O Minimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota por Olavo de Carvalho - Versão HTML

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Olavo de

Carvalho

o mínimo

que você

precisa saber

para não ser

um idiota

ORGANIZAÇÃO

Felipe Moura Brasil

1ª edição

2013

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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Carvalho, Olavo de, 1947-

C321m

O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota [recurso eletrônico] / Olavo de Carvalho; organização Felipe Moura

Brasil. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Record,

2013.

recurso digital

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 9788501100597 (recurso eletrônico)

1. Jornalismo. 2. Comunicação de massa - Aspectos sociais 3. Redação de textos jornalísticos. 4. Livros eletrônicos. I. Brasil,

Felipe Moura. II. Título.

13-04078

CDD: 070.4

CDU: 070

Copyright © Olavo de Carvalho, 2013

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios,

sem prévia autorização por escrito. Proibida a venda desta edição em Portugal e resto da Europa.

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Direitos exclusivos desta edição reservados pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina, 171 – 20921-380 – Rio de Janeiro, RJ – Tel.: 2585-2000

Produzido no Brasil

ISBN 9788501100597

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Atendimento direto ao leitor:

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“Se você não é capaz de tirar de um livro consequências válidas para sua orientação moral no

mundo, você não está pronto para ler este livro.”

Olavo de Carvalho

Sumário

Nota do editor

Apresentação

O mínimo que você precisa saber sobre a idiotice, o autor e o livro

Felipe Moura Brasil

JUVENTUDE

O imbecil juvenil

Geração perdida

Jovens paranaenses

CONHECIMENTO

Desejo de conhecer

O poder de conhecer

Sem testemunhas

VOCAÇÃO

Vocações e equívocos

A mensagem de Viktor Frankl

Redescobrindo o sentido da vida

CULTURA

Espírito e cultura: o Brasil ante o sentido da vida

O orgulho do fracasso

A origem da burrice nacional

A fonte da eterna ignorância

POBREZA

Pobreza e grossura

Aprendendo com o dr. Johnson

Direitos e pobreza

Um paralelo entre Eric Voegelin e Lula

FINGIMENTO

Um capítulo de memórias

Cavalos mortos

Os histéricos no poder

DEMOCRACIA

De Bobbio a Bernanos

A metonímia democrática

Democracia normal e patológica — I

Democracia normal e patológica — II

Extremismo e vergonha

SOCIALISMO

1. Fatos x interpretações

Que é ser socialista?

Citações elucidativas

Lógica da canalhice

2. Socialismo x capitalismo

Ainda a canalhice

Confronto de ideologias?

A vitória do fascismo

MILITÂNCIA

1. Espiritualidade x fanatismo

A escolha fundamental

Psicologia do fanatismo

Ainda o fanatismo

2. Modelos x condutas

Causas sagradas

O paradoxo esquerdista

A autoridade religiosa do mal

REVOLUÇÃO

1. Globalismo

A revolução globalista

Onipresente e invisível

Lula planetário

Quem foi que inventou o Brasil?

História de quinze séculos

2. Manipulação

Guerras culturais

A elite que virou massa

Armas da liberdade

A demolição das consciências

Engenharia da complacência

Conduzidos à força

Da servidão hipnótica

3. Mentalidade

A mentalidade revolucionária

Ainda a mentalidade revolucionária

A ilusão corporalista

Ascetas do mal

A mentira estrutural

4. Sociedade x culpa

Direto do inferno

A fórmula para enlouquecer o mundo

Sociedade justa

Regra geral

5. Capitalistas x revolucionários

Capitalismo e Cristianismo

O bem e o mal segundo Olívio Dutra

Dinheiro e poder

6. Dinheiro x conhecimento

Vaidade mortal

A contracultura no poder

O suicídio coletivo dos ricos

Lembrem-se de Karl Radek

7. Revolucionários x mundo melhor

O único mal absoluto

A transfiguração do desastre

Até que enfim

8. Desmascaramento

A boa e velha língua dupla

Língua dupla e estratégia

Como debater com esquerdistas

INTELLIGENTZIA (MAS PODE CHAMAR DE MÁFIA)

1. Analfabetismo & glória

Tutto è burla nel mondo

Glórias acadêmicas lulianas

Frases e vidas

2. Povo & representação

Abaixo o povo brasileiro

O óbvio esotérico

Império do fingimento

3. Mídia & ocultação

Quem eram os ratos?

O preço do colaboracionismo

O maior dos perigos

Saudades da idiotice

É proibido parar de mentir

A técnica da rotulagem inversa

Os iluminados

4. Moralidade & inversão

Professores de corrupção

É proibido perceber

A reciclagem da ética

Aguardem o pior

A fossa de Babel

5. Universidade & farsa

Uma geração de predadores

A opção pela farsa

A vigarice acadêmica em ação

A verdadeira cultura negra

6. História & embuste

A História oficial de 1964

Resumo do que penso sobre 1964

O tempo dos militares e os dias de hoje

O ano em que o tempo parou

1968, o embuste que não terminou

7. Marxismo & vigarice

Devotos de um vigarista

O plano e o fato

Debilidades

8. Decadência

Saudades do jornalismo

Onde começou a queda

Da fantasia deprimente à realidade temível

9. Hospício

O Brasil falante

Gansos que falam

A revolução dos loucos

10. Conspiração

Teoria da conspiração

Falsos segredos

Credibilidade zero

EDUCAÇÃO

Jesus e a pomba de Stalin

Educação ao contrário

O futuro da boçalidade

O novo imbecil coletivo

Viva Paulo Freire!

Educando para a boiolice

INVEJA

Dialética da inveja

Da inveja mal confessada

Desprezo afetado

A ingenuidade da astúcia

ABORTO

Desejo de matar

Lógica do abortismo

Conversa franca sobre o aborto

CIÊNCIA

A ciência contra a razão

Sonhando com a teoria final

Por que não sou um fã de Charles Darwin

RELIGIÃO

1. Fé x ideologia

O testemunho proibido

Do mito à ideologia

Como ler a Bíblia

2. Perseguição x silêncio

Para além da sátira

A guerra contra as religiões

Maquiadores do crime

Má conselheira

A briga que ninguém quer comprar

Cem anos de pedofilia

LINGUAGEM

1. Literatura x língua de pau

Longa noite

A palavra-gatilho

Figuras de linguagem

2. Escritores x fingidores

Literatura do baixo ventre

Coisas sérias

Conversa sobre estilo

DISCUSSÃO

A origem das opiniões dominantes

Debatedores brasileiros

Debate e preconceito

Zenão e o paralítico

Barbárie mental

PETISMO

1. Lula

Louvores à mancheia

Bondade mesquinha

Lula, réu confesso

Ato de rotina

2. Tradição & estratégia

Nada de novo

Excesso de delicadeza

A engenharia da desordem

Como sempre

Depois do mensalão

FEMINISMO

Breve história do machismo

A era dos masturbadores

A técnica da opressão sedutora

GAYZISMO

Ódio à realidade

Consequências mais que previsíveis

Já notaram?

Psicólogos e psicopatas

CRIMINALIDADE

1. Fomentação

A longa história do óbvio

Primores de ternura — 1

Primores de ternura — 2

2. Terrorismo & narcotráfico

Não quero citar nomes

Queremos ser repudiados

Um discurso dos demônios

Pensando com a cabeça de George Soros

DOMINAÇÃO

Os donos do mundo

O que está acontecendo

Quem manda no mundo?

EUA

1. Bush

A desvantagem de ver

Em nome dos cadáveres

Avaliando George W. Bush

2. Obama

Os pais da crise americana

O advento da ditadura secreta

Fugindo da humilhação

O erro dos birthers

O Fome Zero de Obama

O império das puras coincidências

Salvando o triunvirato global

Velho truque

Pensando como os revolucionários

Desarmando as criancinhas

Armados e desarmados

LIBERTAÇÃO

Autoexplicação

Idiotas reciclados

Cumprindo meu dever

Por que não sou liberal

ESTUDO

A tragédia do estudante sério no Brasil

Se você ainda quer ser um estudante sério...

Pela restauração intelectual do Brasil

Espírito e personalidade

Sites

Nota do editor

O leitor encontrará, ao longo deste livro, três tipos de nota: do Autor, do Organizador e do Editor.

Somente as do primeiro, em grande parte bibliográ cas, são de rodapé, bem como as que servem ao texto

de apresentação.

Porque, de modo geral, mais caudalosas, as notas do Organizador e do Editor — com informações e

esclarecimentos relevantes, bibliogra a complementar e fragmentos de escritos de Olavo de Carvalho não

incluídos neste volume — estão concentradas ao final de cada capítulo.

Apresentação

O mínimo que você precisa saber sobre a idiotice, o autor e o livro

A idiotice

Em grego, idios quer dizer “o mesmo”.

Idiotes, de onde veio o nosso termo “idiota”,

é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo,

que julga tudo pela sua própria pequenez. *

Olavo de Carvalho

Você conhece pessoalmente algum idiota?

Só de ler a pergunta, talvez já lhe tenham vindo um ou dois à cabeça. Eu mesmo, enquanto escrevo,

estou pensando em vários. Quem não conhece, não é? Que os idiotas estão por aí, creio estarmos todos

de acordo (você, eu, Platão, Sertillanges, Nelson Rodrigues — um timaço, o nosso). Vou passar para a

próxima pergunta.

O que você realmente faz para não ser um idiota, nem ser feito de idiota?

Bom, talvez esta seja um pouquinho mais difícil. Talvez você precise de um momento de re exão e

autoanálise. Se quiser, pode desviar os olhos do livro (eu costumo olhar para os pés) e pensar por mais

alguns segundos em suas atividades anti-idiotice. Pensou?

Agora confesse: você já se fez essa pergunta antes? Sim? Não? Inconscientemente? Formulada de

outra maneira? Ok.

Mas alguma vez, ou agora, você respondeu a si mesmo, por exemplo, que estuda as estratégias dos

canalhas? Seus métodos? Suas técnicas de manipulação? Suas ocultações? Seu legado no ambiente

cultural?

Diga-me: como você pretende não ser um idiota, nem ser feito de idiota, se você pouco ou nada sabe

sobre a história e os avanços da canalhice?

Sim: os avanços. A canalhice é a ciência mais avançada do mundo atual — opera em escala global,

inclusive — e o seu resultado é justamente a multiplicação de idiotas que jamais se dão conta de sê-lo.

Lembre-se:

Os pequenos canalhas se aproveitam da idiotice pronta. Os grandes a fabricam.

Nelson Rodrigues já alertava: “O mundo só se tornou viável porque antigamente as nossas leis, a

nossa moral, a nossa conduta eram regidas pelos melhores. Agora a gente tem a impressão de que são os

canalhas que estão fazendo a nossa vida, os nossos costumes, as nossas ideias. Ou são os canalhas ou são

os imbecis, e eu não sei dizer o que é pior. Porque você sabe que são milhões de imbecis para dez sujeitos

formidáveis. ”**

Se estou chamando você de idiota? Claro que não. Estou convidando você a escapar desse estado,

ainda que futuro, conhecendo para isso, entre outras coisas, a in uência de canalhas (ou imbecis) sobre

“a nossa vida, os nossos costumes, as nossas ideias”, “as nossas leis, a nossa moral, a nossa conduta”,

através da obra de um (hum) sujeito formidável, que vale por dez.

Estou convidando você a enxergar não além, mas muito além do seu umbigo (e em benefício dele),

ampliando a sua imaginação para conceber uma realidade in nitamente mais complexa (embora aqui

mastigadinha, como se pode ver pelo índice) do que qualquer idiota supõe existir.

É melhor ser persuadido do que ser manipulado.

“Ninguém, hoje em dia”, escreve Olavo de Carvalho, “pode se dizer um cidadão livre e responsável,

apto a votar e a discutir como gente grande, se não está informado das técnicas de manipulação da

linguagem e da consciência, que certas forças políticas usam para ludibriá-lo, numa agressão mortal à

democracia e à liberdade. ”***

Em outras palavras:

Você não precisa ser um gênio. Mas convém descobrir qual é O mínimo que você precisa saber para

não ser um idiota.

O autor

É um grande sinal de mediocridade elogiar sempre moderadamente.

Leibniz

Olavo de Carvalho é uma inteligência demolidora.

Você vem com a frase feita, ele vem com a britadeira. Você vem com o re exo condicionado, ele vem

com o tratamento de choque. Você vem com o senso comum, ele vem com a história universal.

Para cada ideia compactada em slogan, ele tem um unzip terapêutico. Para cada cretinice repetida

pelo processo inconsciente de copy and paste, ele tem um arsenal de rastreadores que localizam a fraude

na origem, não sem revelar o seu percurso.

Como um educador de verdade, Olavo dinamita o mal que paralisa a sua inteligência e oferece as

ferramentas com as quais você pode erguê-la, deixando claro que não fará isso por você, porque a

educação é uma conquista pessoal.

“Educação”, ensina ele, “vem de ex ducere, que signi ca levar para fora”, exatamente o contrário do

que se costuma fazer no Brasil, onde o simples diálogo entre pessoas de áreas pro ssionais ou “tribos”

distintas tornou-se, senão impossível, no mínimo deprimente.

Se as universidades formam habitantes de cada departamento, Olavo orienta você a ser um habitante

da cultura. Se as escolas fabricam um exército de militantes, Olavo indica o caminho para voltar a ser

gente, de preferência madura. Se a mídia encobre a realidade com eufemismos, Olavo alfabetiza você de

novo, chamando as coisas pelo nome, doa a quem doer. Se o empresariado dá provas de ódio ao

conhecimento, Olavo dá receitas de como alcançá-lo, incutindo ao mesmo tempo este desejo. Se o

ambiente visual urbano torna o essencial indiscernível do irrelevante, Olavo conduz você pela selva,

enquanto vai ordenando o caos. Se o acesso a lazeres e prazeres ilimitados infunde nas pessoas um

sentimento de culpa traiçoeiro, Olavo mostra com quantos sacrifícios se restitui a sanidade, em prol de

uma felicidade duradoura.

Tudo com o mais autêntico bom humor. Tudo com o mais envolvente dos estilos.

Seja em livros, artigos de jornal, apostilas de curso, aulas, vídeos ou programas de rádio, Olavo une a

linguagem popular à alta cultura, no todo e nas partes, variando apenas, de acordo com o formato, a

intensidade de cada uma, mas sempre com o poder de educar e divertir ao mesmo tempo os seus

milhares de leitores, ouvintes e alunos, e com a coragem de expor ao ridículo a quadrilha de

“intelectuais” que corrompe o país.

É um homem de fé, sem dúvida. “A fé”, dizia José Ingenieros, “se con rma no choque com as

opiniões contrárias; o fanatismo teme vacilar diante delas e intenta afogá-las, enquanto agonizam suas

velhas crenças”. ****

Incapazes de manter suas ideias de pé no choque com as opiniões e argumentações demolidoras de

Olavo, seus adversários tentam afogá-las, marginalizá-las e xingá-las — não raro ngindo-se alvos de

insultos injusti cados ou afetando superioridade à base de risadinhas — no intuito de afastar o público

do mais breve contato com o autor.

Se você quiser obedecer ao comando e maldizê-lo sem ler ou fugir, fique à vontade.

Olavo de Carvalho não é para frouxos.

O livro

Regra: a busca da perfeição não é nada se não for inseparável

da necessidade de difundir todo o bem que se possui.

Louis Lavelle

Este livro é fruto espontâneo dos meus estudos da obra de Olavo de Carvalho e da necessidade

incontornável de divulgá-la aos amigos, parentes, leitores e brasileiros em geral, da maneira que julgo

mais objetiva, educativa e contundente para despertar suas inteligências e orientá-los em questões

fundamentais da existência e da convivência humanas, sem deixar de mostrar como o ambiente cultural

do país e a canalhice global interferem em cada uma.

Dado o abismo cada vez maior entre o universo midiático-educacional e a realidade, e portanto entre

o povo exposto às classes falantes e os verdadeiros sábios, as recomendações de leituras esparsas via e-

mail ou link nas redes sociais, muito embora importantes, não me pareciam su cientes para cumprir

estes objetivos, de modo que tratei de montar um material ao mesmo tempo consistente e abrangente que

eu pudesse atirar no colo das pessoas ao meu redor, sobretudo as mais dispostas a discutir o que não

estudaram, e dizer:

“Toma. Sem isto aqui, não dá nem para começar a conversar.”

Sim. É verdade que Olavo de Carvalho publicou outros livros extraordinários, que também devem ser

lidos por quem queira avançar na vida intelectual, mas nenhum deles facilita tanto a vida do leitor

comum — leigo ou iniciante em assuntos políticos e técnicas losó cas — quanto este, do qual só não se

pode dizer que o pega pela mão porque seria mais correto dizer que o pega pela orelha, não sem lhe dar

umas boas e merecidas palmadas por ter vivido tanto tempo como um bichinho, sem saber que diabos

está acontecendo.

Se “a suprema alegria de um professor (...) é a de poder abrir a seus alunos um horizonte bem maior

que a circunferência de um prato de lentilhas”, ***** a do organizador de sua obra é torná-la ainda mais

atraente e acessível ao grande público, em prol da formação de uma elite pensante não apenas capaz de

distinguir um prato de lentilhas de todo o legado da cultura universal, mas também de perceber que a

absorção deste último pode ser bem mais nutritiva.

Em busca deste resultado, nada mais natural do que recorrer aos artigos jornalísticos de Olavo de

Carvalho, chamarizes instigantes de uma obra quase inabarcável e sob o impacto dos quais muitos de

seus leitores — os menos frouxos, modéstia à parte — saem em busca de suas aulas, descobrindo, então,

as dimensões in nitamente maiores da sabedoria do lósofo — para muito além, é claro, da caricatura

que dele fazem seus adversários políticos e do próprio rótulo de “polemista”, quase sempre usado no

Brasil para rebaixar quem exibe provas, documentos e análises lógicas irrefutáveis a um nível igual ou

inferior ao daqueles que fazem discurso histérico-militante. Na maior parte dos casos, a polêmica está

nos olhos de quem não lê.

Este livro, no entanto, não é uma simples compilação de artigos, mas sim uma compilação de temas

essenciais — todos eles renegados à obscuridade no país —, sobre os quais os artigos vêm lançar luz,

importando para a seleção menos a data e o veículo em que foram publicados do que o potencial de cada

um em iluminar esses temas, ainda que, em favor da abrangência, eu tenha priorizado os mais sintéticos

entre os milhares que reli ou descobri durante este trabalho, enquanto me perdia, como tantos leitores,

ouvintes e alunos, nas páginas virtuais do site de Olavo de Carvalho.

Tratei, pois, não apenas de organizar aquele empilhamento sem m de textos, mas de resgatar na obra

jornalística recente e antiga do autor o que ela tem de atemporal, de ferramenta útil à compreensão da

realidade em outras circunstâncias para além daquelas das quais cada texto emergiu, não sem a intenção

de exempli car o quanto o jornal também é, ou deveria ser, um espaço para análises capazes de

sobreviver ao tempo — e até de prever, com acerto, uma in nidade de acontecimentos —, sendo bem

mais do que o simples comentário das notícias da semana. Não é porque a notícia envelhece, a nal, que

a reflexão correspondente deve envelhecer junto.

Se há (e garanto: como há!) uma di culdade em agrupar textos de Olavo de Carvalho por temas para

ns editorais, isto se deve não à obsolescência deles, mas, pelo contrário, ao fato de o autor buscar

sempre a unidade por trás das manifestações isoladas e os fundamentos por trás das discussões públicas,

o que torna cada texto seu um amálgama (duradouro) dos elementos mais díspares, entre os quais só um

organizador irresponsável (ou obsessivo) como eu ousaria procurar um o condutor interno e comum a

outros textos, capaz de justi car o nome e a composição de capítulos e seções — uma raridade

compreensível, aliás, em seus livros, cujas seleções costumam ser justi cadas apenas pelo título geral da

obra e limitadas aos artigos recentes.

De todo modo, como os textos de Olavo de Carvalho são sobre tudo e mais alguma coisa, cada

capítulo deste livro contém um tanto dos temas de outros; e, portanto, nenhum se esgota em si mesmo,

mas sim fornece a base mínima para a compreensão dos demais. Por exemplo: como falar de Cultura

sem falar de Conhecimento? Pior: como falar de Obama sem falar de Mídia, Ocultação e Manipulação?

No entanto, há seções ou capítulos isolados com cada um (ou dois) desses nomes, podendo o leitor

recorrer às suas especi cidades para entender melhor o todo, sem deixar de ter alguma visão do todo

dentro de cada um.

Se seguir a ordem é importante? Sim e não. Ela tem decerto um propósito, qual seja, o de guiar o

leitor a partir das questões individuais de formação da personalidade, de busca da sinceridade, do

sentido da vida e do conhecimento, de obtenção enfim das ferramentas mentais e morais necessárias para

não ser um idiota, para depois introduzi-lo gradativamente (ou violentamente, dependendo do caso) em

problemas culturais, sociais, políticos e intelectuais, cujos efeitos sobre a sua visão de mundo, a sua

psique e as suas ações são bem maiores do que ele (você?) talvez imaginasse antes.

Por viver no Rio de Janeiro (e no Facebook), entre inúmeras pessoas que só de ouvir a palavra

“política” saem correndo desinteressadas do que quer que se diga depois, quisera eu ter empurrado para

o m — ou para fora — deste livro as partes referentes a ela, mas a culpa não é minha nem de Olavo de

Carvalho se a politização de tudo, da linguagem à vida humana, foi e é instrumento e causa da

idiotização geral, da qual já não se pode escapar sem entender minimamente a atuação dos grupos que

disputam ou monopolizam o poder, manipulando e demolindo as consciências. Se o capítulo Revolução,

portanto, vem antes de Educação, Religião e Linguagem, por exemplo, é porque já não se pode

compreender o estado destas sem compreender o estágio daquela.

Contudo, convém ressaltar: este é um livro educativo; não didático. O leitor seguramente encontrará

pelo caminho referências a questões que só serão examinadas em detalhe mais adiante — ou mesmo fora

do livro, posto que seu objetivo também é servir de convite à obra do autor —, de modo que pode usar e

abusar da liberdade de escolher a sua própria ordem de leitura e até os temas de sua predileção, como se

estivesse diante de uma minienciclopédia carvalheana, eterna fonte de consultas para esclarecimentos

variados.

Se, em vez de encher o índice de descrições, usei apenas uma palavra (Vocação; Inveja; Democracia)

para nomear os capítulos, e uma ou duas — ora em par (como Analfabetismo & glória; História &

embuste), ora em oposição (como Sociedade x culpa; Revolucionários x mundo melhor) — para as

seções, não é (só) porque sofro de TOC literário (e você não imagina com que dor me rendi ao

famigerado “mundo melhor”, composto por abomináveis duas palavrinhas em vez de uma), nem (só)

porque quero atrair o maior número de leitores, mas pelo simples fato de que, salvo algum novo padrão

revolucionário de conduta, ninguém vai a um restaurante (nem a um bordel, soprou-me o diabo) para

comer o cardápio. Quanto mais preciso e visual ele for, creio, mais favorecerá o apetite — agora e para

sempre.

De resto, só a assimilação do conteúdo fará o leitor notar que Gayzismo, por exemplo, não é, no

mundo real, um capítulo isolado como é no livro; mas se alguns temas não vêm dentro de outros que o

englobam ou que lhe deram origem, é justamente pelo motivo citado, isto é: eu não quis transformar o

índice em uma árvore genealógica mais complexa do que já é, incluindo itens como o 3.7.4.2 da seção

5.6.1 do capítulo 8 parte B; muito menos deixar metade do livro dentro do capítulo Revolução. Ou seria

Criminalidade?

Jorge Luis Borges escreveu em O Aleph: “O que viram meus olhos foi simultâneo; o que transcreverei,

sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei.” Olavo de Carvalho, como Borges, vê tudo

simultaneamente na realidade, transcreve de forma sucessiva em cada texto — embora muitos pareçam

em 3-D —, e eu, contando que o leitor vai tirar conclusões menos do índice do que da leitura do livro,

organizo-os de forma sucessiva, também, por seções e capítulos. Algo, entretanto, registraremos.

Neste “algo”, estará decerto o analfabetismo funcional e moral das classes falantes, tema recorrente na

obra do autor e no presente livro, ainda que este não seja uma documentação, como o best seller O

imbecil coletivo, ****** da “redução da vida intelectual a megafone de interesses partidários” *******

através da análise do discurso de seus representantes. Digo isto para o caso de leitores descon ados ou

mal-intencionados não encontrarem nesta compilação — temática, repito — prova su ciente de que o

sistema de ensino e os meios de comunicação brasileiros foram quase inteiramente ocupados pela

pseudointelectualidade esquerdista, já que aqui a prioridade é, além de descrever o quadro geral,

oferecer, em doses homeopáticas, os meios de descontaminação moral e linguística de seus venenos

idiotizantes.

Da juventude à maturidade, do ngimento à sinceridade, da economia à cultura, da ciência à

religião, da linguagem à discussão, da militância à vocação, do regime militar ao petismo de Lula e

Dilma, do governo de George W. Bush ao de Barack Hussein Obama (passando pela Guerra do Iraque e

pela crise nanceira americana), da democracia à ditadura mundial, do capitalismo ao socialismo — de

tudo a mais um pouco, en m, não há tema obscuro que os donos do microfone não obscureçam ainda

mais. E não há melhor antídoto para o provincianismo mental brasileiro do que ler Olavo de Carvalho.

Este livro, cuja gestação também me serviu de automedicação, é, portanto, uma tentativa dupla: a de

organizar o saber — “condição mais óbvia para o desenvolvimento da inteligência”, segundo Olavo — e a

de compartilhá-lo, a m de “levar para fora” o leitor e consolidar aquilo que o nosso maior lósofo e

educador definiu em “Espírito e cultura: o Brasil ante o sentido da vida”:********

Acontece que a esse impulso fundamental [para o conhecimento] corresponde um outro, derivado mas não menos forte: aquele que

leva o homem que entreviu a ordem e o sentido a desejar repartir com os outros homens um pouco daquilo que viu. Não há

certamente maior benefício que se possa fazer a um semelhante: mostrar-lhe o caminho do espírito e da liberdade, pelo qual ele pode

se elevar a uma condição que, dizia o salmista, é apenas um pouco inferior à dos anjos. Tal é, substancialmente, a forma concreta do

amor ao próximo: dar ao outro o melhor e o mais alto do que um homem obteve para si mesmo. Amamos o nosso próximo na

medida em que o elevamos à altura dos anjos. Fazemos-lhe o mal quando o rebaixamos à condição de bichinho, seja com maus-

tratos, seja com afagos.

Nessas duas exigências está contida, dizia Cristo, toda a lei e os profetas.

Neste livro está contido, digo eu, um pouco do melhor e do mais alto que obtive para mim mesmo.

Eu vi Olavo de Carvalho. E agora o reparto com você, leitor, na esperança de que também se afaste da

condição de bichinho e se eleve à altura dos anjos.

Se eu acho que você deve agradecer a mim, à Editora Record e a quem lhe indicou ou deu de presente

este livro por tamanho gesto de amor?

“Ora porra!”, como diria Olavo.

Sem dúvida que sim.

Felipe Moura Brasil

www.felipemourabrasil.com.br

Notas

* Trecho do artigo “Professores de corrupção”, presente no capítulo Intelligentzia deste livro.

** Trecho da entrevista concedida pelo dramaturgo à revista Playboy, em novembro de 1979.

*** Trecho do artigo “Da servidão hipnótica”, presente no capítulo Revolução deste livro.

**** Ingenieros, José. O homem medíocre. São Paulo: Ícone Editora, 2006.

***** Carvalho, Olavo de. A dialética simbólica. São Paulo: É Realizações, 1997.

****** São Paulo: É Realizações, 1996.

******* Ver o artigo “Onde começou a queda”, no capítulo Intelligentzia.

******** Texto presente neste livro, no capítulo Cultura.

JUVENTUDE

O imbecil juvenil

Jornal da Tarde, São Paulo, 3 de abril de 1998

Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude

como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada

nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me

impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o

temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria

cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neó to

no grupo dos sujeitos bacanas.

O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo

estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho,

um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a

vencer.

Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as

complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com

desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos

companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a

mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes,

dos mais descarados, que se a rma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado,

impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a

quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva

aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da

mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que exibilidade, capacidade

de amoldar-se aos caprichos da maioria — a supressão, em suma, da personalidade.

É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de

um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, a nal, o mundo, o mundo

grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso

custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de

olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em

geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo

de aprendizado é sempre a imitação — literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo

juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que fala

René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente

desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.

Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico,

termine por levar o jovem à completa exasperação, impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu

ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de

trans gurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o

rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de

todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa

que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam.

Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo

como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas

maldades da horda que tudo lhe exige.

Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo

pelo mais fraco que o ama.

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em

trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação,

das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre

a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos

lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e

perversidades do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudorreligiosas, consumo de drogas.

São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.

Um mundo que con a seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já

não tem futuro algum.

Geração perdida

Jornal da Tarde, São Paulo, 3 de agosto de 2000

Hyppolite Taine conta que, aos 21 anos, vendo-se eleitor, percebeu que nada sabia do que era bom ou

mau para a França, nem das ideologias em disputa na eleição. Absteve-se de votar e começou a estudar o

país. Décadas depois, vieram à luz os cinco volumes das Origines de la France Contemporaine (1875),

um monumento da ciência histórica e um dos livros mais esclarecedores de todos os tempos. O jovem

Taine não votou, mas o Taine maduro ajudou muitas gerações, na França e fora dela, a votar com mais

seriedade e conhecimento de causa, sem deixar-se iludir pelas falsas alternativas da propaganda imediata.

Saber primeiro para julgar depois é o dever número um do homem responsável — dever que o voto

obrigatório, sob a escusa de ensinar, força a desaprender.

Taine foi muito lido no Brasil, e seu exemplo deu alguns frutos. Entre os que tiveram seu caminho de

vida decidido pela in uência dele contou-se o jovem Affonso Henriques de Lima Barreto. Ele aprendeu

com Taine que as coisas podem não ser o que parecem. Como romancista, ele xou a imagem da

ambiguidade constitutiva das atitudes humanas no duelo de personalidades do major Quaresma com

Floriano Peixoto, onde o passadista se revela um profeta e o progressista um ditador tacanho e cego. Mas

a mensagem dessa história, ainda que consagrada pelo cinema, não se impregnou na mente das novas

gerações. Talvez não venha a fazê-lo nunca, precisamente porque, amputada da ética taineana da

prioridade do saber, que lhe serve de moldura, ela se reduz a uma observação casual que pode ser

dissolvida numa enxurrada de lugares-comuns. Hoje, de fato, raramente se encontra um jovem que não

queira, antes de tudo, “transformar o mundo”, e que, em função desse parti pris, não adie para as

calendas gregas o dever de perguntar o que é o mundo.

Sim, no Brasil, cultura e inteligência são coisas para depois da aposentadoria. Quando todas as

decisões estiverem tomadas, quando a massa de seus efeitos tiver se adensado numa torrente irreversível e

a existência entrar decisivamente na sua etapa nal de declínio, aí o cidadão pensará em adquirir

conhecimento — um conhecimento que, a essa altura, só poderá servir para lhe informar o que deveria

ter feito e não fez. Antevendo as dores inúteis do arrependimento tardio, ele então fugirá instintivamente

do confronto, abstendo-se de julgar sua vida à luz do que agora sabe.

Embalsamado num nicho de diletantismo estético, o conhecimento perderá toda a sua força

iluminante e trans guradora, reduzindo-se a um penduricalho inócuo, adorno inofensivo de uma

velhice calhorda. Eis onde termina a vida daquele que, na juventude, em vez de esperar até compreender,

cedeu à tentação lisonjeira do primeiro convite e se tornou um “participante”, um “transformador do

mundo”.

Eu também caí nessa, mas tive a sorte de minha carreira de transformador do mundo ser detida, logo

no início, por uma chuva de perplexidades paralisantes que me forçaram a largar tudo e a ir para casa

pensar. Acossado de perguntas que ultrapassavam minha capacidade de resposta, fui privado, pelo bom

Deus, da oportunidade de tentar moldar o mundo à imagem da minha própria idiotice.

Mas essa sorte é rara. O Brasil é o país do gênio prematuro, degradado em bobalhão senil logo na

primeira curva da maturidade. Quando contemplo esse circo decrépito da revista Bundas, 1 onde cômicos

enferrujados se esforçam para repetir as performances de trinta anos atrás, que na sua imaginação

esclerosada se petri caram em emblemas estereotipados de “vida” e “juventude”; quando, lendo Caros

Amigos, vejo homens de cabelos brancos se esfalfando para recuperar sua imagem idealizada de patota

juvenil dos “Anos Dourados”, não posso deixar de notar que em todas essas pessoas que falam em nome

do futuro o sentimento dominante é a saudade de si mesmas. Não falta a esses indivíduos a consciência

de que suas vidas falharam. Mas atribuem a culpa aos outros, ao governo militar que impediu sua

geração de “chegar ao poder”. No entanto, a desculpa é falsa, porque, mal ou bem, eles estão no poder.

Eram jovens militantes, hoje são deputados, são catedráticos, são escritores de sucesso, são formadores de

opinião. Por que, então, lambem com tanta nostalgia e ressentimento as feridas da sua juventude

perdida? É porque foi perdida num sentido muito mais profundo e irremediável que o da mera derrota

política. E agora é tarde para voltar atrás.

Jovens paranaenses

Folha de Londrina, 26 de abril de 2003

Num livro já antigo, Wilson Martins escreveu que o Paraná era “um Brasil diferente”. Tenho

comprovado isso, repetidamente, desde que comecei a dar aulas neste estado, dois ou três anos atrás. Os

brasileiros de hoje são tagarelas e preguiçosos: não estudam nada e opinam sobre tudo. Os estudantes

paranaenses são notavelmente mais humildes e interessados em aprender.

A importância da humildade no aprendizado já era enfatizada, na Idade Média, por Hugo de São

Vítor, um dos maiores educadores de todos os tempos. Humildade signi ca, no fundo, apenas senso do

real. O culto universal da juventude obscureceu essa verdade óbvia a ponto de que todo mundo já acha

natural esperar que, aos 15 ou 18 anos, um sujeito tenha opiniões sobre todas as coisas e,

miraculosamente, elas estejam mais certas que as de seus pais e avós. O resultado dessa crença

generalizada é desastroso: todos os movimentos totalitários e genocidas dos últimos séculos —

comunismo, nazismo, fascismo, radicalismo islâmico etc. — foram criações de jovens, e sua militância foi

colhida maciçamente nas universidades.

O culto da juventude traz, como um de seus componentes essenciais, o desprezo pelo conhecimento:

se ao sair da adolescência o sujeito já traz na cabeça todas as ideias certas, para que continuar

estudando?

No Brasil, esse preconceito arraigou-se tão fundo, que já parece impossível extirpá-lo. O efeito disso é

que milhões de jovens, incapacitados para perceber as mais óbvias realidades, se creem investidos do

direito divino de julgar todas as coisas, homens e fatos. Além do conhecimento, falta-lhes às vezes até

aquele mínimo de integração da consciência, sem o qual um sujeito não pode sequer argumentar de

maneira razoável. Sua pretensão arrogante contrasta tão deploravelmente com a sua falta de recursos

intelectuais que nenhum educador dotado de bom senso se aventuraria a lhes ensinar o que quer que

fosse.

Raríssimos estudantes, hoje em dia, sabem distinguir princípios gerais de tomadas de posição sobre

acontecimentos especí cos. Adotam uma opinião sobre isto ou aquilo, sobre o homossexualismo, sobre a

guerra no Iraque, e fazem dela imediatamente um princípio universal, extraindo-lhe conclusões que

desmentem os próprios princípios da lógica ou do direito nos quais, não obstante, continuam se

baseando para raciocinar sobre tudo o mais. A “autodeterminação dos povos”, por exemplo, é usada

para justi car a soberania de Saddam Hussein, ao mesmo tempo que se deixa de aplicá-la à minoria

curda, sendo quase impossível mostrar ao falante que há aí uma contradição. Em casos como esse, uma

opinião política singular se sobrepõe de tal modo aos princípios fundantes do próprio raciocínio que uma

pessoa neurologicamente normal acaba tendo o desempenho cerebral de um mongoloide. Outro dia

encontrei na internet um site de jovens homossexuais que demonizavam os EUA, terra de promissão do

movimento gay, e defendiam entusiasticamente as ditaduras islâmicas, nas quais o homossexualismo é

crime punido com a morte. Na antiga retórica greco-latina, isso chamava-se “argumento suicida”, como

no caso de um judeu que zesse propaganda nazista. O argumento suicida era tão raro que os manuais

de retórica mal o citavam. Hoje em dia, tornou-se a coisa mais comum do mundo e, nas falas de

estudantes brasileiros, quase um paradigma. Os exemplos que citei são só dois entre milhares. Quanto

mais lisonjeada por pais e educadores, mais a juventude se torna estúpida e incapaz, anunciando uma

maturidade de ressentidos, fracassados e invejosos.

Tenho me defrontado com esses tipos no Brasil inteiro, mas garanto: entre os estudantes paranaenses

o número deles é bem menor.

Não sei como explicar esse fenômeno. Não conheço a história cultural do estado a ponto de arriscar

alguma hipótese. Apenas assinalo o fato e reconheço ver nele um raro sinal de que, para a cultura deste

país, nem tudo está perdido.

Nota

1. Nota do Organizador: A revista Bundas, uma sátira à revista Caras, foi lançada em junho de 1999 pela Editora Pererê. À frente da

iniciativa, que buscava retomar a linguagem despojada do antigo Pasquim, lançado trinta anos antes e extinto havia menos de dez, estava o

cartunista Ziraldo. Os colaboradores eram Luis Fernando Verissimo, Chico e Paulo Caruso, Frei Betto, Aldir Blanc e outros. Millôr

Fernandes se afastou logo nos primeiros números. Com a venda nas bancas diminuindo a cada semana e a falta de publicidade, a revista

teve de encerrar suas atividades em dezembro de 2000, após 77 edições e três almanaques especiais.

CONHECIMENTO

Desejo de conhecer

Diário do Comércio, 10 de janeiro de 2011

“É natural no ser humano o desejo de conhecer.” Quando li pela primeira vez esta sentença inicial da

Metafísica de Aristóteles, mais de quarenta anos atrás, ela me pareceu um grosso exagero. A nal, por

toda parte onde olhasse — na escola, em família, nas ruas, em clubes ou igrejas — eu me via cercado de

pessoas que não queriam conhecer coisíssima alguma, que estavam perfeitamente satisfeitas com suas

ideias toscas sobre todos os assuntos, e que julgavam um acinte a mera sugestão de que se soubessem um

pouco mais a respeito suas opiniões seriam melhores.

Precisei viajar um bocado pelo mundo para me dar conta de que Aristóteles se referia à natureza

humana em geral e não à cabeça dos brasileiros. De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos

compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento, acompanhado de um neurótico temor

reverencial aos seus símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia.

Observava-se essa característica em todas as classes sociais, e até mais pronunciada nas ricas e

prósperas. Qualquer ignorante que houvesse recebido em herança do pai uma fábrica, uma empresa de

mídia, um bloco de ações da Bolsa de Valores, julgava-se por isso um Albert Einstein misto de Moisés e

Lao-Tsé, nascido pronto e habilitado instantaneamente a ponti car sobre todas as questões humanas e

divinas sem a menor necessidade de estudo. Se houvesse lido alguma coisa no último número da Time

ou do Economist, então, ninguém segurava o bicho: suas certezas erguiam-se até as nuvens, imóveis e

sólidas como estátuas de bronze — sempre acompanhadas, é claro, das advertências céticas de praxe

quanto às certezas em geral, sem que a criatura notasse nisso a menor contradição. Caso faltassem os

semanários estrangeiros, um editorial da Folha supria a lacuna, fundamentando verdades inabaláveis

que só um pedante viciado em estudos ousaria contestar.

Dessas mentes brilhantes aprendi lições inesquecíveis: o comunismo acabou, esquerda e direita não

existem, Lula é um neoliberal, a Amazônia é o pulmão do mundo, o Brasil é um modelo de democracia,

a Revolução Francesa instaurou o reino da liberdade, a Inquisição queimou cem milhões de hereges, as

armas são a causa e ciente dos crimes, o aquecimento global é um fato indiscutível, 1 os cigarros matam

pessoas à distância, o narcotrá co é produzido pela falta de dinheiro, as baleias são hienas evoluídas e o

Foro de São Paulo é um clube de velhinhos sem qualquer poder.

Se continuasse a dar-lhes ouvidos, hoje eu seria reitor da Escola Superior de Guerra ou talvez senador

da República.

Longe do Brasil, encontrei enfermeirinhas, caixeiros de loja e operários da construção civil que, ao

saber-me autor de livros de loso a, arregalavam dois olhos de curiosidade, me crivavam de perguntas e

me ouviam com a atenção devota que se daria a um profeta vindo dos céus. Por incrível que pareça,

interesse e humildade similares observei entre potentados da indústria e das nanças, gurões da mídia e

da política. Até mesmo professores universitários, uma raça que no Brasil é imune a tentações cognitivas,

mostravam querer aprender alguma coisa.

Aristóteles tinha razão: o desejo de conhecer é inato. O Brasil é que havia falhado em desenvolver nos

seus lhos a consciência da natureza humana, preferindo substituí-la por um arremedo grotesco de

sabedoria infusa.

O poder de conhecer

O Globo, 4 de agosto de 2001

“Experimentai de tudo, e cai com o que é bom”, aconselha o apóstolo. Experiência, tentativa e erro,

constante re exão e revisão do itinerário — tais são os únicos meios pelos quais um homem pode, com a

graça de Deus, adquirir conhecimento. Isso não se faz do dia para a noite. “Veritas lia temporis”, dizia

São Tomás de Aquino: a verdade é lha do tempo. Não me venham com fulgurações místicas e intuições

súbitas. Que las hay, las hay, mas mesmo elas requerem preparação, esforço, humildade, tempo. Até

Cristo, no cume da agonia, lançou ao ar uma pergunta sem resposta. Por que nós, que só somos lhos de

Deus por delegação, teríamos o direito congênito a respostas imediatas?

O aprendizado é impossível sem o direito de errar e sem uma longa tolerância para com o estado de

dúvida. Mais ainda: não é possível o sujeito orientar-se no meio de uma controvérsia sem conceder a

ambos os lados uma credibilidade inicial sem reservas, sem medo, sem a mínima prevenção interior, por

mais oculta que seja. Só assim a verdade acabará aparecendo por si mesma. O verdadeiro homem de

ciência aposta sempre em todos os cavalos, e aplaude incondicionalmente o vencedor, qualquer que seja.

A isenção não é desinteresse, distanciamento frio: é paixão pela verdade desconhecida, é amor à ideia

mesma da verdade, 2 sem pressupor qual seja o conteúdo dela em cada caso particular.

Não há nada mais estúpido do que a convicção geral da nossa classe letrada de que não existe

imparcialidade, de que todas as ideias são preconcebidas, de que tudo no mundo é subjetivismo e

ideologia. Aqueles que proclamam essas coisas provam apenas sua total inexperiência da investigação,

cientí ca ou losó ca. Não dando valor à sua própria inteligência — porque jamais a testaram —

apressam-se em prostituí-la à primeira crença que os impressione, e daí deduzem, com demencial

soberba, que todo mundo faz o mesmo. Não sabem que uma aposta total no poder do conhecimento

bloqueia, por antecipação, todas as apostas parciais em verdades preconcebidas. Se o que está em jogo

para mim, no momento da investigação, não é a tese “x” ou “y”, mas o valor da minha própria

capacidade cognitiva, pouco se me dá que vença “x” ou vença “y”: só o que importa é que eu mesmo,

enquanto portador do espírito, saia vencedor. Nenhuma crença prévia, por mais sublime que seja o seu

conteúdo, vale esse momento em que a inteligência se reconhece no inteligível. Quem não viveu isso não

sabe como a felicidade humana é mais intensa, mais luminosa e mais duradoura que todas as alegrias

animais.

Infelizmente, a classe intelectual está repleta de indivíduos que não conhecem, da inteligência, senão o

seu aparato de meios — a lógica, a memória, os sentimentos, cada qual prezando mais um ou outro

desses instrumentos, conforme suas inclinações pessoais — mas não têm a menor ideia do que seja a

inteligência enquanto tal, a inteligência enquanto poder de conhecer o real. É impressionante como o

poder mesmo que de ne a atividade dessas pessoas — o intelecto — pode ser desprezado, ignorado,

reprimido e por m totalmente esquecido na prática diária de seus afazeres nominalmente intelectuais. O

culto da razão ou dos sentimentos, das sensações ou do instinto, da fé cega ou do “pensamento crítico”,

não é senão o resíduo supersticioso que sobra no fundo da alma obscurecida quando se perde o sentido

da unidade da inteligência por trás de todas essas operações parciais. A inteligência, com efeito, não é

uma função, uma faculdade em particular: é a expressão da pessoa inteira enquanto sujeito do ato de

conhecer. A inteligência não é um instrumento, um aspecto, um órgão do ser humano: ela é o ser

humano mesmo, considerado no pleno exercício daquilo que nele há de mais essencialmente humano.

Perguntaram-me uma vez, num debate, como de nia a honestidade intelectual. Sem pestanejar,

respondi: é você não ngir que sabe aquilo que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe

perfeitamente bem. Se sei, sei que sei. Se não sei, sei que não sei. Isto é tudo. Saber que sabe é saber; saber

que não sabe é também saber. A inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa

inteira no exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral. Daí que ela seja

também a base da integridade pessoal, quer no sentido ético, quer no sentido psicológico. Todas as

neuroses, todas as psicoses, todas as mutilações da psique humana se resumem, no fundo, a uma recusa

de saber. São uma revolta contra a inteligência. Revoltas contra a inteligência — psicoses, portanto, à sua

maneira — são também as ideologias e loso as que negam ou limitam arti ciosamente o poder do

conhecimento humano, subordinando-o à autoridade, ao condicionamento social, ao beneplácito do

consenso acadêmico, aos ns políticos de um partido, ou, pior ainda, subjugando a inteligência

enquanto tal a uma de suas operações ou aspectos, seja a razão, seja o sentimento, seja o interesse prático

ou qualquer outra coisa.

É claro que, para cada domínio especial do conhecimento e da vida, uma faculdade em particular se

destaca, ainda que sem se desligar das outras: o raciocínio lógico nas ciências, a imaginação na arte, o

sentimento e a memória no conhecimento de si, a fé e a vontade na busca de Deus. Mas, sem a

inteligência, o que é cada uma dessas funções, ou a justaposição mecânica de todas elas, senão uma

forma requintada de fetichismo? O que é uma imaginação que não intelige o que concebe, um

sentimento que não se enxerga a si mesmo, uma razão que raciocina sem compreender, uma fé que

aposta às cegas, sem a visão clara dos motivos de crer? São cacos de humanidade, jogados num porão

escuro onde cegos tateiam em busca de vestígios de si mesmos. Toda “cultura” que se construa em cima

disso não será jamais senão um monumento à miséria humana, um macabro sacrifício diante dos ídolos.

Só o inteligir, assumido como estatuto ontológico e dever máximo da pessoa humana, pode

fundamentar a cultura e a vida social. Por isso não há perdão para aqueles que, vivendo das pro ssões

da inteligência, a rebaixam e a humilham. Cada vez que um desses indivíduos grita, seja na língua que

for, seja sob o pretexto que for, “ Abajo la inteligencia!”, é sempre o coro dos demônios que ecoa, do

fundo do abismo: “Viva la muerte!”

Sem testemunhas

O Globo, 22 de julho de 2000

Temos de nos desmascarar para alcançarmos aquela autenticidade interior de uma cultura em que poderemos, um dia,

nos reconhecer e nos sentir realizados.

J. O. de Meira Penna

Albert Schweitzer, em Minha infância e mocidade, lembra o instante em que pela primeira vez sentiu

vergonha de si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim. Veio uma abelha e picou-lhe o dedo.

Aos prantos, o menino foi socorrido pelos pais e por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert

percebeu que a dor já havia passado fazia vários minutos e que continuava a chorar só para obter a

atenção da plateia. Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida

realizada, uma grande vida de artista, de médico, de lósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos

pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira trapaça. Esse sentimento atravessara os

anos, no fundo da memória, dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de autoengano.

Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube da sua

vergonha, só ele teve de prestar contas de seu ato ante sua consciência e seu Deus. Estou persuadido de

que as vivências desse tipo — os atos sem testemunha, como costumo chamá-los — são a única base

possível sobre a qual um homem pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e

autônoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo — e contra si mesmo — é

capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos

estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais.

A razão disso é autoevidente: um homem tem de estar livre de toda scalização externa para ter a

certeza de que olha para si mesmo e não para um papel social — e só então pode fazer um julgamento

totalmente sincero. Somente aquele que é senhor de si é livre — e ninguém é senhor de si se não aguenta

nem olhar, sozinho, para dentro de seu próprio coração.

Mesmo a conversa mais franca e a con ssão mais espontânea não substituem esse exame interior,

porque, aliás, só valem quando são expressões dele, não efusões passageiras, induzidas por uma

atmosfera casualmente estimulante ou por um sincerismo vaidoso.

Mais ainda, não é apenas a dimensão moral da consciência que se desenvolve nesse confronto: é a

consciência inteira — cognitiva, estética, prática. Pois ele é ao mesmo tempo aproximação e

distanciamento: é o julgamento solitário que cria a verdadeira intimidade do homem consigo mesmo e é

também ele que cria a distância, o espaço interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos

adquiridos são assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem esse “mundo” pessoal

conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações entram e saem — como os

alimentos — transformadas em detritos.

Ora, nem todos os seres humanos foram brindados pela Providência com a percepção espontânea e o

julgamento certeiro de seus pecados. Sem esses dons, o anseio de justiça se perverte em inculpação

projetiva dos outros e em “racionalização” (no sentido psicanalítico do termo). Quem não os recebeu de

nascença tem de adquiri-los pela educação. A educação moral, pois, consiste menos em dar a decorar

listas do certo e do errado do que em criar um ambiente moral propício ao autoexame, à seriedade

interior, à responsabilidade de cada um saber o que fez quando não havia alguém olhando.

Durante dois milênios, um ambiente assim foi criado e sustentado pela prática cristã do “exame de

consciência”. Há equivalentes dela em outras tradições religiosas e místicas, mas nenhum na cultura laica

contemporânea. Há as psicanálises, as psicoterapias, mas só funcionam nesse sentido quando conservam

a referência religiosa à culpa pessoal e ao seu resgate pela con ssão diante de Deus. E, à medida que a

sociedade se descristianiza (ou, mutatis mutandis, se desislamiza, se desjudaíza etc.), essa referência se

dissolve e as técnicas clínicas tendem justamente a produzir o efeito oposto: a abolir o sentimento de

culpa, trocando-o ora por um endurecimento egoísta confundido com “maturidade”, ora por uma

adaptatividade autocomplacente, desfibrada e cafajeste, confundida com “sanidade”.

A diferença entre a técnica religiosa e seus sucedâneos modernos é que ela sintetizava, numa mesma

vivência dramática, a dor da culpa e a alegria da completa libertação — e isto as “éticas leigas” não

podem fazer, justamente porque lhes falta a dimensão do Juízo Final, da confrontação com um destino

eterno que, dando a essa experiência uma signi cação metafísica, elevava o anseio de responsabilidade

pessoal às alturas de uma nobreza de alma com o qual as exterioridades da “ética cidadã” não podem

nem mesmo sonhar.

Há dois séculos a cultura moderna vem fazendo o que pode para debilitar, sufocar e extinguir na

alma de cada homem a capacidade para essa experiência suprema, na qual a consciência de si é exigida

ao máximo e na qual — somente na qual — alguém pode adquirir a autêntica medida das possibilidades

e deveres da condição humana. A “ética laica”, a “educação para a cidadania” é o que sobra no exterior

quando a consciência interior se cala e quando as ações do homem já nada signi cam além de infrações

ou obediências a um código de convencionalismos e de interesses casuais.

“Ética”, aí, é pura adaptação ao exterior, sem outra ressonância íntima senão aquela que se possa

obter pela internalização forçada de slogans, frases feitas e palavras de ordem. “Ética”, aí, é o sacrifício da

consciência no altar da mentira oficial do dia.

Notas

1. N. do Org.: Sobre a farsa do aquecimento global, ver o texto “Até que en m” no capítulo Revolução, especialmente o item 6 e a nota nele

contida.

2. N. do Org.: Sobre a ideia mesma da verdade, ver “Espírito e personalidade”, último texto deste livro, no capítulo Estudo; e, para uma

análise mais detalhada, ver “O problema da verdade e a verdade do problema”, apostila do Seminário de Filoso a, de 20 de maio de 1999,

disponível no link: http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/problema_verdade.html.

VOCAÇÃO

Vocações e equívocos

Bravo!, fevereiro de 2000

Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta a cavalo, ou tira fotos, ou

faz qualquer outra coisa que pareça interessante, já deve ter ouvido mil vezes a pergunta: “Você faz isso

por dinheiro ou por prazer?” Tão in nitamente repetível é essa fórmula, que deve revelar algum traço

profundo e permanente do modo brasileiro de ver as coisas — um lugar-comum ou topos da nossa

retórica diária.

Ora, todo lugar-comum é um recorte que enfatiza certos aspectos da realidade para

momentaneamente dar a impressão de que os outros não existem. Logo, para compreendê-lo é preciso

perguntar, antes de tudo, o que é que omite.

O que está omitido na pergunta acima é a possibilidade de que alguém se dedique de todo o coração a

alguma coisa sem ser por necessidade econômica nem por prazer — ou, pior ainda, que continue se

dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante do mundo mesmo quando só dá prejuízo e dor de

cabeça. O que está omitido nessa pergunta — e no modo brasileiro de ver as coisas — é aquilo que se

chama vocação.

Vocação vem do verbo latino voco, vocare, que quer dizer “chamar”. Quem faz algo por vocação sente

que é chamado a isso pela voz de uma entidade superior — Deus, a humanidade, a história, ou, como

diria Viktor Frankl, o sentido da vida.

Considerações de lucro ou prazer cam fora ou só entram como elementos subordinados, que por si

não determinam decisões nem fundamentam avaliações.

No mundo protestante, germânico, há toda uma cultura e uma mística da vocação, e a busca da

vocação autêntica é mesmo o tema do principal romance alemão, o Wilhelm Meister de Goethe. Nos

países católicos, a importância religiosa da vocação, consolidada na ética escolástica do “dever de Estado”

(por exemplo, o dever dos pais de família, dos comerciantes, dos militares etc.), foi perdendo relevo

depois do Renascimento, cavando-se um abismo cada vez mais fundo entre o sacerdócio e as atividades

“mundanas”, esvaziadas de sentido na medida em que só o primeiro é considerado vocacional em