O Nome da Rosa por Um E - Versão HTML

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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

E22n Eco, Umberto, 1932-

O nome da rosa [recurso eletrônico] / Umberto Eco ; tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero

Freitas de Andrade. – Rio de Janeiro : Record, 2011.

Recurso Digital

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-01-09419-3 (recurso eletrônico)

1. Romance italiano. I. Bernardini, Aurora Fornoni. II. Andrade, Homero Freitas de. III. Título.

11-

CDD: 853

1031

CDU: 821.821.131.3-3

Título original em italiano:

IL NOME DELLA ROSA

Copyright © 1980 Gruppo Editoriale Fabbri, Bompiani, Sonzogno, Etas S.p.A.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão

de partes deste livro através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito.

Proibida a venda desta edição em Portugal e resto da Europa.

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos pela

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Rua Argentina 171 – 20921-380 – Rio de Janeiro, RJ – Tel.: 2585-2000

que se reserva a propriedade literária desta tradução

_________________________________________________________

Produzido no Brasil

ISBN 978-85-01-09419-3

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

CRONOLOGIA

Um manuscrito, naturalmente

PRÓLOGO

PRIMEIRO DIA

Prima. Onde se chega aos pés da abadia e Guilherme dá provas de grande argúcia

Terça. Onde Guilherme tem uma instrutiva conversa com o Abade

Sexta. Onde Adso admira o portal da igreja e Guilherme reencontra Ubertino de

Casale

Por volta da noa. Onde Guilherme tem um doutíssimo diálogo com Severino

herborista

Após a noa. Onde se visita o scriptorium e se fica conhecendo muitos estudiosos,

copistas e rubricadores além de um velho cego que espera pelo Anticristo

Vésperas. Onde se visita o resto da abadia, Guilherme tira algumas conclusões

sobre a morte de Adelmo, fala-se com o irmão vidreiro sobre vidros para ler

e de fantasmas para quem quer ler demais

Completas. Onde Guilherme e Adso gozam da alegre hospitalidade do Abade e da

conversa ressentida de Jorge

SEGUNDO DIA

Matinas. Onde poucas horas de mística felicidade são interrompidas por um evento

muito sangrento

Prima. Onde Bêncio de Upsala confia algumas coisas, outras são confiadas por

Berengário de Arundel e Adso aprende o que é a verdadeira penitência

Terça. Onde se assiste a uma rixa entre pessoas vulgares. Aymaro de Alexandria

faz algumas alusões e Adso medita sobre a santidade e sobre o esterco do

demônio. Depois Guilherme e Adso voltam ao scriptorium. Guilherme vê algo

interessante, tem uma terceira conversação sobre o caráter lícito do riso,

mas em definitivo não pode olhar onde quer

Sexta. Onde Bêncio faz um estranho relato do qual se apreendem coisas pouco

edificantes sobre a vida da abadia

Noa. Onde o Abade se mostra orgulhoso das riquezas de sua abadia e temeroso

dos hereges, e por fim Adso desconfia ter feito mal em vagar pelo mundo

Depois das vésperas. Onde, malgrado a brevidade do capítulo, o ancião Alinardo

conta coisas bastante interessantes sobre o labirinto e sobre o modo de nele

penetrar

Completas. Onde se entra no Edifício, se descobre um visitante misterioso, se

encontra uma mensagem secreta com signos de nicromante, e desaparece,

mal encontrado, um livro que será procurado, em seguida, por muitos outros

capítulos, nem será a última vicissitude o furto das preciosas lentes de

Guilherme

Noite. Onde finalmente se penetra no labirinto, tem-se estranhas visões e, como

acontece nos labirintos, fica-se perdido nele

TERCEIRO DIA

De laudes a prima. Onde se encontra um pano sujo de sangue na cela de

Berengário desaparecido, e é tudo

Terça. Onde Adso no scriptorium reflete sobre a história de sua ordem e sobre o

destino dos livros

Sexta. Onde Adso ouve as confidências de Salvatore, que não podem ser

resumidas em poucas palavras, mas que lhe inspiram muitas preocupadas

meditações

Noa. Onde Guilherme fala a Adso da grande corrente heretical, da função dos

simples na igreja, de suas dúvidas sobre o conhecimento das leis gerais, e

quase num parêntese conta como decifrou os signos nicromânticos deixados

por Venâncio

Vésperas. Onde ainda se fala com o Abade, Guilherme tem algumas idéias

mirabolantes para decifrar o enigma do labirinto, e consegue isso do modo

mais sensacional. Depois se come pastelão de queijo

Depois das completas. Onde Ubertino conta a Adso a história de frei Dulcino,

outras histórias Adso relembra ou lê na biblioteca por sua conta, e depois

acontece-lhe ter um encontro com uma moça bela e terrível como um

exército a postos para a batalha

Noite. Onde Adso, transtornado, se confessa com Guilherme e medita sobre a

função da mulher no plano da criação, depois porém descobre o cadáver de

um homem

QUARTO DIA

Laudes. Onde Guilherme e Severino examinam o cadáver de Berengário,

descobrem que está com a língua preta, coisa singular para um afogado.

Depois discutem sobre venenos dolorosíssimos e sobre um remoto furto

Prima. Onde Guilherme induz primeiro Salvatore e depois o celeireiro a

confessarem o seu passado, Severino reencontra as lentes roubadas, Nicola

aparece com as lentes novas e Guilherme, com seis olhos, vai decifrar o

manuscrito de Venâncio

Terça. Onde Adso se debate nos padecimentos de amor, depois chega Guilherme

com o texto de Venâncio, que continua sendo indecifrável mesmo depois de

ter sido decifrado

Sexta. Onde Adso vai procurar trufas e encontra os menoritas chegando, estes

conversam demoradamente com Guilherme e Ubertino e fica-se sabendo de

coisas muito tristes sobre João XXII

Noa. Onde chegam o cardeal do Poggetto, Bernardo Gui e os demais homens de

Avignon, e depois cada um faz coisas diferentes

Vésperas. Onde Alinardo parece fornecer preciosas informações e Guilherme revela

seu método para chegar a uma verdade provável por meio de uma série de

erros seguros

Completas. Onde Salvatore fala de uma magia portentosa

Depois das completas. Onde se visita de novo o labirinto, chega-se ao umbral do

finis Africae, mas não se pode entrar porque não se sabe o que são o

primeiro e o sétimo dos quatro, e por fim Adso tem uma recaída, de resto

bastante douta, em seu mal de amor

Noite. Onde Salvatore se deixa miseramente descobrir por Bernardo Gui, a moça

amada por Adso acaba presa como bruxa e todos vão para a cama mais

infelizes e preocupados que antes

QUINTO DIA

Prima. Onde tem lugar uma fraterna discussão sobre a pobreza de Jesus

Terça. Onde Severino fala a Guilherme de um estranho livro e Guilherme fala aos

legados de uma estranha concepção do governo temporal

Sexta. Onde se encontra Severino assassinado e não se encontra mais o livro que

ele encontrara

Noa. Onde se aplica a justiça e tem-se a embaraçosa impressão de que todos

estejam errados

Vésperas. Onde Ubertino foge, Bêncio começa a observar as leis e Guilherme faz

algumas reflexões sobre os diversos tipos de luxúria encontrados naquele dia

Completas. Onde se escuta um sermão sobre a vinda do Anticristo e Adso descobre

o poder dos nomes próprios

SEXTO DIA

Matinas. Onde os principes sederunt, e Malaquias cai no chão

Laudes. Onde é eleito um novo celeireiro mas não um novo bibliotecário

Prima. Onde Nicola conta muitas coisas, enquanto se visita a cripta do tesouro

Terça. Onde Adso, escutando o Dies irae, tem um sonho ou visão como se queira

dizer

Após a terça. Onde Guilherme explica a Adso seu sonho

Sexta. Onde se reconstrói a história dos bibliotecários e tem-se algumas notícias a

mais sobre o livro misterioso

Noa. Onde o Abade se recusa a ouvir Guilherme, fala da linguagem das gemas e

manifesta o desejo de que não se indague mais sobre aquelas tristes

vicissitudes

Entre vésperas e completas. Onde brevemente se narra sobre longas horas de

confusão

Após as completas. Onde, quase por acaso, Guilherme descobre o segredo para

entrar no finis Africae

SÉTIMO DIA

Noite. Onde, para resumir as revelações prodigiosas de que se fala aqui, o título

deveria ser longo como o capítulo, o que é contrário aos costumes

Noite. Onde ocorre a ecpirose e por causa do excesso de virtude as forças do

inferno prevalecem

ÚLTIMO FÓLIO

Introdução*

É impossível escrever sobre O nome da rosa sem considerar seu extraordinário

sucesso global, tanto para a crítica quanto para o público de forma geral. Trata-se

de um exemplo destes raros fenômenos editoriais, o mega best seller literário que

transcende as fronteiras lingüísticas. Refiro-me por “mega” às vendas estimadas

em milhões, não milhares, e por “literário” quero dizer um romance com o tipo de

ambição artística e individualidade estilística que freqüentemente desanima o

grande público: uma categoria que inclui, digamos, Os filhos da meia-noite, mas

nã o O código Da Vinci. A diferença, como o próprio Umberto Eco afirmou, está

entre o tipo de livro que dá aos leitores o que querem e o tipo de livro que faz os

leitores perceberem o que sempre desejaram inconscientemente. Apenas uns

poucos romances deste último tipo em tempos recentes tornaram-se best sellers,

não apenas em seus países de origem, mas também em suas traduções, e é um

feito particularmente difícil de se obter com livros traduzidos para o inglês, visto

que leitores anglófonos já são bastante supridos com obras literárias de alta

qualidade e tendem a ser preguiçosamente apáticos frente a obras novas de outras

culturas. Pode-se contar nos dedos de uma mão os livros de real destaque que

superam esta resistência: Doutor Jivago, O leopardo, O tambor, Cem anos de

solidão, O nome da rosa... Talvez haja alguns outros candidatos, mas não muitos. E

destes exemplos, o sucesso global de O nome da rosa foi, de muitas maneiras, o

mais surpreendente e imprevisível. Certamente se trata de um tipo de romance

policial, uma forma narrativa universalmente popular; mas as prateleiras das

livrarias estão apinhadas de romances policiais que atraem apenas um público

modesto, e os atributos especiais deste incluem uma formidável quantidade de

discursos não-narrativos sobre filosofia, teologia, e um capítulo particularmente

complicado de história medieval européia, com todos os quais o leitor precisa lidar

para descobrir o assassino. O livro também contém numerosas passagens em

latim, não traduzidas para o vernáculo. Dada a reputação de Umberto Eco como

crítico e jornalista na Itália, O nome da rosa estava destinado a sair muito bem por

lá, e seu editor italiano Bompiani mandou rodar uma primeira impressão de 15 mil

cópias, esperando uma possível venda de cerca de 30 mil. Mas suas chances no

mercado internacional devem ter parecido magras antes da publicação. Fora de seu

próprio país, o professor Eco da Universidade de Bolonha era conhecido, quando

muito, principalmente como autor de livros acadêmicos sobre semiótica e teoria

literária.

O nome da rosa foi recebido com entusiasmo na Itália em sua publicação em

1980, logo vendeu 500 mil cópias por lá e obteve três prêmios literários no ano

seguinte. Foi rapidamente traduzido para o alemão e o francês, e tornou-se best

seller em ambos os países, recebendo o Prix Médicis Étranger na França em 1982.

Os editores ingleses, Secker & Warburg, que obtiveram os direitos por muito pouco,

estavam sem dúvida confiantes de que este sucesso se reproduziria na Grã-

Bretanha quando foi lá publicado em 1983. Enviaram, contudo, seiscentos

exemplares aos “formadores de opinião” literários no Reino Unido (dentre os quais

eu me encontrava) em vez das provas errôneas tediosamente reunidas que

freqüentemente circulavam antes da publicação, na esperança de que este

simpático presente demonstrasse a fé dos editores no livro e garantisse que ele

seria lido. Ao que parece, a estratégia foi bem-sucedida, visto que O nome da rosa

recebeu resenhas extasiadas e atingiu o primeiro lugar na lista de mais vendidos

d o Sunday Times. Vendeu cerca de 60 mil cópias na edição de capa dura, e a

Picador, que pagou apenas 2 mil libras de adiantamento pelos direitos da brochura,

vendeu 850 mil cópias de sua edição até 1992, e o romance ainda vendia 70 mil

cópias por ano.

Nos Estados Unidos, com um mercado mais amplo, o sucesso do livro foi ainda

mais espetacular. Ele havia sido rejeitado por quase todas as grandes editoras

norte-americanas, às vezes mais de uma vez, até que a Harcourt Brace tomou-o

por um adiantamento modesto de 4 mil dólares. Foi publicado em junho de 1983.

Em duas semanas, ele estava na lista de mais vendidos do New York Sunday

Times, e no começo de agosto passou à primeira posição (pouco acima de O

retorno de Jedi), e permaneceu na lista por 23 semanas. Ao final de setembro,

vendera mais de 200 mil cópias, e o direito de brochura foi vendido por uma

quantia recorde para um romance traduzido. Um editor rival comentou: “Não se

trata de marketing, deve haver algo no livro.” De fato. Algo como: um mistério

emocionante, uma caracterização vívida, um ambiente envolvente, uma fascinante

reconstituição histórica, um humor astuto, confrontos dramáticos, assombrosas

peças de cenário, e uma prosa suave e eloqüente que pode mudar de registro para

abarcar a experiência da fé, a dúvida, o horror, o êxtase erótico e o desespero.

“Uma delícia para uma elite, ainda que prazeroso para todos”, foi uma descrição

jornalística de O nome da rosa. Ou como Nicholas Shrimpton observou de modo

acurado quando revisava o romance: “Se você gosta de Sherlock Holmes,

Montaillou, Borges, da nouvelle critique, The Rule of St. Benedict, metafísica,

projetos de biblioteca ou The Thing from the Crypt, você irá amar. Quem pode

passar por cima isto?”

Leitores do romance são afortunados por ter o relato do próprio autor sobre sua

gênese e composição: um pequeno livro intitulado Reflections on “The Name of the

Rose” (“Reflexões sobre ‘O nome da rosa’”), publicado alguns anos mais tarde.

Sendo um sofisticado teórico literário, Eco está bastante ciente do status e

limitações de tais revelações: “O autor não deve interpretar”, diz. “Mas pode dizer

por que e como escreveu seu livro.” Um escritor não deve produzir uma

interpretação “não-autorizada” de seu livro porque isto comprometeria o potencial

de um texto genuinamente literário de gerar diferentes significados de diferentes

leituras, sem jamais exaurir-se por completo; mas contar por que e como escreveu

seu livro pode lançar uma luz singularmente valiosa sobre o processo criativo,

informação que o leitor pode aplicar livremente a sua leitura da obra. Em suma, as

reflexões são elas mesmas abertas à interpretação. Eco nos diz: “Comecei a

escrever em março de 1978, estimulado por uma idéia seminal: senti o desejo de

envenenar um monge.” Mas não nos diz por que sentiu vontade de envenenar um

monge. Pelo que se segue, e pelo próprio romance, podemos deduzir que havia

duas razões possíveis, não excludentes. Uma delas é que, como crítico e semiótico

fascinado pelas produções de cultura popular, e pelos princípios estruturais e

convenções que subjazem a eles, assim como um fã de longa data da história de

detetives clássica, exemplificada pelas histórias de Sherlock Holmes de Sir Arthur

Conan Doyle, Eco possuía um “afã” (segundo este, ou segundo seu tradutor) de

tentar realizar uma história do tipo, e acreditou que uma comunidade monástica

forneceria um ambiente ficcional para tal. Seu título de trabalho por algum tempo

f o i A abadia do assassinato, sugerindo uma variação picante para a fórmula

familiar. Mas podemos especular que havia uma motivação pessoal e psicológica

mais profunda para desejar matar um monge (ou, como se mostrou, diversos

monges), mesmo que apenas no faz-de-conta.

Originalmente, ele pretendia ambientar a história na Itália contemporânea, mas

logo passou a situá-la no final da Idade Média, adicionando mais e mais níveis de

significado através de referências intertextuais e correspondências entre os tempos

medievais e modernos, aproveitando-se de um bocado de conhecimento que havia

obtido anteriormente em sua vida, mas que poucas vezes utilizara em sua carreira

como crítico e semiótico (“Eu era um medievalista em hibernação”, observa). Como

estudante da Universidade de Torino, Umberto Eco passou do estudo do direito

(recomendação de seu pai) para o de literatura e filosofia medieval, escrevendo

uma tese sobre a estética de São Tomás de Aquino, seu primeiro livro publicado. O

nome da rosa é declaradamente o trabalho de um homem que conhece a religião

católica e sua metafísica subjacente com a compreensão íntima e detalhada de

alguém que já foi um fiel. Ele foi criado no catolicismo, e fora outrora “um ativista

católico militante”, mas em algum momento de sua vida adulta Umberto Eco parou

de acreditar, e descreveu-se em 1983 como “um cane sciolto, um cão desgarrado,

que se abstém de afiliação rígida a qualquer movimento religioso ou político”. O

elemento de transgressão inerente ao assassinato, que faz deste uma fonte perene

de interesse literário, acrescenta um frisson extra quando inserido em um contexto

monástico — quando tanto vítimas quanto suspeitos são membros de uma

comunidade religiosa. É possível portanto que esta idéia narrativa tenha atraído

Eco e estimulado sua imaginação em parte porque dramatizava sua própria atitude

ambivalente para com a fé de sua infância, uma mistura de respeito e repulsa,

nostalgia e rejeição. O detetive-herói de O nome da rosa, Guilherme de Baskerville,

é um frade franciscano que possui muitos traços intelectuais que pertencem ao

mundo secular moderno, é em grande medida um crítico da igreja institucional, e

aos olhos de seu acólito devotadamente ortodoxo, Adso, o narrador da história,

acerca-se perigosamente de questionar os fundamentos filosóficos da fé cristã.

Como Eco belamente esclarece em Reflections, a composição do romance

implica realizar escolhas ou decisões regidas por certas restrições, comparadas mas

bastante diferentes das restrições da métrica e da rima que governam a escolha

das palavras na composição de um verso. “Descobri (...) que um romance nada

tem a ver com palavras, em uma primeira instância. Escrever um romance é uma

questão cosmológica, como a história contada no Gênesis.” Isto é, para poder

contar uma história é preciso construir um mundo que possua uma relação lógica e

consistente com o mundo real, e o desafio para o romancista é explorar e

desenvolver esta idéia ou idéias narrativas dentro de certas restrições. A relação

entre o mundo ficcional e o mundo real não precisa ser uma imitação realista (a

alegoria, por exemplo, pode ter uma relação lógica e consistente, ainda que não-

realista com o mundo real), mas no caso de O nome da rosa, esta o é. Ainda que a

biblioteca labiríntica, centro da história, seja invenção de Eco, sua arquitetura é

inteiramente coerente, e a estrutura do monastério no qual está situado

corresponde intimamente com os monastérios beneditinos do período. A planta

fornecida no livro permite ao leitor traçar os movimentos dos personagens com

precisão, e estes são completamente críveis em termos de seqüência e duração

temporais. Em suma, as leis do tempo e do espaço no mundo real são

escrupulosamente observadas no mundo fictício.

O mesmo se aplica ao fundo histórico e cultural do romance. Eco nos conta que

acharia muito mais fácil situar a história nos séculos XII ou XIII, um período que

conhecia bem; mas o dispositivo intertextual de fazer de seu detetive um precursor

medieval de Sherlock Holmes já era central ao projeto, e isto o impeliu a situar sua

história no século XIV, sobre o qual estava inicialmente muito menos informado,

pois a abordagem investigativa empírica do crime, antecipando o método científico

moderno, só poderia ser adotada por um frade franciscano influenciado pelos

ensinamentos filosóficos dos franciscanos Roger Bacon e Guilherme de Ockham,

tendo este último vivido na primeira metade do século XIV. (O fato de que muito

poucos dos leitores de Eco estivessem igualmente bem-informados é irrelevante:

uma vez que o romancista “trapaceie” ao desconsiderar seu próprio conhecimento

sobre uma questão importante, ele arrisca perder a fé em seu próprio mundo

imaginário.) Tendo inserido a ação do romance no começo do século XIV, e após

realizar algumas pesquisas neste período, Eco rapidamente se deu conta de que

um franciscano proeminente naquele tempo inevitavelmente se envolveria no

debate sobre a “pobreza” que então dividia a ordem e afetava criticamente as

relações entre ela e o papado, além de entre o papado e o Sacro Império Romano.

Este tornou-se então o contexto político de sua história, e a fonte de muitos

paralelos intrigantes entre os tempos medievais e modernos. O processo

demonstra um interessante aspecto da composição da ficção, a saber, que a

aceitação de uma restrição que pode parecer frustrante e aborrecida a princípio

freqüentemente conduz à descoberta de novas idéias e materiais para a história.

A história do debate sobre a pobreza é complicada, e nem ao menos o narrador

medieval de Eco, Adso, é capaz de apreender plenamente todas as suas

ramificações; mas no coração dela está: a total obediência aos ensinamentos de

Cristo implicaria a renúncia de todos os bens e poderes materiais? São Francisco

fundou sua ordem no princípio de que sim: seus frades estavam proibidos de

possuir propriedade ou dinheiro, e exigia-se que vivessem através do trabalho de

suas mãos ou da mendicância. Ao longo do tempo, o rigor desta regra foi relaxado

por razões práticas, levando a uma divisão de grupos conhecidos como os

“espirituais” ou fraticelli, que insistiam em uma interpretação extrema da “pobreza”

e eram denunciados como heréticos ou cismáticos da Igreja oficial. Enquanto se

distanciavam dos extremistas, os franciscanos ainda buscavam defender uma

versão moderada do ideal da pobreza, e eram apoiados nisto pelo sacro imperador

romano, que, por seus próprios motivos políticos, desejava restringir o poder do

papa à jurisdição dos assuntos espirituais, enquanto o papa João XXII, naquele

tempo exilado de Roma e com base em Avignon, enxergava os franciscanos com

desagrado por razões inversas. Em 1321, o líder da ordem franciscana, Michele de

Cesena, foi convidado a Avignon para discutir estas questões, mas hesitou,

temendo, com alguma razão, que tal pudesse ser uma armadilha. Este é o contexto

da trama ficcional de Eco: Guilherme de Baskerville vem a um mosteiro beneditino

nas montanhas do norte da Itália em novembro de 1321 para comparecer a uma

reunião dos teólogos do imperador e do papa, que irão preparar a base para um

acordo da disputa em presença do próprio papa em Avignon. Porém, sua visita

coincide com uma série de assassinatos espantosos na abadia, que passa então a

ser o foco da narrativa. Por que em novembro? Porque Michele de Cesena de fato

foi a Avignon em dezembro de 1321. E por que o mosteiro se encontra nas

montanhas? Porque a trama exigia que uma vítima de assassinato fosse

encontrada em um tonel com sangue de porco, e os porcos eram freqüentemente

mortos em temperaturas baixas, o que na Itália em novembro seria mais plausível

a uma altitude elevada. E por que a vítima precisava estar mergulhada em sangue

de porco? Porque os diferentes métodos empregados pelo assassino precisavam

parecer corresponder às profecias dos sete anjos do Apocalipse, ou do Apocalipse

de São João, anunciando o fim do mundo, sendo que o segundo afirmava que parte

do mar se transformará em sangue.

Estes elos lógicos são os elementos básicos que mantêm unida a estrutura da

narrativa na mente do romancista; dificilmente são notadas como tais pelo leitor,

que vivencia o livro de um modo bastante diferente, como um fluxo de informação

no qual muitos fios diferentes são entrelaçados, por vezes de modo confuso. Por

exemplo: não é senão após uma centena de páginas no livro que a natureza

precisa da missão de Guilherme é explicada, embora haja alusões oblíquas a esta.

Tampouco são estes os únicos desafios à paciência e perseverança do leitor.

Primeiro, ele precisa atravessar os portais do enganoso aparato erudito que explica

como a história de Adso foi obtida pelo “editor”; em seguida, ele precisa assimilar

as regras, rotinas e protocolo da vida monástica, conhecer a divisão temporal do

dia nas horas canônicas das Matinas, Laudes etc., acompanhar a completa e

exaustiva descrição do entalhe na porta da igreja na qual a figura do mundo

medieval é sobejamente ilustrada, e pegar-se com todo tipo de recônditas alusões

teológicas e das escrituras. Eco revela que amigos e editores que leram seu

romance em forma de manuscrito recomendaram que ele abreviasse as primeiras

cem páginas, que julgaram “muito difíceis e exigentes”. Ele se recusou a fazê-lo,

sob a premissa de que estas páginas eram como uma “penitência ou iniciação”.

Além do mais, aqueles que não pudessem atravessá-las jamais chegariam ao fim

do livro; aqueles que o fizessem teriam aprendido como lê-lo, e não seriam

capazes de parar. Esta notável demonstração de fé em seu próprio trabalho foi na

ocasião completamente justificado, mas ele testou o esforço e a atenção de seus

leitores até as últimas linhas do romance, que contém uma pista criptografada em

latim sobre o significado de seu título. (Irei retornar a isto adiante.)

* * *

Umberto Eco escreveu o que foi com efeito sua própria “propaganda” na sobrecapa

da primeira edição italiana de O nome da rosa, na qual previu que seria lido de três

diferentes maneiras:

Difícil de definir (romance gótico, crônica medieval, ficção policial, narrativa ideológica à clef, alegoria) este

romance (...) pode talvez ser lido de três formas. A primeira categoria de leitores será tomada pela trama

e pela coup de scène, e tolerará até mesmo as longas discussões livrescas e diálogos filosóficos, pois

perceberá que os sinais, traços e sintomas revelatórios se aninham precisamente nestas páginas

distraídas. A segunda categoria ficará apaixonada pelo debate de idéias, e procurará estabelecer as

conexões (que o autor se recusa a autorizar) com o presente. A terceira se dará conta de que este texto

é um tecido de outros textos, um “quem matou?” de citações, um livro feito de livros. **

Michael Caesar sugere de forma plausível que há uma hierarquia na listagem

destes tipos de leitura, sendo a última a mais autorizada. Uma leitura apreciativa

completa do romance deve, contudo, combinar todas as três.

O primeiro tipo de leitura responde ao romance predominantemente como uma

história de crime e investigação, na qual a principal pergunta narrativa é “quem

matou?”. Um crime é cometido, ou uma série de crimes relacionados, e o leitor

envolve-se na jornada de encontrar o culpado, contrapondo talvez seus próprios

julgamentos com os do detetive na interpretação das pistas. Esta é sem dúvida a

primeira fonte de interesse de muitos leitores de O nome da rosa, o atrativo que,

mais que qualquer outro fator, impele-os a prosseguir virando as páginas. Mas tal

leitor dificilmente deixaria de notar que o detetive franciscano medieval é uma

reencarnação literária (ou historicamente uma pré-encarnação) de Sherlock

Holmes. O lugar de origem de Guilherme alude a uma das mais famosas histórias

de Sherlock Holmes, O cão dos Baskerville, e Adso, o companheiro de Guilherme,

possui muitos traços de caráter, e a mesma função narrativa do fiel companheiro

de Holmes, Dr. Watson. Ainda no primeiro capítulo, Guilherme demonstra seus

poderes de dedução ao admirador Adso, extrapolando de algumas pegadas de

cascos na neve um relato circunstancialmente acurado de como um cavalo em

particular fugiu da abadia, uma reprise quase paródica de muitas cenas similares

nas histórias de Sherlock Holmes. A abadia é freqüentemente envolvida em neblina

em momentos cruciais, um recurso meteorológico dileto de Conan Doyle para

elevar o mistério e o suspense; e quando Guilherme finalmente confronta o vilão da

história, há o mesmo respeito mútuo entre eles como entre Holmes e Moriarty. Em

suma, é pouco provável ser um leitor da primeira categoria de Eco sem desfrutar

parte de alguns prazeres intertextuais apreciados pela terceira categoria.

O nome da rosa obedece em vários aspectos à estrutura da ficção policial

clássica, como elegantemente analisada pelo narratologista Tzvetan Todorov. Ele

destaca que esta consiste na verdade em duas histórias: a história do crime, que o

detetive tenta reconstruir pelas provas à disposição, trabalhando do efeito à causa,

e a história da própria investigação, que procede da causa ao efeito (sendo o efeito

derradeiro a revelação do culpado). A segunda história é freqüentemente narrada

por um amigo do detetive (por exemplo, Watson), que admite escrevê-la, enquanto

a história do crime jamais admite sua qualidade literária. O nome da rosa obedece

a este padrão. Muitas ficções policiais modernas se situam em um ambiente

fechado — uma casa de campo, por exemplo — que limita o número de possíveis

suspeitos e cria uma relação interessante entre eles; a abadia de Eco e sua

comunidade dispõem de um perfeito equivalente medieval. A forma tende a uma

“estrutura geométrica” — Todorov cita o exemplo de Assassinato no Expresso

Oriente de Agatha Christie, que possui, entre um prólogo e um epílogo, doze

capítulos, doze suspeitos e doze interrogatórios. A ação de O nome da rosa é

dividida em sete dias, tal como a criação do mundo por Deus no Gênesis, em cada

qual ocorre um assassinato. No policial clássico, observa Todorov, mesmo naquele

em que se encontra um assassino serial, “uma regra do gênero postula a