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O Segundo Sexo, vol.1: Fatos e Mitos por Simone de Beauvoir - Versão HTML

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OBRAS DO MESMO AUTOR

L'invitêe

Tous les hommes sont mortels

Le sang des autres

Les mandarins

Les bouches mutiles

Pyrrhus et Cinéas

Pour une morale de l'ambigüité

L'Amérique au jour le jour

Privilèges

La longue marche

Le deuxième sexe:

I. Les faits et les mythes

II. L'expériense vécue

Mémoires d'une jeune filie rangée

La force de l'âge

La force des choses

Les belles images

La femme rompue

Une mort très douce

Djamila Boupacha (em colaboração com Gisèle HALAMI)

já traduzidas

pela DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO

A convidada

O Segundo Sexo:

1. Fatos e Mitos

2. A Experiência Vivida

Memórias de uma Moça Bem Comportada

Na Força da Idade, 2 v.

Sob o Signo da História, 2 v.

Os Mandarins, 2 v.

As Belas Imagens

A Mulher Desiludida

O Sangue dos Outros

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S I M O N E

D E B E A U V O I R

O

SEGUNDO

SEXO

1. FATOS E M I T O S

4 . a E D I Ç Ã O

TRADUÇÃO DE SÉRGIO MILLIET

CAPA DE FERNANDO L E M O S

D I F U S Ã O E U R O P É I A D O L I V R O

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Título do original:

LE DEUXIÊME SEXE

LES FAITS ET LES MYTHES

a J A C Q U E S BOST

Há um principio bom que criou a

ordem, a luz e o homem, e um prin-

cípio mau que criou o caos, as tre-

vas e a mulher.

PITÁGORAS

T u d o o que os homens escreveram

sobre as mulheres deve ser suspeito, pois

eles são, a um tempo, juiz e parte.

POULAIN DE LA B A R R E

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HESITEI muito tempo em escrever um livro sobre a mulher.

O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E

não é novo. A querela do feminismo deu muito que falar:

agora está mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nis-

so. . . No entanto, ainda se fala dela. E não parece que as

volumosas tolices que se disseram neste último século tenham

realmente esclarecido a questão. Demais, haverá realmente um

problema? Em que consiste? Em verdade, haverá mulher? Sem

dúvida, a teoria do eterno feminino ainda tem adeptos; cochi-

cham: "Até na Rússia elas permanecem mulheres". Mas outras pessoas igualmente bem informadas — e por vezes as mesmas —

suspiram: "A mulher se está perdendo, a mulher está perdida".

Não sabemos mais exatamente se ainda existem mulheres, se

existirão sempre, se devemos ou não desejar que existam, que

lugar ocupam no mundo ou deveriam ocupar". "Onde estão as

mulheres?", indagava há pouco uma revista intermitente (1). Mas

antes de mais nada: que é uma mulher? "Tota mulier in utero:

é uma matriz", diz alguém. Entretanto, falando de certas mu-

lheres, os conhecedores declaram: "Não são mulheres", embora

tenham um útero como as outras. Todo mundo concorda em que

há fêmeas na espécie humana; constituem, hoje, como outrora,

mais ou menos a metade da humanidade; e contudo dizem-nos

que a feminilidade "corre perigo"; e exortam-nos: "Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres". Todo ser

humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mu-

lher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada

que é a feminilidade. Será esta secretada pelos ovários? Ou

estará congelada no fundo de um céu platônico? E bastará uma

saia ruge-ruge para fazê-la descer à terra? Embora certas mu-

lheres se esforcem por encarná-lo, o modelo nunca foi registrado.

Descreveram-no de bom grado em termos vagos e mirabolantes

que parecem tirados de empréstimo do vocabulário das videntes.

No tempo de Sto. Tomás, ela se apresentava como uma essência

(1) Não se publica mais: chamava-se Franchise.

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tão precisamente definida quanto a virtude dormitiva da papoula.

Mas o conceitualismo perdeu terreno: as ciências biológicas e

sociais não acreditam mais na existência de entidades imutàvel-

mente fixadas, que definiriam determinados caracteres como os

da mulher, do judeu ou do negro; consideram o caráter como

uma reação secundária a uma situação. Se hoje não há mais

feminilidade, é porque nunca houve. Significará isso que a pa-

lavra "mulher" não tenha nenhum conteúdo? Ê o que afirmam

vigorosamente os partidários da filosofia das luzes, do raciona-

lismo, do nominalismo: as mulheres, entre os seres humanos,

seriam apenas os designados arbitrariamente pela palavra "mu-

lher". Os norte-americanos, em particular, pensam que a mulher,

como mulher, não existe mais; se uma retardada ainda se ima-

gina mulher, as amigas aconselham-na a se fazer psicanalisar

para livrar-se dessa obsessão. A propósito de uma obra, de resto

assaz irritante, intitulada Modern Woman: a lost sex, Dorothy

Parker escreveu: "Não posso ser justa em relação aos livros que tratam da mulher como mulher... Minha idéia é que todos,

homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser con-

siderados seres humanos". Mas o nominalismo é uma doutrina

um tanto limitada; e os antifeministas não têm dificuldade em

demonstrar que as mulheres não são homens. Sem dúvida, a

mulher é, como o homem, um ser humano. Mas tal afir-

mação é abstrata; o fato é que todo ser humano concreto

sempre se situa de um modo singular. Recusar as noções de

eterno feminino, alma negra, caráter judeu, não é negar que

haja hoje judeus, negros e mulheres; a negação não representa

para os interessados uma libertação e sim uma fuga inautên-

tica. É claro que nenhuma mulher pode pretender sem má-fé

situar-se além de seu sexo. Uma escritora conhecida recusou-se

a deixar que saísse seu retrato numa série de fotografias con-

sagradas precisamente às mulheres escritoras: queria ser incluída

entre os homens, mas para obter esse privilégio utilizou a in-

fluência do marido. As mulheres que afirmam que são homens

não dispensam, contudo, as delicadezas e as homenagens masculi-

nas. Lembro-me também duma jovem trotskista em pé num

estrado, no meio de um comício violento e que se dispunha a

dar pancadas, apesar de sua evidente fragilidade; negava sua

fraqueza feminina; mas era por amor a um militante a quem

desejava ser igual. A atitude de desafio dentro da qual se cris-

pam as norte-americanas prova que são dominadas pelo senti-

mento de sua feminilidade. E, em verdade, basta passear de

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olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em

duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sor-

risos, atitudes, interesses, ocupações são manifestamente dife-

rentes: talvez essas diferenças sejam superficiais, talvez se desti-

nem a desaparecer. O certo é que por enquanto elas existem

com uma evidência total.

Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se

nos recusamos também explicá-la pelo "eterno feminino" e se,

no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mu-

lheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma

mulher ?

O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira

resposta. É significativo que eu coloque esse problema. Um ho-

mem não teria a idéia de escrever um livro sobre a situação sin-

gular que ocupam os machos na humanidade (1). Se quero defi-

nir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: "Sou uma mulher".

Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer

outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar

como um indivíduo de determinado sexo: que seja homem é

natural. É de maneira formal, nos registros dos cartórios ou

nas declarações de identidade que as rubricas, masculino, femi-

nino, aparecem como simétricas. A relação dos dois sexos não

é a das duas eletricidades, de dois pólos. O homem representa

a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos "os

homens" para designar os seres humanos, tendo-se assimilado

ao sentido singular do vocábulo vir o sentido geral da palavra

homo. A mulher aparece como o negativo, de modo que toda

determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade.

Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir

os homens dizerem-se: "Você pensa assim porque é uma mu-

lher". Mas eu sabia que minha única defesa era responder:

"penso-o porque é verdadeiro", eliminando assim minha subje-

tividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: "E

você pensa o contrário porque é um homem", pois está suben-

tendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade;

um homem está em seu direito sendo homem, é a mulher que

está errada. Praticamente, assim como para os Antigos havia

uma vertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua,

(1) O relatório Kinsey, por exemplo, limita-se a definir as ca-

racterísticas sexuais do homem norte-americano, o que é muito diferente.

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há um tipo humano absoluto que é o masculino. A mulher

tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encer-

ram na sua subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa

com suas glândulas. O homem esquece soberbamente que sua

anatomia também comporta hormônios e testículos. Encara o

corpo como uma relação direta e normal com o mundo que

acredita apreender na sua objetividade, ao passo que considera

o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica:

um obstáculo, uma prisão. "A fêmea é fêmea em virtude de

certa carência de qualidades", diz Aristóteles. "Devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência

natural". E Sto. Tomás, depois dele, decreta que a mulher é

um homem incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza

a história do Gênese em que Eva aparece como extraída, segundo

Bossuet, de um "osso supranumerário" de Adão. A humanidade

é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativa-

mente a êle; ela não é considerada um ser autônomo. "A mu-

lher, o ser relativo...", diz Michelet. E é por isso que Benda

afirma em Rapport d'Uriel: "O corpo do homem tem um sentido

em si, abstração feita do da mulher, ao passo que este parece

destituído de significação se não se evoca o macho... O homem

é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem". Ela não

é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o "sexo"

para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser

sexuado: para êle, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente.

A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem

e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o

essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro (1).

(1) Essa idéia foi expressa em sua forma mais explícita por E.

Levinas em seu ensaio sobre Le Temps et l'Autre. Assim se exprime êle: "Não haveria uma situação em que a alteridade definiria um ser

de maneira positiva, como essência? Qual é a alteridade que não en-

tra pura e simplesmente na oposição das duas espécies do mesmo gê-

nero? Penso que o contrário absolutamente contrário, cuja contrarie-

dade não é em nada afetada pela relação que se pode estabelecer en-

tre si e seu correlativo, a contrariedade que permite ao termo perma-

necer absolutamente outro, é o feminino. O sexo não é uma diferença

específica qualquer. . . A diferença dos sexos não é tampouco uma

contradição. . . Não é também a dualidade de dois termos comple-

mentares, porque esses dois termos complementares supõem um todo

p r e e x i s t e n t e . . . A alteridade realiza-se nc feminino. Termo do mesmo quilate mas de sentido oposto à consciência".

Suponho que Levinas não esquece que a mulher é igualmente

consciência para si. Mas é impressionante que adote deliberadamente

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A categoria do Outro é tão original quanto a própria cons-

ciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mito-

logias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e

a do Outro. A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o

signo da divisão dos sexos, não depende de nenhum dado empí-

rico: é o que se conclui, entre outros, dos trabalhos de Granet

sobre o pensamento chinês de Dumézil sobre as índias e Roma.

Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum

elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco

na oposição do Bem ao Mal, dos princípios fastos e nefastos, da

direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma

categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma cole-

tividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente

a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso

num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes

se tornem "os outros" vagamente hostis. Para os habitantes de

uma aldeia, todas as pessoas que não pertencem ao mesmo luga-

rejo são "outros"' e suspeitos; para os habitantes de um país,

os habitantes de outro país são considerados "estrangeiros". Os

judeus são "outros" para o anti-semita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários

para as classes dos proprietários. Ao fim de um estudo apro-

fundado das diversas figuras das sociedades primitivas, Lévi-

-Strauss pôde concluir: "A passagem do estado natural ao esta-

do cultural define-se pela aptidão por parte do homem em pensar

as relações biológicas sob a forma de sistemas de oposições: a

dualidade, a alternância, a oposição e a simetria, que se apresen-

tam sob formas definidas ou formas vagas, constituem menos

fenômenos que cumpre explicar que os dados fundamentais e

imediatos da realidade social(l). Tais fenômenos não se com-

preenderiam se a realidade humana fosse exclusivamente um

mitsein baseado na solidariedade e na amizade. Esclarece-se,

ao contrário, se, segundo Hegel, descobre-se na própria consciên-

um ponto de vista de homem sem assinalar a reciprocidade do sujeito

e do objeto. Quando escreve que a mulher é mistério, subentende que

é mistério para o homem. De modo que essa descrição que se apre-

senta com intenção objetiva é, na realidade, uma afirmação do pri-

vilégio masculino.

(1) Ver C. Lévi-Strauss, Les Structures élémentaires de la Pa-

renté. Agradeço a Lévi-Strauss a gentileza de me ter comunicado as provas de sua tese que, entre outras, aproveitei amplamente na segunda

parte, págs. 86-102.

11

cia uma hostilidade fundamental em relação a qualquer outra

consciência; o sujeito só se põe em se opondo: êle pretende afir-

mar-se como essencial e fazer do outro o inessencial, o objeto.

Só que a outra consciência lhe opõe uma pretensão recíproca:

em viagem, o nativo percebe com espanto que há, nos países

vizinhos, nativos que o encaram, eles também, como estrangeiro;

entre aldeias, clãs, nações, classes, há guerras, potlatchs, tratados, lutas que tiram o sentido absoluto da idéia do Outro e descobrem-lhe a relatividade; por bem ou por mal os indivíduos e os

grupos são obrigados a reconhecer a reciprocidade de suas rela-

ções. Como se entende, então, que entre os sexos essa recipro-

cidade não tenha sido colocada, que um dos termos se tenha

imposto como o único essencial, negando toda relatividade em

relação a seu correlativo, definindo este como a alteridade pura?

Por que as mulheres não contestam a soberania do macho? Ne-

nhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como ines-

sencial; não é o Outro que definindo-se como Outro define o

Um; êle é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um.

Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que

se sujeite a esse ponto de vista alheio. De onde vem essa sub-

missão na mulher?

Existem outros casos em que, durante um tempo mais ou

menos longo, uma categoria conseguiu dominar totalmente a

outra. É muitas vezes a desigualdade numérica que confere esse

privilégio: a maioria impõe sua lei à minoria ou a persegue.

Mas as mulheres não são, como os negros dos Estados Unidos ou

os judeus, uma minoria; há tantos homens quantas mulheres na

terra. Não raro, também os dois grupos em presença foram

inicialmente independentes; ignoravam-se antes ou admitiam cada

qual a autonomia do outro; e foi um acontecimento histórico

que subordinou o mais fraco ao mais forte: a diáspora judaica,

a introdução da escravidão na América, as conquistas coloniais

são fatos precisos. Nesses casos, para os oprimidos, houve um

passo à frente: têm em comum um passado, uma tradição, por

vezes uma religião, uma cultura. Nesse sentido, a aproximação

estabelecida por Bebei entre as mulheres e o proletariado seria

mais lógica: os proletários tampouco não estão em estado de

inferioridade e nunca constituíram uma coletividade separada.

Entretanto, na falta de um acontecimento, é um desenvolvimento

histórico que explica sua existência como classe e mostra a dis-

tribuição desses indivíduos dentro dessa classe. Nem sempre

houve proletários, sempre houve mulheres. Elas são mulheres

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em virtude de sua estrutura fisiológica; por mais longe que se

remonte na história, sempre estiveram subordinadas ao homem:

sua dependência não é conseqüência de um evento ou de uma

evolução, ela não aconteceu. E, em parte, porque escapa ao

caráter acidental do fato histórico que a alteridade aparece aqui

como um absoluto. Uma situação que se criou através dos

tempos pode desfazer-se num dado tempo: os negros do Haiti,

entre outros, bem que o provaram. Parece, ao contrário, que

uma condição natural desafia qualquer mudança. Em verdade,

a natureza, como a realidade histórica, não é um dado imutável.

Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao

essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno. Os pro-

letários dizem "nós". Os negros também. Apresentando-se como

sujeitos, eles transformam em "outros" os burgueses, os brancos.

As mulheres — salvo em certos congressos que permanecem ma-

nifestações abstratas — não dizem "nós". Os homens dizem "as mulheres" e elas usam essas palavras para se designarem a

si mesmas: mas não se põem autenticamente como Sujeito. Os

proletários fizeram a revolução na Rússia, os negros no Haiti,

os indo-chineses bateram-se na Indo-China: a ação das mulheres

nunca passou de uma agitação simbólica; só ganharam o que

os homens concordaram em lhes conceder; elas nada tomaram;

elas receberam (Cf. Segunda Parte, § 5). Isso porque não têm

os meios concretos de se reunir em uma unidade que se afirmaria

em se opondo. Não têm passado, não têm história, nem religião

própria; não têm, como os proletários, uma solidariedade de

trabalho e interesses; não há sequer entre elas essa promiscuidade

espacial que faz dos negros dos E.U.A., dos judeus dos guetos,

dos operários de Saint-Denis ou das fábricas Renault uma comu-

nidade. Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat,

pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social

a certos homens — pai ou marido — mais estreitamente do

que as outras mulheres. Burguesas, são solidárias dos burgueses

e não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e

não das mulheres pretas. O proletariado poderia propor-se o

trucidamento da classe dirigente; um judeu, um negro fanático

poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e

constituir uma humanidade inteiramente judaica ou inteiramente

negra: mas mesmo em sonho a mulher não pode exterminar os

homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável

a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado

biológico e não um momento da história humana. É no seio de um

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mitsein original que sua oposição se formou e ela não a destruiu.

O casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham

presas indissolúvelmente uma à outra: nenhum corte é possível

na sociedade por sexos. Isso é que caracteriza fundamentalmente

a mulher: ela é o Outro dentro de uma totalidade cujos dois

termos são necessários um ao outro.

Poder-se-ia imaginar que essa reciprocidade teria facilitado

a libertação; quando Hércules fia a lã aos pés de Onfale, o de-

sejo amarra-o: por que Ônfale não conseguiu adquirir um poder

durável? Para vingar-se de Jasão, Medéia mata os filhos: essa

lenda selvagem sugere que, do laço que a liga à criança, a mulher

teria podido tirar uma ascendência temível. Aristófanes ima-

ginou complacentemente, em Lisístrata, uma assembléia de mulhe-

res em que estas tentam explorar em comum, e para fins sociais,

a necessidade que os homens têm delas, mas trata-se apenas de

uma comédia. A lenda que afirma que as sabinas raptadas opu-

seram a seus raptores uma esterilidade obstinada, conta também

que, fustigando-as com chicotes de couro, os homens quebraram

màgicamente essa resistência. A necessidade biológica — desejo

sexual e desejo de posteridade — que coloca o macho sob a

dependência da fêmea não libertou socialmente a mulher. O

senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica

recíproca que não liberta o escravo. É que, na relação do senhor

com o escravo, o primeiro não põe a necessidade que tem do

outro; êle detém o poder de satisfazer essa necessidade e não

a mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança

ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor; a urgência

da necessidade, ainda que igual em ambos, sempre favorece o

opressor contra o oprimido: é o que explica que a libertação da

classe proletária, por exemplo, tenha sido tão lenta. Ora, a

mulher sempre foi, senão a escrava do homem ao menos sua

vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igual-

dade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja

evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap. Em quase

nenhum país, seu estatuto legal é idêntico ao do homem e muitas

vezes este último a prejudica consideravelmente. Mesmo quando

os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito

impede que encontrem nos costumes sua expressão concreta. Eco-

nomicamente, homens e mulheres constituem como que duas cas-

tas; em igualdade de condições, os primeiros têm situações mais

vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxito

que suas concorrentes recém-chegadas. Ocupam na indústria, na

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política etc, maior número de lugares e os postos mais impor-

tantes. Além dos podêres concretos que possuem, revestem-se

de um prestígio cuja tradição a educação da criança mantém:

o presente envolve o passado e no passado toda a história foi

feita pelos homens. No momento em que as mulheres começam

a tomar parte na elaboração do mundo, esse mundo é ainda um

mundo que pertence aos homens. Eles bem o sabem, elas mal

duvidam. Recusar ser o Outro, recusar a cumplicidade com o

homem seria para elas renunciar a todas as vantagens que a

aliança com a casta superior pode conferir-lhes. O homem suse-

rano protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará

de lhe justificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva

o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins

sem auxílios. Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indi-

víduo de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética,

há também a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se

em coisa. É um caminho nefasto porque passivo, alienado, per-

dido, e então esse indivduo é presa de vontades estranhas, cor-

tado de sua transcendência, frustrado de todo valor. Mas é um

caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão da exis-

tência autenticamente assumida. O homem que constitui a mulher

como um Outro encontrará, nela, profundas cumplicidades. Assim,

a mulher não se reivindica como sujeito, porque não possui os

meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que

a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque,

muitas vezes, se compraz no seu papel de Outro.

Mas uma questão imediatamente se apresenta: como tudo

isso começou? Compreende-se que a dualidade dos sexos, como

toda dualidade, tenha sido traduzida por um conflito. Compreen-

de-se que, se um dos dois conseguisse impor sua superioridade,

esta deveria estabelecer-se como absoluta. Resta explicar por que

o homem venceu desde o início. Parece que as mulheres deve-

riam ter sido vitoriosas. Ou a luta poderia nunca ter tido so-

lução. Por que este mundo sempre pertenceu aos homens e

só hoje as coisas começam a mudar? Será um bem essa mu-

dança? Trará ou não uma partilha igual do mundo entre homens

e mulheres?

Essas questões estão longe de ser novas; já lhes foram dadas

numerosas respostas, mas o simples fato de ser a mulher o Outro

contesta todas as justificações que os homens lhe puderam dar:

eram-lhes evidentemente ditadas pelo interesse. "Tudo o que os

homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, porque

15

eles são, a um tempo, juiz e parte", escreveu, no século XVII,

Poulain de Ia Barre, feminista pouco conhecido. Em toda parte

e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tive-

ram de se sentirem os reis da criação. "Bendito seja Deus nosso

Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito

mulher", dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto

suas esposas murmuram com resignação: "Bendito seja o Senhor

que me criou segundo a sua vontade". Entre as mercês que

Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de

ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem

e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente

esse privilégio, se não o houvessem considerado alicerçado no

absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer

um direito. "Os que fizeram e compilaram as leis, por serem

homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos trans-

formaram as leis em princípios", diz ainda Poulain de Ia Barre.

Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenha-

ram-se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era

desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas

pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argu-

mentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a

teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases

citadas de Aristóteles e Sto. Tomás. Desde a Antigüidade, mora-

listas e satíricos deleitaram-se com pintar o quadro das fra-

quezas femininas. Conhecem-se os violentos requisitórios que con-

tra elas se escreveram através de toda a literatura francesa:

Montherlant reata, com menor brilho, a tradição de Jean de

Meung. Essa hostilidade parece, algumas vezes, justificável, mas

na maior parte dos casos é gratuita. Na realidade, recobre uma

vontade de autojustificação mais ou menos habilmente masca-

rada. "E mais fácil acusar um sexo do que desculpar o outro",

diz Montaigne. Em certos casos, o processo é evidente. E im-

pressionante, por exemplo, que o código romano, a fim de res-

tringir os direitos das mulheres, invoque "a imbecilidade, a

fragilidade do sexo" no momento em que, pelo enfraquecimento

da família, ela se torna um perigo para os herdeiros masculinos.

Ê impressionante que no século XVI, a fim de manter a mulher

casada sob tutela, apele-se para a autoridade de Santo Agostinho,

declarando que "a mulher é um animal que não é nem firme nem

estável", enquanto à celibatária se reconhece o direito de gerir

seus bens. Montaigne compreendeu muito bem a arbitrariedade

e a injustiça do destino imposto à mulher: "Não carecem de

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razão as mulheres quando recusam as regras que se introduzi-

ram no mundo, tanto mais quando foram os homens que as fize-

ram sem elas. Há, naturalmente, desentendimentos e disputas

entre elas e nós"; mas êle não chega a defendê-las verdadeira-

mente. É somente no século XVIII que homens profundamente

democratas encaram a questão com objetividade. Diderot, entre

outros, esforça-se por demonstrar que a mulher é, como o homem,

um ser humano. Um pouco mais tarde, Stuart Mill defende-a

com ardor. Mas esses filósofos são de uma imparcialidade excep-

cional. No século XIX, a querela do feminismo torna-se nova-

mente uma querela de sectários; uma das conseqüências da

revolução industrial é a participação da mulher no trabalho

produtor: nesse momento as reivindicações feministas saem do

terreno teórico, encontram fundamentos econômicos; seus adver-

sários fazem-se mais agressivos. Embora os bens de raiz se achem

em parte abalados, a burguesia apega-se à velha moral que vê,

na solidez da família, a garantia da propriedade privada: exige

a presença da mulher no lar tanto mais vigorosamente quanto

sua emancipação torna-se uma verdadeira ameaça; mesmo dentro

da classe operária os homens tentaram frear essa libertação, por-

que as mulheres são encaradas como perigosas concorrentes, habi-

tuadas que estavam a trabalhar por salários mais baixos (1).

A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas

apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia,

como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia

experimental etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao

outro sexo "a igualdade dentro da diferença". Essa fórmula, que fêz fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizam em relação aos negros dos E.U.A. as leis Jim Crow; ora,

essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para intro-

duzir as mais extremas discriminações. Esse encontro nada tem

de ocasional: quer se trate de uma raça, de uma casta, de uma

classe, de um sexo reduzidos a uma condição inferior, o processo

de justificação é o mesmo. O "eterno feminino" é o homólogo

da "alma negra" e do "caráter judeu". O problema judaico é, de resto, em conjunto, muito diferente dos dois outros: o judeu

para o anti-semita é menos um inferior do que um inimigo e

não se lhe reconhece neste mundo nenhum lugar próprio: o que

se deseja é aniquilá-lo. Mas há profundas analogias entre a

(1) Ver segunda parte, págs. 151-152.

17

situação das mulheres e a dos negros: umas e outros emancipam-

-se hoje de um mesmo paternalismo e a casta anteriormente

dominadora quer mantê-los "em seu lugar", isto é, no lugar que

escolheu para eles; em ambos os casos, ela se expande em elogios

mais ou menos sinceros às virtudes do "bom negro", de alma

inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, da mulher

"realmente mulher", isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem. Em ambos os casos, tira seus argumentos do

estado de fato que ela criou. Conhece-se o dito de Bernard

Shaw: "O americano branco relega o negro ao nível do engra-

xate; e concluí daí que só pode servir para engraxar sapatos".

Encontra-se esse círculo vicioso em todas as circunstâncias aná-

logas: quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos é man-

tido numa situação de inferioridade, êle é de fato inferior; mas

é sobre o alcance da palavra ser que precisamos entender-nos; a

má-fé consiste em dar-lhe um valor substancial quando tem o

sentido dinâmico hegeláano: ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são

hoje inferiores aos homens, isto é, sua situação oferece-lhes possi-

bilidades menores: o problema consiste em saber se esse estado

de coisas deve perpetuar-se.

Muitos homens o desejam: nem todos se desarmaram ainda.

A burguesia conservadora continua a ver na emancipação da

mulher um perigo que lhe ameaça a moral e os interesses. Certos

homens temem a concorrência feminina. No Hebdo-Latin um

estudante declarava há dias: "Toda estudante que consegue uma

posição de médico ou de advogado rouba-nos um lugar". Esse

rapaz não duvidava, um só instante, de seus próprios direitos

sobre o mundo. Não são somente os interesses econômicos que

importam. Um dos benefícios que a opressão assegura aos opres-

sores é de o mais humilde destes se sentir superior: um "pobre

branco" do sul dos E.U.A. tem o consolo de dizer que não

é "um negro imundo" e os brancos mais ricos exploram habil-

mente esse orgulho. Assim também, o mais medíocre dos ho-

mens julga-se um semideus diante das mulheres. Era muito mais

fácil a Montherlant julgar-se um herói quando se confrontava

com mulheres (escolhidas, de resto, a dedo) do que quando teve

de desempenhar seu papel de homem entre os homens: papel que

muitas mulheres desempenharam melhor do que êle. Ê assim

que, em setembro de 1948, em um de seus artigos do Vigoro

Littéraire, o Sr. Claude Mauriac — cuja forte originalidade

18

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todos admiram — pôde escrever (1): "Nós ouvimos numa ati-

tude (sic!) de indiferença cortês... a mais brilhante dentre elas, sabendo muito bem que seu espírito reflete, de maneira mais

ou menos brilhante, idéias que vêm de nós". Não são eviden-

temente as idéias do próprio Sr. C. Mauriac que sua interlocutora

reflete, dado que êle não tem nenhuma; que ela reflita idéias

que vêm dos homens é possível: entre os homens mais de um

considera suas muitas opiniões que não inventou; pode-se inda-

gar se o Sr. Claude Mauriac não teria interesse em entreter-se

com um bom reflexo de Descartes, de Marx, de Gide, de prefe-

rência a entreter-se consigo próprio. O que é notável é que

mediante o equívoco do nós identifica-se êle com São Paulo,

Hegel, Lênine, Nietzsche e do alto da grandeza deles considera

com desdém o rebanho de mulheres que ousam falar-lhe em pé

de igualdade. Para dizer a verdade, conheço muitas que não

teriam a paciência de conceder ao Sr. Mauriac "uma atitude de

indiferença cortês".

Insisti nesse exemplo porque nele a ingenuidade masculina

é desarmante. Há muitas outras maneiras mais sutis mediante

as quais os homens tiram proveito da alteridade da mulher.

Para todos os que sofrem de complexo de inferioridade, há nisso

um linimento milagroso: ninguém é mais arrogante em relação

às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem

que duvida de sua virilidade. Os que não se intimidam com

seus semelhantes mostram-se também muito mais dispostos a reco-

nhecer na mulher um semelhante. Mesmo a esses, entretanto,

o mito da Mulher, o Outro, é caro por muitas razões(2); não

há como censurá-los por não sacrificarem de bom grado todas

as vantagens que tiram disso; sabem o que perdem, renunciando

à mulher tal qual a sonham, ignoram o que lhe trará a mulher

tal qual ela será amanhã. É preciso muita abnegação para se

recusar a apresentar-se como o Sujeito único e absoluto.

(1) Acreditou poder, pelo menos,

(2) O artigo de Michel Carrouges sobre esse tema, no número

292 do Cahiers du Sud, é significativo. Escreve com indignação:

"Gostaríamos que não houvesse o mito da mulher, mas tão-sòmente

uma coorte de cozinheiras, de matronas, de meretrizes, de pedantes com

funções de prazer e de utilidade". O que significa que, a seu ver, a

mulher não tem existência para-si; êle considera apenas sua função

dentro do mundo masculino. Sua finalidade encontra-se no homem;

então, com efeito, pode-se preferir sua "função" poética a qualquer outra. A questão está, precisamente, em saber por que se deveria

defini-la em relação ao homem.

19

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Aliás, a grande maioria dos homens não assume explicitamente

essa pretensão. Eles não colocam a mulher como uma inferior;

estão hoje demasiado compenetrados do ideal democrático para

não reconhecer todos os seres humanos como iguais. No seio

da família, a mulher apresenta-se à criança e ao jovem revestida

da mesma dignidade social dos adultos masculinos; mais tarde

êle sente no desejo e no amor a resistência, a independência, da

mulher desejada e amada; casado, êle respeita na mulher a

esposa, a mãe, e na experiência concreta da vida conjugai ela

se afirma em face dele como uma liberdade. O homem pode,

pois, persuadir-se de que não existe mais hierarquia social entre

os sexos e de que, grosso modo, através das diferenças, a mulher é sua igual. Como observa, entretanto, algumas inferioridades

— das quais a mais importante é a incapacidade profissional —

êle as atribui à natureza. Quando tem para com a mulher uma

atitude de colaboração e benevolência, êle tematiza o princípio

da igualdade abstrata; e a desigualdade concreta que verifica,

não a põe. Mas, logo que entra em conflito com a mulher,

a situação se inverte: êle tematiza a desigualdade concreta e

dela tira autoridade para negar a igualdade abstrata(1). Assim

é que muitos homens afirmam quase com boa-fé que as mu-

lheres são iguais aos homens e nada têm a reivindicar, e, ao

mesmo tempo, que as mulheres nunca poderão ser iguais aos

homens e que suas reivindicações são vãs. É que é difícil para o

homem medir a extrema importância de discriminações sociais

que parecem insignificantes de fora e cujas repercussões morais

e intelectuais são tão profundas na mulher que podem parecer

ter suas raízes numa natureza original(2). Mesmo o homem

mais simpático à mulher nunca lhe conhece bem a situação con-

creta. Por isso não há como acreditar nos homens quando se

esforçam por defender privilégios cujo alcance não medem. Não

nos deixaremos, portanto, intimidar pelo número e pela violência

dos ataques dirigidos contra a mulher, nem nos impressionar

com os elogios interesseiros que se fazem à "verdadeira mulher"; nem nos contaminar pelo entusiasmo que seu destino suscita entre

os homens que por nada no mundo desejariam compartilhá-lo.

(1) O homem declara, por exemplo, que não vê sua mulher di-

minuída pelo fato de não ter profissão: a tarefa do lar 6 tão nobre quanto etc. Entretanto, na primeira disputa, exclama: "Sereis totalmente incapaz de ganhar tua vida sem mim".

(2) Descrever esse processo será precisamente o objeto do segun-

do volume.

20

Entretanto, não devemos ponderar com menos desconfiança

os argumentos dos feministas: muitas vezes, a preocupação po-

lêmica tira-lhes todo valor. Se a "questão feminina" é tão absur-da é porque a arrogância masculina fêz dela uma "querela" e

quando as pessoas querelam não raciocinam bem. O que se pro-

curou infatigàvelmente provar foi que a mulher é superior, infe-

rior ou igual ao homem. Criada depois de Adão, é evidente-

mente um ser secundário, dizem uns; ao contrário, dizem outros,

Adão era apenas um esboço e Deus alcançou a perfeição do

ser humano quando criou Eva; seu cérebro é o menor, mas é

relativamente o maior; e se Cristo se fêz homem foi possivel-

mente por humildade. Cada argumento sugere imediatamente

seu contrário e não raro ambos são falhos... Se quisermos

ver com clareza devemos sair desses trilhos; precisamos recusar

as noções vagas de superioridade, inferioridade, igualdade que

desvirtuam todas as discussões e reiniciar do começo.

Como poremos então a questão? E, antes de mais nada,

quem somos nós para apresentá-la? Os homens são parte e juiz;

as mulheres também. Onde encontrar um anjo? Em verdade,

um anjo seria mal indicado para falar, ignoraria todos os dados

do problema; quanto ao hermafrodita, é um caso demasiado

singular: não é homem e mulher ao mesmo tempo, mas antes nem

homem nem mulher. Creio que para elucidar a situação da

mulher são ainda certas mulheres as mais indicadas. É um so-

fisma encerrar Epimênides no conceito de cretense e os cretenses

no de mentiroso: não é uma essência misteriosa que determina

a boa ou a má-fé nos homens e nas mulheres; é a situação deles

que os predispõem mais ou menos à procura da verdade. Muitas

mulheres de hoje, que tiveram a sorte de ver-lhes restituídos

todos os privilégios do ser humano, podem dar-se ao luxo da

imparcialidade; sentimos até a necessidade desse luxo. Não so-

mos mais como nossas predecessoras: combatentes. De maneira

global ganhamos a partida. Nas últimas discussões acerca do

estatuto da mulher, a O.N.U. não cessou de exigir que a igual-

dade dos sexos se realizasse completamente e muitas de nós já

não vêem em sua feminilidade um embaraço ou um obstáculo;

muitos outros problemas nos parecem mais essenciais do que os

que nos dizem particularmente respeito; e esse próprio desin-

teresse permite-nos esperar que nossa atitude será objetiva. Entre-

tanto, conhecemos mais intimamente do que os homens o mundo

feminino, porque nele temos nossas raízes; apreendemos mais

imediatamente o que significa para um ser humano o fato de

21

pertencer ao sexo feminino e preocupamo-nos mais com o saber.

Disse que havia problemas mais essenciais, o que não impede

que esse conserve a nossos olhos alguma importância: em que

o fato de sermos mulheres terá afetado a nossa vida? Que pos-

sibilidades nos foram oferecidas, exatamente, e quais nos foram

recusadas? Que destino podem esperar nossas irmãs mais jovens

e em que sentido convém orientá-las? E impressionante que

em seu conjunto a literatura feminina seja menos animada em

nossos dias por uma vontade de reivindicação do que por um

esforço de lucidez; ao sair de uma era de polêmicas desorde-

nadas, este livro é uma tentativa, entre outros, de verificar em

que pé se encontra a questão.

Mas é sem dúvida impossível tratar qualquer problema hu-

mano sem preconceito: a própria maneira de pôr as questões, as

perspectivas adotadas pressupõem uma hierarquia de interesses:

toda qualidade envolve valores. Não há descrição, dita objeti-

va, que não se erga sobre um fundo ético. Ao invés de tentar

dissimular os princípios que se subentendem mais ou menos

explicitamente, cumpre examiná-los. Desse modo, não somos obri-

gadas a precisar em cada página que sentido se dá às palavras

superior, inferior, melhor, pior, progresso, retrocesso etc. Se

passamos em revista algumas dessas obras consagradas à mulher,

vemos que um dos pontos de vista mais amiúde adotados é o do

bem público, do interesse geral; em verdade, cada um entende,

com isso, o interesse da sociedade tal qual deseja manter ou

estabelecer. Quanto a nós, estimamos que não há outro bem

público senão o que assegura o bem individual dos cidadãos. Ê

do ponto de vista das oportunidades concretas dadas aos indiví-

duos que julgamos as instituições. Mas não confundimos tam-

pouco a idéia de interesse privado com a de felicidade, ponto de

vista que se encontra freqüentemente. As mulheres de harém

não são mais felizes do que uma eleitora? Não é a dona de casa

mais feliz do que a operária? Não se sabe muito precisamente

o que significa a palavra felicidade, nem que valores autênticos

ela envolve. Não há nenhuma possibilidade de medir a felici-

dade de outrem e é sempre fácil declarar feliz a situação que se

lhe quer impor. Os que condenamos à estagnação, nós os declara-

mos felizes sob o pretexto de que a felicidade é a imobilidade.

É, portanto, uma noção a que não nos referimos. A perspectiva

que adotamos é a da moral existencialista. Todo sujeito coloca-se

concretamente através de projetos como uma transcendência; só

alcança sua liberdade pela sua constante superação em vista de

22

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outras liberdades; não há outra justificação da existência presente

senão sua expansão para um futuro indefinidamente aberto. Cada

vez que a transcendência cai na imanência, há degradação da

existência em "em si", da liberdade em facticidade; essa queda

é uma falha moral, se consentida pelo sujeito. Se lhe é inflingida,

assume o aspecto de frustração ou opressão. Em ambos os casos,

é um mal absoluto. Todo indivíduo que se preocupa em justificar

sua existência, sente-a como uma necessidade indefinida de se

transcender. Ora, o que define de maneira singular a situação

da mulher é que, sendo, como todo ser humano, uma liberdade

autônoma, descobre-se e escolhe-se num mundo em que os ho-

mens lhe impõem a condição do Outro. Pretende-se torná-la

objeto, votá-la à imanência, porquanto sua transcendência será

perpètuamente transcendida por outra consciência essencial e sobe-

rana. O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação

fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essen-

cial e as exigências de uma situação que a constitui como

inessencial. Como pode realizar-se um ser humano dentro da

condição feminina? Que caminhos lhe são abertos? Quais con-

duzem a um beco sem saída? Como encontrar a independência

no seio da dependência? Que circunstâncias restringem a liber-

dade da mulher, e quais pode ela superar? São essas algumas

questões fundamentais que desejaríamos elucidar. Isso quer dizer

que, interessando-nos pelas oportunidades dos indivíduos, não as

definiremos em termos de felicidade e sim em termos de li-

berdade.

É evidente que esse problema não teria nenhum sentido se

supuséssemos que pesa sobre a mulher um destino fisiológico,

psicológico ou econômico. Por isso, começaremos por discutir os

pontos de vista da biologia, da psicanálise e do materialismo

histórico acerca da mulher. Tentaremos mostrar, em seguida,

que a mulher foi definida como o Outro e quais foram as conse-

qüências do ponto de vista masculino. Descreveremos então, do

ponto de vista das mulheres, o mundo que lhes é proposto a l ; e

poderemos compreender contra que dificuldades se chocam no

momento em que, procurando evadir-se da esfera que lhes foi

assinalada até o presente, elas pretendem participar do mitsein

humano.

(1) Isso constitui o objeto do segundo volume.

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CAPITULO I

OS DADOS DA BIOLOGIA

A MULHER? É muito simples, dizem os amadores de fór-

mulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea,

e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto

"fêmea" soa como um insulto; no entanto, êle não se enver-

gonha de sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se

dele dizem: "É um macho!" O termo "fêmea" é pejorativo, não porque enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina

no seu sexo. E se esse sexo parece ao homem desprezível e

inimigo, mesmo nos bichos inocentes, é evidentemente por causa

da inquieta hostilidade que a mulher suscita no homem; entre-

tanto, êle quer encontrar na biologia uma justificação desse senti-

mento. A palavra fêmea sugere-lhe uma chusma de imagens:

um enorme óvulo redondo abocanha e castra o ágil esperma-

tozóide; monstruosa e empanturrada, a rainha das térmitas reina

sobre os machos escravizados; a fêmea do louva-a-deus e a ara-

nha, fartas de amor, matam o parceiro e o devoram; a cadela

no cio erra pelas vielas, deixando atrás uma esteira de odores

perversos; a macaca exibe-se impudentemente e se recusa com

faceirice hipócrita; as mais soberbas feras, a leoa, a pan-

tera, deitam-se servilmente para a imperial posse do macho. Iner-

te, impaciente, matreira, insensível, lúbrica, feroz, humilhada, o

homem projeta na mulher todas as fêmeas ao mesmo tempo. E o

fato é que ela é uma fêmea. Mas se quisermos deixar de pensar

por lugares-comuns, duas perguntas logo se impõem: Que repre-

senta a fêmea no reino animal? E que espécie singular de

fêmea se realiza na mulher?

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Machos e fêmeas são dois tipos de indivíduos que, no inte-

rior de uma espécie, se diferenciam em vista da reprodução: só

os podemos definir correlativamente. Mas é preciso observar

que o próprio sentido do seccionamento das espécies em dois

sexos não é muito claro.

Na natureza êle não se acha universalmente realizado. Para

só falar dos animais, sabe-se que entre os unicelulares — infu-

sórios, amebas, bacilos etc. — a multiplicação é fundamental-

mente distinta da sexualidade, com as células dividindo-se e

subdividindo-se solitariamente. Entre alguns metazoários, a re-

produção opera-se por esquizogênese, isto é, fracionamento do

indivíduo cuja origem é também assexuada; ou por blastogênese,

isto é, fracionamento do indivíduo produzido êle próprio por

um fenômeno sexual; os fenômenos de gemiparidade e de seg-

mentação observados na hidra de água doce, nos celenterados,

nas esponjas, nos vermes, nos tunicários são exemplos conhe-

cidos. Nos fenômenos de partenogênese, o ôvo virgem desen-

volve-se em embrião sem intervenção do macho; este não desem-

penha papel algum ou apenas um papel secundário: os ovos de

abelha não fecundados subdividem-se e produzem zângãos; entre

os pulgões não existem machos durante uma série de gerações

e os ovos não fecundados dão fêmeas. Reproduziu-se artificial-

mente a partenogênese no ouriço-do-mar, na estrêla-do-mar, na

rã. Entretanto ocorre, às vezes, entre os protozoários duas cé-

lulas femininas fusionarem, formando o que se chama um zi-

goto; a fecundação é necessária para que os ovos da abelha

engendrem fêmeas e para que os dos pulgões dêem machos. Cer-

tos biólogos chegaram à conclusão de que, mesmo nas espécies

capazes de se perpetuarem de maneira unilateral, a renovação

do germe mediante uma mistura de cromossomos estranhos seria

útil ao rejuvenecimento e ao vigor da linhagem; compreender-se-ia

assim que, nas formas mais complexas da vida, a sexualidade

é uma função indispensável. Somente os organismos elemen-

tares poderiam multiplicar-se sem sexos e ainda assim esgotando

sua vitalidade. Mas essa hipótese é hoje das mais controver-

tidas; observações provaram que a multiplicação assexuada pode

verificar-se indefinidamente, sem que se perceba nenhuma degene-

rescência; o fato é particularmente impressionante entre os ba-

cilos. As experiências de partenogênese tornaram-se cada vez

26

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rnais numerosas e ousadas, e, em muitas espécies, o macho se

evidencia radicalmente inútil. Mas ainda que a utilidade de

uma troca intercelular fosse demonstrada, apresentar-se-ia como

um simples fato injustificado. A biologia constata a divisão dos

sexos, mas embora imbuída de finalismo, não consegue deduzi-la

da estrutura da célula, nem das leis da multiplicação celular,

nem de nenhum fenômeno elementar.

A existência de gametas (1) heterogêneos não basta para

definir dois sexos distintos; na realidade, acontece, muitas vezes,

a diferenciação das células geradoras não acarretar cisão da es-

pécie em dois tipos: ambas podem pertencer a um mesmo indi-

víduo. É o caso das espécies hermafroditas, tão numerosas entre

as plantas e que se encontram também em muitos animais infe-

riores, os anelados e os moluscos, entre outros. A reprodução

efetua-se então ou por autofecundação ou por fecundação cruzada.

Neste ponto, igualmente, certos biólogos pretenderam legitimar

a ordem estabelecida. Consideram o gonocorismo, isto é, o sis-

tema em que as diferentes gonadias (2) pertencem a indivíduos

distintos, como um aperfeiçoamento do hermafroditismo realizado

por via evolutiva; mas outros, ao contrário, julgam o gonocorismo

primitivo: o hermafroditismo não passaria de uma degenerescência.

Como quer que seja, essas noções de superioridade de um sistema

sobre o outro implicam, no que concerne à evolução, teorias

das mais contestáveis. Tudo o que se pode afirmar com certeza

é que esses dois modos de reprodução coexistem na Natureza,

que realizam, um e outro, a perpetuação das espécies e que, tal

qual a heterogeneidade dos gametas, a dos organismos portadores

de gonadias se apresenta como acidental. A separação dos indi-

víduos em machos e fêmeas surge, pois, como um fato irredutível

e contingente.

A maior parte das filosofias tomou-a como admitida sem

pretender explicá-la. Conhece-se o mito platônico: no princípio

havia homens, mulheres e andróginos; cada indivíduo possuía

duas faces, quatro braços, quatro pernas e dois corpos, colados

um a outro; foram um dia "partidos em dois, da maneira como

se partem os ovos" e desde então cada metade procura reunir-se

à sua metade complementar; os deuses decidiram, posteriormen-

(1) Chamam-se gametas as células geradoras cuja fusão consti-

tui o ôvo.

(2) Chamam-se gonadias as glândulas que produzem os gametas.

27

te, que pela junção das duas metades dessemelhantes novos seres

humanos seriam criados. Mas é só o amor que essa história se

propõe explicar: a divisão em sexos é tomada, de início, como

um dado. Aristóteles não a justifica melhor, pois se a coope-

ração da matéria e da forma é exigida em toda ação, não é

necessário que os princípios ativos e passivos se distribuam em

duas categorias de indivíduos heterogêneos. Assim é que Sto.

Tomás declara que a mulher é um ser "ocasional", o que é

uma maneira de afirmar — numa perspectiva masculina — o

caráter acidental da sexualidade. Hegel, entretanto, teria sido

infiel a seu delírio racionalista se não houvesse tentado fun-

damentá-la logicamente. A sexualidade representa, a seu ver, a

mediação através da qual o sujeito se atinge concretamente

como gênero. "O gênero produz-se nele como um efeito contra

essa desproporção de sua realidade individual, como um desejo

de reencontrar, em outro indivíduo de sua espécie, o sentimento

de si mesmo unindo-se a ele, de se completar e envolver, assim,

o gênero em sua natureza e trazê-lo à existência. E tem-se a

união sexual (Filosofia da Natureza, 3ª parte, § 369). E mais

adiante: "O processo consiste em saber o que eles são em si,

isto é, um só gênero, uma só e mesma vida subjetiva, eles o

põem também como tal". E Hegel declara a seguir que, para

que se efetue o processo de aproximação, é preciso primeiramen-

te que haja diferenciação dos dois sexos. Mas sua demonstra-

ção não é convincente: sente-se nela demasiadamente a idéia

preconcebida de reencontrar em toda operação os três momentos

do silogismo. A superação do indivíduo na espécie, mediante

a qual indivíduo e espécie se realizam em sua verdade, poderia

efetuar-se, sem terceiro termo, na simples relação do gerador

com a criança: a reprodução poderia ser assexuada. Ou, ainda,

a relação de um a outro poderia ser a de dois semelhantes,

residindo a diferenciação na singularidade dos indivíduos de