas vezes passando de leve a mão esquerda por cima deles, enquanto com a direita apanhava muito naturalmente as esporas ou a faca aparelhada de prata, a maca onde vinha o melhor fato e alguma vez jóias preciosas e dinheiro, o relógio, que descansava sobre uma mala, o gibão novo que estava pendente do galho da arvore ou do punho da rede.

Tal era aquele cujo fim trágico Francisco se propôs contar aos companheiros.

Para melhor ouvirem a narração, reuniram-se os matutos ao pé do narrador, uns fumando em cachimbos de barro, outros comendo da matalotagem que traziam em mochilas de algodão ainda hoje em uso entre esta espécie de gente por ocasião de suas jornadas.

II

Francisco principiou assim:

- O sol estava a sumir-se, quando ouvimos, já arranchados ao pé da oiticica ramalhuda, que fica adiante da casa de Valentim obra de duas léguas, uns gemidos e uns queixumes que cortavam o coração a quem os escutava.

- Quem me socorre? Cristãos, filhos de Deus, acudi-me – dizia a voz: Ai que dor! Não tenho quem me meta a vela na mão. Ai que morro neste mato sem ter quem me chame pelo nome de Jesus.

Seu sargento-mór João da Cunha, com quem eu vinha de Goiana, e que era o dono do comboio, - se por informações, ou por prevenção, não o sei bem dizer, viu logo no afligido um velhaco; e quando, assim que chegou aonde nós estávamos, arrastando-se com muito trabalho e gemendo sempre, ele lhe pediu, com voz sumida um lugar entre os arreios para passar a noite junto de quem o pudesse ajudar na hora de morte, reconheceu no pobre o Valentão-da-Timbaúba. Todos nós o reconhecemos também pelo olho furado e a perna quebrada.

- Estou pronto a consentir que você pernoite entre nós, mas há de ser com uma condição, - disse-lhe seu sargento-mór. Valentim respondeu: Farei tudo o que vossa senhoria ordenar, contanto que me deixe morrer entre filhos de Deus.

Você há de dormir amarrado pelas mãos do Francisco debaixo de minhas vistas no tronco desta oiticica.

- Ai meu senhor! tornou Valentim. Compadeça-se do pobre enfermo. A ninguém ofendi nesta vida para merecer tanta crueza.

-

Se não lhe serve a condição, vá morrer longe daqui enquanto é cedo.

A estas palavras de seu João da Cunha, Valentim afastou-se do lugar sem mais demora, gemendo mais do que dantes.

Todos nós fizemos tenção de não pregar olho essa noite, mas o enfado da viagem tinha vencido a todos algumas horas depois. Só quem não dormiu foi seu sargento-mór, que para fazer crer que estava deitado, mandou pôr dentro da rede dele um surrão carregado, e junto dela, entre duas caixas de fazenda, se sentou escondido como quem fazia tocaia a veado, esperando pelo ladrão, com o bacamarte armado, por cima da caixa que lhe ficava na frente.

Quando foi lá pelas tantas, um vulto veio tomando chegada pé ante pé. Estava nu da cintura para cima. Tinha as calças arregaçadas e trazia uma arma de fogo na mão. Quando o ladrão ia a por a mão no cabresto de um dos animais que estavam comendo milho nos embornais defronte da oiticica, seu sargento-mór desabrochou-lhe fogo. Todo o rancho acordou atordoado e ganhou mão das armas. Eu fui o primeiro que corri ao ponto onde estavam os animais. Faltava um, e o ladrão tinha desaparecido. Seu sargento-mór ficou muito zangado com a perda do seu cavalo, e ainda mais por Ter errado o tiro. Mas que se havia de fazer?

-

Gosto de um cabra danado assim como o Valentim! disse um dos matutos que ouviam a

narração.

-

É verdade, disseram outros. Fez o que quis, e acabou antes do amanhecer.

Sim, mas, quando amanheceu – prosseguiu Francisco – e se viu o rastilho de sangue que ele foi deixando pelo caminho afora, seu sargento-mór mandou que eu e Mameluco, seu pagem de confiança, montássemos nos melhores cavalos e lhe fizéssemos companhia, guiados pelo rastilho, em busca do Valentão.

O comboio seguiu para o sul, e nós tiramos para o poente. Pouco adiante o rastilho perdeu-se no mato; mas nós entramos por ele, e fomos dar em um riacho.

Ai, bem na beira, debaixo de uma emburana, estava o cabra.

-

Acaba de matar este negro! Disse seu sargento-mór a Mameluco.

Mas, não foi preciso fazer nada mais. Valentim estava morto.

Assim acabou o Valentão-da-Timbaúba. Podemos, por isso, dormir todos sem susto que ninguém mais nos há de vir inquietar durante a noite. Tomando o conselho de Francisco, que, por sua idade e prudência, parecia exercer sobre os companheiros legitima influencia, tranqüilos e serenos estes meteram-se em suas redes e pouco depois estavam ressonando profundamente.

Como visse o rancho em silêncio, o velho Ignacio apagou o candeeiro e retirou-se a seus aposentos, não sem ter primeiro fechado todas as portas, com excepção da de entrada, que de costume ficava sempre aberta para a qualquer hora da noite se recolherem os viageiros que não podiam chegar mais cedo.

Não havia luar, mais a noite estava clara. As estrelas cintilavam com a luz suave que elas têm no deserto ou nos lugares onde não há, para quebrarem sua branda claridade, as iluminações publicas.

Seriam nove horas quando de junto das cangalhas e cargas que estavam atiradas a um canto de rancho, rumor suspeito se fez ouvir distintamente por Francisco a quem ainda o sono não tinha dado a respirar os seus deliciosos narcóticos.

Francisco era prevenido, e armará a rede perto da entrada que estava livre. Ouvindo o ruído e tendo certeza de que pela porta donde ele guardava, como cão fiel, a casa adormecida, não pressentirá entrar ai viva alma, sentou-se tão cautelosamente como pôde na rede, e dai volveu vistas perscrutadoras ao lugar donde lhe chegavam os sons suspeitos.

Não fossem resultado a sua inspeção. Um vulto rastejava por entre os objetos lançados a esmo no fundo do alpendre.

Quem era? Por onde entrará quem quer que era?

Estas interrogações apresentaram-se logo no espirito do matuto, que por impressão de natural superstição julgou ver na forma vaga e indecisa que se agitava sorrateiramente, senão o Valentão-da-Timbaúba, ao menos o seu espectro ou a sua alma malfazeja.

O vulto semelhava um cão e, a uso deste animal, andava sobre quatro pés, posto que lentamente, acusando a intenção de iludir, pela brandura dos movimentos, o sono dos incautos.

Francisco, depois de detida observação, convenceu-se enfim de que o desconhecido era vivente e arrastava consigo um volume tirado da bagagem comum.

Então todos os espíritos, um momento esmorecidos e vacilantes, voltaram a Francisco por ventura mais fortes e viris que dantes. Quem estava ali não podia ser senão um ladrão, um sucessor de Valentim no ignóbil e torpe oficio de defraudar os inofensivos viageiros, justamente quando, em lugar ermo e estranho, mais direito tinham á boa hospedagem dos moradores.

Desceu-se de manso e manso da rede, armou-se cum sua faca que ele tinha metido entre as pontas de uma ripa, que vinha morrer no portal mais próximo, e em vez de ir no encalço do desconhecido quando este desapareceu por traz de um montão de cangalhas, rodeou por fora a garapeira, e correu ao seu encontro do lado da cavalariça na altura em que presumiu teria ele de sair.

Este não se fez esperar; e o matuto calculara com tanta exatidão a distancia que se metia entre se e ele, que foi inclinar-se ao pé da própria abertura do envaramento por onde em menos de um minuto o estranho visitante poz a cabeça de fora.

Cair-lhe então com as mãos sobre o pescoço, tendo a faca atravessada na boca, foi ação que Francisco obrou em um abrir e fechar d’olhos.

- Damião, Victorino, seu Ignacio, acudam cá sem demora, que o cabra está pegado, e bem pegado! gritou o matuto com quantas forças tinha em si.

Um tiro que se tivesse desfechado subitamente naquele ponto, não produziria tão grande arruido e sobressalto como a voz de Francisco alterada pelo inopinado do acontecimento e pelo esforço usado contra o desconhecido.

Tontos do sono e da surpresa, apresentam-se os rancheiros prontamente no lugar da ação. Enquanto uns rodeavam a casa, outros passavam do outro lado através das varas. Este vem com a faca descascada, aquele com a pistola armada, seu companheiro com a catana, o outro com o facão, prestes todos eles a cair sobre o invasor.

Entretanto o ladrão, quase todo de fora, não obstante a força empregada por Francisco para o Ter seguro entre os pés dos enchameis, debatia-se com tal violência e animo, que nas mãos de outrem que não fora Francisco, já teria logrado escapar-se.

Senão quando apresenta-se o dono da garapeira, trazendo acesa a candeia da sua serventia. O ladrão já safo e de pé lutava corpo a corpo com Francisco, despendendo hercúleos esforços a fim de fugir de suas unhas.

Quando a luz esclareceu o recinto do conflito, geral foi o espanto dos circunstantes.

Olhando para seu contendor, Francisco sentiu-se cobrir de vergonha e tristeza. Aquela luta ingente tinha sido sustentada com ele por um rapazito que não representava mais de doze anos.

Entretanto estava ali um Hércules. Aquele braço teria botado abaixo os de Manoel Francisco e de Victorino reunidos, visto que tinha podido com os de Francisco, que era apontado em todos os ranchos, desde Goiana até o Recife, como o primeiro pegador de queda-de-braço daquelas alturas.

- Lourenço! Demônio! Ladrão sem vergonha! Exclamou enfurecido o velho Ignacio, os olhos postos no ator principal daquela cena de desordem e escanlado. Quando quererás entrar no bom caminho, coisa ruim e desprezível?

Soltem-me. Quero ir-me embora – respondeu Lourenço, rugindo de raiva, e revolvendo-se entre os braços dos matutos a quem Francisco o tinha abandonado logo que reconheceu nele os anos infantis que na escuridão o fizeram ter por forte e varonil atleta.

Que menino! disse Francisco, correndo-o com a vista de cima a baixo. Tem força que nem um touro.

Assim é que eu gosto de ver um cabrinha bom – disse Victorino. Sem pau nem pedra está dando que fazer a todos nós.

De feito Lourenço atirava-se ora para um, ora para outro; investia contra este; atracava-se com aquele, por fugir do circulo em que o tinham como encurralado os rancheiros.

- Isto é o demônio do Pasmado – acrescentou Ignacio. Não há por aqui quem não tenha o que dizer desta perversa criatura. Eu, que sou eu, tenho-lhe respeito, porque, mais dia, menos dia, se não lhe tiverem mão, virá a melar o Valentão-da-Timbaúba.

- Soltem-me, deixem-me passar, senão mato a um – disse Lourenço, já fatigado, mas cada vez mais enfurecido da resistência que se opunha à sua vontade serpentina.

- Pega nele, Victorino – disse Francisco. Quero leva-lo comigo para casa. Quero ensina-lo hei de aproveitar-lhes as forças no cabo do machado e da enxada. Há de dar para um perfeito homem do campo. Assim os pais estejam pelo que eu quero.

-

Pai foi coisa que ele não conheceu – observou Ignacio.

-

E mãe? Perguntou Francisco.

A mãe era a Bilóca, falecida há dois para três anos. Esta oncinha, que já então tinha mostrado para quanto havia de dar, quebrando as pernas dos cachorros a pedradas, furando com o espeto quente os porcos de casa a ver se lhes derretia o toucinho, segundo ele mesmo dizia, e pondo carvões abrasados na rede onde dormia um irmão menor que veio a morrer desta e de outras malindades, ficou depois da morte dela ao desamparo. Tantas tinha feito, que não houve aqui alma caridosa que não temesse te-lo perto de si. O mais compadecido de todos os moradores, a velha Aninha, recolheu-o um dia em sua palhoça. Pelo correr da noite acordou debaixo de labaredas. Lourenço tinha posto fogo na casa da velha.

Desde então todos fogem dele, até o vigário que ao principio foi muito por ele e lhe deu de comer e de vestir. Lourenço vive agora vagando pelas ruas judiando com os animais, furtando e roubando, como vocês acabam de ver.

-

Este menino só enforcado pagará o mal que tem feito – disse Damião.

Pois se ninguém o quer, levo-o eu comigo. Faço esta obra de caridade, e fico bem satisfeito com isso, porque ele suprirá a falta que tenho de um filho para me ajudar. Queres ir comigo, Lourenço? Perguntou Francisco ao rapazito.

-

Não vou com ninguém. Não sairei daqui.

-

Hás de ir.

-

Eu lhe mostro se vou.

-

Eu te mostrarei se não vás – retorquiu o matuto.

E voltando-se para o velho Ignacio, acrescentou:

-

Tranque-me o menino em sua casa enquanto amanhece. Pago-lhe o dobro do rancho.

Deus me livre – disse o velho. Se ele me cai dentro de casa tudo me arde como carvão em forja de ferreiro. Nem que me dê cincoenta cruzados.

Se fazes gosto em leva-lo contigo, amarramos o rapaz em um enchamel, como seu sargento-mór queria fazer com o Valentim.

Lourenço rugiu e disse:

- Soltem-me,

porcos.

-

Guarde-me o menino por esta noite, seu Ignacio – tornou Francisco. Pago-lhe bem.

-

Peça-me tudo, menos isso. Ele em me achando dormindo, era capaz de sangrar-me.

-

Pois não durma. Tenha-o debaixo das vistas para de madrugadinha restituir-mo

Como se calasse o velho, Francisco, tomando o seu silencio por aquiescência, fez sinal a Victorino e Damião para que o conduzissem á garapeira.

Os dois matutos agarraram-no com quantas forças tinham; mas antes de chegarem á porta viram-se obrigados a larga-lo, porque Lourenço a um tinha posto os braços em sangue, e sobre o outro desandará tamanho coice no estômago, que lhe tirou o animo para levar a efeito a empresa.

-

Vejam só, vejam só – acudiu o velho Ignacio. Não lhes disse? Lá dentro não me pisa esta fera. Nada. Nem por Santo-Antonio. Se dois homens moços não podem com ele, que direi eu?

Querem saber de uma coisa? Inquiriu Francisco a cabo de um momento. Largo-me agora mesmo com ele por estes caminhos. Vamos, Victorino?

-

Agora de noite?

-

Que é que tem? A lua não tarda a nascer. Olhe já o clarão dela por cima da mata. Vamos. Não percamos tempo.

Em menos de um quarto de hora Lourenço estava atado com cordas pelas pernas na cangalha e em cima do cavalo que o devia conduzir para longe do povoado.

- Adeus, adeus, minha gente, disse Francisco aos companheiros que ficavam no ponto. Até nos encontrarmos outra vez por estas estradas.

- Faça boa viagem, Francisco, disse um deles. Mas fique certo de que você leva sarna para se coçar. Olhe, não se arrependa.

-

A criança é de estouro – acrescentou outro.

-

Deus é quem sabe. Muita vez não há de ser assim.

Francisco saltou sobre a garupa do cavalo onde estava Lourenço, que só faltou arrebentar de fúria para a qual não há qualificação possível.

Victorino, imitando o companheiro, montou no outro animal. Com pouco desapareceram na escuridão.

Francisco ia ruminando consigo em silencio estas idéias:

- Não tenho filho. Tratarei deste desgraçado que não tem quem por ele se doa. Farei conta que é meu filho.

Espero em Deus que me há de ajudar a fazer dele um homem que sirva a gente.

Sem saber explicar como nem porque, Francisco sentia-se satisfeito com o presente que levava á sua mulher, não obstante os prantos e os uivos de que Lourenço ia enchendo o caminho no ultimo desespero.

III

Uma légua antes de Goiana, a estrada geral que vai do Recife á Paraíba, atravessa um lugar de presente aumentado, mas ao tempo desta historia apenas formado de uma casa de barro, e duas ou três palhoças espalhadas não longe dela, por dentro dos matos circunvizinhos, sem regular alinhamento, a uso das casas que, para assim escrevermos, se improvisam nas entranhas das florestas.

A casa de barro ficava á embocadura da mata de Bujari, a qual por então tinha, não como hoje, meia légua, mas quase uma de comprido. O lugar supramencionado, já nesse tempo aprazível e risonho, era alguns anos antes um como prolongamento dessa mata, menos fechado – é certo - , mas não menos ermo e desabitado do que ela. De um cajueiro velho que se mostrava, na beira do caminho, ao que saia da espessura, adveio-lhe o nome, que hoje designa o lugar, e tem por se a autoridade da consagração do povo e do tempo.

Fizera-se subitamente a transformação daquela seção da floresta como nos contos antigos mudam as situações ao puro querer de um gênio ou de uma fada. Eis como a coisa se deu.

Um matuto passando por ali, de jornada para Tejucupapo, ficou encantado pela amenidade e beleza da situação. Do cajueiro para dentro estendia-se larga planície coberta de arvores meãs, sombrias e graciosas. Em arvores semelhantes há algum tanto das donzelas faceiras e namoradas com que se arreiam os salões e que são as graças mimosas do lar. Era o intermédio entre a espessura úmida e medonha, e a campina nua, fresca, monótona, que se seguia á planície adornada com a vegetação moderada e pitoresca. Emgim era, em escala ascendente, a transição natural para a mata virgem.

Na volta entendeu-se o matuto (que não era outro senão Francisco) com o senhor do engenho Bujari a quem as terras pertenciam, e que consentiu em que ele levantasse casa de morada e abrisse roçado.

Francisco cortou madeiras, aparelhou-as e arrumou a casa ao pé do cajueiro. Havia barro perto. As palmeiras mais formosas daquela zona estavam agitando suas longas folhas verde-negras na espessura vizinha. Enfim, em menos de uma semana, aqueles que, de passagem para o Recife, tinham visto a casa apenas envarada ou encaibrada, vinham encontra-la agora fechada e coberta; e os que, tendo passado por ali antes destes últimos, voltavam ao mesmo tempo que eles da capital, ficavam admirados e satisfeitos de verem uma habitação nova e risonha, onde quinze dias atrás tinham deixado a solidão e o mato fechado.

Esta novidade era obra das mãos abençoadas de Francisco, homem de trabalho e paciência.

Forte de constituição física; ajudado, senão animado, pela energia de seu espirito; afeito desde os mais verdes anos a ganhar pela força de vontade, que era o seu primeiro dote natural, a vida honesta, os dias suados mas tranqüilos, as noites sem remorso, o sono solto e largo, estava o matuto habilitado a levar efeito prodígios semelhantes, e outros ainda maiores e mais admiráveis.

Francisco era semi-branco, corpulento, espadaúdo e de boa estatura. Tinha no semblante a expressão da virilidade e da resignação do que luta quase incessantemente com a pobreza, e a vence a pouco, por ventura mais forte, mas nunca invencível.

Os matutos podem dividir-se em diferentes espécies, mas as mais comuns são as dos lavradores e almocreves.

Os primeiros são os que dispõem de alguns meios, a saber, escravos, cavalos, terras, os quais sem darem para ter um engenho ou, ao menos, para move-lo, por se sós habilitam o que os possuem, a cultivar a cana nas terras do engenho alheio, posto que sujeito a dividir com o respectivo proprietário o açúcar apurado em cada safra. Os últimos são os que se alugam com sua pessoa e seu cavalo para a condução de cargas, por ajustado frete. Os lavradores são matutos limpos, que entram muitas vezes nos negócios íntimos do grande proprietário, merecem a estima deles, a pesam com seu conselho na decisão dos interesses comuns. Aos almocreves já não sucede o mesmo. Paga-lhes o senhor de engenho o salário, e eles retiram-se a seus casebres onde vão comer, com a mulher e com a ninhada de filhos que ordinariamente contam, o escasso pão que lhes deram o cavalo magro e o trabalho puxado e cansado.

E pois o cavalo é, para assim escrevermos, a primeira riqueza do almocreve, visto que por ele é que vem a sua sustentação e a de sua família; ter um cavalo é a primeira aspiração do pobre no mato. O almocreve não vota mais afeto á sua mulher do que a seu animal. Por ele dá muitas vezes a vida. Para o reaver, se lho furtam, vai ao fim do mundo e mata o ladrão.

Quando o almocreve, firmando-se pelos dois primeiros dedos do pé, sempre descalço, sobre a raiz da curva da perna do seu cavalo, ganha de um pulo a cangalha, se ele está descarregado, ou a anca se o animal tem carga, considera-se mais feliz e garboso do que um general de mil batalhas. A seus olhos aquela altura que o homem de pé atinge com a mão, lhe parece superior a todo poder humano. Dai não teme o agente da autoridade publica, nem o golpe ou o tiro mortal que lhe desfechem. Reputa-se inacessível a todos os males da terra. Entre suas pernas, querendo-o ele, o cavalo é uma locomotiva que se perde na imensidade dos caminhos ou dos descampados; é a faisca elétrica que corre terra a terra e desaparece, rompendo fechados e abatendo folhagens, na massa densa e sombria das selvas. O touro afasta-se, a onça recua, para o deixar passar livremente na vertiginosa carreira.

De ordinário, porém, a marcha do animal do almocreve não sai do rojão de todo dia. Tendo sempre presente na lembrança o muito que lhe custou ganhar o seu precioso bem, poupa-lhe as forças quanto pôde, e só em caso extraordinário exige dele a corrida afanosa, os saltos súbitos, o galope, o cansativo esquipar.

Do numero dos almocreves saem os cantadores e os repentistas, que, não obstante as privações ordinárias de sua vida quase errante, têm dias de consolação e regozijo.

Pelas festas do ano ajuntam-se na casa dos camaradas para cantar, dançar e beber.

A esses saráos campestres, conhecidos por sambas, não faltam as moças mais desembaraçadas das vizinhanças,

- fadas da roça, que com suas chinelas de marroquim, seus vestidos de chita ou de cassa de florões, nos lábios, que estão a verter sangue e frescura, o riso vergonhoso e a promessa duvidosa, os cabelos enastrados de jasmins, manjericões e malmequeres, dão alma a pastoris episódios, a curiosos melodramas e muitas vezes a tragédias medonhas e fatais. Algumas delas mais desgarradas trazem os seios mal cobertos por vistosos cabeções de que pendem, não sem acertadas combinações e fantasias, bicos e rendas bem feitas e elegantes.

Tais festas têm o seu lado bom e providencial, - fazem esquecer as magoas passadas e as privações presentes.

O primeiro e o mais proveitoso resultado delas é o seguinte: diminuem a estatística dos crimes graves e infamantes.

Pobres

matutos!

Quantas vezes, ao ver-vos descalços, mal vestidos e mal passados, não senti apertar-se-me o coração com pena de vós?! Esta pena redobrava sempre que, passando pela frente dos vossos casebres, eu descobria ai por mobília um banco tosco, uma caixa grosseira, um pote de água suspenso entre os braços de uma forquilha enterrada no canto da salinha, e por leito de dormida para vós e vossos filhinhos uma esteira ou um giráo de varas!

Então eu compreendia a razão por que em nossos encontros nos caminhos éreis vós os primeiros que tiráveis o vosso chapéu e me salváveis com mostras de profunda humildade, sem saberdes sequer quem eu era. É que vós tínheis sempre presente no entendimento a consciência da vossa pobreza e consequentemente vossa fraqueza. Esta consciência, este aguilhão intimo, que nunca se embota, vos dava uma falsa idéia de superioridade de minha parte sobre vós. Pobres criaturas sois vós, ó matutos, mais dignos de compaixão e amparo do que do riso mofador de que vos fazem alvo os que na ignorância, na simplicidade e na miséria alheia acham assumpto para desenfado e divertimento próprio! Pobres sois vós dobradamente: porque recebestes de vossos pais por herança esta lamentável condição, e porque não podeis deixar em dote a vossos filhos condição diferente desta!

Francisco pertencia – é verdade – á classe dos almocreves; mas tinha seu cavalo, que não era qualquer, antes pelo contrario, era passeiro, carregava baixo e esquipava tão maciamente que quem nele ia, levava a ilusão de que era conduzido e embalado em uma rede.

Entremeava o oficio de almocreve com o de trabalhador de campo. Tinha mesmo plantações, posto que fracas.

Por felicidade sua casará com Marcelina, cabocla ainda nova das proximidades da Alhandra, trabalhadeira poupona e ajuntadeira, que com as escassas economias de suas industrias ajudava o marido a achar a felicidade no seio da pobreza, e guardava a idéia de libertar-se deste estado ás custas do seu esforço.

Tempos depois de mudado de Cruangi, onde ao principio morou, para o seu sitio do Cajueiro, nome que ficou pertencendo não só ao sitio mas ao lugar de que Francisco foi o fundador, teve ele umas maleitas tremedeiras na força de rigoroso inverno. A moléstia pegou-o desprevenido, sem vintém nem dez réis, como diz o povo – ilustre saibo que versa a ciência da linguagem com autoridade e propriedade que lhe invejam os sábios de maior conta.

Mas durante ela nunca lhe faltaram remédios nem dietas: Marcelina supria as faltas e a casa com admirável prontidão.

-

Donde lhe veio dinheiro para tudo isto? Perguntou uma vez Francisco á sua mulher.

E os cestos que laço não haviam de dar dinheiro? Respondeu-lhe ela com graciosa e móvel expressão. Veja estas rodilhas de cipó que comprei ontem. Chegam para uma dúzia de cestos. Logo que estiverem prontos, não há de faltar quem os queira. Os outros, que pendurei da banda de fora, não levaram uma semana a ser vendidos.

- Ora, Marcelina, disse o marido com manifesto pesar. Para que se cansa tanto? Eu quero muito bem a meu cavalo, mas vai um cavalo hoje, virá outro amanhã. Por isso sou de parecer que, em lugar de estar a trabalhar tanto para a casa, veja antes se alguém quer comprar o pedrez. Ele está em boas carnes e pôde achar bom dinheiro.

- Quem? O seu cavalo pedrez? Vende-lo? Não, senhor, que você precisia dele para quando ficar bom. Você mesmo bem sabe que um cavalo não vem assim tão depressa camo está dizendo. Não estamos ainda em ponto de vender o nosso único bem para remir as nossas necessidades, Deus louvado.

-

Deus mesmo havia sempre de ajudar-me a comprar outro.

Mas que necessidade temos nós de nos desfazermos do animalzinho? Só se eu estivesse doida o venderia. Deus me livre.

Não tinha medidas o amor que Francisco votava a Marcelina, exclusiva possuidora do seu coração.

Os matutos não casam por mera conveniência. Suas uniões, ordinariamente precoces, não deixam por isso, em regra, de ter o principal fundamento na estima reciproca daqueles que as contraem. Grandes desgraças têm procedido das junções prematuras, mas no mato não constituem a regra geral. Ao reverso, tais junções são principio de moralidade no lar e no povoado matuto, porque, despertando cedo no homem os afetos conjugais e paternais, enfreiam e moderam, antes das erupções naturais dos primeiros anos, as paixões juvenis, que, quando de todo soltas, têm arrojos inconvenientes e efeitos desastrosos.

A paixão que Marcelina inspirará a Francisco, se tinha serenado, como sucede a cabo de certo tempo a todos os sentimentos, ainda aos mais veementes e exaltados, não arrefecera, antes se apurara com as mil retribuições do coração da cabocla, nunca brandamente estremecido ou amorosamente agitado senão pelo matuto.

Mas a infelicidade é fatalmente na essência humana. Ainda no meio das mais intemeratas serenidades, a idéia de poder ser de um momento para outro desgraçado punge o homem e o faz reputar as venturas por ilusões, cujo principal efeito é aguar-lhe os gostos no melhor deles e entristece-lo, quando não na face – espelho da alma, na consciência – centro de muitas suspeitas que nascem e morrem ignoradas do mundo, como os musgos interiores das cavernas inacessíveis.

Marcelina podia ter a esse tempo de vinte e dois a vinte e cinco anos. O tipo caboclo estava nela representado com opulência e genuinidade. Tez abaçanada, cabelos corridos e pretos, olhos rasos e grandes, cara cheia e redonda, estatura abaixo da média, formas corretas, mãos e pés pequenos – eis o conjunto harmônico e admirável em que a raça a mostrava revestida.

Quando Marcelina batia sua roupa no banco que ficava debaixo da meia-agua de palha levantada por Francisco para resguardar do sol o poço algumas braças da casa de morada, os matutos, que passavam pelo caminho e a não conheciam, cravavam nela olhares cúpidos, e alguns ás vezes de lá lhe atiravam xêtas que ele fingia não ouvir, ou a que, se lhe parecia, dava em resposta um muxoxo ou um olhar de mofa e desprezo, pelos quais ficavam sabendo que a matuta não era do pano que eles supunham.

Muitos deles só retiravam os olhos de sobre ela quando tinham de dar a volta da estrada ou entrar na mata. A tazão era porque a saia, que Marcelina por essas ocasiões trazia a tiracolo pela enfiadura, lhe punha á mostra o principio da perna – monumento de estaturia que deixava adivinhar, mas não descobria, os vendados tesouros da perfeição de que a dotará, por especial capricho, a natureza, mãe tão pródiga para ela como mesquinha para tantas outras.

IV

Uma manhã Francisco, acordando, deu por falta da mulher.

Era muito cedo ainda para o serviço da casa, e fora estava chovendo. O mato, de seu natural sombrio e ermo, desprazia antes do que convidava naquele momento a quem não fosse obrigado a busca-lo por grande negocio.

No começo da trilha que ia ter á lagoa de presente mudada em terreno de lavoura, mas neste tempo com bastante água e oculta pelos matos que se levantavam, contornando-a em forma de semicírculo, no lugar onde acabavam as terras plantadas de abacaxis por Francisco, viu ele atirados a uma banda sobre as ervas os socos grosseiros que sua mulher usava em casa.

Pareceu-lhe claro que ela os tinha deixado ali para ter mais ligeiro e pronto o passo ao lugar aonde se dirigia.

Antes disso já tinha chamado por ela do lado da estrada; mas só teve em resposta o eco de suas próprias palavras.

Tendo agora a prova de que ela tomará direção oposta, cruel suspeita atravessou-lhe, sem o menor fundamento, o espirito, senão o coração, que sobressaltado transbordava inquietações e duvidas.

Sem olhar para seu estado de convalescença, Francisco, que viera da casa até ali abrigado da chuva pelas folhagens das laranjeiras e dos cajueiros novos do sitio, não hesitou mais um só momento e meteu-se pela trilha, que se lhe mostrava, agora mais do que nunca, em forma de serpente, pela planície afora. Não era grande a distancia que separava a lagoa da parte roçada; por isso, dai a pouco se achou ele por traz da renque de arvores que circulava a lagoa e pôde ter esta debaixo dos olhos, sem deixar a quem quer que fosse possibilidade para vê-lo.

Neste ponto parou Francisco, e poz-se a examinar com a vista de um lado para outro todo o espaço livre até aonde podia chegar a sua inspeção.

Ninguém estava ali. Sobre a lagoa a chuva fina caia em forma de fumo ou de névoa espessa. Os sapos coaxavam pela beira d’água, e os jaçanãs soltavam de dentro das moitas aquáticas suas risadinhas de som vibrante e agudo; tudo o mais era imobilidade e silencio.

Não tendo mais para onde ir, Francisco em cuja imaginação exaltada pela fraqueza física e pelos súbitos temores, se desenhavam cenas desesperadoras, não pôde acabar consigo que não chamasse novamente pela mulher.

A voz desprendeu-se-lhe irresistivelmente da garganta, e o som das palavras – Marcelina? Marcelina?

Repercutiu pela vasta solidão.

Imediatamente a seus olhos se mostrou uma visão cruel.

Acima dos juncos, que formavam vastos partidos dentro da lagoa, apareceu-lhe uma cabeça coberta com um chapéu de palha. Um homem estava ali e Marcelina não podia achar-se longe. Talvez já estivesse de volta.

Francisco sobresteve um momento imóvel, como estatua; mas notando que o madrugador tão depressa levantara a cabeça, como se abaixará e desaparecera no meio do juncal, mergulhou por entre as folhagens que o ocultavam, e saiu da outra banda no animo de ir por dentro da água até ao ponto onde se sumira o desconhecido.

Quando ia a atirar-se na água, a cabeça reapareceu a seus olhos, e uma voz, reboando por cima das aningas e dos juncos, foi levar-lhe aos ouvidos estas palavras, em grau de grito e em tom de repreensão:

-

Que vem cá fazer, Francisco? Você quer morrer?

Era a voz de Marcelina.

Tanto bastou para que ele não avançasse mais um só passo. Fixando a vista com mais serenidade, reconheceu no desconhecido sua mulher.

- E você que está fazendo ai metida, com esse tempo todo? Saia dai, que nem sabe os sustos que me causou com sua ausência.

-

Anda você sempre assustado, Francisco! Susto de que? Parece menino.

-

Saia já, que eu não posso apanhar chuva.

Agora já não pôde apanhar chuva. Há, instantinhos podia até meter-se na água da lagoa. Parece menino este meu marido. Já lá vou.

Momentos depois, Marcelina achava-se na margem, a saia a tiracolo, o chapéu de palha na cabeça, os pés descalços, a perna de fora, sobraçando um alentado feixe de juncos.

- Então acha que só devo trabalhar nos cestos e na limpa dos abacaxis? perguntou ela ao marido, logo que se achou em terra firme. Vim cortar estes juncos para fazer esteiras de cangalha. Estão dando muito em Goiana, segundo me disse ontem o compadre Victorino, que até me encomendou umas de que precisa.

Livre do peso que lhe oprimia o coração como se fora uma montanha, não teve Francisco para sua mulher demonstrações de desagrado nem rudes expressões, antes agradecido á sua solicitude, para a qual não havia solução de continuidade; seu semblante fez-se de boa sombra, e até um risosinho meigo e terno ensaiou o matuto satisfeito com esta nova manifestação do gênio essencialmente ativo e previdente daquela com quem repartia o peso da vida.

- Não estranho, Marcelina, disse-lhe ele brandamente. – que você, vendo-me no estado em que me acho, trate de suprir as faltas da casa aumentando o seu esforço e trabalhando por você e por mim. Mas por que razão não me há de dizer o que tem de fazer antes de entrar em obra? Que lhe custa isso? Se me tivesse dito o que vinha aqui fazer, eu não teria saído de casa com risco de recair, estando já quase bom.

- Para que está dizendo isso? Se eu lhe dissesse que vinha cortar juncos na lagoa, você não me deixaria vir. Eu bem o conheço, Francisco.

- Deixava. Porque não deixava? No que eu não vejo razão foi em esconder-se de mim, quando eu já a tinha visto.

- Cuidei que não me tinha visto, senão eu tinha logo aparecido. Eu disse comigo: Francisco, não me vendo, volta para casa, e deixa-me tempo de sair da lagoa nas costas dele.

-

Que lembrança esta, Marcelina! Então as ervas não haviam de declarar-me a verdade?

Ora! Eu podia dizer-lhe que as tinha comprado ao Manoel da Hora, como disse quando você perguntou donde tinham vindo os cipós.

-

E então os cipós também foram cortados por você na mata virgem?

Está bom, Francisco; fiquemos nisso. Você tudo quer saber. Vamos já para casa; Deus queira que não lhe voltem as malditas. Não satisfeito com apanhar esta chuva, ainda queria meter-se na água.

- Marcelina, você faz mal em andar assim só pelos matos. Para que faz isso, meu bem? As vezes aparecem por estas bandas, malfeitores. Ali dentro havia até bem pouco um couto dos negros fugidos do engenho. Quem sabe se não estão metidos lá ainda alguns que seu sargento-mór não pôde descobrir?

- Não se lembre disso, Francisco. Quem é que me há de ofender? Os negros? Eles não. Conheço todos e sei que gostam de mim, porque compro algumas coisas que trazem de seus mucambos. Vamos já, que a chuva está engrossando.

Assim falando, Francisco e Marcelina meteram-se por sob as folhagens, e com pouco estavam debaixo de coberta enxuta.

De outravez achava-se Francisco muito a seu salvo, limpando o seu partido de abacaxis, quando ouviu fortes bateduras na janela da casa.

Receando fosse alguma violência praticada pelos ditos negros, em quem ele, menos crédulo e simples do que sua mulher, não tinha a menor confiança, poz no ombro a enxada com que estava trabalhando e que, em caso de necessidade, serviria de arma contra os agressores, e tirou para a casa. Entrou ai agitado e perturbado.

-

Hoje voltou muito cedo do serviço – disse-lhe Marcelina.

- Vim correndo ver que pancadas eram estas. Cuidei que, tendo-se você trancado com medo dos negros, eles, não pensando que eu me achasse aqui por perto, estavam botando a porta abaixo. Você tem lembranças, Francisco!

Eis a causa dos estrondos, que assustaram o almocreve.

De há muito Marcelina batalhava com o marido para que lhe arranjasse uma taboa, de que dizia ter grande necessidade. Por esquecimento ou por não lhe sobrar tempo, o matuto estava ainda em falta para com ela.

Naquele dia Marcelina, que, quando tinha qualquer idéia que lhe parecia vantajosa, não descansava enquanto a não punha por obra, lembrou-se de um meio de realizar sua intenção, sem ser preciso o concurso do marido.

Não a porta, mas a janela da casa achou Francisco fora do seu lugar; só os portais tinham ficado na mesma posição que dantes. As dobradiças tinham sido mudadas para o batente inferior, a fim de que a porta, em vez de ser aberta pelo lado, o fosse pela parte superior, e de modo que, cravado da banda de dentro no chão um pau que chegasse ao nível do primeiro batente, formasse ela, descansando sobre a cabeça do dito pau, um como balcão que pudesse ser visto por quem passasse pela estrada. O fim de Marcelina, realizando esta mudança, era ter onde expor aos viandantes frutas, tapiocas e outros produtos do comercio domestico.

Esta pequena industria é muito praticada nos caminhos do norte. Quantas vezes, em minhas digressões pelas províncias de Pernambuco e Alagoas, não tive ocasião de chegar-me, montado em meu cavalo, ao pé da janela ou do balcão móvel da casinha pobre, onde se mostravam frutos frescos e sazonados, e de os comprar para neles me desalterar do calor do sol e do cansaço da jornada!

Não levou a mal Francisco a alteração que a mulher fizera na obra das mãos dele, antes aprovou, com elogios, a lembrança que lhe dava novo testemunho das faculdades industriais daquela que, como boa e fiel companheira, o ajudava a tornar fácil e digna a aquisição do pão custoso da pobreza.

-

Se me tivesse dito que a taboa que me pedia era para este fim, já eu a teria trazido da vila.

Gosto de fazer as minhas invenções sem dizer nada a ninguém, nem a você mesmo – respondeu Marcelina.

Vivia assim feliz, sem Ter coisa alguma que lhe causasse inquietação nem tristeza, aquele casal pobre, mas honrado e discreto, só pedindo a Deus que lhes desse chuva e sol nos tempos oportunos, para que o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, as batatas, os abacaxis não morressem alagados ou queimados, e que não lhes mandasse doenças graves que os privassem do trabalho, sua distração e prazer de todo dia.

Marcelina não ficava ai, levava ainda além o seu espírito empreendedor, a sua notabilíssima vocação para o pequeno comercio.

Criava porcos, galinhas, patos e perus. Nos tempos de festa os porcos ou eram vendidos por bom dinheiro na vila, ou ela os retalhava, e em sua casa expunha á venda a carne e o toucinho, sempre com tão boa cabeça que só lhe ficava a porção que reservava para seu próprio uso. As vezes, desta mesma parte fazia o picado e o sarapatel para vender aos matutos que eram perdidos por estas espécies de comidas.

Quando as criações estavam muito aumentadas, Francisco metia-as nas capoeiras, e ia vende-las em Goiana, importante centro comercial de toda aquela redondeza, como o Recife já o era de todo o norte por aqueles tempos.

Voltava de Goiana trazendo parte dos gêneros apurada em boa moeda, e a outra parte empregada em fazendas para uso da casa.

Enfim, a vida do almocreve, a vida do pequeno negociante das estradas e feiras, ninguém nem antes nem depois daquelas duas criaturas tão irmãs e amigas uma da outra, compreendeu melhor do que elas, nem talvez tão bem como elas, em suas especiais aplicações.

Causava a todos inveja e admiração a harmonia, a felicidade desses dois entes rudes, que dispensavam lições da gente civilizada para viverem com honra e conveniência e que da beira de um caminho deserto, do pé de uma mata, sem saberem ler nem escrever, davam edificativos exemplos de moral domestica, amor ao trabalho, e fé no Criador.

Não se pretende fazer nestas palavras a apologia da ignorância, nem a da pobreza, que são os dois maiores males da terra; o que deste rápido esboço de dois caracteres puros e respeitáveis se aspira a inferir é que o bom natural traz em se mesmo, como por instinto, a ciência da vida, e que o trabalho, ainda o mais humilde, é o primeiro meio de suprir as faltas da fortuna e vencer os defeitos da condição.

V

Foi para esse ninho de modesta felicidade e de paz nunca perturbada, que Francisco levou consigo o trêfego Lourenço, infeliz fruto de união reprovada, precozmente apodrecido nas dissoluções da povoação, pobre de instrução, rica porém de misérias e maus exemplos.