O Morro dos Ventos Uivantes por Emily Brontë - Versão HTML

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1

Emily Brontë

O

Morro dos

Ventos Uivantes

2

Círculo do Livro

Digitalização , Revisão e Formatação: Vick

CÍRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413

São Paulo, Brasil

Edição integral

Título do original: "Wuthering Heights"

Tradução de Vera Pedroso

Licença editorial para o Círculo do Livro

por cortesia da Cedibra - Companhia Editora Brasileira

É proibida a venda a quem não pertença ao Círculo

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Composto pela Linoart Ltda.

Impresso e encadernado em oficinas próprias

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NOTICIA BIOGRÁFICA SOBRE

ELLIS E ACTON BELL

Pensou-se, durante algum tempo, que todas as obras

editadas com os nomes de Currer, Ellis e Acton Bell fossem,

realmente, o produto da pena de uma só pessoa. Tentei

corrigir esse engano mediante algumas palavras de

retificação, apensas à terceira edição de Jane Eyre. Mas,

como parece que tampouco elas mereceram crédito,

aconselham-me agora, por ocasião desta nova edição de O

Morro dos Ventos Uivantes, que esclareça o caso de uma

vez por todas.

Efetivamente, eu própria acho que é mais do que

tempo de dissipar a obscuridade que cerca esses dois no-

mes, Ellis e Acton. O pequeno mistério, que outrora pro-

porcionou um certo prazer inocente, já perdeu o interesse;

as circunstâncias mudaram. Torna-se, pois, meu dever

explicar sucintamente a origem e a autoria dos livros escri-

tos por Currer, Ellis e Acton Bell.

Há cerca de cinco anos, após um prolongado período

de separação, eu e minhas duas irmãs voltamos a reunir-

nos em casa. Residindo num remoto distrito, onde a

instrução pouco progresso fizera e onde, em conseqüência,

não havia satisfação em procurar relações sociais fora do

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círculo doméstico, dependíamos inteiramente de nós

mesmas e umas das outras, da leitura e do estudo para

preenchermos as necessidades de diversão e de ocupação

das nossas vidas. O mais alto estímulo e o maior prazer que

conhecêramos desde a infância baseara-se em tentativas

de composição literária. A princípio costumávamos mostrar

o que escrevíamos; ultimamente, porém, esse hábito de

comunicação e consulta fora posto de lado, daí resultando

ignorarmos mutuamente os progressos que cada qual tinha

feito.

Um belo dia, no outono de 1845, descobri, aciden-

talmente, um caderno de versos escritos na letra de minha

irmã Emily. Não fiquei surpresa, pois sabia que ela escrevia

versos: li-os e algo mais do que surpresa tomou conta de

mim — a certeza de que aquelas não eram efusões

comuns, nem de forma alguma semelhantes aos versos

que as mulheres geralmente escrevem. Achei-os condensa-

dos e tensos, vigorosos e genuínos. Pareciam-me, também,

ter uma música peculiar — selvagem, melancólica e

inspiradora.

Minha irmã Emily não era pessoa comunicativa, nem

permitia que ninguém — nem mesmo a família — pene-

trasse, sem pedir licença, nos recessos da sua mente ou

dos seus sentimentos. Foram necessárias horas para que

se reconciliasse comigo pela descoberta que eu fizera e

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dias para persuadi-la de que aqueles poemas mereciam ser

publicados. Eu sabia que uma personalidade como a dela

não podia deixar de conter alguma centelha latente de

ambição honrada e recusei-me a desistir das minhas tenta-

tivas de inflamá-la.

Entretanto, a minha irmã mais jovem ia buscar algu-

mas das suas próprias composições, alegando que, como

os versos de Emily me tinham dado prazer, talvez eu qui-

sesse também ler os dela. Embora o meu juízo fosse par-

cial, achei que também aqueles versos demonstravam uma

emoção sincera e original.

Desde muito cedo, tínhamos alimentado o sonho de

virmos um dia a ser escritoras. Esse sonho, nunca aban-

donado mesmo quando a distância nos dividia e diferentes

tarefas nos absorviam, de repente adquiria força e consis-

tência, revestindo-se das características de uma resolução.

Concordamos em fazer uma pequena seleção dos nossos

poemas e, se possível, editá-los. Adversas à publicidade

pessoal, ocultamos os nossos nomes sob os pseudônimos

de Currer, Ellis e Acton Bell, sendo a escolha ditada por

uma espécie de escrúpulo que nos levava a assumir nomes

positivamente masculinos, não querendo confessarmo-nos

mulheres porque — embora então não suspeitássemos de

que a nossa maneira de pensar e de escrever não era o que

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se chama "feminina" — tínhamos a impressão de que as

escritoras eram encaradas com espírito preconcebido.

Notáramos que os críticos por vezes usavam a arma

do desprezo pelos escritos femininos ou, ao contrário, da

lisonja gentil ao belo sexo.

A publicação do nosso livrinho foi trabalho árduo.

Como era de esperar, nem nós nem a nossa poesia fomos

bem acolhidas. Mas estávamos preparadas para isso; em-

bora inexperientes, conhecíamos a experiência de outros. A

maior dificuldade estava em obter uma resposta qualquer

dos editores aos quais nos dirigíamos. Bastante de-

sencorajada por esse obstáculo, aventurei-me a escrever

aos Srs. Chambers, de Edimburgo, pedindo-lhes conselho.

Talvez eles tenham esquecido as circunstâncias, mas eu

não, pois deles recebi uma resposta breve, porém polida e

sensata, com base na qual agimos e, finalmente, conse-

guimos levar avante o nosso sonho.

O livro foi publicado: pouca gente o conhece e tudo o

que dele merece ser conhecido são os poemas de Ellis Bell.

A convicção que eu tinha e tenho do valor desses poemas

não recebeu a confirmação de uma crítica muito favorável;

não obstante, mantenho a minha opinião.

O insucesso não nos abateu: o simples esforço para

triunfar dera um novo sabor à nossa existência; tinha de

ser continuado. Cada uma de nós começou a trabalhar

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numa obra em prosa: Ellis Bell escreveu O Morro dos

Ventos Uivantes, Acton Bell produziu Agnes Grey e Currer

Bell também escreveu uma novela em um volume. Todos

esses trabalhos foram perseverantemente enviados a

vários editores durante um ano e meio; seu destino era

sempre uma abrupta e humilhante recusa.

Finalmente, O Morro dos Ventos Uivantes e Agnes

Grey foram aceitos em termos algo desfavoráveis para as

duas autoras; quanto ao livro de Currer Bell, não encontrou

aceitação em parte alguma, nem qualquer reconhecimento

de mérito, e algo como o gelo do desespero começou a

invadir-lhe o coração. Como última esperança, Currer Bell

tentou mais uma editora — Smith, Elder & Co. Em muito

menos tempo do que aquele que a experiência lhe ensinara

a esperar, chegou-lhe uma carta, que abriu, na triste

expectativa de encontrar duas linhas secas e

desencorajadoras, informando que Smith, Elder & Co. "não

estavam interessados na publicação do manuscrito". Em

vez disso, saiu do envelope uma carta de duas páginas,

que Currer Bell leu com mãos trêmulas. A editora recusava-

se, realmente, a publicar a novela, por razões comerciais,

mas apontava os seus méritos e os seus defeitos de

maneira tão cortês, com um espírito tão racional, com uma

visão tão esclarecida, que a recusa foi para a autora muito

mais encorajadora do que o teria sido uma vulgar

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aceitação. A carta acrescentava que uma obra em três

volumes receberia a melhor das atenções.

Eu estava então terminando Jane Eyre, em que traba-

lhara enquanto a tal novela de um volume batia às portas

das editoras: mandei-a em três semanas e mãos amigas e

competentes a receberam. Foi isso no começo de setembro

de 1847; antes do fim de outubro, Jane Eyre via a luz, ao

passo que O Morro dos Ventos Uivantes e Agnes Grey, os

livros das minhas irmãs, que havia meses estavam na

tipografia, demoraram ainda a sair por outras editoras.

Finalmente, apareceram. Os críticos não lhes fizeram

justiça. Os poderes imaturos, mas autênticos, revelados em

O Morro dos Ventos Uivantes mal foram reconhecidos; a

sua significação e natureza foram incompreendidas; a

identidade da sua autora foi confundida: afirmou-se ser o

romance uma prévia e rude experiência da mesma pena

que escrevera Jane Eyre. Injusto e tremendo engano! Fez-

nos rir na ocasião, mas agora lamento-o profundamente.

Acho que daí surgiu um preconceito contra o livro. Um

autor que fosse capaz de tentar impingir uma produção

imatura e inferior aproveitando-se de um sucesso posterior

deveria, efetivamente, preocupar-se muito com a sua obra

secundária e ser lamentavelmente indiferente ao

verdadeiro galardão. Se os críticos e o público de fato

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acreditaram nisso, não admira que encarassem com maus

olhos o novo livro.

Contudo, não quero que se pense que estou fazendo

disso motivo de queixa ou censura; não ouso fazê-lo; o

respeito pela memória de minha irmã proíbe-me tal coisa.

Qualquer manifestação desse gênero teria por ela sido

considerada como uma indigna e ofensiva demonstração

de fraqueza.

É meu dever, bem como meu prazer, fazer constar

uma exceção à regra geral das críticas. Um comentarista

(Vide o Palladium de setembro de 1850), dotado da visão

lúcida e da bela percepção do gênio, discerniu a verdadeira

natureza de O Morro dos Ventos Uivantes e, com igual

precisão, indicou-lhe as belezas e os defeitos. Muitas vezes

os críticos nos recordam a quantidade de astrólogos,

caldeus e adivinhos reunidos diante de uma "inscrição

mural" e incapazes de decifrar-lhe os caracteres ou tornar

conhecida a sua interpretação. Temos o direito de nos

felicitarmos quando por fim aparece um autêntico vidente,

alguém de grande espírito, ao qual foram dadas luz,

sabedoria e compreensão e que é capaz de traduzir

exatamente o Mene, Mene, Tekel, Upharsin de uma mente

original (por mais imatura, pouco cultivada e parcialmente

desenvolvida que essa mente seja) e dizer, com absoluta

certeza: "É esta a interpretação do que aí está escrito".

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Entretanto, até mesmo a pessoa a quem me refiro

compartilha o engano sobre a sua autoria e me faz a in-

justiça de crer que cometi um erro ao rejeitar essa honra

(pois considero-a uma honra). Posso assegurar-lhe que,

neste e noutros casos iguais, jamais cometeria erros dessa

natureza. Acho que a língua nos foi dada para tornar claro o

que queremos dizer e não para o envolvermos numa

dúvida desonesta.

O locatário de Wildfell Hall, por Acton Bell, também

teve uma acolhida desfavorável. Disso, porém, não me

posso espantar. A escolha do assunto foi um completo erro.

Nada menos de acordo com a natureza da autora poderia

ter sido concebido. Os motivos que lhe ditaram essa

escolha foram, creio, puros, mas ligeiramente mórbidos.

Durante a sua vida coubera-lhe contemplar, de perto e por

longo tempo, os terríveis efeitos de talentos mal-

empregados e de faculdades desperdiçadas; o seu

temperamento era naturalmente sensível, reservado e

aflito; o que viu impressionou-a grandemente e fez-lhe mal.

Meditou naquilo até julgar seu dever reproduzir todos os

detalhes (obviamente com personagens, incidentes e

situações fictícios), como uma lição para quem a lesse.

Detestava o seu trabalho, mas prosseguia nele. Encarava

os comentários que lhe fazíamos a propósito do assunto

como uma tentação a combater. Tinha de ser honesta: não

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podia enfeitar, abrandar ou esconder nada. Essa bem-

intencionada decisão acarretou-lhe uma interpretação

errônea e muitas críticas, que ela recebeu como era seu

costume receber as coisas desagradáveis — com paciência

e resignação. Era uma verdadeira, sincera cristã, mas o

timbre da melancolia religiosa imprimiu um contorno triste

à sua curta e inocente vida.

Nem Ellis nem Acton se permitiram, por um momento

sequer, desanimar por falta de encorajamento; a energia

estimulava a primeira, a resistência amparava a segunda.

Estavam ambas preparadas para tentar de novo e creio

que nelas a esperança e a sensação de serem capazes

ainda continuavam fortes. Mas ocorreu então uma grande

mudança: algo se abateu sobre elas nessa forma que se

teme antecipar e que tanta dor causa recordar. Em pleno

calor do dia, as lavradoras tombaram sobre a sua seara.

Minha irmã Emily foi a primeira. Os pormenores da sua

doença estão marcados a fogo na minha memória, mas

deter-me neles, seja em pensamento ou em narrativa, está

além das minhas forças. Nunca na sua vida ela demorara a

cumprir o que tinha pela frente, e dessa vez tampouco

demorou. Declinou rapidamente. Apressou-se em nos

deixar. E contudo, embora perecendo fisicamente,

mentalmente se tornava mais forte do que jamais a tínha-

mos conhecido. Dia a dia, ao vê-la enfrentar com tal for-

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taleza o sofrimento, eu a olhava com uma angústia feita de

amor e admiração. Nunca vi nada assim; mas, também,

nunca vi ninguém que se lhe comparasse em nada. Mais

forte do que um homem, mais simples do que uma criança,

a sua natureza era única. O terrível era que, cheia de

compaixão pelos outros, dela própria não tinha pena. O

espírito continuava inexorável; da mão trêmula, dos mem-

bros inertes, dos olhos apagados era exigido o mesmo ser-

viço que eles tinham prestado quando sãos. Testemunhar

isso e não ousar protestar era uma dor que não se pode

traduzir por palavras.

Dois cruéis meses de esperança e temor se passaram

e chegou finalmente o dia em que o terror e os

padecimentos da morte seriam suportados por aquele

tesouro, que se fora tornando mais e mais caro aos nossos

corações à medida que definhava aos nossos olhos. No fim

desse dia, nada mais tínhamos de Emily senão os seus

restos mortais, tais como a tísica os deixara. Faleceu a 19

de dezembro de 1848.

Achamos o golpe demasiado: pois nos enganávamos

redonda e presunçosamente. Ela ainda não fora sepultada,

quando Anne caiu doente. Não havia uma quinzena que o

enterro se realizara, quando percebemos que era neces-

sário prepararmo-nos para ver a caçula acompanhar a irmã

mais velha. Conforme o seu temperamento, ela seguiu o

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mesmo caminho com passo mais lento e uma paciência

que igualava a fortaleza da outra. Já disse que ela era

religiosa, e foi nessas doutrinas cristãs, em que tão firme-

mente acreditava, que Anne encontrou apoio para a sua

dolorosa jornada. Testemunhei a sua eficácia no momento

supremo e no calmo triunfo que elas lhe proporcionaram.

Anne faleceu a 28 de maio de 1849.

Que mais direi acerca delas? Não posso e nem preciso

dizer muito mais. Exteriormente, eram duas mulheres

discretas; uma existência perfeitamente reclusa dera-lhes

modos e hábitos retraídos. Em Emily, os extremos do vigor

e da simplicidade pareciam encontrar-se. Sob uma cultura

destituída de sofisticação, gostos naturais e uma aparência

modesta, jaziam um fogo e um poder secretos, que

poderiam ter inflamado as veias e alimentado o cérebro de

um herói; mas ela não tinha conhecimentos mundanos; os

seus poderes não se adaptavam aos aspectos práticos da

vida: ela não saberia defender os seus mais manifestos

direitos, lutar pelas suas mais legítimas conveniências.

Teria sempre de haver alguém entre ela e o mundo. A sua

vontade não era flexível e geralmente se opunha aos seus

interesses. O seu gênio era magnânimo, mas quente e

impetuoso; o seu espírito, um modelo de firmeza.

O caráter de Anne era mais dócil e passivo; não tinha ó

poder, o fogo, a originalidade da irmã, mas era bem dotada

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de virtudes próprias. Estóica, abnegada, refletida e

inteligente, a reserva e a taciturnidade colocavam-na e

mantinham-na na sombra, cobrindo-lhe a mente e, princi-

palmente, os sentimentos com uma espécie de véu de

freira, que ela raramente levantava. Nem Emily nem Anne

eram intelectuais; não lhes passava pela cabeça aproveitar

os frutos de outras mentes; escreviam sempre sob o im-

pulso da sua natureza, sob os ditames da intuição e com os

dados de observação que a sua limitada experiência lhe

permitira acumular. Sumarizando, direi que, para os

estranhos, elas não eram nada e para os observadores

superficiais, menos que nada; mas, para aqueles que as

haviam conhecido durante toda a vida, na intimidade de

relações estreitas, elas eram genuinamente boas e

verdadeiramente grandes.

Esta notícia foi escrita porque achei ser um dever sa-

grado remover-lhes a poeira das lápides e limpar os seus

caros nomes.

Currer Bell

(Charlotte Brontë)

19 de setembro de 1850

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PREFÁCIO DO EDITOR À NOVA EDIÇÃO DE

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

Acabei de reler O Morro dos Ventos Uivantes e, pela

primeira vez, obtive uma clara visão daquilo a que se

chama (e, talvez, com razão) os seus defeitos; consegui ter

uma noção definida de como o livro surge aos olhos de

outras pessoas — às pessoas que não conheceram a

autora, que desconhecem a localidade em que a história se

desenrola, para quem os habitantes, os costumes, as

características naturais dos distantes morros e povoados a

oeste de Yorkshire são coisas estranhas e até exóticas.

Para todas essas pessoas, O Morro dos Ventos Uivan-

tes deve parecer um livro rude e esquisito. As bravias

charnecas do norte da Inglaterra não podem ter, para elas,

qualquer interesse; a linguagem, as maneiras, as próprias

moradas e os usos domésticos dos poucos habitantes des-

sas regiões devem ser, para tais leitores, em grande parte

ininteligíveis e — quando inteligíveis — repulsivos. Homens

e mulheres que, talvez por natureza muito calmos, com

sentimentos moderados e pouco marcados, tenham sido

desde o berço ensinados a observar a mais completa

temperança de maneiras e o mais perfeito policiamento de

linguagem sem dúvida não saberão como encarar o lin-

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guajar forte, as paixões brutalmente manifestadas, as aver-

sões não contidas e as obstinadas parcialidades dos

camponeses iletrados e dos fidalgos não refinados que

vivem nessa região, e que se criaram sem outros

ensinamentos e outras contenções que os de mentores tão

rudes quanto eles próprios.

Da mesma forma, uma vasta classe de leitores se

chocará grandemente com a introdução, nas páginas deste

livro, de palavras escritas com todas as suas letras, quando

se tornou costume apresentá-las apenas pela inicial e a

última letra — um traço ou reticências preenchendo o

intervalo. Devo logo ir dizendo que, quanto a isso, foge à

minha capacidade pedir desculpas, já que eu próprio acho

racional escrever as palavras por extenso. A prática de

insinuar, por meio de uma ou duas letras, os expletivos

com os quais as pessoas profanas e violentas habitual-

mente guarnecem as suas falas parece-me um

procedimento que, embora bem-intencionado, peca pela

fraqueza e pela futilidade. Não entendo que bem isso faz,

que sensibilidade isso poupa, que horrores isso oculta.

A respeito da rusticidade de O Morro dos Ventos

Uivantes, admito a acusação pois lhe sinto a qualidade. É

todo ele rústico, selvagem e espinhoso como uma raiz de

urze. Nem seria natural que fosse de outra maneira, uma

vez que a autora era nascida e criada nas charnecas. Sem

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dúvida, houvesse ela nascido numa cidade, e os seus es-

critos — se ela tivesse escrito — teriam possuído outras

características. Mesmo que o acaso ou o gosto a tivessem

levado a escolher um assunto parecido, ela o teria tratado

de outra forma. Tivesse Ellis Bell sido uma dama ou um

cavalheiro acostumados àquilo a que se chama "o mundo",

a sua visão de uma região remota e abandonada, bem

como dos seus habitantes, teria diferido grandemente da

focalizada por essa moça confinada à sua casa e à sua

charneca. Sem dúvida teria sido mais ampla: mais original

ou mais verdadeira é que já não garanto. No que toca ao

cenário, dificilmente poderia ter sido tão sentido: Ellis Bell

não o descreveu como o faria alguém cuja vista ou gosto,

apenas, encontrassem prazer em fazê-lo; para ela, os seus

morros nativos eram muito mais do que uma paisagem;

eram o lugar onde ela vivia e representavam tanto quanto

as aves selvagens, suas habitantes, ou as urzes, seu

produto. Portanto, as suas descrições do cenário natural

são exatamente o que deveriam ser, e nada mais do que

isso.

No que toca à delineação do caráter humano, o caso é

diferente. Devo confessar que ela tinha pouco mais co-

nhecimento prático dos camponeses entre os quais vivia do

que aquele que uma freira tem das pessoas que às vezes

atravessam os portões do seu convento. O temperamento

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de minha irmã não era naturalmente sociável e as

circunstâncias favoreciam e estimulavam a sua tendência à

reclusão; exceto para ir à igreja ou dar um passeio pelos

morros, ela raramente saía de casa. Embora olhasse com

benevolência para as pessoas à sua volta, nunca procurou

relacionar-se com elas e nem, com poucas exceções, as

contatou. Não obstante, ela as conhecia: conhecia os seus

costumes, a sua maneira de falar, as histórias das suas

famílias; ouvia falar delas com interesse e podia falar delas

com minúcia e exatidão — embora com elas raramente

trocasse uma palavra sequer. Daí se segue que a sua

mente reunira apenas, a respeito delas, aqueles terríveis e

trágicos traços de que, ao ouvir os anais secretos de

qualquer rústica vizinhança, a memória muitas vezes é

compelida a registrar a impressão. A sua imaginação, mais

sombria do que otimista, mais poderosa do que esportiva,

encontrou nesses traços o material com que criou

personagens como Heathcliff, Earnshaw e Catherine. Ao

criar esses seres, ela não sabia o que tinha feito. Se o

editor da sua obra, ao lê-la em manuscrito, estremeceu sob

a terrível influência de naturezas tão inexoráveis e

implacáveis, de espíritos tão perdidos e decaídos; se houve

queixas de que a simples audição de certas cenas tirava o

sono à noite e perturbava a mente durante o dia, Ellis Bell

não compreendia a razão e acusava os queixosos de

20

afetação. Tivesse continuado viva e a sua mente ter-se-ia

desenvolvido qual uma árvore forte, mais direita, mais alta

e com maior alcance, e os seus frutos, amadurecidos,

teriam atingido um sabor mais doce, um travo menos

amargo. Mas, sobre essa mente, apenas o tempo e a

experiência poderiam operar: à influência de outros

intelectos, ela não se dobrava.

Tendo admitido que, por sobre grande parte de O

Morro dos Ventos Uivantes, paira "o horror das trevas";

que, na sua atmosfera elétrica e tempestuosa, temos por

vezes a sensação de respirar relâmpagos, permitam-me

indicar alguns pontos em que a nebulosidade do dia e o sol

eclipsado ainda atestam a sua existência. Como modelo de

verdadeira benevolência e doméstica fidelidade, veja-se o

personagem de Nelly Dean; como exemplo de constância e

ternura, note-se o de Edgar Linton. (Algumas pessoas

acharão que essas qualidades não brilham tanto

encarnadas num homem quanto numa mulher, mas Ellis

Bell não admitia isso: nada a indignava mais do que a

insinuação de que a fidelidade e a clemência, a abnegação

e a bondade, virtudes apreciadas nas filhas de Eva, se

tornavam fraquezas nos filhos de Adão. Sustentava que a

misericórdia e a indulgência eram os mais divinos atributos

do Ente Supremo que tanto fez o homem como a mulher, e

que o que dava glória ao Criador não podia desgraçar

21

nenhum dos sexos da frágil humanidade.) Há um humor

seco, fleumático na delineação do velho Joseph e alguns

vislumbres de graça e alegria animam a jovem Catherine. E

a primeira heroína desse nome não é destituída de uma

certa e estranha beleza na sua ferocidade, ou de

honestidade, em meio à perversa paixão e à apaixonada

perversidade.

Heathcliff, é verdade, permanece irremível, nunca se

afastando da sua trajetória rumo à perdição, desde que

"aquela coisinha morena e de cabelo negro, tão escura

como se tivesse vindo do Diabo" foi pela primeira vez

colocada na cozinha da fazenda até o momento em que

Nelly Dean encontrou o terrível, rígido cadáver deitado de

costas na cama apainelada, com olhos arregalados, que

pareciam "troçar da sua tentativa de fechá-los, lábios aber-

tos e aguçados dentes brancos, que também troçavam

dela".

Heathcliff revela um único sentimento humano, que

não é o seu amor por Catherine; o qual é um sentimento

selvagem e desumano, uma paixão que poderia fervilhar e

brilhar na má essência de um gênio do mal, um fogo que

poderia formar o centro tormentoso — a alma eternamente

sofredora de um magnata do mundo infernal; e, pela sua

insaciável e interminável devastação, acarreta a execução

da sentença que o condena a levar consigo o inferno,

22

aonde quer que ele vá. Não; o único elo que liga Heathcliff

à humanidade é a sua mal confessada preocupação com

Hareton Earnshaw — o jovem que ele arruinou — e a sua

insinuada estima por Nelly Dean. Não fossem esses traços

solitários, diríamos que ele não era nem um filho de cigana

nem de Lascar, e sim um vampiro, uma forma humana

animada por uma alma de demônio.

Se é direito ou aconselhável criar seres como Heath-

cliff, eu não sei: creio que não. Mas disto eu tenho a

certeza: o escritor que possui o dom da criação possui algo

que ele nem sempre pode controlar — algo que, às vezes,

parece ter uma vontade independente. Ele pode

estabelecer regras e princípios, aos quais, talvez durante

anos, esse seu dom se sujeite, em obediência; mas, às

vezes sem qualquer premonição de revolta, chega um dia

em que o seu dom não mais consente em "arar os vales ou

ser amarrado ao rego do arado", em que "ri da multidão da

cidade e não se importa com os gritos do condutor", em

que, recusando-se a continuar fazendo cordas de areia,

começa a trabalhar em estatuária — e temos então um

Plutão ou um Júpiter, uma Tisífone ou uma Psique, uma

sereia ou uma madona, conforme o quiserem o Destino ou

a Inspiração. Seja a obra disforme ou gloriosa, terrível ou

divina, pouca escolha nos fica, senão adotá-la. Quanto a

vós — os artistas —, a vossa colaboração foi trabalhar

23

passivamente, obedecendo a ditames que nem

comunicastes nem pudestes questionar — que não

poderíeis pronunciar nas vossas preces, nem suprimir ou

alterar segundo os vossos caprichos. Se o resultado for

atraente, o mundo elogiar-vos-á, a vós, que tão pouco

mereceis elogios; se ele for repulsivo, o mesmo mundo vos

culpará, embora tampouco sejais culpados.

O Morro dos Ventos Uivantes foi talhado numa oficina

rude, com ferramentas simples e materiais caseiros. O

escultor encontrou um bloco de granito numa charneca

solitária; olhando para ele, viu como dali se podia tirar uma

cabeça, selvagem, escura, sinistra; uma forma modelada

com pelo menos um elemento de grandeza — a força.

Trabalhou com um tosco cinzel e sem mais modelo do que

a visão das suas meditações. Com tempo e trabalho, o

bloco foi tomando forma humana; e lá está ele, colossal,

escuro e cenhudo, meio estátua, meio rocha: no primeiro

consenso, terrível e semelhante a um demônio; no

segundo, quase belo, pois a sua coloração é um cinzento

suave, que o musgo da charneca reveste; e a urze, com

suas campânulas floridas e a sua fragrância, cresce fiel-

mente junto ao pé do gigante.

Currer Bell

(Charlotte Brontë)

24

CAPÍTULO I

1801

Acabei de chegar de uma visita ao meu senhorio — o

único vizinho que me poderá incomodar. Que bela região,

esta! Em toda a Inglaterra, acho que não poderia ter

encontrado um lugar tão completamente afastado da

sociedade humana. Um perfeito paraíso para os

misantropos; eu e o Sr. Heathcliff formamos um par bem

adequado para dividi-lo entre ambos. Grande sujeito! Não

deve ter suspeitado de como simpatizei com ele, assim que

vi os seus olhos negros recolherem-se, desconfiados, sob

as sobrancelhas, à medida que eu me aproximava, e os

seus dedos afundarem ainda mais, com ciumenta determi-

nação, no seu colete, quando anunciei quem era.

— Sr. Heathcliff? — disse eu. A resposta foi um aceno.

— Sou Lockwood, o seu novo inquilino. Tenho a honra

de vir falar com o senhor logo após a minha chegada, para

dizer-lhe que espero não o ter importunado com a minha

insistência em solicitar a ocupação da Granja Thrushcross;

ouvi dizer, ontem, que o senhor tinha pensado . . .

25

— A Granja Thrushcross pertence-me — interrompeu

ele secamente. — Não iria permitir que ninguém me

importunasse e, se pudesse me opor a isso. . . Entre!

Esse "entre" foi dito entre dentes e no tom de quem

diz: "Vá para o diabo!" Até mesmo a cancela em que ele se

apoiava não fez qualquer movimento para acompanhar as

suas palavras, e acho que foi precisamente isso que me

levou a aceitar o convite: sentia-me interessado por aquele

homem, cuja misantropia parecia ainda maior do que a

minha.

Quando ele viu o meu cavalo empurrar a porteira,

estendeu a mão para abri-la e precedeu-me, soturnamente,

ordenando, ao entrarmos no pátio: — Joseph, leve o cavalo

do Sr. Lockwood; e traga-nos vinho.

"Eis aí toda a criadagem", pensei, ao ouvir aquela

dupla ordem. "Não espanta que a grama cresça entre as

pedras do caminho e o gado seja o único jardineiro."

Joseph era um homem de idade, ou melhor, um autên-

tico velho; muito velho, talvez, embora saudável e

enérgico. — Deus nos acuda! — murmurou com evidente

desprazer, enquanto me desembaraçava do cavalo, e ao

mesmo tempo me olhava com ar tão sombrio, que eu

caridosamente conjeturei que talvez ele precisasse do

socorro divino para digerir o seu almoço e sua piedosa

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exclamação nada tivesse que ver com a minha inesperada

visita.

A propriedade do Sr. Heathcliff chama-se, adequada-

mente, Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes, N.

do E.), sendo wuthering um significativo adjetivo

provinciano para designar o tumulto atmosférico ao qual

ela está sujeita em tempo tempestuoso. De fato, ali sempre

sopra um ar puro e estimulante; pode-se imaginar a fúria

do vento do norte soprando sobre a propriedade, pela

excessiva inclinação de alguns enfezados abetos plantados

na extremidade da casa e por uma fila de esquálidos

espinheiros, todos estendendo os seus membros na mesma

direção, como se pedindo esmolas ao sol. Felizmente, o

arquiteto cuidou de fazê-la forte: as janelas, estreitas, estão

bem embutidas na parede, e os cantos são defendidos por

grandes pedras salientes.

Antes de atravessar a soleira, parei para admirar uma

quantidade de grotescos entalhes espalhados sobre a fa-

chada e, principalmente, à volta da porta, por cima da qual,

entre uma orgia de grifos semi-esboroados e menininhos

despudorados, detectei a data 1500 e o nome Hareton

Earnshaw. Tive vontade de fazer alguns comentários e

pedir ao proprietário que me fornecesse um breve histórico

do lugar, mas a sua atitude parecia exigir que eu entrasse

27

sem mais delongas ou então partisse, e não quis aumentar-

lhe a irritação antes de ter entrado.

Um passo e estávamos na sala, sem qualquer

vestíbulo ou corredor introdutório; aqui, dão à sala o nome

de "casa", e geralmente serve de cozinha e de sala de

estar. Mas creio que no Morro dos Ventos Uivantes a

cozinha fora forçada a retirar-se para outros quartéis; pelo

menos, distingui um barulho de tenazes e utensílios

culinários vindo de dentro da casa, e não vi sinais de

assados ou cozidos na enorme lareira, nem brilho de

caçarolas de cobre ou passadores de lata nas paredes.

Numa extremidade da sala, porém, a luz e o calor do fogo

se refletiam esplendidamente em filas de imensos pratos

de estanho, entremeados de canecas e jarras de prata, que

se erguiam, sobre um vasto aparador de carvalho, como

uma torre, até o teto. Este nunca fora tapado: toda a sua

anatomia estava à vista, exceto onde uma prateleira, cheia

de bolos de aveia, pedaços de pernas de bois e de

carneiros, pernis e presuntos, a escondia. Sobre a lareira

viam-se várias armas de fogo antigas, de aspecto terrível, e

um par de enormes pistolas, além de três caixas de folhas

para chá pintadas com cores vivas e dispostas, à guisa de

ornamento, ao longo da beirada da lareira. O chão era de

pedra branca e lisa; as cadeiras, primitivas e de espaldar

alto, pintadas de verde; uma ou duas, mais pesadas e

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negras, entreviam-se na penumbra. Sob um arco, debaixo

do aparador, repousava uma grande cadela pointer,

vermelho-escura e rodeada por uma porção de barulhentos

cachorrinhos. Outros cães perambulavam de um lado para

outro.

O aposento e a sua decoração não teriam nada de

extraordinário se pertencessem a um pacato fazendeiro

local, de aspecto teimoso e membros rijos, realçados por

calções até os joelhos e polainas. Um tal fazendeiro, sen-

tado na sua poltrona, caneca de cerveja espumejando

sobre uma mesa redonda à sua frente, é coisa que se vê

em qualquer passeio de cinco ou seis milhas por estas

colinas, desde que se faça a visita a uma hora certa, logo

depois do almoço. Mas o Sr. Heathcliff contrasta

singularmente com a casa em que mora e o seu estilo de

vida. Na aparência, é um autêntico cigano de pele escura;

no trajar e nas maneiras, um cavalheiro — isto é, um

cavalheiro como o são tantos fidalgos do interior: bastante

desalinhado, talvez, mas não desagradavelmente, graças à

sua silhueta esbelta e ereta, e também bastante arisco.

Possivelmente algumas pessoas veriam orgulho nele; eu

tenho com ele uma afinidade que me diz não ser nada

disso; sei, por instinto, que a sua reserva vai desde uma

aversão às demonstrações ostensivas de sentimentos até

as manifestações mútuas de gentileza. Deve amar e odiar

29

igualmente, em silêncio, e achar uma espécie de

impertinência no fato de ser amado e odiado. Não, estou

me precipitando, atribuindo-lhe demasiadamente a minha

própria maneira de ser. O Sr. Heathcliff talvez tenha razões

inteiramente diferentes das minhas para não estender a

mão ao fazer um novo conhecimento. Suspeito que o meu

temperamento seja quase peculiar; a minha querida mãe

costumava dizer que eu nunca teria um verdadeiro lar, e

ainda no verão passado provei ser completamente indigno

de o possuir.

Ao gozar um mês de bom tempo à beira-mar, conheci

uma criatura fascinante: uma verdadeira deusa para os

meus olhos, enquanto não reparou em mim. Nunca lhe con-

fessei verbalmente o meu amor; mas, se é certo que os

olhares falam, o mais completo idiota teria percebido que

eu estava apaixonado. Por fim, ela o entendeu e lançou-me

também um olhar — o mais doce dos olhares. E que foi que

eu fiz? Confesso-o, envergonhado — recolhi-me a mim

mesmo, qual um caramujo; a cada olhar dela, mais eu me

encolhia, maior frieza aparentava; até que, finalmente, a

pobre começou a duvidar dos seus próprios sentidos e,

cheia de confusão pelo suposto engano, convenceu a mãe

de que deviam partir. Graças a essa estranha mudança de

atitude, ganhei a reputação de ser uma pessoa desumana;

quão pouco a mereço, só eu o sei.

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Tomei assento a uma das extremidades da lareira, em

frente ao meu senhorio, e tentei preencher um intervalo de

silêncio acariciando a cadela, que deixara a sua ninhada e

se esgueirava por trás das minhas pernas, o focinho

arreganhado e as brancas presas como que se preparando

para morder. A minha carícia provocou um rosnar longo e

gutural.

— É melhor deixar a cadela em paz — rosnou também

o Sr. Heathcliff, evitando maiores demonstrações com um

pontapé. — Ela não está acostumada a mimos. . . — não a

tratamos como um animal de estimação. — E, dirigindo-se

para uma porta lateral, gritou, uma vez mais: — Joseph!

Joseph respondeu qualquer coisa dos fundos da adega,

mas não deu sinal de subir, de modo que o amo mergulhou

ao encontro dele, deixando-me vis-à-vis com a terrível

cadela e um par de felpudos cães pastores, que com ela

mantinham uma zelosa guarda sobre os meus movimentos.

Não desejando entrar em contato com as suas presas,

conservei-me quieto; mas, imaginando que eles por certo

não entenderiam insultos implícitos, tive a triste idéia de

me pôr a piscar e a fazer caretas para o trio, e não sei que

contorção da minha fisionomia irritou a madame, que de

repente se atirou sobre mim, furiosa. Repeli-a e apressei-

me a interpor a mesa entre nós. Esse procedimento excitou

toda a matilha: meia dúzia de demônios de quatro patas,

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de vários tamanhos e idades, saíram de diversos

esconderijos e pularam para cima de mim. Senti os calca-

nhares e as abas do casaco serem atacados; e, afastando

os combatentes maiores da melhor maneira possível, com

o atiçador, vi-me obrigado a pedir, em voz alta, que alguém

da casa me ajudasse a restabelecer a paz.

O Sr. Heathcliff e o seu criado subiram a escada da

adega com irritante calma; não creio que se movessem um

segundo mais depressa do que de hábito, embora a sala

fosse um verdadeiro pandemônio de gritos e latidos.

Felizmente, alguém da cozinha apressou-se um pouco

mais: uma robusta senhora, com o vestido arregaçado,

braços nus e faces avermelhadas pelo fogo, correu para

onde estávamos, brandindo uma frigideira; e tal uso fez

dessa arma e da sua língua, que a tempestade amainou

magicamente, e só ela ficou ali, ofegando como o mar após

um vendaval, quando o seu patrão entrou em cena.

— Que diabo está acontecendo aqui? — perguntou ele,

olhando-me de maneira que eu mal podia suportar, após

tão inóspito tratamento.

— Que diabo, realmente! — resmunguei. — Uma vara

de porcos danados não poderia ter piores instintos do que

esses seus cães. É quase a mesma coisa que deixar um

estranho com um bando de tigres!

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— Eles não se metem com pessoas que não mexem

em nada — observou ele, colocando a garrafa diante de

mim e devolvendo a mesa ao seu lugar. — Os cães fazem

bem em ser vigilantes. Aceita um copo de vinho?

— Não, muito obrigado.

— Não foi mordido, foi?

— Se tivesse sido, teria deixado o meu sinete no

animal.

O rosto de Heathcliff abriu-se numa espécie de sorriso.

— Ora, ora — disse —, o senhor está nervoso, Sr.

Lockwood. Vamos, tome um copo de vinho. As visitas são

de tal modo raras nesta casa, que eu e os meus cães, devo

confessá-lo, mal sabemos como recebê-las. À sua saúde!

Curvei-me e brindei à saúde dele, começando a per-

ceber que seria idiota ficar ofendido pelo mau procedi-

mento de meia dúzia de cães; além disso, não queria pro-

porcionar mais motivo para diversão, pois era isso o que

estava acontecendo. Quanto a ele, provavelmente movido

pela prudente lembrança de que era loucura ofender um

bom inquilino, abandonou um pouco o lacônico estilo de

economizar nos pronomes e nos verbos auxiliares e iniciou

o que supunha ser um assunto de interesse para mim: uma

dissertação sobre as vantagens e as desvantagens do meu

novo lugar de retiro. Achei-o muito inteligente nos tópicos

que tocamos; e, antes de me despedir, senti-me encorajado

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a dizer que voltaria amanhã. Evidentemente, ele não queria

nova intrusão. Mesmo assim, irei. É espantoso como pareço

sociável, se comparado com ele.

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CAPÍTULO II

A tarde de ontem foi fria e enevoada. Estava com

vontade de passá-la à beira da lareira, no meu escritório,

em vez de atravessar urzes e lama até o Morro dos Ventos

Uivantes. Entretanto, logo depois do almoço (N.B.

almoço entre o meio-dia e uma hora, pois a governanta,

uma senhora matronal, que recebi junto com a casa, não

pode ou não quer compreender o meu pedido de ser

servido às cinco), ao subir a escada com essa preguiçosa

intenção e entrar no escritório, dei com uma empregada de

joelhos, rodeada de vassouras e baldes de carvão e

levantando um pó infernal, ao tentar extinguir as chamas

da lareira com montes de cinzas. Aquele espetáculo fez-me

logo recuar; peguei no chapéu e, após caminhar umas

quatro milhas, cheguei ao portão do jardim de Heathcliff

bem a tempo de escapar aos primeiros flocos de uma

nevasca.

No alto daquele desolado morro, a terra estava co-

berta de uma geada dura e enegrecida e o vento fazia-me

tiritar. Não conseguindo remover a corrente, pulei por cima

da cancela e, correndo pelo caminho empedrado e ladeado

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por groselheiras, bati em vão à porta, até os nós dos dedos

me doerem e os cães começarem a uivar.

"Gente desgraçada!", invectivei mentalmente. "Vocês

merecem viver eternamente isolados, pela falta de hospita-

lidade que demonstram. Eu, pelo menos, não trancaria as

minhas portas durante o dia. Não importa — hei de entrar!"

Assim decidido, agarrei a tranca e sacudi-a com toda a

força. Não tardou para que o rosto azedo de Joseph

surgisse a uma das janelas redondas do celeiro.

— Que é que o senhor quer? — gritou ele. — O patrão

está lá embaixo, no curral. Pode dar a volta pela ponta do

lago, se quiser falar com ele.

— Não há ninguém em casa para me abrir a porta? —

gritei também.

— Não tem ninguém, só a patroa; mas ela não vai

abrir, nem que o senhor continue martelando a porta até

de noite.

— Por quê? Você não lhe pode dizer quem sou, Joseph?

— Eu, não! Não quero me meter nisso! — resmungou

ele, tirando a cabeça da janela.

A neve começou a cair com força. Agarrei a tranca

para fazer outra tentativa, quando um jovem sem casaco,

levando ao ombro uma forquilha, apareceu no pátio. Disse-

me para segui-lo, e, após atravessarmos uma lavandaria e

uma área empedrada, contendo um depósito de carvão,

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uma bomba e um pombal, entramos no enorme e quente

aposento em que da primeira vez fora recebido. Um fogo

imenso, alimentado com carvão, turfa e lenha, tornava-o

ainda mais acolhedor; e perto da mesa, posta para um

abundante chá, tive o prazer de ver a "patroa", pessoa de

cuja existência até ali nem sequer suspeitara. Inclinei a

cabeça, em cumprimento, esperei que ela me convidasse a

tomar assento. Mas ela olhou para mim, reclinada na sua

cadeira, e continuou imóvel e muda.

— Tempo horrível! — comentei. — Sinto muito, Sra.

Heathcliff, mas a culpa é dos seus criados; quase tive de

arrombar a porta para que eles me ouvissem.

Ela permaneceu calada. Olhei-a bem nos olhos — ela

também me fitou; pelo menos manteve os olhos em mim,

de uma maneira fria, indiferente, por demais embaraçosa e

desagradável.

— Sente-se — disse o jovem, com secura. — Ele não

demora.

Obedeci. Pigarreei e chamei a terrível Juno, que se

dignou, naquele segundo encontro, agitar a extremidade

da cauda, em sinal de reconhecimento.

— Lindo animal! — recomecei. — Pretende dar os

filhotes?

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— Não são meus — replicou a simpática anfitrioa, de

maneira ainda mais cortante do que Heathcliff teria

respondido.

— Ah, os seus favoritos são, então, aqueles? — pros-

segui, apontando para uma almofada cheia de algo pa-

recido com gatos.

— Estranho favoritismo, esse! — observou ela, com