O Refúgio Secreto por Corrie ten Boom & John e Elizabeth Sherrill - Versão HTML

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O Refúgio

Secreto

Corrie ten Boom

& John e Elizabeth Sherrill

Índice

C

ontracapa

....................................................................... . . . . .8

Capítu

lo 1 - O Centenário da Loja

......................................... . . .1

2

Capítu

lo 2 - Todos à Mesa

.................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . .3

3

Capítu

lo 3 - Karel

................................................... . . . . . . . . . . . . . . .5

0

Capítu

lo 4 - A Relojoaria

...................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . .7

2

Capítu

lo 5 - A Invasão

......................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . .9

1

Capítu

lo 6 - O Quarto Secreto

............................ . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1

12

Capítu

lo 7 - Eusie

..................................................... . . . . . . . . . . .1

31

Capítu

lo 8 - Nuvens Escuras

..................................... . . . . . . . . . . . .1

59

Capítu

lo 9 - A Batida

....................................................... . . . . .1

81

Capítu

lo 10 - Scheveningen, a Penitenciária

.......................... . .1

98

Capítu

lo 11 - O Tenente

.................................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2

27

Capítu

lo 12 - Vught, o Campo de Concentração

.............. . . . . . . . . .2

41

Capítu

lo 13 - Ravensbruck, o Campo de Extermínio

............. . . . .2

69

Capítu

lo 14 - A Blusa Azul

........................................ . . . . . . . . . . . .2

95

Capítu

lo 15 - As Três Visões

............................................. . . . . .3

14

Epílogo

............................................................................ . . .3

41

T

rês Maneiras de Aplicar a Mensagem Deste Livro à Sua Vida

. . .3

43

Os Autor

es

.........................................

.

.

.

.

.

.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3

46

Corrie ten Boom

& John e Elizabeth Sherrill

O REFÚGIO

SECRETO

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Contracapa

Esta é a história emocionante de uma mulher que enfrentou

os horrores da perseguição nazista aos judeus, sem perder a fé e a

esperança.

A história da humanidade tem algumas páginas manchadas

de sangue que a maioria das pessoas prefere esquecer. Mas justo

dessas páginas despontam certas pessoas que precisam ser

lembradas e conhecidas por todos.

Corrie ten Boom é uma delas.

Vivendo na Holanda, durante a Segunda Guerra Mundial,

Corrie livrou vários judeus da perseguição nazista e da morte,

escondendo-os em um quarto secreto na casa de sua família. Mas

pagou um preço altíssimo por isso, Foi presa junto com sua irmã e

seu pai, e sofreu todo tipo de dor, injustiça e humilhação.

Você vai se emocionar intensamente com a vida de Corrie ten

Boom: as lembranças da infância, a vida pacata no interior da

Holanda, seu trabalho na relojoaria do pai, suas atividades no

movimento de resistência holandesa quando o país foi ocupado pelo

exército alemão. Vai viver juntamente com ela o medo de que a

qualquer momento a polícia descobrisse os judeus em sua casa, os

horrores dos campos de concentração, a perda de parentes e amigos

queridos.

Mas uma coisa: Corrie não perdeu sua fé em Deus e a

certeza de que, apesar de tudo, seu Pai Celestial estava no controle

de sua vida e da história.

Você será profundamente tocado com o exemplo dessa

mulher que mostrou que podemos enfrentar as piores situações

quando temos em Deus o nosso refugio secreto.

Prefácio

Durante todo o tempo em que fizemos nosso trabalho de

pesquisa para o livro O Contrabandista de Deus, um nome

despontou várias vezes: Corrie ten Boom. Essa extraordinária mulher

- que estava com seus setenta e cinco anos quando dela ouvimos

pela primeira vez - era o melhor "companheiro de viagem" do Irmão

André. As histórias fascinantes que este nos contou a seu respeito,

no Oriente - onde era conhecida pelo honroso nome de "Velha vovó"

- e em outras partes do mundo, vinham à tona com tanta freqüência,

que afinal erguemos os braços pedindo-lhe que cessasse com aque-

la torrente de recordações.

"Ela não vai poder figurar neste livro", dissemos. "Ela sozinha

é um livro!"

São estas coisas que a gente diz sem querer insinuar nada.

Em maio de 1968, estávamos na Alemanha, e fomos assistir

ao culto em uma certa igreja. Um senhor estava narrando os horrores

que sofrera em um campo de concentração nazista. Sua expressão

facial era ainda mais eloqüente que suas palavras; os olhos

guardavam a lembrança da dor; suas mãos tremiam - mãos que não

conseguiam esquecer...

Sucedeu-o no púlpito uma mulher de

cabelos brancos, grande e forte, usando sapatos grossos, cujo rosto,

em contraste, irradiava alegria, paz e amor. Ela relatava os mesmos

fatos. Também ela estivera em um campo de concentração,

presenciara as mesmas cenas brutais, sofrera as mesmas perdas.

Enquanto os sentimentos dele eram perfeitamente compreensíveis,

os dela davam o que pensar.

Encerrado o culto, deixamo-nos ficar para falar com ela.

Assim que principiamos a conversa, percebemos logo que se tratava

da Corrie ten Boom de que André nos falara.

O maravilhoso ministério de consolação e aconselhamento de

Corrie ten Boom se iniciara no campo de concentração, onde ela

encontrou um "esconderijo contra o vento... refúgio contra a

tempestade... sombra de grande rocha em terra sedenta". Ali

também aprendera a verdade de que, quando o pior acontece, o

melhor ainda está para vir.

Em palestras posteriores, chegamos a conhecer bem esta

admirável mulher. Com ela visitamos a casa estreita, tipicamente

holandesa - apenas um cômodo na largura - onde, até os cinqüenta

anos, ela levara uma vida pacata de uma solteirona, consertando

relógios e cuidando da irmã mais velha e do pai idoso, sem nem ao

menos sonhar que um mundo de aventuras e desventuras estava lhe

batendo à porta. Visitamos aquela casa do sul da Holanda, em cujo

jardim a jovem Corrie entregou a Karel o coração, e também a

espaçosa mansão de Haarlem, onde, em plena guerra, Pickwick

serviu café de verdade aos amigos.

E em meio a tudo isso, tivemos a forte impressão de que não

olhávamos para o passado, e, sim, para o futuro. Era como se

aqueles lugares e aquelas pessoas estivessem nos falando, não

sobre fatos já acontecidos, mas sobre o mundo que nos aguardava,

na década de 70. Já nos descobrimos, algumas vezes, pondo em

prática os segredos espirituais que com ela aprendemos a respeito

de:

• como suportar uma separação;

• como contentar-se com pouco;

• como sentir-se seguro em meio à insegurança;

• como ter forças para perdoar;

• como Deus usa as fraquezas;

• como lidar com pessoas problemáticas;

• como encarar a morte;

• como amar os inimigos;

• o que fazer quando o mal é vitorioso.

Mencionamos para ela o fato de que tudo que nos contava

era muito prático, e que essas lembranças do passado estavam

lançando luz sobre alguns dos nossos problemas atuais.

"Mas é para isso que o passado serve", respondeu. "Cada

experiência que Deus nos concede, cada pessoa que passa pela

nossa vida, faz parte de nossa preparação para um futuro que

somente ele vê."

Cada experiência, cada pessoa... o pai, que era o melhor

relojoeiro da Holanda, mas que sempre se esquecia de mandar a

conta dos consertos. A mãe, cujo corpo tornara-se uma prisão, mas

cujo espírito vagueava livremente. Betsie, que com três batatas e um

bocadinho de folhas de chá já usadas, sabia organizar uma festinha.

Ao fitar os olhos brilhantes daquela mulher forte, quase desejamos

que essas pessoas tivessem feito parte de nossa vida também.

Depois, naturalmente, vimos que elas fizeram...

- John e Elizabeth Sherrill

Capítulo 1 - O Centenário da Loja

Saltei da cama naquela manhã com uma preocupação - o dia

seria claro ou não? Na Holanda, em janeiro, geralmente o tempo é

úmido, frio e o céu fica nublado. De vez em quando, porém, num raro

dia de magia e encanto, brilha um sol de inverno. Cheguei à janela

do quarto, e me debrucei para fora até onde pude. Do Beje era

sempre muito difícil ver o céu. Dei com a face vazia de uma parede

de tijolos, fundo de outra das construções antigas desse atulhado

centro de Haarlem. Esticando o pescoço ao máximo para enxergar

melhor, consegui ver, lá em cima, uma nesga de céu cor-de-pérola,

por sobre o emaranhado dos telhados malucos e chaminés tortas. O

dia de nossa festa ia ser ensolarado.

Retirei meu vestido novo de nosso velho guarda-roupa de pés

oscilantes, encostado à parede, e ensaiei uns passos de valsa. O

quarto de papai era logo abaixo do meu, mas aos setenta e sete

anos, ele dormia pesadamente. Esta era uma das vantagens da

velhice, pensei enquanto enfiava os braços pelas mangas e dava

uma olhadela no espelho para ver como estava. Embora em 1937

algumas mulheres já estivessem usando as saias à altura dos

joelhos, eu ainda conservava as minhas acerca de dez centímetros

do chão.

Você não está ficando mais jovem, comentei com a minha

imagem. Talvez fosse o fato de pôr um vestido novo que me levasse

a olhar para mim mesma com um pouco mais de autocrítica do que

geralmente o fazia: quarenta e cinco anos, solteira, e já meio

pesadona.

Minha irmã Betsie, embora fosse sete anos mais velha do que

eu, ainda era graciosa e esbelta. Às vezes, as pessoas paravam na

rua para admirá-la. Sei muito bem que não era por causa da roupa.

Nossa relojoaria nunca nos permitira muito luxo, mas quando Betsie

punha um vestido novo, parecia que ele sofria uma transformação.

Comigo - antes que Betsie resolvesse me modificar - era

muito diferente: bainhas dependuradas, meias rasgadas, gola torta.

Desta vez, porém - pensei, afastando-me do espelho ao máximo que

me permitia o exíguo espaço do quarto - o efeito final daquele vestido

novo, marrom-escuro, era excelente.

Lá embaixo a campainha tocou. Convidados, já? Abri a porta e desci

rapidamente pela escada espiralada e íngreme. Essa escada não

fora feita com a casa inicialmente. Na verdade, havia duas casas. A

da frente tinha a estrutura típica das casas de Haarlem - três

andares, dois cômodos na extensão e um na largura. A certa altura

de sua existência, a parede de trás havia sido derrubada para que

ela fosse unida à que lhe ficava aos fundos, a qual era ainda mais

estreita e aprumada - tinha apenas três cômodos, um sobre o outro.

Espremida entre as duas, estava a escada estreita, em caracol.

Embora eu houvesse descido depressa, Betsie chegou à

porta antes de mim. Um imenso buquê tapava a entrada. Assim que

ela o apanhou, o rapazinho da entrega surgiu de trás dele.

- Lindo dia para a festa, disse ele, procurando olhar para

dentro da sala como se o café e o bolo já estivessem servidos.

Mais tarde, ele viria, como também, ao que parecia, todo o

povo de Haarlem.

Procuramos o cartão por entre as flores.

- Pickwick! gritamos a um só tempo.

Pickwick era um freguês nosso, imensamente rico; era quem

comprava nossos melhores relógios. Muitas vezes, subia conosco à

parte residencial da casa, que ficava em cima da loja. Seu nome era,

na verdade, Herman Sluring, mas, entre nós, o apelidáramos de

Pickwick, porque se parecia demais com o desenho que ilustrava um

de nossos volumes de Dickens. Herman era, sem contestação, o

homem mais feio de Haarlem. Baixo, muito gordo, calvo como um

queijo holandês e tão estrábico que, ao falarmos com ele, nunca

sabíamos se estava olhando para a gente ou para a pessoa ao lado;

mas era tão bom e generoso quanto feio.

As flores tinham sido entregues na porta lateral que era

utilizada pela família e que dava para uma ruela estreita. Levamos o

buquê para a loja. Primeiro chega-se à oficina de consertos. Ali se

achava a banca elevada de papai, sobre a qual ele se inclinara

durante tantos anos, para executar o seu trabalho delicado e

minucioso, considerado um dos melhores da Holanda. No centro

havia minha banca; junto à minha, estava a de Hans, o aprendiz, e,

próximo à parede, a do velho Christoffels.

Na frente, ficava a parte comercial, com seu balcão de tampo

de vidro, cheio de relógios, e onde atendíamos os fregueses.

Todos os relógios de parede batiam sete horas quando ali

entramos com as flores e começamos a ver qual seria o melhor lugar

para colocá-las. Desde criança eu gostava muito de entrar naquela

sala e ser saudada pelo murmúrio agradável de centenas de tique-

taques. O aposento estava escuro, pois as persianas ainda se

encontravam cerradas. Destranquei a porta e saí para a rua. As

outras lojas, a ótica que ficava ao lado, a de roupas, a padaria e a

peleteria do outro lado da rua, ainda estavam bem fechadas e sem

sinal de movimento.

Abri as persianas e fiquei algum tempo admirando a vitrine de

que, agora, tanto eu como Betsie gostávamos. Nós estávamos

sempre debatendo sobre qual seria a melhor maneira de arranjá-la.

Eu gostaria de colocar ali muitos relógios, tantos quantos ela

comportasse, mas Betsie afirmava que seria melhor expor apenas

dois ou três dos mais bonitos, talvez sobre um fundo de cetim ou

seda, artisticamente drapeado. Esse arranjo, dizia ela, seria mais

elegante e atraente. Dessa vez, porém, nós estávamos de acordo.

Puséramos ali uma coleção de relógios - despertadores e de

bolso - todos com pelo menos cem anos de fabricação, que

havíamos tomado emprestado de amigos e conhecidos que

possuíam lojas de antigüidades. Comemorávamos nesse dia o

centenário da loja. Fora nessa data em janeiro de 1837, que o pai de

papai colocara na janela a placa: Relojoaria ten Boom.

Ouvi os sinos das igrejas de Haarlem baterem sete horas

durante os dez minutos seguintes, dando uma demonstração de

completo desdém para com a precisão do tempo. Por último, na

pracinha a meio quarteirão abaixo, o grande sino da Igreja de São

Bavo deu suas sete pancadas. Deixei-me ficar ali a contá-las,

embora estivesse bem frio naquela manhã de janeiro. Agora, em

Haarlem, todo mundo tinha rádio, mas eu me lembrava do tempo em

que toda a vida da cidade era regulada pelo sino de São Bavo.

Apenas os funcionários da ferrovia e outras pessoas que precisavam

saber a hora exata vinham à nossa loja consultar o relógio

astronômico. Toda semana, papai ia a Amsterdam, de trem, para

acertar o seu cronômetro pelo Observatório Naval. Ele tinha muito

orgulho do fato de que o relógio astronômico nunca se atrasava nem

adiantava mais que dois segundos por semana. Entrei de volta na

loja. Lá estava ele, rebrilhando no alto do seu pedestal de concreto,

mas agora desvestido de qualquer importância.

Novamente a campainha da porta: mais flores. Aquilo con-

tinuou por cerca de uma hora - buquês grandes e pequenos, arranjos

trabalhados e vasos de cerâmica com plantas ornamentais. Embora

a festa fosse em honra da loja, o afeto da cidade era dirigido ao meu

pai. "O bom velho de Haarlem" era como o chamavam, e todos

pareciam dispostos a provar que ele era querido. Quando a sala da

frente e a oficina ficaram cheias demais, começamos a levá-las para

os dois cômodos que ficavam diretamente acima da loja. Esses

cômodos eram conhecidos por nós como "os quartos da Tia Jans",

embora ela já tivesse falecido há vinte anos.

Tia Jans era a irmã mais velha de mamãe. Ela parecia estar

ainda ali, juntamente com a pesada mobília escura que nos deixara.

Betsie colocou no chão um vaso de tulipas de estufa, deu um passo

para trás e soltou uma exclamação de prazer.

- Corrie, veja como isto alegrou o ambiente!

Pobre Betsie! O Beje é tão cercado, tão comprimido entre

outras casas que as mudas de flores que ela plantava em caixas nas

janelas, todas as primaveras, nunca se desenvolviam o bastante

para dar flores.

Às 7:45h, chegou Hans, o aprendiz, e às 8:00h, Toos, nossa

balconista e guarda-livros. Toos era uma dessas pessoas que estão

sempre de cara amarrada e triste. Seu mau humor constante a

impedira de permanecer em um emprego por muito tempo, até que,

há dez anos, viera trabalhar conosco. A gentil cortesia de papai a

havia desarmado e abrandado seu gênio. Embora preferisse morrer

a admitir isso, ela gostava muito dele, tanto quanto detestava o resto

do mundo. Deixamos a porta a cargo de Hans e Toos e subimos para

tomar café.

Só três pratos, pensei enquanto punha a mesa. A sala de

jantar era na casa de trás, num nível mais elevado que o da loja.

Subia-se a ela por um lance de cinco degraus. Com sua única janela

que dava para o beco lateral, esta sala era, para mim, o coração da

casa. Quando criança, recobrindo a mesa com um grande cobertor,

eu fazia dela minha tenda ou uma caverna de piratas. Aqui fazia

meus deveres, quando estudante. Aqui mamãe lia Dickens em voz

alta para nós, nas noites de inverno, enquanto as brasas de nossa

lareira de tijolos estalavam e cobriam de reflexos avermelhados o

azulejo que tinha entalhada a frase: "Jesus é vitorioso."

Utilizávamos apenas uma parte da mesa agora, eu, papai e

Betsie, mas, para mim, era como se o resto da família ainda se

achasse ali. De um lado a cadeira de mamãe, acolá o lugar das três

tias (mais duas irmãs de mamãe que, além de Tia Jans, haviam

morado conosco). Minha irmã Nollie sentava-se próximo de mim, e

Willem, o único filho homem, ficava perto de papai.

Nollie e Willem já haviam se casado há vários anos e tinham

sua própria casa; mamãe e as tias já não se encontravam mais

conosco, mas ainda me parecia vê-los todos ali. Suas cadeiras não

haviam permanecido vazias por muito tempo. Papai não suportava a

idéia de ter uma casa sem crianças, e por isso, sempre que ouvia

falar de um pequenino sem teto, uma carinha nova surgia à nossa

mesa. Com essa relojoaria que nunca rendia muito, ele deu um jeito

de alimentar, vestir e cuidar de mais onze crianças, depois que seus

quatro filhos estavam criados.

Agora, porém, também estes onze haviam crescido e casado ou

saído para trabalhar. Assim, coloquei três pratos na mesa.

Betsie trouxe café da cozinha, que era ligada diretamente à

sala de jantar e pouco maior que um armário embutido, e tirou o pão

da gaveta do guarda-comida. Quando ela o colocava à mesa,

ouvimos os passos de papai descendo a escada. Agora ele sempre

descia vagarosamente aqueles degraus espiralados; mas pontual

como um de seus próprios relógios, entrou na sala na hora exata em

que entrava desde que eu era bem pequena: às 8:10h.

- Papai, disse eu beijando-o e aspirando o aroma de charutos

que impregnava sua longa barba, o dia da nossa festa está lindo!

O cabelo e a barba de papai eram brancos como a nossa

melhor toalha, que Betsie colocara na mesa para este dia especial.

Seus olhos azuis, ao nos fitar com agrado através dos óculos

grossos, eram meigos e alegres.

- Querida Corrie, minha Betsie! Como vocês estão bonitas!

A seguir, sentou-se, inclinou a cabeça e deu graças pelo pão,

e depois continuou alegremente:

- Sua mãe teria adorado estes vestidos novos, e ficaria alegre

de ver as duas tão bonitas!

Nós duas fixamos os olhos no café para não rir. Estes "ves-

tidos novos" eram a tristeza de nossas sobrinhas que estavam

sempre querendo nos convencer a usar roupas de cores mais claras,

saias mais curtas e decotes mais baixos. Embora fôssemos bem

conservadoras em nosso modo de vestir, a verdade é que mamãe

nunca tivera um vestido mais claro que esse meu marrom-escuro ou

que o azul-escuro de Betsie. No tempo de mamãe, as mulheres

casadas e as solteiras de uma "certa idade" só usavam vestidos

pretos. Nunca vi minha mãe nem minhas tias com vestidos de outra

cor.

- Mamãe ia gostar de tudo hoje! interveio Betsie. Lembram-se

como ela gostava de festas?

Mamãe assava um bolo e passava um café em questão de

instantes. E já que ela conhecia quase todo mundo em Haarlem,

principalmente os pobres, doentes e abandonados, não havia um dia

que não fosse - como diria ela - "um dia de festa para alguém".

Nós ficamos conversando durante o café, como se deve fazer

em dias assim, e começamos a recordar o tempo em que mamãe

vivia. Depois retrocedemos mais e falamos do tempo em que papai

era criança e morava nesta mesma casa.

- Nasci bem nesta sala, disse ele como se já não nos tivesse

dito isto uma centena de vezes. Só que, naquela época, não era a

sala de jantar, era quarto. A cama era dentro de uma espécie de

armário embutido na parede; não havia janelas, nem iluminação

direta, nem ar puro. Fui o primeiro que conseguiu sobreviver. Não sei

quantos nasceram antes de mim e morreram. Minha mãe estava com

tuberculose, e eles não conheciam as regras de higiene, nem sabiam

nada sobre o contágio pelo ar, e não pensavam em afastar as

criancinhas da pessoa doente.

Foi um dia cheio de recordações, um dia de invocação do

passado. Nunca poderíamos adivinhar, quando estávamos ali

sentados - duas solteironas de meia-idade e um velho - que, em vez

de recordações, estávamos para enfrentar acontecimentos com os

quais nunca tínhamos sonhado. Desventuras e angústias, horrores e

alegrias, nos aguardavam para dentro em pouco, e não o sabíamos.

Ah! Papai, Betsie, se eu soubesse, será que teria feito o que

fiz? Será que teria tido coragem?

Mas como eu poderia prever? Como poderia supor que esse

velhinho de cabelos brancos que todas as crianças de Haarlem

chamavam de vovô, seria sepultado por estranhos, num túmulo

desconhecido? E Betsie, em seu vestido de gola de renda e seu dom

de difundir beleza ao seu redor, como poderia pensar que a pessoa a

quem eu mais queria, seria forçada a comparecer nua diante de uma

sala cheia de homens? Naquele momento, naquela sala de jantar,

tais possibilidades eram remotíssimas.

Papai levantou-se e pegou a velha Bíblia de cantoneiras de

bronze. Toos e Hans bateram na porta e entraram. Outro re-

gulamento fixo no Beje era a leitura da Bíblia às 8:30h em ponto, e a

que deviam assistir todos os que estivessem na casa.

Papai abriu o livro, e eu e Betsie contivemos a respiração.

Naturalmente, hoje, quando tínhamos tanta coisa a fazer, ele não

leria um capítulo inteiro! Mas ele já estava abrindo-a na passagem de

Lucas onde havia parado no dia anterior - e o livro de Lucas tinha

capítulos tão longos! Com o dedo no lugar, papai ergueu os olhos.

- Onde está Christofells? Perguntou

Christofells era o outro empregado da loja, um velhinho

encurvado e miúdo, que parecia mais velho que papai, embora fosse

dez anos mais jovem. Lembrei-me do primeiro dia em que aparecera

em nossa casa, há seis ou sete anos. Estava tão andrajoso e tinha

uma aparência tão infeliz, que pensei que fosse um dos mendigos

que sabiam ser o Beje o lugar certo para se conseguir uma boa

refeição de graça. Estava a ponto de encaminhá-lo à cozinha, onde

Betsie tinha sempre uma panela de sopa borbulhando ao fogo,

quando solenemente ele me informou que estava procurando

emprego e viera primeiro a nós, para oferecer seus préstimos.

Fiquei sabendo, então, que Christofells pertencia a uma

classe já quase totalmente desaparecida, a dos relojoeiros

ambulantes, que percorriam o país a pé, regulando e consertando os

relógios de pêndulo que eram o orgulho de todas as fazendas

holandesas. Mas se eu fiquei surpresa ao ver o ar sério e grave

daquele homenzinho de aspecto miserável, fiquei ainda mais ao ver

que papai lhe deu o emprego imediatamente.

"Esses consertadores ambulantes", disse-me mais tarde, "são

os melhores que existem. Conseguem consertar qualquer defeito

apenas com as ferramentas que carregam consigo."

E isto ficou provado nos anos seguintes, pois todo o povo de

Haarlem lhe trazia seus relógios. O que ele fazia com o dinheiro de

seu salário, nunca soubemos; ele continuava tão mal vestido como

antes. Papai lhe falou a respeito disso um pouco, mas não muito,

pois, fora o seu desalinho, o traço mais forte de sua personalidade

era o orgulho.

Hoje, pela primeira vez, Christofells estava atrasado.

Papai limpou os óculos no guardanapo e começou a ler,

fazendo sua voz grave se demorar prazerosamente em algumas

palavras. Quando ele chegou ao fim da página, ouvimos os passos

arrastados de Christofells subindo a escada. A porta se abriu, e todos

nós levamos um susto: Christofells estava impecável. Trajava um

terno novo, preto e um colete xadrez, também novo, camisa

imaculadamente branca de colarinho engomado, e gravata

estampada. Lutei para desviar os olhos de tal espetáculo, pois a

expressão de seu rosto nos proibia qualquer comentário.

- Christofells, meu prezado amigo, disse papai em sua

maneira formal e antiquada, que alegria vê-lo neste... é... dia tão

auspicioso.

E, apressadamente, retornou a leitura interrompida.

Antes que ele terminasse o capítulo, as campainhas - da

entrada lateral e da loja - começaram a tocar. Betsie correu a fazer

café e a meter as "tortas" no forno, enquanto eu e Toos corríamos às

portas. Parecia que cada pessoa de Haarlem queria ser a primeira a

cumprimentar papai. Daí a pouco, uma torrente de convidados

estava subindo até o quarto de Tia Jans, onde ele se encontrava,

meio escondido por entre as flores.

Eu estava conduzindo um de nossos convidados mais idosos

escada acima, quando Betsie segurou-me o braço.

- Corrie, vamos precisar das xícaras de Nollie já. Como

vamos...?

- Vou buscar!!

Nollie e seu marido viriam à tarde, logo que seus filhos

chegassem da escola. Desci rapidamente, peguei o casaco e a

bicicleta, e já a empurrava pela porta quando a voz de Betsie me

deteve:

- Corrie, seu vestido novo!

Dei meia-volta, subi ao quarto e troquei o vestido novo pelo

mais velho que possuía e saí pedalando pela rua acidentada. Eu

gostava imensamente de ir à casa de Nollie. Ela morava a quase

dois quilômetros dali, num bairro afastado daquele velho centro

atulhado de prédios. Lá, as ruas eram mais largas e retas, e até o

céu parecia mais amplo. Atravessei a pracinha e depois a ponte

sobre o canal, e rodei pela estrada, deliciando-me com o fraco sol de

inverno. Nollie residia na Rua Bos en Hoven, em um conjunto

residencial, de casas gêmeas, todas iguais, com cortinas brancas e

vasos de plantas na janela.

Enquanto virava a esquina, nunca eu poderia imaginar que,

num dia de verão, quando os bulbos de jacinto de um viveiro próximo

estariam prontos para o plantio, eu frearia a bicicleta e ficaria ali

parada com o coração aos pulos, sem coragem de me aproximar

mais, com receio de enfrentar o que estava se passando no interior

daquelas cortinas.

Hoje, porém, ziguezagueei pela calçada e entrei correndo,

sem bater.

- Nollie, a casa já está cheia! Você precisa ver! Precisamos

das xícaras agora.

Nollie veio da cozinha com o rosto redondo corado pelo calor

do forno.

- Já estão arrumadas perto da porta. Ah! eu queria ir com

você, mas tenho que acabar de assar os biscoitos, e prometi a Flip e

às crianças que esperaria por eles.

- Vocês todos vão, não?

- Sim, Corrie. Peter vai também.

E ela começou a colocar as xícaras no bagageiro. Como uma

boa tia eu queria amar meus sobrinhos igualmente, mas Peter... bem,

Peter era Peter. Com treze anos, ele era um prodígio musical -

embora um bocado maroto - mas era todo o meu orgulho.

- Ele até escreveu uma música especial para comemorar a

data, disse Nollie. Tome aqui. Você vai ter que carregar esta sacola

na mão. Tenha cuidado.

O Beje estava mais cheio do que nunca, quando voltei. Na

ruela lateral havia tantas bicicletas que tive que deixar a minha na

esquina da rua. O prefeito de Haarlem já estava lá, de casaca, e com

a corrente de ouro do relógio de bolso bem à vista. Lá estavam o

chefe dos correios, o condutor do bonde, e meia dúzia de guardas do

centro policial que ficava perto.

Após o almoço, começaram a chegar as crianças e, como

sempre faziam, foram direto para papai. As mais velhas sentavam-se

no chão, ao redor dele; as menores subiam ao seu colo. Isso porque,

além de seus brilhantes olhos azuis e sua longa barba cheirando a

charuto, ele carregava consigo o tique-taque de dezenas de relógios.

Um relógio deixado numa prateleira funciona diferentemente que

quando em uso e, por isso, papai sempre carregava nos bolsos os

que estivesse regulando no momento.

Todos os seus paletós tinham quatro grandes bolsos internos,

cada um com doze divisões, para doze relógios. Assim, aonde quer

que ele fosse, ia com ele o alegre ruído de centenas de

engrenagenzinhas. Agora, com uma criança em cada perna, e mais

dez ao redor, ele retirou de um dos bolsos a cruzeta de dar corda,

cujas quatro pontas eram de formatos diferentes para servir a cada

tipo. Com um piparote, fê-la girar rapidamente, brilhando...

brilhando...

Betsie parou à porta com uma bandeja de bolo nas mãos.

- Ele nem se dá conta da presença de outras pessoas, disse.

Eu estava descendo a escada com alguns pratos vazios,

quando alguém lá embaixo deixou escapar uma exclamação abafada

de espanto, o que me advertiu que Pickwick chegara. Nós que lhe

queríamos bem, nunca nos lembrávamos do choque que o seu

aparecimento causava em outros.

Corri à porta, apresentei-o à esposa de um negociante de

Amsterdam, e depois conduzi-o para cima. Ele afundou seu corpanzil

numa cadeira ao lado da de papai, olhou-me - um olho em mim e

outro no teto - e disse:

- Cinco torrões, por favor.

Pickwick adorava crianças tanto quanto papai, mas enquanto

estas gostavam de papai à primeira vista, ele tinha de lutar para

conquistá-las. Tinha, porém, um truque que nunca falhava.

Entreguei-lhe sua xícara de café bem doce - cinco torrões - e

observei-o olhar ao redor, simulando grande consternação.

- Mas, Cornélia, exclamou, não há uma mesa aqui para eu

colocar minha xícara.

Correu os olhos por perto mais uma vez para ver se as

crianças estavam lhe dando atenção.

- Por sorte eu trouxe a minha própria mesa!

Em seguida, plantou a xícara com o pires em sua avantajada

pança.

Nunca vi uma só criança que resistisse àquilo. Em poucos

momentos, um bom número delas havia se reunido em volta dele.

Mais tarde, Nollie chegou com sua família.

- Tia Corrie, gritou-me Peter com fingida inocência, mas a

senhora não aparenta cem anos.

Antes que eu pudesse responder-lhe com um tabefe, já

estava sentado ao piano de Tia Jans, enchendo a casa com suas

melodias. Algumas pessoas começaram a apresentar-lhe seus

pedidos: canções populares, corais de Bach, hinos. Daí a pouco,

todo mundo estava cantando.

Quantos de nós que estávamos ali naquela tarde alegre,

iríamos, dentro em breve, nos encontrar novamente em cir-

cunstâncias bem diferentes! Peter, os policiais, o feio e querido

Pickwick, todos que estavam ali - e ainda meu irmão Willem e sua

família. Eu me indagava por que eles estavam tão atrasados. Willem

morava com sua esposa e filhos em Hilversum, acerca de quarenta e

cinco quilômetros de Haarlem, mas, mesmo assim, já deviam ter

chegado.

De repente, a música parou, e Peter, de seu posto elevado na

banqueta do piano, anunciou:

- Vovô, aí vem a concorrência!

Olhei para fora. O Sr. e Sra. Kan, proprietários da outra

relojoaria da rua, estavam justamente virando a esquina para entrar

na ruela. Pelos padrões de Haarlem eles eram novatos ali, pois

tinham se estabelecido em 1910, há apenas 27 anos, portanto.

Todavia, como eles vendiam muito mais que nós, achei que o

comentário de Peter era bem a expressão da verdade.

Papai, entretanto, não gostou.

- Concorrente não, Peter, disse-lhe com desaprovação, co-

lega!

E tirando de sobre seus joelhos a criança que ali se achava,

colocou-se no topo da escada para receber os Kan.

Ele aceitava as freqüentes passagens do Sr. Kan pela loja

como visitas de um bom amigo.

- O senhor não está vendo o que ele quer? eu explodia

depois que o homem se afastava. Ele só quer saber nossos preços

para vender mais barato!

Na loja dele, os relógios exibiam os preços escritos em

algarismos bem grandes, e sempre cinco guílderes abaixo dos

nossos.

O rosto de papai se iluminava com uma expressão de sur-

presa, como sempre acontecia nos raros momentos em que ele

pensava no lado comercial do negócio.

- Mas Corrie, quem compra dele sai ganhando! e depois

acrescentava: Como é que ele consegue vender tão barato?

Meu pai, como o seu pai também; era totalmente sem malícia

para negócios. Às vezes, ele trabalhava dias seguidos em um relógio

que apresentava um defeito sério e depois se esquecia de cobrar.

Quanto mais caro fosse o relógio, mais difícil era para ele pensar

nele em termos de dinheiro.

"A gente devia pagar para ter o privilégio de consertar um

relógio destes", dizia.

Quanto aos seus métodos de apresentação da mercadoria -

durante os primeiros oitenta anos de funcionamento da loja, as

persianas que davam para a rua eram cerradas todos os dias, às

seis horas da tarde. Fora somente quando eu entrara no negócio, há

vinte anos, que notara que algumas pessoas gostavam de passear

pelas ruas estreitas e pelas calçadas, à noite, e vira que outras lojas

deixavam suas vitrines abertas e iluminadas. Quando mencionei isto

para papai, ele ficou encantado, como se eu tivesse feito uma

descoberta maravilhosa.

"E se as pessoas virem os relógios, pode ser que desejem

comprá-los. Ah! Corrie, que inteligência a sua!"

O Sr. Kan vinha em minha direção com seu pedaço de bolo e

suas congratulações. A consciência me doía por causa dos

pensamentos de ciúme que abrigara a seu respeito, e escapei

escada abaixo, me tendo-me no meio do povo. A oficina e a loja

estavam mais cheias do que os cômodos de cima. Hans estava

servindo bolo na parte de trás, enquanto Toos fazia o mesmo na

frente.

No seu rosto via-se a sombra de um sorriso - o máximo que

ela permitia aos seus lábios perpetuamente cerrados. Quanto a

Christofells - que surpresa! - ele simplesmente tinha se transfigurado!

Era quase impossível reconhecer naquela majestosa figura que

saudava os nossos visitantes à porta, levando-os para percorrer a

loja, o homenzinho encurvado e mal vestido de sempre. Estava bem

claro que esse era o maior dia de sua vida.

Durante toda aquela tarde de inverno, recebemos pessoas

que se contavam entre os amigos de papai. Jovens e velhos, pobres

e ricos, homens cultos e mocinhas iletradas - só que, para papai,

eram todos iguais. Este era o seu segredo: não é que deixasse de se

preocupar com as diferenças entre indivíduos; meramente não sabia

que existiam.

Willem ainda não tinha chegado. Acompanhei até a porta um

grupo de convidados que se retirava, e fiquei ali alguns instantes,

olhando a rua. Embora fossem apenas quatro da tarde, o crepúsculo

já descia, e as luzes das lojas já começavam a ser acesas. Eu ainda

tinha um pouco daquela admiração de irmã menor para com o irmão

mais velho. Ele era cinco anos mais velho que eu. Fora o único da

família a cursar a universidade, e era ministro do evangelho, pastor

ordenado. Willem tinha grande percepção das coisas. Ele sabia tudo

que se passava no mundo.

Muitas vezes eu desejava que ele não tivesse tal visão, pois

muito do que meu irmão previa era aterrador. Há dez anos, em 1927,

ele tinha defendido tese de doutorado, na Alemanha, e tinha

mencionado que havia uma terrível ameaça pairando sobre aquele

país. Ali mesmo na Universidade, disse ele, estavam sendo lançadas

as sementes de um grande desprezo pela vida humana, tal como

nunca se tinha visto antes. Os que leram seu trabalho, zombaram.

Agora, naturalmente, ninguém mais ria quando se tratava da

Alemanha. Os melhores relógios vinham de lá, e, recentemente,

algumas das firmas com as quais havíamos negociado por vários

anos, tinham misteriosamente "cerrado as portas". Willem cria ser

isso resultado de um amplo e deliberado movimento anti-semítico.

Todas as firmas fechadas eram de judeus. Sendo um dos líderes do

trabalho da Igreja Reformada entre os judeus, ele estava bem em dia

com tais assuntos.

Meu bom Willem, pensei, ao voltar para dentro e fechar a

porta; ele era tão fraco nos negócios da igreja, como papai o era no

dos relógios. Se já conseguira a conversão de um só judeu em vinte

anos, eu não soubera do fato. Willem não tentava modificar as

pessoas, queria apenas ajudá-las. Ele tinha economizado dinheiro e

até sovinado um pouco, para conseguir ajuntar o suficiente para

construir em Hilversum um abrigo para judeus idosos, que depois

veio a ser para velhinhos de todos os credos, pois ele era contrário a

qualquer tipo de segregação.

Ultimamente, porém, o Lar tinha sido inundado por uma onda

de jovens refugiados - todos judeus, e todos da Alemanha. Ele e sua

família tinham cedido seus próprios aposentos e estavam dormindo

nos corredores. E mais e mais judeus, apavorados e desabrigados,

estavam chegando, e narravam fatos incríveis a respeito de uma

crescente loucura.

Fui à cozinha, onde Nollie tinha acabado de coar mais café,

apanhei-o e subi para os quartos de Tia Jans.

- O que será que esse homem quer? perguntei a um grupo de

pessoas reunidas em torno da mesa, e colocando ali o bule. Esse

homem da Alemanha, ele está querendo guerra?

Sabia que era um péssimo tópico de conversação para um

dia de festa, mas a lembrança de Willem sempre levava meu

pensamento a se concentrar em assuntos perigosos.

Um silêncio pesado caiu sobre a mesa e se espalhou pela

sala.

- O que é que nos interessa isso? ouvi alguém perguntar.

Deixa esses países grandes lutarem entre si. Não vão nos atingir.

- Isso mesmo, falou um relojoeiro. Os alemães que não nos

incomodem com essa grande guerra. Para eles é melhor que

fiquemos neutros.

- Você pode dizer isto, atalhou outro, que era nosso for-

necedor de peças. Você compra da Suíça; mas, e nós? O que eu

faço se a Alemanha entrar em guerra? Isso arrasaria meus negócios.

Naquele momento, Willem entrou na sala. Com ele vinham

sua esposa, Tine, e seus quatro filhos. Contudo quase todos os

olhares se fixaram no homem que Willem conduzia pelo braço. Era

um judeu de trinta e poucos anos. Usava o tradicional chapéu de

abas largas e o longo sobretudo preto. Os olhos de todos estavam

colados à sua face, que apresentava uma horrível queimadura. Perto

da orelha direita via-se um anel de cabelos grisalhos, como os de um

velho. O resto do queixo era uma chaga viva.

- Quero apresentar-lhes o Sr. Gutlieber, disse Willem em

alemão. Ele chegou a Hilversum hoje cedo. Gutlieber, este é meu

pai. E depois de uma pausa, prosseguiu em holandês: Este homem

fugiu da Alemanha escondido em um caminhão de leite. Ele foi

cercado na rua, em Munique, por uns rapazinhos que puseram fogo

em sua barba.

Papai levantou-se e apertou a mão do recém-chegado com

muita efusão. Eu trouxe-lhe uma xícara de café e um prato com os

biscoitos de Nollie. Nesse momento, senti-me grata pela insistência

de papai em que seus filhos aprendessem alemão e inglês e

falassem estas línguas tão bem quanto holandês.

Gutlieber sentou-se na beirada da cadeira meio teso, olhando

para o café em seu colo. Arrastei uma cadeira para junto dele e

comecei a falar sobre qualquer coisa, sobre o tempo em janeiro.

Imediatamente, a conversação se generalizou, retomando o

volume normal da conversa de um salão de festas: um murmúrio que

se elevava e depois abaixava. Ouvi um vendedor de relógios

exclamar:

- Que miseráveis! Vagabundos! Está acontecendo o mesmo

em toda a parte. A polícia vai pegá-los. Afinal, a Alemanha é um país

civilizado.

***

E foi assim que uma nuvem desceu sobre nós naquela tarde

de inverno de 1937, mas não pesou muito. Ninguém nem sonhava

que aquela nuvenzinha cresceria tanto, que viria a escurecer todo o

céu. Nenhum de nós imaginava que todos teríamos uma parte nela:

papai, o Sr. Kan, Willem, e até esse velho Beje, com seus assoalhos

desnivelados e antiquados.

À noite, depois que todos os convidados já haviam saído, subi

para o meu quarto pensando no passado. Meu vestido novo estava

sobre a cama; eu havia me esquecido de vesti-lo de novo.

- Nunca me preocupei mesmo com roupas, pensei, nem

quando era jovem...

Recordações da infância retornaram naquele instante

-estranhamente, elas pareciam atuais e muito relevantes. Agora eu

sei que as lembranças contêm o segredo do futuro; não do passado,

mas do futuro. Sei que, quando deixamos Deus usar nossas

experiências passadas, elas se convertem em instrumentos pelos

quais o Senhor nos prepara para o trabalho que ele tem para nós.

Mas eu não sabia disso naquele momento. Nem mesmo sa-

bia - tendo uma vida tão pacata - que havia um futuro para o qual eu

precisava de uma preparação especial. E ali deitada no meu quarto,

na parte superior da casa, eu só sabia que certos momentos da

minha infância e juventude começaram a se destacar da face

nebulosa do passado, como se ainda os estivesse vivendo, como se

eles ainda tivessem algo a me dizer...

Capítulo 2 - Todos à Mesa

O ano era 1898, e eu tinha seis anos. Betsie me colocou

diante do espelho do guarda-roupa, e passou-me um sermão.

- Olhe só seu sapato. Está faltando metade dos botões. E

essa meia rasgada logo no primeiro dia de aula! Veja como Nollie

está!

Encontrávamo-nos em nosso quarto - meu e de Nollie -que

ficava no topo do Beje. Olhei para minha irmã, dois anos mais velha

que eu: era verdade. Seus sapatos estavam perfeitamente

abotoados. Com relutância, tirei o meu, enquanto Betsie dava uma

busca pelo armário.

Betsie tinha treze anos, e, para mim, era quase adulta. Ela

sempre me parecera mesmo mais velha, pois nunca pudera correr e

fazer algazarra como as outras crianças. Sofria de anemia perniciosa

desde o nascimento. Assim, enquanto nós brincávamos de pique,

rodávamos arco, ou apostávamos corrida patinando pelos canais

gelados no inverno, ela ficava sentada em casa, fazendo coisas

enfadonhas, bordando, por exemplo. Nollie, porém, brincava tanto

quanto qualquer outra criança, e era pouco mais velha que eu. Não

me parecia justo que ela sempre fizesse tudo certinho.

- Betsie, estava ela dizendo, eu não vou para a escola com

aquele chapelão horrível, só porque foi a Tia Jans quem o comprou.

No ano passado, foi aquele cinzento horroroso, e agora é este, que é

ainda mais feio.

Betsie olhou-a com um ar de compreensão.

- É, mas... bem, você não pode ir sem chapéu, e nós não

podemos comprar outro.

- Não vai ser preciso.

Dando uma rápida olhadela para a porta, Nollie abaixou-se,

enfiou a mão debaixo da cama estreita - que era a que o quarto

comportava - e puxou de lá uma caixa redonda e pequena. Dentro

achava-se o menor chapéu que eu já vira. Era de peles e tinha uma

fita azul para atar sob o queixo.

- Que coisinha mais linda! Betsie ergueu-o cuidadosamente

da caixa, para vê-lo melhor à luz da manhã que mal e mal penetrava

no quarto.

- Onde foi que você...?

- Foi a Sra. van Dyer que me deu.

Os van Dyer eram os proprietários da chapelaria que ficava

duas portas abaixo da nossa casa.

- Ela viu que eu estava olhando para esse, e depois que a Tia

Jans já tinha comprado aquilo, ela veio aqui e me deu este.

Ao dizer "aquilo", Nollie havia apontado para cima do guarda-

roupa. Era um chapelão marrom, de abas largas, enfeitado com um

cacho de rosas de veludo roxo e que revelava claramente quem o

escolhera. Tia Jans, irmã de mamãe e mais velha que ela, viera

morar conosco logo após o falecimento de seu marido, para passar

em nossa companhia, como dizia "os poucos dias que me restam",

embora tivesse apenas quarenta e poucos anos de idade.

Sua vinda só fizera complicar ainda mais a vida da velha casa

- que já ficara apertada com a chegada, anteriormente, de mais duas

irmãs de mamãe, Tia Bep e Tia Anna - pois consigo ela trouxera

várias peças de mobília, todas grandes demais para os pequenos

cômodos do Beje.

Tia Jans acomodara-se nos dois quartos do segundo andar

da casa da frente, os quais ficavam logo acima da loja e da oficina. O

primeiro, ela usava como seu escritório, onde produzia seus

inflamados folhetos evangélicos, pelos quais era conhecida em toda

a Holanda. No outro recebia a visita das damas ricas que

sustentavam a obra. Tia Jans cria que nossa felicidade no além

dependia da quantidade de nossas realizações nesta terra. Para

dormir, ela fizera, no primeiro quarto, uma divisão em que cabia

apenas a cama. A morte, dizia ela, estava esperando para arrebatá-la

de seu trabalho, e, por isso, suas horas de descanso eram breves e

poucas.

Não me recordo como era o Beje antes de Tia Jans chegar,

nem sei de quem eram aqueles quartos antes de ela os ocupar. Em

cima deles, tendo por teto a cúpula triangular do telhado, havia um

longo sótão. Desde quando me lembro, este espaço era dividido em

quatro quartos bem pequenos.

O primeiro, que dava para a rua e o único com janela, era da

Tia Bep. Atrás dele, enfileirados como os vagões de um trem de

ferro, vinham os quartos da Tia Anna, Betsie e Willem. Subindo-se os

cinco degraus para a residência de trás, chegava-se ao quarto que

Nollie e eu ocupávamos. Logo abaixo dele, estava o quarto de papai

e mamãe, e embaixo deste, a sala de jantar com aquela cozinha que

parecia ter sido adicionada a ela como uma idéia de última hora.

Nunca nos ocorreu que talvez a porção que coubera à Tia

Jans, na distribuição dos cômodos dessa casa superpopulada, fosse

demais. O mundo simplesmente "abria alas" para Tia Jans. O dia

todo ouvíamos o tropel do bonde puxado a cavalos que passava em

frente à nossa casa, e parava na pracinha, a meia quadra dali, ponto

de parada para todos os passageiros. Entretanto, para Tia Jans, era

diferente. Quando ela desejava ir a algum lugar, ela se postava na

calçada em frente da loja e, quando os cavalos se aproximavam,

erguia um dos dedos da mão enluvada. Parecia-me ser mais fácil

deter o sol no céu do que fazer estacar aqueles animais, mas para

Tia Jans eles paravam. Os freios gemiam, os cavalos quase se

amontoavam uns sobre os outros, e o cocheiro inclinava seu chapéu

num cumprimento enquanto ela subia a bordo.

Seria diante desse olhar dominador que Nollie teria que

passar com o chapeuzinho de peles. Desde que viera morar em

nossa casa, Tia Jans tomara a si a responsabilidade de comprar

quase toda a roupa, para nós, as três meninas. Seus presentes,

porém, tinham um preço. Para a tia, o que estava na moda quando

ela fora jovem, representava a palavra final de Deus na questão do

vestuário. Todas as mudanças que ocorreram depois tinham vindo

diretamente dos figurinos do diabo. Aliás, em um dos seus

conhecidos panfletos, ela o indicava como sendo o inventor da

manga afofada e da saia-culote.

- Já sei! gritei, enquanto os dedos ágeis de Betsie corriam

sobre meu pé, abotoando o sapato. Você poderia colocar primeiro o

chapéu de peles e depois o chapelão por cima dele. Quando

chegasse lá fora, você tirava o chapelão.

- Corrie! Nollie estava positivamente chocada. Isto não seria

honesto!

Com um olhar de raiva para o chapéu marrom, ela pegou o

chapeuzinho de peles e saiu atrás de Betsie para ir tomar café.

Peguei meu chapéu - o desprezado chapéu cinzento do ano

anterior - e desci após elas, uma das mãos no poste central, ao redor

do qual a escada dava suas voltas. Então deixa a Tia Jans ver o tal

chapéu. Que me importa? Eu nunca poderia mesmo compreender

por que todo esse alvoroço só por causa de roupas.

Uma coisa porém eu compreendia, um fato terrível e alar-

mante: nesse dia eu começava a estudar. Deixava este velho e

amado lar, deixava mamãe e as tias, deixava tudo que representava

segurança e carinho. Agarrei o poste com tanta força que, ao

contorná-lo, ouvi o rangido da palma da mão contra a madeira. Era

verdade que a escola ficava apenas a uma quadra e meia da casa, e

Nollie já a freqüentava havia dois anos sem dificuldades. Mas Nollie

era diferente de mim; ela era bonita, bem comportada e estava

sempre arrumadinha.

E então, na última volta da escada, encontrei a solução. Era

tão simples, tão clara que ri em voz alta. Eu simplesmente não iria à

escola. Ficaria em casa e ajudaria a Tia Anna na cozinha. Mamãe me

ensinaria a ler e eu não precisaria nunca me aproximar daquele

prédio feio e ameaçador. Senti um grande alívio me invadir e desci os

três últimos degraus de um salto.

- Ssssssssiiiuuu!

Betsie e Nollie estavam esperando por mim à porta da sala de

jantar.

- Por favor, Corrie, não faça nada para irritar Tia Jans, disse

Betsie. Tenho certeza de que papai, mamãe e Tia Anna vão gostar do

chapéu de Nollie, acrescentou com certa dúvida.

- Tia Bep não vai, respondi.

- Ela não gosta de nada, interveio Nollie. Ela não conta. Tia

Bep, com seu eterno ar de desaprovação, era a mais velha das tias,

e a de quem nós menos gostávamos. Ela havia trabalhado como

governanta para algumas famílias ricas e estava sempre nos

comparando com as meninas e rapazinhos em cujas casas

trabalhara.

Betsie apontou para o relógio à parede, e com um dedo sobre

os lábios abriu silenciosamente a porta. Eram 8:12h. O café já fora

servido.

- Dois minutos de atraso, gritou Willem em um tom de triunfo.

- Os filhos dos Waller nunca se atrasavam, disse Tia Bep.

- Mas elas já chegaram! disse papai. E a sala até parece que

ficou mais alegre!

- Tia Jans vai ficar na cama hoje? perguntou Betsie espe-

rançosamente, enquanto pendurávamos os chapéus nos respectivos

ganchos.

- Ela está na cozinha, preparando um tônico, disse mamãe.

Ela se inclinou para servir-nos café e disse em voz baixa:

- Hoje precisamos ter muita paciência com Tia Jans. É ani-

versário da morte da irmã do marido dela ou é da prima?

- Achava que fosse da tia dele, disse Tia Anna.

- E da prima dele; e foi uma bênção, informou Tia Bep.

- Bom; não interessa, falou mamãe apressadamente, vocês

sabem que Jans fica muito nervosa nestes aniversários da morte de

parentes; então, vamos ajudá-la em tudo.

Betsie cortou três fatias de pão redondo, enquanto eu olhava

ao redor da mesa, tentando imaginar qual dos três adultos iria se

mostrar mais entusiasmado com meu projeto de não ir à escola.

Papai, eu tinha certeza, dava uma importância quase religiosa à

educação. Ele tivera que parar de estudar para trabalhar na

relojoaria, quando ainda era bem jovem, e, embora fosse um

autodidata, tendo aprendido sozinho História, Teologia e Literatura de

cinco línguas, sempre se ressentia de não ter freqüentado a escola

mais tempo. Ele ia querer que eu fosse, e o que ele quisesse,

mamãe também queria.

E Tia Anna? Ela havia falado várias vezes que não poderia

passar sem mim, para as subidas e descidas pela escada com

alguns mandados. Já que mamãe não era forte, Tia Anna se

encarregava da maior parte do serviço pesado para nossa família de

nove pessoas. Ela era a irmã mais nova e tinha o espírito tão

generoso como o de mamãe. Havia uma crença em nossa família de

que Tia Anna recebia pagamento pelo seu trabalho. E era verdade:

todo sábado, papai lhe pagava, fielmente, um guílder. Na quarta-

feira, porém, quando passava o verdureiro, muitas vezes ele tinha

que pedi-lo de volta, e ela ainda tinha aquele dinheiro - guardado e

intato. É! Ela poderia ser a aliada de que eu precisava.

- Tia Anna, principiei, estou pensando na senhora trabalhando

tanto, o dia todo e eu na escola...

Ouvimos uma respiração profunda e ruidosa, e todos er-

guemos os olhos. Tia Jans estava parada à porta da cozinha, tendo

na mão um copo cheio de um líquido marrom, xaroposo. Ela respirou

fundo e fechou os olhos; levou o copo à boca e bebeu de um gole.

Depois deu um suspiro, pôs o copo sobre o armário de louça, e

sentou-se.

- Mas, realmente, disse, como se estivéssemos discutindo o

assunto, que é que os médicos sabem? O Dr. Blinker me receitou

este tônico, mas para que é que os remédios servem? Quando

chega a hora final, nada adianta!

Corri os olhos ao redor da mesa; ninguém sorria. A preo-

cupação da Tia Jans com a morte poderia até parecer cômica, mas

não era. Mesmo sendo tão jovem, eu sabia que o medo nunca era

engraçado.

- Entretanto, Jans, falou papai gentilmente, a medicina tem

prolongado muitas vidas.

- Não valeu de nada para Zusje! E ela foi aos melhores

médicos de Roterdam. E foi no dia de hoje que ela morreu, e nem

mais velha do que sou agora ela era. Naquele dia, ela se levantou,

vestiu-se e tomou café, exatamente como eu fiz hoje.

Ela já ia se lançar num relato detalhado do último dia da vida

de Zusje, quando seus olhos deram com o chapéu novo de Nollie

pendurado no gancho.

- Um gorro de peles nesta época do ano? perguntou, cada

palavra vibrando de desconfiança.

- Não é um gorro, Tia Jans, explicou Nollie baixinho.

- E pode-se saber o que é?

- É um chapéu, respondeu Betsie. Foi um presente da Sra.

van Dyer. Não foi gentileza dela...

- Ah, não! O chapéu de Nollie tem uma boa aba, e é como

deve ser o chapéu de uma menina bem-educada. Eu sei disso. Fui

eu quem o comprou e pagou.

Os olhos de Tia Jans despendiam chispas; os de Nollie

marejavam. Mamãe veio em seu socorro.

- Não sei bem se este queijo está fresco!

Cheirou o pote de queijo amarelo, que estava sobre a mesa,

e empurrou-o para papai.

- Que é que você acha, Cásper?

Papai, que era incapaz de dissimular, e mesmo de entender

uma dissimulação, pegou-o, e cheirou-o aspirando profundamente.

- Está perfeito, querida. Está tão fresco quanto no dia em que

chegou. O queijo que o Sr. Steerwijk faz é... Depois, percebendo o

olhar de mamãe, voltou-se para a Tia Jans meio confuso. Ah... Jans,

o que é que você acha?

Tia Jans pegou o vidro e olhou-o com ardoroso zelo. Se havia

algo que atraía sua ira mais que as roupas modernas, era alimento

deteriorado. Afinal, e quase com relutância, pareceu-me, ela deu sua

aprovação do queijo, mas o chapéu estava esquecido. Ela já

enveredara pelo caso de uma conhecida sua - "de minha idade!" -

que morrera após ter comido um peixe de aparência meio duvidosa,

e foi aí que os empregados da loja chegaram, e papai retirou a Bíblia

da estante.

Em 1898, havia apenas dois empregados na relojoaria: o

oficial relojoeiro e o aprendiz, que também era moço de recados.

Depois que mamãe os serviu de café, papai colocou seus óculos

sem aro, e começou a ler:

"Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para os

meus caminhos... Tu és o meu refúgio e o meu escudo; na tua

palavra, eu espero."

Que tipo de refúgio? procurei imaginar, enquanto observava

sua barba abaixar-se e levantar, a cada palavra proferida. De que é

que a gente precisava se abrigar?

Era um salmo muito longo; a meu lado, Nollie começou a

remexer-se. Logo que papai fechou o livro, ela, Willem e Betsie se

puseram de pé prontamente e pegaram seus chapéus. No minuto

seguinte, já desciam as escadas, e saíam pela porta lateral.

Os dois empregados da loja levantaram-se também, embora

não tão prontamente, e os seguiram. Foi só então que os cinco

adultos à mesa deram comigo ainda sentada.

- Corrie, exclamou mamãe, esqueceu que agora você já é

uma menina crescida? Hoje você vai para a escola também.

Depressa, senão terá que atravessar a rua sozinha.

- Eu não vou!

Houve um curto silêncio de assombro, imediatamente

quebrado por todos ao mesmo tempo.

- Quando eu era menina... começou Tia Jans.

- Os filhos da Sra. Waller... era Tia Bep. A voz grave de papai

abafou as outras:

- É lógico que ela não vai sozinha. Nollie estava tão animada

que esqueceu de esperar, é só isso. Corrie vai comigo.

Então ele pegou meu chapéu, envolveu minha mão com a

sua e levou-me dali. A mão de meu pai! Isso significava o moinho de

Spaarne ou os cisnes do canal. Desta vez, porém, ele me levava

aonde eu não queria ir. Havia um corrimão na escadinha. Agarrei-me

a ele e segurei firme. Seus habilidosos dedos de relojoeiro fecharam-

se sobre a minha mão e gentilmente fizeram-na soltar-se. Lutando e

gritando, fui carregada do mundo que eu amava para um outro maior,

estranho e perigoso...

Às segundas-feiras, papai ia a Amsterdam para ver a hora

certa no Observatório Naval. Agora que eu começava a estudar, só

poderia acompanhá-lo no verão. Eu descia correndo para a loja,

cabelos escovados, sapatos abotoados, depois de ter sido declarada

passável por Betsie. Papai estaria dando as instruções finais ao

aprendiz.

"A Sra. Staal vem agora de manhã buscar o relógio dela. Este

aqui é para ser entregue ao Sr. Bakker em Bloemendaal."

Depois partiríamos de mãos dadas para a estação: eu alar-

gando meus passos e ele encurtando os seus, para podermos andar

juntos. A viagem para Amsterdam não levava mais que meia hora,

mas era maravilhosa. Primeiro, passavam os prédios velhos e

aglomerados de Haarlem, que, em seguida, davam lugar a casas

mais esparsas, circundadas de pequenos quintais.

Depois, os espaços despovoados aumentavam. Finalmente,

encontrávamo-nos em pleno campo, na região das fazendas, plana

até perder de vista, e cortada de canais tão retos que pareciam

traçados à régua. Por fim chegávamos a Amsterdam, com a magia

de suas ruas e canais, e maior ainda do que Haarlem.

Papai sempre ia com uma ou duas horas de antecedência,

para visitar os atacadistas que lhe forneciam relógios e peças. Muitos

deles eram judeus, e era destes que nós mais gostávamos. Depois

de resolver os negócios, o que fazia no menor tempo possível, papai

tirava uma Bíblia pequena de sua maleta de viagem.

O negociante, cuja barba era geralmente mais longa e cheia

que a de papai, apanhava um livrinho ou rolo, e assentava um

solidéu no alto da cabeça. Assim os dois conversavam por muito

tempo argumentando, comparando textos, interrompendo-se

mutuamente - cada um se deleitando mais com a presença do outro.

Depois, quando eu já estava quase chegando à conclusão de

que havia sido totalmente esquecida, o homem erguia os olhos, via-

me - como se fosse a primeira vez - e batia na testa com a base da

mão.

"Uma visita! Estou com uma visita em casa e não lhe ofereci

nada!"

Levantava-se de um salto, fazia uma busca rápida pelas

estantes e armários, e, daí a pouco, eu tinha no colo um prato cheio

dos petiscos mais deliciosos do mundo: bolos de mel e tâmaras, e

uma espécie de docinho de nozes, frutas e açúcar. Sobremesa no

Beje era coisa rara; delícias como aquelas eram completamente

desconhecidas.

Às cinco para o meio-dia, estaríamos de volta à plataforma da

estação, aguardando, de um ponto estratégico, o sinal do

Observatório Naval. No topo da torre, de onde poderia ser vista por

todos os navios ancorados no porto, estava a coluna com os dois

ponteiros. Ao meio-dia em ponto, o sinal era dado. De sua posição

privilegiada e tendo na mão o bloco, lápis e seu cronômetro, papai

aguardava o momento, quase na ponta dos pés de entusiasmo pela

precisão do aparelho. Aí está! Quatro segundos adiantado! Uma hora

mais tarde o relógio astronômico de nossa loja seria acertado com

precisão de segundos.

Na viagem de volta, não olhávamos pela janela.

Conversávamos. Falávamos a respeito de assuntos os mais

diversos, que variavam com o passar dos anos. A formatura de

Betsie no ginásio, apesar das muitas aulas perdidas por causa de

doença. E quando Willem se formasse, será que conseguiria a bolsa

de estudos para cursar a Universidade? Betsie começando a

trabalhar na nossa loja como guarda-livros.

Muitas vezes, eu aproveitava aquelas viagens para discutir

assuntos que estivessem me perturbando, já que em casa, tudo que

eu perguntava era respondido pelas tias. Certa vez - eu devia ter dez

ou onze anos - interroguei-o acerca de um poema que havíamos lido

na escola. Uma sentença falava sobre "um jovem cujo rosto não fora

marcado pelo pecado do sexo". Eu me acanhara de perguntar à

professora o que aquilo significava, e mamãe, quando a interroguei,

ficara toda vermelha. Naquela época, nos princípios do século XX,

nunca se conversava sobre sexo, nem mesmo em família.

A sentença ficara em minha mente. Pecado eu sabia, era algo

que irritava por demais a Tia Jans; sexo era a diferença entre

meninos e meninas. Os dois reunidos, porém, eu não sabia o que

vinha a ser. Foi assim que, sentada no trem ao lado de papai,

perguntei-lhe de chofre:

- Pai, o que é "pecado do sexo"?

Ele olhou-me como sempre fazia ao responder uma pergunta,