O Parocho da aldeia por Alexandre Herculano - Versão HTML

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O PAROCHO DA ALDEIA

Alexandre Herculano

PRÓLOGO

Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera, o vento norte atira-se pelas encostas,

tombando dos visos da serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia de maldade e

destruição. De noite e de dia os troncos das arvores torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e

despedaçam-se involtas nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião sibilla no

meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo. Debalde o bosque estende saudoso por um

momento os seus mais altos raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada despega

de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o meio-dia; e galgando por cima daquellas

mil frontes inclinadas das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os turbilhões da

atmosphera agitada rolam pela planicie coberta já de relva entresachada das primeiras florinhas.

Então, relva e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que tudo alcançam, fustigam

e desbaratam. Os carvalhos frondosos e as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como

outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o céu. É que, rugindo, a rajada cahe da

montanha em perenne catadura. Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um

instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as corolas das flores, mas é para logo as

vergar com mais força, e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que se desvaneceu

tão breve.

E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A rajada já não silva da montanha: uma

bafagem tepida vem da banda do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa melancholico

e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e

murcha como a ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de torpor, que é existir,

mas que não é vegetar, e ainda menos viver.

Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da philosophia, esse turbilhão

transitorio de doutrinas, de systemas, de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na

claridade baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da intelligencia, não póde aquecer-

se aos raios esplendidos do sol de uma crença viva.

Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso espirito: e n'um destes abysmos

vem precipitar-se todas as philosophias.

A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a dor, a condemnação e a morte: mas a

sua peior peçonha guardou-se para o presente: foi o scepticismo.

Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na

esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a

luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de

agonia, e clamar a Jesus: — "Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime;

porque eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu

irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh

Nazareno! porque até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova, nunca desmentiste a

tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação

monstruosa da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da enfermidade e da pobreza, da

servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam

além do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema

miseria sem horisonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do

destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do

teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o

paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas

e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu o Verbo, nunca julgou o Christo,

possuido do insensato orgulho da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus o crer;

ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada phrase, de cada palavra daquelle tormentoso

orar; ignora o que é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do coração, sentir a voz

gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe tranquillamente — quem sabe! " — e cahir

desanimado no lethargo da duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito, opprimido e

quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto religioso e o demonio implacavel a que

chamam sciencia.

A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que assim lucta comsigo mesmo, sacode o

lodo da injuria, dizendo-lhe: —-hypocrita! — porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas,

que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes revelou só as inspirações, os desejos,

as saudades do coração! —-Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada e cahido

em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas, e ensanguentando as mãos e o rosto nas

urzes do despenhadeiro, lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse aos que

visse ao longe: — "não vos affasteis para aqui!" — Hypocritas são aquelles que mentem aos que os

escutam; que simulam a paz do descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas.

Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a irreligiosidade tem o segredo do

repouso e da ventura, quando o que ella dá é inquietação e desesperança.

Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida existe no mundo! Está certa de

que além da morte ha vida; conhece as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como

conhece as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos monstruosos, nem os dias

as meditações febris em que o sceptico involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um

lado nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.

Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella que a Providencia destinou á missão

do poeta, nos annos da infancia e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse

passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião não está só nos preceitos e nos

dogmas; está na natureza inteira. A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada

suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol quando nasce e quando desapparece;

tremulam no espelhar-se da lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se com os

mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e sanctificam o primeiro bater do coração pelo

amor. Tudo então é viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza. As harmonias

moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das escholas, são apenas um eccho frouxo desses

canticos da meninice e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que são um

oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente a imaginação e o sentir do homem, a

quem o mundo ha-de chamar poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar

verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta, que é a seiva intima do seu viver, pelo

universo, e converte-o n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe de ser.

Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida, mas ainda é felicidade, posto que já

eivada de vaga inquietação, de ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias.

São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria d'artistas, poderio, opulencia,

acções generosas e grandes, amor sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada

indefinidamente pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa epocha de

fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima e crente desbaratou-se, o sentimento religioso

esmoreceu; mas ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos das multidões aos

nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam energicos e brilhantes; applausos que nos

desvairam: fica-nos uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma sciencia

superficial, que se crê completa, pela qual dormimos tranquillos sobre a negação de todas as idéas

mysticas, e de todas as lembranças de Deus.

Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até das illusões do orgulho. A poesia suave

e pura da infancia e da puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das ambições

insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então o pardo crepusculo deste scepticismo, que,

semelhante a herpes lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e os prostra e

subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas de tedio, em que o existir é uma carga pesada,

porque nos falta um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre as nevoas densas

do duvidar de tudo.

O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos altos engenhos argumento contra a

immortalidade. Com a sua logica miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da

alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que via o entendimento cachetico

esmorecer com a decrepidez; quiz que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas da

sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas intelligencias é a poesia, e que essa vida

segue a ordem inversa do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima tem o seu

apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle

não teria achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas. Nos destinos eternos dos

homens iria encontrar a razão desse facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma vão-

se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo: nesta atmosphera grosseira e corrupta

ella resfolga a custo, e com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os brios: cada

dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença, lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano

cruel. Entre o espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes que a mente se

definha, e ella apenas dormita para despertar vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do

sepulchro.

Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae no deserto do seu coração gasto e

frio, e arrancae-me de lá uma daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia: vibrae

uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente: dizei-lhe: — "teu filho querido foi

arrastado ao tribunal como criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente que o

defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade o mais eloquente dos homens!" — Dizei-

lhe isto, e vereis esse engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio dos juizes, e

achar toda a energia dos vinte e cinco annos para defender aquella vida que a natureza ligou á sua

pelas harmonias mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado da linguagem não

podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada subitamente, o gesto, o olhar, os meneios

substituirão a lingua, e se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito despedaçará o

quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará que, se dormitava, não se extinguia, e que,

despertando, partia o vaso fragil que já não o podia conter.

Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias conserva as recordações verdadeiras e

puras da sua origem immortal: outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças: o resto

delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar

da velhice, e a regeneração da morte.

Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da vida humana, a sós ás vezes com

as minhas recordações infantis, ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente

para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle me apparecia involto nesses

tempos dourados. É uma comparação amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno do estio, e estende o manto de

lhama de prata sobre a face levemente crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o

verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas, descem tremulos sobre o chão

pardo, e mosqueam-lhe a superficie como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa

e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do circulo alvacento que o luar

esparge no ceu, scintillam algumas estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de

saphyras em que se reclina a rainha da noite.

Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem numero de mysteriosas harmonias,

que eu não sabia explicar, mas que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz refracta, a

noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já

não sei é verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam tepidas pelas faces ao

contemplar as harmonias immateriaes e intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns

echos longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até se derramarem na terra.

Dae-me uma nota só dos canticos que eu então escutava; dar-vos-hei em troca toda a minha estupida e

inutil sciencia!

Mas essa epocha da vida não voltará mais, porque não póde retroceder uma unica onda do rio

impetuoso do tempo! Depois da taça do mel esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere

aquelle que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegará a hora de renascer para a poesia

e para a certeza: será a da morte. A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que a

espaços affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que nestes momentos rasguem o nosso longo

e tedioso crepusculo alguns raios transitorios de luz. A memoria é o instante de repouso, e a saudade o

clarão suave que nos illumina.

Recordar-se — consolar-se.

CAPÍTULO I: A Aldeia e o Presbyterio

Uma das cousas que nas recordações da juventude ainda espiram para mim poesia e saudade é a

imagem de um velho prior d'aldeia que conheci na minha meninice. Hoje tão bondosos, tão alegres,

tão veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu é que não sei conhecê-los. A auréola, que então

rodeava as cans do sacerdote ancião, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia do

mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outr'ora! Elle morreu já, por certo; mas vivo que

fosse, eu não sentiria ao vê-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de confiança receiosa

que nesse tempo o bom do velho me inspirava. Parecia-me que estando ao pé delle estava mais perto

de Deus, cujo valído, por assim dizer, era o padre prior. Não sabia o sacerdote essa lingua que eu cria

falar-se no ceu, o latim, que então era para mim cousa mysteriosa e sancta? Não trajava ás vezes os

trajos da côrte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que estavam vestidos alguns vultos de anjos

pintados em tres ou quatro antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas, depois

da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurança, os tormentos do purgatorio, e os tractos

intoleraveis do inferno, não juraria qualquer que elle já peregrinára largos annos além do sepulchro,

ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas e tão solemnes terrores? Evidentemente o velho

clerigo estava mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente, e, por me servir da

linguagem politica, exercia em nome do céu uma delegação na terra; era uma especie de missus

dominicus da Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me escolhia para acolyto,

para estafar a porção de latim do missal, que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio,

sorriam-me as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento ás minhas pretenções

infantis, como costumam sorrir ao requerente, a quem deputado de grande conta mostra familiaridade

na presença de omnipotente ministro.

Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro, e talvez barbarissima a sua prosodia:

nas vestes sacerdotaes acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis como a igreja,

por entre as transformações da moda e do luxo; nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau

gosto do pobre pintor; e nas descripções das venturas e tormentos da outra vida descubriria

unicamente uma incarnação grosseira em imagens materiaes das revelações profundas do

espiritualismo christão. É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado, risonho,

variegado, porque tudo transparecia através de um prisma de sete côres, da innocencia singela e

credula da infancia; e hoje tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho e

desbotado, passando através da atmosphera nevoenta e triste da sciencia e do orgulho. Então o velho

parocho affigurava-se-me mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas,

provavelmente só acharia para elle um bem modesto logar.

A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual estava assentada na falda de um

monte, e pouco inferior a ella dilatava-se uma veiga, que ao longe, lá bastante ao longe, ía bater no

mar. No alto da povoação ficava o presbyterio. Era a igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a

bem presente) daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava, e a da restauração

romana, que ainda se não comprehendia: era um desses templosinhos construidos nos fins do reinado

de D. Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande numero resta ainda pelas parochias de

Portugal, e que são mais um argumento de que os nobres conquistadores da India, donatarios das

terras e padroeiros das igrejas, não voltavam do oriente com as mãos vazias. A devoção nesses

tempos era um objecto de luxo: edificar uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote

em S. Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapeu triangular.

A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares polystylos de meio relevo, era o mais claro

testemunho da idade provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente do mesmo

estylo, estava já civilisada: uma porta rectangular substituíra a antiga. Esquadriadas estavam tambem

as duas janellas do sobrado de differentes dimensões, e affastadas uma da outra; e nos seus postigos

da esquerda via-se o moderno conforto das vidraças. Não quero dizer com este elogio á morada do

padre prior que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos progressos da civilisação.

Pelo contrario. Estava mais alindada ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na

fabrica, havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo o que era azulejo. As camaras

municipaes das grandes cidades, os conegos das collegiadas e sés ainda não passaram do ochre; e uma

pobre irmandade da aldeia já tinha ha vinte annos vencido a méta a que apenas hoje chegam o

municipio e a cathedral.

O que, porém, escapou ao ochre e ao vermelhão dos mesarios do burgo foram dous seculares e

formosos platanos que sombreavam o portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa tão furiosa

pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas dignidades ecclesiasticas, admira

que tenha esquecido estender o beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos das

velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praças. Verdade é que todos os dias alguma desaba sob

os golpes do machado. Isto é melhor: mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando com as

lindezas e alegrias canonico-municipaes?

Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no todo com as suas sombras fechadas, e

só pela volta da tarde, principalmente no outono, é que algumas resteas açafroadas do sol no poente se

estiravam por debaixo delles, e lá íam bater frouxas no limiar da igreja pulído do contínuo perpassar,

e na porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo começavam a alvejar os remendos brancos

com que as revoluções converteram os áditos dos templos em pelourinhos eleitoraes.

Á entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada de preto, em cuja haste mãos

devotas tinham atado um ramo de flores, e este ramo, no meio do qual havia um pé de perpetuas, era a

imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do calvario, immutavel no meio dellas. As outras

flores tinham-nas mirrado os ardores do estio: só restavam do morto ramilhete as immarcessiveis

perpetuas.

Era n'um poial que servia de base á cruz, onde áquella hora do pôr do sol o padre prior vinha muitas

vezes sentar-se; e alli estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões do mar, que lá

em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas rochas, ora traçando attentamente na terra com a

sua grande bengala de castão de marfim diversas figuras, se geometricas não o sei dizer, porque hoje

não creio tanto na geometria do padre prior como então cria nas suas terriveis revelações do outro

mundo tiradas do Speculum Vitae. O que, porém, eu sentia melhor do que hoje, sem então o saber

explicar, era a suave e profunda poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do

symbolo religioso, áquella luz moribunda da ultima hora do dia, em que uma curta saudade

melancholica vem como percursora da noite pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse

tempo, mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em quanto a bengala ía d'um

para outro lado cruzando linhas tortuosas e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle

tinha adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa congrua para enxugar lagrymas de

viuvas e de orphãos; os conselhos paternaes dados á mocidade, salva assim por elle de largos dias de

remorsos e amargura; os odios convertidos em perdão entre inimigos; as dissensões domesticas

pacificadas pela conciliação do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos elle havia

semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo que alvejavam caiadas na orla pallida dos

campos até o altar do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma, n'esses momentos de

extasi, em rica seára de esperanças, cujos fructos enthesourava no céu. Depois, a cruz hasteada juncto

delle lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregára, dos sacrificios que fizera para verter

algum balsamo de ventura nas chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas

transviadas do pobre rebanho que lhe fôra confiado. A cruz negra no seu eloquente silencio contava-

lhe sacrificios infinitamente mais arduos que os delle, feitos, não em proveito d'uma aldeia ou d'um

povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via ás vezes deixar pender a fronte calva sobre o

peito, e tomar-lhe o rosto uma expressão singular, inexplicavel nessa epocha para mim, mas que era o

desalento que lhe gerava no espirito a terrivel comparação das suas acções com as do Suppliciado do

Calvario, ao qual tomára por modelo, e que jurára imitar. Muitas vezes espantava-me de que se

conservasse assim engolfado em seus pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e

na minha alegria da infancia, vendo-o tão triste e carrancudo, pensava comigo, que o padre prior se ía

tornando com a idade tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos de meditação

volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida, onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de

obras virtuosas; mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, não os percebia senão como uma

nuvemsinha escura e duvidosa através da luz immortal das virtudes e dos beneficios do Christo.

Ao tocar, porém, das ave-marias todas aquellas imaginações desconsoladas, se elle as tinha, como

hoje creio, desappareciam por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se erguer,

aquelle para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre

ellas o seu chapéu de tres ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o padre prior

murmurava em voz baixa aquella tão poetica oração do despedir do dia. Os trabalhadores, que,

voltando das fadigas do campo, acontecia passarem por ahi nessa occasião, descobriam-se tambem, e

encostando-se ao ancinho ou á enxada punham as mãos e resavam até que o reverendo, acabando os

latinorios, que elles íam repetindo em vulgar, lhes dizia: — Boas noites, rapazes, vá a cobrir." — E os

ganha-pães cobriam-se, respondendo: — Guarde-o Deus, padre prior:" — E partiam: e elle assentava-

se outra vez a olhar para o poente, onde o sol, que se affundíra no mar, deixava entre si e a noite,

precipitando-se após elle das alturas do céu, uma barra de vermelhidão e ouro, que se estirava para um

e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho ás trevas. E alli estava scismando até

que a tia Jeronyma alçava meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade á cozinha, e o

chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque cumpre advertir que o padre prior não só

respeitava á carga cerrada todas as tradições do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria

tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve ser comida sem sol, sem luz, e sem

moscas, momento fugitivo do expirar do dia, que não consta deixasse jámais passar por alto a boa da

tia Jeronyma.

Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular da atmosphera, as gelosias dos

aposentos inferiores da residencia parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado

mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças christans, se esse illustre escriptor

houvesse uma vez saboreado as filhós que ella compunha para celebrar o Carnaval; — e os seus bolos

da Natividade — e a sua ôlha e o seu anho assado da Paschoa. Não! — Saudades de tudo isso, durante

a minha vida inteira, em qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitações, nunca hei-de affastar-

vos impaciente quando vierdes, como creança travessa, baralhar-me um periodo de trabalhada prosa,

ou aleijar-me com um verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos, que para vós

esta fronte não saberá arrugar-se; esta bôca não terá esses monosyllabos duros e gelados com que se

repellem importunações d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e palrae por uma hora, por um

dia, por uma semana, que vos escutarei sempre sorrindo; e quando fôr ao sol posto, que os ouvidos da

minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas as lentas badaladas das ave-

marias, não como agora as ouço ás vezes no meio do ruído confuso, aspero, estridente do povoado,

mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando pela veiga, espriguiçando-se pelo

prado, rumorejando pelas quebradas da encosta ou pelo pinhal do cabeço, e indo morrer lá muito ao

longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no tinir das esquillas de um rebanho de

ovelhas, que se encaminham pára o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras, campestres,

vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte immenso, e ter-me-heis despertado um

affecto consolador, o qual valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos, que todas

as esperanças do mundo.

Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo. Desde a existencia objectiva ou

material deste mundo até a legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra retouçando pelas

ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe trazerem á praça os prós e os contras? Das

definições possiveis do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os sinos têem

tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão porque sobre tudo ha duas opiniões

contradictorias. É que tudo tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a arvore que veceja no

recosto septentrional da montanha, e açoute da que vegeta no pendor opposto: o norte é o supplicio da

primeira, e grato para a segunda. N'isto está cifrada a historia das contradicções humanas.

Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de mosteiro solitario, são uma cousa

poetica e sancta: os sinos, pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades de hoje,

são uma cousa estupida e mesquinha. O sino é um instrumento accorde com as vastas harmonias das

serras e dos descampados. Assim como o orgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas de uma

cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo

modo o sino foi perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes sectarios occupados

nos trabalhos campestres. Quando se associou o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi

a religião serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da terra a acceitaram para si,

então entrou elle nas cidades soberbas. Lá converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente. É

mais um ruído intoleravel para ajunctar aos outros ruídos discordes que troam por essas ruas e praças.

O sino, tornado cortesão e fidalgo, é semelhante ao orgão trazido para o aposento do baile, ou, o que

vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas, vaidosas, douradinhas, que insensatos

edificam para as admirações de parvos.

E com estas digressões esquecemo-nos do padre prior. Não importa. Deixa-lo ceiar em paz, e resar o

breviario. Eram estas, entre outras, duas phases graves e sérias de todos os seus dias. Depois,

emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava em um livro da pequena estante que

lhe ficava á cabeceira, e lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto d'aquellas

grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, até que o somno tranquillo de uma boa e san consciencia,

apertando-lhe com os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos que só a alvorada

vinha interromper, quando o perigo imminente de alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se

alta noite, ao som do resmungar malsoffrido e, até certo ponto, impio da tia Jeronyma. No horisonte

limpo e sereno destas duas vidas innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados

um no outro íam peregrinando contentes para o sepulchro, havia um ponto negro e triste. O

rendimento da parochia não consentia que o padre prior possuisse essa especie de ilota in sacris, de

servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias, as chuvas, as noitadas através das

serras revertiam como a congrua e os benesses em beneficio, senão do corpo, ao menos da alma do

reverendo prior.

A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos da parochia, jogava-os á risca

todas as noites em tertulias um digno commendador não sei de que ordem. Ai, que a extincção dos

dizimos foi a morte da religião!

CAPÍTULO II: Noitadas Parochiaes

A vida do velho prior passava na verdade dura e trabalhosa! Como todas as cousas deste mundo, o

egoismo da tia Jeronyma não era acabado e completo, ou, para falarmos em estylo de philosophia

fidalga, não era absoluto. O limitado e imperfeito é o signal que o Creador estampou na fronte do

homem e na face da terra para nos recordar a todo o instante a nossa origem; é a barreira que elle

alevantou diante d'este grande mysterio de energia e de audacia chamado a intelligencia. Sabedoria,

força, paixões, affectos, tudo tem um horisonte commensuravel; horisonte para as virtudes como para

a dor. O espirito mede e abrange o que ha mais vasto e profundo, os ermos, os mares, o coração

humano; porque ao cabo d'isso tudo está o finito. Immensa, eterna, absoluta só ha uma idéa, que está

fora do universo. Esta é a idéa de Deus.

Por isso, grande é somente Deus!

Mas dizia eu que o egoismo da tia Jeronyma era incompleto: digo mais; era incompletissimo. Quando

o sacristão vinha alta noite quebrar o dormir risonho e variamente resonado do padre prior; quando á

voz roufenha do ostiario aldeião, despertando o pastor para ir levar as consolações extremas á ovelha

moribunda, e tira-la lá, porventura, dos dentes e garras do cão tinhoso, se ajunctava o trovejar ao

longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraças progressivas das meias janellas, e o ramalhar da

ventania nos dous platanos do adro, era sem duvida que o resmungar da tia Jeronyma, apparecendo da

banda da sua pocilga com a candeia mortiça na mão e as roupinhas vermelhas do envez, tinha o que

quer que fosse repugnante e vil. A boa da velha pensava, acaso, que a morte não seria tão descortez

que negasse ao espirito do pobre moribundo o tempo necessario para poder, ao abandonar o corpo,

subir como chammasinha tenue, e galgar para o céu sobre um raio do sol nascente? Póde ser que sim.

Não seria, porém, antes, que ella preferisse o deixar frigir por alguns seculos nas caldeiras do

purgatorio aquella pobre alma christan, largando a sua veste mortal sem os ultimos sacramentos, á

necessidade de erguer-se por noite fria e tempestuosa para tomar nos hombros uma parte da cruz do

ministerio parochial? Tambem isto póde ser. O que se passava no abysmo da sua consciencia cousa

era que ella não revelava a ninguem; mas em todo o caso era um pensamento egoista.

Todavia é preciso confessar que com elle se misturava um sentimento puro e nobre: dizia-o esse

cuidado pressuroso com que a tia Jeronyma trazia as botas de côr terrea, o berneo de saragoça, o

capote de barregana, o chapeirão oleado, e a aguardente de ginjas, sem um copo da qual o prior não

ousaria transpôr o limiar da porta, e investir com as furias da noite procellosa: diziam-n'o a attenção

com que mirava se elle ía agasalhado, e as mil vezes repetidas ponderações hygienicas, que lhe fazia

com admiravel volubilidade de lingua. A affeição da sancta velha mostrava-se em tudo isso viva e

sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das voltas, e do perguntar e do responder, ía

rareando e abatendo como o assobio do furacão pelo valle, perdia gradualmente a expressão de

egoismo, e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento moral.

E o padre prior calado! — Calado enfiava as botas; envergava o gabinardo; cobria-se com o capote;

punha o amplo sombreiro; enchia um copinho do excellente cordial que a boa da ama lhe havia posto

diante; virava-o d'um golpe; fazia uma visagem fechando os olhos com força e estendendo os beiços;

dava um estalído com a lingua no céu da bôca; exprimia o intimo conforto que n'elle gerára o ethereo

licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena taça, cheia de novo, ao sacristão, que, mestre

nos estylos de cortezia, se curvava formando com o corpo um angulo obtuso de noventa e cinco graus,

despresadas as fracções, e arqueando o braço para levar o copo á bôca sequiosa, como se curva e

arqueia um peralvilho de guedelhas sansimonianas e miolos de agua chilra, ao conduzir em sala de

baile a deusa dos seus affectos de vinte e quatro horas ao meio do turbilhão doudo e (perdoe-se-nos a

blasphemia) um tanto parvo das valsas e contradanças.

Depois duas palavras magicas saíam da bôca do reverendo pastor: — "Até logo!" — O seu effeito era

instantaneo: o sacristão, pegando n'uma lanterna, com as chaves da igreja na mão encaminhava-se

para o adro seguido do padre prior: a tia Jeronyma fechava a porta após elles; e o tentador, como se

estivesse esperando por esse momento, travava-lhe novamente do espirito, e o resmoninhar da

impaciencia recomeçava em breve, acompanhado do ranger do linho na roca, e do espirrar da candeia

a espaços, e do respiro asthmatico do nedio gato do presbyterio, que, enroscado na lareira, abria de

quando em quando os olhos amortecidos, e cerrava-os logo com philosophica indifferença, emquanto

a tia Jeronyma esperava por seu velho amo, e se lhe apertava o coração sentindo o temporal que

passava lá fóra, e lembrando-se de que o enfermo poderia ter guardado para hora mais decente e

commoda a agonia do passamento.

E pela serra fóra, caminho de casal remoto, vae o velho prior: adiante o sacristão com a lanterna e a

ambula da extrema-unção, e elle atrás com o ciborio. As poças de agua reflectem essa debil claridade

que as alumia, e fazem um continuo plach, plach, debaixo dos pés dos dous caminhantes, cujo passo

apressam as cordas de chuva batida pelos furacões do sudoeste. Os pinheiros balouçando-se gemem

tristemente, e os enxurros, estrepitando pelos corregos, tiram com o pinhal uma toada soturna.

No céu profundamente negro não apparece uma estrella: na terra ao longe, bem ao longe, não se

descortina uma luz. A natureza debate-se comsigo mesma: tudo dorme, entretanto, nos casaes e na

aldeia, salvo o velho parocho e a familia daquelle que em trances mortaes espera o representante do

Christo, que lhe traz as derradeiras consolações e esperanças. Entre a philantropia humana e as

agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a tempestade ergueram uma barreira quasi

insuperavel: esta barreira desapparece, porém, diante da caridade que a todos nos ensina o Evangelho,

e que ao parocho impõem como dever imprescriptivel a sua missão sacerdotal e o seu caracter de pae

dos pobres e affligidos.

A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas alpestres exposto ás

inclemencias de noite invernosa, talvez em aposento bem resguardado, no fim de ceia brilhante, entre

as taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e voluptuarias, embriagado em

todos os deleites dos sentidos, algum famoso espirito forte cirzia remendos das paginas soporiferas

d'Holbach ou de Diderot, e dissertava profundamente sobre a mandriice, egoismo e cubiça do clero,

ou carpia a superstição do povo, que, para ser completamente feliz de nada mais precisa do que de

abandonar as crenças do christianismo e de amaldiçoar as esperanças de Deus, o conforto unico da

sua vida de miseria, de trabalho e de amargura. E naturalmente os neophitos daquella triste

philosophia extasiavam-se em redor do sabio philantropo, que, impando de iguarias delicadas, de

vinhos custosos, e de grossa sciencia, só lamentava a ignorancia daquelles a quem muitas vezes

faltava então, falta hoje, e faltará de futuro um bocado de pão negro para matar a fome; extasiavam-se

alli diante da sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, emquanto a virtude do velho

clerigo, exercitada nos desvios dos montes e no silencio da noite, não tinha por testemunhas senão um

céu humido e cerrado, e o vulto impetuoso e bramidor da ventania; mas que, em vez das lisonjarias de

parvos, tinha para o applaudir a voz sincera, consoladora e sancta da propria consciencia.

Havia, porém, no fim de tudo, uma differença entre o homem do evangelho e o da falsa sciencia. Era

o systema das compensações. O padre prior, depois de cumprir com o seu dever, voltava ao

presbyterio tranquillamente: tirava o capote alagado, despia o gabinardo felpudo, sacudia a uma

distancia razoavel as ponderosas botas, e enfiando-se entre os grosseiros lençoes, atava o fio do

somno no ponto em que o deixára; e emballado brandamente por sonhos apraziveis, só acordava sol

nado e alto, ao bradar da tia Jeronyma, e ao cheiro da açorda fumegante; almoço que, como tudo o

que era consagrado pelos seculos e pela tradição, elle profundamente respeitava.

E o nosso philosopho? O nosso philosopho, recolhendo-se alta noite, ía todo o caminho provando a si

mesmo que não ha diabos no mundo, nem almas, nem talvez Deus; mas sentindo arripiarem-se-lhe os

cabellos ao vêr dançar a phosphorescencia d'algum marnel, rezando o credo em cruz ao passar por

algum cemiterio, benzendo-se ao ouvir piar algum mocho. E depois de se deitar e adormecer

sonhava.... Em quê? Nas combinações infinitas da materia eterna de que deve, segundo as boas

doutrinas, ter rebentado o universo? Não! Sonhava com as penas do inferno; e ao acordar pela

manhan com defluxo, pedia confissão e sacramentos.

Já lá vão vinte annos! Bom tempo era esse, ao menos para mim, que ainda nem sabia da existencia do

animal chamado philosopho, classificavel entre os rodentia, pelo medroso e damninho. Em vinte

annos que voltas tem dado o mundo! Aquella especie vae-se acabando de todo. Auctores de comedias

apressae-vos! Antes que se perca o typo, levae o incredulo ostentoso á scena. Dae-nos algumas noites

de rir doudo e inextinguivel.

Os dias do padre prior corriam assim placidamente para o seu viver intimo, posto que o duro mister de

parocho lhe entenebrecesse muitas vezes os horisontes da vida material. E que importava, se todos na

aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam como a summa bondade, e o que não era menos, como a

summa intelligencia da parochia? Até o barbeiro, o proprio barbeiro, homem entendido e grave em

materias de eloquencia sagrada, não constava houvesse jámais torcido o nariz ás praticas e sermões do

padre prior, que elle, com a mão sobre a consciencia, punha acima dos melhores de frei Timotheo, um

fradalhão arrabido, cousa brava em gritarias ao divino, que por via de regra se incumbia das domingas

de quaresma naquella freguezia e nas circumvizinhas com acceitação e applauso universal do

auditorio, mas cuja fama era offuscada pelos periodos singelos do velho sacerdote, repassados de

uncção, e daquella eloquencia de missionario, que, apesar de rude, lá vae fazer vibrar o coração do

povo, afinado pela crença viva, como a harmonia que se tira das cordas de dous instrumentos

accordes.

Agora por isso, o que será feito de frei Timotheo?! Era naquelle tempo um frade guapo e alentado! O

que será feito delle? Se ainda vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital; venderam-

lhe o convento, o seu tonel de Diogenes; prohibiram-lhe o capuz e as sandalias, o seu direito

inauferivel de andar trajado como lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para

o mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao capuz e ás sandalias. Bom

passaporte para frei Timotheo transitar pela valla plebea do cemiterio nos braços morbidos e

suavissimos da fome! Foi um progresso de civilisação, que se completou pelo lado moral com o

augmento das loterias, das casas de cambio, e das traducções de novellas e dramas francezes.

Bemaventurada a tão esperta nação que assim comprehende o progresso!

Duas cousas, porém, mais que as práticas e sermões, serviam para engrandecer e glorificar o padre

prior, não só diante dos homens, mas tambem diante de Deus. Era a primeira o incansavel zêlo com

que se applicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concordia domestica, a prégar o trabalho, a

guerrear a embriaguez, e sobretudo a sanctificar pelo casamento as affeições illicitas: era a segunda o

fervor modesto e o innocente luxo com que procurava celebrar as festas religiosas, principalmente a

de S. Pantaleão, orago da freguezia, e de quem tanto os aldeiões como o velho presbytero criam

affincadamente possuir o metacarpo da mão direita, o qual devia ser de outro sancto, ou não-sancto,

se acreditarmos (eu cá pela minha parte acredito) os parochianos da sé do Porto, que se gabam de ter

debaixo de chave S. Pantaleão in totum, sem lhe faltar dedo de pé nem de mão, quanto mais um

metacarpo inteiro.

CAPÍTULO III: Uma Escorregadela

A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me lembra uma velha viuva, a senhora

Perpetua Rosa (Deus lhe fale na alma!) que morava ao cabo do logar n'uma barraquinha á beira do rio

muito caiada, com seu rodapé de vermelhão, e sombreada por cinco ou seis choupos que nasciam da

agua. Tinha ella (a velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada Bernardina. Era

uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não

havia mais dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de quatro annos. Uns poucos de

rapazes da aldeia andavam doudos por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na

casa da brincadeira, a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar este mundo e o outro, mirando da sua

rotula o que se passava á entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio, notava que,

apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam após ella com muita mais furia e pressa do que

pela manhan haviam corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes d'isso já a boa da

velha tinha reparado no modo por que elles se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente

uns dos outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pôr dos barretes á banda, nos olhares que

mutuamente se lançavam, no pegarem em seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de

competencia, sem dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes a robustez do

proprio braço. D'isto tudo tirava a tia Jeronyma agouro de muita pancadaria, — "por amor daquella

delambida — dizia a ama do prior em suas caridosas murmurações — que anda toda arrebicada por

baralhotas, em quanto a pobre da mãe moureja todo o sancto dia ao sol e á neve naquelle rio, para

ganhar um bocado de pão sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!"

E o mais é que a tia Jeronyma não se enganava nas suas previsões. Chegou vespera de Reis: houve á

noite brincadeira ou baile extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se viola,

dançou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu a esperar entre os lençoes os sanctos Reis

magnos, designação popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora na Epiphania.

Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou vestido e ao relento, no caminho da

serra, a vinda dos tres sanctos personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda

e magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior uma daquellas noitadas que

suscitavam a colera da tia Jeronyma, e de que já acima fiz honrosa e especifica menção.

O Manuel da Ventosa era filho unico d'um moleiro ricaço, chamado Bartholomeu, velho honrado,

mas avarento como seiscentos Satanáses. Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de caír em graça á

Bernardina. Amoricos d'aqui, amoricos d'acolá, janella na cara a um, respostas tortas a outro, segredar

e rir de vizinhas, raivas de desprezados: somma total — zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa,

por ter tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era o enlevo de todos os corações.

Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrificio; os desprezos cresceram com a vingança. O que

começára por passatempo converteu-se em paixão violenta: um fogo íntimo devorava a alma de

Bernardina, e desbotava-lhe as faces, d'antes tão frescas e rosadas como as de um seraphim da peanha

da Senhora da Conceição, obra de esculptor insigne. No Manuel da Ventosa, isso não falemos:

quando melhorou da doença andava entre parvo e abstracto: attribuia-o o licenciado dos sitios a

depressão cerebral produzida por alguma ripada nas vertebras; mas, se existia depressão de cerebro,

outra era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia jurava e tresjurava que o moço

moleiro tinha a espinhela caída. Historias. Eu, apesar de ser então uma creança, sabia bem onde batia

o ponto; por isso nunca fui para ahi.

Por encurtar razões: os dous amavam-se como loucos. As pessoas desinteressadas achavam-nos um

par completo; e com bom fundamento: o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, unico

herdeiro de ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da aldeia, ás quaes,

conforme a direito, incumbia pôr ao soalheiro a vida privada de cada uma, no capitulo da honra nunca

se tinham atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpetua Rosa. Podia a senhora Perpetua Rosa

gabar-se dessa! E de feito, muitas vezes, mettida no rio até os joelhos, em discussões acaloradas com

as suas illustres amigas, as outras lavadeiras pelo circulo de Lisboa, a ouvi empraza-las para que

formulassem precisamente certas interpellações infundadas, rejeitando com desprezo alguns

remoques bernardos relativos a Bernardina, e appellando para a opinião do paiz representada pelos

seus orgãos, as beatas do soalheiro.

Mas se os dous se amavam com tanto extremo, e eram feitos e talhados para puxarem o mesmo carro

matrimonial, porque não íam pedir ao padre prior o conjungo vos? Ahi é que certo animal torcia certa

parte do corpo, que eu e o leitor sabemos. Por não terem pedido esclarecimentos sobre o facto é que

as lavadeiras faziam declamações vagas.

Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre,

pobrissima. Por mal de peccados fôra ella antigamente lavadeira do casal do moinho, ou antes dos

moinhos, porque para a exacção historica deve-se advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que

levára grande porção de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas. Bartholomeu quando tal soube

quiz morrer. — "Juro por esta — dizia elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados

sobre a bôca: — juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres saccas novas em folha, que

me perdeu, a desalmada!" — Mas nem novas nem velhas; porque a verdade era que ella não tinha

com que as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança com ordenar-lhe que não lhe

tornasse a rapar os pés á porta. Desde este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pôde encarar

com a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das tres saccas gravada naquelle

coração de avarento. Assim para elle seria cousa monstruosa e abominavel só o imaginar a

possibilidade de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fôra de sobra para

impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de semelhante mãe. Tal era a difficuldade insuperavel

que se oppunha á união dos dous amantes.

E os mezes íam passando, e as murmurações crescendo, e saltando já das lavadeiras para as beatas.

Tinham visto mais de uma vez (dlzia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a deshoras a

barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que nas madrugadas de alguns domingos,

quando a senhora Perpetua Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco um vulto,

que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta da Bernardina, e... e etcaetera. Era muito

vêr! Mas a cousa ía correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias eram as linguas

dos maldizentes, que se refocillavam na palangana da murmuração, e o diabo que se lambia para, por

estas e por outras, os catrafilar a seu tempo.

Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo é ás vezes boa de mais. Desobriga vae,

desobriga vem, sabe-se muita cousa. O padre prior andava já com a pedra no sapato; porque elle não

era cégo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal que era uma sexta-feira), quando o

sacristão veio abrir a porta da igreja, estavam já no adro á espera Perpetua Rosa e Bernardina para se

confessarem. Não tardou o prior. Aviou-se a mãe: ajoelhou a filha: persignou-se, benzeu-se, disse

mea culpa, e começou sua confissão.

Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste ponto o casus foederis de eu tomar a

postura tragica a la moda, carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento: — "O que

ahi se passou entre o veneravel ancião e a donzella ninguem o soube! — ! — ! — ! — Mysterio! — !

— ! — ! Acontecimento horrivel e fatal! — ! — ! — ! As lagrymas ardentes do velho caíram sobre a

cabeça da infeliz ajoelhada a seus pés, cujo futuro (não o dos pés, mas o da infeliz) era de maldicção!

— ! — ! — !" Limitada, porém, a minha narrativa a chan e plebéa recordação de um pobre parocho

d'aldeia, reflectirei em summa, que me não é licito revelar o segredo do confessionario. Os sigillistas

já deram que fazer ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era delicadissima em

materias de orthodoxia catholica, e em tudo. Calo-me, porque não quero caír no erro que elle

condemnou. Direi só que foi mui demorada a confissão de Bernardina, e que, ao alevantar-se d'ante os

pés do prior, ella trazia os olhos como punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o

sacristão e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente ía descabeçando a penitencia em quanto a filha

se desobrigava.

Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga coberta de verdura, assentado no

cruzeiro, segundo o seu costume. A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera começava

apenas; mas o velho parocho parecia não a sentir, embebido em cogitações; e tão fundas íam estas,

que, em vez de traçar na terra com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas,