O Seminarista por Bernardo Guimarães - Versão HTML

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O SEMINARISTA

de Bernardo Guimarães

CAPÍTULO I

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via-se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente.

Um estreito caminho, partindo da porta da casa, cortava o vargedo e ia atravessar o capão e o córrego, por uma pontezinha de madeira, fechada do outro lado por uma tronqueira de varas. Junto à ponte, de um lado e outro do caminho, viam-se duas corpulentas paineiras, cujos galhos, entrelaçando-se no ar, formavam uma arcada de verdura, à entrada do campo onde pastava o gado.

Era uma bela tarde de janeiro. Dois meninos brincavam à sombra das paineiras: um rapazinho de doze a treze anos e uma menina, que parecia ser pouco mais nova do que ele.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da embaúba.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda.

A menina, sentada sobre a relva, despencava um molho de flores silvestres de que estava fabricando um ramalhete, enquanto seu companheiro, atracando-se como um macaco aos galhos das paineiras, balouçava-se no ar, fazia mil passes e piruetas para diverti-la.

Perto deles, espalhados no vargedo, umas três ou quatro vacas e mais algumas reses estavam tosando tranqüilamente o fresco e viçoso capim.

O sol, que já não se via no céu, tocava com uma luz de ouro os topes abaulados dos altos espigões; uma aragem quase imperceptível mal rumorejava pelas abas do capão e esvoaçava por aquelas baixadas cheias de sombra.

— Vamos, Eugênio. São horas... vamos apartar os bezerros e tocar as vacas para a outra banda.

Dizendo isto, a menina levanta-se da relva, e, atirando para trás dos ombros os negros e compridos cabelos, sacudiu do regaço uma nuvem de flores despencadas.

— Pois vamos lá com isso, Margarida, exclamou Eugênio, vindo ao chão de um salto, e ambos foram ajuntar as poucas vacas que ali andavam pastando.

— Arre! com mil diabos!... que bezerrada mofina! — exclamou o rapaz tangendo os bezerros. — Por que é que estes bezerros da tia Umbelina andam sempre assim tão magros?

Ora! pois, que é que você quer? mamãe tira quase todo o leite das vacas, e deixa um pinguinho só para os pobres bezerros. Por isso mesmo quase nenhuma cria pode vingar, e algum que escapa mamãe vende logo.

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— E por que é que ela não te dá uma bezerrinha? aquela vermelhinha estava bem bonita para você...

— Qual!... não vê que ela me dá!... e eu que tenho tanta vontade de ter a minha vaquinha. Há que tempo Dindinha prometeu de me dar uma bezerra e até hoje estou esperando...

— Mamãe?... ora!... é porque ela se esqueceu... deixa estar, que eu hei de falar com ela... mas não, eu mesmo é que hei de te dar uma novilha pintada muito bonitinha que eu tenho. Assim como assim, eu tenho de me ir embora mesmo, que quero eu fazer com a criação?

— Como é isso?... — exclamou Margarida com surpresa. — Pois você vai-se embora?...

— Vou, Margarida; pois você ainda não sabia?...

— Eu não; quem me havia de contar? para onde é que você vai, então?

— Vou para o estudo, Margarida; papai mais mamãe querem que eu vá estudar para padre.

— Deveras, Eugênio!... ah! meu Deus!... que idéia!... e é muito longe esse estudo?

— Eu sei lá; eles estão falando que eu vou para Congonhas...

— Congonhas?... ah! já ouvi falar nessa terra; não é onde moram os padres santos?... ah! meu Deus! isso é muito longe!

— Qual longe!... tanta gente já tem ido lá e vem outra vez. Mamãe já mandou fazer batina, sobrepeliz, barrete e tudo. Quando tudo ficar pronto, eu hei de vir cá vestido de padre para você ver que tal fico.

— Tomara eu ver já!... você há de ficar um padrinho bem bonitinho!

— E quando eu for padre, você há de ir por força ouvir a minha primeira missa, não há de, Margarida?...

— Se hei de!... e também mais uma coisa, que hei de fazer... adivinha o que é?...

— O que é?... fala.

— Mamãe costuma dizer, que eu já estou ficando grande, e que daqui a um ano bem posso me confessar, e para isso anda me ensinando doutrina; mas eu não tenho ânimo de me confessar a padre nenhum... Deus me livre! tenho um medo...

uma vergonha! mas com você é outro caso estou pronta, e por isso não quero me confessar enquanto você não for padre...

— Está dito, Margarida; prometo que há de ser você a primeira pessoa que hei de confessar; antes disso, não confesso pessoa nenhuma, nenhuma desta vida; eu te juro, Margarida.

— Muito bem! muito bem! está dito. Agora me conta, Eugênio; quando é que você vai-se embora?

— É para o mês que vem...

— Ah! meu Deus! pois já tão depressa! e você não há de ficar com saudade de mim!...

— Se fico!... muita, muita saudade, Margarida: — quando penso nisso fico tão triste, que me dá vontade de chorar.

— E eu, pobre de mim!... como vou ficar tão sozinha! com quem é que eu hei de brincar daqui em diante?... não sei como há de ser, meu Deus!...

Eram quase ave-marias. A sombra do crepúsculo ia de manso derramando-se pelas devesas silenciosas. A favor daquela funda e solene mudez, ouvia-se o débil marulho das águas do ribeiro, escorregando sob a úmida e sombria abóbada 3

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do vergel; um sabiá, pousado na mais alta grimpa da paineira, mandava ao longe os ecos do seu hino preguiçosamente cadenciado, com que parece estar acalentando a natureza prestes a adormecer debaixo das asas próprias da noite.

Os meninos quedos e taciturnos olhavam em derredor de si com tristeza.

Pela primeira vez, cismas saudosas, anuviadas de um leve toque de melancolia, pairavam sobre aquelas frontes infantis. Dir-se-ia que, nos vagos rumores do fim do dia, estavam ouvindo o derradeiro adeus do gênio prazenteiro da meninice, e que, no dúbio clarão róseo que afogueava ainda a orla extrema do ocidente, entreviam o último sorriso da aurora da existência.

Foi Margarida quem interrompeu aquele triste silêncio.

— Meu Deus! — exclamou ela — o que estamos aqui fazendo embasbacados? há que tempo o sol já entrou, Eugênio! está ficando muito tarde.

Vamos! vamos... toca as vacas.

— Eia! Dourada!... eia!... Minerva!... Duquesa!... eia!... eia!...

Eugênio correu a abrir a pequena tronqueira das vacas, que ficava além da ponte. Apartados os bezerros e passadas as vacas, Eugênio tornou a fechá-la e passando um braço sobre o ombro de Margarida, e esta enlaçando com o seu a cintura do companheiro, foram voltando calados e ainda sob a mesma impressão de tristeza, tangendo diante de si os bezerros até a casa de Umbelina, que ficava a uns quinhentos passos de distância.

Margarida recolheu-se a casa, e Eugênio, enfiando o caminho por onde viera, ganhou de novo a ponte e a tronqueira, deitou-se a correr pelo rincão afora dirigindo-se para a fazenda que ficava a meia légua de distância.

CAPÍTULO II

Eugênio era filho do capitão Francisco Antunes, fazendeiro de medianas posses. Trabalhador, bom e extremoso pai de família, liso e sincero em seus negócios, partidista firme, e cidadão sempre pronto para os ônus públicos, nada lhe faltava para gozar da maior consideração e respeito entre os seus conterrâneos.

Antunes tinha terras de sobejo para a pouca escravatura que possuía, e portanto dava morada em sua fazenda a diversos agregados, sem lhes exigir contribuição alguma, nem em serviço nem em dinheiro.

Entre esses agregados contava-se d. Umbelina, que, com sua filha Margarida e uma velha escrava, ocupava a casinha que descrevemos no capítulo antecedente. Umbelina vivia de sua pequena bitácula à beira da estrada, vendendo aguardente e quitandas aos viandantes, cultivando seu quintal, pensando suas vaquinhas, e da venda de frutas, hortaliças e leite sabia com sua diligência e economia tirar um sofrível rendimento.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro; sua asseada e garrida casinha, alvejando entre o verdor das balsas e campinas que a circundavam, era uma confirmação palpitante do rifão, que diz — "não há traste que não se pareça com seu dono". — Eram, portanto, uma e outra mui próprias para atrair os viandantes, que não deixavam de apear-se à porta da bitácula da tia Umbelina, a fim de tomarem alguns refrescos ou provarem de suas excelentes quitandas.

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Umbelina fora casada com um alferes de cavalaria, que havia morrido nas guerras do Rio Grande do Sul, deixando sua mulher e Margarida, sua única filhinha, ainda no berço, no estado da mais completa indigência. Antunes e sua mulher, que tinham antigas relações de amizade com o falecido alferes, e que eram padrinhos da menina, deram a mão à pobre e desvalida viúva, e a estabeleceram em suas terras.

Margarida teria pouco mais de ano, quando sua mãe foi morar na fazenda do capitão Francisco Antunes. Como Eugênio, filho deste, ainda em tenra idade, não tinha senão um irmão e uma irmã muito mais velhos que ele, e que de há muito se tinham casado, e abandonando o ninho paterno tinha cada qual tomado o seu rumo, Margarida foi como um presente, que o céu lhe enviava para companheira dos brincos de sua infância. Por isso mesmo, os velhos donos da casa muito a estimavam, e a tratavam com todo o mimo, como se fora sua própria filha. Margarida bem o merecia: era uma encantadora menina, de muito bom natural e muito viva e engraçadinha.

Os dois meninos queriam-se como se fossem irmãos, andavam sempre juntos, e não se separavam senão à noite.

Um dia aconteceu-lhes um estupendo e singular incidente, que não posso deixar de referir.

A pequena Margarida, apenas na idade de dois anos, estando a brincar no quintal, desgarrou-se por um momento da companhia da rapariga que a vigiava, e da de seu camarada de infância. Quando este deu pela falta e foi procurá-la, encontrou-a assentada na relva junto de uma fonte a brincar... com que, Santo Deus!... a brincar com uma formidável e truculenta jararaca. A cobra enrolava-se em anéis em volta da criança, lambia-lhe os pés e as mãos com a rubra e farpada língua, e dava-lhe beijos nas faces. A menina a afagava sorrindo, e dava-lhe pequenas pancadas com um pauzinho que tinha na mão, sem que o hediondo animal se irritasse e lhe fizesse a mínima ofensa. Se o Gênesis não nos apresentasse esse terrível réptil como cheio de astúcia e malícia seduzindo a primeira mãe da humanidade e fazendo-a perder para si e para toda a sua descendência as delícias do paraíso terreal, dir-se-ia que até a serpente tem seus impulsos generosos e também sabe respeitar a fraqueza e a inocência da infância.

Mal o menino deu com os olhos naquele estranho e arrepiador espetáculo, rompeu logo em gritos.

— Mamãe!... mamãe!... bradava ele com quanta força tinha — olha cobra!

uma cobra está comendo Galida!...

A mãe dele e Umbelina, que não andavam longe, ouvindo os gritos do menino acudiram logo pressurosas, pálidas e transidas de susto, armada cada uma de um comprido pau.

Ao avistarem a cobra enroscando-se nos braços e no pescoço da pobre menina estacaram horrorizadas, a testa se lhes inundou de suor frio, as pernas lhes tremeram, e pouco faltou para que rolassem no chão sem sentidos. Umbelina principalmente estava no mais angustioso transe; foi-lhe mister agarrar-se à estaca de um varal para não cair por terra. As duas mulheres não atinavam com o que deveriam fazer; atacando a cobra receavam assanhá-la e fazer com que mordesse a menina, ao mesmo tempo não podiam deixar; em tamanho perigo aquela pobre criança, que continuava a rir-se e a brincar com a cobra como se fosse uma boneca.

Passaram alguns instantes da mais cruel ansiedade, ao fim dos quais a serpente desenroscou-se e foi-se retirando tranqüilamente, e sumiu-se nas moitas.

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Livres daquele primeiro susto, mas não de todo tranqüilas as duas senhoras correram apressadamente a revistar todo o corpo da criança, e tendo reconhecido que o terrível bicho não lhe havia feito nem a mais leve ofensa, levantaram as mãos ao céu derramando lágrimas de gratidão por tão singular benefício que tomaram por um milagre da Providência.

A senhora Antunes chamou logo em altos gritos os escravos, e ordenou-lhes que perseguissem e matassem a cobra. Umbelina, porém, não queria consentir que se fizesse mal ao animal que havia respeitado e afagado sua querida filha.

— É bicho mau, bem sei — dizia ela — mas esta... coitada!... parece não ser da laia das outras; a menina brincava com ela como se fosse um cão de fralda, e a bicha não lhe fez mal nenhum.

— Nada!... nada! — exclamava a outra. — Quem seu inimigo Poupa, nas mãos lhe morre. Sempre é um bicho que Deus excomungou. A comadre deve lembrar-se que foi uma serpente, que tentou Eva.

— Mas uma cobra, que em vez de morder lambe e afaga...

— Também a serpente do paraíso não mordeu Eva; arrastou-se a seu pés e afagou-a para melhor enganá-la.

— Ora, comadre, também a minha Eva ainda está muito pequenina para poder ser tentada pela serpente.

— É que já o bicho maldito a está pondo de olho para mais tarde fazer-lhe mal.

— Qual, comadre!... é porque até as cobras têm respeito à inocência...

— Fie-se nisso!... por sim por não, esta não me há de escapar.

Dizendo isto, a senhora Antunes, com todo o cuidado e precaução sondava com os olhos a moita em que a cobra se tinha sumido. Tendo-a enfim descoberto, encarou-a fixamente, e sem despregar dela os olhos, levou as mãos aos atilhos da cintura da saia, que começou a arrochar cada vez com mais força, murmurando certas orações e esconjuros cabalísticos.

É esta uma simpatia de que usam as nossas roceiras para tornarem as cobras imóveis e pregá-las por assim dizer em um lugar, e dizem que é de um efeito imediato e infalível.

Talvez o leitor não creia nessas coisas que chamam abusões do povo; mas o certo é, que desde o momento em que a senhora Antunes pregou os olhos na cobra e começou a arrochar a saia da cintura, a bicha parou imediatamente e não se mexeu uma linha do lugar em que estava, até que um escravo, chegando com um varapau, veio dar cabo dela.

O rapaz, depois de ter-lhe machucado bem a cabeça, suspendendo a custo o enorme bicho na ponta da vara, arremessou-o no gramal.

A cobra veio cair aos pés de Umbelina, que soltou um grito agudo e deu um salto para trás.

— O que é isso, comadre? está com medo? — exclamou a senhora Antunes com uma gargalhada. Pois não quer ver o lindo e inocente bichinho, que ainda agora estava-lhe beijando a filha?

— Jesus!... santo nome de Jesus! — bradou Umbelina persignando-se e olhando de través o hediondo animal, que se estorcia no chão. — Que bicho medonho!... de que escapou minha pobre filhinha!...

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— Ah!... já está vendo?... a comadre deve um favorzão a Deus por ter permitido que a cobra não mordesse a menina.

— Anda cá Josefa! — continuou ela, dirigindo-se à escrava. — Daqui em diante mais cautela com estas crianças, ouviste? não te arredes de perto delas... se as deixares outra vez por aí sozinhas, lavro-te de relho, pasmada, e ponho-te na roça com uma enxada na mão... olha a cara desta desmazelada!... está sonsa, que nem para tomar conta de umas crianças tem préstimo!...

O extraordinário incidente foi por muitos dias o assunto da conversação naquela casa.

Umbelina via nele um milagre, pelo qual dava infinitas graças ao céu apertando nos braços a filhinha que, como ela dizia, tinha nascido naquele dia. A mulher de Antunes porém, que tinha o espírito propenso a acreditar em superstições e agouros, teimava em ver naquilo um sinistro prenúncio, que ela mesma não sabia explicar.

CAPÍTULO III

Margarida, pois, não saí a quase de casa do capitão Francisco Antunes onde, conduzida por sua mãe entrava pela manhã, e não saía senão à tardinha.

Muitas vezes mesmo acontecia-lhe dormir lá, quand0 fazia mau tempo, ou quando os afazeres de Umbelina não lhe permitiam ir buscá-la.

À medida que a menina ia crescendo, a senhora Antunes como boa madrinha que era, ia-lhe ensinando o que a sua tenra idade comportava, e desde e os cinco anos lhe pôs nas mãos a agulha e o dedal.

Margarida, por sua graça e gentileza, extrema docilidade e precoce vivacidade, era mui querida de todos, e inseparável de Eugênio.

Assim foi-se criando e fortalecendo desde o berço entre aquelas duas almas infantis uma viva e profunda afeição, que dia a dia mais afundava as raízes naqueles dois tenros corações, como em uma terra fresca e cheia de seiva. Eram como duas flores silvestres em botão, nascidas da mesma haste, nutrindo-se da mesma seiva, acariciadas pela mesma aragem, que ao abrirem-se cheias de viço e louçania encontravam-se sorrindo-se e namorando-se em face uma da outra, e balanceando-se às auras da solidão procuravam beijar-se trocando entre si eflúvios de amor. De dia em dia crescia essa mútua amizade entre as duas crianças, como um cipó, que nascendo entre dois tenros arbustos vizinhos se enleia em torno deles e confunde seus galhos tornando-os como um só.

Não eram ainda Romeu e Julieta; mas eram inseparáveis como Paulo e Virgínia vagueando pelas sombras dos pitorescos bosques da Ilha de França.

Entretanto Eugênio tocava já aos seus nove anos, e um dia foi preciso mandá-lo morar na Vila em casa de um parente, a fim de freqüentar a escola de primeiras letras.

Ah! foi esse um dia de prantos e desolação naquela pequena família.

Parecia que ela havia sido fulminada por alguma grande desgraça. Umbelina e a dona da casa ralhavam e afagavam, sorriam e choravam ao mesmo tempo; os meninos resmungavam queixas e soluçavam pelos cantos da casa. O pai gritava, enternecia-se e exasperava-se alternativamente à vista de tanta choradeira. E tudo isso por causa de um menino que ia para a escola dali a légua e meia!...

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No momento de partir foi a muito custo que conseguiram arrancar os dois meninos dos braços um do outro.

Foi necessário que Umbelina agarrasse à força sua filha, que se atirava pelo chão, estorcendo-se e rasgando as roupas em desespero, e queria a todo o transe ir correndo pela estrada afora atrás de seu companheiro, que lá se ia em lágrimas e soluços.

Por alguns dias Margarida ficou metida em sua casa, triste e amuada. Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos. Mas o tempo é o melhor, senão o único consolador das mágoas passageiras da vida. Sobretudo no coração das crianças, o seu bálsamo é de uma eficácia e prontidão espantosa.

Assim pois com o tempo e também porque quase todos os domingos Eugênio vinha passar o dia na fazenda, Margarida foi-se consolando e acomodando com a sua sorte.

Eugênio esteve dois anos na escola, e quando voltou definitivamente para a casa paterna, Margarida, que estava entre os nove e dez anos, já não era tão assídua em casa do fazendeiro. A menina já podia ajudar a sua mãe; sabia coser, bordar, e era muito diligente em toda a espécie de serviço caseiro compatível com a sua idade. Portanto somente aos domingos e dias santos, ou por acaso em alguma tarde costumava aparecer em casa de seus padrinhos em companhia de sua mãe.

Desde então trocaram-se os papéis, e era Eugênio quem não deixava a pequena casa da tia Umbelina, onde passava os dias quase inteiros junto a Margarida, ajudando-a em seus pequenos serviços, ou pelos campos e capões vizinhos, armando arapucas e esparrelas para apanhar pombas, sabiás, inambus, saracuras e outros pássaros com que obsequiava a sua linda amiguinha, a qual com isto mostrava-se infinitamente satisfeita.

Os pais de Eugênio não deixavam de ralhar com ele em razão de não parar em casa.

— Meu filho — dizia a mãe em tom de branda repreensão -, eu desejava bem saber o motivo por que não me paras em casa!... parece que não queres mais bem a tua mãe?...

— Quero, mamãe...

— Não queres... isto já é muito travessear... é preciso sossegar um pouco...

não paras um instante ao pé de mim. Não gostas de teu pai, nem de tua mãe?...

— Gosto, mamãe...

— Qual!... não gostas. De manhã apareces apenas para tomar a bênção, tomas à pressa o teu café com leite, e depois... adeus, Sr. Eugênio, passe por lá muito bem até à hora de jantar, ou até à noite!... Isto não vai bem!.. estou zangada contigo.

— E se eu contar a mamãe por que é que eu fico lá tanto tempo, mamãe fica zangada comigo?

— Eu sei!?... conforme... fala; que é, então?...

— Pois mamãe sabia que a tia Umbelina me pediu para ensinar a ler à Margarida...

— Deveras, meu filho?... — interrompeu a mãe rindo-se muito. — Que galante mestrinho tem a minha afilhada! por Deus que não sei qual dos dois mais precisará de bolos, o mestre ou a discípula.

— Mamãe está caçoando!... pois é deveras, estou ensinando a ler à Margarida.

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— Está bom, meu filho; mas para isso será preciso gastar todo o dia!... o teu mestre porventura te estava ensinando o dia inteiro?...

— Mas, mamãe, a tia Umbelina quer que ela aprenda depressa; e é preciso eu dar a ela duas, três e quatro lições por dia. Daqui lá é bem longe, eu não posso estar de lá para cá, e de cá para lá a toda a hora.

— Arre, nem com tanta sede ao pote!... mas, meu filho, isso não pode continuar; eu quero ver-te mais vezes perto de mim.

— Só se mamãe pedisse à tia Umbelina, que Margarida viesse para cá...

A mãe sorriu-se.

— Isso não é mais possível, Eugênio — tornou ela. — Bem vês que Margarida já está ficando grande; já ajuda sua mãe, que precisa muito dela...

— Qual, mamãe!... o que Margarida faz em casa, eu e ela indo para lá de tarde fazemos num instante... é recolher os bezerros, dar milho às galinhas... ora bolas!... isso custa nada?... a costura ela pode trazer para cá...

— Para tudo achas remédio... mas isso não pode ser assim...

— Então mamãe não quer que eu vá mais lá? — disse o menino quase a chorar.

— Não é isso, filho. Não te digo que não vás; mas é preciso voltar mais cedo, e não ficar lá o dia inteiro. A tua casa é aqui e não lá.

As coisas não passavam destas brandas repreensões, antes queixas da mãe de Eugênio. Este continuava sempre com a mesma assiduidade ao pé de Margarida; todavia o mais que fazia em atenção às ordens ou antes ao pedido de sua mãe, era voltar — às vezes — mais cedo para casa, com grande sacrifício de seu coração. Os pais sorriam-se cheios de satisfação da ingenuidade do

"mestrinho", como daí em diante o chamavam, e não lhe levavam a mal as suas longas e quotidianas ausências.

Eugênio não mentia, quando disse a sua mãe que ensinava a ler a sua companheira de infância. O viandante, que por ali transitasse naquela época, teria por vezes ocasião de contemplar à sombra das paineiras junto à pontezinha de que já falamos, um curioso e interessante grupo: um esbelto rapazote de cerca de doze anos assentado na grama, e com um braço passado sobre o ombro de uma gentil menina um pouco mais nova, apontando-lhe as letras do alfabeto.

Eugênio era dotado de índole calma e pacata, e revelava ainda na infância juízo e sisudez superior à sua idade; tinha inteligência fácil e boa memória. Além disso mostrava grande pendor para as coisas religiosas. Seu principal entretimento, depois de Margarida, cuja companhia preferia a tudo, era um pequeno oratório, que zelava com extremo cuidado e trazia sempre enfeitado de flores, pequenas quinquilharias e ouropéis. Diante deste oratório, o menino se extasiava fazendo o papel de capelão, rezando terços e ladainhas e celebrando novenas com a regularidade e com uma gravidade verdadeiramente cômica. Seus assistentes eram os crioulinhos da casa, e às vezes ele tinha por sacristão a Margarida, que com isto muito se encantava.

Em vista de tudo isto os pais entenderam que o menino tinha nascido para padre, e que não deviam desprezar tão bela vocação. Assentaram, pois, de mandá-

lo estudar e destiná-lo ao estado clerical.

Naquelas épocas de crença viva e piedade religiosa, ter um filho padre era um prazer, uma glória, de que muito se ufanavam os pais e as mães de família, e 9

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mesmo hoje, principalmente entre os nossos morigerados e religiosos fazendeiros, não falta quem pense que não pode haver carreira mais bonita, mais santa, nem mais honrosa. Assim pensamos também, quando aqueles que a abraçam a exercem nobre e dignamente.

Na véspera do dia, em que tinha de partir para o seminário de Congonhas do Campo, Eugênio que tinha ido à casa de Umbelina despedir-se dela e de sua filha, demorou-se mais do que de costume. Foi preciso mandar buscá-lo. Foram achá-lo no sítio, em que já o vimos por vezes, debaixo das paineiras, abraçado com Margarida, e ambos a chorar.

Embebidos em sua profunda mágoa, nem pressentiam a noite que vinha descendo, e ali ficariam chorando até o romper d'alva, se não os viessem despertar daquele doloroso letargo.

Que belo prelúdio para quem se destinava ao estado clerical!...

CAPÍTULO IV

Eis o nosso herói transportado das livres e risonhas campinas da fazenda paterna, para a monótona e austera prisão de um seminário no arraial de Congonhas do Campo, de barrete e sotaina preta, no meio de uma turba de companheiros desconhecidos; como um bando de anus pretos encerrados em um vasto viveiro.

Que mudança radical de vida!... que meio tão diferente daquele em que até então tinha vivido!... Essa transplantação devia modificar profundamente a existência do arbusto tão violentamente arrancado do solo natal.

Antes porém de prosseguirmos, repousemos um pouco nossas vistas sobre o pitoresco edifício do seminário e especialmente sobre a alva e formosa Capela do Senhor Bom Jesus de Matosinho, que em frente dele se ergue no alto da colina, como a branca pomba, da aliança pousada sobre os montes.

Ali ela refulge como um fanal de esperanças ao triste caminheiro estafado e perdido pelas escabrosas sendas da vida como um refúgio de paz aos aflitos peregrinos do vale das lágrimas, como um cofre das graças e perdões da misericórdia divina, oferecendo alívio e cura a todos os sofrimentos do corpo, consolação e refrigério a todas as atribuições do espírito.

O fato é o que aí vão procurar, e quase sempre encontram, milhares de peregrinos e romeiros, que, partindo dos pontos mais afastados, vêm ajoelhar-se ao pé do altar do Bom Jesus, suplicando-lhe a cura, de suas enfermidades, e alívio a suas dores.

Sobe-se ao adro da capela por uma escadaria de dois lances flanqueados de um e outro lado pelos vultos majestosos dos profetas da antiga lei, talhados em gesso, e de tamanho um pouco maior que o natural.

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante... Todavia as atitudes em geral são características, 10

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imponentes e majestosas, as roupagens dispostas com arte, e por vezes o cinzel do rude escultor soube imprimir às fisionomias uma expressão digna dos profetas.

O sublime Isaías, o terrível e sombrio Habacuc, o melancólico Jeremias são especialmente notáveis pela beleza e solenidade de expressão e da atitude. A não encará-los com as vistas minuciosas e escrutadoras do artista, esses vultos ao primeiro aspecto não deixam de causar uma forte impressão de respeito e mesmo de assombro. Parece que essas estátuas são cópias toscas e incorretas de belos modelos da arte, que o escultor tinha diante dos olhos ou impressos na imaginação.

Mesmo assim quanto não são superiores às quatro disformes e gigantescas caricaturas de pedra, que ornam... quero dizer, que desfiguram os quatro ângulos da cadeia de Ouro Preto!

O seminário, que nada tem de muito notável, é um grande edifício de sobrado, cuja frente se atravessa a pouca distância por detrás da igreja, tendo nos fundos mais um extenso lance, um pátio e uma vasta quinta. Das janelas do edifício se descortina o arraial, e a vista se derrama por um não muito largo, porém formoso horizonte.

Colinas bastantemente acidentadas, cobertas de sempre verdes pastagens e marchetadas aqui e acolá de alguns capões verdes-escuros formam o aspecto geral do país. Por entre elas estendem-se profundos vales, e deslizam torrentes de águas puras e frescas à sombra de moitas de verdura e bosquetes matizados de uma infinidade de lindas flores silvestres.

Em torno e mais ao longo um cinto de montanhas verdes, ante colinas mais elevadas, cobertas de selvas e pastagens, parecem envolver com amoroso abraço aquele solo santo em que, segundo a lenda, o Bom Jesus revelou por evidentes e repetidos milagres queria que ali se erguessem seu templo e seus altares.

Da frente da capela por uma extensa e íngreme ladeira, desce uma rua extremamente irregular e tortuosa, que vai terminar à margem do pequeno rio Maranhão, que divide o arraial em dois, comunicando-se por uma ponte de madeira.

Na parte superior dessa rua, que forma um espaçoso largo vêem-se algumas cúpulas ou pequenas rotundas de pedra, dentro das quais se acham figurados os passos da paixão de Cristo em imagens de tamanho natural, e são especial objeto da veneração e curiosidade de quantos visitam aquela localidade.

O arraial derramado em ruas irregulares pelo pendor das colinas em uma e outra margem do rio, tem um aspecto alegre e pitoresco, e seus arredores monticulosos apresentam às vezes risonhas paisagens e aprazíveis perspectivas.

Eis o novo cenário, a que havemos transportado o nosso herói. O espetáculo não podia, deixar de ser curioso e interessante, e nem a nova fase de vida em que ia entrar deixaria de ter encantos para um menino que tanto gostava das práticas de devoção religiosa, e tão forte tendência mostrava para o misticismo. Contudo, aquele filho do sertão, acostumado a percorrer os campos e bosques da fazenda paterna, não pôde a princípio deixar de estranhar a severa reclusão e imprescritível regularidade daquela vida monótona e compassada do seminário. Mas, o gênio pacato e a extrema docilidade de Eugênio, ajudados pela bossa da beatividade ou veneratividade, que a tinha muito desenvolvida, fizeram com que em menos tempo do que qualquer outro se habituasse e tomasse gosto mesmo pelo seu novo gênero de vida, como se fosse o elemento em que nascera.

Só uma coisa perturbava o seu bem-estar, e lançava uma sombra na limpidez e serenidade do seu horizonte. Era a saudade imensa, que tinha, do lar paterno e especialmente de Margarida, saudade que nem o tempo, nem os seus novos hábitos e ocupações puderam jamais arrancar-lhe do coração.

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Nas orações, na igreja, no recreio, nas horas de estudo e de repouso, Eugênio encontrava sempre mil motivos que lhe avivavam na idéia a imagem de Margarida.

Na missa, ao entrar na igreja na fila de seus companheiros, se perpassando um olhar rápido e furtivo pelo grupo das mulheres ajoelhadas abaixo das grades divisava entre elas alguma linda e graciosa menina, se lhe afigurava ver Margarida, e se não fora o regente, que postado por detrás dos estudantes passeava sobre eles olhares severos e vigilantes,

Eugênio não resistiria à tentação de olhar para trás algumas vezes, a fim de iludir as saudades de Margarida contemplando uma criatura que com ela se parecesse.

De madrugada aos domingos, Eugênio acordava em sua cama ao som dos hinos sagrados, que o povo assistindo à missa matinal entoava na capela. No meio daquela multidão de vozes de todos os timbres e volumes, que faziam restrugir o santuário e ecoavam por fora em acentos melancólicos e solenes, ele distinguia uma voz argentina, fresca e suave, Margarida lhe acudia ao pensamento. Margarida, quando defronte do pequeno oratório entoava esses cânticos singelos e tocantes, repassados de mística piedade, que ambos sabiam de cor desde a mais tenra infância. Era assim que Margarida cantava! Eugênio abandonava-se a uma espécie de êxtase cheio de voluptuosidade; sua alma subia ao céu nas asas do amor e da devoção, porém envolta em uma sombra de melancolia.

Depois do meio-dia e à tardinha, a sineta do seminário tangia alegre a hora do recreio.

Então, a turba dos seminaristas com suas batinas e barretes negros, divididos em quatro turmas segundo as idades — grandes, médios, submédios e meninos — despenhava-se fora das portas como uma nuvem de melros pretos a quem se abriu a entrada do viveiro, e se derramava pelo pátio, pelo quintal, pelo adro da capela e pelas colinas vizinhas, uns tagarelando, outros assobiando ou cantando, outros tocando variados instrumentos de sopro, fazendo uma algazarra confusa, imensa, atroadora.

O regente dos submédios, entre os quais se achava Eugênio, costumava dirigir sua turma para o lado do quintal a uma extensa esplanada ou terraço formado por um muro, que serve de cerco à quinta, cujo terreno mais elevado fica, a cavaleiro sobre uma rua erma e quase sem casas, que corre ao lado do seminário.

Há nessa esplanada um belo grupo de magníficas castanheiras silvestres, e viam-se também ali naquele tempo frescos e sombrios caramanchões de maracujá, e lindas latadas de flores trepadeiras. Gozava-se um ambiente fresco e perfumado, e a vista, se expandia ao longe por alegres e formosos horizontes.

Enquanto seus companheiros brincavam, corriam, saltavam, balouçando-se em gangorras ou trepando pelas árvores, Eugênio se isolava, e sentado no paredão olhava para os outeiros e espigões que se desdobravam diante de seus olhos.

Se via um grupo de mulheres passeando ao longo das colinas verdes, e entre elas alguma menina, seu coração suspirava. Margarida! murmurava ele, e aquele nome tão doce, que lhe escapava como um soluço do fundo do coração, ia morrer nas asas da brisa perfumada, abafado pela algazarra de seus alegres companheiros. Era um arrulho de juritis perdido no meio da atroadora garrulice dos melros.

Outras vezes ficava olhando para o ocidente. Era desse lado que ficava a sua terra natal. Por largo tempo ficava com os olhos pregados nas nuvens brilhantes, que como franjas de ouro pairavam sobre os cumes das últimas colinas, 12

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e lá iam boiando a atufar-se no vapor esbraseado do ocidente. Ele se transportava em espírito para o seio daquelas nuvens de ouro, donde pensava poder-se enxergar as colinas e vargedos da fazenda paterna, e dali conversava com a saudosa companheira de sua infância. Tinha inveja da andorinha e do corvo, que talhando os ares lá se iam perder nas douradas brumas do ocaso demandando os sítios venturosos onde morava a bem querida do seu coração, e pesaroso por não poder acompanhá-los dizia-lhes do íntimo d'alma: — dai saudades a Margarida!

O sino da capela badalando ave-marias o vinha despertar daquelas doces e saudosas cismas.

— Anda, sorumbático!... vamos, meu sonso!... que estás aí banzando?

bradavam-lhe seus galhofeiros e alegres companheiros.

Então os meninos, descobrindo-se com as mãos postas dentro de seus barretes, os olhos baixos, e a fronte venerabunda postavam-se em semicírculo em face do regente, e murmuravam em voz baixa a prece das Ave-Marias.

Eugênio, posto que com o espírito preocupado pelas inquietações e saudades de um afeto terreno, rezava com mais fervor e recolhimento do que seus frívolos e descuidosos companheiros. Seu espírito apurado ao fogo de um amor infantil e casto, como o sutil e rosado vapor da manhã, despegava-se da terra com facilidade remontando ao firmamento.

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus.

CAPÍTULO V

No seminário o menino Eugênio era um exemplo de boa conduta e aplicação. Cordato, dócil e obediente, depressa granjeou a benevolência e estima dos padres, e a simpatia de seus companheiros. No estudo, porém, não deu a princípio muito boas contas de si, nem apresentou os progressos que eram de esperar de sua boa memória e inteligência.

A imagem de Margarida e a saudade do lar paterno enchiam-lhe de sombra o espírito e o coração para deixarem lugar às fastidiosas lições de gramática latina.

O compêndio de Antônio Pereira foi para ele um pesadelo, diante do qual teve de gemer e suar por alguns meses. Lia e relia as páginas da lição a ponto de as esfarelar para conseguir gravar na memória algumas palavras. É que eram seus olhos somente que passeavam por sobre aquelas letras mortas, que nada diziam ao seu espírito.

Aquelas definições e classificações tão frias e áridas, aquelas enfiadas enfadonhas de declinações e conjugações, como um bando de morcegos e corujas, recusavam-se obstinadamente a penetrar no cérebro inflamado do adolescente, onde como em um santuário ardente e luminoso fulgurava incessantemente a imagem de Margarida. Se desde o começo lhe tivessem posto nas mãos o livro dos Testes de Ovídio ou as Éclogas de Virgílio, talvez aquela calma impressionável e apaixonada se tivesse mais depressa congraçado com o latim.

Foi pois com muita lentidão e um insano trabalho, que só a muita perseverança e força de vontade tornara suportável, que Eugênio conseguiu ir gravando na memória os seus rudimentos de latim.

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Entretanto, era preciso saber para ser padre, e portanto Eugênio entregava-se ao estudo com um ardor inexcedível, e fazia esforços inauditos para banir do espírito a sedutora visão que o perturbava. Neste empenho a sua tendência ao misticismo e à vida religiosa vieram eficazmente auxiliá-lo, e mesclando-se às suas afeições terrenas contribuíram para extingui-las até certo ponto, tirando-lhes o caráter ardente e inquieto, e confundindo-as com aquele culto respeitoso e sereno, com aquela adoração calma e extática, que o menino consagrava à Virgem Mãe de Deus.

Amor e devoção se confundiam na alma ingênua e cândida do educando, que ainda não compreendia a incompatibilidade que os homens têm pretendido estabelecer entre o amor do criador e o amor de uma das suas mais belas e perfeitas criaturas — a mulher; a mulher, que Deus criou para amar e ser amada, a mulher que sem o amor é como a caçoula de perfumes, a que o ministro do templo esqueceu-se de comunicar o fogo santo, que os faz arder e subir em nuvens recendentes a beijar os pés de Deus.

Assim, o coração naturalmente afetuoso e terno de Eugênio, não podendo dar ampla expansão a seus afetos mundanos, se refugiava no ascetismo da devoção religiosa, e derramava-se com efusão aos pés do altar, sem que esse culto da divindade excluísse dele o terno sentimento que experimentava por Margarida, sentimento de que ele ainda ignorava a natureza, e nem lhe sabia o verdadeiro nome.

Volvendo ao céu o pensamento nas asas da oração, nessas horas de êxtase e de místico recolhimento, por entre os coros de anjos que rodeavam o sólio estrelado da Rainha de todos os santos, ele entrevia o faceiro e mimoso rosto de Margarida, e adorava-a também.

Assim essa afeição pura e casta, a qual se ainda não era o amor, era a sua fecunda e brilhante crisálida, amenizava e como que embalsamava com seu tépido bafejo os atos de devoção e a austeridade da vida claustral, enquanto a devoção, por seu lado, mitigando os ardores e impaciências daquele sentimento, impedia que se tornasse uma paixão imperiosa e fatal.

Tinham os padres em muito apreço e estima as belas qualidades de Eugênio, e principalmente a decidida vocação que revelava para o estado clerical.

Ignorando o que se passava no íntimo do seu coração, assentaram de animá-lo naquele santo propósito com exortações e leituras adequadas a esse fim.

Naqueles tempos os dignos e veneráveis sacerdotes da Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo, aos quais tantos benefícios deve a província de Minas, não se descuidavam de empregar meios para atrair neófitos ao seio daquela respeitável corporação. Como os jesuítas, porém com mais escrúpulo e menos violência, procuravam dirigir a educação moral e intelectual dos meninos, de modo a inspirar-lhes o gosto pela vida ascética dos claustros e a resolvê-los a tomar a loba e o barrete de congregados.

Não ficaram totalmente sem frutos os seus esforços, e viram-se muitos moços de famílias distintas alistarem-se nas fileiras dos filhos de S. Vicente.

Notando as felizes disposições de Eugênio, os padres não podiam deixar de nutrir a esperança de vê-lo no seu grêmio, e para esse fim empregavam desde já habilmente os meios convenientes.

Passaram-se assim doze anos, em que a vida correu para Eugênio, senão descuidosa e prazenteira como na fazenda paterna, ao menos serena e sem dissabores. Cada vez mais estimado dos padres e benquisto de seus companheiros, à medida que seu coração se ia acalmando, sua inteligência se desobumbrava, e 14

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fazendo rápidos progressos compensava largamente o tempo perdido com a dificuldade dos primeiros esforços.

É verdade que a imagem de Margarida nunca lhe saía do coração mas já não o incomodava tanto, nem lhe agitava espírito como outrora.

Ela lhe aparecia como a figura de um anjo, desenhando-se ao longe e sorrindo-lhe tristemente por entre as brumas melancólicas do horizonte pavoroso. A lembrança de Margarida era já em sua alma essa saudade meiga e maviosa, que nos espreme o coração, e dele faz borbotar lágrimas de fel e de sangue.

Passados dois anos, porém, um incidente veio perturbar a uniformidade suave e serena, se bem que um pouco melancólica, da vida de Eugênio. Um dia, a íntima confiança que merecia de seus mestres e diretores, ia-se abalando profundamente.

Eugênio já tinha entrado para a terceira classe de latim, e começando a traduzir o livro dos Tristes de Ovídio e as Éclogas de Virgílio sentiu-se tomado de um vivo gosto pela poesia. Para isso o predispunham sua terna sensibilidade e ardente imaginação. Só esperava a mão que viesse correr aos olhos de sua inteligência inesperta o véu que encobre esses desconhecidos e encantados horizontes, essas paisagens fantásticas e deslumbrantes, tão cheias de magia, de luz e de harmonia em que os espíritos elevados encontram tão grato abrigo contra a insipidez e as asperezas da vida real.

Virgílio, de um lado, e Ovídio, do outro, deram-lhe as mãos e o introduziram no templo da harmonia.

Era mais um precioso achado para aquela imaginação esta viva e brilhante, para aquele coração tão rico de afetos. Mais uma corda virgem acabava de ser vibrada naquela feliz e delicada organização. À devoção e ao amor vinha juntar-se mais um novo encanto na vida do adolescente; mais um eco acordava melodioso no seio dessa alma tão cheia de harmonias íntimas e misteriosas.

Religião, amor, poesia, eis os elementos, que bastavam para encher aquela existência e torná-la a mais feliz do mundo. Eram como três anjos de asas de azul e ouro, que esvoaçavam de contínuo em torno dessa alma infantil e cândida, e a arrebatavam aos céus em gozos inefáveis.

Eugênio, pois, ao ler os primeiros versos de Virgílio, sentiu na fronte o bafejo do anjo da poesia que lhe dava, à alma como um sentido mais, abrindo nela uma nova fonte de suaves e inefáveis emoções. As Éclogas do imortal Mantuano o encantavam. As cenas do amor bucólico o arrebatavam, retraçando-lhe na fantasia em cadentes e melodiosos versos os singelos e aprazíveis painéis da vida campesina, em que tantas vezes ele figurava como ator, e fazendo-lhe lembrar com a mais viva saudade o ditoso tempo em que, junto com Margarida errante pelos vargedos e colinas da fazenda paterna, lidava com o pequeno rebanho de Umbelina.

A não ser padre santo — que era até então a sua mais forte aspiração -, a vida que mais lhe sorria à imaginação era a de pastor, contanto que fosse em companhia de Margarida.

Não contente com admirar e sentir as belezas desses grandes poetas, Eugênio, que tinha em si um grande fundo de sentimento e calor poético, ensaiava-se às vezes procurando traduzir em estrofes as emoções de seu coração, e as imagens que lhe pululavam no espírito. E quem senão Margarida, aquela beleza em botão poderia inspirar os cantos daquela musa ainda no berço?...

Mas, um dia, Eugênio esteve a ponto de perder todo o bom conceito e estima, que até então tinha merecido de seus preceptores.

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Eugênio se ocupava às vezes em escrever algumas coisas, que não eram os seus temas de latim, e escondia cuidadosamente esses manuscritos, em que cismava longamente. Como os meninos estudavam e dormiam em um vasto salão aberto, esta circunstância não pôde escapar aos olhos escrutadores e perspicazes do regente. Picado de curiosidade, este entendeu que devia saber o que continham aqueles papéis. Portanto, na hora do recreio, incumbindo a outro o cuidado de levar os meninos a passeio, deixou-se ficar no salão, e foi dar busca aos papéis de Eugênio, esperando não encontrar entre eles afora as listas de significados e os temas de latim, senão algum esboço de sermão ou talvez algum ensaio de hinos religiosos, com cuja leitura já de antemão se regalava sua ávida curiosidade.

De fato, encontrou alguns esboços informes nesse gênero, mas qual não foi a sua surpresa, quando entre esses papéis encontrou também uma longa carta escrita no tom mais sentimental e uma porção de versinhos amorosos dirigidos a uma rapariga de nome Margarida!? Que terrível auto de corpo de delito! Que sentença esmagadora, que anátema tremendo pairava então sobre a cabeça de Eugênio, que a essa hora sentado como de costume no paredão da esplanada do quintal, tranqüilo e descuidoso cismava saudades da sua Margarida!...

CAPÍTULO VI

Os versos de Eugênio eram apenas alguns ensaios incompletos e de forma tosca e imperfeita, e estrofes sem nexo esparsas aqui e acolá em pequenas tiras de papel. Eram as primeiras tentativas de um estro infantil que ensaiava os vôos, como o passarinho novo que não podendo ainda lançar-se pelo espaço, contenta-se com esvoaçar em torno do ninho.

O regente, que era também o seu professor de latim e muito curioso de espécimes desse gênero, conservou alguns desses versos, que lhe pareceram menos toscos e mais bem acabados, como as duas seguintes coplas: Longe de teus lindos olhos,

Ó Margarida,

Passo a noite, passo o dia

Em cruel melancolia;

Ai! triste vida!

.................................................

Que importa estejas ausente

Ó bem querida;

O teu formoso semblante

Estou vendo a cada instante,

Ó Margarida.

No gênero bucólico o que havia de mais completo e inteligível, era o seguinte:

Enquanto o nosso gado vai pastando

A verde relva ao longo da ribeira,

Vamos, Menalca, repousar um pouco

A sombra da paineira.

Ali tu ressoando a doce avena

A Clore cantarás que é tua vida;

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E eu te escutando chorarei saudades

Da minha Margarida.

.......................................................

Mas basta; a sombra desce dos outeiros,

E o sol se esconde atrás daquela ermida,

É tempo de ir buscar o manso gado

Da minha Margarida.

O padre regente, conquanto admirasse o precoce talento poético do menino, foi às nuvens com semelhante descoberta, e tratou logo de seqüestrar e ir meter nas mãos do padre-mestre diretor aqueles execrandos papéis, à exceção de alguns poucos que como apreciador do talento de seu aluno quis conservar consigo.

O diretor, cheio de assombro e altamente escandalizado, resolveu chamar à sua presença e interrogar com todo o rigor o autor daquelas libertinagens, disposto a castigá-lo severamente.

— Que hipócrita! — exclamava o padre, cheio de santa indignação. — Em tão tenra idade e já com o coração tão corrompido!... ah! velhaquete!... e andava-me aqui com carinha de santo!... que castigo merece uma hipocrisia tal!...

Pobre menino!... aquela ingênua expansão de uma alma pura e afetuosa, que sabia ainda conciliar o culto do criador com o de criança, que se expandia como uma flor aos primeiros raios da aurora exalando perfumes de poesia, era pelo contrário aos olhos do fanático preceptor um pecado abominável, uma revoltante hipocrisia.

Portanto, depois que os seminaristas se recolheram do recreio e que a sineta deu sinal da hora do repouso, Eugênio foi intimado pelo seu regente para comparecer no quarto do padre-mestre diretor.

Este chamado era terrível. De ordinário só tinha lugar quando o estudante tinha incorrido em alguma grave falta, e era, quase sempre seguido de severas repreensões e por vezes de exemplares e rigorosos castigos. Transido de terror, posto que a consciência nada lhe argüisse, pálido e trêmulo como um réu, que vai ouvir a sentença de sua condenação, o pobre menino atravessou os longos corredores, e encaminhou-se para o cubículo do diretor, que ficava na extremidade do edifício.

— Então, senhor Eugênio, que papéis são estes? — foi-lhe logo perguntando sem mais preâmbulos o padre-mestre, com voz áspera e sobrolho carregado, e mostrando os papéis que tinham sido subtraídos da pasta do menino.

Eugênio reconheceu logo os seus papéis; ficou fulminado e lívido como um defunto. Quis responder, mas não atinava com o que havia de dizer. Tremendo e confuso abaixou a cabeça e calou-se.

— Que papéis são estes, senhor Eugênio? não me responderá?... continuou o padre com voz cada vez mais áspera.

Eugênio não respondia. Em pé, imóvel e de braços cruzados em frente do padre, que se achava sentado junto a uma mesa, dir-se-ia que a vergonha e o terror o tinham petrificado, se não fora um leve tremor que lhe agitava o corpo desde a cabeça até os pés.

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— Com efeito, senhor estudante! — prosseguiu o padre com a voz grave e solene — quando nós todos aqui o tínhamos no conceito do melhor e mais bem comportado dos estudantes; quando eu o apontava como um exemplo a seus companheiros, cai-lhe enfim a máscara, e o senhor mostra que não é senão o tipo da mais rematada hipocrisia!... é incrível... entretanto é a pura verdade?... Que quer dizer esta carta?... estes versinhos? que abominação é esta? explique-me isto, senhor Eugênio. Então toda essa sua devoção, que tanto nos edificava, essa carinha de santo, esses seus modos humildes não eram mais do que uma máscara para nos enganar, e que encobria um libertino? é assim que corresponde aos louváveis desejos de seu pai, que tanta vontade tem de vê-lo padre? diga-me, não se peja dentro da consciência do triste papel que está fazendo?...

Que sermão para um menino de quinze anos e para uma alma tímida, boa e sensível como a de Eugênio.

Eugênio ficou aterrado. Tanto a sua língua como a sua inteligência ficaram como que paralisadas ao choque daquela furibunda apóstrofe. Sua surpresa e estupefação eram completas. Nunca lhe passara pela cabeça, que querer bem a uma criança como ele, e fazer-lhe versos fosse uma abominação, um horroroso pecado, e se procurava ocultar esses produtos do seu estro infantil era mais por acanhamento e por uma espécie de pudor instintivo, e não porque tivesse consciência de cometer um ato repreensível.

O menino estava em torturas, mas enfim era preciso responder alguma cousa.

— Senhor padre!... me perdoe... — pôde ele enfim responder balbuciando e tremendo. — Eu não sabia... que isso era proibido...

— Isso o quê?

— Fazer versos...

— Mas que qualidade de versos, senhor estudante?... fazer versos a Deus, aos santos, aos anjos, isso também os santos padres da igreja já os faziam, Vm.

também lá os tinha no seu calhamaço de envolta com estas abominações... mas este sacrilégio!... E não me fará o favor de dizer quem é esta Margarida?

— É uma pobre criança, senhor padre, uma menina minha vizinha, e que foi criada junto comigo.

— Ah!... mais essa!... tão criança, e já tinha lá em sua terra dessas relações pecaminosas!... e o senhor seu pai porventura não sabia disso, quando o mandou para cá a fim de o educarmos para padre? é essa a bela vocação, que ele tanto exaltava? que guapo padre, que em vez de estudar e rezar ocupa-se em fazer cartas e versinhos de amores?...

— Mas, senhor padre... eu não mandei a carta nem os versos para a Margarida...

— Porque não pôde... e que importa isso?... bastava pensar em tais coisas para cometer um grande pecado, e Vm. não só pensou, como escreveu. Essas paixões pecaminosas e torpes não se devem aninhar no coração de ninguém, e muito menos no de um menino, que se destina ao estado eclesiástico. Meu amiguinho, se pretende continuar com essas abominações, arranque já do corpo essa batina, deite fora esse barrete que está profanando e vá-se com Deus para casa de seus pais. Não consentiremos que esteja aqui pervertendo os outros com seu pernicioso exemplo. Pode estar certo, que puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo. Este não é tão perigoso.

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— Oh! senhor padre!... senhor padre! perdoe-me pelo amor de Deus! —

exclamou Eugênio caindo de joelhos aos pés do padre, e não podendo continuar, levou ao rosto as mãos, e desatou numa torrente de lágrimas e soluços.

Um pouco comovido com aquela cena o padre pegou-lhe no braço, fê-lo levantar-se e disse-lhe em tom mais brando:

— Está bem!... está bem!... não esteja aí a chorar. Quero acreditar que tudo isto não foi senão efeito da ignorância e simplicidade; mas fique advertido de uma vez para sempre... Levante-se, filho de Deus, enxugue essas lágrimas e faça firme protesto de não cair mais nessas libertinagens. Aqui estão os seus papéis; quero que os queime com as suas próprias mãos, e não pense mais nessa Margarida, que o ia lançando no caminho da perdição.

O padre fez acender uma veia, e o estudante com a mão trêmula nela queimou, como se fossem sacrílegos, aqueles inocentes produtos da sua musa infantil.

— Muito bem! — disse o padre vendo caírem no chão uma após outra as folhas denegridas dos papéis queimados. — Muito bem! agora é preciso também queimar nesse coraçãozinho inexperiente o lixo das paixões mundanas e pecaminosas no fogo do amor divino, redobrando de devoção, rezando com muito fervor, impondo-se jejuns e penitências, e suplicando do fundo da alma ao divino Espírito Santo, que lhe ilumine o entendimento e lhe vigore o coração, dando-lhe forças para poder combater vitoriosamente contra a tentação do pecado. Para esse fim há de Vm. jejuar uma semana inteira e preparar-se para no fim dela fazer confissão geral e receber a comunhão. Tenha paciência, e só por este meio que poderá combater a tentação, que assim o anda desviando da senda de seus deveres, e o pretende arredar de sua santa e verdadeira vocação. Vá; vá para o salão estudar. Por esta vez está relevada a sua falta e se arrepender deveras, e emendar-se, continuará a merecer a nossa estima e nossos desvelos. Do contrário o reenviaremos a seus pais; mas espero que o menino não quererá dar-lhes tão grande desgosto.

CAPÍTULO VII

Eugênio entrou para o salão mergulhado num pego de dor, de vergonha, de terror, e sofrendo o embate de mil diversas e violentas impressões. Seus companheiros de salão olhavam para ele cheios de pasmo.

Em que grave falta teria incorrido aquele bom menino tão dócil, tão sossegado e estudioso?

— Se aquele, que é um santinho, e nunca falta às suas obrigações, está sujeito a estas, que será de mim, que nem por isso dou muito boas contas de mim, e não sou lá das melhores fazendas! — Assim cada um deles transido de medo pensava em sua consciência.

Eugênio vendo a atenção de que era objeto da parte deles, quereria afundar-se cem braças pela terra abaixo.