O Sacrifício por Franklin Távora - Versão HTML

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O Sacrifício, de Franklin Távora

Fonte:

TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Clube do Livro, 1969.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:

Sérgio Luiz Simonato

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O SACRIFÍCIO

Franklin Távora

I

Todas as vezes que passo pela estrada de João de Barros, no Recife, acode-me à memória o vale de Santarém, onde Garret deu vida e movimento à “Menina dos Rouxinóis”, que “refletiam o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a flutuação e a transparência do mar.”

Em lugar do álamo, do freixo e da faia, que “entrelaçavam os ramos amigos”; em lugar da “congossa e dos brotos que vestem e alcatifam o chão”, no vale descrito pelo poeta, as mangueiras formam na estrada com suas abóbadas de folhagens sombras amenas e deleitosas; as cajazeiras, cujos troncos se cobrem de naturais relevos, erguem aos céus galhos finos, guarnecidos de folhas miúdas, que se assemelham às verdes franjas dos templos; o jatobá solitário abre os galhos, como abriria os braços um gigante para lutar. Há na estrada, como no vale, a madressilva, malva-rosa do valado. Há moitas de cinamomos, touças de manjericões e alecrins, que matizam o vasto chão. Há os formosíssimos risos do prado, que penduram dos portões ou dos muros dos sítios ao longo das ramadas com flores, escarlates pela manhã, arroxeadas de tarde, aveludadas sempre e a modo de resplandecente, como se a mão de artista insigne as houvesse polido e esmaltado com os reflexos da aurora e as cores do sol poente.

Não deitam por ali rouxinóis desgarradas toadas em regular desafio; os xexéus e os sabiás, porém, com seus cantos trazem a solidão em permanente festa; o cajueiral tem harmonias, o laranjal intermitentes rumores saudosos; a paisagem, horizontes verdes e ondulantes.

Para mais realçar a suavidade do quadro, em vez da casa antiga, onde cantavam os tais pássaros, vê-

se no fim da estrada a graciosa capela de Nossa Senhora da Conceição, que é o principal ornamento daquele primoroso Éden. Através das janelas da sagrada habitação, vozes inspiradas de elegantes e inocentes virgens vão ressoar no vasto arvoredo por ocasião das novenas, que os devotos e vizinhos da Santa celebram em dezembro, época em que a estrada aumenta de delícias, porque os cajueiros e as jaqueiras embalsamam com seus aromas o ambiente, e é tudo ali alegria, florido, e tudo fala de paixões moderadas, sem desejos desonestos.

Mas não é somente nos mimos da Natureza que a estrada pitoresca rivaliza com o ameno vale.

Também ali se gerou um drama terníssimo, também nela se passou uma história de gentil suavidade e triste harmonia, que convém se ponha por escritura nas letras do nosso idioma.

Num dos mais aprazíveis sítios, que a espaços ornam de um e de outro lado a estrada, morava, há coisa de seis anos, uma senhora, viúva, idosa, sem filhos mas com alguns meios que lhe davam para viver, tendo em sua companhia uma irmã solteirona e duas ou três crias da casa. No tempo em que se passa esta verídica história, ao número dos que em casa de D. Rosalina viviam à conta de filhos era preciso ajuntar um moço de vinte e dois anos de idade, seu sobrinho, por nome de Ângelo.

Depois de graduado em Direito, deixando todo o curso escolar, transportara-se para uma povoação da beira-mar , ao sul da província. Morava aí o seu pai pobre e cansado de fazer sacrifícios para ajudar na aquisição do pergaminho, seu encantado sonho. Ângelo tinha talento e na Faculdade pudera ganhar nomeada de estudioso e morigerado. Ainda me lembram as circunstâncias em que o vi pela primeira vez. Foi por ocasião de prestarmos os nossos primeiros exames. Ângelo acertou de se sentar junto de mim. Era louro.

Tinha os olhos tão verdes como a muiraquitã das amazonas. A jaqueta de pano azul, já um tanto usada, as calças de brim pardo com algumas escoriações na altura dos joelhos, os sapatões, e, por cima do trajo humilde, o gesto triste, posto que resignado, ao lado do porte grave, mas parecendo preso, estavam indicando que no jovem estudante havia menos um filho, do que um enteado da fortuna.

O pai de Ângelo chamara-o para junto de si, animado das mais risonhas esperanças, que não deixavam de ter legítimo fundamento. Sendo a povoação, que ficava perto da sede da comarca, cercada de engenhos e tendo os proprietários rurais quase particular paixão pelos litígios sobre terras, os quais, para assim escrevermos, constituem o principal foro matuto, não andará longe de acertar com o caminho da fortuna o pai do jovem bacharel, conjeturando que muito faria este aí pela advocacia. Mas todos os brilhantes cálculos falharam. Quando estamos em luta com o infortúnio, os semblantes risonhos são máscaras traiçoeiras, que encobrem hórridos carões; a sorte, algumas vezes, parece sorrir para nós; mas o que se nos afigura sorriso lisonjeiro, não é senão o riso escarninho.

Inteiramente desiludido, o bacharel voltara ao Recife, resoluto a tentar o que na povoação não surtira efeito - a advocacia, já sumamente explorada.

A casa da tia tinha para ele as portas abertas como tinha ela o coração, e à mesa estava ainda vazio o lugar que ocupara o estudante.

Com o pé direito, entrou Ângelo novamente no Recife, porque dentro de pouco tempo teve clientes, e entreviu no futuro castelos esplêndidos. Nos primeiros meses, depois de sua chegada, ganhou uma causa importante, de cuja defesa o incumbira a generosidade de um colega. Ângelo, mostrando as notas do Banco, que recebera em pagamento, dizia à D. Rosalina estas palavras:

— Matei o dragão, minha tia! Vou agora tomar conta do pomar das Hespérides.

Tal era Ângelo no começo desta história.

Morava também na estrada, para lá da Conceiçãozinha (nome com que designam a capela os habitantes dos arredores), um moço que fora colega de Ângelo nos preparatórios. Circunstâncias particulares tinham apartado Martins da carreira das letras. Casara-se, indo morar naquele canto, onde uma pequena indústria, que exercia, lhe dera meios para viver com sua mulher e filhos. Mas, como os hábitos que se casam com as vocações naturais dificilmente se perdem, Martins, com ser agora pai de família e homem de negócios, não esquecia as musas, que quando estudante cultivara com freqüência e fervor. Não podendo tratar de letras e versos todos os dias, instituíra, para trazer sempre alentado o fogo do antigo culto, uma espécie de retiro literário aos domingos em sua casa. Os suaves momentos que se passavam na aprazível estrada; as distintas prendas que, com o engenho poético, Martins tivera em dote de natureza e a educação aumentara e polira; as graças, as virtudes, o gênio essencialmente serviçal e hospitaleiro de D. Eugênia, sua mulher; a convivência íntima, nas condições de respeitosa, mas franca e fraternal cordialidade, que constituíam a base principal do retiro literário dava a esta diversão semanal tão particulares atrativos que dos escolhidos para tomarem parte nele, raros eram os que se poderiam acusar de inobservantes do primeiro precito da comunhão

- a pontualidade.

Sem as donzelas das vizinhanças, elegantes criaturas que são os gênios protetores daquele encantado ermo, que sorte teria o retiro literário, com ser atrativo por outras muitas circunstâncias? A mesma que entre nós tem dado sepultura a inumeráveis associações depois e alguns meses de fundadas. Aquela inspiração, porém, preveniu a ruína da companhia. Não era esta numerosa, mas distinta. Durante a reunião, serviam-se frutas da estação, que abundavam no sítio; raras vezes se davam a beber bebidas espirituosas. Depois das discussões, sempre em família, ou das leituras, ou das frutas, tocava-se piano; algumas vezes, cantava-se.

Quase sempre o ajuntamento acabava em passeios que se prolongavam até as estradas de João Fernandes, Vieira e de Belém, as quais em seus mimos naturais se aproximavam da de João de Barros.

II

Um domingo em que a estrada como se adivinhasse a importância especial do dia amanhecera arreada com suas mais belas e frescas louçanias, recebeu Ângelo, ainda na cama, um bilhete de Martins: Eis o que escrevera este:

“Não há hoje retiro, mas peço-te que não faltes por cosa nenhuma. Temos mangabas excelentes, mangas insignes, e para o jantar feijoada sem rival.

Melhor será que venhas passar o dia conosco, principiando pelo almoço.

Não quero ocultar-te uma circunstância que talvez ignores. Eugênia faz anos.”

A casa de Martins nunca oferecera aos que costumavam freqüentá-la tão grata hospitalidade.

Nesse dia, a casa oferecia ainda melhores aconchegos e comodidades do que nos outros, sem contudo ostentar custosas galas. Havia profusão de flores e frutos pelas mesas. O piano surgia dentre moitas de alecrim, habilmente formadas e entrelaçadas com ramos de pitangueira e resedá. Grinaldas de madressilva, em que se entremeavam rosas, pendiam das janelas e das portas. Um salgueiro que ficava na entrada da casa, e junto do qual era costume reunir-se ao anoitecer, nos dias de reunião, a alegre companhia, este mostrava-se enastrado, em todo o diâmetro da copa, de saudades, malmequeres e malva-rosa. Tudo isto era obra das mãos de Martins, para ser agradável à sua mulher, providência daquele remediado e feliz lar.

Mas não era nos arranjos quase gratuitos da mesa que primava, no feliz aniversário de D. Eugênia, a encantadora vivenda da estrada; a sua primazia estava na sociedade que, sem ser numerosa, brilhava aí, mais do que nunca, pelo talento, pelas graças e pela suave elegância, compatível com o campo.

Entre as gentis senhoras que eram presentes, quando Ângelo entrou na sala, apontavam-se D.

Maurícia e sua filha D. Virgínia, as quais tinham chegado de Caxangá. D. Maurícia era irmã mais moça de D.

Eugênia, e tão querida desta que, divertimento em que a caçula não entrasse, não tinha sabor para a primogênita, por mais alto que estivesse ele na ordem de tais manjares. Procedendo deste modo, D. Eugênia não era senão justa, porque na irmã se encontraram reunidos superiores dotes cuja descrição, pelo menor, demandaria largas páginas.

De há muito desejava Ângelo conhecer de perto este portento, que ele de longe admirava. Todavia nunca o seu desejo pudera ser satisfeito, pelas circunstâncias da vida de D. Maurícia, das quais informaremos o leitor, pelo maior, oportunamente.

Martins apressou-se a apresentar o amigo à cunhada.

— Ninguém me disse quem era V. Exa., mas eu quase dispensava que mo dissessem; porque, por uma como intuição, V. Exa. se me revelou ao espírito logo que entrei.

Esta amabilidade de Ângelo foi recebida com rápido sorriso por Maurícia, e não despertou nas outras senhoras ressentimento, porque fora dito a meia voz.

Maurícia

retorquiu:

— Não há que admirar. Posto seja esta a primeira vez que nos vemos, há muito que o senhor é meu conhecido. Martins e Eugênia concorreram para que, antes de lhe falar, já eu lhe rendesse a estima que se deve ao mérito distinto. Deram-me a ler trabalhos seus, que eu não conhecia ainda, e falaram-me sobre suas qualidades com tamanho alvoroço, que chegou para que eu compartisse dele sem os dois sentirem diminuição na sua parte. Eu não tenho competência para ajuizar de produções tão elevadas como o poema marítimo, que o senhor compôs, tendo diante dos olhos o Atlântico revolto e o céu em fogo; mas, a julgar pela impressão que a leitura me deixou, há no senhor um engenho poético de primeira grandeza.

Esta linguagem não se podia estranhar em Maurícia, cujo espírito fora enriquecido pelas jóias do estudo e da melhor educação literária. Seus pais, de costumes severos e de irrepreensível moralidade. Tais costumes e moralidade não haviam desaparecido com eles da família, antes se viam reproduzido nas duas irmãs; e se a Eugênia parecia ter cabido, em partilha, o maior quinhão desta honrada e preciosa herança. era porque, casando-se muito moça, sua vida tomara direção diferente da de Maurícia, segundo havemos de ver.

Esta era mais hábil, incomparavelmente mais ilustrada, sem ser menos digna do que a irmã. O centro social, porém, onde se haviam polido os dotes do seu espírito, comunicara-lhe parte de suas propriedades como o vaso novo transmite o perfume de que é formado à água límpida que contém por algumas horas. Maurícia era, por isso, sonhadora, às vezes, arrebatada e irrefletida. Aceitava mais do coração do que do espírito a direção para as suas ações. Uma vezes, perdia; outras, ganhava por sua franqueza. Mas a honestidade, que deve ser a base do caráter da mulher, que não é a cortesã sedutora, ou a barregã desprezível, Maurícia guardava-a intacta, inatacável no fundo de sua alma, como o primeiro dos seus afetos.

As palavras de Maurícia, por inesperadas e quase violentas, deixaram o bacharel um momento silencioso e, para assim dizer, estático. Mas esta impressão cedeu logo o lugar ao espírito, que resgataria a perdida energia.

Ângelo acudiu, então, em resposta:

— Minha senhora, este juízo, sobremodo benévolo, fornece-me antes a medida do seu coração do que a do meu engenho poético.

Nessa ocasião, Virgínia aproximou-se dos dois.

— Apresento-lhe minha filha - disse Maurícia ao bacharel. Não é feia e já é uma moça casaidora.

Não cores, Virgínia! O Sr. Dr. Ângelo não te quer para noiva. Demais já estás comprometida com Paulo.

— Como! - disse Ângelo. Repete-se agora aqui o inocente idílio da ilha da França?

Maurícia voltou-se para Ângelo:

— É singular o que lhe vou referir - disse.

— Mamãe! - advertiu Virgínia, mostrando as cores do pejo nas faces.

— Não sabia que o noivo de Virgínia se chamava Paulo? O acaso tem caprichos como se pertencesse ao sexo feminino. Mas a verdade é que estes novos namorados não desdizem os outros. O senhor não imagina quanto eles se amam, nem em que consistem as demonstrações dos seus afetos.

— Mamãe, se a senhora continuar a falar, eu vou-me embora.

E Virgínia voltou ao seu lugar.

— Dão para um poema - prosseguiu Maurícia - os inocentes amores destas crianças. São duas crianças como nunca vi outras tão ingênuas e tolinhas. Havemos de conversar sobre este assunto, porque preciso aconselhar-me com um advogado. O senhor está definitivamente morando em Recife?

— Sim, minha senhora; trato até de ir buscar minha família.

— Desejo que me dê parte de sua chegada.

— Meu pai tem muito bom coração e minha mãe é uma excelente amiga. Terei o maior prazer em aproximá-los de V. Exa.

— Havemos de estreitar as nossas relações, Dr. Ângelo. Os nossos sentimentos parecem irmãos.

— Há simpatias irresistíveis, quase fatais.

— É certo; há. Eu posso dar testemunho disto.

— Quando Martins e D. Eugênia, prosseguiu o advogado, desafogando em meu peito a sua mágoa, me contaram pela rama os padecimentos de V. Exa., senti, não piedade, minha senhora, porque está muito acima deste sentimento, mas uma como ternura, uma como suavidade afetiva, que me deixou no coração menos a comoção do pesar, que a da partilha na mesma dor.

— Agradecida. E todavia eles não lhe contaram um quarto dos meus padecimentos - redargüiu Maurícia.

E ficou por um instante pensativa.

O contentamento, porém, reinava em todos tão largamente em casa de Martins que, se a garra adunca de uma recordação penosa imprudentemente arranhara o coração de Maurícia, depressa a aura saudável que enchia aquele risonho mundo reparou o estrago com o bálsamo que trazia do ar ambiente.

Chegara a hora do almoço.

Ângelo deu o braço a Maurícia e encaminhou-se com ela para a sala interior. Aí já estavam D. Sofia com sua filha Sinházinha, e D. Rosa com sua sobrinha Iaiá, que moravam nos primeiros sítios, à direita do de Martins.

Chegaram depois Artur e Meireles, estudantes da Faculdade e tomaram assento entre Salustiano, empregado público, e Azevedo, rapaz rico, que chegara de Lisboa seis meses atrás, e devia seguir para a Bahia, a fim de matricular-se na Faculdade de Medicina.

Ângelo sentou-se defronte de Maurícia.

Seus olhares trocavam-se magneticamente, e sem inteligência, se entendiam.

Mas por que se entendiam eles? Ângelo e Maurícia não eram amigos.

Viam-se pela primeira vez. Maurícia não tinha o direito de amar a nenhum homem, porque era escrava de um dobrado dever de esposa e mãe.

Entremos no exame do dever.

III

Maurícia fora educada em Paris, onde os talentos com que a natureza a brindara se revelaram logo nos primeiros exercícios escolares com tanto brilho e pujança que dentro de pouco tempo ela foi objeto de espanto para os mestres, e de inveja para as condiscípulas. A diretora do colégio, por dar talvez às pessoas que a visitavam idéia aproximada do merecimento da menina, designava-a com este apelido – Petit Brésil.

— “Voulex – vous voir mon petit Brésil? – perguntava ela aos visitantes. Elle est lê premier talent de mon college. Elle fait mon orgueil. C’est un prodige. Elle est en soi méme toute la fulguration et toute le vie de la nature intertropicale”

Não estava ainda moça, quando já lhe saíam casamentos vantajosos; um chegara a ser brilhante.

Maurícia recusou todos a pé juntos. Quando a consultavam em assuntos de casamento costumava dizer em resposta:

— Quero levar para o Brasil o meu coração inteiro ainda. Meus pais têm o direito de o possuir exclusivamente por algum tempo, depois da minha volta a seus braços.

Se insistiam em resolve-la a aceitar o partido que se lhe apresentava, dizia Maurícia graciosamente:

— Esta é boa. Dizem que os brasileiros são selvagens, e querem ter uma brasileira não para mandarem para o Jardim das Flores, mas para ficarem com ela no seio de uma família. Pois estão livres disso.

A selvagem há de tornar às suas florestas, a fim de viver como dantes, com as cobras e as maracajás...

Maurícia dizia isto por pirraça, não por ódio ou rancor aos franceses, aos quais votava grande afeto.

Em seu conceito, o povo francês era o primeiro da Europa, e seria o primeiro do mundo, se não houvera o americano, para o qual ela possuía a mais estranhável admiração. Seu espírito era livre, quase republicano.

Quando alguma vez a conversação caía sobre política, objeto que parecia merecer-lhe a mais viva simpatia, não deixava sem algumas rajadas Napoleão III, então no zênite do seu poder. Maurícia concluía sempre com estas palavras:

— Este tirano, este inimigo das liberdades francesas, não há de acabar no trono da França.

Palavras proféticas, que eram então as de quase todo mundo e tiveram a mais estrondosa confirmação.

Quando chegou ao Brasil, poder-se-ia comparar com o diamante por nome de Regente, que brilha na coroa da França ou a Estrela do Sul, de que é dono o joalheiro Halphen; não tinha preço; seus dotes constituíram um tesouro inestimável.

Suas formas eram corretas e esplêndidas. Os cabelos pretos faziam realçar a alvura da pele fresca e radiante. O olhar e o sorriso, que traziam todos os feitiços da graça, tinham suavidade e paixão, meiguice e fogo.

Mas o encanto mágico dessa fúlgida criatura estava na voz branda, harmoniosa, incomparável. Tinha havido capricho na educação desta prenda natural da menina. Quem a ouvia uma vez, desejava passar o restante da vida junto dela para a ouvir sempre.

Um dia, a sorte virou, e tornou-se madrasta daquela para quem tivera todos os afetos e liberalidades matinais.

Os pais de Maurícia empobreceram da noite para o dia, e faleceram dentro de breve tempo. Com esses dois desastres irreparáveis, um dos quais sucedeu pouco depois do outro, chegaram para Maurícia os dias nefastos. Leis fatais decidiram do seu destino cruamente. O jardim da sua existência mudou-se em região desolada. Enfim – encurtemos esta história – o brilhante inapreciável foi parar no poder de um senhor grosseiro e mau; e porque o espírito que teve a sua liberdade raras vezes se deixa tiranizar, a não ser por um processo lento e artificioso que estava acima da capacidade do marido de Maurícia, fugiu esta do Pará, onde morava, para o Recife, trazendo consigo a pequena Virgínia. Depois de muitos incidentes inteiramente estranhos ao nosso caso, aceitou ela o partido, que lhe fizera um senhor de engenho de Caxangá, para que ensinasse francês e música às suas filhas.

Tornemos a casa de Martins.

O almoço passou sem coisa de maior. Recitativos, então muito em uso, um pouco de canto, um pouco de piano, alguns trocadilhos de Azevedo, insigne neste gênero, e até charadas em que ninguém levava a melhor a Martins, encheram as horas que medearam entre a primeira e a segunda refeição.

As quatro da tarde, Martins convidou os hóspedes a uma digressão pelo sítio.

Pouco adiante da casa, começava um galeria de mangueiras seculares, cujas folhagens, por densas de si mesmas, e por emaranhadas de cipós, não deixavam passar um raio de sol. Era debaixo da abóbada formada por essa vasta coberta de verdura, que estava a mesa. Na extremidade anterior da galeria, ajeitando os galhos, as folhas, os cipós, tinha feito Martins uma como gruta natural de aprazível aspecto. Estavam ali o cozido, os assados e as demais comidas. Na extremidade posterior, via-se outra gruta mais perfeita e de maior âmbito. Aí a Natureza procedera a fantasia. A última mangueira, porventura a primeira em idade e proporções gigantescas, tinha no tronco uma abertura, que vinha do chão até a altura de um homem. Três pessoas emparelhadas caberiam no bojo, que do lado da mesa era inteiramente aberto. Ali dentro, sobre pedras que imitavam as saliências de uma rocha subterrânea, viam-se vinhos, frutas e doces graciosamente dispostos.

— À proverbial hospedagem e ao fino gosto de Martins devemos este jantar bucólico, digno de ser decantado pela musa de Mantuano – disse Artur, tanto que seus olhos deram com aquela risonha maravilha.

— Isto está soberbo – esplêndido! – acrescentou Salustiano.

— Esplêndido, não – observou Azevedo. Nem um raiozinho de sol penetra aqui.

— Digo esplêndido no sentido moral – retorquiu Salustiano.

— No sentido moral! – exclamou Azevedo. Tudo isto é muito belo, mas pertence à matéria.

— Não te aborreça, senhor. O que eu quero dizer – e todos os homens de talento por certo me entenderão – é que o Martins confirmou com esta obra...

— Que obra? – inquiriu Artur.

— Cobra! Pois aqui há cobra? – perguntou Azevedo.

— Deixem que eu acabe – tornou Salustiano. Quero dizer que Martins é o primeiro poeta desta estrada.

— Ainda as senhoras não viram a melhor – ajuntou Eugênia, a quem muito aprazia o caminho que levava a festa dos seus anos.

— Mostre-nos o melhor, o melhor, D. Eugênia – disse o futuro estudante de Medicina.

— O melhor está nas duas grutas – disse ingenuamente D. Rosa.

— Nas duas grutas! – repetiu Azevedo. Sim, nas grutas é que costuma haver o melhor.

— Aproximem-se – prosseguiu D. Rosa – venha ver, D. Maurícia chegue para cá, Sr. Dr. Ângelo.

Que linda coisa, não é?

E a anciã indicava o trabalho de Martins.

— É verdade. Tem mãos este Martins – disse Salustiano.

— E pés, também – acrescentou Azevedo.

— Uma destas grutas – disse Martins – é mitológica, a outra, pode-se dizer, cristã ou antes católica.

— A gruta de Calipso está insigne – observou Ângelo.

— E a dos vinhos, não? – perguntou Sinhazinha.

— Pudera, não! – respondeu Azevedo.

— A gruta de Calipso! – exclamou Artur, aproximando-se. Grande Martins! Eu logo vi que, andando pela Ilha de Chipre, não havias de perder o modelo das morada da deusa. Em que tempo andaste por lá?

— Mas, qual é a outra? – indagou Maurícia com ares de curiosa.

— É a do padre Aubry – respondeu Martins. É a gruta que vem apontada em Átala.

— Muito bem, muito bem – tornou Maurícia. Dou-te os parabéns, Eugênia, pela festa original que o teu natalício inspirou a teu marido.

— E dizem que os poetas não servem para maridos – observou Artur.

— Qual será dentre as senhoras presentes que deverá ocupar esta cabeceira de mesa? – perguntou Azevedo.

— É a Maurícia – disse Eugênia.

Eu?

— Ótima escolha.

— Muito bem. Não podia ser melhor.

— Mas quem há de ser o Telêmaco? – observou Salustiano.

— Olham como se inculca o freguês – disse Azevedo a meai voz, que todos ouviram.

— O Telêmaco há de ser...

— Pois isto ainda é objeto de dúvida? O Telêmaco é Ângelo - disse Artur, revelando curto despeito.

— E quem será Átala?

Eugênia acudiu logo:

— É Sinhazinha.

— Eu, não – disse esta. Átala deve ser Virgínia.

— Eu já sou Virgínia – retorquiu esta com toda a graça.

— Bravo! – clamou Salustiano.

— Pois a Senhora não quer ser Átala? – perguntou Azevedo a Sinhazinha. Teve tão boa vida!...

— E até uma boa morte.

— E você mesma há de ser, Sinhazinha – disse Eugênia.

— Não quero.

— Perdão, minha senhoras. Átala não era feia, nem velha para que alguma de V.Exas. se julgue desdouro em representá-la.

— Mas morreu sem casar – observou Azevedo.

— E acabemos logo com isto que a sopa está esfriando.

— Se me concedem autoridade para cortar a contenda, isto acaba já.

— Tem toda a autoridade para isso D. Maurícia – disseram os homens.

— Vá sentar-se defronte de mim, Sinhazinha.

— Muito bem,

Quando Sinhazinha se encaminhou para a outra cabeceira da mesa, ouviu-se a voz de Salustiano:

— Mas o Chactas, o Chactas é que quero saber quem será.

— O Chactas não aparece. Está no mato – disse Azevedo. Sentemo-nos, e vamos à sopa antes que ela chegue, que era capaz de engolir mangueiras e tudo.

— E nós o que ficamos sendo? – perguntou ingenuamente D. Rosa, que a todo transe queria o seu papel na representação.

— As senhoras ficam sendo as ninfas da gruta – disse Azevedo rindo-se.

E nesse riso foi acompanhado por quase todos os que estavam presentes. D. Rosa suspeitando de segunda intenção no que dissera Azevedo, contrariou o gracejo como se tratasse de ir para o inferno.

— Credo! Antes uma boa morte.

— E nós, nós homens? – perguntou Salustiano.

— Vocês são os selvagens, os Moscogulgas – acudiu incontinente Azevedo.

A hilaridade foi geral.

IV

As grutas, as ninfas, os selvagens, a deusa fabulosa, a jovem cristã, foram temas durante todo o jantar a mil gracejos, que não concorreram pouco para aumentar a animação da festa natalícia, belíssima pintura a que a Natureza, ajudada de um pouco de fantasia, servia de quadro encantador.

Quando finalizou o jantar, Martins propôs o passeios de costume pelo sítio, mas pediu que o dispensassem dele, por ter de ir à Encruzilhada a falar com dois músicos. A festa não podia acabar senão em dança.

— É quase sol posto, mas antes de anoitecer, estarei de volta.

A companhia dividiu-se, sendo Ângelo, Maurícia, Eugênia, D. Rosa e D. Sofia os que menos apressados se mostravam em deixar a entrada da galeria, onde haviam ficado, enquanto as outras senhoras e rapazes se dirigiam para a estrada.

— Onde é que fica a cajazeira – perguntou Ângelo – em que o ano passado Martins entalhou a canivete, em honra de seu aniversário, um verso de Virgílio, D. Eugênia?

— Daquele lado, já ao chegar ao Beco das Almas. É a última árvore do sítio, e está encostada à cerca, Virgínia sabe onde é.

Maurícia chamou, então, pela filha, que ia com Sinhazinha nas pisadas dos outros em direitura para a estrada.

— Ora, mamãe – disse Virgínia – Sinhazinha está ali esperando por mim para irmos à Conceiçãozinha, onde há, aqui a pouco, um casamento.

— Pois vá, minha filha. Iremos com Eugênia.

— Vá nesta direção e tome depois para a direita, que há de dar com a cajazeira – disse a menina. —

Olhe: de lá se vê a capelinha. Nós podemos ver-nos dos nossos lugares; e se mamãe não me vir é que fomos à casa de D. Teodora saber se Terezinha já chegou de Boa Viagem.

A menina foi juntar-se à amiga, enquanto Maurícia voltava-se para convidar Eugênia a servir-lhe de companhia. Mas já não a encontrou; tinha desaparecido pelo outro lado da galeria com as duas senhoras a quem fora mostrar uma leira onde o coentro pululava cheio de viço, não obstante ser seca a estação.

— Deixaram-nos a sós – disse Maurícia – mas não importa. Podemos ir, que havemos de acertar com a árvore.

— Não deve ser muito distante – disse Ângelo.

— Mas o sítio é tão largo que daqui não vemos a cerca.

— Pelas pontas das árvores, podemos orientar-nos.

Ângelo assim falando e andando, pôs-se a procurar com a vista os ramos superiores da cajazeira, mas foi-lhe impossível o que um momento antes lhe parecera fácil. Cajueiros ramalhudos, mangueiras copadas interpunham-se entre eles e a árvore desejada.

Seguiram, entretanto, na direção que a menina indicara.

— Como eu invejo a felicidade de Martins, D. Maurícia – disse Ângelo.

— E eu a de Eugênia – acrescentou Maurícia.

— É verdade. Vivem exclusivamente um para o outro. Parece que nos laços que os estreitam nunca se deu o menor estremecimento.

— Para ser agradável à mulher, Martins anda sempre inventando festas em que sua fantasia tem grande e feliz intervenção, como acaba de ver.

— Quando o casamento traz este resultado, não há dúvida de que é uma delícia. Se eu encontrasse uma mulher, que por suas grandes qualidades tão valiosa prova oferecesse em favor do casamento, decididamente casava-me por que já me vai parecendo triste demais a solidão que reina em minha alma desde os primeiros anos da juventude.

— Na sua idade, é realmente para admitir que o coração ainda esteja sem o ídolo de que precisa para ser o verdadeiro templo da vida.

— Pois é verdade. Tenho ainda inteiro e virgem o meu amor; e conjeturo que será fácil àquela que se tornar digna dele exercer sobre mim a maior das tiranias; porque o meu amor tem em si todos os meus afetos, toda a minha alma.

Compreendendo os perigos desta conversação, Maurícia, que ia sentindo pelo bacharel afeição que a assustava, disse-lhe como para dissuadi-lo de prosseguir o caminho que haviam encetado.

— Parece que já não chegaremos com luz do dia à cajazeira. Está escurecendo rapidamente.

— Pois então voltemos, D. Maurícia – respondeu Ângelo.

— A estrada está perto, não?

— Está aqui, a nossa direita, obra de cem passos. Parece-nos estar mais longe, pelas sombras das árvores, que não nos deixam ver com exatidão a distância.

— Vamos à Conceiçãozinha. Talvez já encontremos os noivos.

— Podemos atalhar o caminho por estes cajueiros. A cerca ali adiante está quebrada, e oferece fácil saída.

Ângelo não se enganara. Em poucos minutos, chegaram ao boqueirão. Na largura de uma braça, a cerca estava de fato aberta; mas a vara inferior, na altura dos joelhos de um homem, mostrava-se ainda suspensa pelos cipós que a traziam presa às estacas. Ângelo, apoiando-se sobre a vara, atravessou da outra banda, e daí ofereceu a mão à Maurícia para a ajudar a transpor a cerca. Mal tinha ela posto o pé na travessa, quando deu um grito, que não parecia arrancado somente pelo susto, mas também pelo terror; e, em vez de passar para o outro lado, recuou amedrontada e meteu-se por trás do tronco de um cajueiro próximo, como quem queria ocultar-se.

Ângelo, assustado, acudiu logo:

— Meu Deus? Que é que tem, D. Maurícia?

Esta respondeu, como quem cobrava os espíritos que um momento a tinham desamparado:

— Desculpe-me, Sr. Dr. Ângelo, Não tenho nada, não foi nada.

— Mas por que deu este grito?

Ângelo já estava ao pé de Maurícia, e ambos quase ocultos pela folhagem do cajueiro.

— Eu poderia dizer-lhe que tinha sentido uma cobra passar por cima dos meus pés, e tudo estaria explicado; mas não seria esta a verdade.

— Diga então o que foi.

Ângelo estava profundamente impressionado. Tinha ainda na sua a mão de Maurícia, e lhe sentia o frio e o tremor, conseqüências da violenta impressão.

— Estou deveras assustada, Sr. Dr. Ângelo. Veja como me bate o coração. Não vi uma cobra, vi um demônio.

Assim falando, ela levou a mão do bacharel ao seu peito e a apertou contra ele. Ângelo, através da onda de cambraia e rendas, sentiu as pulsações violentas desse coração que ele desejara pulasse, não de susto, mas de amor por ele.

— Mas o que foi que lhe ocasionou tamanho susto?

— Quando o senhor me estendia a mão para me ajudar a sair, não sentiu passar pela estrada um homem?

— Sim, sim; ele ainda ali vai.

— Nunca em vi em homem algum tamanha semelhança com meu marido.

— Com seu marido! exclamou o bacharel sentindo fel nos lábios. Meu Deus! Tal não diga, por quem é. Seria a maior das desgraças.

— Para mim não há dúvida que seria isso o maior dos infortúnios.

— E para mim também - acrescentou o bacharel; por que... Oh, eu não devia dize-lo, mas não está em mim prender no coração, como se prende uma cobra dentro de um frasco, o sentimento que a senhora veio despertar nesta morada de solidão e trevas.

— Saiamos já, Sr. Dr. Ângelo, disse Maurícia, como quem não tinha ouvido aquela perigosa revelação. E voltemos antes para casa; já não quero ir com as meninas da capela.

Do lado de fora, a estrada estava deserta como dentro do sítio.

— Havia de ser ilusão sua, minha senhora, disse Ângelo, oferecendo o braço a Maurícia. O homem que passou parece-me ser um que mora aqui adiante.

— Talvez; mas, então, é a cópia fiel do Bezerra. Depois de três anos de liberdade e tranqüilidade, ser-me-ia por extremo penoso pensar, ainda que fosse por um momento, em voltar à antiga vida de humilhação e martírio, porque eu detesto esse homem, que não era para mim, que foi meu algoz por uma dúzia de anos, que hoje só me merece compaixão ou esquecimento. Como não há quem nos ouça, quero contar-lhe um episódio de minha escravidão conjugal; por ele, poderá o senhor ajuizar do baixo drama em que a mim me coube o papel de vítima, e a ele o de tirano sanguinário. Depois de proibir que eu conversasse em francês com as minhas amigas, impôs-me que não tocasse mais piano. Perguntei-lhe o porque; respondeu-me que ouvira na tarde anterior, por ocasião de eu estar tocando umas melodias de Schubert, um vizinho dizer que eu não devia ter casado com ele. Sabedora do quanto Bezerra era capaz, fechei imediatamente o meu piano, que assim tomava parte no meu infortúnio e martírio.

— Vejo que o seu sofrimento foi na verdade original.

— Oh! o senhor que tem espírito elevado, e no coração dotes surpreendentes, não imagina até onde pode descer um homem de curto entendimento, sem educação, sem alma. Ouça. Não podendo resignar-me inteiramente à privação daquelas vozes sublimes que eram o meu único conforto, que desde criança não se separavam de mim, que era as irmãs da minha voz, espiei qualquer momento em que o meu tirano se dirigisse a algum arrabalde, deixando-me livre algumas horas. Esse momento ofereceu-se uma tarde em que Bezerra teve que entender-se com certo sujeito sobre negócios que lhes eram comuns. Logo que o vi montar a cavalo, corri como louca ao meu piano. Havia quase três meses que estava muda como túmulo aquela arca dos meus particulares afetos. Sobre as teclas caíram e correram meus dedos desvairados e febricitantes. O prazer que senti, ouvindo os primeiros acordes, desceu tão intensamente ao fundo do meu sistema nervoso que de meus olhos saltaram lágrimas, como contas de cristal, sobre a face de marfim insensível e fria, mas amiga.

Irresistivelmente, a voz saiu-me da garganta, com a ternura apaixonada que nesse momento me transbordava do coração, ninho de sentimentos muito diferentes dos de Bezerra. Nunca a musa da harmonia, ao que me parece, havia socorrido tanto o meu canto com a sua paixão.

— Muito bem - disse Ângelo comovido.

— De repente, uma voz ressoou no âmbito da sala: “—Bravo! Bravo!” - dizia a voz.

— Era a de seu marido?

— Não, era a do tal meu vizinho, a quem meu marido ouvira dizer que não devia ter casado com ele.

Este vizinho era um solteirão inofensivo e algum tanto parvo. Tinha chegado à varanda e daí alongava o pescoço para dentro da minha casa. — Estou de longe mesmo apreciando os seus dotes. - continuou ele, e mal tinha acabado de proferir estas palavras, senti sobre as mãos, que ainda percorriam o teclado, uma pancada violenta: o piano fora rudemente fechado, contra os meus dedos. Bezerra estava de pé junto de mim, fingira que ia para longe para pegar-me em culpa.

— Adivinho o resto - disse Ângelo.

— No mesmo instante - prosseguiu Maurícia - Bezerra corre à varanda com o intento talvez de pegar o solteirão pelas goelas e sufocá-lo; mas já não o encontrou; tinha fugido. Todo o seu furor se voltou, então, contra mim. Ergueu o chicote, que mal tocava a anca do seu cavalo. Eu estava de pé, e olhava para ele, horrorizada; nem me ocorrera fugir para um quarto e trancar-me por dentro. Mas quando, para que eu representasse todo o papel de escrava, só me faltava receber o golpe infamante, o braço de Bezerra descaiu, e ele empalideceu. Acovardara-se, vendo algumas gotas de sangue que tinham caído dos meus dedos sobre o meu vestido e aí deixavam escrita em caracteres vermelhos a história do seu crime. Foi esta brutal afronta que trouxe a nossa separação, pela minha fugida com minha filha para o Recife.

— A senhora tinha razão, hoje, quando me dizia que eu não sabia uma quarta parte dos seus padecimentos - disse Ângelo.

— Tenho ou não motivos de temer qualquer encontro com semelhante homem? Ah! Sr. Dr. Ângelo, se os maldizentes soubessem toda as particularidades da vida daqueles em quem aferram o dente envenenado, talvez recusassem praticar o seu torpe ofício.

Essas palavras foram proferidas alguns passos antes da entrada da casa de Martins.

Fizeram aí uma pequena parada. Pelas portas abertas, via-se de fora a sala ao clarão das luzes.

— Meu Deus! exclamou Maurícia. Veja quem está ali.

E apontou para a sala.

A um lado da mesa, três pessoas estavam sentadas, Martins, Eugênia e Bezerra.

Maurícia sentiu-se enfraquecer, e inclinou-se, para não cair, sobre o braço de Ângelo.

V

Albuquerque, senhor de engenho com quem Maurícia contratara os seus serviços, pertencia, segundo o está atestando o próprio apelido, a uma das primeiras famílias de Pernambuco. Em muitos pontos adiantado pela natural influência das idéias modernas, mostrava-se sumamente aquém do seu tempo no tocante às antigas regalias de sangue. Revia-se com vaidade que para assim dizermos trouxera do berço, nos pergaminhos da família. Esta vaidade era nele uma como intuição inata e irresistível. A educação, que se ajustara a esse molde tosco, dera-lhe novos acrescentamentos.

De seu natural, era brando e benévolo, não obstante serem rudes os sentimentos e algum tanto carregadas as tradições que herdara dos seus maiores.

Quando se sentia pisado na dignidade por pé, movido pela audácia, elevava-se a toda à altura do passado, e no vasto arsenal da família encontrava, senão armas de aço fino e cortante com que rebater o agressor, as armas da soberba, do desdém, da altivez, e, às vezes, até as da ameaça e da hostilidade moral.

Estações desfavoráveis e contratempos privados tiveram-no por alguns anos em embaraços e atribulações que o assoberbaram.

Chegou a ver quase todos os seus bens arriscados. Mas os tempos melhoraram e pode desempenhar-se dos seus compromissos. A paz e a fortuna vieram ocupar de novo no lar, onde um eclipse se demorara não sem grande desânimos e desgostos, o lugar que lhes pertencia antes das adversidades agora de todo desaparecidas.

Foi por esse tempo que o serviços de Maurícia foram aceitos. Alice, última filha de Albuquerque, entrava no seu décimo ano de idade; urgia ter educação. Quanto ao primogênito, por nome de Paulo, este não inspirava cuidados a Albuquerque; tinha dezessete para dezoito anos e não dava mostras de vocação para letras. Muito cedo deixara a escola, para dedicar-se de corpo e alma à agricultura, que era a carreira de sua predileção. Fosse que a vocação o inclinasse fortemente para a vida do campo, onde o contato com a natureza despertava em seu espírito novas simpatias pelos prazeres inocentes que aí encontram; fosse que os eu gesto procedesse dos hábitos a que desde a primeira idade se entregara de coração, certo é que Paulo era, ao tempo desta narrativa, o tipo do agricultor, e nele tinha seu pai as melhores esperanças. A capacidade do rapaz em regular o serviço de engenho; a sua discrição em tratar com os trabalhadores e os interesses da grande propriedade o haviam tornado objeto de tão larga confiança que Albuquerque só tinha olhos para o que constituía a administração exterior; das porteiras para dentro, Paulo superintendia em tudo. Quando alguém procurava o senhor do engenho, a fim de lhe pedir qualquer favor, ou colocação, Albuquerque dizia:

— Entenda-se com o Sr. Paulo, que é quem sabe o que precisa, ou o que se pode fazer. O que ele decidir está decidido.

Paulo experimentava precisamente por aquele tempo a necessidade de completar-se. As cenas da Natureza, seus painéis, suas belezas, suas maravilhas, provocavam-lhe o espírito de risonhas visões; mas no fundo dessas visões o que suas mãos encontravam, quando ele buscava verificar se aí havia o que a imaginação gerava e coloria, era a ausência da realidade; as proporções desta mediam-se pelas terras do engenho.

Quando voltava do serviço diário, tinha bom apetite, e depois da última refeição o corpo, que requeria repouso, achava na cama novas forças, trazidas pelo sono para recomeçar no dia seguinte a tarefa interrompida na véspera. mas esta fase de apetite, que se satisfazia com os alimentos, e de fadiga que desaparecia com o sono reparador, tinha de ser profundamente alterada; o coração devia dar sinais do termo de seu repouso e da aproximação do seu despertar; a imaginação devia exigir visões e sonhos diferentes dos que inspirava o espetáculo dos campos, dos rios, das matas.

Paulo sentira nos últimos tempos acender-se no intrínseco do seu peito fogo desconhecido, que, por ser tal, não deixava de o abrasar. Sentiu anelos teimosos, prazer e tristeza, crença e dúvida, que não sabia explicar e mal conhecia, porque a essência de sua vida assentava na inocência, que o campo alenta. Um mestre particular ensinara-lhe as primeiras letras. Não se tendo achado em contato com a meninice trêfega, ou com a juventude viciosa de certos colégios, quase todas as pequenas corrupções que se devem a tais centos, e que são, muitas vezes, a origem de grandes corrupções sociais, lhe eram inteiramente desconhecidas. O seu espírito podia considerar-se estreme, o seu coração podia reputar-se de um modelo digno de ser estudado e seguido.

Quando de volta do trabalho, Paulo achou uma tarde em casa a menina de fisionomia triste, olhar meigo mas, melancólico, adivinhou por lúcida previsão, que a sorte lhe trouxera, enfim, aquela delicada forma do espírito, da bondade, da dedicação, do amor que ele, apenas, conhecia como deliciosas abstrações ou vagas fantasias.

Virgínia era tão fraca de compleição que, à primeira vista, todos sentiam apreensões pela sua existência.

Olhando-se para aquele corpo franzino, delicado, posto que não desgracioso, antes cheio e modesta elegância, pensava-se que não há formas que não resistem senão por muito pouco tempo ao trabalho das intempéries e dos climas. Tinha-se pena de pegar em sua mão, porque parecia que com qualquer movimento menos brando poderiam sentir-se os dedos finos, a palminha delicada, o bracinho delgado da encantadora menina.

À Maurícia atribui-se este conceito a respeito da filha:

— Virgínia parece ter nascido de um respiro, e estar destinada a morrer de um sopro!

Uma vez, conversando com D. Carolina, mulher de Albuquerque, sobre a fraca organização da menina, dissera Maurícia:

— Quando da minha janela vejo Virgínia passeando ao sol posto, pelo cercado, e trazendo soltos sobre o roupãzinho branco os cabelos louros, só se me afigura ter diante dos olhos uma nuvenzinha que caiu das alturas sobre a terra.

A natureza caprichosa na distribuição dos seus favores dera a Virgínia, como se fizera para resgatar a fragilidade do corpo, o mais vigoroso espírito que já se viu em tão verdes anos.

Em casa, quando a viam vencer ao piano algumas das grandes dificuldades que as óperas oferecem, diziam:

— Não nega que é filha de quem é!

Não andava longe da verdade a gente do engenho, quando se exprimia a respeito de Virgínia, nesse desataviado modo porque o povo traduz os seus conceitos. A verdade, porém, a verdade completa, era que a menina trouxera do berço, com o talento, outros muitos tesouros, a saber, juízo, porque, cada uma destas virtudes é uma grandeza, capaz por si só de caracterizar, não dizemos tudo, de encher uma existência.

Quando Maurícia chegou ao engenho, Virgínia, com ser muito nova, tinha já quase completa sua educação. As qualidades insignes que brilhavam em sua mãe, por uma como reprodução mágica, se tinham continuado nela porventura mais vivas e adoráveis.

Paulo ficou extasiado diante daquela criaturinha que escrevia e falava corretamente o francês, tocava graciosamente piano, entendia de geografia e desenho, cosia, bordava; Virgínia pagou igual tributo de admiração: achou em Paulo tamanha candura, tanta conveniência nas ações, tanta compostura no dizer, no olhar, no falar, no sorrir, que não pode deixar de comunicar a Maurícia sua impressão; e o fez nestes termos:

— Que bonitos modos tem o filho do Sr. Albuquerque, mamãe!

Estas duas admirações tão irmãs, tão naturais, tão espontâneas, de duas organizações virgens, de diferente sexo, só podiam trazer um resultado - a enamoração mútua, o que queria indicar um sentimento comum - o amor. Mas este amor nasceu sem fogo, sem veemência, sem estridor; nasceu límpido e brando, como nasce no deserto, por sob a folhagem, cristalina fonte, cujas águas o sol não queima e a tempestade não revolve. Foi um relâmpago que fulgiu ao longe; todos viram o seu clarão, mas ele não deslumbrou ninguém, e não foi seguido de medonho estrondo.

Testemunhemos uma das manifestações desse amor.

Uma tarde, Albuquerque, de passagem para o cercado, ouviu o rumor das vozes dos dois jovens em colóquio no oitão da casa. Estavam sentados sobre uma viga de sucupira, que ali esperava, ao tempo, o verão para ir substituir uma trave podre da coberta.

Era longe deles o pensamento de ocultar-se às vistas da família. Encontraram-se por ali casualmente.

Paulo por ocasião de ir verificar quantas formas havia na casa de purgar. Virgínia de caminho para a choupana de uma moradora a quem devia encomendar umas varas de rendas de que precisava Maurícia.

Sentaram-se um momento, e entraram a conversar, sem lhes ocorrer nenhum pensamento de que semelhante passo poderia dar causa a reparos.

A tarde estaca deliciosa. Namorados de outra esfera, namorados da cidade, trocariam ente si, apartados como estavam eles do centro da família, frases de sentido duvidoso, e talvez amplexos e beijos, que arriscassem as canduras que velam as primeiras paixões, como as neblinas ocultam os abismos . Aqueles dois pintassilgos, porém, meigos e inocentes, tinham suaves confidências que eram mais gorjeios do que palavras.

Eis o que eles diziam:

— Caiu? E por meu respeito! Quem o mandou à árvore?

— Queria trazer-lhe estes ingás. O galho, onde pus os pés, estava podre, e vim ao chão antes e tirar as frutas.

— Podia ter-lhe sucedido alguma coisa pior, Paulo. Para que faz isso?

— Como não tinha uma lembrança que lhe trazer, corri às frutas logo que as vi. Eu quero que você saiba, Virgínia, que não me esqueço nunca de você.

— Eu bem sei que você me quer bem. Não é preciso que se exponha a perigos. Não caia em outra, Paulo.

Outra vez foi D. Carolina que deu com eles conversando depois do almoço.

— Volte cedo hoje - dizia Virgínia. Quando você chega já estou cansada de esperar; tenho curtido uma saudade imensa. Assim que me parecem horas, subo ao quarto de mamãe, e da janela olho ao longe; nada de você aparecer! Vejo somente as árvores, os canaviais, os caminhos sem gente. As horas custam a passar. O

sol fica preso no céu, e não anda.

— Que hei de fazer? disse Paulo em resposta. Não sabe que sem mim os negros não trabalham?

— Se mamãe não se agastasse, eu era capaz de ir fazer-lhe companhia no serviço. Que é que tinha?

Levava a minha costura, e tendo-o por junto de mim, sentiria grande prazer no meu trabalho.

Para este rasgo de amor singelo e inocente, Paulo teve uma resposta muda: passou o braço pela cintura de Virgínia e apertou-a contra o peito. A menina inclinou os olhos ao chão e pela primeira vez, sentiu, por um gesto de Paulo, o sangue subir-lhe as faces.

D. Carolina julgou prudente referir o que vira ao marido acrescentando algumas reflexões.

— Já uma vez - disse Albuquerque - achei-os conversando ao lado do alpendre. Sua conversação era inocentes, mas indicava que eles se amam.

— Não será tempo e atalhar este sentimento? Paulo, se as coisas continuarem como vão, virá a perder o casamento com Iaiazinha, e isto seria muito desagradável porque há toda uma conveniência em que se case com a prima.

— E é verdade - tornou Albuquerque; são parentes muito chegados; o sangue é o mesmo. Quanto à fortuna de Iaiazinha pode calcular-se em cem contos de réis. Mas qual o meio de impedir, sem risco de desagradar a D. Maurícia o desenvolvimento destas inclinações? Se Alice não precisasse hoje, mais do que nunca, dos serviços de D. Maurícia, a dispensa destes serviços remediava o mal, e podia realizar-se sem o indício do seu principal motivo; mas devemos acaso arriscar-nos com alguma providência de rigor e perder tão boa mestra? Demais, o que não sucederia nesta casa com semelhante separação? Alice, como você sabe, tem para D. Maurícia afeição de filha; Paulo pelo mesmo. Por aí, calcule quanta tristeza não entraria aqui com a ausência dela. D. Maurícia é muito digna, é até responsável; e se não fosse viver separada do marido, estou quase a dizer-lhe que não haveria desdouro em Paulo casar-se com Virgínia, porque o que verdadeiramente se deve exigir na união conjugal - o amor, este os liga e promete ser indissolúvel. Ora, eu quero a felicidade de meus filhos, e não estou ainda deliberado a aprovar o casamento de Paulo com a prima, cuja educação não me parece boa. Esta é a verdade.

Esta linguagem na boca de Albuquerque era a maior das contradições, e só indicava que os merecimentos de Maurícia e Virgínia tinham dado golpe profundo no preconceito que fora até então a primeira lei moral do senhor do engenho.

— Eu também não estou longe de pensar com você neste ponto. Mas então, vejo lá aonde isso irá ter, porque a afeição deles, com a docilidade que há, irá aumentando de dia em dia, e D. Maurícia não cessa de dizer que nunca mais voltará para a companhia do marido. Veja, então, o que se há de fazer, concluiu D.

Carolina.

Assim como aos olhos dos pais de Paulo os colóquios entre este e Virgínia pareceram depressa adverti-los que deviam velar sobre o futuro do filho, assim também aos de Maurícia eles indicaram os perigos que cercavam sua filha, não obstante a pureza e a grandeza do grande afeto dos dois jovens. Desde que conheceu a inclinação de Virgínia, começou a ter cuidados, vigilância, estremecimentos e apreensões pela menina. “Hoje são puros, ingênuos, infantis” dizia consigo no fundo do aposento, que se lhe havia destinado no sobrado da casa da vivenda. Mas quem me assegura que há de ser sempre um inocente égloga o amor deles? E se Virgínia, ainda quando seja sempre digna do seu nome, viesse Paulo a preferir outra mulher, sua prima por exemplo, quem lhe resgataria o dano que, depois de conhecidas as relações deles dois atualmente, semelhante acontecimento deveria trazer? Que imputações cruéis as línguas viperinas não se julgariam com o direito de irrogar a minha querida filha? Isso não pode continuar assim”.

Maurícia tomou uma resolução súbita, e desceu à sala de visitas, onde Albuquerque estava lendo os jornais daquele dia.

— Sr. Albuquerque - disse ela, não sem rápidos toques de palidez nas faces, e ligeiro tremor na voz -

desculpe que ainda tão cedo venha tomar-lhe o tempo.

— Alguma novidade D. Maurícia? - inquiriu quase sobressaltado o senhor do engenho.

— Tenho por grave e por da maior conta para mim o assunto desta entrevista.

— Sente-se ao pé de mim.

E Albuquerque ofereceu-lhe uma cadeira.

Maurícia não se demorou em falar-lhe nos termos seguintes:

— O Sr. já deve ter conhecido que Paulo e Virgínia se amam, e que seu amor, ao que parece, é puro e desinteressado.

— A senhora faz-me justiça quando diz que eu já devia conhecer a afeição comum ente meu filho e sua filha. De fato, essa afeição de há muito me preocupa.

— Tenho perdido noites de sono somente em cuidar nisso. Vivendo eu e minha filha a bem dizer às suas expensas...

— Não, senhora; em minha casa a senhora tem vivido do seu trabalho.

—... esse amor - prosseguiu Maurícia - poderá parecer a muitos um cálculo para eu melhorar de sorte, ou uma baixa retribuição da hospitalidade que recebemos.

— Em minha casa, Sra. D. Maurícia, não há ninguém, nem os meus escravos, que seja capaz de semelhante aleivosia.

— Eu assim penso, Sr. Albuquerque; mas fora da casa e até fora do engenho não há de faltar quem, por maldade, inveja, ou gosto diabólico se apresse a atirar a lama sobre o véu cândido de uma menina inocente que é digna da melhor sorte.

— Não tenha este receio. Os tempos dos falsos testemunhos já passaram, e a virtude resiste a todas as agressões da maledicência e de todas triunfa.

— Seja como for, tenho como mãe um dever imperioso a preencher neste grave assunto. Venho declarar-lhe positivamente, Sr. Albuquerque, que não há cálculo nem baixeza por parte da minha filha. Se Paulo tem brasões ilustres, sangue limpo corre pelas veias de Virgínia; se Virgínia é pobre, Paulo não é rico; se hoje eu e ela nos sentamos à mesa do Sr. Albuquerque, hoje mesmo podemos deixar vagos os nossos lugares para quem queira prestar os mesmos serviços que estou prestando.

— Conclua, D. Maurícia.

— Concluo, dizendo que preciso saber do Sr. Albuquerque a sua opinião a respeito das relações que entretém seu filho e minha filha.

Albuquerque tinha Maurícia em grande conta, e consagrava-lhe particular estima, que era compartida por todos os da casa. Ao princípio, tivera para ela a maior reserva. Terminadas as lições de Alice, Maurícia subia aos seus aposentos e a família recolhia-se aos que lhe pertencia,. Ficavam as comunicações interrompidas até a hora da refeição, em que Maurícia, descendo com Virgínia, vinha encontrar os donos da casa e sua discípula silenciosos à mesa, esperando por elas. Estas cerimônias duraram por algum tempo.

Albuquerque e D. Carolina estudavam os costumes, os sentimentos, o caráter da mulher a quem tinham dado entrada, por necessidade, no seio da família. Tanto, porém, que reconheceram os largos merecimentos de Maurícia, cortaram o cordão sanitário que os separavam, e foram os primeiros que atraíram à intimidade a hóspede que ainda queria continuar as suas reservas. Então, Maurícia e Virgínia vieram a ser consideradas os primeiros encantos da casa e quase a fazer parte da família. Albuquerque apresentou-as com certo orgulho ás pessoas de representação que vinham passar dias no engenho. Neste, começou a reinar outra ordem de alegrias. Dantes, havia aí lautos jantares, mas sem grande animação; agora, já não era assim; com sua voz divina , Maurícia dava às reuniões o tom de verdadeiros saraus. Com ela, entrara ali a musa da harmonia, que deixava extasiados e saudosos os que iam passar os domingos com Albuquerque.

A brilhante sociedade que já concorria semanalmente ao engenho tornou-se mais freqüente, e aumentou e brilho e número. Um presidente de província foi passar um domingo em Caxangá somente para ouvi-la cantar.

Ouvindo as suas palavras Albuquerque não se deu por ofendido, antes acudiu a dar-lhes o maior apoio, procurando tranqüilizá-la.

— Não tenho sobre este objeto intenção hostil a Virgínia, que eu considero no caso de dar a Paulo a felicidade que ele deseja. Mas o casamento não se realizará senão depois e preenchida uma condição, uma condição única.

— Qual, Sr. Albuquerque? inquiriu a inquieta mãe, sentindo lavar-se no seu espírito, até aquele momento carregado de dúvidas e temores, no mais suave contentamento.

— Estão bem moços ainda; são duas crianças - prosseguiu Albuquerque. No governo da vida, Paulo é um homem perfeito; eu não sei se poderia em caso algum dirigir tão discretamente as minhas ações, e trazer tão bem velados os meus interesses. Mas Paulo, segundo a senhora reconhece, não tem fortuna; agora é que trata de formar pecúlio. Ele desmentiria seu conhecido juízo, se tomasse família sem os meios de a manter decente e dignamente. Talvez que já tenha estes meios, quando se preencher a condição de que lhe falei.

Então, sim, D. Maurícia; o casamento, que nós e eles desejamos, se realizará com satisfação de todos.

— Mas não poderei saber qual é a condição a que o Sr. se refere?

— Permita que por ora não a revele. Em ocasião oportuna, a senhora será sabedora; mas dependendo a condição da sua vontade, ou do tempo, não há razão para supor que prometo o que é impossível. Está satisfeita, minha senhora?

— Estou tranqüila; satisfeita, ainda não, respondeu Maurícia, graciosamente.

— Esperemos pelo tempo - disse Albuquerque.

E

levantou-se.

Maurícia imitou-o, e subiu. Levava um demônio no espírito.

— Que condição será esta? perguntava inquieta a si mesma, e não achava reposta que lançasse um raio de luz sobre este mistério impenetrável.

Neste mesmo dia, Albuquerque, dando parte a sua mulher do que se passara entre ele e Maurícia, disse estas palavras:

— Daqui até que Alice esteja de todo educada, hei de ter conseguido conciliar D. Maurícia com o marido, e então darei a Paulo a felicidade que mais deseja. Talvez, não seja preciso promover-se esta conciliação, à vista das circunstâncias em que ficava o marido de D. Maurícia por ocasião das últimas indagações a que mandei proceder no Pará. Estava pobre e enfermo. Conjeturo que a esta hora o infeliz já não mais existe.

Não chegou a contar-se uma semana que Albuquerque teve a prova de que era mentirosa a sua conjetura.