O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas por Cláudio Manuel da Costa - Versão HTML

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O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas

Cláudio Manuel da Costa (pseudônimo Glauceste Satúrnio)

O PARNASO OBSEQUIOSO

DRAMA

PARA SE RECITAR em Música no dia 5 de dezembro de 1768, em que faz anos o Ilmo. e Exmo. Sr. D. JOSÉ LUIZ DE MENEZES, Conde de Valadares, Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais e etc, por CLAUDIO MANUEL DA COSTA, Bacharel formado na Faculdade de Cânones, Acadêmico da Academia Litúrgica de Coimbra, e Criado pela Arcádia Romana, Vice-Custode da Colônia Ultramarina, com o nome de Glauceste Satúrnio e etc.

O PARNASO OBSEQUIOSO

DRAMA

Interlocutores

Apolo Clio

Mercúrio Talia

Calíope Melpomene

(A cena representa o monte Parnaso)

CORO

Mus. Já despede a fria noite

Toda a sombra, todo o horror;

Torna ao mundo o novo dia,

Que enche a terra de esplendor.

APOLO Douram-se os montes,

MERC. Riem-se os vales,

AMBOS Das claras fontes

Brilha o licor.

TODOS Oh! que alegre mudança que tudo...

2 MUS. Floresce...

2 MUS. Esclarece...

TODOS Na gala e na cor.

APOLO Mas que é isto? Inda as Musas em silêncio

No Parnaso se vêem? Não ouço ainda

O número sonoro,

A métrica harmonia,

Que deve festejar tão fausto dia!

Acaso entre vós outras

Se ignora, ó Musas, que hoje o lustro quinto

Se completa, em que aquele

Ramo ilustre dos ínclitos Noronhas,

Para glória do Luso,

Nascer se viu lá onde o fresco Tejo

Banha, rendendo aos mares o tributo,

A cidade que erige o Grego astuto?

Vós outras o sabeis; desde esse dia

Que Lucinda em seus braços

O recebeu, e as Graças

Ministraram-lhe o leite, vós, ó Claras,

O chamastes a vós; vós o levastes

A viver nesse monte; inda presente

Eu tenho a feliz hora

Que tomastes a empresa de criá-lo,

De o pulir, de o reger, e de educá-lo.

Ah! se agora vos não lembra

Aquela hora, aquele dia,

Será bem que lá se ria

De vós outras um mortal.

Entre os homens festejado

É José com fausto auspício;

Entre vós seu natalício

Não se canta, ó Musas, já?

MERC. Se hoje o filho de Maia

Deixa de Jove o lado, outro destino

Do Parnaso o não guia ao Sacro Cume,

Ó domador do Píton, mais que aquele,

Que pode entre as olímpicas Deidades

Despertar tanto empenho: o grão Tonante,

O grande Nume que preside aos Deuses,

Depois que a todos juntos

Na parte mais de Estrelas povoada

O néctar derramou sobre as cabeças,

A um e outro falando,

Lembrou o dia que tornava ao Mundo;

E a mim, a mim me envia,

Que anuncie ao Parnaso o alegre dia.

CALÍOPE E crês, ó sacro Nume,

Que outro indulto mais que esse

Nos traz hoje a gozar da cristalina,

Helicônia corrente?

MELPOM. Se do Pesto

Hoje as flores buscamos; se primeiro

Que nascesse aos mortais a aurora bela

Teci esta grinalda, a quem presumes

Que destino o meu prêmio?

CLIO A aguda pena,

Que guarda a minha mão, qual outro obséquio

Entendes que medita?

TALlA Este cuidado

A Calíope chama; e o Coro santo

Esta empresa confia

De Clio, de Melpomene e Talia.

MERC. E quem se não acorda

De tanto agouro, que predisse as glórias

Daquele dia? Quem não sente a imagem

Tão viva na memória? Quando os olhos

Abria à luz primeira o tenro Infante,

No monte, vale, e prado,

Tudo se via melhorar de estado;

As arvores já secas

De flores se cobriam; brancas aves

Voando andavam de uma e de outra parte;

Delfins dourados desde as ondas fora

As cabeças erguiam.

CALÍOPE Mansos touros

A correr à porfia se ensaiavam...

MELPOM.De improviso se viu à mão direita

Girar um resplendor...

CLIO Jove sem raio

Soou por largo espaço...

TALIA O céu de novo

Deu a ver uma Estrela,

Mais do que as outras cintilante, e bela.

MERC. Se estas contemplo

Do céu figuras,

Oh! que venturas

O céu prediz?

CAL. e MELP. Eu bem me lembro

Que nos meus braços

Formei os laços

Com que o prendi.

CLIO e TAL. Desde esse instante

Que nos foi dado,

Oh! que cuidado

Eu lhe rendi!

MERC. Amor nos guia...

MELPOM. Nós O adoramos...

CALÍOPE Nós O servimos...

TALLA O festejamos...

CLIO O aplaudimos...

TODOS Valente Adônis, Marte gentil.

APOLO Ó vós, ditosas, que de tanta empresa

Hoje à glória aspirais? O Herói é digno

Que o busquem vossos cultos:

Eu sei que bem lograda

Se acha a vossa fadiga; ele, as virtudes,

Ele, as Artes e Ciências

Em que vós o instruístes,

Políticas, Morais também pratica;

Que por ele esquecidos

São no bronze de Fama

Quantos Gregos insignes,

Quanto egrégio Romano

Cinge o louro no Templo soberano .

CALÍOPE Eu sei que na piedade

Temístocles excede, e o fiel Zopiro.

MELPOM. No valor, na constância

MERC. Vence os Cipiões, os Lélios, os Camilos.

Nas Podalírias Artes

Vence ao sábio Quiron; deu-lhe a piedade

O impulso de aprendê-las; e mil vezes

A delicada mão no Régio Hospício

Dos míseros enfermos,

Praticando o científico aforismo,

Enfraqueceu da morte o despotismo.

APOLO Os físicos princípios,

A douta Geometria,

A Ética, a moral Filosofia,

A Eloqüência, que um tempo a sábia Atenas

Admirou nos seus filhos;

A Tática (ah! que digo?) esta arte ilustre

Lhe deu mais glória, lhe ganhou mais lustres:

TALIA Eu o vi entre as Armas

As ordens ministrar, com fronte heróica,

Desprezando os rugidos

Do Leão da Ibéria; eu vi que a mão sustinha

O ferro ameaçador, aquele ferro,

Que para seu brasão a lusa glória

Há de lembrar enquanto houver memória.

Inda na tenra idade

Eu vi que o peito armado

Do fero Marte irado

O aspecto desprezou.

De seus Avós o sangue

Ilustre tantas vezes,

A glória dos Menezes

No Filho respirou.

CLIO Que muito, se deriva o seu esforço

De tão altos Varões! Onde não chega

O nome dos Noronhas? Em que parte

Do mundo não se admira

Esta egrégia Nobreza? A Ásia se cobre

Dos troféus de seu braço; toda a Europa

Conhece o seu valor; eles à Pátria...

Ao Rei... ao mundo todo... mas que emprendo?

Em um da estirpe a todos estou vendo!

De uma Águia se não cria

A pomba humilde e pobre;

Nem temas que assim obre

Jamais claro valor.

Os fortes criam fortes,

E só de um Pai o exemplo

O Filho guia ao Templo,

Aonde a Fama o pôs.

MERC.Ilustre e digno Ramo dos Menezes,

Eu te vejo subir àquele assento

Que lá se te prepara

Junto aos teus grandes Pais: a série augusta,

Que vem do antigo, esplêndido Fernando;

Dos Duques de Gucijon te ordena

Ali lugar distinto

Ao lado de um Miguel, Conde primeiro

Do título imortal de Valadares;

Ali te cerca em roda

Um Álvaro, um Dom Carlos de Noronha,

Que vem acreditada

Com influência digna

No filho adulto a paternal doutrina.

Ah! qual te encontro no mavórcio jogo

De Belona seguindo o estrondo ardente!

Não te assusta o pelouro, a bala, o raio

Das fráguas de Vulcano; o Árabe adusto

Cai em sangue banhado; o Indo te espera

Entre a série dos teus, que lá deixaram

Seu nome escrito em derribados muros!

Já prostrada a Carranca

Ao Tormentório vejo; o mar tratável

Às Portuguesas Quinas

Abre o caminho (ó Céus!) eu não me engano;

São estas as Cidades,

Estas as Torres, estes os Castelos,

Que entre o vivo furor do ferro e do aço

Ao lusitano Rei ergue o teu braço!

APOLO Tudo, Musas, é pouco,

É tudo pouco, ó Divindade alada,

Se trazeis à lembrança

Os feitos sempre claros, as virtudes

Do magnífico Herói! Sobre os seus troncos

Se levanta este ramo; e quanto é grande

Entre os Arbustos o Cipreste; quanto

Entre os Astros o Sol se eleva tanto.

APOLO e MERC. Anos que a idade conta

Vençam da idade os passos.

TAL.. e CLIO O dia que os aponta

Faça imortais seus laços.

TODOS Eternos anos sejam

Os anos de José.

APOLO e MERC. O tempo...

TAL. A sorte...

CLIO A idade

TODOS Não saibam na verdade O círculo romper.

PARTE SEGUNDA

CALÍOPE Ao distante País das novas Minas

Hoje o vemos passar; altos progressos

Dele espere o seu Rei; o Povo aflito

Ali respirava; desde o seu seio

Liberal se verá brotar a Terra

Quanto avara recata,

O diamante, a safira, o ouro, a prata.

Ah! não esconda a Terra

Jamais o seu tesouro,

Que o Deus purpúreo e louro

Debalde o não criou.

Benigna corresponda

Ao próvido cuidado

De quem dos Céus foi dado

Por dar-lhe mais valor.

MELPOM. As carregadas frotas, à prudente

Direção de seu mando,

Os portos encherão, crescendo o Erário;

Netuno gemerá, e os Tritões verdes,

Desde o centro das águas

A ser calcadas de pesados lenhos,

As azuladas costas

Estender quererão... a tanta glória

Me assombro, me confundo! Ó santo auspício

Que respiras do Céu! esta grande alma,

Que estímulos de glória em tudo acende,

Por quem tanto entre os Deuses se contende!

Alma tão bela, e nobre,

Dos céus cuidado seja;

Jamais se atreva a inveja

Seu lustre a profanar.

Domine além do tempo,

Vença as traições, o engano,

E sobre o esforço humano

Se veja triunfar.

MERO. Ah! que debalde em se o obséquio canso

A débil fantasia!

Tento, medito de Epopéia um rasgo,

Que os seus feitos descreva...

APOLO Eu, que os influxos

Dei ao Sábio de Esmirna; eu, que ao de Mântua

Tanto esforço inspirei, busco, pertendo

Hoje mandar à sonorosa Lira

Suas dignas ações, seu nome excelso.

MERC. Mas a cantar do meu Luiz o nome...

APOLO Mas a cantar de tanto Herói os feitos...

AMBOS Mercúrio e Febo são debalde eleitos.

TALHA Eu os Gênios convoco;

Um baile ensaio, onde em tripúdio acorde,

As Orgias imitando,

De Dríades, de Oréadas e de outras

Mil engraçadas Ninfas, entre a chusma

De volantes Amores,

O júbilo publique;

Mas bem que o meu desejo em ânsias geme,

Desmaia a idéia, o pé vacila e treme.

CLIO Um debuxo eu formava

De trágico coturno, ali trazia

De Pompeu o valor, de Júlio a glória,

De Ciro o ardor, de Régolo a constância,

De mil outros varões, ora um ora outro

Feito escolhia; já contente expunha

Uma cena (ó delírio!), em vão tentava;

Um só Herói no meu Herói achava.

MELPOM. Mas que faria Melpomene? Acaso

Fugiria cobarde

Como as outras Irmãs? Elas, temendo

Não ser bastantes para tanta empresa,

Ao monte se espalharam; já contentes

Trazem de flores o regaço cheio;

Esta grinalda, esta grinalda tecem

Que eu parto a oferecer; porém, que faço?

Bem que uma e outra flor ao prado peça,

Não tem o prado flor, não que o mereça.

APOLO A prodígio maior tudo caminha,

E parece que a Terra

Novamente levanta sobre o Pélion

O formidável Ossa; já disputa

Alto poder a olímpica morada,

Mas arrojo não é de humano peito,

Que conceba escalar de Jove o trono;

Maior é o portento,

É tudo obséquio, é tudo rendimento.

MERC. Sim, rendimento é tudo; os Deuses todos,

Em voluntário feudo,

Cedem hoje a José seu Trono e dotes...

TALIA Da mão de Marte a Espada

Lhe cai aos pés...

CALÍOPE De Júpiter o Raio

Em vão cintila...

MELPOM. De Mercúrio a Vara...

CALÍOPE De Netuno o Tridente...

MERC. Ah! tudo cede!

Já torna a paz dourada

Ao mundo aflito, torna Ninfa bela,

Que aos Elísios fugira, e quando torna,

O cheio vaso sobre nós entorna.

APOLO Esta a idade em que o Lobo

Pastava entre as Ovelhas; esta a idade,

Em que a Terra sem próvida fadiga,

Brotava a rama, e produzia a espiga;

MERC. Esta a idade em que os rios

Eram de mel, e eram de leite os lagos,

Em que desconhecia o peito humano

Tudo o que era traição, perfídia, engano.

APOLO Enfim tudo é delícia

Na opulenta região das áureas Minas;

E tu, ó bom Menezes,

Desses troncos incultos, dos penhascos

Mais hórridos, mais feios,

Dos queimados Tapuias

Fazes pulir a bárbara rudeza,

Fazes domar a natural fereza.

Mas onde vai correndo

A delirante idéia!

Tudo, ó Musas, já cede; o vosso canto,

A minha Lira (ó Lira em vão buscada!),

Tudo em vós é já susto;

Tudo em mim é desmaio;

Eu lhe cedo o meu Trono, o Louro, o Raio.

MERC. Se lá no Olimpo

Por tantas vezes

Do alto Menezes

Se ouviu falar;

APOLO Se é certo, ó Deuses,

Que eu algum'hora

Pude a sonora Lira pulsar,

CORO

Soe da esfera o acorde acento,

O firmamento se ouça cantar.

CAL. e CLIO Se o nosso canto

Em suavidade

As divindades

Pode abalar;

TAL. e MELP. Se heróicos feitos

Cantar soubemos,

Entre vós temos,

Deuses, lugar.

CORO

Soe da esfera o acorde acento,

O firmamento se ouça cantar.

APOL. e MERC. Atente, ó Jove,

Esta ânsia nossa.

TODOS Menezes possa

Sempre os seus anos

Verdes contar.

CORO

Soe da esfera o acorde acento,

O firmamento se ouça cantar.

OBRAS POÉTICAS

QUE

Na Academia que se juntou na Sala do Ilmo. e Exmo Sr. D. José Luiz de Menezes, Conde de Valadares, por ocasião de felicitar a posse que havia tomado do Governo da Capitania das Minas Gerais, escreveu e recitou Cláudio Manuel da Costa, Bacharel formado pela Universidade de Coimbra, no dia 4 de setembro de 1768.

SÃO AS MUSAS, Ilmo. e Exmo. Sr., são as Musas as últimas que chegam à presença de V. Exa. Tarde chegam, mas não sem desculpa. O natural encolhimento que as acompanha lhes deteve os passos até agora. Deverão contudo preceder elas a qualquer outro obséquio; e talvez para os direitos desta glória lhes não falta o conhecimento de que sempre na aceitação dos Grandes tiveram as Musas o lugar primeiro.

Sabem que os mesmos Grandes (ou os distinguisse o Cetro ou o Bastão) se não envergonharam de cultivar a Poesia; e lembrando a Cipião entre os Romanos, entre os Gregos a Arquelau, Rei da Macedônia, desprezam na ocasião toda a pompa de notícias para repetirem com vaidade neste Congresso os sempre veneráveis nomes do Senhor João Gomes da Silva, Conde de Tarouca, feliz aliado na Casa de V. Exa.

e do Sr. D. Carlos de Noronha, seu gloriosíssimo Ascendente. Estes dois Atlantes da Monarquia lusitana, depois de encherem as obrigações de fiéis Políticos e valerosos Soldados, tomaram por último desempenho de seus talentos deixar-nos um precioso monumento das suas fadigas literárias nas excelentes composições em metro, com que inda mostram que nem o estragado gosto daqueles tempos se atreveu a corromper a delicada, escrupulosa eleição com que escreviam.

Mas para que produzo eu estes dois espíritos que sustentam a glória do Pindo, e fazem as delícias das Musas, se em V. Exa. devo respeitar por todos o primeiro fautor das Letras, e o estimador primeiro da admirável Arte de Poesia? Digam-no os avultados progressos que fez V. Exa. na cultura das Escolas e fale a preciosa atenção com que presta V. Exa. os seus ouvidos àqueles mal proporcionados rasgos que se dirigem a louvar as suas virtudes, e se recitam, não sem freqüência, na sua presença. Esta é uma prova de que não só nos seus Maiores, mas em V.

Exa., vive reproduzido o amor das Musas.

E com razão, Senhor Excelentíssimo, com razão se digna V. Exa. a proteger as Musas: são elas as que se encarregam de imortalizar as ações dos Grandes; elas são as que fazem gloriosas no Templo da Fama os seus Troféus. Pouco importa se derramasse nas Campanhas o sangue pelo amor da Pátria; pouco que pelo estímulo de adquirir uma ilustre Conquista atravessasse um bom General as Serranias mais ásperas, os Rios mais caudalosos, se no mesmo féretro a que se havia de entregar o corpo ficasse sepultada a memória das gloriosas empresas!

Estas lembranças insensivelmente me vão transportando ao inconsiderado empenho de suplicar a V. Exa. queira desculpar ao nosso rendimento a desconcertada harmonia das nossas Musas: elas se vêem arrebatar entre os desejos de louvar um Herói a todas as luzes grande; contemplam a Ilma. pessoa de V. Exa. tão enriquecida de preciosas qualidades, que para qualquer parte que voltem os olhos encontram argumentos para o elogio; a fertilidade da matéria é que subministra atrevimentos ao discurso; se ela fora do seu fundo menos abundante, calar-nos-

íamos todos, porque nada nos é mais natural que o conhecimento que temos da nossa inabilidade!

Vemos em V. Exa. um espírito cheio de afabilidade, assistido de uma penetração vivíssima: magnífico, liberal, piedoso; vemos as provas com que deu a conhecer o seu ilustre coração, a sua índole, os seus dotes, na assistência que fez ao Real Hospital de Lisboa, na ética com que regulou os seus passos entre as políticas da Corte, na resolução com que se portou na testa dos inimigos, no amor que sempre teve à virtude, no esforço com que fugiu aos vícios e aquela quase prodigiosa estrada por que caminha V. Exa., não havendo dado a conhecer nem ainda nos tenros anos o menor descaminho.

Vemos... ah! Senhor, que ao querer amplificar esta tosca pintura das incomparáveis virtudes de V. Exa., de repente ouço chegar aos meus ouvidos o saudoso suspiro do nosso amante Portugal! Mas oh! e quanto com a alegria das Minas se contrapesam aqueles gemidos? Eu expusera em mais dilatado quadro os vivos sentimentos daquela Corte, os transportes maravilhosos da nossa Capitania; as obrigações do meu oficio me não dispensam tanto; esta empresa a reservou a eleição ou o destino a dois heróicos competidores que me cercam o lado: eles decidirão...

PROBLEMA

Primeira Parte

Qual mais justificada? Se a alegria das Minas na posse que tem tomado de seu Governo o Ilmo. e Exmo. Sr. D. José Luiz de Menezes, Conde de Valadares, Segunda Parte

Se a saudade de Portugal na ausência a que dele fez o mesmo Exmo. Sr. Disse.

Saudade de Portugal e alegria de Minas.

Com alusão ao precioso objeto que se venerou

no 25 de agosto de 1768.

ÉCLOGA

Orisênio

Glauceste

Lucinda

GLAU. Sei, Orisênio meu, que entre os Pastores,

Que viviam nas margens do Mondego,

Eras tu o mais destro dos cantores.

ORIS. Glauceste, eu já cantei, eu não to nego;

Mas onde o gosto vai, onde a alegria,

Onde da minha frauta o doce emprego?

É verdade, Pastor, que noite e dia

Passava, alegre, na montanha, e dava

Gosto a qualquer no baile, e na folia.

Salício, o bom cantor, que se prezava

De melhor que algum outro (quem o ignora?),

Me ouvia, e na contenda não entrava.

Talvez a minha voz branda, e sonora

Pôde fazer que fosse verdadeiro

O que julgamos fábula algum'hora:

Disse Alfeu que descia desde o oiteiro

A ouvir-me o gado, e que inda entre as pedrinhas

Parava à minha música o ribeiro.

Mas onde, ó Fado mau, guardado tinhas

Este duro castigo, com que cortas

Os altos vôos das vaidades minhas?

As doces esperanças vejo mortas

De tornar do Mondego à margem bela

E de bater da minha Arcádia às portas.

GLAU. Justa razão de suspirar por ela

Tens, amado Orisênio; eu também vejo

Quanto ingrata comigo é minha Estrela.

Aqui não é como no fresco Tejo,

Ou como no Mondego, onde já vimos

Um e outro Pastor cantar sem pejo.

Ao jeito desta Serra nos cobrimos

De um bem tosco gabão, qual noutra idade

Não trouxe algum; da música fugimos;

Vivemos só da vil necessidade;

Da luta, jogo ou dança algum Vaqueiro

Bem livre está de ver que aqui se agrade.

ORIS. Tristes de nós neste País grosseiro!

Mas ou é isto sonho, ou vai mudando

De repente o seu jeito aquele oiteiro?

GLAU. Eu estava também já reparando

Em um clarão que vinha do Oriente,

Por entre aqueles troncos rebentando.

Tudo parece novo já no monte,

De nova gala as árvores vestidas,

Risonha a flor, risonha a clara fonte!

Que alegres, que formosas, que luzidas

Vêm descendo umas Ninfas; elas chegam

De mil amantes Sátiros seguidas!

Mudado o duro peito, em vão se negam

A Silvano, a Laurênio, e ao bom Meliso,

E aos seus gostosos laços já se entregam.

ORIS. Se será isto engano? Eu lá diviso

Ũa Ninfa (isto é sonho!), ũa Pastora

Que amava um tempo o seu feliz Daliso?

Lucinda eu vejo vir qual branca aurora;

Junto ao Tejo vivia a Ninfa bela,

Inveja sendo de Angerona e Flora.

Tecida traz nas mãos ũa capela

Da rosa, e lírio, e da açucena pura,

Ditosa, seu Pastor morre por ela !

GLAU. Já de um canto suavíssimo a doçura

Se deixa perceber: a Ninfa canta,

E os ecos vêm rompendo esta espessura.

ORIS. Quem viu tanto prodígio, glória tanta?

CORO

Do monte ao prado

Desce Lucinda,

E a sua vinda

Tudo festeja,

Ditosa seja, pois soube amar!

Em seu cuidado

Vive Daliso,

E faz preciso

O seu tormento

Um pensamento, que morta a traz.

Luc. Engraçadas ribeiras

Do cristalino Tejo,

Se as horas lisonjeiras,

Que eu passei junto a vós, a meu desejo

Avivam tanto a imagem do perdido,

Ouvi, dai atenção a meu gemido.

Qual outra enfim me vedes

Da que um tempo me vistes;

Amor tecendo as redes

Prendeu-me o coração; jamais tão tristes

Eu pude contemplar aqueles laços,

Que as cadeias formaram dos meus braços

O meu Pastor amado,

Daliso, o meu querido,

Aquele que o seu gado

Trazia tão formoso, dividido

De mim o tem a sorte, ó sorte dura,

Que nunca glória alguma está segura!

A contemplar me ponho

Junto a vós (ó loucura! ó fantasia!)

Se engano foi ou sonho

Aquele doce bem, doce alegria,

Que respirava esta alma, quando estava

Presente aos olhos o Pastor que amava!

Vós, penhas insensíveis,

Vós, árvores, vós plantas,

Quantas vezes incríveis

Meus prazeres, dizei, oh! vezes quantas

Chegastes a escutar? A minha glória

Dizei, se é que inda a tendes na mémoria.

Convosco, ó criaturas,

Mil vezes o meu bem comunicava;

Tu, rio, inda o murmuras;

Seu nome nesta penha se gravava;

Ali conserva ainda no horror bronco

O nome de meu bem aquele tronco!

Levou o Fado ingrato,

Levou a estranho monte

Aquele que o retrato

Deixou dentro em meu peito; ao vale, à fonte

Já debalde me queixo, em vão suspiro;

Já nada me consola em meu retiro!

A Maioral passando

Já de outra gente, eu creio

De mim se está lembrando;

Bem como ele também vive em meu seio.

Oh! sempre a meu pesar, ditosa gente,

Que o meu Pastor amado tens presente!

Por ele em doce agouro

Verão como se cobre

Igual do trigo louro

O campo, ou já do rico, ou já do pobre;

Verão como sem susto entre a parelha

Pastam contente a relva o touro, a ovelha.

Os seus longos montados

Tão cheios de verdura

Verão como regados

Não das chuvas do Céu, não d'água pura,

Mas como se banhado o campo fosse

Ou já do branco leite, ou do mel doce.

Alegres sempre os dias

Não terão sombra alguma;

Fugir as névoas frias

Verão, e desfazer-se de uma em uma

As nuvens de chuveiros carregadas,

Que as sementeiras deixam derrotadas.

Contente em sua herdade,

Contente o povo todo,

No monte, e na cidade,

Não saberá quebrar de qualquer modo

A fé, que em vão respeita o alheio dano,

Na aleivosia, na traição, no engano.

Tudo delícias vejo

No Ribeirão ditoso;

Só triste, do meu Tejo

Ele comigo chorará saudoso,

Com ele competindo as minhas mágoas,

Nova enchente darei às suas águas.

CANTORES

Se os olhos ponho

Na clara fonte,

Tenho defronte

A imagem triste

Do meu prazer.

Passa, qual sonho,

Toda a ventura:

Que pouco dura

Tudo o que é bem!

ORIS. Que é isto, meu Glauceste, onde viemos

Dar conosco? É do Tejo esta ribeira;

É este o triste monte onde vivemos!

GLAU. Foi, Orisênio meu, sombra grosseira

Aquela que nos teve tão pasmados,

Que aos nossos olhos foge tão ligeira?

Onde estarão, Pastor, os fiéis montados

Cheios de leite, e mel, onde sem susto

Pastam na verde relva os mansos gados?

ORIS. Vamos a ver, amigo, a todo o custo

O Maioral Daliso, esse que agora

Ouves louvar de tão benigno e justo.

GLAU. Ah! quem tão rico de rebanhos fora,

Que de mil recentais lhe apresentara

A mais gostosa dádiva nest'hora!

ORIS. Quem com tal Arte a frauta concertara,

Que dignamente competir pudesse

De Títiro a harmonia bela, e rara!

GLAU. Mas bem que humilde a oferta me parece,

Ele é de tal grandeza, que o seu rosto

No pequeno o valor não desconhece.

ORIS. Bem que é tão rude o canto, ele com gosto

Espero que me atenda, pois bem sabe

Que de um Pastor no verso mal composto

Um tão sublime preço enfim não cabe.

GLAU. Não cabe, Herói, não cabe a glória vossa

No humilde canto do Pastor Glauceste;

A cítara de Orfeu, não frauta agreste,

Deixai que o nome vosso louvar possa.

Simples Pastor em mal coberta choça

Não se atreve ao que é grande, ao que é celeste;

Assaz no rude voto conheceste

O quanto cabe na pobreza nossa.

Qual de Mântua o cantora tinha tentado

Erguer o vosso nome, e além da raia

Levar-vos de qualquer em verso honrado.

Mas oh! quanto debalde a voz se ensaia,

Se para ser com Títiro igualado

Até me falta a sombra de uma faia?

Na imagem de ũa Nau soçobrada se pinta

o decadente estado das Minas, e se lhe auspicia

felicíssimo reparo.

ODE

Ao mal seguro lenho,

Que as crespas ondas de Netuno corta,

A quem, ó Rei, mais do que a ti te importa,

Que mísero despenho

Lhe evites, nesse instante em que se teme

Que a quilha rompa, e despedace o leme?

Entre o furor dos mares

Quase sem rumo o vejo soçobrado;

E do hórrido penhasco em vão cerrado

A disturbar os ares

Solta o soberbo domador dos ventos

Do Áfrico e Noto os ímpetos violentos.

Acode a socorrê-lo,

Dando-lhe, ó Rei, um próvido Piloto;

E o leme em parte são, em parte roto,

Ao eficaz desvelo

Da destra mão de quem se o peso fie,

Ao demandado porto o leve, e guie.

Eu te lembro esse braço

Do sempre egrégio, esplêndido Noronha;

Ele acuda a ruína; ele componha

Os sustos, o ameaço;

Que tanto pode, e tanto me assegura,

Igual ao Zelo, a perspicaz Cordura.

Em uma e outra prova

Se deu a conhecer a inteligência

Deste Espírito; eu mesmo o vi na Cova

De Pelitrônio a ciência

Beber do Sábio Mestre, quando achara

Êmulo seu e que a Deidamia amara.

Tão cheia a fantasia

Já de ilustres imagens respirava,

Que nos bem tenros anos ver deixava

Que o Céu o distinguia

Para aquelas empresas, com que a Fama

As não vulgares almas honra, e chama.

As aulas de Helicona

De repetir seu nome não descansam;

Já carregado, de gemer se cansam

Nos Templos de Belona

Os pórticos sublimes, de que pendem

Claros Troféus, que a sua glória estendem.

Político, guerreiro,

Tão igualmente as máximas unira

Do Concelho e do Campo, que se admira

Por ele o mundo inteiro,

Ver que esquecida a juvenil vaidade,

Mais se encanece que verdeja a idade.

Deste, pois, braço nobre

A nau confia, e reparada a espera,

Do úmido Deus na procelosa esfera

Não temas que soçobre,

Que em lisonja as Nereidas conspiradas

Por entre as ondas lhe abrirão estradas.

Do múrice mais fino

Tintas as cordas, do ébano mais belo

Lavrado o mastro, ao cândido desvelo

Do obsequioso destino

Se cobrirão de flores as antenas,

E as virações respirarão serenas.

Do coral arrancado

Verde, negros Tritões tecendo a amarra,

Prender verás na deleitosa Barra

O peso desejado;

Do seio vomitando mais profundo

As ricas cópias do dourado mundo.

O topázio precioso,

A safira, o crisólito, o diamante,

Entre a abundância do metal brilhante,

Ao Trono majestoso,

À púrpura, ao diadema, eu te asseguro,

Serão tosco ornamento, esmalte escuro.

Porás o duro freio

À orgulhosa Europa; o adusto Mouro

Na experiência, inda mais que no receio,

Sempre funesto agouro

Nos mares achará; tudo vitórias,

E tudo aclamações, e tudo glórias,

Se a combater a fúria

Dos ventos corres; se das ondas queres

Parar o insulto, nada mais esperes;

Aos destroços, à injúria

Do lenho acode: tens do amparo certo

Em José, em Luiz, o Nauta esperto!

SONETOS

A ardentíssima caridade do nosso Exmo. Herói o obrigava a ministrar muitas vezes por suas mãos os remédios aos enfermos e a ter ũa exata vigilância na assistência deles.

I

Que estância é esta, que fatal ruína

É a que cerca, e a que esmorece a tantos?

Quem enche os rostos de mortais quebrantos

Nesta da morte pálida Oficina?

Aquela a pouco a pouco se destina

A ver da Eterna Sombra os tristes mantos;

Este ergue os olhos aos Altares santos

E vota a Deus a vexação maligna.

Tudo gemidos são; um diz: eu morro!

Outro repete: ai! mísera morada,

Onde debalde à compaixão recorro!

Mas, ó ruína, ó mágoa reparada,

Já traz a cura, já lhes dá socorro

A mão que foi para os Bastões criada.

Tomou posse do Governo não tendo ainda completado 25 anos de idade.

II

Cinco lustros, Senhor, não igualados

Contais na vossa idade, e o Rei prudente

O mando vos confia já, contente,

Dos Domínios que tem mais dilatados.

Desta sábia eleição desempenhados

Deixais ver os projetos, pois clemente,

Reto, afável, benigno, inteligente,

Tudo em vós são egrégios predicados.

Oh! como nada nos assusta, quando

Vos contemplo no curso lisonjeiro

Dos anos juvenis que ides contando!

Um mérito ostentando verdadeiro:

Não só das Minas se vos deve o mando,

Mas as rédeas também o Reino inteiro.

Lembrando a glória dos Ilmos.

Ascendentes Glosa ao Mote

A glória dos Menezes mais se aumenta

III

Busco os Fastos, Senhor, da Lusa História,

E neles muitas vezes repetidos

Vejo os vossos Avós esclarecidos,

Honrando o Templo da imortal memória.

Um de África no estrago adquire a glória;

De outro em Ásia os Troféus vejo estendidos;

Cantam da Europa os esquadrões vencidos,

Em partes mil, os louros da Vitória.

Se na África, na Europa e na Ásia a Fama

De vossos Troncos os brasões alenta,

E América a seu lustre hoje vos chama,

Dessa Árvore (a razão, Conde, o sustenta),

No novo mundo dilatada a rama,

A glória dos Menezes mais se aumenta.

Preciosos estímulos nas Letras e nas Armas

IV

De quem são estas armas, este escudo,

Esta malha, este arnês em sangue tinto?

Quem guarda aqui despojo tão distinto,

Que estímulos de glória acende em tudo?

Que espírito sutil, que engenho agudo

Esta pena ocupou? Bem que sucinto

É da Fama o clarim, soar eu sinto

De um e outro o pregão no exemplo mudo.

As Armas (uma Letra me responde),

As Armas são do Pai, que as militares

Tropas regeu; na Pena o Avô se esconde:

E a quem se inculca a imagem? Não repares;

Tudo está decifrado: ao grande Conde,

Que o Título hoje tem de Valadares.

A Casa Real do Hospital de Lisboa, derrotada quase pelos terramotos e incêndios, achou no Exmo. Sr. Conde de Valadares o seu maior benfeitor nas obrigações que exerceu de Mordomo-Mor dos Presos.

V

Essa Casa aos gemidos costumada,

Habitação da dor e do tormento,

Acha em vós um tão novo fundamento,

Que quase pula do que há sido nada.

Primeiro dos incêndios abrasada,

Vira em cinza o elevado pavimento;

E mal cobrava humilde um breve aumento

Quando dos terramotos foi prostrada.

A tudo põe reparos a piedade

De vosso coração: oh! como o explica

A agradecida voz dessa Cidade!

Na mesma ilustre ação se verifica

Que a mão que ergueu a Casa à caridade

Ao vosso nome Templos edifica.

Restitui-se à Terra a Justiça e se torna fecundo de metais o pats das Minas.

VI

Se desde o seio onde os seus bens recata

Hoje a Terra nos dá tanto tesouro,

Direi que torna a nós a Idade de Ouro,

Que já fugiu da habitação ingrata.

Quanta cria o Gangi cópia de prata,

O metal rico do planeta louro,

As finas pedras, tudo é fausto agouro,

Que hoje a felicidade nos retrata.

Nasce tanta abundância (não me engano)

Da Ventura que às Minas lhe tem vindo

Do novo Herói no mando soberano,

A penúria, a pobreza vai fugindo;

Que é força cesse o mal, a injúria, o dano,

Quando Astréia se está para nós rindo.

Invoca as Musas do País para cantar o nome dos Ilmos. Chefes dos No ronhas e Menezes.

VII

Ninfas do pátrio Rio, eu tenho pejo

Que ingrato me acuseis vós outras, quando

Virdes que em meu auxílio ando invocando

As Ninfas do Mondego, ou as do Tejo.

Convosco um eco ao mundo dar desejo

Maior que o bom Camões; ele, cantando

O valor com que os mares vai cortando,

Ao Gama lhe ganhou nome sobejo.

Mas vós quereis saber qual outra estuda

Alta empresa o meu Canto? Oh! quantas vezes

Ela é digna de vós, da vossa ajuda!

Dai-me vosso favor; que entre os arneses

De Marte, eu louvarei com pena aguda

A glória dos Noronhas, e Menezes.

Às Artes e às Ciências se prometem feliz adiantamento nestas Minas pela aplicação com que as tem honrado o Exmo. Sr. Conde de Valadares e no muito que se fizeram familiares à sua Ilma. Casa as Musas do Parnaso.

VIII

Desgrenhado o cabelo eu vi que estava

Co'o rosto sobre a mão, chorando um dia,

A Ninfa que o Parnaso presidia

E que entre as nove Irmãs tanto se amava.

O claro Deus que o pranto lhe enxugava,

Vendo a justa razão que a consumia,

Estas doces palavras lhe dizia,

Com que de tanta mágoa a consolava:

Filha, espera de mim que aquele louro,

Que de tua cabeça foi roubado,

Te restitua o Século vindouro;

Para esta grande empresa está guardado

Um ramo que hoje passa às Minas do Ouro,

Do tronco dos Noronhas arrancado.

Lembranças dos Heróis da Antiguidade que se distinguiram nos breves anos de sua vida: paralelo com o Ilmo. Sr. Conde de Valadares, e etc.

IX

Nos curtos anos de uma verde idade,

D'Ásia e d'Europa vencedor se aclama

O Herói de Macedônia, a cuja fama

Treme do mundo a vasta imensidade.

Pompeio dos trinta apenas na igualdade,

Sua a conquista de Cartago chama;

César, que em nobre estímulo se inflama,

Obra inda moço ações de heroicidade.

De injúria à glória é certo lhe seria

Da idade depender, que aos grandes feitos

A virtude somente as almas guia;

Mas onde eu busco estes da glória efeitos,

Se em José mais que em outro o mundo cria

Um vivo exemplo para muitos peitos!

PARA TERMINAR A ACADEMIA

CALARAM-SE AS MUSAS; cessou de todo o harmonioso estrondo das vozes; já é silêncio o que foi melodia; é pasmo, é suspensão tudo o que se dispunha para o Canto. Prosseguíramos sem temor de serem acusados os nossos erros; porque no precioso objeto a quem se consagram estes hinos temos o indulto para a desculpa; mas como deveremos abusar por tanto tempo do generoso sofrimento com que ele nos atende!

Uns gênios educados em um tão bárbaro país, em um país acostumado mais a ouvir os rugidos das feras que a harmonia das Musas, como poderiam produzir cadências que fossem dignas de chegar a uns ouvidos que se criaram entre a delicadeza, ao concerto? Era temeridade esperá-lo: mas oh! que este mesmo desalinho, este mesmo desmancho é em que mais nos afiançamos para devermos conceber a idéia de ver algum dia em melhor sorte trocada a rudeza que nos é tão natural.

Sim, Acadêmicos meus; sim, adorados e inestimáveis Sócios. Eu devo desde hoje auspicar as nossas Musas e com felicíssimo asilo: acabou o feio e desgrenhado inverno que fazia o horror destes campos; eles se cobrem já de novas e risonhas flores; as águas que até aqui não convidavam a tocá-las, hoje se nos oferecem muito cristalinas e puras; as névoas se desterram, alegra-se o Céu; povoam-se de engraçadas aves os ares; e apenas há ramo nesses troncos, onde se não escute cantar algum implumado vivente. Parece que vai fugindo de todo a rudeza destes montes; e que a beneficio de uma alta proteção entram as Musas a tomar posse destes Campos.

Com igual fortuna se lamentavam elas, quando compadecido de as ver vagar desconhecidas o espírito generoso da Rainha de Suécia as recolheu e lhes deu abrigo no seu magnífico Palácio. Esta foi a que plantou aquele Louro debaixo de cuja sombra se juntassem em Roma os amadores das Musas: com faustíssimo agouro da sua futura grandeza principiou então a dar passos a renovada Arcádia.

Recebeu ela um peregrino esplendor na proteção com que se dignou a honrá-la nosso Augustíssimo Rei, o Senhor D. João, o Quinto, da saudosa memória. A sua régia mão foi a que regou e fez fecundo aquele Louro, e ouve a Arcádia Romana não sem veneração e agradecimento o nome preciosíssimo de Pastor Arete.

Ah! se o nome de Daliso, que veio hoje indultado do misterioso dia que consagramos à Pastora Lucinda, se este nome se colocara na fronte desta sociedade amabilíssima com o soberano Título de Protetor da Nascente Colônia Ultramarina, quanto igualaremos na felicidade àqueles Pastores da Romana Arcádia? Talvez ela se não envergonhará então de haver repartido para tão remotos climas o esplendor luminoso da sua República.

Seríamos, Exmo. Sr., seríamos muitas vezes felizes se V. Exa. honrasse com a sua proteção uma Sociedade que se deseja polir, para melhor louvar o soberano nome de V. Exa. Devemos mais a V. Exa. do que à natureza temos devido: ela nos produziu, nos criou e nos conserva entre ásperos e intratáveis rochedos, no meio da barbaridade, no seio da rudeza, do desalinho e da incultura.

Se agora por V. Exa. se vêem amparadas as Musas, converter-se-ão com maravilhosa metamorfose a barbaridade em polícia, a incultura em asseio, e o desalinho em gala.

Tudo devo esperar daquela nobilíssima, afável e nunca assaz louvada índole que em V. Exa. reconhecemos: ela nos dá lugar para desde já auspicarmos a época da nossa nascente Arcádia, no dia felicíssimo do seu natalício. Juntar-se-ão desde a maior distância os Pastores alistados; e entrarão com as suas campanhas e nomes aqueles que agora se consideram peregrinos. Oh! dia para os nossos júbilos! Oh!

época para as nossas felicidades!

Parece que já reclinados sobre a relva se deixam ver os nossos músicos Pastores!

As faias mais copadas, os álamos, os pinhos frondosos tecem vegetastes dosséis com que da calma se defendam; vagam sem temor pelos campos os esparzidos rebanhos; as feras os não perseguem, divertidos, entretanto toma Orisênio a frauta para cantar o seu Daliso; Glauceste tia inscrição lhe prepara ao nome; mimosas e sinceras Ninfas tecem coroas de flores para a formosa Lucinda: tudo respira delícia, tudo prazer.

E se pára o Caminhante a contemplar o descanso daqueles gênios, uma Letra lhe responde:

Deus nobis haec otia fecit.

Disse.

LICENÇA

Conde e Senhor, se do Helicona à Fonte

Vós me vistes chegar; se em minha ajuda

As Ninfas convoquei do Sacro Monte,

Não é que a idéia estuda

Cantar vossos louvores, pois bem sabe

Que um tão alto, tão célebre argumento,

Nem do músico Deus na lira cabe,

Nem cabe das Piérides no acento.

À maneira daquele que procura

O rosto ver do Sol, e não podendo

Nele os olhos fitar, de uma água pura

Se serve, e recebendo

Os raios dentro dela, ali o admira:

Assim se empenha, ó Grande, o meu cuidado,

E qual se lá entre os cristais vos vira,

Na Libotra vos busco retratado.

Ali naqueles Gênios vos contemplo

A alma vestida de virtudes tantas

Quantas estima o mundo para o Templo

Honrar da Fama, e quantas

Digna não foi de ver a idade antiga:

Sabemos que Cipião, Júlio e Pompeio

Ações obraram de imortal fadiga;

Mas qual ao fim dos seus triunfos veio?

De vícios tanto a vida se manchava

Desses Heróis que aclama Roma e Grécia,

Que o Louro que cada um se perparava,

Talvez a mesma néscia

Vaidade lho murchou: vós sois tão raro,

Tão sólido, tão firme na virtude,

Que inda nos tenros anos sempre claro

Não há desar que o espírito vos mude.

Se pois nas mitológicas deidades

Se figura a virtude, e os bons costumes,

As vossas imortais heroicidades

Deixai que eu leve aos cumes

Do Parnaso, onde as Musas, repetindo

O nome sempre grande, e vitorioso,

Se estejam gloriando, e alegres rindo

De ver que um Filho em vós têm tão precioso."'

Prepare-se entretanto a celebrar-vos

Mais digna voz, que a minha tosca idéia,

Quanto se empenha mais para cantar-vos,

Mais se assusta e receia

Que, em vez do obséquio, tia ousadia exponha:

O vosso nome igual em toda parte

Em frente a todos os Heróis se ponha;

E vos louve quem logre Engenho e Arte!

SAUDAÇÃO À ARCÁDIA ULTRAMARINA

Enfim eu vos saúdo,

Ó campos deleitosos,

Vás, que à nascente Arcádia em grato estudo

Brotando estais os loiros mais frondosos;

Eu vos vou descobrindo,

Belas estâncias do pastor Termindo.

Já sinto que respira

Uma aura em nós suave;

Orfeu pulsa de novo a doce lira,

Ouve Tebas de novo o plectro grave;

Seu número é mais terno

Que o que muros ergueu parou o Averno.

Que pastores tão novos

São estes, que vos pisam?

Como entre tristes e grosseiros povos

De nova gala os campos se matizam?

Quem forma estas cadências?

Quem produz tão mimosas influências?

Se os olhos me não mentem,

Os venturosos nomes

Gravados nestes troncos já se sentem;

Tu, Tempo, gastador os não consomes:

Briareu, aqui diz este;

Ninfeu, diz outro; aqui diz outro, Eureste.

Na mais copada faia Abriu o férreo gume

O nome de Termindo; o Sol, que raia,

Aqui bate primeiro o claro lume;

Ele o vê, ele inveja,

Eterno o nome, eterno o tronco seja.

Ah! se da glória vossa,

Pastores, cá me vira

Tão digno, que na bela Arcádia nossa

Igualmente meu nome se insculpira!

Entre a série preclara,

De Glauceste a memória se guardara.

Mas onde irá sem pejo

Colocar-se atrevido

Quem longe habita do sereno Tejo,

Quem vive do Mondego dividido,

E as auras não serenas

Do pátrio Ribeirão respira apenas?

Sim, vosso caro abrigo,

Pastores, pode tanto,

Que despertando do silêncio antigo,

Erguer bem posso sem vergonha o canto:

Convosco está Glauceste,

Convosco faz soar a frauta agreste.

Se não cantar os feitos

Do bom pastor d'Anfriso,

Se de Jove e de Marte entre os eleitos

Não espalhar cantando um doce riso:

Saberei nesta praia

A Títiro imitar junto da faia

Em vós, ó campos, cresça

A vegetante pompa,

Cresça o verde esplendor; em vós floresça

A murta, o loiro, e na doirada trompa

Do monstro sempre errante,

O nome de Termindo se levante.

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística