O Refúgio Secreto por Corrie ten Boom & John e Elizabeth Sherrill - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

mas, para minha surpresa, não disse nada. Levantou-se, tirou a

maleta do porta-volumes acima de nós, e colocou-a no chão.

- Quer carregá-la para mim, Corrie?

Pus-me de pé e peguei a alça. A maleta estava cheia de

relógios e peças que ele comprara nesse dia.

- É muito pesada, disse.

- É mesmo, confirmou ele. E eu seria um péssimo pai se

exigisse que minha filhinha carregasse todo esse peso. Com os

conhecimentos dá-se o mesmo, Corrie. Algumas coisas são pesadas

demais para as crianças. Quando você ficar maior, e mais forte,

poderá suportá-las. Hoje, porém, tem que confiar em mim e deixar

que eu as carregue para você.

Fiquei satisfeita; mais que satisfeita, fiquei em paz. Havia

respostas para esta e todas as outras perguntas difíceis que eu

tivesse, mas por agora, eu estava tranqüila em entregá-las aos

cuidados de meu pai.

***

As noites no Beje eram reservadas para se receber visitas e

fazer música. Algumas pessoas traziam flautas, outras violinos, e

como cada um da família ou cantava ou tocava um instrumento,

formávamos quase uma orquestra ao redor do piano que havia num

dos quartos de Tia Jans.

Somente quando havia um concerto na cidade é que não

tínhamos nossa pequena reunião musical. Não podíamos pagar o

ingresso, mas havia uma entrada lateral para o palco, de onde se

conseguia ouvir bem. Do lado de fora, nós e dezenas de outros

amantes da boa música seguíamos o concerto nota por nota. Mamãe

e Betsie não eram muito fortes e não agüentavam ficar lá muito

tempo, mas nós ficávamos ali, sob a neve e sob a chuva ou geada.

E, enquanto dentro do salão ouviam-se tosses e ruído de gente que

se movia, do grupo que estava à porta não partia nem mesmo um

sussurro.

Melhor ainda era quando havia um concerto na catedral, pois

um parente nosso era sacristão. Perto da entrada de serviço utilizada

por ele, havia um banco de madeira junto a uma parede. Nós nos

sentávamos ali, sentindo nas costas o frio das velhas pedras, mas

com o coração aquecido pela música.

O som de algumas notas daquele órgão velho, no qual Mozart

tocara, parecia vir diretamente do céu. Eu costumava pensar que o

céu devia ser como a catedral de São Bavo, e mais ou menos do

mesmo tamanho. Eu sabia que o inferno era quente, então o céu

devia ser como este santuário, frio e úmido, com a fumaça dos

aquecedores de pés subindo como incenso. No céu, eu cria, todos

teriam direito a aquecedores. Até mesmo no verão, as lajes de

mármore do assoalho eram frias. Quando, porém, o organista tocava,

a gente quase que se esquecia delas, e se tocasse Bach, então é

que se esquecia mesmo.

***

Eu estava subindo, com mamãe e Nollie, uma escada cheia

de teias de aranha que se apegavam ao nosso cabelo, e de ratos

que fugiam à nossa aproximação. Essa casa ficava a uma quadra e

meia do Beje e sua construção era, pelo menos, um século mais

recente, mas ali não havia uma Tia Anna para lavar e encerar.

Íamos visitar uma família pobre da vizinhança, uma das

muitas que mamãe "adotara". Nós, crianças, nunca percebêramos

que éramos pobres. Pobre era a família a quem se levava uma cesta

de alimentos. Mamãe estava sempre fazendo sopas ou mingaus para

velhos semi-abandonados ou jovens mães pálidas, isto é, nos dias

em que ela própria não se sentia fraca demais para ficar ao pé do

fogão.

Na noite anterior, o bebê deles havia morrido e agora mamãe

fazia sua visita de praxe, levando pão fresco que ela mesma fizera.

Subia penosamente, parando várias vezes para recuperar o fôlego.

Em cima, entramos por uma porta que dava para um cômodo que

era, ao mesmo tempo, quarto de dormir, sala de jantar e cozinha.

Várias pessoas já se encontravam ali, muitas delas de pé, por falta

de cadeiras. Mamãe encaminhou-se diretamente para a mãe, mas eu

parei à entrada, petrificada. À direita, em seu bercinho de fabricação

caseira, estava a criancinha.

É estranho como uma sociedade que escondia das crianças

as verdades sobre o sexo, nada fazia para escudá-las da realidade

da morte. Fiquei ali de olhos pregados no corpinho morto, com o

coração batendo fortemente. Nollie, sempre mais corajosa que eu,

estendeu a mão e tocou o rostinho branco como marfim. Desejei

fazer o mesmo mas, amedrontada demais, não conseguia. Por

alguns instantes, dentro de mim, a curiosidade lutou contra o pavor.

Afinal, encostei um dedo na mãozinha cerrada.

Estava fria.

Estava fria quando caminhávamos de volta para o Beje, fria

enquanto me lavava para jantar, e fria ainda no aconchego da nossa

sala de jantar iluminada a gás. Aqueles dedinhos gelados se

interpunham entre mim e todos aqueles rostos queridos à mesa.

Apesar de Tia Jans falar tanto na morte, até então ela havia sido para

mim apenas uma palavra. Agora eu sabia que era algo real - se era

real para aquele bebezinho, então podia ser para mamãe, para

papai, para Betsie.

Ainda tremendo por causa daquele frio, segui Nollie até nosso

quartinho e enfiei-me na cama ao seu lado. Por fim ouvimos os

passos de papai escada acima. Aquele momento era, para mim, o

melhor do dia - ele vinha ajeitar nossas cobertas. Nunca dormíamos

antes que ele viesse arranjá-las a seu modo, e colocar a mão em

nossa cabeça por um instante. Depois, ficávamos quietas e

procurávamos não mover, nem mesmo um dedo.

Aquela noite, porém, assim que ele atravessou a porta, rompi

em lágrimas.

- Eu preciso do senhor, solucei. O senhor não pode morrer,

não pode!

Nollie sentou-se na cama.

- Fomos a casa da Sra. Hoog, explicou. Corrie não jantou

nem comeu nada.

Papai sentou-se na beira da nossa caminha estreita.

- Corrie, disse gentilmente, nos dias em que vamos a

Amsterdam, quando é que eu lhe entrego sua passagem?

Funguei duas ou três vezes, ponderando o fato.

- Ora, pouco antes de tomar o trem.

- Certo. Nosso Pai celestial é muito bom e ele sabe o mo-

mento certo em que iremos precisar das coisas. Não passe na frente

dele, Corrie. Quando chegar a hora em que tivermos de morrer, você

vai ver que seu coração terá a força de que você precisa. No

momento exato.

Capítulo 3 - Karel

Conheci Karel em uma das famosas recepções de mamãe.

Nunca consegui me lembrar se foi um aniversário, o nascimento de

uma criança, um aniversário de casamento - mamãe arranjava uma

festa por qualquer motivo. Willem apresentou-o como um amigo da

cidade de Leiden, e ele apertou a mão de todos nós, um por um.

Apertei sua mão forte, olhei aqueles olhos castanhos, e apaixonei-me

no mesmo instante.

Logo que todos já estavam servidos, sentei-me a fim de ficar

olhando para ele. Ele parecia totalmente inconsciente de minha

presença, mas isso era natural. Eu tinha quatorze anos, enquanto ele

e Willem já eram universitários, as barbas ralas começando a

despontar, a conversa entremeada de fumaça de charuto.

Para mim, era bastante estar na mesma sala que ele. Quanto

a não ser notada, eu já estava acostumada. Nollie é que o era

sempre, embora, como quase toda moça bonita, ela não desse a

mínima importância àquilo. Quando um rapaz lhe pedia uma mecha

do seu cabelo - método então usado para se declarar amor - ela

arrancava alguns fiapos do nosso velho tapete cinzento, amarrava

com uma fitinha azul, e fazia de mim o seu portador. Por essa época,

o tapete estava bem desbastado, e o coração de um bom número de

rapazes, partido.

Eu, ao contrário, apaixonei-me por todos os meninos da

classe, um após outro, numa espécie de ciclo inevitável e constante.

Mas, como não fosse bonita, e, ainda por cima, tímida demais para

externar meus sentimentos, toda aquela geração de rapazes estava

passando completamente despercebida da menina da cadeira 32.

Com Karel, porém, seria diferente, pensei enquanto o via

mexer o café com uma colherinha. Eu iria amá-lo para sempre.

***

Foi somente dois anos depois, que o vi de novo. No inverno

de 1908 eu e Nollie fomos a Leiden, para visitar Willem na

Universidade. Ele ocupava um quarto escassamente mobiliado no

quarto andar de uma residência familiar. Acolheu-nos a ambas com

um só abraço, e depois correu à janela.

- Olhem, disse retirando do peitoril um pãozinho doce

recheado que pusera ali para gelar, comprei isto para vocês. É

melhor comerem logo, antes que meus amigos esfaimados

apareçam por aqui.

Sentamo-nos a saborear o precioso pãozinho. Eu sabia que,

para comprá-lo, Willem devia ter ficado sem almoço. Um minuto

depois, a porta foi escancarada e quatro de seus colegas irromperam

quarto adentro - altos, vozes graves, usando casacos de gola

remendada e punho puído. Entre eles, Karel.

Engoli o último pedacinho de pão, limpei as mãos na saia, e

levantei-me. Willem apresentou-nos. Quando chegou a vez de Karel,

este interrompeu-o.

- Nós já nos conhecemos.

Inclinou-se ligeiramente.

- Lembra-se de mim? Eu a conheci naquela festa em sua

casa.

Olhei para Nollie - não, ele estava dirigindo-se era a mim

mesmo. Do meu coração brotaram palavras de contentamento, mas

minha boca continha ainda os restos do pãozinho doce, e elas nunca

me conseguiram chegar aos lábios. Os rapazes se sentaram no

assoalho, e começaram a falar animadamente, todos de uma vez.

Sentada na cama, ao meu lado, Nollie aderiu à conversação

com toda a naturalidade, como se visitar aquela escola fosse um

evento diário em nossa vida. Uma razão era que ela parecia

pertencer ao grupo: tinha dezoito anos e usava saias longas,

enquanto eu estava dolorosamente cônscia dos vinte centímetros de

meia escolar - grossa e preta - que me cobriam as pernas, da barra

do vestido até o sapato.

Outra coisa: Nollie sabia o que conversar. No ano anterior, ela

começara a cursar a Escola Normal. Na verdade, ela não queria ser

professora, mas, naquela época, as universidades não ofereciam

bolsa de estudos para moças, e a escola normal era bem menos

dispendiosa. Bem, ela participou à vontade, falando com facilidade

sobre os assuntos de interesse dos rapazes - a nova teoria da

relatividade, recentemente proposta por um tal de Einstein, e a

probabilidade do Almirante Peary chegar ou não ao Pólo Norte.

- E você, Corrie, vai ser professora também?

Karel sorria para mim, sentado no chão a meus pés. Senti um

calor subir-me ao rosto, começando do pescoço.

- Quero dizer, no ano que vem, insistiu. Você está no último

ano do curso secundário, não está?

- Sim... quero dizer, não. Vou ficar em casa ajudando a

mamãe e Tia Anna.

Minha resposta saiu curta e seca. Por que é que eu não

conseguia dizer nada, tendo tanto para dizer?

***

Quando terminei o curso, na primavera, assumi a

responsabilidade do trabalho da casa. De há muito isto fora delibe-

rado em família, mas agora tínhamos mais uma razão: Tia Bep

estava tuberculosa.

A doença era, então, incurável. O único tratamento conhecido

era repouso num sanatório, mas isso só para ricos. E assim, durante

meses e meses, Tia Bep ficou deitada em seu quartinho, a vida se

esvaindo em meio a acessos de tosse.

Para diminuir o perigo de contágio, somente Tia Anna entrava

ali. Ela cuidava da irmã o dia todo, e, às vezes, a noite toda também.

Assim, todo o serviço da casa - cozinhar, lavar, limpar - passou para

mim. Eu adorava trabalhar, e, se não fosse pela doença de Tia Bep

eu me sentiria completamente feliz. A sombra dela porém, obscurecia

tudo, não só pela sua doença, mas também por causa de toda a sua

vida triste e frustrada.

Muitas vezes, ao passar a bandeja de alimento para Tia Anna,

eu entrevia o interior do quarto. Via as pobres lembrancinhas,

souvenirs de seus trinta anos passados nas casas em que

trabalhara: vidros de perfume vazios há muito, pois as boas famílias

sempre davam perfumes à governanta, no Natal. Fotografias

desbotadas, velhos daguerreótipos de crianças que agora tinham

seus próprios filhos e netos. Aí a porta se fechava e eu me deixava

ficar ali, naquele corredor estreito, cujo teto era o beirai do telhado,

desejando ardentemente poder dizer alguma coisa, querendo poder

ajudar um pouco, desejando amá-la melhor.

Certa vez falei disso a mamãe. Ela também estava come-

çando a passar mais e mais tempo de cama. Antes, sempre que a

dor na vesícula ficava insuportável, ela se submetia a uma operação.

Após a última, porém, ela sofrera um pequeno derrame e não

poderia mais ser operada. Muitas vezes, ao preparar a bandeja de

Tia Bep, fazia uma para ela também.

Dessa vez, quando cheguei com seu almoço, ela escrevia

cartas. Sempre que não estava trabalhando com suas velozes

agulhas, fazendo gorros e roupas de bebê para toda a vizinhança,

estava escrevendo mensagens de conforto para quase todos os

entrevados e doentes de Haarlem. Nunca lhe ocorria que ela mesma

passara a maior parte de sua vida na cama.

- Esse pobre homem, Corrie, - disse-me no momento em que

entrei, - está confinado ao quarto há três anos. Imagine só, fechado

em casa, sem ver o céu.

Dei uma espiada para fora, pela única janela do quarto.

- Mamãe, comecei depois de colocar a bandeja na cama e

sentar-me ao seu lado, será que a gente não pode fazer nada por Tia

Bep? Quero dizer, é uma pena que ela tenha de viver seus últimos

dias aqui, num lugar que sempre detestou, em vez de estar onde foi

tão feliz, como na casa da família Waller, ou outra qualquer.

Ela depôs a caneta e olhou para mim.

- Corrie, disse por fim, Bep tem sido feliz aqui. Nem mais nem

menos do que o foi em outro lugar.

Fitei-a sem compreender.

- Sabe quando foi que ela começou a elogiar os Waller?

continuou. Foi no dia em que deixou a casa deles. Enquanto lá

esteve, só tinha queixas. Os Waller nem se comparavam aos Hook,

onde havia estado antes. Acontece, porém, que, quando ela estava

com os Hook, tinha sido muito infeliz. A felicidade não depende do

lugar onde nos encontramos, Corrie. É uma disposição que existe

dentro de nós.

***

A morte de Tia Bep teve um efeito muito forte sobre as três

irmãs. Mamãe e Tia Anna redobraram seu trabalho de cozinhar e

costurar para os pobres, como se tivessem percebido de novo como

a vida humana é breve. Tia Jans, por sua vez, pareceu aproximar-se

mais do seu próprio fim.

- Minha própria irmã! dizia várias vezes por dia. Pois podia ter

sido eu!

Mais ou menos um ano após a morte de Tia Bep, um novo

médico passou a se encarregar das visitas, antes feitas pelo Dr.

Blinker. Seu nome era Dr. Jan van Veen. Com ele veio sua jovem

irmã, Tine van Veen, que era enfermeira. Ele trouxe também uma

novidade: um aparelho para tirar a pressão arterial. Não sabíamos o

que era aquilo, mas todos se submeteram ao processo de enrolar

aquele pedaço de lona ao redor do braço e bombear o ar para

enchê-lo.

Tia Jans, que adorava todo e qualquer instrumento médico,

simpatizou-se bastante com o Dr. Veen, e daí por diante, passou a

consultar com ele tantas vezes quantas lhe permitisse sua situação

financeira. Alguns anos depois, o Dr. Veen descobriu que Tia Jans

tinha diabete.

Naquela época, isso era, à semelhança da tuberculose, uma

sentença de morte. Durante alguns dias toda a família ficou chocada.

Depois de receá-la durante tantos anos, aí estava a temida presença

da morte. Ao receber a notícia, Tia Jans foi direto para a cama.

A inatividade, porém, não combinava com sua personalidade

vigorosa, e um dia ela nos surpreendeu a todos, aparecendo para o

café exatamente às 8:10h, informando-nos que os médicos muitas

vezes se enganam.

- Esses exames e análises, disse Tia Jans que neles cria

piamente, o que é realmente que eles provam?

A partir desse dia ela se atirou ao seu trabalho mais que

nunca - escrevia, fazia palestras, formava clubes, iniciava projetos.

Em 1914, a Holanda, assim como o resto da Europa, estava se

mobilizando para a guerra, e, de um dia para o outro, as ruas de

Haarlem encheram-se de soldados. De sua janela que dava para a

rua, Tia Jans os via passeando e olhando as vitrines. Quase todos

eram bem jovens, estavam sem dinheiro e saudosos do lar. Foi aí

que teve a idéia de criar um centro para eles.

Tal coisa era novidade naqueles dias, e Tia Jans pôs todo seu

entusiasmo no projeto. O bonde à tração animal, que circulava pela

nossa rua, fora substituído por um elétrico. Esse também parava,

freios rangendo, fagulhas voando dos trilhos e do cabo aéreo,

quando Tia Jans se punha majestosamente à porta do Beje. Ela

subia a bordo segurando com uma das mãos a longa saia preta, e

tendo na outra uma lista com o nome das ricas damas que poderiam

vir a sustentar o novo projeto.

Somente nós, que a conhecíamos, sabíamos que, debaixo de

toda aquela atividade, havia um terror monstruoso a impulsioná-la.

Enquanto isso, sua enfermidade apresentava mais problemas

financeiros. Toda semana era necessário um teste de verificação do

nível do açúcar no sangue, teste esse que envolvia um processo

dispendioso, pois o Dr. Veen ou sua irmã tinham que vir à nossa

casa.

Depois de algum tempo, Tine me ensinou a fazer o teste.

Tinha várias etapas, das quais a mais delicada era a final: aquecer a

mistura até uma temperatura determinada. Era difícil conseguir que

nosso fogão fizesse qualquer coisa com precisão, mas afinal,

aprendi, e daí para a frente, todas as sextas-feiras, eu recolhia e

misturava o material, e fazia o teste. Se a mistura depois de aquecida

continuasse clara, tudo estava bem. Se escurecesse, eu devia

notificar ao Dr. van Veen.

Naquela primavera, Willem veio passar alguns dias conosco

antes de sua ordenação. Ele se formara na universidade dois anos

antes, e agora terminava seu último período na Faculdade de

Teologia. Em uma noite cálida, estávamos todos assentados à mesa

da sala de jantar. Papai, com trinta relógios dispostos diante de si,

fazia pequenas anotações em um caderno, com sua caligrafia

precisa e elegante: "dois segundos atrasado, cinco segundos

adiantado", e Willem lia em voz alta um trecho da história da reforma

holandesa.

De repente, a campainha da porta lateral soou. Havia um

espelho do lado de fora da janela da sala, que nos permitia ver quem

estava à porta, antes mesmo de abri-la. Dei uma espiada rápida, e

levantei-me de um salto.

- Corrie, gritou Betsie em tom de recriminação, olhe sua saia!

Eu nunca me lembrava de que estava usando saias longas

agora, e várias vezes Betsie teve que remendar os rasgões que eu

arranjava, sempre que saía depressa demais. Dessa vez desci de

um pulo os cinco degraus. À porta, com um ramalhete de margaridas

na mão, estava Tine van Veen.

- Para sua mãe, Corrie, disse ela assim que abri a porta,

estendendo-me as flores. Espero que ela...

- Não, não. Você mesma entrega. Está tão bonita assim!

E sem mesmo ajudá-la a tirar o casaco, empurrei a espantada

moça escada acima. Introduzi-a na sala, quase pisando seus calca-

nhares, a fim de ver a expressão de Willem. Eu já sabia como ia ser.

Até então, eu tinha vivido só de romances; retirava da biblioteca

pública livros em inglês e alemão, além de holandês, e, muitas

vezes, os que eu gostava, lia nas três línguas. Havia lido milhares de

vezes a cena em que a mocinha conhece o herói.

Willem pôs-se de pé com movimentos lentos, seus olhos

presos aos de Tine. Papai também se levantou.

- Tine van Veen, disse em seu estilo antigo, permita-me

apresentá-la a nosso filho Willem. Willem, esta é a moça, cujo talento

e bondade você já nos ouviu elogiar.

Duvido que algum dos dois tenha escutado o que papai disse.

Estavam se olhando, como se não houvesse mais ninguém na sala,

nem mesmo no mundo.

Willem e Tine casaram-se dois meses após a ordenação dele.

Durante todo o tempo da preparação, só um pensamento ocupava

minha mente: Karel vai estar presente.

O dia do casamento amanheceu frio, mas claro. Imediata-

mente, meus olhos encontraram Karel no meio da pequena multidão

parada em frente à igreja. Usava casaca e cartola, como todos os

outros homens, mas era, sem dúvida, o mais simpático de todos.

Quanto a mim, eu mudara muito desde que o vira pela última

vez. A diferença de idade entre nós - cinco anos - não parecia mais

tão grande quanto antes.

Além disso, eu me sentia... não, bonita não. Mesmo em um

instante tão romântico, eu não poderia me convencer disto. Sabia

que meu queixo era quadrado demais, minhas pernas muito

compridas e minhas mãos muito grandes. Mas eu cria firmemente -

todos os livros o afirmavam - que para o homem que me amasse eu

seria linda.

Betsie tinha arranjado meu cabelo. Depois de trabalhar

durante uma hora com o ferro de anelar, conseguira ajeitá-lo todo no

alto da cabeça. Por um milagre, até o momento, ainda estava

arrumado. Ela também havia confeccionado meu vestido de seda,

assim como fizera os de todas da família, costurando a noite, à luz

fraca da lâmpada, pois a loja ficava aberta de segunda a sábado, e

ela não gostava de costurar aos domingos.

Examinando as outras mulheres presentes, verifiquei que

nossas roupas estavam tão elegantes quanto as de qualquer uma.

Ninguém poderia supor, pensei ao me encaminhar juntamente com

os outros para a entrada, que papai tinha aberto mão de alguns

charutos, e Tia Jans do carvão para o aquecimento de seus

aposentos, a fim de comprarmos a seda que agora nos envolvia, e

ciciava quando caminhávamos.

- Corrie?

À minha frente estava Karel, alto, cartola nas mãos, com os

olhos no meu rosto, parecendo meio indeciso.

- Corrie?

- Sim, sou eu! respondi sorrindo. Sou eu, Karel; e aí está

você! E este é o momento com que sonhei tanto!

- Mas você cresceu! Perdão, Corrie, naturalmente que cres-

ceu. É que sempre pensei em você como a garotinha de grandes

olhos azuis.

Olhou para mim um pouco mais, e depois prosseguiu sua-

vemente:

- ... e agora a garota é uma moça encantadora!

De repente, pareceu-me que a música do órgão era tocada

para nós, que o braço que ofereceu a mim era a lua, e a minha mão

enluvada apoiada nele era o único elo que me prendia ao chão, e me

impedia de sair voando para o alto, acima dos angulosos telhados de

Haarlem.

***

Foi numa chuvosa e fria sexta-feira de janeiro que meus olhos

me contaram algo que, a princípio, me recusei a aceitar. O líquido do

exame, em seu recipiente de vidro sobre o fogão, estava turvo, bem

escuro.

Encostei-me à pia e fechei os olhos.

"Ó Deus, concede que eu tenha cometido um engano!"

Rememorei as etapas da análise; olhei os frascos de subs-

tâncias e os utensílios de aferição. Não, eu havia feito tudo do

mesmo jeito de sempre.

Devia ser por causa desta cozinha, então. Era sempre tão

escuro naquele quartinho minúsculo. Segurei a proveta com um

pegador de panela, e fui até a janela da sala de jantar.

Preto. Negro como o próprio medo.

Ainda com o frasco na mão, desci os cinco degraus e atra-

vessei a porta traseira para a oficina. Papai, com seu óculo de

aumento preso ao olho, espiava por sobre o ombro do seu mais

recente aprendiz, procurando, com toda a perícia, uma peça

infinitamente pequena, por entre as que se encontravam espalhadas

na banca de trabalho à sua frente.

Olhei para dentro da loja, através do vidro da porta. Betsie,

por detrás de sua mesa-caixa, falava com uma freguesa. Não; não

era uma freguesa, corrigi-me, era uma importuna. Eu conhecia bem

aquela senhora. Sempre vinha aqui pedir conselhos sobre relógios, e

depois comprava-os na nova loja da rua, na relojoaria dos Kan. Nem

papai nem Betsie pareciam se preocupar com o fato de que coisas

assim estavam acontecendo cada vez mais.

Quando ela saiu, enveredei pela porta com o teste revelador

na mão.

- Betsie, disse, chorando, Betsie, está escuro. Como vamos

dizer isto a ela? O que vamos fazer?

Betsie saiu de detrás da mesa apressadamente, e me abra-

çou. Papai também veio e entrou na loja. Os olhos dele foram do

vidro para Betsie e dela para mim.

- Você fez tudo certinho, Corrie? em todos os detalhes?

- Infelizmente, sim.

- E acho que fez mesmo, filha; mas precisamos da palavra do

médico também.

- Vou levar lá agora, disse.

Derramei o líquido escuro em um vidrinho e corri com ele

pelas ruas molhadas e escorregadias de Haarlem.

Havia uma nova enfermeira agora no consultório e tive que

aguardar meia hora, na sala de espera, silenciosamente, sentindo-

me horrivelmente apreensiva. Afinal, o paciente saiu e o Dr. van Veen

pegou o vidrinho e levou para o seu laboratório.

- Não há dúvida, Corrie, disse ao regressar. Sua tia tem no

máximo três semanas de vida.

Quando voltei para casa, fizemos uma reunião de família:

mamãe, Tia Anna, papai, Betsie e eu. Nollie só retornaria à noite.

Todos concordamos em que ela precisava saber logo.

- Vamos contar-lhe todos juntos, papai decidiu mas eu falarei

as palavras necessárias. Talvez... seu rosto se iluminou um pouco,

talvez ela se alegre de pensar em tudo que já realizou. Ela dá tanta

importância a realizações. E quem sabe se ela não está certa?

Assim, subimos em fila a escada para os quartos de Tia Jans.

Papai bateu à porta.

- Entre, disse ela. E depois concluiu como sempre fazia, e

feche a porta antes que eu pegue uma corrente de ar.

Estava sentada à sua mesa redonda de mogno, escrevendo

um novo apelo em favor do seu centro para soldados. Ao ver quantas

pessoas entravam, largou a caneta. Olhou de um para outro até

chegar em mim, e aí soltou uma exclamação sufocada. Era sexta-

feira de manhã, e eu ainda não havia levado o resultado do exame.

- Minha querida cunhada, começou papai gentilmente, há

uma viagem feliz que cada filho de Deus tem que fazer mais cedo ou

mais tarde. Sabe, Jans, alguns vão a ele de mãos vazias, mas você

não!

- Todos esses clubes..., aventurou-se Tia Anna.

- Seus panfletos..., ajuntou mamãe.

- O dinheiro que a senhora levantou..., disse Betsie.

- Suas palestras..., comecei.

Nossos bem intencionados esforços, porém, deram em nada.

Aquele rosto orgulhoso abateu-se bem diante de nossos

olhos. Tia Jans levou as mãos ao rosto e começou a chorar.

- Vazia! disse por fim, entre lágrimas. Como é que se pode

dar algo a Deus? Que lhe interessam nossas ninharias?

Enquanto a observávamos quase sem poder acreditar, ela

descobriu o rosto e, com lágrimas escorrendo, murmurou:

- Senhor Jesus, eu te agradeço porque temos de ir a ti de

mãos vazias. Eu te agradeço porque, na cruz, tu fizeste tudo, tudo

mesmo; e é só isto que precisamos saber com certeza, na vida e na

morte.

Mamãe a abraçou e as duas ficaram unidas por um momento.

Eu estava presa ao solo. Sabia que havia presenciado um mistério.

Era a passagem de trem de que meu pai falara, e que lhe era

dada no momento exato.

Com um rápido movimento do lenço e um ruidoso assoar do

nariz, ela nos fez saber que o instante de sentimentalismos estava

findo.

- Se me deixarem a sós, disse, pode ser que eu ainda faça

alguma coisa.

Deu uma olhada para papai, e por aqueles olhos sérios

passou, de leve, um brilho meio maroto.

- Não que trabalho importe, Cásper; não importa mesmo; mas

- ela nos despachava dali - não vou deixar a mesa atravancada para

alguém ter de arrumar para mim.

***

O esperado convite para o primeiro sermão de Willem só

chegou quatro meses após a morte de Tia Jans. Depois de ele ter

trabalhado um ano como co-pastor de uma igreja, começou a

pastorear, ele próprio, uma igreja em Brabant, a belíssima região

rural do sul da Holanda. Na Igreja Reformada

Holandesa, o primeiro sermão de um pastor, em seu primeiro

pastorado, era a ocasião mais solene, alegre e emocionante que um

povo pouco emotivo como o nosso poderia ter. A família e os amigos

viriam até de muito longe, e ficariam ali vários dias.

Karel escreveu, do lugar onde estava servindo como co-

pastor, dizendo que iria e que estava ansioso para rever a todos nós.

Dei a esse "todos" um significado bem especial, e enquanto passava

a roupa e fazia as malas, vibrava antegozando o encontro.

Para mamãe, a viagem foi uma tortura. Ela acomodou-se bem

no canto do nosso compartimento do trem, e ficou ali apertando a

mão de papai, ao ponto de os nós dos seus dedos ficarem brancos,

sempre que o trem balançava ou dava um arranco. Enquanto nós

apreciávamos as ramagens verde-brilhante das árvores, ela não

tirava os olhos do céu. O que para nós era um passeio pelos

campos, para ela era um festim de nuvens e de uma imensidão azul.

Tanto a cidadezinha de Made quanto a congregação tinham

sofrido grande declínio nos últimos anos. O templo, porém, que

datava de épocas melhores, era bem grande, como também a casa

pastoral, do outro lado da rua. Comparada com o Beje, era enorme.

Nas primeiras noites, o teto me parecia absurdamente longe,

tão longe que não consegui dormir. Todos os dias chegavam primos,

tios e amigos, mas a casa nunca parecia lotada, não importava

quantos mais se alojassem ali.

Três dias após a nossa chegada, bateram a porta e fui abrir.

Dei com Karel de pé à entrada, os ombros ainda salpicados com a

cinza do trem. Atirou a maleta no corredor e agarrou uma de minhas

mãos, puxando-me para fora.

- O dia está lindo, Corrie, disse. Vamos dar uma volta.

Daí em diante, pareceu ficar decidido que iríamos dar uma

volta todos os dias. Nosso trajeto por aquelas trilhas sinuosas de

terra batida, tão diferentes das ruas pavimentadas de Haarlem, era

cada vez um pouco mais longo. Naqueles momentos, era difícil de

acreditar que o resto da Europa estivesse engajado na luta mais

sangrenta da História. Aquela loucura, ao que parecia, tinha cruzado

o oceano: a América, diziam os jornais, estava para entrar na guerra.

Aqui na Holanda neutra, porém, a um dia ensolarado de

verão, seguia-se outro. Apenas algumas pessoas - e entre elas

Willem - asseguravam que a guerra significava tragédia para a

Holanda também. E este foi o tema de seu primeiro sermão.

Operava-se uma mudança tanto na Europa como no resto do

mundo, disse. Aquele modo de vida estava se findando, não

importava o grupo que ganhasse a guerra. Olhei ao meu redor. Essa

congregação composta de aldeões e fazendeiros vigorosos não

ligava muito para tais idéias.

Após o culto, os amigos e parentes mais distantes partiram.

Karel, porém, ficou. Nossos passeios tornaram-se mais longos.

Conversamos sobre o futuro dele, e, de repente, começamos a falar

não sobre o que ele faria, mas sobre o que nós faríamos... Nós nos

imaginávamos tendo que decorar uma casa grande como aquela, e,

com alegria, descobrimos que tínhamos o mesmo gosto quanto a

mobiliário, flores, e até quanto a cores prediletas. Discordamos em

apenas um ponto: filhos. Karel queria quatro, e eu, firmemente,

desejava seis.

Durante todo o tempo, porém, a palavra "casamento" nunca

foi pronunciada.

Um dia quando Karel se ausentara, Willem aproximou-se de

mim com duas xícaras de café na mão. Logo atrás dele, também

com sua xícara de café, vinha Tine.

- Corrie, disse ele entregando-me o café e falando como se

isso lhe custasse muito, será que Karel lhe deu a entender que

está...

- Com intenções sérias? completou Tine.

Aquele rubor que eu detestava e nunca conseguia controlar

subiu-me ao rosto.

- Eu... nós... não. Por quê?

O rosto de Willem se avermelhou também.

- Porque isto não deve acontecer. Você não conhece a família

dele. Desde que ele era pequeno, eles só têm um desejo. Eles se

sacrificaram muito, e já fizeram planos para ele; basearam toda a sua

vida numa só coisa: querem que Karel faça um "casamento

vantajoso".

Acho que é assim que eles dizem.

De repente, aquela sala desataviada me pareceu ainda mais

feia.

- Mas... e o que Karel deseja, não vale nada? Ele não é mais

criança!

Willem fixou em mim seus olhos sérios e profundos.

- Ele vai obedecer, Corrie. Não digo que ele queira esta

situação; não, mas para ele isto já é coisa resolvida. Na faculdade,

quando conversávamos sobre moças de quem gostávamos, ele

sempre dizia no fim: "Naturalmente, eu não poderia casar-me com

ela; seria uma morte para minha mãe."

Tomei o café rapidamente e quase queimei a boca. Saí para o

jardim. Detestei aquela casa sombria, e quase comecei a odiar

Willem também, por enxergar sempre a face escura e desagradável

de tudo. No jardim, as coisas eram diferentes. Juntos, eu e ele

havíamos apreciado cada plantinha, cada flor, e parecia que cada

uma delas estava impregnada com um pouco do afeto que tínhamos

um pelo outro.

Willem podia saber mais do que eu a respeito de teologia,

guerra e política, mas quanto a romances... Nos livros, estes proble-

mas de dinheiro, prestígio social, planos de família, etc, sempre

acabavam se desfazendo no ar como nuvens ligeiras.

***

Karel foi embora mais ou menos uma semana depois. Suas

últimas palavras soergueram meu coração. Somente alguns meses

mais tarde foi que me lembrei de que elas tinham sido bem

estranhas. Ele falara com certa ansiedade, quase com desespero.

Estávamos de pé, à entrada, aguardando a charrete que o levaria, e

que em Made ainda era a condução segura, quando se tinha que

tomar o trem. Despedíramo-nos após o café da manhã.

Em parte, eu estava triste, pois ele ainda não falara em

casamento e, em parte, eu estava contente só pelo fato de estar

perto dele. De repente, ele segurou minhas mãos.

- Corrie, escreva para mim, disse sem sorrir e num tom de

súplica. Fale-me sobre o Beje. Quero saber tudo. Quero saber tudo

daquela maravilhosa casa velha feia. Conte sobre seu pai, como ele

esquece de mandar a conta dos consertos que faz. Corrie, o Beje é o

lar mais alegre da Holanda.

***

E era mesmo, quando todos nós: papai, mamãe, Betsie,

Nollie, Tia Anna e eu voltamos para lá. Sempre fora um lugar feliz.

Agora, porém, cada acontecimento parecia adquirir um novo brilho,

porque agora eu contava tudo a Karel. Cada refeição que eu

preparava era uma homenagem a ele; cada panela que brilhava, um

poema; cada meneio da vassoura, um gesto de amor.

Suas cartas não eram tão freqüentes como as minhas. Lancei

isso à conta do seu trabalho. O pastor a quem ele assessorava,

escreveu Karel, havia lhe passado todo o trabalho de visitas. A

congregação era rica e aqueles bons contribuintes esperavam visitas

longas e repetidas do ministério da igreja.

Com o decorrer do tempo, suas cartas se tornaram mais e

mais escassas. Compensei essa falta escrevendo muito mais, e

continuei na mesma vidinha, verão e outono adentro.

Num maravilhoso dia de novembro, quando toda a Holanda

cantava comigo, a campainha tocou. Eu estava na cozinha lavando a

louça, mas atravessei correndo a sala de jantar e desci aqueles

degraus antes que outra pessoa tivesse tido tempo de se mexer.

Abri a porta depressa e lá estava Karel e, a seu lado, uma

jovem. Ela sorria para mim. Meus olhos correram do chapeuzinho -

com uma enorme pena - para a gola do casaco de arminho, para a

mão enluvada de branco que se apoiava no braço dele.

- Corrie, quero apresentar-lhe minha noiva, disse Karel, e

imediatamente a cena ficou turva.

Eu devo ter dito alguma coisa; devo tê-los conduzido para o

quarto da Tia Jans, que agora usávamos como sala de visitas, mas

só me lembro de que a família veio em meu socorro, falando,

cumprimentando, pegando casacos, oferecendo cadeiras, para que

eu não tivesse que fazer isso nem dizer nada.

Mamãe bateu seu próprio recorde de passar café. Tia Anna

serviu o bolo. Betsie partiu para uma conversa com a moça sobre a

moda de inverno, e papai apanhou Karel numa palestra de caráter

bem impessoal sobre assuntos internacionais. O que é que ele

pensava do fato de o Presidente Wilson, dos Estados Unidos, enviar

tropas para a França?

Afinal, a meia hora se escoou. De algum jeito, consegui

apertar a mão dela, depois a dele, e desejar-lhes toda a sorte de

felicidades. Betsie acompanhou-os até a porta, e antes que esta se

fechasse de todo atrás das costas deles, eu já estava fugindo escada

acima, para o meu quarto, onde poderia deixar as lágrimas correrem

à vontade.

Não sei quanto tempo fiquei ali a chorar por causa do amor

de minha vida. Mais tarde, ouvi os passos de papai subindo. Por um

momento, ocorreu-me que eu ainda era a garotinha cujas cobertas

ele vinha ajeitar. O sofrimento de agora, porém, era de tal proporção,

que nenhum cobertor poderia amenizar. Subitamente, tive medo do

que papai iria dizer. Receei que dissesse: "Muito breve vai aparecer

outro...", e que esta mentira ficasse entre nós, a nos separar a partir

de então. Eu tinha certeza profunda de que nunca mais haveria outro

amor em minha vida.

O doce aroma do charuto de papai penetrou no quarto junto

com ele. E, naturalmente, ele não disse a frase falsa e vã que eu

temia.

"Corrie", principiou ele, "sabe o que é que nos fere tanto

numa situação destas? É o amor. O amor é a força mais poderosa do

mundo, e, quando é bloqueada, causa dor.

"Quando isto acontece, podemos fazer duas coisas: podemos

destruir o amor para reprimir o sofrimento, e nesse caso, uma parte

de nosso ser é destruída também; ou então, Corrie, podemos pedir a

Deus para abrir uma outra estrada para o nosso amor se extravasar.

"Deus ama Karel - muito mais do que você o ama - e, se você

pedir ao Senhor, ele lhe dará desse amor. É um amor que não pode

ser frustrado nem destruído. Quando não podemos amar à maneira

humana, Corrie, Deus nos dá capacidade de amar de modo perfeito."

***

Naquele momento, e depois, quando ouvia as pisadas de

papai descendo as escadas, eu não percebi que ele me revelara

mais que um segredo para superar aquela ocasião difícil. Não sabia

que ele colocava em minhas mãos a chave que abriria a porta de

situações ainda mais tenebrosas que aquela - de ocasiões em que

não haveria, humanamente falando, nada e ninguém para se amar.

Nestas questões de amor, eu ainda cursava o "jardim-de-

infância". No momento, minha tarefa era desistir de meus

sentimentos por Karel, sem me desfazer da alegria e do en-

cantamento que ele me trouxera. Assim, naquele instante, deitada na

cama, sussurrei uma "longa" prece.

"Senhor, eu te entrego este meu sentimento por Karel, meus

planos para o futuro - tu sabes! Dá-me a tua maneira de ver Karel.

Ajuda-me a amá-lo do teu modo. Tanto quanto tu o amas!"

Logo que pronunciei estas palavras, peguei no sono.

Capítulo 4 - A Relojoaria

De pé sobre uma cadeira, eu limpava a janela da sala de

jantar, e, de vez em quando, acenava para algum passante

ocasional. Na cozinha, mamãe descascava batatas para o almoço.

Estávamos em 1918. A guerra terminara. Parecia haver uma nova

esperança no ar que transparecia até mesmo no modo como as

pessoas caminhavam.

Não era do feitio de mamãe deixar a torneira aberta com a

água correndo daquele jeito, pensei. Ela não gostava de esperdiçar

nada.

- Corrie!

A voz dela soou muito baixa; era quase um murmúrio.

- O que foi, mamãe?

- Corrie! chamou de novo.

Foi então que ouvi o ruído da água que enchera a pia, a cair

no assoalho. Pulei da cadeira e corri à cozinha. Ela estava de pé,

uma das mãos na torneira, olhando-me com uma expressão

estranha, enquanto a água se derramava a seus pés e se espalhava

pelo chão.

- O que houve, mamãe? gritei ao mesmo tempo que estendia

a mão para a torneira. Desprendi seus dedos, fechei a água e

afastei-a da poça que já se formava.

- Corrie, repetiu ela.

- Mamãe, a senhora está doente. Temos que levá-la para a

cama.

Segurei-a sob o braço, atravessei a sala de jantar com ela e

comecei a subir. A um grito meu, Tia Anna desceu correndo e pegou

o outro braço. Levamo-la para cima, e depois eu corri à loja,

chamando papai e Betsie.

Durante a hora que se seguiu, nós ficamos ali, vendo os

efeitos de uma hemorragia cerebral se estenderem gradualmente a

todo o seu corpo. Primeiro, a paralisia chegou às mãos; e destas,

passando pelos braços, às pernas. O Dr. van Veen, a quem nosso

aprendiz fora buscar, não pôde fazer nada além do que nós mesmos

havíamos feito.

A consciência foi a última coisa que ela perdeu. Seus olhos

permaneceram sempre bem abertos e atentos, demorando-se em

cada um de nós amorosamente. Afinal, fecharam-se devagar, e

pensamos que ela se fora. Entretanto, o Dr. van Veen assegurou-nos

que se tratava de um estado de coma profundo, do qual ela poderia

sair para retornar à vida, ou morrer.

Mamãe ficou inconsciente naquela cama por dois meses, e

sempre havia um de nós a seu lado. (Nollie ficava à noite.) Certo dia

a consciência voltou-lhe, tão inesperadamente quanto o derrame se

dera. Ela abriu os olhos e espiou ao redor. Lentamente, recobrou o

uso dos braços e pernas o bastante para se mover um pouco sem

ajuda de outrem, embora nunca recuperasse toda a destreza dos

dedos, necessária para o tricô ou crochê.

Nós a mudamos do quartinho, cuja janela dava para os fun-

dos de outra casa, para o quarto de Tia Jans, de onde ela poderia

apreciar o movimento da rua embaixo. Logo descobrimos que sua

mente estava tão lúcida quanto antes; não lhe voltou, porém, a fala, a

não ser de três palavras. Ela conseguia dizer: "sim", "não", e "Corrie",

talvez por ter sido esta a última palavra que disse. Por isso mamãe

chamava todo mundo de Corrie.

Para nos comunicarmos, inventamos uma espécie de

joguinho.

- Corrie! ela me chamaria.

- O que é, mamãe? Está pensando em alguém?

- Sim.

- Da família?

- Não.

- Uma pessoa que a senhora viu na rua?

- Sim.

- Um homem?

- Não.

Era uma mulher que ela conhecia há muito tempo.

- Mamãe, aposto que é o aniversário dela.

Daí, eu diria muitos nomes até ouvi-la, toda satisfeita, dizer

sim. Então eu escrevia um bilhetinho para a pessoa, dizendo-lhe que

mamãe a vira pela janela e desejava-lhe um feliz aniversário. Depois

eu colocaria a caneta entre seus dedos rígidos, e ela assinaria. Um

rabisco de uma linha quebrada era tudo o que restava de sua

caligrafia redonda e bonita. Em pouco tempo, porém, tornou-se uma

assinatura conhecida e amada por muitos.

Era realmente espantosa a qualidade de vida que ela conse-

guia levar, naquele corpo paralítico. Observando-a naqueles três

anos de imobilidade, descobri outra verdade a respeito do amor.

Mamãe sempre expressara seu amor através de uma terrina

de sopa ou de uma peça de costura. Agora que essas coisas lhe

haviam sido tiradas, o seu amor, não obstante, continuava tão

perfeito quanto antes. Ela ficava sentada em sua cadeira junto à

janela, dando seu amor a todos nós. Amava o povo que via na rua e

o que não via: seu amor abarcava toda a cidade, a Holanda e o

mundo. Foi assim que aprendi que o amor não pode ser aprisionado

dentro de quatro paredes.

***

A cada dia notávamos que a conversa de Nollie à mesa

girava mais e mais em torno de um colega seu, um professor

chamado Flip van Woerden. Quando este, afinal, fez sua visita oficial,

papai já havia ensaiado seu pequeno discurso de aprovação e

bênção, pelo menos uma dúzia de vezes. Na noite anterior ao

casamento, quando eu e Betsie ajudávamos mamãe a voltar para a

cama, ela, de repente, rompeu em lágrimas.

Com o uso do "joguinho", descobrimos que não, ela não

estava descontente com o casamento; sim, ela gostava de Flip. O

problema era que não seria realizada a solene e grave palestra entre

mãe e filha, que era prometida à jovem durante anos, e era também

a única fonte de educação sexual que nossa sociedade taciturna lhe

permitia.

No fim, foi Tia Anna que, com olhos assustados e rosto em

brasa, subiu as escadas até o quarto de Nollie naquela noite. Alguns

anos antes, Nollie havia se mudado do nosso quartinho no topo da

casa, para o de Tia Bep, e ali, ela e Tia Anna se fecharam para

passar a meia hora de praxe. Não poderia existir, na Holanda,

ninguém mais mal-informado sobre casamento do que Tia Anna, mas

isso era um ritual que datava de séculos - a mulher mais velha tinha

que instruir a mais jovem - e ninguém podia se casar sem passar por

ele, tanto quanto não poderia dispensar o anel de noivado.

Nollie estava maravilhosa em seu vestido branco e longo,

mas foi de mamãe que não tirei os olhos. Apesar de estar vestida de

preto, como sempre, ela me parecia subitamente juvenil. Seu olhar

brilhava de alegria, pois este era o maior dos eventos que a família

ten Boom presenciava.

Eu e Betsie a levamos para a igreja cedo, e tenho a certeza

de que poucas pessoas da família van Woerden e seus amigos

sabiam que a graciosa e sorridente dama do primeiro banco não

falava nem andava sozinha.

Foi somente quando Nollie e Flip já desciam pelo centro da

nave, que me lembrei de meus sonhos de um momento como aquele

para mim e Karel. Olhei para Betsie alta e bonita, sentada do outro

lado de mamãe. Ela sempre soubera que, por causa de sua saúde

debilitada, nunca teria filhos, e por isso decidira não se casar. Eu,

agora, tinha vinte e sete anos e ela, trinta e poucos. Naquele

momento, senti com toda a certeza que nossa vida seria sempre

assim: eu e Betsie ficaríamos solteiras, vivendo no Beje.

Foi um pensamento alegre. Naquele instante, fiquei certa de

que Deus havia aceitado a hesitante oferta de minhas emoções, que

lhe havia feito quatro anos antes. Ao pensar em Karel com amor -

que era como eu sempre pensava nele desde que tinha quatorze

anos - não senti o menor traço de tristeza ou dor.

"Abençoa Karel, Senhor Jesus", orei em silêncio. "E abençoa

sua esposa também. Conserva-os unidos e perto de ti."

Uma coisa era certa: eu nunca poderia ter feito aquela oração

antes, sem o auxílio divino.

O grande milagre do dia, porém, ocorreu mais tarde. Para o

término do culto, tínhamos programado que se cantasse o hino "O

Formoso Cristo" que era o predileto de mamãe. Ao cantá-lo agora, de

pé, ouvi-a, assentada no banco, cantar também. Palavra após

palavra, verso após verso, ela cantava; mamãe, que não conseguia

dizer quatro palavras, cantava aquelas linhas maravilhosas sem um

tropeço. Sua voz, que tinha sido alta e clara, soava agora rouca e

áspera, mas para mim era como a voz de um anjo.

Ela cantou todo o hino e, durante todo o tempo em que durou,

fixei os olhos à minha frente. Não ousava voltar-me e olhar para ela

com medo de quebrar o encanto. Quando, por fim, todos se

assentaram, eu, mamãe e Betsie tínhamos os olhos marejados.

A princípio, pensamos que aquilo fosse o começo de uma

recuperação, porém, ela nunca conseguiu dizer de novo as palavras

daquele hino, e nem voltou a cantar. Tinha sido apenas um momento

isolado, e nós entendemos que fora um presente de Deus para nós,

o seu presente de casamento. Um mês depois, com um sorriso nos

lábios, mamãe nos deixou para sempre, durante o sono.

***

Foi no fim de novembro daquele ano, que um resfriado

comum causou uma grande reviravolta na casa. Betsie começou a

espirrar e a fungar, e papai achou melhor que ela se afastasse de

sua mesa, a qual ficava bem diante da porta, recebendo em cheio o

ar gelado do inverno.

Mas o Natal se aproximava - a época mais movimentada da

loja. Com Betsie acamada, tive que começar a correr à loja, de vez

em quando, para atender fregueses, fazer embrulhos e evitar que

papai se deslocasse de sua alta banca de trabalho dezenas de vezes

por dia.

Tia Anna garantiu-me que poderia cozinhar e cuidar de Betsie

ao mesmo tempo. Foi assim que tomei lugar à mesa dela, anotando

as vendas e as contas de consertos, registrando as quantias gastas

em peças e acessórios, e folheando os registros já existentes,

achando difícil crer no que via.

Mas quê? Não havia ali nem sombra de organização. Não se

poderia saber se uma conta havia sido paga ou não, ou se o preço

pedido era justo. Não se podia saber se estávamos lucrando ou

tendo prejuízo.

Numa tarde friorenta, fui à livraria da esquina e comprei um

livro-caixa, e parti para impor um pouco de método àquela confusão.

Noites e noites, após a porta estar fechada e as persianas descidas,

eu ficava ali, examinando listas de estoque e faturas de atacadistas.

Às vezes eu consultava papai.

- Quanto foi que o senhor cobrou do Sr. Hook por aquele

conserto, no mês passado?

Ele me olhava inexpressivamente.

- Por quê? Ah... não sei realmente.

- Era um Vacheron, papai; bem velho. O senhor teve que

mandar buscar peças da Suíça. A conta do fornecedor está aqui e...

Seu rosto se iluminou.

- Ah, agora eu me lembro. Um ótimo relógio, Corrie. Dava

prazer trabalhar nele. Era muito velho e o homem havia deixado

acumular poeira. Relógio bom tem que ser conservado limpo, filha.

- Quanto foi que o senhor cobrou, papai?

Criei um sistema de cobrança, e, pouco a pouco, a lista de

números começou a corresponder à de transações efetuadas.

Gradualmente, descobri, também, que eu adorava aquele trabalho.

Sempre me sentira muito feliz dentro daquela lojinha, com seus

tique-taques e seus mostradores de faces brilhantes. Agora, porém,

eu percebi que gostava também do seu lado comercial. Gostava dos

catálogos, das relações de estoque. Gostava de todo esse

movimentado e vigoroso mundo dos negócios.

De vez em quando eu me lembrava de que o resfriado de

Betsie havia se alojado nos pulmões, e - como sempre acontecia -

ameaçava tornar-se pneumonia. Então eu me reprovava por não me

sentir nem um pouco amolada com a presente situação. À noite,

porém, quando eu a ouvia tossir, orava com todo o fervor para que

sarasse logo.

Então, na antevéspera de Natal, quando eu já tinha fechado a

loja e trancava a porta do hall, vi Betsie entrar pela porta lateral que

dava para o beco, trazendo os braços cheios de flores. Quando me

viu, ela me olhou assustada, como uma criança apanhada em falta.

- Para o Natal, Corrie, explicou. Não podemos passar o Natal

sem flores.

- Betsie ten Boom, ralhei, há quanto tempo você está fazendo

isto? É por isto que você não sara.

- Eu fiquei a maior parte do tempo na cama! Verdade!...

interrompeu-se com um acesso de tosse. Só me levantei por causa

de coisas importantes.

Levei-a para a cama, e depois dei uma volta pela casa toda,

vendo-a com outros olhos, procurando as "coisas importantes" de

Betsie. Como eu tinha observado pouco! Betsie tinha feito mudanças.

Voltei ao seu quarto e apresentei-lhe as evidências.

- Betsie, era importante mudar a disposição da louça do

armário do canto?

Ela ergueu os olhos para mim.

- Era sim, respondeu em tom de desafio. Você punha de

qualquer jeito.

- E a porta do quarto de Tia Jans? O verniz está sendo

retirado, e a porta lixada. Isto é trabalho pesado.

- Mas aquela madeira é maravilhosa! Há muito tempo que eu

queria tirar aquele verniz e ver. Ah, Corrie, continuou em voz baixa e

penitente, sei que estou sendo egoísta deixando você na loja todos

os dias. Vou ser mais cuidadosa para você não ter que ficar lá mais

tempo; mas tem sido tão bom ficar aqui o dia todo, fazendo de conta

que eu é que estou encarregada da casa, planejando tudo...

Foi isso: nós tínhamos invertido a coisa. Foi espantoso, como

tudo andou bem depois que realizamos a troca. Sob meus cuidados,

a casa ficava arrumada; com Betsie, parecia brilhar. Ela descobria a

beleza da madeira, dos desenhos, das cores, e a mostrava a nós.

A pequena quantia de que dispúnhamos para alimentação,

sob meu controle, quase que se evaporava no açougue, e se

acabava de todo na padaria. Sob o de Betsie, que conseguia esticá-

la mais, dava até para diversos pratos especiais que nunca

prováramos antes.

- Vocês precisam ver a sobremesa do almoço, dizia-nos ela

na hora do café. E durante toda a manhã a gente ficava pensando

naquilo.

A panela de sopa e o bule de café, para os quais eu nunca

encontrava tempo, estavam de volta ao fogão, agora que Betsie

supervisionava a casa. Daí a pouco, um rio de gente - carteiros,

policiais, velhos vagabundos, rapazinhos de entrega, etc. - estava

parando à nossa porta para desempoeirar os pés e aquecer as mãos

nas canecas de café - tudo exatamente como havia sido no tempo da

mamãe.

Enquanto isso, na loja, eu estava encontrando no trabalho um

gozo com que nunca tinha sonhado. Logo me vi fazer mais do que só

atender os fregueses e anotar registros. Queria aprender a consertar

relógios.

Papai aceitou prontamente a tarefa de me ensinar. Aprendi a

reconhecer as peças móveis e fixas, a fazer uso adequado dos óleos

e soluções, e as técnicas do uso das ferramentas, do rebolo e do

óculo de aumento. Contudo a paciência de papai e sua devoção

quase mística pela harmonia dos mecanismos são coisas que não se

aprendem.

Os relógios de pulso tinham surgido recentemente, e eu fiz

um curso especial para aprender a lidar com eles. Três anos após a

morte de mamãe, tornei-me a primeira mulher da Holanda a licenciar-

se como fabricante de relógios.

E foi assim que se estabeleceu o nosso padrão de vida, o

qual iria durar mais de vinte anos. Quando papai assentava a Bíblia

de volta à sua prateleira, após o café da manhã, eu e ele descíamos

para a loja, enquanto Betsie remexia a panela de sopa e fazia

mágicas com três batatas e meio quilo de carne de carneiro. Agora

que meus olhos estavam atentos à receita e à despesa da loja, esta

começou a progredir, e logo, pudemos contratar uma balconista para

se encarregar do atendimento na parte da frente, enquanto eu e

papai trabalhávamos na oficina.

Havia sempre gente entrando e saindo deste compartimento

de trás. Às vezes, era um freguês; na maioria das vezes era

simplesmente uma visita - que ia desde o humilde operário calçado

com nossos tradicionais tamancos até o proprietário de uma frota de

navios - todos confiando seus problemas a papai. Ele sempre

baixava a cabeça em oração, em busca da solução, sem se perturbar

com a presença de estranhos ou de nossos empregados.

Ele orava pelo seu trabalho também. Poucos eram os defeitos

que não conhecia. De vez em quando, porém, surgia um que o

deixava confuso. Então eu o ouvia dizer:

"Senhor, tu acionas as engrenagens das galáxias; tu sabes o

que é que faz os planetas girarem, e o que faz este relógio

funcionar..."

E ele estava sempre renovando suas afirmações, pois papai,

que amava a ciência, era leitor assíduo de uma dúzia de publicações

científicas de várias universidades. Durante anos, ele apresentou

seus relógios àquele "Que põe os átomos a dançar", "Que faz

circularem as correntes marítimas". A resposta a estas orações,

algumas vezes, vinha bem no meio da noite. Em várias ocasiões,

quando eu chegava à minha banca pela manhã, encontrava um

relógio que havíamos deixado em centenas de pecinhas,

perfeitamente ajustado e tiquetaqueando alegremente.

Só havia uma coisa na loja que eu nunca aprendera a fazer

tão bem quanto Betsie: atender os fregueses e interessar-me

pessoalmente por cada pessoa que entrava. Várias vezes, quando

alguém chegava, eu escapulia pela porta e corria à cozinha.

- Betsie, quem é uma senhora gorda, de mais ou menos

cinqüenta anos, que tem um relógio de lapela, preso com uma fita de

veludo azul?

- É a Sra. van den Kenkel. O irmão dela voltou da Indonésia

com malária, e ela está cuidando dele. Corrie..., gritava quando eu já

ia correndo escada abaixo, pergunte-lhe pelo bebê da Sra. Rinker.

Alguns minutos depois, ao deixar a loja, a Sra. van den

Kenkel comentaria com o marido:

- Essa Corrie ten Boom é igualzinha à irmã.

***

Antes mesmo do falecimento da Tia Anna, no fim da década

de vinte, as camas vazias do Beje começaram a ser ocupadas por

uma longa sucessão de crianças que abrigávamos, e que por mais

de dez anos alegraram o Beje com seus gritos e risos, e deixaram

Betsie ocupada em abaixar bainhas de vestidos e calças.

Enquanto isso, as famílias de Willem e Nollie aumentavam -

Willem e Tine tinham quatro filhos; Nollie e Flip, seis. De há muito,

Willem havia deixado o pastorado, e abrira um abrigo de velhos em

Hilversum, a 45 quilômetros de Haarlem.

Víamos a família de Nollie freqüentemente, já que a escola

em que estudavam - da qual Flip era o diretor - ficava em Haarlem.

Era raro o dia em que um deles não vinha ao Beje, para ver o vovô

em sua oficina, ou dar uma espiada para dentro das tigelas de Tia

Betsie, ou então subir e descer as escadas em companhia das

crianças que estivessem morando conosco no momento.

Foi no Beje que descobrimos o talento musical de Peter.

Aconteceu por causa do rádio. Nós traváramos conhecimento com

essa maravilha moderna em casa de um amigo.

"Uma orquestra completa", comentávamos.

Parecia-nos muito difícil conseguir tudo aquilo de uma sim-

ples caixa. Começamos a economizar nossos tostões para ad-

quirirmos um.

Muito antes de termos a quantia necessária, papai caiu

doente com uma forte hepatite que quase o levou. Durante o longo

tempo de hospitalização, sua barba se tornou branca como a neve.

No dia em que regressou, uma semana após ter completado setenta

anos, um pequeno grupo de amigos veio nos visitar. Representavam

lojistas, garis, o dono de uma indústria, um barqueiro do canal -

pessoas que descobriram durante o período de sua enfermidade o

quanto papai significava para elas.

Haviam angariado dinheiro entre si, e comprado um rádio de

presente para ele. Era um desses modelos de mesa, antigos, grande

com um alto-falante em forma de concha. Ele veio nos trazer muitas

alegrias nos anos que se seguiram. Como nosso rádio pegava bem

estações de toda a Europa, todos os domingos, Betsie examinava os

jornais ingleses, franceses e alemães, além dos holandeses, para

organizar nosso programa semanal de concertos e recitais.

Num domingo, quando Nollie e sua família nos visitavam, em

meio a um concerto de Brahms, Peter falou de repente:

- Engraçado, o piano do rádio está desafinado.

- Ssssssss..., apressou-se Nollie.

Mas papai interveio:

- O que você quer dizer com isso, Peter?

- Uma nota está errada.

Trocamos olhares de espanto: que poderia saber um garoto

de oito anos? Papai levou-o ao velho piano de Tia Jans.

- Que nota, Peter?

Ele tocou uma escalinha ascendente até chegar ao Si que

vem logo acima do Dó central.

- Esta aqui.

Aí todos nós ouvimos perfeitamente: o Si do piano do con-

certo realmente estava bemolizado. Passei o resto da tarde sentada

ao piano com ele, dando-lhe alguns testes musicais simples, e vi que

era dono de uma extraordinária memória musical; descobri que

possuía também ouvido absoluto. Daí em diante, ele se tornou meu

aluno de música, e dentro de seis meses, já assimilara tudo que eu

poderia lhe ensinar, e passou a professores de técnica mais apurada.

O rádio trouxe outras mudanças à nossa vida, a uma das

quais papai resistiu a princípio. De hora em hora ouvíamos as

batidas do Big Ben, pela BBC de Londres. Tendo na mão o seu

cronômetro acertado pelo relógio astronômico, papai afinal teve que

concordar que a primeira batida do grande relógio inglês coincidia

mesmo com a hora exata.

Todavia ele se conservou ainda meio cético desse horário

inglês. Conhecia vários ingleses, e todos eles se atrasavam em seus

compromissos. Logo que se sentiu forte bastante para viajar de novo,

recomeçou suas idas semanais a Amsterdam para acertar o relógio

pelo Observatório Naval.

Com o passar do tempo, notando que o Big Ben e o Obser-

vatório Naval continuavam em perfeito acordo, ele começou a

espaçar suas viagens, e afinal, parou de vez. Por outro lado, o

relógio astronômico estava sendo tão sacudido e chocalhado pelo

constante tráfego de carros na rua, que não era mais o instrumento

de precisão que havia sido. O auge da ignomínia aconteceu quando

papai acertou o relógio astronômico pelo rádio.

Apesar destas mudanças, a vida para nós três - eu, papai e

Betsie - continuou basicamente a mesma. As crianças que moravam

conosco cresceram e nos deixaram, ou para casar ou para trabalhar

em outro lugar; mas vinham nos visitar com freqüência. O centenário

da loja chegou e passou; no dia seguinte, eu e papai estávamos de

volta à nossa banca de trabalho.

Até mesmo as pessoas que encontrávamos em nossa cami-

nhada diária eram sempre as mesmas. Embora a enfermidade de

papai tivesse sido há bastante tempo, o seu caminhar ainda era

trôpego, e eu o acompanhava nesse seu passeio diário pelas ruas do

centro. Sempre o fazíamos à mesma hora. E como alguns moradores

de Haarlem tinham hábitos tão regulares quanto os nossos,

sabíamos exatamente a quem iríamos encontrar.

Muitos dos que cumprimentávamos já eram conhecidos ou

fregueses antigos; outros, víamos apenas nesse encontro diário: a

mulher que estaria varrendo a escada, o homem que estaria lendo o

informativo comercial do World Shipping News, no ponto do bonde,

na Praça Grote Markt; e o outro, a quem apelidáramos de

"Buldogue", e que era o de quem mais gostávamos.

Nós o chamávamos assim, não apenas porque sempre o

víamos acompanhado de dois enormes buldogues, seguros por uma

trela, mas também porque, sua pele enrugada, seu queixo proemi-

nente, suas pernas curtas e abauladas nos lembravam um de seus

próprios animais. Sua afeição pelos cães era o que mais nos

impressionava. Enquanto caminhava, ele falava com eles e os enchia

de mimos. Papai e o "Buldogue" sempre tiravam o chapéu um para o

outro, cerimoniosamente, ao passarmos por ele.

***

Enquanto em Haarlem e no resto da Holanda passeávamos,

cumprimentávamos amigos e varríamos escadas, nossos vizinhos do

leste se preparavam para a guerra. Bem sabíamos o que estava

acontecendo - não havia jeito de não se saber. Muitas vezes, à noite,

girando o dial, captávamos uma "voz" da Alemanha. Não falava nem

gritava: berrava. Estranhamente, na maioria das vezes, era a

controlada Betsie quem reagia mais agressivamente - saltava da

cadeira, e, correndo ao rádio, desligava-o bruscamente.

Nos intervalos, porém, nos esquecíamos daquilo. Mesmo

quando em suas visitas Willem nos vinha relembrar os fatos, ou

quando nossas cartas a fornecedores judeu-alemães retornavam

carimbadas com "Endereço ignorado", ainda nos esforçávamos para

acreditar que o problema pertencia apenas à Alemanha.

"Quanto tempo eles vão suportar?" indagávamos. "Eles não

vão agüentar muito tempo."

As transformações por que passava a Alemanha afetaram

nossa lojinha da Rua Barteljoris apenas uma vez. Foi na pessoa de

um jovem alemão. Era bastante comum aparecerem alemães para

trabalharem algum tempo com papai, pois sua reputação já

transpusera os limites da Holanda.

Assim, quando aquele rapaz alto e simpático chegou à loja

com um certificado de aprendiz de uma boa firma de Berlim, papai

contratou-o sem hesitação. Otto revelou-nos orgulhosamente que

pertencia à Juventude Hitlerista. Uma incógnita para nós era a razão

por que viera para a Holanda, já que só encontrava defeitos nos

holandeses e em nossos produtos.

- O mundo todo vai ver do que a Alemanha é capaz, dizia

muitas vezes.

Em seu primeiro dia de trabalho, veio à sala de jantar para

tomar café conosco e ouvir a leitura bíblica, com os outros em-

pregados, mas depois, nunca mais apareceu. Sempre ficava em-

baixo, sozinho. Quando lhe perguntamos a razão, informou-nos que,

embora não tivesse entendido a leitura, por não saber holandês,

percebera bem que papai havia lido o Velho Testamento, que, disse-

nos, era o "Livro de Mentiras" dos judeus.

Fiquei muito chocada, mas papai, apenas ressentido.

- Ele recebeu orientação errada, disse-me. Quando ele vir

que somos de confiança e que nós amamos este livro, vai

compreender o seu erro.

Alguns dias depois, Betsie surgiu inesperadamente à porta do

hall que dava para a oficina e chamou-nos. Em cima, encontramos,

sentada na cadeira de mogno de Tia Jans, a dona da pensão onde

Otto morava. Contou-nos que, pela manhã, ao trocar sua roupa de

cama, encontrara algo sob o travesseiro. A seguir, retirou de sua

sacola de feira uma faca curva de cerca de trinta centímetros de

comprimento. Outra vez, foi papai quem deu a explicação mais

caridosa.

- O pobre rapaz deve estar meio amedrontado, estando

sozinho num país estranho. Provavelmente, ele a comprou para se

defender.