O Segredo de Emma Corrigan por Sophie Kinsella - Versão HTML

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O segredo de Emma Gorrigan

Sophie Kinsella

Emma Corrigan é como qualquer garota.

Ela tem alguns segredinhos guardados a sete chaves...

Coisas que mamãe nem imagina:

1- Perdi minha virgindade com Danny Nussbaum no quarto de hóspedes,

enquanto ela e papai assistiam a Ben-Hur.

Meu namorado Connor não pode saber de jeito nenhum!

2- Eu peso 61 quilos. E não 56 como ele imagina.

3- Sempre o achei um pouco parecido com o Ken... sim, o namorado da

Barbie.

O pessoal do trabalho não faz idéia:

4- Quando minha colega Artemis realmente me chateia, eu molho a planta

dela com suco de laranja. (O que acontece quase todo dia, hehehe.)

5- Ih!!... Sou eu que sempre travo a impressora.

6- O pessoal da Informática não presta para nada.

Segredos que eu não conto para ninguém, por nada nesse mundo:

7- A calcinha fio-dental está me incomodando.

8- Já menti muito no meu currículo.

9- Não faço idéia do que significa a sigla Otan. Nem mesmo do que se

trata.

... até abrir a boca para um estranho no avião.

Bem, ela achava que fosse um estranho.

A vida de Emma Corrigan não é exatamente um “livro aberto”. Ela tem

segredos que não revela para ninguém, muitos deles sobre seu trabalho e

seu namorado. No entanto, durante uma viagem de avião repleta de

turbulências, ela pensa que vai morrer e acaba contando todos os

segredos para o bonitão ao lado.

Quando o avião aterrissa, Emma se apressa em pedir desculpas a seu

colega de vôo, aliviada em saber que nunca mais verá o lindo confidente.

Nunca mais???

No dia seguinte ela se descabela ao descobrir que o bonitão é

simplesmente Jack Harper, fundador e presidente da Corporação Panther,

em visita ao escritório britânico. A vida tranqüila e bem-sucedida de

Emma – um namorado perfeito e um emprego estável no marketing da

Panther – ameaça ir por água abaixo. De uma hora para outra, ela e suas

amigas Lissy e Jemina se envolvem em uma série de eventos

desastrosos.

Com O Segredo de Emma Corrigan, Sophie Kinsella deixa de lado as

promoções da Saks e da Marks & Spencer e se aventura pelos corredores

corporativos, fazendo das fofocas e escândalos de uma empresa um

prato cheio para os leitores. O livro chegou ao topo das listas dos mais

vendidos na Inglaterra e do jornal The New York Times. É prometida para

breve uma versão cinematográfica da obra, com Kate Hudson (estrela de

Como perder um homem em 10 dias) na pele de Emma.

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SOPHIE KINSELLA é escritora e ex-jornalista de economia. Seu primeiro

emprego foi como assistente júnior em uma revista para aposentados. É

autora dos livros Os delírios de consumo de Becky Bloom, Becky Bloom

– Delírios de consumo na 5ª Avenida e As listas de casamento de Becky

Bloom. Os livros de Sophie foram traduzidos para mais de 30 idiomas.

Quando se senta para escrever, a autora tira o telefone do gancho, pega

uma xícara de café e liga o som no máximo. Em 2005, ela promete tirar da

embalagem o vídeo de Pilates. Como suas personagens, ela adora umas

comprinhas e não resiste a um par de sapatos. Atualmente seu filme

favorito é Brilho eterno de uma mente sem lembranças, a que não cansa

de assistir.

www.sophiekinsella.com

Para H, de quem não guardo segredos.

Bem, pelo menos não muitos.

Agradecimentos

Muitíssimo obrigada a Mark Hedley, Jenny Bond, Rosie Andrews e Olívia

Heywood, pelos conselhos generosos.

E a maior gratidão, como sempre, a Linda Evans, Patrick Plokington-

Smythe, Araminta Whitley e Célia Hayley, meus meninos e a diretoria.

Um

É claro que eu tenho segredos.

Claro que sim. Todo mundo tem. É totalmente normal. Tenho certeza de

que não tenho mais do que ninguém.

Não estou falando de segredos enormes, de abalar a terra. Do tipo “o

presidente dos EUA vai bombardear o Japão e só Will Smith pode salvar

o mundo”. Só segredos normais, segredinhos do dia-a-dia.

Por exemplo, aqui estão alguns ao acaso, que me vieram à cabeça:

1. Minha bolsa Kate Spade é falsa.

2. Adoro licor de xerez, a bebida mais cafona do universo.

3. Não faço idéia do que significa a sigla Otan. Nem do que se trata.

4. Peso 61 quilos. Não 56 como meu namorado Connor acha. (Se bem

que, em minha defesa, eu estava planejando fazer dieta quando falei

isso. E, para ser justa, são só cinco quilinhos a mais.)

5. Sempre achei que Connor se parece um pouquinho com o Ken. O da

Barbie.

6. Às vezes, quando estou bem no meio de uma transa apaixonada, de

repente me dá vontade de soltar uma gargalhada.

7. Perdi minha virgindade no quarto de hóspedes com Danny

Nussbaum, enquanto mamãe e papai assistiam a Ben-Hur no andar

de baixo.

8. Já bebi o vinho que papai mandou guardar por vinte anos.

9. Sammy, o peixinho dourado da casa dos meus pais, não é o mesmo

peixinho dourado que mamãe e papai me pediram para tomar conta

quando foram ao Egito.

10.Quando minha colega Artemis realmente me chateia, eu molho a

planta dela com suco de laranja. (O que acontece praticamente todo

dia.)

11.Uma vez tive um estranho sonho lésbico com Lissy, minha colega

de apartamento.

12.A calcinha fio-dental está me machucando.

13.Sempre tive uma convicção profunda de que não sou como todo

mundo, e que há uma vida nova e incrivelmente empolgante me

esperando ali na esquina.

14.Não faço idéia do que esse cara de terno cinza está falando.

15.Além disso já esqueci o nome dele.

E só o conheci há dez minutos.

- Nós acreditamos em alianças logísticas formativas – continua ele numa

voz nasalada, ressoante – tanto acima quanto abaixo da linha divisória.

- Sem dúvida! – respondo animada, como se dissesse: todo mundo não

concorda?

Logísticas. O que significa isso, afinal?

Meu Deus. E se eles me perguntarem?

Não seja estúpida, Emma. Eles não vão perguntar de repente: “O que

significa logísticas?” Eu também sou uma profissional de marketing, não

sou? Obviamente sei dessas coisas.

E, de qualquer modo, se mencionarem isso de novo eu mudo o assunto.

Ou digo que sou pós-logística ou algo do tipo.

O importante é continuar confiante e parecer profissional. Esta é minha

grande chance e não vou estragá-la.

Estou sentada numa sala na sede da Glen Oil, em Glasgow, e quando

olho meu reflexo na janela pareço uma empresária de sucesso. O cabelo

está alisado, estou usando brincos discretos como mandam nas matérias

sobre “como conseguir aquele emprego”, e estou com meu novo

conjunto Jigsaw, superelegante. (Pelo menos é praticamente novo.

Comprei no bazar da Pesquisa do Câncer e preguei um botão para

substituir o que faltava, e mal dá pra notar.)

Estou aqui representando a Corporação Panther, onde trabalho. A

reunião é para finalizar um acordo promocional entre a nova bebida

esportiva Panther Prime, sabor uva-do-monte, e a Glen Oil. Cheguei

especialmente de Londres hoje cedo, de avião. (A empresa pagou e tudo!)

Quando cheguei, os caras do marketing da Glen Oil começaram uma

conversa comprida, metida a besta, tipo “quem já viajou mais?”, sobre

milhas aéreas e o vôo noturno para Washington – e acho que eu blefei de

modo bem convincente. (Menos quando disse que tinha ido de Concorde

para Ottawa, e por acaso o Concorde não vai a Ottawa.) Mas a verdade é

que esta é a primeira vez que tenho de viajar para fechar um acordo.

Certo. A verdade verdadeira é que este é o primeiro acordo em que eu

trabalho, e ponto final. Estou na Corporação Panther há onze meses,

como assistente de marketing, e até agora só me deixaram digitar

comunicados, marcar reuniões para outras pessoas, pegar sanduíches e

pegar a roupa do meu chefe na lavanderia a seco.

Ou seja, essa é tipo a minha grande oportunidade. E tenho uma

esperançazinha secreta de que, se me der bem, talvez seja promovida. O

anúncio para o emprego dizia “possibilidade de promoção em um ano”, e

na segunda-feira terei a reunião de avaliação anual com meu chefe, Paul.

Li a parte de “Avaliações” na apostila de apresentação aos funcionários,

e ali dizia “uma oportunidade ideal para discutir possibilidades de avanço

na carreira”.

Avanço na carreira! Ao pensar nisso sinto uma familiar pontada de

saudade no peito. Isso mostraria a papai que eu não sou uma fracassada

inútil. E a mamãe. E a Kerry. Se eu pudesse ir para casa e dizer bem

casualmente: “Aliás, eu fui promovida a executiva de marketing.”

Emma Corrigan, executiva de marketing.

Emma Corrigan, vice-presidente (Marketing).

Se tudo der certo hoje. Paul disse que o acordo estava feito, selado e

coisa e tal, e que eu só precisava confirmar com a cabeça e apertar a mão

deles, que até eu deveria ser capaz de fazer isso. E até agora admito que

a coisa está indo bastante bem.

Certo, eu não entendo noventa por cento do que eles estão falando. Mas

também não entendi muito da prova oral de francês no GCSE e mesmo

assim tirei B.

- Reestruturação de marca... análise... relação custo-benefício...

O sujeito de terno cinza ainda está arengando sobre alguma coisa. Do

modo mais casual possível, estendo a mão e puxo seu crachá alguns

centímetros na minha direção, para poder ler.

Doug Hamilton. Isso mesmo. Certo, dá para guardar. Doug. “Dou.” Fácil

de visualizar. Hamil pode virar “ah, meu” ... e...

Certo, esquece. Vou anotar.

Escrevo “reestruturação de marca” e “Doug Hamilton” em meu bloco e

faço um pequeno arabesco. Meu Deus, a calcinha está realmente

desconfortável. Puxa, fio-dental nunca é muito confortável, na melhor das

hipóteses, mas este está particularmente ruim. Deve ser porque é dois

números menor do que deveria.

Com certeza porque Connor comprou pra mim, dizendo à vendedora que

eu pesava 56 quilos. Ela concluiu que meu número devia ser 38. Trinta e

oito!

(Francamente, acho que ela estava sendo má. A vendedora devia saber

que eu estava cascateando.)

De modo que é noite de Natal, nós estamos trocando presentes, e eu

desembrulho uma linda calcinha cor-de-rosa. Tamanho 38. E basicamente

tenho duas opções.

A: confesso a verdade: “Ela é pequena demais, eu sou tipo 42, e, por

sinal, não peso mesmo 56 quilos.” Ou...

B: Me enfio nela nem que tenha de usar calçadeiras.

Na verdade ficou boa. Mal dá para ver as linhas vermelhas na pele depois.

E isso significou que eu precisei cortar todas as etiquetas das minhas

roupas para Connor nunca ficar sabendo.

Não preciso dizer que desde então eu praticamente nunca usei essa

calcinha. Mas de vez em quando olho para ela, tão lindinha e cara na

gaveta, e penso: ah, qual é, não pode ser tão apertada assim, e de algum

modo consigo me enfiar nela. E foi o que fiz hoje cedo. Até decidi que

devia ter perdido peso, porque a sensação não era tão ruim.

Sou uma imbecil iludida.

- ...infelizmente, desde a reestruturação da marca... grande revisão de

conceito... sentimos que precisamos considerar sinergias alternativas...

Até agora só fiquei ali sentada balançando a cabeça, pensando que esse

papo de reunião de negócios é moleza total. Mas agora a voz de Doug

Hamilton começa a cutucar minha consciência. O que ele está dizendo?

- ...dois produtos divergindo... tornando-se incompatíveis...

Que papo é esse de incompatíveis? O que foi aquilo sobre grande revisão

de conceito? Sinto um choque de alarme. Talvez isso não seja só

perfumaria. Talvez ele esteja dizendo alguma coisa. Depressa, escute.

- Nós apreciamos a parceria funcional e sinérgica desfrutada pela Panther

e a Glen Oil no passado – prossegue Doug Hamilton. – Mas você deve

concordar que sem dúvida estamos indo em direções diferentes.

Direções diferentes?

É isso que ele esteve falando todo esse tempo?

Meu estômago dá uma cambalhota ansiosa.

Ele não pode estar...

Ele está tentando cancelar o acordo?

- Com licença, Doug – interrompo com minha voz mais relaxada. – Estou

prestando muita atenção em tudo. Claro... – E dou um sorriso amigável,

do tipo “somos todos profissionais”. – Mas será que você poderia... é...

recapitular a situação para nos esclarecer...

Em inglês simples, imploro silenciosamente.

Doug Hamilton e o outro cara trocaram olhares.

- Nós estamos um pouco insatisfeitos com seus valores de marca –

despeja Doug Hamilton.

- Os valores de marca do produto – corrige ele, me olhando de modo

estranho. – Como estive explicando, nós, da Glen Oil, estamos passando

por um processo de reestruturação de marca e vemos nossa nova

imagem como uma gasolina que se importa, como demonstra nosso novo

logotipo com o narciso. E achamos que a Panther Prime, com sua ênfase

em esporte e competição, é simplesmente agressiva demais.

- Agressiva? – encaro-o, perplexa. – Mas... é uma bebida de frutas.

Isso não faz sentido. A Glen Oil é uma gasolina que faz fumaça e arruína o

mundo. A Panther Prime é uma inocente bebida com sabor de uva-do-

monte. Como pode ser agressiva demais?

- Os valores que ela abarca. – Doug sinaliza para as brochuras de

marketing na mesa. – Impulso. Elitismo. Masculinidade. O próprio slogan:

“Não pare.” Francamente, parece um pouco datado. – Ele dá de ombros. –

Nós simplesmente não achamos possível uma iniciativa conjunta.

Não. Não. Isso não pode estar acontecendo. Ele não pode estar tirando da

reta

Todo mundo no escritório vai pensar que foi minha culpa. Vai pensar que

eu estraguei tudo, que fiz uma merda completa.

Meu coração está martelando. Meu rosto está quente. Não posso deixar

que isso aconteça. Mas o que vou dizer? Não preparei nada. Paul disse

que estava tudo acertado e que eu só precisava apertar a mão deles.

- Com certeza nós vamos discutir isso de novo antes de tomarmos uma

decisão – está dizendo Doug. Ele me dá um sorriso rápido. – E, como eu

disse, gostaríamos de continuar nossa parceria com a Corporação

Panther. Portanto, esta foi uma reunião útil, de qualquer modo.

Ele está empurrando a cadeira para trás.

Não posso deixar isso escapar! Preciso tentar ganhá-los. Tenho de tentar

encerrar o acordo.

Fechar o acordo. É isso que eu quis dizer.

- Esperem! – ouço-me dizendo. – Só... esperem um momento! Eu tenho

alguns pontos para levantar.

De que estou falando? Eu não tenho nenhum ponto a levantar.

Há uma lata de Panther Prime sobre a mesa, e eu a seguro procurando

inspiração. Tentando ganhar tempo, levanto-me, vou até o centro da sala

e ergo a lata para todos poderem ver.

- A Panther Prime é... uma bebida esportiva.

Paro, e há um silêncio educado. Meu rosto está pinicando.

- Ela é... hmm... ela é muito...

Ah, meu Deus. O que eu estou fazendo?

Qual é, Emma. Pense. Pense na Panther Prime... pense na Panther Cola..

pense.. pense...

É! Claro!

Certo, comece de novo.

- Desde o lançamento da Panther Cola no final dos anos 80, as bebidas

Panther têm sido sinônimo de energia, empolgação e excelência –

exclamo com fluidez.

Graças a Deus. Esse é discurso padrão de marketing para a Panther Cola.

Eu o digitei tantos zilhões de vezes que poderia recitá-lo dormindo.

- As bebidas Panther são um fenômeno de marketing – continuo. – O

personagem da pantera é um dos mais reconhecidos no mundo, e o

clássico slogan “Não Pare” acabou entrando nos dicionários. Agora nós

estamos oferecendo à Glen Oil uma oportunidade exclusiva de se juntar a

essa marca valiosa e mundialmente famosa.

Minha confiança está crescendo, começo a andar pela sala, gesticulando

com a lata.

- Ao comprar uma bebida Panther, o consumidor está sinalizando que vai

aceitar apenas o melhor. – Bato na lata com a outra mão. – Ele espera o

máximo de sua bebida energética, espera o máximo de sua gasolina,

espera o máximo de si mesmo.

Estou voando! Sou fantástica! Se Paul pudesse me ver agora, iria me dar

uma promoção no ato!

Vou até a mesa e olho Doug Hamilton direto no olho.

- Quando o consumidor da Panther abre a lata, está fazendo uma escolha

que diz ao mundo quem ele é. Eu estou pedindo que a Glen Oil faça a

mesma escolha.

Quando termino de falar, planto a lata com firmeza no meio da mesa,

ponho o dedo no anel e, com um sorriso maneiro, puxo-o.

É como um vulcão entrando em erupção.

A bebida espumante com sabor uva-do-monte explode num jorro para

fora da lata, pousando na mesa, encharcando os papéis e borradores com

um sinistro líquido vermelho e... ah, não, por favor, não... escorrendo por

toda a camisa de Doug Hamilton.

- Puta que o pariu! – ofego. – Quero dizer, desculpe...

- Meu Deus! – exclama Doug Hamilton irritado, levantando-se e tirando

um lenço do bolso. – Essa coisa mancha?

- Hmm... – seguro a lata, desamparada. – Não sei.

- Vou pegar um pano – anuncia o outro cara e salta de pé.

A porta se fecha atrás dele e há um silêncio, exceto pelo som da bebida

de uva-do-monte pingando lentamente no chão.

Olho para Doug Hamilton com o rosto quente e o sangue latejando nas

orelhas.

- Por favor... – murmuro e pigarreio, com uma rouquidão terrível -, não

conte ao meu chefe.

Depois de tudo... fiz merda.

Arrastando os calcanhares pelo saguão do Aeroporto de Glasgow, sinto-

me completamente arrasada. No fim, Doug Hamilton foi um doce. Disse

que tinha certeza de que a mancha ia sair e prometeu que não contaria a

Paul. Mas não mudou de idéia com relação ao acordo.

Minha primeira reunião importante. Minha primeira grande chance – e é

isso que acontece. Sinto vontade de desistir de tudo. Sinto vontade de

telefonar para o escritório e dizer: “Chega, nunca mais vou voltar e, a

propósito, fui eu que estraguei a copiadora daquela vez.”

Mas não posso. É minha terceira carreira em quatro anos. Tem de dar

certo. Pelo meu próprio bem. Pela minha auto-estima. E também porque

devo quatro mil pratas ao meu pai.

- Então, o que você deseja? – pergunta um cara australiano, e eu levanto

a cabeça atordoada. Cheguei ao aeroporto com uma hora de folga e fui

direto ao bar.

- Hmm... – Minha mente está vazia. – É... vinho tinto. Não, na verdade uma

vodca-tônica. Obrigada.

Enquanto ele se afasta, eu me afrouxo de novo no banco. Uma aeromoça

com coque de trança vem e se senta a dois bancos de distância. Sorri

para mim, e eu dou um sorriso débil de volta.

Não sei como as outras pessoas administram a carreira, realmente não

sei. Como minha amiga mais antiga, Lissy. Ela sempre soube que queria

ser advogada – e agora: tchã-ram! É advogada de defraudações. Mas eu

saí da faculdade sem a mínima pista. Meu primeiro emprego foi numa

corretora de imóveis, e só entrei para lá porque sempre gostei de olhar

casas, e conheci uma mulher com incríveis unhas pintadas de vermelho

numa feira de carreiras, e ela disse que ganhava tanto dinheiro que

poderia se aposentar aos 40 anos.

Mas, no minuto em que comecei, odiei. Odiei todos os outros corretores

estagiários. Odiei ter de falar coisas como “uma vista adorável”. E odiei

ter de dar detalhes de casas que custasse pelo menos quatrocentas mil

libras quando os compradores diziam poder comprar uma de trezentas

mil libras, depois olhá-los de cima, tipo “Você só tem trezentas mil libras?

Meu Deus, coitado de você”.

Assim, depois de seis meses anunciei que ia mudar de carreira e ia ser

fotógrafa. Foi um momento tremendamente fantástico, como num filme

ou sei lá o quê. Meu pai emprestou o dinheiro para um curso de fotografia

e a máquina, e eu ia me lançar numa carreira criativa e espantosamente

nova, e ia ser o início da vida nova...

Só que não aconteceu exatamente assim.

Quero dizer, para começar, você sabe quanto ganha um assistente de

fotógrafo?

Nada. Não é nada.

O que, você sabe, não me importaria se alguém tivesse me oferecido um

cargo de assistente de fotógrafo.

Solto um suspiro pesado e olho para minha expressão digna de pena no

espelho atrás do balcão. Além de todo o resto, meu cabelo, que eu alisei

cuidadosamente com um produto especial hoje cedo, ficou todo crespo.

Típico.

Pelo menos não fui a única que não chegou a lugar nenhum. Das oito

pessoas do meu curso, uma teve sucesso instantâneo e agora tira fotos

para a Vogue e coisa e tal, uma se tornou fotógrafa de casamentos, uma

teve um caso com o professor, uma foi viajar, uma teve um bebê, uma

trabalha na Snappy Snaps e uma está na Morgan Stanley.

Enquanto isso eu me endividei cada vez mais e comecei fazendo serviços

temporários e me candidatando a empregos que pagassem alguma coisa.

E por fim, há onze meses, comecei como assistente de marketing na

Corporação Panther.

O barman coloca uma vodca-tônica na minha frente e me lança um olhar

interrogativo.

- Não fique assim – tenta me consolar. – Não pode ser tão grave!

- Obrigada. – Tomo um gole. A sensação é um pouco melhor. Estou

tomando o segundo gole quando meu celular começa a tocar.

Meu estômago dá uma cambalhota nervosa. Se for do escritório, vou

fingir que não ouvi.

Mas não é, é o número de minha casa piscando na telinha.

- Oi – atendo, apertando o verde.

- Oi! – É a voz de Lissy. – Sou eu! E aí, como foi?

Lissy é minha colega de apartamento e minha amiga mais antiga. Tem

cabelos escuros espetados e mais ou menos 600 de QI e é a pessoa mais

doce do mundo.

- Um desastre – respondo arrasada.

- O que aconteceu? Não conseguiu o contrato?

- Não consegui o contrato e ainda dei um banho no diretor de marketing

da Glen Oil com bebida de uva-do-monte.

Mais adiante no balcão vejo a aeromoça escondendo um sorriso, e me

sinto ficar vermelha. Ótimo. Agora o mundo inteiro sabe.

- Caramba. – Quase posso sentir Lissy tentando pensar em algo positivo

para dizer. – Pelo menos você atraiu a atenção deles – exclama,

finalmente. – Pelo menos não vão esquecer você depressa.

- Pode ser – digo com a voz mole. – E aí, tem algum recado para mim?

- Ah! Hmm... não. Quero dizer, o seu pai ligou, mas... hmm... você sabe...

não foi... – Ela deixa no ar, evasivamente.

- Lissy. O que ele queria?

Há uma pausa.

- Parece que sua prima ganhou um prêmio profissional – conta ela, como

se pedisse desculpas. – Eles vão comemorar no sábado, junto com o

aniversário da sua mãe.

- Ah. Que bom.

Afundo ainda mais no banco. É só disso que preciso. Minha prima Kerry

segurando em triunfo algum troféu prateado de “melhor agente de

viagens do mundo, não, do universo”.

- E Connor também ligou, para ver como você estava – acrescenta Lissy

rapidamente. – Ele foi mesmo um amor, disse que não queria ligar para o

seu celular durante a reunião, para não atrapalhar você.

- Verdade?

Pela primeira vez, hoje, sinto um leve ânimo.

Connor. Meu namorado. Meu namorado amoroso e sensível.

- Ele é um doce! – continua Lissy. – Disse que estava preso numa reunião

importante a tarde toda, mas que cancelou o jogo de squash e perguntou

se você quer jantar esta noite.

- Ah – exclamo com um tremor de prazer. – vai ser legal. Obrigada, Lissy.

Desligo e tomo outro gole de vodca, me sentindo muito mais animada.

Meu namorado.

É como Julie Andrews dizia. Quando o cachorro morde, quando a abelha

pica... simplesmente lembro que tenho um namorado – e de repente as

coisas não parecem mais uma merda tão completa.

Ou sei lá como ela falava.

E não é um namorado qualquer. Um namorado alto, bonito, inteligente,

que a Marketing Week chamou de “uma das mentes mais brilhantes da

pesquisa de marketing atual”.

Fico sentada acalentando minha vodca, deixando que os pensamentos

em Connor fiquem rolando no cérebro e me consolem. O cabelo louro

dele brilhando ao sol, o sorriso que não sai do rosto. O favor que me fez

atualizando todos os programas do meu computador sem que eu nem

mesmo pedisse, e o modo como ele... ele...

Minha mente fica vazia. Isso é ridículo. Quero dizer, há muita coisa

maravilhosa em Connor. Tipo... as pernas compridas. É. E os ombros

largos. Até a vez em que ele cuidou de mim quando eu fiquei gripada.

Puxa, quantos namorados fazem isso? Pois é.

Eu tenho muita sorte, tenho mesmo.

Guardo o telefone, passo os dedos pelo cabelo e olho o relógio atrás do

balcão. Faltam quarenta minutos para o vôo. Agora não é muito. O

nervosismo começa a se arrastar sobre mim como pequenos insetos, e

tomo um gole comprido de vodca, esvaziando o copo.

Vai ficar tudo bem, digo a mim mesma pela zilhonésima vez. Vai ficar

totalmente ótimo.

Não estou apavorada. Só estou... só estou...

Certo. Estou apavorada.

16.Eu morro de medo de avião.

Nunca disse a ninguém que tenho medo de avião. É que parece tão idiota!

E, puxa, não é que eu tenha fobia nem nada. Não é que eu não consiga

entrar no avião. É só que... se pudesse, só ficava em terra.

Antigamente eu não sentia medo. Mas nos últimos anos fui ficando cada

vez mais nervosa. Sei que é totalmente irracional. Sei que milhares de

pessoas andam de avião todo dia e é praticamente mais seguro do que

ficar deitada na cama. A gente tem menos chance de sofrer um acidente

aéreo do que... do que de achar um homem em Londres, ou algo do tipo.

Mas mesmo assim. Simplesmente não gosto.

Acho que vou pedir outra vodca rápida.

Quando o vôo é anunciado, já tomei mais duas vodcas e estou me

sentindo mais positiva. Quero dizer, Lissy está certa. Pelo menos causei

uma impressão, não foi? Pelo menos eles vão se lembrar de quem eu

sou. Enquanto vou para o portão de embarque, segurando minha pasta,

quase começo a me sentir de novo uma empresária confiante. Algumas

pessoas sorriem para mim quando passam, e eu dou um largo sorriso de

volta, sentindo um calor de amizade. Veja bem. O mundo não é tão ruim,

afinal de contas. É só uma questão de ser positiva. Qualquer coisa pode

acontecer na vida, não é? Nunca se sabe o que há depois da próxima

esquina.

Chego à porta do avião, e ali, pegando os cartões de embarque, está a

aeromoça com coque de trança que eu vi sentada no bar, antes.

- Oi, de novo – digo sorrindo. – Que coincidência!

A aeromoça me encara.

- Oi. Hmm...

- O quê?

Por que ela parece sem graça?

- Desculpe. É só que... você viu que... – Ela sinaliza sem jeito para a minha

frente.

- O que é? – pergunto, em um tom agradável. Olho para baixo e congelo,

pasma.

Não sei como, minha blusa de seda foi se desabotoando enquanto eu

andava. Três botões se abriram e ela ficou toda escancarada na frente.

Meu sutiã está aparecendo. O sutiã de renda cor-de-rosa. O que ficou

meio frouxo depois da lavagem.

Era por isso que todo mundo estava sorrindo para mim. Não porque o

mundo é um lugar bom, mas porque eu sou a mulher do sutiã cor-de-rosa

deformado.

- Obrigada – murmuro, e abotôo a blusa com os dedos desajeitados, o

rosto quente de humilhação.

- Não está sendo seu dia de sorte, não é? – consola a aeromoça com

simpatia, estendendo a mão para meu cartão de embarque. – Desculpe,

eu não pude deixar de ouvir.

- Tudo bem. – Forço um meio sorriso. – É, não está sendo o melhor dia da

minha vida. – Há um silêncio curto enquanto ela examina meu cartão de

embarque.

- Vou sugerir uma coisa – ela baixa a voz. – Você gostaria de ficar numa

classe melhor?

- O quê? – Encaro-a como rosto vazio.

- Anda! Você merece uma folga.

- Verdade. Mas... vocês podem trocar as pessoas de classe, assim?

- Se houver lugares vazios, podemos. Nós usamos nosso critério. E este

vôo é muito curto. – Ela me dá um sorriso conspiratório. – Só não

espalha, certo?

Ela me leva para a parte da frente do avião e aponta para uma poltrona

grande, larga, confortável. Nunca me puseram numa classe melhor na

vida! Nem posso acreditar que ela está me proporcionando isso.

- Aqui é a primeira classe? – sussurro, absorvendo a atmosfera calma e

luxuosa. Um homem de terno elegantes está digitando num laptop à

minha direita, e duas senhoras idosas no canto estão colocando fones de

ouvido.

- Classe executiva. Não há primeira classe neste vôo. – Ela ergue a voz

até o volume normal. – Está tudo bem para você?

- Perfeito! Muito obrigada.

- Tudo bem. – Ela sorri de novo e se afasta, e eu enfio a pasta embaixo da

poltrona da frente.

Uau. Isso é realmente um barato. Poltronas grandes e largas, descansos

para os pés e tudo. Vai ser uma experiência completamente prazerosa do

início ao fim, digo a mim mesma com firmeza. Puxo o cinto de segurança

e o fecho com um gesto casual, tentando ignorar os tremores de

apreensão na barriga.

- Gostaria de champanha?

É minha amiga aeromoça, rindo.

- Seria ótimo. Obrigada!

Champanha!

- E para o senhor? Champanha?

O homem na poltrona ao lado da minha ainda nem levantou a cabeça.

Está usando jeans e um suéter velho e olha pela janela. Quando se vira

para responder eu capto um vislumbre de olhos escuros, barba crescida;

um franzido vertical desenhado na testa.

- Não, obrigado. Só um conhaque. Obrigado.

Sua voz é seca e tem sotaque americano. Estou para perguntar

educadamente de onde ele é, mas logo ele se vira de volta e olha pela

janela outra vez.

O que é ótimo porque, para ser honesta, também não estou muito no

clima para conversar.

Dois

Certo. A verdade é a seguinte: não gosto disso.

Sei que é classe executiva, sei que tudo é um luxo maravilhoso. Mas

mesmo assim meu estômago está com um nó de medo.

Enquanto decolávamos eu contei muito devagar, com os olhos fechados,

e isso meio que deu certo. Mas fiquei sem fôlego mais ou menos o 350.

Então fico só sentada, bebericando champanha, lendo uma matéria na

Cosmopolitan sobre “30 coisas para fazer antes de você fazer 30 anos”.

Estou me esforçando um bocado para parecer uma alta executiva de

marketing na classe executiva. Mas, ah, meu Deus. Cada sonzinho

minúsculo me assusta; cada tremor me faz prender o fôlego.

Com um verniz externo de calma, pego o cartão plastificado de instruções

e passo o olhar por elas. Saídas de emergência. Posição cabeça entre as

pernas. Se for necessário colete salva-vidas, por favor ajude primeiro os

idosos e as crianças. Ah, meu Deus...

Por que eu estou olhando isso? Em que vai me ajudar ficar olhando as

imagens de pessoazinhas pulando no oceano com o avião explodindo

atrás? Enfio as instruções de segurança rapidamente de volta na bolsa da

poltrona e tomo um gole de champanha.

- Com licença, senhora. – Uma aeromoça de cachos ruivos apareceu ao

meu lado. – A senhora está viajando a negócios?

- Sim – respondo, alisando o cabelo com uma pontada de orgulho. –

estou.

Ela me entregou um folheto intitulado “Instalações executivas”, onde há

uma foto de empresários conversando animadamente na frente de uma

tabuleta com um gráfico.

- São informações sobre nossa nova sala da classe executiva no

aeroporto de Gatwick. Nós oferecemos instalações para teleconferências

e salas de reunião. Estaria interessada?

Certo. Eu sou uma alta executiva. Sou uma alta executiva viajando em

classe executiva.

- É possível – respondo, olhando casualmente para o panfleto. – Sim, eu

poderia usar uma dessas salas para... passar informações para minha

equipe. Eu tenho uma equipe grande, e obviamente eles precisam de

muitas informações. Sobre negócios. – Pigarreio. – Principalmente...

logísticas.

- Gostaria de que eu marcasse uma sala para a senhora agora? – sugere a

aeromoça, solícita.

- Hmm, não, obrigada – digo depois de uma pausa. – No momento minha

equipe está... em casa. Eu dei o dia de folga a todo mundo.

- Certo. – A aeromoça parece meio perplexa.

- Mas quem sabe em outra ocasião – continuo, rapidamente. – E já que

você veio aqui, eu estava imaginando. Esse som é normal?

- Que som? – A aeromoça inclina a cabeça.

- Esse. Esse zumbido, vindo da asa.

- Não estou ouvindo nada. – Ela me olha com simpatia. – A senhora fica

nervosa em aviões?

- Não! – exclamo imediatamente, e dou um risinho. – Não, não fico

nervosa! Só... estava imaginando. Só por interesse.

- Verei se consigo descobrir para a senhora – promete ela, gentil. – Aqui

está, senhor. Algumas informações sobre nossas instalações executivas

no Gatwick.

O americano pega seu folheto sem dizer nada e o deixa de lado sem ao

menos olhar, e a aeromoça vai em frente, cambaleando um pouco quando

o avião dá uma sacudida.

Por que o avião está sacudindo?

Ah, meu Deus. Um súbito jorro de medo me ataca sem aviso. Isso é

loucura. Loucura! Ficar sentada nessa caixa enorme e pesada, sem ter

como sair, milhares e milhares de metros acima do chão...

Não consigo suportar sozinha. Tenho uma necessidade avassaladora de

falar com alguém. Alguém que me tranqüilize. Alguém seguro.

Connor.

Instintivamente pesco o celular, mas a aeromoça vem correndo.

- Sinto muito, mas não é permitido usar o aparelho a bordo do avião –

informa ela com um sorriso luminoso. – Poderia deixá-lo desligado?

- Ah... desculpe.

Claro que não posso usar o celular. Eles só disseram isso mais ou menos

cinqüenta e cinco zilhões de vezes. Sou uma retardada. De qualquer

modo, não faz mal. Não importa. Eu estou bem. Guardo o telefone na

bolsa e tento me concentrar num velho episódio de Fawlty Towers que

está passando no telão.

Talvez eu comece a contar de novo. Trezentos e quarenta e nove.

Trezentos e cinqüenta. Trezentos e...

Porra. Minha cabeça levanta bruscamente. O que foi essa sacudida?

Alguma coisa bateu na gente?

Certo, não entre em pânico. Foi só uma sacudida. Tenho certeza de que

está tudo bem. Onde é que eu estava?

Trezentos e cinqüenta e um. Trezentos e cinqüenta e dois. Trezentos e

cinqüenta...

E é isso aí.

Esse é o momento.

Tudo parece se fragmentar.

Ouço os gritos como uma onda na cabeça, quase antes de perceber o que

está acontecendo.

Ah meu Deus. Ah meu Deus Ah meu Deus Ah meu Deus Ah meu Deus

Ah... Ah... NÃO. NÃO. NÃO.

Estamos caindo. Ah, meu Deus, estamos caindo.

Estamos mergulhando. O avião está caindo pelo ar como uma cabeça no

teto. Está sangrando. Eu estou ofegando, agarrando-me a poltrona,

tentando não fazer a mesma coisa, mas me sinto sendo levada para cima,

é como se alguém estivesse me puxando, como se a gravidade

subitamente tivesse se invertido... Malas voam, bebidas se derramam,

uma tripulante caiu, está agarrando uma poltrona...

Ah meu Deus. Ah meu Deus. Certo, agora está ficando mais devagar.

Está... está melhor.

Porra. Eu simplesmente... eu simplesmente não posso. Eu...

Olho para o americano, e ele está segurando o assento com tanta força

quanto eu.

Estou com vontade de vomitar. Acho que vou vomitar. Ah meu Deus.

Certo. Está... está meio que... voltando ao normal.

- Senhoras e senhores – vem uma voz pelo auto-falante, e a cabeça de

todo mundo se levanta bruscamente. – Aqui fala o capitão.

Meu coração está dando cambalhotas. Não consigo ouvir. Não consigo

pensar.

- Estamos enfrentando um pouco de turbulência, e as coisas podem ficar

agitadas durante algum tempo. Liguei os avisos para apertar os cintos e

gostaria que todos voltassem aos seus lugares o mais rápido poss...

Há outro repelão enorme, e a voz dele é abafada por gritos em todo o

avião.

É como um pesadelo. Um pesadelo de montanha-russa.

Os tripulantes estão se sentando e prendendo os cintos. Uma das

aeromoças está enxugando sangue no rosto. Há um minuto elas estavam

todas felizes distribuindo amendoim doce.

É isso que acontece com outras pessoas em outros aviões. Pessoas nos

vídeos sobre segurança. Não comigo.

- Por favor, fiquem calmos – insiste o capitão. – Assim que tivermos mais

informações...

Ficar calma? Eu não consigo respirar, quanto mais ficar calma. O que nós

vamos fazer? Temos de ficar aqui sentados enquanto o avião corcoveia