O Profeta por Khalil Gibran - Versão HTML

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O Profeta

(Khalil Gibran)

Índice

A Chegada do Navio............................ 1

Sobre o Amor...................................... 6

Sobre o Casamento............................. 9

Sobre as Crianças .............................. 11

Sobre a Dádiva .................................. 13

Sobre a Comida e a Bebida................. 16

Sobre o Trabalho ............................... 18

Sobre a Alegria e a Tristeza ............... 21

Sobre as Casas .................................. 23

Sobre as Roupas ............................... 26

Sobre as Compras e Vendas............... 28

Sobre o Crime e o Castigo ................. 30

Sobre os Leis .................................... 34

Sobre a Liberdade ............................ 36

Sobre a Razão e a Paixão.................. 38

Sobre a Dor...................................... 40

Sobre o Auto-conhecimento ............. 42

Sobre o Ensino ................................. 44

Sobre a Amizade .............................. 46

Sobre a Conversa.............................. 48

Sobre o Tempo ................................ 50

Sobre o Bem e o Mal ........................ 52

Sobre a Oração ................................ 55

Sobre o Prazer.................................. 57

Sobre a Beleza ................................. 60

Sobre a Religião .............................. 63

Sobre a Morte ................................. 65

Os Adeuses ..................................... 67

A Chegada do Navio

Almustafa, o escolhido e bem amado, que era au-

rora do seu próprio dia, esperara doze anos na ci-

dade de Orfalés pelo navio que havia de o recolher

e levar de volta à sua ilha natal.

E no décimo segundo ano, no sétimo dia de Eilul, o

mês das colheitas, subiu à colina sem muralhas e

pôs-se a olhar para o mar; e viu o seu navio apare-

cer com a bruma.

Então as portas do seu coração abriram-se e a sua

alegria voou longe sobre o mar. E ele fechou os

olhos e orou no silêncio da sua alma.

Mas enquanto descia a colina, apoderou-se dele

uma grande tristeza e pensou com o coração:

Como poderei partir em paz e sem mágoa? Não,

não vou sair da cidade com uma ferida no espírito.

Muitos foram os dias de dor que passei dentro das

suas muralhas, e muitas foram as noites de soli-

dão; e quem pode separar-se da dor e da solidão

sem mágoa?

Espalhei demasiados fragmentos do espírito por

estas ruas, e muitos são os filhos da nostalgia que

caminham nus por estas colinas, e não posso afas-

tar-me deles sem peso nem dor.

Não é a roupa que hoje dispo, mas uma pele que

arranco com as minhas próprias mãos.

Nem é um pensamento que deixo atrás de mim,

mas um coração tornado doce pela fome e pela

sede.

No entanto, não posso demorar-me mais.

O mar que chama todas as coisas, chama-me tam-

bém e tenho de embarcar.

Pois ficar, embora as horas escaldem na noite, é

gelar e cristalizar e perder-me numa forma.

De bom grado levaria tudo o que aqui se encontra.

Mas como o poderei fazer?

Uma voz não pode transportar a língua e os lábios

que lhe deram asas. Terei de procurar sozinho o

etéreo.

E solitária e sem ninho a águia atravessará o sol.

Quando chegou ao fundo da colina, voltou-se para

o mar e viu o seu navio aproximar-se do porto, e

na proa os marinheiros, os homens da sua pátria.

E a sua alma gritou-lhes e ele disse:

Filhos da minha velha mãe, vós, cavaleiros das ma-

rés, Quantas vezes velejastes nos meus sonhos.

Agora apareceis no meu despertar, que é o meu

sonho mais profundo.

Pronto estou eu para ir, e a minha ânsia pelas ve-

las desfraldadas aguarda o vento.

Só respirarei mais uma vez neste ar imóvel, só

mais um olhar de amor para trás,

E então me encontrarei entre vós, um marinheiro

entre marinheiros.

E, enquanto caminhava, avistou ao longe homens

e mulheres que saíam dos campos e das vinhas e

se apressavam em direção aos portões da cidade.

E ouviu as suas vozes chamarem-lhe o nome, gri-

tando de campo para campo, anunciando uns aos

outros a chegada do navio.

E disse para consigo:

Será o dia da partida o dia da reunião?

E poderá em verdade ser dito que a minha noite foi

a minha aurora?

E que darei àquele que deixou a charrua a meio de

um sulco ou àquele que fez parar a roda do seu la-

gar?

Tornar-se-á o meu coração uma árvore carregada

de frutos que eu possa reunir para lhes dar?

E conseguirão os meus desejos fluir como uma

fonte para que eu possa encher-lhes os cálices?

Sou uma harpa que a mão dos poderosos pode to-

car, ou uma flauta cujo sopro passa por mim?

Sou aquele que procura os silêncios, e que tesou-

ros encontrei nos silêncios que possa dispensar

com confiança?

Se este é o dia da minha colheita, em que campos

espalhei a semente, e em que esquecidas esta-

ções?

Se esta é verdadeiramente a hora em que erguerei

a minha lanterna, não é a minha chama que lá irá

arder.

Erguerei a minha lanterna vazia e escura.

E o guardião da noite enchê-la-á de petróleo e a

alumiará.

Estas coisas disse ele em palavras. Mas muito no

seu coração ficou por dizer.

Porque ele próprio não podia falar do seu segredo

mais profundo.

E quando entrou na cidade todos vieram ter com

ele, e todos choravam a uma só voz.

E os anciãos da cidade avançaram e disseram:

Não te apartes ainda de nós.

Tu foste o sol do meio dia no nosso crepúsculo, e a

tua juventude deu-nos sonhos para sonhar.

Não és nenhum estranho entre nós, nem um hós-

pede, mas nosso filho eleito e adorado.

Que os nossos olhos não sofram ainda por deixar

de te ver.

E os sacerdotes e sacerdotisas disseram-lhe:

Não deixes que as ondas do mar nos separem ago-

ra, e que os anos que passaste entre nós se trans-

formem numa recordação.

Caminhaste entre nós como um espírito, e a tua

sombra tem iluminado os nossos rostos.

Muito te temos amado. Mas o nosso amor era sem

palavras, e coberto com véus.

E agora grita bem alto e desvenda-se perante ti.

É que o amor só conhece a sua profundidade na

hora da separação.

E outros chegaram e com ele falaram.

Mas ele não lhes respondeu. Limitou-se a curvar a

cabeça; e aqueles que se encontravam perto viram

as lágrimas caírem-lhe sobre o peito.

E ele e os outros dirigiram-se para a grande praça

frente ao templo.

E do santuário saiu uma mulher que se chamava

Almitra e era vidente.

E ele olhou-a com grande ternura, pois fora ela a

primeira que acreditara nele quando estava na ci-

dade havia só um dia.

E ela disse-lhe:

Profeta de Deus, na busca do supremo, muito pro-

curaste as distâncias do teu navio.

E agora o teu navio chegou e tu tens de ir.

Profunda é a ânsia pela terra das tuas memórias e

pelo paradeiro dos teus maiores desejos; e o nosso

amor não te vai reter, nem as nossas necessidades

te prenderão.

E agora que vais partir pedimos-te que fales co-

nosco e nos reveles a tua verdade.

E nós a passaremos aos nossos filhos, e eles aos fi-

lhos deles e ela nunca morrerá.

Na tua solidão observaste os nossos dias, e no teu

despertar ouviste o choro e o riso do nosso sono.

Agora revela-te a nós, e diz-nos o que te foi mos-

trado e que existe entre o nascimento e a morte.

E ele respondeu:

Povo de Orfalés, de que vos poderei falar, exceto

daquilo que agora se passa nas nossas almas?

Khalil Gibran (República do Líbano)

&A&

Do livro “O Profeta” (sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-positivo.com/biblioteca/pdf/profe-

ta.pdf

Sobre o Amor

Então Almitra disse: Fala-nos do Amor.

E ele ergueu a cabeça e olhou para o povo e caiu

uma grande imobilidade sobre eles. E em voz po-

derosa ele disse:

Quando o amor vier ter convosco, seguros embora

os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.

E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o,

embora a espada oculta sob as asas vos possa fe-

rir.

E quando ele falar convosco, acreditai, embora a

sua voz possa abalar os vossos sonhos como o

vento do norte devasta o jardim.

Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrifica-

rá. Assim como é para o vosso crescimento tam-

bém é para a vossa decadência.

Mesmo que ele suba até vós e acaricie os mais ter-

nos ramos que tremem ao sol, também até às raí-

zes ele descerá e as abalará, enquanto elas se

agarram à terra.

Como molhos de trigo ele vos junta a si.

Ele vos amanha para vos pôr a nu.

Vos peneira para vos libertar das impurezas.

Vos mói até à alvura.

Vos amassa até vos tomardes moldáveis;

E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para

que vos tomeis pão sagrado para a sagrada festa

de Deus.

Toda estas coisas vos fará o amor até que conhe-

çais os segredos do vosso coração, e, com esse co-

nhecimento, vos tomeis um fragmento do coração

da Vida.

Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o

prazer do amor, então é melhor que oculteis a vos-

sa nudez e saiais do amor, para o mundo sem sen-

tido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e

chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si. O

amor não possui nem é possuído; pois o amor

basta-se a si próprio.

Quando amardes não deveis dizer "Deus está no

meu coração", mas antes "Eu estou no coração de

Deus".

E não penseis que podeis alterar o rumo do amor,

pois o amor, se vos achar dignos, dirigirá o seu

curso.

O amor não tem outro desejo que o de se preen-

cher a si próprio.

Mas se amardes e tiverdes desejos, que sejam es-

ses os vossos desejos:

Fundir-se e ser como um regato que corre e canta

a sua melodia para a noite.

Para conhecer a dor de tanta ternura.

Ser ferido pela vossa própria compreensão do

amor; e sangrar com vontade e alegremente.

Despertar de madrugada com um coração alado e

dar graças por mais um dia de amor;

Repousar ao fim da tarde e meditar sobre o êxtase

do amor;

Regressar a casa à noite com gratidão;

E depois adormecer com uma prece para os ama-

dos do vosso coração e um cântico de louvor nos

vossos lábios.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre o Casamento

Então Almitra falou novamente e disse:

E quanto ao casamento, Mestre?

E ele respondeu, dizendo:

Nascestes juntos, e juntos ficareis para sempre.

Estareis juntos quando as asas brancas da morte

acabarem com os vossos dias.

Ah, estareis juntos mesmo na memória silenciosa

de Deus.

Mas que haja espaços na vossa união e que os

ventos celestiais possam dançar entre vós.

Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor

uma prisão; deixai antes que seja um mar ondu-

lante entre as margens das vossas almas.

Enchei a taça um do outro mas não bebais de uma

só taça.

Parti o vosso pão ao meio mas não comais do mes-

mo pão.

Cantai e dançai juntos, mas deixai que cada um de

vós fique sozinho.

Como as cordas de uma lira estão sozinhas embora

vibrem ao som da mesma música.

Entregai os vossos corações mas não ao cuidado

um do outro.

Pois só a mão da Vida pode conter os vossos cora-

ções.

E ficai juntos mas não demasiado juntos:

Pois os pilares do templo estão afastados, e o car-

valho e o cipreste não crescem à sombra um do

outro.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre as Crianças

Depois, uma mulher que trazia um bebê ao colo

disse: Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

Os vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da Vida que anseia por si

mesma.

Eles vêm através de vós mas não de vós.

E embora estejam convosco não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor mas não os vossos

pensamentos, pois eles têm os seus próprios pen-

samentos.

Podeis abrigar os seus corpos mas não as suas al-

mas.

Pois as suas almas vivem na casa do amanhã, que

vós não podereis visitar, nem em sonhos.

Podereis tentar ser como eles, mas não tenteis

torná-los como vós.

Pois a vida não anda para trás nem se detém no

ontem.

Vós sois os arcos de onde os vossos filhos, quais

flechas vivas, serão lançados.

O arqueiro vê o sinal no caminho do infinito e Ele

com o Seu poder faz com que as Suas flechas par-

tam rápidas e cheguem longe.

Que a vossa inflexão na mão do Arqueiro seja para

a alegria; pois assim como Ele ama a flecha que

voa, também ama o arco que se mantém estável.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre a Dádiva

Depois um homem rico disse: Fala-nos da Dádiva.

E ele respondeu:

Dais muito pouco quando dais o que vos pertence.

Só quando vos dais a vós próprios é que estais ver-

dadeiramente a dar.

Pois o que são as vossas pertenças senão aquilo

que guardais com medo de necessitar amanhã?

E amanhã, que trará o amanhã ao cão prudente

que vai enterrando ossos na areia sem marcas en-

quanto segue os peregrinos até à cidade santa?

E o que é o medo da necessidade senão a própria

necessidade?

Não é o receio da sede que sentis quando o vosso

poço está cheio, da sede insaciável?

Há aqueles que dão pouco do muito que têm, e fa-

zem-no para conseguirem reconhecimento e o seu

desejo oculto torna as suas dádivas sem valor.

E há aqueles que, tendo pouco, tudo dão.

Esses são os que acreditam na vida e na magnifi-

cência da vida e o seu cofre nunca está vazio.

Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a

sua recompensa.

E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu

baptismo.

E há aqueles que dão e não conhecem a dor ao dar,

nem procuram alegria, nem dão para se sentirem

virtuosos; dão, tal como no vale a murta exala o

seu perfume para o espaço.

E através das mãos desses que Deus fala, e por de-

trás dos seus olhos que Ele sorri para a terra.

É bom dar quando vos é pedido, mas é melhor dar

se vos pedirem só através da compreensão; e para

o que tem as mãos abertas a busca daquele que

vai receber é uma alegria maior do que dar.

E que podereis conservar?

Tudo o que possuís será um dia dado.

Por isso dai agora, agora que a época da dádiva

pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.

Dizeis muitas vezes "Eu daria, mas só a quem o

merecesse".

As árvores do vosso pomar não dizem isso, nem os

rebanhos nas pastagens.

Eles dão para poder viver, pois não dar é perecer.

Aquele que é merecedor das suas noites e dos seus

dias é com certeza merecedor de tudo.

E aquele que mereceu beber do oceano da vida

merece encher a taça no vosso ribeiro.

E que deserto maior haverá do que aquele que as-

senta na coragem e na confiança de receber?

E quem sois vós para que os homens se desnudem

e exponham o seu orgulho, para que os possais ver

nus e com o orgulho a descoberto?

Certificai-vos primeiro de que sois dignos de dar e

de ser instrumento da dádiva.

Pois, na verdade, é a vida que dá à vida, enquanto

vós, que vos considerais doadores, não passais de

testemunhas.

E vós, os que recebeis – e todos recebeis – não

carregueis o fardo da gratidão, pois estareis colo-

cando um jugo sobre vós e sobre aquele que dá.

Erguei-vos antes juntamente com o que dá, sobre

essas dádivas como se elas fossem asas; porque

ter demasiada consciência da vossa dívida é duvi-

dar da generosidade daquele que tem a terra de

coração livre como mãe e Deus como pai.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre a Comida e a Bebida

E depois um velho Dono de uma estalagem, disse:

Fala-nos da Comida e da Bebida.

E ele respondeu:

Deveríeis viver da fragrância da terra, e, tal como

uma planta, sustentar-vos com a luz.

Mas como tendes que matar para comer, e retirar

o recém nascido do leite da sua mãe para aplacar a

vossa sede, então fazei disso um ato de veneração,

e fazei um altar onde os puros e inocentes da flo-

resta e da planície sejam sacrificados para aquilo

que é mais puro e ainda mais inocente no homem.

Quando matardes um animal, dizei-lhe com todo o

coração:

– Pelo mesmo poder com que te abato, também eu

sou abatido; e também eu serei consumido.

Porque a lei que te entregou nas minhas mãos me

irá entregar a uma mão mais poderosa.

O teu sangue é o meu sangue mais não são do que

a seiva que alimenta a árvore do céu.

E quando esmagardes uma maçã com os vossos

dentes, dizei com todo o vosso coração:

– As tuas sementes viverão no meu corpo, e os bo-

tões do teu amanhã florescerão no meu coração, e

a tua fragrância será a minha respiração, e juntos

nos regozijaremos em todas as estações.

E no outono, quando colherdes as uvas das vossas

vinhas, dizei com todo o coração:

– Também eu sou uma vinha e o meu fruto será

colhido para o lagar, e, tal como o vinho novo, se-

rei conservado em jarros eternos.

E no inverno, quando provardes o vinho, que haja

no vosso coração uma canção para cada taça; e

que na canção haja a recordação dos dias de outo-

no, da vinha e do lagar.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre o Trabalho

Depois um operário lhe disse: Fala-nos do Traba-

lho.

E ele respondeu, dizendo:

Vós trabalhais para poder manter a paz com a ter-

ra e a alma da terra.

Pois ser ocioso é tornar-se estranho às estações e

ficar afastado da procissão da vida que marcha

majestosamente e com orgulhosa submissão em

direção ao infinito.

Quando trabalhais sois uma flauta através da qual

o sussurro das horas se transforma em música.

Qual de vós quereria ser uma cana muda e silenci-

osa, quando tudo o resto canta em uníssono?

Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldi-

ção e o labor um infortúnio.

Mas eu digo-vos que quando trabalhais estais a

preencher um dos sonhos mais importantes da ter-

ra, que vos foi destinado quando esse sonho nas-

ceu, e quando vos ligais ao trabalho estais verda-

deiramente a amar a vida, e amar a vida através

do trabalho é ter intimidade com o segredo mais

secreto da vida.

Mas se na dor chamais ao nascimento uma prova-

ção e à manutenção da carne uma maldição grava-

da na vossa fronte, então vos digo que nada, exce-

to o suor na vossa fronte, apagará aquilo que está

escrito.

Também vos foi dito que a vida é escuridão, e no

vosso cansaço fazeis-vos eco de tudo o que os can-

sados vos disseram.

E eu digo que a vida é mesmo escuridão excepto

quando existe necessidade, e toda a necessidade é

cega exceto quando existe sabedoria.

E toda a sabedoria é vã exceto quando existe tra-

balho, e todo o trabalho é vazio exceto se houver

amor; e quando trabalhais com amor estais a ligar-

vos a vós mesmos, e uns aos outros, e a Deus.

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com fios arrancados do vosso cora-

ção, como se os vossos bem amados fossem usar

esse pano.

É construir uma casa com afeto, como se os vossos

bem amados fossem viver nessa casa.

É semear sementes com ternura e fazer a colheita

com alegria, como se os vossos bem amados fos-

sem comer a fruta.

É dar a todas as coisas um sopro do vosso espírito,

e saber que todos os abençoados defuntos estão à

vossa volta a observar-vos.

Muitas vezes vos ouvi dizer, como se estivésseis a

falar durante o sono, "Aquele que trabalha o már-

more e encontra na pedra a forma da sua própria

alma é mais nobre do que aquele que trabalha a

terra.

E aquele que agarra o arco-íris para o colocar

numa tela à semelhança do homem, é mais do que

aquele que faz as sandálias para os nossos pés."

Mas eu digo, não no sono, mas no despertar, que o

vento não fala mais documente com o carvalho gi-

gante do que com a mais ínfima erva; e é grande

aquele que, sozinho, transforma a voz do vento

numa canção tornada doce pelo seu amor.

O trabalho é o amor tornado visível.

E se não sabeis trabalhar com amor mas com desa-

grado, é melhor deixardes o trabalho e sentar-vos

à porta do templo a pedir esmola àqueles que tra-

balham com alegria.

Pois se fizerdes o pão com indiferença, estareis a

fazer um pão tão amargo que só saciará metade da

fome.

E se esmagardes as uvas de má vontade, essa má

vontade contaminará o vinho com veneno.

E se cantardes como anjos mas não apreciardes os

cânticos, estareis a ensurdecedor os ouvidos do

homem às vozes do dia e às vozes da noite.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre a Alegria e a Tristeza

E depois uma mulher disse: Fala-nos da Alegria e

da Tristeza.

E ele respondeu:

A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada.

E o mesmo poço de onde sai o vosso riso esteve

muitas vezes cheio de lágrimas.

E como poderá ser de outra maneira?

Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser,

maior é a alegria que podereis conter.

A taça que contém o vosso vinho não é a mesma

que foi feita no forno do oleiro?

E a lira que vos apanigua o espírito não é da mes-

ma madeira com que foram esculpidas as facas?

Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do

vosso coração e descobrireis que só aquele que

vos deu tristezas vos dá também alegrias.

Quando estiverdes tristes, olhai novamente para

dentro do vosso coração e vereis que na verdade

estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria.

Alguns de vós dizeis, "A alegria é maior que a tris-

teza" e outros dirão "Não, a tristeza é maior".

Mas eu vos digo que são inseparáveis.

Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós

lembrai-vos que a outra está a dormir na vossa

cama.

Na verdade, estais suspensos como balanças entre

a vossa tristeza e a vossa alegria.

Só quando vos esvaziais ficais em equilíbrio e imó-

veis.

Quando o guardador de tesouros vos erguer para

pesar o seu ouro e a sua prata, nem a vossa alegria

nem a vossa tristeza se devem alterar.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre as Casas

E depois um pedreiro aproximou-se e disse: Fala-

nos das Casas.

E ele respondeu, dizendo:

Na vossa imaginação construí um abrigo na flores-

ta antes de construirdes uma casa dentro das mu-

ralhas da cidade.

Pois assim como tendes vontade de regressar ao

crepúsculo, também o errante que existe em vós,

sempre distante e solitário o tem.

A vossa casa é o vosso corpo em ponto grande.

Cresce ao sol e dorme na quietude da noite; e tem

sonhos.

A vossa casa não sonha?

E ao sonhar não deixa a cidade e vai para os bos-

ques e colinas?

Pudesse eu juntar as vossas casas na minha mão e

espalhá-las pelas florestas e pelos prados.

Os vales seriam as vossas ruas, e os caminhos ver-

des as vossas avenidas, e procuraríeis uns pelos

outros nas vinhas e traríeis nas vossas roupas a

fragrância da terra.

Mas ainda não chegou o momento dessas coisas

acontecerem.

Os vossos antepassados, com receio, fizeram-vos

permanecer juntos.

E esse receio perdurará mais algum tempo.

Mais algum tempo e as muralhas da vossa cidade

separarão os vossos lares dos vossos campos.

E dizei-me, povo de Orfalés, que tendes vós nessas

casas?

Que guardais vós a sete chaves?

Tendes paz, a calma necessidade que revela o vos-

so poder?

Tendes recordações nas abóbadas que assentam

nos cumes do espírito?

Tendes a beleza que conduz o coração das coisas

modeladas em madeira e pedra à montanha sagra-

da?

Dizei-me, tendes isto nas vossas casas?

Ou só tendes conforto e o desejo do conforto, essa

coisa que entra na vossa casa como hóspede e

logo se transforma em dono e depois se apossa de

tudo?

Ah, e se transforma em domador, e com o chicote

faz dos vossos maiores desejos meras marionetes.

Embora as suas mãos sejam de seda, o seu cora-

ção é de ferro.

Embala-vos até adormecerdes para ficar junto à

vossa cama e escarnecer da dignidade da carne.

E troça dos sentidos sensatos e torna-os frágeis

navios.

Na verdade, o desejo do conforto mata a paixão da

alma e depois acompanha, sorrindo, o seu funeral.

Mas vós, filhos do espaço que repousais na inquie-

tude, não vos deixareis apanhar nesta ratoeira

nem vos deixareis domar.

A vossa casa não será uma ancora mas um mastro.

Não será uma tênue película que tapa uma ferida,

mas uma pestana que guarda o olho.

Não encolhereis as vossas asas para passardes pe-

las portas, nem curvareis as vossas cabeças para

que não batam no teto, nem receareis respirar

com medo que as paredes se desmoronem.

Não vivereis em túmulos feitos pelos mortos para

os vivos.

E, embora magnificente e resplendorosa, a vossa

casa não reterá o vosso segredo nem abrigará a

vossa aspiração.

Pois aquilo que é ilimitado em vós habita a mansão

do céu, cuja porta é a neblina matinal e cujas jane-

las são os cânticos e os silêncios da noite.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre as Roupas

E o tecelão disse: Fala-nos das Roupas.

E ele respondeu:

As vossas roupas ocultam muita da vossa beleza,

no entanto não ocultam a fealdade.

E embora procureis no vestuário a liberdade da

privacidade, podereis encontrar nele grilhetas.

Pudesseis vós enfrentar o sol e o vento com mais

pele e menos vestuário.

Pois o sopro da vida está na luz do sol e a mão da

vida, no vento.

Alguns de vós dizeis, "Foi o vento do norte que te-

ceu as roupas que vestimos."

E eu digo, ah, sim, foi o vento do norte, mas a ver-

gonha era o seu ofício e o amolecimento dos ten-

dões o seu tear.

E depois de acabar o seu trabalho foi-se rir para a

floresta.

Não esqueçais que a modéstia é um escudo contra

o olho do impuro.

E quando o impuro deixar de o ser, que será a mo-

déstia senão um entrave do espírito?

E não vos esqueçais que a terra adora sentir os

vossos pés nus, e os ventos anseiam por brincar

com os vossos cabelos.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre as Compras e Vendas

E um mercador disse: Fala-nos das Compras e das

Vendas.

E ele respondeu, dizendo:

Para vós a terra concede os frutos e vós não os

aceitareis a menos que saibais como encher as

mãos.

É na troca das dádivas da terra que encontrareis a

abundância e ficareis saciados.

No entanto, a menos que a troca seja feita com

amor e justiça, só trará ganância a alguns e sofre-

guidão a outros.

E vós, trabalhadores do mar e campos e vinhas,

quando no mercado encontrardes os tecelões, os

oleiros e os mercadores de especiarias, invocai en-

tão o espírito superior da terra, para que venha

para o meio de vós e abençoe as balanças e as me-

didas que avaliam valor contra valor.

E não admitais que os de mãos estéreis participem

nas vossas transações, pois eles trocariam as suas

palavras pelo vosso trabalho.

A tais homens deveis dizer:

"Vinde conosco aos campos, ou ide com os nossos

irmãos para o mar e atirai as vossas redes; pois a

terra e o mar serão tão generosos para vós como

têm sido para nós."

E se aparecerem os dançarinos e cantores e toca-

dores de flauta, aceitai também as suas ofertas.

Pois também eles recolhem frutos e incensos, e

aquilo que trazem, embora disfarçado de sonhos, é

alimento para a vossa alma.

E antes de sairdes do mercado certificai-vos de

que ninguém saiu de mãos vazias.

Pois o espírito superior da terra não dormirá em

paz ao vento enquanto não forem satisfeitas as

necessidades dos mais pequenas de vós.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre o Crime e o Castigo

Então, um dos juízes da cidade avançou e disse:

Fala-nos do Crime e do Castigo.

E ele respondeu, dizendo;

É quando o vosso espírito vagueia pelo vento que

vós, solitários e indefesos, fazeis mal aos outros e

também a vós mesmos.

E pelo mal que fazeis devereis bater à porta dos

abençoados e esperar.

O vosso eu interior é como o oceano; permanece

para sempre imaculado. E, tal como o etéreo, só

ergue os seres alados.

O vosso eu interior é como o sol; não conhece os

esconderijos da toupeira nem procura as tocas da

serpente.

Mas o vosso eu interior não habita sozinho dentro

de vós.

Muito em vós ainda é humano, e muito não o é.

Mas um pigmeu disforme que caminha sonâmbulo

no nevoeiro à procura do seu próprio despertar.

E é do homem em vós que agora irei falar.

Pois é ele e não o vosso eu interior, nem o pigmeu

no nevoeiro que conhece o crime e o castigo do

crime.

Muitas vezes vos ouvi falar daquele que comete

um crime como se não fosse um de vós mas um in-

truso no vosso mundo.

Mas digo-vos que, tal como os santos e os justos

não se podem erguer mais alto do que o mais alto

que existe em cada um de vós, também os maus e

os fracos não podem cair mais baixo do que o mais

baixo que existe em vós.

E tal como uma simples folha só amarelece em

conjunto com toda a árvore, também aquele que

comete um crime não o pode fazer sem a anuência

secreta de todos vós.

Como numa procissão, caminhais juntos em dire-

ção ao vosso eu interior.

Vós sois o caminho e o caminhante e quando um

de vós cai, cai por aqueles que vêm atrás, para os

avisar da pedra que encontraram no caminho.

E cai por aqueles que vão à sua frente, que, embo-

ra mais rápidos e seguros, não estão livres de tro-

peçarem na mesma pedra.

E notai que, embora a palavra vos pese no cora-

ção:

O assassinado não está isento de responsabilidade

pelo seu próprio assassínio, e o roubado não está

isento de culpas por tê-lo sido.

O justo não está inocente dos feitos do malvado, e

o que tem as mãos limpas não está limpo dos atos

do culpado.

Sim, o culpado é por vezes vítima do ofendido.

E ainda mais vezes é o portador do fardo dos ino-

centes e retos.

Não podeis separar o justo do injusto e o bom do

mau; pois eles andam juntos ante a luz do sol, tal

como juntos são tecidos os fios brancos e negros.

E quando o fio negro quebra, o tecelão examina

todo o tecido e também todo o tear.

Se algum de vós trouxer a julgamento a mulher in-

fiel, que também pese o coração do marido e meça

a sua alma.

E que aquele que quiser flagelar o ofensor olhe

para o espírito do ofendido.

E se algum dá vós punir em nome do que é justo e

cortar com o machado a árvore do mal, deixe en-

tão que se vejam as raízes; e encontrará as raízes

do bom e do mau, do que dá frutos e do que não

dá, entrelaçadas no coração silencioso da terra.

E vós, juízes, que quereis ser justos, que condena-

ção ireis dar àquele que, embora honesto de corpo,

é um ladrão de espírito?

Que castigo ireis dar àquele que flagela a carne e

também flagela o espírito?

Como procedereis com aquele que nos seus atos é

falso e opressor, mas que, no entanto, é também

enganado e oprimido?

E como ireis punir aqueles cujos remorsos são

maiores do que os crimes que cometeram?

Não será o remorso a justiça que é administrada

pela própria lei que quereis servir?

No entanto, não podereis impor o remorso ao ino-

cente, nem arrancá-lo do coração do culpado.

Subitamente, à noite, ele convocará os homens

para que olhem para si próprios.

E vós, que deveis entender a justiça, como o pode-

reis fazer a menos que olheis para os factos à ple-

na luz?

Só assim sabereis que o ereto e o caído são um

único homem no crepúsculo entre a noite da sua

pequenez e o dia da sua espiritualidade, e que a

pedra mãe do templo não é mais alta que a mais

funda pedra dos seus alicerces.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre os Leis

Então um homem de leis disse: E as nossas Leis,

Mestre?

E ele respondeu:

Deleitais-vos a fazer as leis, no entanto, mais vos

deleitais em desrespeitá-las.

Como crianças brincando junto ao oceano, a cons-

truir castelos de areia com persistência para logo

os destruírem alegremente.

Mas enquanto construís os vossos castelos de

areia o oceano traz mais areia para a costa, e,

quando vós os destruís, o oceano ri-se convosco.

Na verdade o oceano ri-se sempre com os inocen-

tes.

Mas que dizer daqueles para quem a vida não é um

oceano, e as leis feitas pelo homem não são caste-

los de areia, mas para quem a vida é uma rocha, e

a lei um cinzel que serve para a moldarem à sua

semelhança?

Que dizer do aleijado que detesta dançarinos?

Que dizer do boi que gosta do jugo e condena o

cisne e o gamo da floresta por serem seres erran-

tes e vagabundos?

Que dizer da velha serpente que não consegue

despir-se da sua pele e acusa os outros de estarem

nus e não terem pudor?

E daquele que aparece cedo na festa do casamen-

to, e que, depois de bem alimentado e já cansado,

se vai embora dizendo que todas as comemora-

ções são violação e os participantes violadores de

leis?

Que poderei dizer desses a não ser que também

eles estão expostos à luz, mas de costas viradas

para o sol?

Só conseguem ver as suas sombras, e as suas som-

bras são as suas leis.

E que é o sol para eles senão um conjunto de som-

bras?

E o que significa reconhecer as leis senão cur-

var-se e traçar as suas sombras na terra?

Mas vós, que caminhais enfrentando o sol, que

imagens da terra podereis reter?

Vós, que viajais com o vento, que catavento pode-

rá orientar o vosso rumo?

Que lei do homem vos prenderá se quebrais o vos-

so jugo longe da porta da prisão?

Que leis receareis se dançardes mas tropeçardes

em grilhetas inexistentes?

E quem vos poderá julgar se despedaçardes as

vossas roupas sem todavia as deixardes no cami-

nho de nenhum homem?

Povo de Orfalés, podereis abafar o tambor e alar-

gar as cordas da lira, mas quem poderá impedir a

cotovia de cantar?

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre a Liberdade

E um orador disse: Fala-nos da Liberdade.

E ele respondeu:

Às portas da cidade e junto à lareira já vos vi pros-

trados a venerarem a vossa própria liberdade.

Tal como os escravos se curvam perante um tirano

e o louvam enquanto ele os açoita.

Ah, no bosque do templo e à sombra da cidadela já

vi os mais livres de entre vós usarem a liberdade

como grilhetas.

E o meu coração sangrou por dentro; pois só se

pode ser livre quando o desejo de encontrar a li-

berdade se tornar a vossa torta e quando deixar-

des de falar de liberdade como objetivo e plenitu-

de.

Sereis verdadeiramente livres não quando os vos-

sos dias não tiverem uma preocupação nem as

vossas noites necessidades ou mágoas.

Mas quando estas coisas rodearem a vossa vida e

vós vos ergais acima delas, despidos e libertos.

E como vos podereis erguer para lá dos dias e das

noites a menos que quebreis as cadeias que, na

aurora do vosso conhecimento, apertastes à volta

do entardecer?

Na verdade, aquilo a que chamais liberdade é a

mais forte dessas cadeias, embora os seus aros

brilhem à luz do sol e vos ofusquem a vista.

E o que é isso senão fragmentos do vosso próprio

ser de que vos libertareis para vos tornardes li-

vres?

Se se trata apenas de uma lei injusta que ireis abo-

lir, essa lei foi escrita com a vossa mão apoiada na

vossa fronte.

Não podereis apagá-la queimando os livros das

leis, ou lavando as frontes dos vossos juízes, em-

bora despejeis o mar sobre eles.

E se é um déspota que ireis destronar, certifi-

cai-vos primeiro de que o trono erigido dentro de

vós também é destruído.

Pois como pode um tirano mandar sobre os livres e

os orgulhosos, senão exercendo a tirania sobre a

liberdade deles e sufocando-lhes o orgulho?

E se se trata de uma preocupação que quereis fa-

zer desaparecer, essa preocupação foi escolhida

por vós e não imposta.

E se é um receio que quereis afastar, a origem des-

se receio reside no vosso coração e não na mão

daquele que receais.

Na verdade, todas as coisas se movem dentro do

vosso próprio ser em constante meia união, o de-

sejado e o receado, o repugnante e o atraente, o

perseguido e o de quem quereis escapar.

Estas coisas movem-se dentro de vós como luzes e

sombras, aos pares, agarradas.

E quando a sombra se desvanece e deixa de ser, a

luz que resta torna-se sombra para uma nova luz.

Por isso, a vossa liberdade quando perde as cadei-

as torna-se ela própria uma cadeia de maior liber-

dade.

&A&

Do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran

(sem indicação de tradutor)

Créditos:

http://www.clube-

positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf

Sobre a Razão e a Paixão

E a sacerdotiza voltou a falar e disse: Fala-nos da

Razão e da Paixão.