O Pacto Dos Lobos por Nina Blazon - Versão HTML

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The Pact

Of

The Wolves

Nina Blazon

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Sinopse

Blanka, uma garota de 16 anos de idade, ganhou uma bolsa de estudos

numa escola centenária, fundada num local de um Convento e orfanato

que estavam envolvidos em um famoso julgamento de bruxas do século

XVII. Na noite de orientação ela é perseguida pelos Lobos, um grupo de

estudantes de origem misteriosa. Blanka tenta escapar dos ameaçadores

estudantes, ela se depara com o corpo de uma mulher morta, assim

começa uma investigação que a leva de volta ao passado negro da

escola. Com a ajuda do namorado de sua colega de quarto, um ex-

assistente na escola com uma extraordinária capacidade de assaltar

lugares, e um estudante universitário que também é perseguido pelos

Lobos, Blanka viaja através de indícios e documentos históricos, com

uma capacidade quase psíquica.

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Prólogo

Desde o começo dos tempos havia deslizado pelos corredores. O lugar era

escuro como a noite, mas seus olhos estavam cientes de todas as tonalidades em

cada canto, cada fresta entre as lajes de pedra. Poderia distinguir cada cheiro - o

odor que se alternava entre o pó de velhos e novos, um odor estranho. Uma e outra

vez ele tentou se levantar, finalmente fazendo o seu caminho como de costume, em

quatro pés.

A partir do som que fez a auto-execução pela frente em ambas as pernas,

parecia ter percebido que embora ele estivesse engatinhando, era mais rápido,

muito rápido, o que o Ser aparentemente não conseguia ver bem no escuro.

Laboriosamente Ser andou ao longo das paredes, ocasionalmente tropeçando,

gritando com fúria toda vez que o fazia.

Para a batida de sua falta de ar, suas garras clicaram na pedra, que de

repente já não era áspera e fria, mas muito suave. Em torno de seu corpo, o espaço

estava sendo expandido para um infinito que refrigerava até o osso. De vez em

quando parecia estar flutuando no vazio, ou em um daqueles sonhos que muitas

vezes você lançou um feitiço. Quando ele dormia, seu mundo era fragmentado em

cores, imagens e rostos grotescos, até que começou com o terror, arranhões, pois

neste mundo de sonho que tinha arranhado o ferro. Eu podia sentir o cheiro do

sangue e do despertar do cheiro de mofo na cova de sua família, onde ele dormia.

Havia marcas de unhas nas paredes e em torno dele.

E, no entanto este lugar sem limites não parecia ser uma ilusão. Eu não

conseguia entender os sons agradáveis que Ser fazia, mas alguns eram familiares e

me fez sentir bem. Ser ainda foi em frente, inclinou-se correndo tão rápido que, no

final, parecia voar sobre o chão liso, animado com o comprimento da sala. O mundo

cheirava diferente aqui extremamente agudo- e todos os sons eram brilhantes.

Quando ela se abaixou e passou o nariz no chão liso, sendo chamado de volta.

— Vem! — Ser conhecia essa palavra muito bem, mas da boca do estranho

para Ser não soa como uma ordem, mas sim como uma carícia. — Venha, venha

comigo! — Defendeu a voz, e de repente se virou e se inclinou sobre ele,

envolvendo-o em um abraço. Senti o medo de Ser agarrado a si mesmo até que

seus músculos começaram a tremer e ele fechou os olhos com medo. Estranhas

imagens extravagantes bombardeavam-no. Ainda assim, foi puxado na vertical. Ele

resmungou, porque foi atingido por uma estranha sensação - talvez até mesmo

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perigosa. Balançando-se e se dobrando, ficou lá curvado sobre Ser sentindo sua

pulsação.

— Venha comigo! — Ele repetiu. Sentiu o cheiro da pele, agradável e

estranhamente familiar. Ele caiu de novo. Sussurrando, soava incompreensível que

penetrou sua consciência. Mas Ser pareceu não ouvir, arrastando e arrastando

pelos pés, foi se tornando mais e mais forte. A luz cintilou no chão e paredes. Ser

gritou e se arrastou para trás tão rápido que ele bateu numa coisa clara, dura, e

deu um grito de dor. Uma voz cresceu, houve gritos, passos. Algo esbarrou em seu

ombro. Pela primeira vez em sua vida, morderia uma mão, mas seus dentes só

moderam o ar, por causa da luz ofuscante. Houve um baque, algo se apreendeu de

Ser e jogou-o no chão. Sons da dor e duras palavras vinham e iam, e alguém gritou

para Ser, que, como ele, estava agachado no chão. Ser gritou algo e depois houve

outro golpe.

— Venha! — Esta palavra, desta vez era uma ordem. Assobiou,

arreganhando os dentes. Seus olhos piscando pela luz refletida no chão e passou

por cima de um objeto liso e transparente, então, de repente pousou sobre eles.

Eles viraram a cabeça e fugiram. No momento seguinte o seu mundo foi

despedaçado pela dor. Os dentes foram enterrados no pescoço e ombro. Ser gritou

uma última vez. O cheiro de sangue em torno dele. Então tudo ficou em silêncio.

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Capítulo 1

Blanka

Blanka estava congelando. Apesar de ser meados de abril, ela não havia

levado uma jaqueta. Havia esperado estar em constante movimento, não

esperando ao redor da esquina mais afastada do campo a beira do bosque.

A escola era uma silhueta irregular contra o céu noturno. Um semicírculo de

tochas, presas por suportes de ferro, iluminavam as árvores atrás dela.

Duas figuras camufladas com capas escuras, carregando tochas, haviam

simplesmente, aparecido e levado longe um segundo grupo de estudantes.

Agora havia somente quatro deles à esquerda – duas outras garotas, que já

haviam emparelhado, permaneciam um pouco afastadas deles; Blanka e um garoto

pálido com cabelo loiro, alguém que ela não havia notado esta manhã na cerimônia

de boas vindas.

— Se vê como eles estivessem sendo levados a uma execução, não é assim?

— disse o garoto pálido, abrindo o fecho de sua jaqueta.

Blanka envolveu seus braços ao redor de si e observou a pequena procissão

até que tudo que pôde ver foram dançantes pontos de luz. A última coisa que ela

queria era uma conversação. Já devia ter passado da meia noite e estava exausta.

Memórias dos passados dias corriam por sua cabeça: a longa viagem de trem, a

cerimônia de boas vindas, passando sua primeira noite sozinha em seu novo

quarto na ala de dormitórios das garotas da Escola Internacional Europa.

— Se as coisas continuam assim, todavia estaremos aqui amanhã pela

manhã. — comentou o garoto, tratando de seguir a conversa. — Se houvesse

sabido que estaríamos congelando nossos traseiros deste modo, teria chegado um

dia mais tarde.

As luzes das tochas descoloriram na distância. — O tipo que nos mostrou

nossos quartos hoje disse que o passeio turístico vai ao cemitério dos órfãos. —

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continuou o garoto. — O velho cemitério do bosque costumava pertencer ao

Convento. — Nervosamente, passou as mãos por sua jaqueta outra vez. — Aposto

que alguns idiotas vão saltar de detrás das lápides e gritarão “Boo! ” com trajes

estúpidos. Tudo é tão patético.

Blanka olhou o prédio da escola outra vez, tratando de imaginar ao

Convento que havia estado ali há séculos, ao invés da existência do moderno

prédio, de teto plano e com muitas janelas. O folheto havia mostrado um velho

desenho do prédio original.

Agora os únicos que recordavam a história desse lugar, era o velho

cemitério de órfãos com a capela Belverina, e os objetos expostos no museu do

Convento. E, desde logo, toda essa conversação da medieval Sociedade de Lobos, a

qual só pode pertencer os estudantes mais velhos. Coisa de meninos pensou

Blanka.

— Em que matéria você está se especializando? — perguntou o garoto.

— Matemática - probabilidades e estatísticas.

— Oh, então pode falar. — ele deu um sorriso inclinado. — Registraram-me

para o curso especial de artes. A propósito, meu nome é Jan.

— Oh!

— Estou te incomodando?

-— O que te faz pensar isso? — ela soltou. Inclusive quando falou, lamentou

ser rude. Depois de seu aniversário, esse maldito aniversário de dezesseis quando

tudo havia ido mal, que tudo poderia provavelmente ir mal a sua vida, ela parecia

ter se esquecido de como falar com outras pessoas. Jan imediatamente se calou, e

fingiu estudar as árvores. As duas garotas se moveram um pouco mais longe, então

poderiam mandar mensagens de texto sem interrupções.

Passou outra meia hora em silêncio antes que os pontos de luz começassem

a dançar outra vez. Cinco figuras estavam vindo sobre a campina até eles. Dois

estavam usando máscaras de lobo, e as outras usavam trajes medievais. Uma delas

reluzia de um brilhante amarelo e vermelho a luz da tocha.

— Por que há tantos agora? — sussurrou Jan.

— Quatro para nos dominar e um para agitar a faixa. — respondeu Blanka.

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Jan soltou um riso nervoso. — Deve parecer gracioso agora, mas no

caminho para cá, conheci um estudante universitário, ele costumava vir a essa

escola.

— Bom, claramente sobreviveu ao passeio turístico noturno.

— Ele não mencionou esses mascarados. Ele só disse que os Lobos estavam

todos loucos e que deveria ter cuidado. Eles arrastaram um garoto que havia

enrolado com eles fora de seus quartos uma noite, colocaram-no em um saco, e o

jogaram no rio.

— Quê?

— Tenho certeza de que ele não estava exagerando. — Jan baixou sua voz a

um sussurro, como se as figuras se aproximando pudessem ouvi-los. — Resultou

que o saco era fácil para abrir e o rio tinha só um metro ou dois de profundidade,

mas ainda assim..

Blanka tremeu. A noite parecia ainda mais fria. — Que aconteceu depois?

— Ele não pôde provar que os Lobos haviam feito isso. Todos eles tinham

desculpas, e o diretor naquele tempo acreditou neles.

— Relaxe. — disse Blanka. — É só um passeio turístico, no folheto o faziam

soar como uma atração turística. Uma vez ao redor do campus, na velha casa

sensorial, e ao cemitério, isso é tudo.

— Silêncio! Sem falar!

Blanka e Jan giraram ao redor. Pontiagudos caninos brilharam na luz das

tochas, e órbitas vazias os olharam.

Um garoto alto, com uma máscara de Lobo deu um passo até eles. Levava

uma lança na mão e sua capa de pele estava surrada e fedida, como se houvesse

estado em um sótão úmido por um longo tempo. Algo sobre ele deixou claro que

ele era o que o resto seguia. Outra figura mascarada, usando um traje de sacerdote

verde escuro e uma máscara de ferro, também havia saído do bosque e, agora,

estava ao seu lado. Blanka por pouco retirou um comentário depreciativo, sua

entrada misteriosa havia tido efeito e ela não se sentia tão valente. Quanto tempo

poderiam ter estado esses dois se escondendo e observando o bosque atrás deles?

Há esta hora os demais haviam cruzado o prado e formaram um círculo perto dos

quatro recém chegados.

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— A quem levaremos? — grunhiu o da túnica colorida. De seu cinto

pendurava o que parecia ser um longo osso, de cor clara do qual os buracos haviam

sido perfurados a intervalos regulares. Isso poderia ter sido uma flauta. Houve um

som de tilintado quando ele saltou para frente e deu a Blanka um rude empurrão.

— Hey! — ela gritou em protesto, dando um passo para trás. Ela sentiu o

fôlego de outra das figuras mascaradas na parte de trás de seu pescoço e saltou. Ela

examinou os olhos azuis claro.

— Hmm, nós pegaremos esses dois do fundo, e este pequeno. — declarou

um deles. — Assustar-se-á de outro modo, sozinho na escuridão! — era uma vez

feminina, e seu traje confeccionado sobre o hábito de um monge, exceto pela larga

vara que ela repetidamente golpeava contra sua mão. Blanka lembrou algo.

Poderia ser ela a garota de cabelo curto que lhe havia designado seu quarto? Ao

redor da máscara branco gesso, dava-lhe a seu rosto uma expressão severa,

tranças obscuras sobressaiam.

— Então, você volte ai – e vocês! — rugiu o garoto que havia empurrado a

Blanka, apontando sua flauta de osso às garotas e a Jan.

Como se pela ordem, os demais inclinaram suas cabeças para trás, e

começaram a uivar, apertando o círculo e levantando suas tochas de modo

ameaçador.

— Calma. — se queixou Jan. Ele ajustou sua jaqueta outra vez, e se uniu as

duas garotas. O círculo desapareceu quando dois dos Lobos tomaram seus lugares

a direita e a esquerda deles. Eles assentiram aos demais e partiram com os três

novatos através do prado até a escola. Jan olhou para trás e vacilou por um

momento, mas quando viu a Blanka estendendo a mão a sua mochila como se fosse

se unir ao grupo, então deu a volta e alcançou aos outros.

— Onde pensa que vai? — a monja perguntou de maneira ameaçadora,

dando um passo a frente de Blanka. Batendo, batendo a vara. — Não podemos

levar mais de três pelo passeio turístico. Antes que Blanka pudesse responder, os

outros haviam formado uma barreira diante dela. Involuntariamente, ela pegou

sua mochila. O garoto alto, o com a lança, deu um passo fora da linha e andou em

um círculo ao seu redor.

— Não é tanta a diversão por estar aqui sozinha, verdade? — murmurou. Os

outros riram, como se o ordenasse.

— O que você pensa que está fazendo? — Blanka perguntou com

indignação, sua voz um pouco mais estridente do que teria gostado.

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O líder estendeu sua mão para acariciar seu cabelo preto.

— Uma verdadeira Branca de Neve. — zombou. Seus olhos escuros

brilhavam detrás de sua máscara de Lobo. Sua voz parecia familiar a Blanka...

— Sei de você. — disse ela. — Esta tarde nos levou através da escola. É

Joaquim.

— Aqui só sou uma coisa.. Teu pesadelo. — fez uma pausa para dar efeito -

Blanka.

— Estou impressionada. — respondeu zombeteira. — Levou muito tempo

para você aprender os dez novos nomes de memória?

— Sabemos muito mais sobre você. — lhe sussurrou Joaquim. — Você vem

de um pequeno povoado do lado de nada, lê muitas histórias de detetives, e quer

cursar psicologia na universidade. É boa em matemática – mas não o

suficientemente boa para esta escola. E quando tenhamos terminado contigo,

entenderá por que.

Desde a batida em seus dedos, Blanka se deu conta do quão forte que estava

segurando as alças de sua bolsa. Os Lobos estavam em silêncio agora, só uma

parede de boca, as manchas de sombra e as línguas de fogo. Aproximou-se um

pouco mais. A monja se apoderou de seu bastão com firmeza. Blanka se obrigou a

responder com calma.

— Incrível. — disse a Joaquim, olhando-o no rosto. — Inclusive pode ler as

listas de designação dos quartos. Quanto tenha terminado com essa farsa, pode

finalmente partir?

Ninguém respondeu. O silêncio era asfixiante. Então a monja maneou seu

bastão e, com um grito de guerra, deu um salto para frente. Pegou o pau tão rápido,

que Blanka teve apenas tempo de raciocinar. A arma se deteve justo diante de seu

nariz.

— Nariz quebrado. — sussurrou a monja. Rápida como o raio, deu outro

giro e obrigou Blanka para um lado com um golpe fingido. — Costas! — os demais

Lobos riram. O coração de Blanka estava correndo como em uma maratona, e

sentia como se os joelhos fossem de borracha. Já não era uma brincadeira.

—Tem medo? — sussurrou o menino com a flauta de osso. — Você deveria!

- Blanka tragou saliva.

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— Cinco contra um. — respondeu ela. — Ao que parece, são vocês os que

têm medo. — a monja ria.

Joaquim deu um passo à frente. — Bom, vamos ver quão valente você é de

verdade. — ao sinal dele, seus seguidores pegaram as tochas de seus participantes.

Deixando só uma em seu lugar.

— Voltaremos. — disse em voz baixa. — E então veremos quem tem a boca

grande aqui. Ou você vai correr direto para casa da mamãe? — riu, deu a volta e

partiu. Obedientes, os Lobos o seguiram.

— Dez minutos, Joaquim. — chamou Blanka depois deles. — Não vou

esperar mais que isso. — ninguém se virou.

Blanka se deixou cair sobre a grama fresca e tratou de respirar com calma.

Levou um bom tempo. Não até que os Lobos estiveram longe de vista começou a se

sentir irritada. Por que se deixou intimidar por ela?

Evidentemente, assustar aos novos estudantes era parte do programa. Bom,

sem dúvida esses disfarces tão estranhos não eram de seu agrado. Abraçou as

pernas e pôs sua cabeça sobre os joelhos. Tão logo como ela fechou os olhos, viu o

rosto de seus pais.

Precisamente ontem a haviam levado até a estação. Através da janelinha do

trem que havia visto seus infelizes rostos, se tornar cada vez menores. De certo

modo, parecia que havia sido há anos, porém a sensação de perda era, todavia,

intratável.

Quando Blanka abriu os olhos, só via escuridão. Devia ter dormido. A tocha

só havia desaparecido, fazia ainda mais frio e as pernas estavam adormecidas.

Atordoada, esfregou os olhos, buscou no bolso e pegou seu relógio do bolso. A lua

crescente estava parcialmente escurecida por uma nuvem de luz, e em sua luz fraca

só se podia adivinhar a posição dos ponteiros do relógio. Ela havia estado sozinha

durante quase uma hora. Blanka lutou contra o impulso de gritar de raiva. Os

Lobos simplesmente a haviam deixado para trás! Como poderia ter sido tão

estúpida como para esperar na beira do bosque como um cachorro bem adestrado?

Nem sequer havia se surpreendido por terem levado as tochas com eles. Claro:

desempenhavam esse truque com o último estudante, e hoje passou a ser ela.

Pouco a pouco ficou de pé e esfregou os joelhos esticados.

— Idiotas. — resmungou ela. Com passos inseguros cruzou o gramado, em

direção aos prédios que apenas se distinguiam. Os arbustos pareciam sombras que

espreitam ao lado da rota principal, mas o rangido dos sapatos no cascalho era

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reconfortante. Por último, Blanka alcançou o estacionamento dos visitantes e

correu pelo caminho de pedra até a porta principal.

Diretamente na frente dela estava à antiga casa solar, que havia sido

construída nos início do século XX. Hoje em dia, servia como dormitório dos

meninos. Blanka recordou que o dormitório das meninas estava à direita deste

prédio, no mesmo edifício da biblioteca, e se dirigiu até a estrutura de vidro. A

porta estava fechada – claro. Olhando ao redor, Blanka descobriu uma entrada

lateral à esquerda, onde estava a campainha e o porteiro.

Teria que levantar alguém para conseguir entrar no interior do prédio. O

sensor de luz acendeu de forma automática, sobressaltando-a. Blanka vacilou, e

logo fez soar a campainha. Esperando uma voz cansada, e sem nenhuma expressão

no outro extremo, apoiou-se contra a porta e quase caiu de bruços sobre o umbral.

Olhou estupefata, ao corredor escuro que tinha aberto diante dela. A porta estava

aberta!

Nenhuma voz chegou através do comunicador. Bom, ao menos não se

afogaria na vergonha de ter que explicar o que estava fazendo aqui, às duas da

manhã.

O corredor passava pelos banheiros do vestíbulo da biblioteca. As portas de

vidro brilhavam pretas como a água do pântano. Aqui, em terreno seguro, Blanka

sentiu a volta do esgotamento. Ela só queria dormir. Sentiu um puxão no pescoço.

Por ali deveria ter uma porta ou janela aberta. Blanka se deteve e aguçou o ouvido

na escuridão. Por suposto que podia escutar algo – todo mundo escuta ruídos na

escuridão. Este lhe recordou a uma lamúria metálica distante. Blanka conteve a

respiração e esperou. O ruído cessou, e em seu lugar, imaginou, sentiu um

movimento nas sombras a sua direita.

— Olá? — gritou tentando. Silêncio. Sem dúvida, o interruptor de luz

deveria estar em algum lugar perto das portas. Ela bateu com a mão contra a

superfície dura, que estava mais perto do que esperava. Seus dedos tocaram pela

primeira vez o vidro frio, e logo metal, e, por último, papel tapete liso. Ao final

encontrou o interruptor. A luz fluorescente piscou. As mesas de leitura brilharam

entre as cadeiras desertas.

Blanka soltou um suspiro de alívio, seguiu seu caminho passando as mesas,

e foi até a escada que conduzia ao segundo andar. Lembrava-se bem, o cômodo

principal da biblioteca estava à direita, e à esquerda estavam as escadas que

conduziam a casa.

Enquanto corria, quase não se deu conta do objeto no chão – uma capa

enrugada de algum tipo. Parecia como se alguém acabasse de jogá-la sem cuidado.

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Mas, havia algo envolto nela? Blanka se deteve para dar uma olhada mais de perto.

Deu-se conta dos dedos que sobressaiam de uma das mangas largas. E meio

escondido debaixo da volta do pescoço para baixo, rodeada de cabelo cinza escuro,

uma bochecha estava tocando o chão de pedra. Com uma expressão de assombro

suave, azul, os olhos abertos olhando o vazio.

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Capítulo 2

Madame Lalonde

A diretora Marie-Claire Lalonde tinha a situação sobre controle. Havia

dito ao jovem detetive que se sentara na cadeira que estava mais próxima de seu

escritório, amavelmente, mas tão firme que não havia lugar para objeções. A luz

solar entrava, a lhes saudar na sala através da grande janela, e poderia cegar.

Cada vez que ele levantava a vista de seu caderno para perguntar a Blanka à

seguinte pergunta, ele entrecerrava os olhos. Blanka, por outro lado, estava

sentada na esquina sombreada, perto da porta. A cadeira era um tanto baixa como

para ser cômoda. A sala, em si, tinha um ar de sérias discussões e importantes

decisões. Normalmente, só os estudantes estariam sentados aqui, recebendo uma

reprimenda de Madame Lalonde. Logo de uma noite em vela, Blanka se sentia

desfocada e desequilibrada, mas, pelo menos, já não tinha frio, agora que Madame

havia colocado uma xícara de chá em suas mãos. O detetive não se via muito mais

desperto do que ela estava.

— Excelente. — disse finalmente, pondo seu lápis dentro do bolso de sua

camisa. —Acho que isso é suficiente por agora. — com algo de esforço, tirou um

cartão amassado de sua bem manuseada agenda. — Aqui está meu telefone para

contato. — a cadeira rangeu quando se inclinou para Blanka.

— Obrigada. — disse Madame Lalonde, interceptando e tomando o cartão

rapidamente. O detetive franziu o cenho, mas não fez objeções. Pela primeira vez,

Blanka acreditou ter visto um pingo de emoção em seu rosto. Parecia claro que não

lhe importava particularmente Madame Lalonde. A diretora não se sentou,

permaneceu parada com o cartão ainda em sua mão. Em verdade, Blanka estava

agradecida nesse momento pelas autoritárias maneiras desta alta e assombrosa

mulher. O detetive ficou de pé.

— Se pensar em algo mais, ligue para mim. — disse ele, olhando para

Blanka diretamente. — Carsten Seibold, tudo está no seu cartão. — na palavra

‘seu’, a qual enfatizou, dirigiu um olhar de soslaio a diretora.

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— Farei isso. — Blanka conseguiu dizer. — Obrigada.

— Bom, então estou indo. Agora se cuide.

Quando ele ofereceu sua mão para um aperto – uma mão que saiu de uma

ampla que era um tanto larga demais – seu estômago se sacudiu. Ela teve que

forçar a si mesma a lhe dizer adeus. Madame Lalonde estava olhando atentamente

cada um dos movimentos do detetive – como se estivesse assustada de que ele

pudesse tirar uma arma e levar Blanka para fora. A porta se fechou, e tudo

terminou. Blanka soltou um suspiro de alívio e se enterrou mais em sua cadeira.

Seus dedos estavam batendo por culpa do calor da xícara.

— Pelo menos beba um pouco mais. — disse Madame Lalonde. Ela se

moveu até onde o oficial de polícia havia sentado. Diferentemente dele, ela não

entrecerrava os olhos, ainda que a luz do sol estivesse chegando direto ao seu

rosto, destacando cada pequena linha. Obediente, Blanka levou a xícara aos lábios e

sorveu.

— Sinto que você tenha tido que passar por isso. — disse Madame depois de

uma longa pausa. — E no seu primeiro dia em minha escola. — Blanka estava a

ponto de responder, mas a diretora continuou. — Bom, pelo menos pude te

oferecer o maior apoio que tenhamos disponível. Aqui, no Colégio Europa

Internacional, nós temos a sorte de ter relações próximas com a Universidade.

Você sabe que, por suposto, nossos cursos opcionais são dados, em parte, pela

associação de professores dali. Um deles é um grande psicólogo, Dr. Hasenberg, e

ele estão aqui, no colégio, pelo menos uma vez por semana. Assim que se você

quiser..

—Não, obrigada. — disse Blanka. — É amável de sua parte oferecer, mas

posso dar conta do que passou ontem à noite. Só estou esgotada. — Acaso ela

passando por um naufrágio emocional?

Madame Lalonde franziu o cenho. Blanka teve o pressentimento de que ela

estava analisando suas palavras, colocando-a na luz e retorcendo e adiantando,

como um médico olhando uma placa de raios-X. Ela fez um esforço para lhe

devolver o olhar à diretora com indiferença. Os olhos de Madame não eram azuis,

mas um não usual círculo preto contrastava fortemente com a íris. Era um olhar

hipnotizante e, espantosamente intenso.

— Entenderia se você quiser voltar para casa por um tempo logo depois

desse choque. — disse finalmente a diretora. Sua voz soava cálida e compreensiva.

— Se você quiser, pode voltar em algumas semanas. — A xícara se sentia como um

peso de chumbo nas mãos de Blanka. Sua casa passou diante de seus olhos: seu pai

inclinado sobre um rádio que havia desmontado, com sua testa profundamente

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enrugada; sua mãe voltando para casa do trabalho, pálida, mas se movendo

energicamente, com os cômodos sapatos que usava tarde nos corredores e no

restaurante do Hotel Mountain View. Esta imagem parecia alheia a ela nesse

momento, e não se sentia como em casa. Ela lembrou as palavras de Joaquim. —

Você não é boa o suficiente para essa escola. — afirmações como essa não

deveriam incomodá-la, não a ela, a Blanka de quem ela tanto se orgulhava de que

não chorava. De todas as formas, as lágrimas repentinamente encheram seus olhos.

Ela revirou nos bolsos de seu jeans até que tirou um lencinho amassado. Pelo canto

do olho, viu que Madame Lalonde estava ficando de pé, e no momento seguinte

sentiu uma mão em seu ombro.

— Se você não se sente bem para continuar estudando depois deste

incidente, nós podemos atrasar sua solicitação por seis meses. Você nem sequer

teria que solicitar de novo, tua beca seria simplesmente adiada até que...

— Não! — a palavra escapou de maneira mais violenta do que ela queria.

Ela se aferraria a esta oportunidade que o colégio estava lhe dando. Para surpresa

de Blanka, a diretora riu.

— Não quebre a pobre xícara! Ninguém quer te mandar para longe daqui,

começando por mim. Estou contente de admitir uma estudante tão boa. Tenho que

ler tua solicitação cuidadosamente. Está interessada em fazer psicologia na

universidade?

Blanka assentiu.

— Bom, acredito que você tem o que precisa. Tua determinação de

permanecer aqui, por um lado, demonstra-me que você não se retrai facilmente. —

Madame Lalonde sorriu e, repentinamente, parecia muito agradável. Seu cabelo

cor de caramelo brilhou com a luz matutina do sol. — Sabe, estava segura de que

você ficaria. Quase nunca me equivoco em minha avaliação dos novos estudantes.

— com estas palavras, ela voltou a seu escritório. Blanka escutou o rangido de uma

gaveta sendo aberta. Madame Lalonde continuou falando enquanto pegava uma

grande quantidade de papéis. —Você é muito brilhante, isso esta claro. Mas, às

vezes, tem a língua muito mordaz. Estou certa? Acho que você no fundo é um tanto

diferente. — seus olhos eram suaves e amáveis. — Eu era muito parecida com você

quando era jovem. Tenho certeza de que se encaixará muito bem aqui.

— Bom, não é isso que acham os Lobos. — as palavras simplesmente

saíram. — É verdade que uma noite eles jogaram um estudante no rio?

Os olhos de Madame Lalonde se tornaram sérios novamente.

— Quem te disse isso?

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— Um estudante novo, ele escutou isso a caminho daqui.

Madame Lalonde suspirou e empurrou uma mecha perdida de seu cabelo

para trás da orelha.

— Sim, essa história tem dado voltas durante bastante tempo, é uma lenda

urbana persistente. — disse. —Ainda que, em todo tempo que levo sendo diretora

aqui, nunca recebi uma queixa como essa. O que é mais difícil, eu posso imaginar

como alguém pode ter, supostamente, raptado um estudante de sua peça e

transportado até o rio sem ser visto.

— Além do mais, quase não posso imaginar como alguém, supostamente,

pode seqüestrar um estudante de seu quarto e carregá-lo até o rio sem ser visto. —

ela suspirou. — E com respeito aos Lobos... Bom, eu não posso dizer que aprovo

tudo o que fazem. Eles têm seus próprios rituais especiais, seu código de conduta, e

suas... Provas de valor, como qualquer outra associação de estudantes. Eles

pertencem à escola tanto como as exibições no museu e os castanheiros velhos no

parque. Eles têm sido uma tradição há mais de cinqüenta anos. — sorriu de novo.

— Até agora, cada estudante encontrou seu lugar aqui... Sempre que eles cheguem

com o poder necessário para permanecer. Mas não estou preocupada por isso

nesse caso. Se tiver algum problema com os Lobos, sempre pode vir até mim e

buscar ajuda.

Maravilhoso, pensou Blanka. Agora sou uma fofoqueira!

— Outra coisa que devo lhe dizer. — Madame Lalonde continuou. —É que

decidi te colocar com os estudantes na classe superior, ao invés de com os novos

estudantes. Caitlin O’Connell te ajudar| a se adaptar. Ela vem da Inglaterra e, logo,

vai ter seus exames finais. Ela estará no quarto contigo em seu dormitório.

— Eu não preciso de nenhuma ajuda. — Blanka protestou. — Não estou

doente.. Topei com um corpo morto na noite anterior. Eu não me esquecerei.

— Claro. Mas tenho certeza de que gostará de Caitlin. Matemática é um de

seus temas mais forte.

Blanka olhou com interesse. Bom, isso era diferente. Bebeu o último gole de

seu chá, e assentiu.

— Está bem. — disse tratando de sorrir. — Por agora, ao menos. Mas há

algo mais... — tragou saliva e se fez a pergunta que o detetive Seibold não havia

respondido. — A mulher morta... — viu a diretora ficar rígida ligeiramente. — Ela

quebrou o pescoço quando caiu, não?

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18

Madame Lalonde apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Pelo que sabemos agora, sim, parece que sim. — disse finalmente.

— O detetive Seibold é da brigada de homicídios?

— Sim. No caso de uma morte súbita como esta, o primeiro que fazem é

comprovar se pode ter sido um assassinato. Sobretudo porque não temos a menor

idéia de quem era a mulher, nem como se meteu no prédio.

— A porta estava aberta.

— Eu sei. Você disse ao detetive Seibold. Bom, ela não poderia tê-la

quebrado.

— O que poderia estar buscando?

— Tem alguma ideia de quanto vale uma página de nossa crônica do século

XVII do Convento? — ela parecia estar lutando para recuperar a compostura. — No

entanto, não é nosso problema. É trabalho da polícia, e ninguém além da polícia

deve averiguar o que aconteceu.

Com estas palavras, a diretora fechou a gaveta de sua mesa com força.

Houve uma batida na porta que fez Blanka pular.

— Entre. — disse Madame Lalonde, sua voz demorou a voltar. Um homem

alto entrou. Quando se deu conta de que a Sra. Lalonde não estava sozinha,

arqueou as sobrancelhas.

Blanka o havia visto antes. Ele era o tratador, lembrou um velho rabugento

que parecia que havia bebido demais durante os últimos trinta anos. As veias finas

em seu nariz vermelho brilhavam de uma cor púrpura escura. Ainda assim, tinha

uma jaqueta esportiva e a olhou fixamente.

Blanka nunca havia visto um tratador com uma jaqueta esportiva antes. Mas

então, nada em absoluto nessa escola parece normal?

— As cadeiras e as lâmpadas estão aqui. — grunhiu. — Você tem que

assinar a folha de entrega. E o eletricista quer saber onde colocar as luzes.

— Claro. — exclamou a Sra. Lalonde. — Blanka, por favor, desculpe-me

alguns minutos.

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Com passo rápido, a diretora saiu do escritório. Blanka ouviu o molho de

chaves que o tratador levava atado à cintura, tilintando a cada passo. Sem olhos

sobre ela, por fim, a tensão começou a se desvanecer. Perguntando-se quanto

tempo poderia demorar à Sra., ela retrocedeu o braço, apontou e jogou o tecido

enrugado sobre a gaveta de papéis para o lado.

Blanka se levantou e se aproximou da mesa. Olhou pelo canto do olho para a

porta entreaberta, mas, para seu alívio, não escutou passos. Assim que se escondeu

atrás da mesa, pegou o pano e o levantou de novo. Assim que era assim que se via o

mundo desde a perspectiva da Sra. Lalonde. Desde aqui se podia ver não só todo o

escritório, mas também parte do corredor, e (através da janela) a entrada principal

e o parque. Se houvesse estado sentada em sua cadeira na noite anterior, haveria

visto os Lobos saírem em busca de novos estudantes. Era muito mais interessante

o ponto de vista de Blanka, no entanto, a pilha de papéis sobre a mesa da Sra.

Lalonde. Blanka notou um desenho que parecia um diagrama geométrico com

ramificação. Só quando se aproximou foi um pouco mais consciente de que era

uma espécie de árvore genealógica. Ela deixou a xícara vazia e, inclinou-se para ver

melhor. Ao invés de nomes, escreveram abreviaturas, assim como símbolos que se

viam muito científicos. Os princípios da associação eram fáceis de reconhecer: as

conexões se mostram por dois anéis entrelaçados. Para Blanka pareciam a

intersecção de conjuntos matemáticos. Cada intersecção formava um filho... E em

um só lugar, inclusive dois filhos.

— Dr. Florian Hasenberg. — observou em forma abreviada na borda da

página. Blanka escutou o som de chacoalhar das chaves se aproximando. Pulou, e

tropeçou com algo brando e sem forma.

Surpreendeu a si mesma antes de cair, agarrando a borda da mesa para se

apoiar. Sacudiu o objeto que havia agarrado com o pé.

Era um bolso de couro com cor. Agachou rapidamente e o empurrou de

novo para onde havia se apoiado na mesa. A pele era tão suave como uma jaqueta

de camurça e em boas condições, ainda que não fosse nova. Algo na lapela lhe

chamou a atenção.. Entrelaçadas iniciais queimadas no couro: um ‘M’ e um ‘J’.

Um instante depois, Blanka estava sentada em sua cadeira de novo, seu

coração sobressaltado. A diretora e o zelador entraram no cômodo em um

segundo.

— O Sr.. Nemec te levará ao seu dormitório agora. Blanka será hóspede de

Caitlin O’ Connell, pelo momento.

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O homem estudou a Blanka, e logo assentiu. Seu olhar viajou na mesa, como

atraído por um imã. Blanka se ruborizou. Sua taça estava justo ao lado dos

documentos da Sra. Lalonde.

Soou o telefone.

— Lalonde. — a diretora respondeu. Sua expressão foi prática, mas então

seu olhar caiu em Blanka, e sua voz se fez mais amigável. — Claro. Um momento,

por favor. — ela sorriu alentando a Blanka. — É o seu pai. Ele disse que não pode

se comunicar contigo em seu celular.

Blanka se levantou e sacudiu a cabeça.

— Diga a ele que estou bem, e que vou ligar para ele. Por favor! — por uns

longos segundos olhou suplicante nos olhos da estranha Sra. Lalonde. Havia um

sentimento desconhecido, mas não desagradável de proximidade. Madame

Lalonde duvidou um instante, logo assentiu com a cabeça e agarrou o bocal.

— Vem comigo. — grunhiu o Sr. Nemec. Deu a volta e saiu do lugar.

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Capítulo 3

Caitlin

Caitlin vinha da costa irlandesa, perto da cidade de Dingle. Não encaixava

com o estereótipo de garota ruiva irlandesa em nada, mas tinha curtas mechas

castanhas e olhos verdes que brilhavam como minerais de cor clara. As

apresentações foram amistosas, sim um pouco frias, mas depois que o Sr. Nemec se

foi, Caitlin parecia aliviada e, deu-lhe a Blanka um genuíno sorriso.

— Bem vinda ao seu novo reino. — indicou Caitlin para a estreita cama, uma

mesinha e uma cômoda. Não exatamente elegante, mas tampouco desconfortável.

Através da estreita janela, Blanka podia ver o estacionamento dos visitantes, e ela

olhou para a colina atrás dele, onde o cemitério dos órfãos se encontrava. Um

arrepio recorreu sua coluna.

— Os quartos nesse prédio eram originalmente muito maiores, mas desde

que estamos recebendo mais e mais estudantes, eles têm tido que renovar a ala de

ensino. — disse Caitlin. — Os quarto estão divididos em dois e muitos deles têm

porta conectora. Alguns dos estudantes moviam suas cômodas para bloquear a

porta, mas Jenna, a garota que se mudou há três semanas, e eu normalmente a

deixávamos aberta durante o dia.

E mais, no meio da parede a esquerda havia uma simples porta de madeira.

Blanka deixou sua pesada mochila e sua mala e, seguiu Caitlin ao quarto seguinte.

Era como entrar em outro mundo. Uma colorida colcha de retalhos cobria a cama,

com um desgastado crocodilo de pelúcia jogado sobre ela. Ao redor da janela havia

luzes em forma de corações vermelhos, e toda a parede estava coberta de fotos,

cartões e lembranças, todas presas no papel de parede com tachinhas. Uma era de

Caitlin com dois garotos, os quais tinham os mesmos olhos verdes que ela.

Tinha seus braços ao redor de cada um e estavam rindo para a câmera. —

Meus irmãos, Aidan e Paul. — disse Caitlin com evidente orgulho. — E nessa foto

aqui, essa é minha irmã mais nova, Kathy. Essa é minha mãe e esse meu pai, e essa

é minha amiga Deirdre. Quando terminar aqui, vou para o Trinity College em

Dublin. Deirdre ia solicitá-lo. Talvez fossemos capazes de conseguir trabalho como

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professora na mesma escola. — suas palavras se repetiam na cabeça de Blanka. O

quarto de Caitlin a intimidava, tão cálido, acolhedor e seguro. Havia presentes de

sua família em todas as partes.

Nunca saberia que sua porta dava a um corredor iluminado por luzes

fluorescentes e, não no salão da casa de seus pais em Dingle.

— Você não tem nenhuma foto da sua família? — perguntou Caitlin, quando,

um pouco mais tarde, Blanka pendurou um pôster do sistema solar em sua parede.

— Não. — disse Blanka, um pouco brusca demais.

— Ou do seu namorado? — os olhos de Caitlin brilharam. — Você deve ter

um!