O Poeta e a Inquisição por Gonçalves de Magalhães - Versão HTML

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O POETA E A INQUISIÇÃO

Gonçalves de Magalhães

PRIMEIRO ATO

CENA I

Vista de sala particular em casa de Mariana. De um lado uma cômoda, sobre a qual estará um oratório fechado, cujo destino se indicará no segundo ato. Do lado oposto uma mesa, e um candeeiro antigo. Mariana sentada, com um papel na mão, como que estuda sua parte teatral. Lúcia em pé, espevitando a luz.

MARIANA e LÚCIA

MARIANA –

Deixa-me, Lúcia; deixa-me tranqüila;

Vai-te, deixa-me só... Repousar quero.

Esta cabeça de fadigas tantas.

De mim terias pena, se soubesses

Que turbilhão de fogo me devora

Sente tu mesma, toca. (Levando a mão de Lúcia à cabeça.) LÚCIA –

Oh, como queima!

Parece um forno!... Que terrível febre!

Senhora, quer que eu faça alguma coisa?

Quer que eu chame o doutor?

MARIANA –

Não; nada quero.

Somente que me deixes, eu te peço.

LÚCIA –

Como a posso deixar em tal estado?

Fora preciso um coração de pedra.

Não... agora me lembro... vou fazer-lhe

Um remédio caseiro; espere, eu volto. (Sai.)

CENA II

MARIANA –

Pobre Lúcia, que amor tu me consagras...

És quase mãe, fiel, sincera amiga.

Quantas obrigações eu te não devo...

Oh! que aguda pontada!...

CENA III

LÚCIA (Voltando com um copo na mão) – Aqui lhe trago Um remédio bem simples, mas que cura;

É um pouquinho d’água com vinagre.

Molha-se o lenço... assim... É coisa santa;

Não tenha medo; aplique-o sobre as fontes.

Ensinou-me... quem mesmo?... nem me lembro.

MARIANA –

Oh, que dor! fez-me mal a frialdade.

LÚCIA –

É sempre assim; daqui a pouco passa:

Mas tenha paciência.

MARIANA –

Estou mais calma;

O calor se dissipa, e a dor se abranda. (Pega no papel para l er) LÚCIA –

Deixe, senhora, esse papel maldito.

Que praga! Forte teima de leitura!

Continuamente a ler!... Nunca descansa!

Eis aí porque sofre... não se queixe.

O mesmo ferro, quando muito o malham,

E a pedra, quando a batem, ferem fogo,