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O Sexo e o Ocidente por Jean-Louis Flandrin - Versão HTML

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Jean-Louis Flandrin

O Sexo e o Ocidente

Evolução das atitudes e dos comportamentos

Tradução

Jean Progin

editora brasiliense

1988

Copyright © Éditions du Seuil, 1981.

Título original: Le Sexe et l'Occident.

Copyright © da tradução: Editora Brasiliense S.A.

para publicação e comercialização no Brasil.

Ilustração de capa:

École de Fontainebleau, Alegoria, Louvre

Revisão:

Mário R. Q. Moraes Maria L. Appas

ISBN: 85-11-13074-8

editora brasiliense s.a. rua da consolação, 2697 01416 - são pauto - sp.

fone (0111 280-1222 brasiliense telex: 11 33271 DBLM BR

Sumário

1. Para uma história da sexualidade ............................................................................................... 6

I - O amor ...................................................................................................................................... 11

2. Sentimentos e civilização .......................................................................................................... 12

SONDAGEM NO NÍVEL DOS TÍTULOS DE OBRAS ...................................................................... 12

3. O amor e os amores no século XVI ........................................................................................... 29

O amor é definido pelo sujeito que ama ou pelo objeto amado ............................................. 29

Definição só pelo sujeito ....................................................................................................... 29

Definição só pelo objeto ....................................................................................................... 29

Definição pelos dois atores ................................................................................................... 29

Amores dos quais não se conhece nem o sujeito nem o objeto .............................................. 30

"Em amor(es)" ....................................................................................................................... 30

"Do(s) amor(es)" ................................................................................................................... 30

"O amor" ............................................................................................................................... 31

Qualificativos do singular e do plural ....................................................................................... 32

Os qualificativos favoráveis .................................................................................................. 32

Os qualificativos desfavoráveis ............................................................................................. 33

4. Os compromissos de Troyes (séculos XV-XVII) ......................................................................... 37

Os compromissos nos séculos XV e XVI .................................................................................... 37

O desaparecimento dos compromissos no século XVII ............................................................ 43

5. Amor e casamento no século XVIII ........................................................................................... 50

Amor e casamento na cultura dominante ................................................................................ 50

O testemunho dos títulos de obras ...................................................................................... 50

Observações sobre o amor conjugal ..................................................................................... 52

O casamento por amor ......................................................................................................... 53

Amor e casamento na prática popular ..................................................................................... 54

As características tradicionais ............................................................................................... 54

Evoluções .............................................................................................................................. 55

II - Moral sexual e comércio conjugal ........................................................................................... 58

6. A doutrina cristã do casamento ................................................................................................ 59

A PROPÓSITO DE UM LIVRO DE JOHN T. NOONAN .................................................................. 59

7. Contracepção, casamento e relações amorosas no Ocidente cristão ...................................... 64

8. Homem e mulher no leito conjugal .......................................................................................... 78

A igualdade dos esposos frente à dívida conjugal .................................................................... 78

Papel viril e papel feminino na união sexual ............................................................................ 79

O direito da mulher ao prazer .................................................................................................. 80

III - A criança e a procriação .......................................................................................................... 84

9. Infância e sociedade.................................................................................................................. 85

A PROPÓSITO DE UM LIVRO DE PHILIPPE ARIES ....................................................................... 85

10. A atitude em relação à criança pequena e as condutas sexuais ............................................ 91

ESTRUTURAS ANTIGAS E EVOLUÇÃO ........................................................................................ 91

Introdução ............................................................................................................................. 91

Estruturas antigas ..................................................................................................................... 91

As condições favoráveis ao infanticídio ................................................................................ 91

A eliminação voluntária das crianças na civilização cristã .................................................. 100

A indiferença e a negligência .............................................................................................. 109

EVOLUÇÃO .............................................................................................................................. 117

Castidade conjugal e o bem da criança nos debates teológicos ........................................ 117

A evolução das atitudes para com a vida da criança e as transformações demográficas . 123

Conclusão ................................................................................................................................ 127

11. Idéias gerais antigas e modernas sobre a criança na família ................................................ 133

A criança, fonte de balbúrdia para seus pais .......................................................................... 133

A criança era rentável para os lares pobres? .......................................................................... 135

O status da criança .................................................................................................................. 140

A educação da criança ............................................................................................................ 143

12. A jovem nos antigos provérbios franceses ........................................................................... 147

O bem se vai quando nasce uma filha .................................................................................... 147

IV A vida sexual dos celibatários ................................................................................................. 150

13. Casamento tardio e vida sexual ............................................................................................ 151

DISCUSSÕES E HIPÓTESES DE PESQUISA ................................................................................ 151

14. Repressão e mudança na vida sexual dos jovens ................................................................. 169

O cume da repressão sexual ................................................................................................... 169

Prostituição e estupro nas cidades da baixa Idade Média ..................................................... 171

As freqüentações pré-nupciais no campo e sua proibição ..................................................... 173

O desafio dos dados estatísticos ............................................................................................. 176

Interiorização ou desejo ......................................................................................................... 179

15. Vida familiar e amores ilícitos na Inglaterra ......................................................................... 184

A PROPÓSITO DE UM LIVRO DE PETER LASLETT* ................................................................... 184

1. Para uma história da sexualidade

Nós, europeus do século XX, somos conscientes de ter uma longa história e, como os nobres de

outrora, tiramos dela uma certa altivez. A deles era prova de sua nobreza; a nossa nos deu por muito

tempo o sentimento de sermos "civilizados", contrariamente aos povos supostamente sem história, que

chamávamos de "primitivos" ou "selvagens". O que poderia justificar essa altivez? As maneiras de pensar,

de sentir e de agir, pelas quais se reconhecia antigamente a nobreza, não se podiam adquirir em uma

geração; mesmo aquelas que fazem o ocidental moderno. No entanto, como os gentis-homens que se

vangloriavam dos grandes feitos dos seus antepassados, mas jogavam um véu pudico sobre a lenta

passagem de sua família do mais baixo plebeísmo à nobreza, também nós temos há muito tempo pedido à

História para confortar nossa vaidade, sem a preocupação de definir como chegamos a ser o que somos,

em que medida nosso presente e nosso futuro dependem do passado e até que ponto aqueles que não

têm a mesma história que nós podem ser ou se tornar similares a nós.

Avancemos um pouco o paralelo. Esses nobres, que nos séculos XVII e XVIII se queixavam tão

freqüentemente do infortúnio dos tempos, não buscavam jamais saber se a extinção de tantas famílias

ilustres não resultava, em parte, dos comportamentos característicos de nobreza, comportamento

econômico, por exemplo, ou comportamento demográfico que eles herdaram de seus antepassados com o

ideal nobiliário. As dificuldades que nós mesmos encontramos em nossa vida atual, não as herdamos

também do passado?

É uma idéia muito disseminada entre os ocidentais de hoje, que temos dificuldades particulares no

plano sexual, e que elas são imputáveis à nossa moral tradicional, de essência cristã. Mas será que

renegando brutalmente a moral de nossos pais, tentando adotar aquela dos nhambiquaras ou outros

povos considerados próximos à natureza, poderemos vencer nossas dificuldades? Em realidade não somos

livres para recusar nossa herança: ela está grudada à nossa pele. E quanto mais quisermos ignorá-la, mais

seremos seus prisioneiros.

Aliás, fico espantado que, num século onde a psicanálise suscita tanto entusiasmo, se tenha tão

pouca consciência dessa potência do passado. Tem algo de ilógico o escrutinar com tanta atenção o

passado dos indivíduos submetidos a curas psicanalíticas e tão pouco o seu passado coletivo. Ou pelo

menos o que sobrevive em nossa cultura.

Não existe o homem natural, no sentido de que todo comportamento humano tenha sido modelado

por uma cultura. Ora, toda cultura se elaborou progressivamente no passado e foi profundamente

marcada por estruturas e traumatismos passados. Por intermédio da literatura, da moral, do direito, da

linguagem, mesmo das ciências, das técnicas, das artes, de tudo o que constui nossa cultura, somos, desde

o nascimento, invadidos sub-repticiamente pelo passado. Peço desculpas por desenvolver tais banalidades.

Mas quando ouço os sociólogos, os psicólogos, os psicanalistas, os sexólogos, os jornalistas... e muitos

historiadores falarem da sexualidade, tenho a impressão de que esquecem das evidências. E não

concedendo ao passado a atenção que ele merece, nos impedem de nos libertarmos dele.

Falar de todas as maneiras do passado não me parece bom. E muitas vezes, me parece, a História

funciona como uma memória doentia, que retém só o que faz mal — velhos ódios, desconfianças das

gerações precedentes, lealdades intempestivas — e desenvolve a tendência de ver no presente uma

simples repetição do passado. Por outro lado, quando o passado nos invade por outros caminhos — pela

linguagem, pela literatura, pela moral, pelo direito, etc. —, como é o caso, entre outros, em matéria de

sexualidade, então a História poderia ter uma função terapêutica. Tributando ao passado o que nós

rejeitamos, mostrando as relações que existiam entre a tal antiga atitude face à sexualidade de outros

traços, hoje abolidos ou ainda vivos, da cultura ocidental, ele deveria permitir a reapreciação de nosso

sistema de valores, e por esse meio ultrapassar as dificuldades presentes.

Não cabe só ao historiador tomar a seu cargo essas reapreciações. Menos ainda fechar seus

contemporâneos em dilemas intransponíveis, pretensamente lacrados pela História. Assim, de evidente

relação entre o triunfo do casamento de amor e a multiplicação dos divórcios em nossas sociedades

ocidentais, ele não concluirá que precisa retornar ao "casamento de razão", ou desviar os olhos do

inaceitável em tantos divórcios contemporâneos. É suficiente que ele saiba achar no fundo do passado

uma matéria própria para alimentar a reflexão sobre os problemas do presente, aprofundar o campo e

refluir os laços que nos estrangulam. Espero que os artigos aqui reunidos possam contribuir para modificar

a visão que uma cultura acrônica nos dá do amor, do casamento e do comércio conjugal, da relação pais-

filhos, da vida sexual dos solteiros.

Há séculos que o amor é o tema favorito dos poetas e dos romancistas e, portanto, provavelmente

do seu público. Nada de muito novo nesse campo, entre os séculos XVI e XX, por exemplo. Mas será o

mesmo o sentimento que se chama "amor" durante esse meio milênio? Os estimulantes e os objetos do

amor permaneceram os mesmos? E a conduta amorosa? Para responder plenamente a essas questões,

seria necessário proceder a estudos mais profundos do que os encontrados no primeiro capítulo desta

coletânea. No entanto eles farão aparecer sensíveis modificações na representação do amor, na atitude da

sociedade a seu respeito, e modificações mais evidentes ainda quanto ao seu papel na escolha do cônjuge

ou no comércio carnal dos esposos.

O estatuto do amor no século XVI foi de certa forma mais complexo que em nossos dias. Tinha

cânticos do amor platônico e cânticos do amor carnal. Por outro lado, os moralistas eclesiásticos ou os

laicos tinham tendência a condenar a paixão amorosa sob todas as formas, sem se preocupar em distinguir

— como se tem feito muito no século XX — o "verdadeiro amor" do simples desejo.

Do lado da cultura laica — veja os provérbios e as leis — tratava-se principalmente de limitar o peso

do amor na formação da ligação conjugal. Como essas ligações tinham por função estabelecer aliança

entre famílias e assegurar a transmissão das heranças, os "casamentos de namorisco" arriscavam na

realidade subverter a ordem social. Como não era possível impedir os jovens de namorar, pelo menos era

preciso fazê-los entender que seus amores eram somente suportáveis fora de toda visão matrimonial.

A Igreja, por sua vez, condenava todo amor profano como contraditório ao amor sagrado. Insistia

particularmente sobre os perigos do amor entre esposos, julgando sem dúvida que muitos féis estavam

inconscientes disso: "O marido que, levado por um amor desmedido, possui tão ardentemente sua mulher

para contentar sua volúpia, ou que mesmo não sendo sua mulher, tem relações com ela, é um pecador",

escrevia um pregador do século XVI. E ao longo da Idade Média os teólogos repetiam esse aforismo antigo

transmitido por São Jerônimo: "Adúltero é também aquele que é por demais ardente e apaixonado por sua

mulher". Só há pouco tempo a Igreja católica exalta o amor conjugal, a exemplo dos protestantes. "As

relações conjugais são imorais quando não existe mais amor", escrevem os teólogos de hoje, porque são

"expressões do amor". E um prelado de grande autoridade declara: "A primeira exigência de Deus sobre o

ato de amor é que ele seja baseado no amor". Isto é o oposto da atitude tradicional, e nenhuma religião

declara isso de boa vontade.

Para a antiga moral cristã, a sexualidade nos é dada somente para procriar, e qualquer outro uso

seria perverter a obra de Deus. Tal concepção, que implica a continência durante todos os períodos em

que a concepção de um filho é impossível ou inoportuna — gravidez, período de mestruação, período "de

impureza" depois do parto, anos de amamentação — e que aconselha uma continência definitiva aos

cônjuges, desde que eles já tenham um descendente,1 é racional, coerente, mas demasiadamente austera

para ser bem observada: Santo Agostinho reconhece isso sem ambigüidade. Também, desde o

Renascimento teológico dos séculos XII e XIII, os teólogos receavam que essa austeridade excessiva

poderia fazer o casamento perder seu papel de remédio para os fracos incapazes de viver na continência.

Pouco a pouco, eles reconheciam aos cônjuges o direito de "se administrar o remédio do casamento" em

1 Por exemplo Santo Ambrósia Traité sur I'Evangile de Luc, I, 43-45: "Os jovens para os quais o temor de Deus acalma e modera o coração

renunciam freqüentemente, desde que tenham uma posteridade, às obras da juventude".

todos os tempos, mesmo que a concepção seja impossível ou intempestiva, quer dizer, perigosa para a

mulher ou o filho. Essa liberalização tinha sem dúvida efeitos benéficos para a fidelidade conjugal e a

estabilidade dos casamentos, mas introduziu elementos incoerentes na doutrina. Do século XVI ao século

XIX, as contradições se agravam entre o direito sexual dos esposos e seus deveres para com os filhos, e

esse processo me parece ter favorecido a intrudução da contracepção no comércio conjugal.

Os patriarcas se rejubilavam da multiplicação de seus filhos como dos seus rebanhos. Uma e outra

coisa era considerada uma benção, porque era um evidente aumento do poder, não uma carga. Ora, se

nossos contemporâneos têm muitos filhos ou nenhum, eles os vêem mais como um fardo, alguma coisa

que restringe sua liberdade, sua riqueza e certamente não aumenta seu poder. Subsistem razões, sem

dúvida, para ter filhos, mas em número limitado; e no espírito de nossos contemporâneos, as razões de

não os ter parecem freqüentemente preponderantes. Eu noto que Moheau no século XVIII as considerava

preponderantes, e já no século XVII, Colbert achava necessário estimular os esposos com dinheiro para

obter famílias numerosas. Hoje a antiga atitude se mantém na maioria dos povos do Terceiro Mundo,

qualquer que seja sua religião.

Será que a fecundidade dos casamentos de uma sociedade se explica fundamentalmente pela

ausência de técnicas contraceptivas eficientes? Não contesto a importância do saber técnico nesse campo

como em qualquer outro, e já mostrei2 como a aquisição de técnicas contraceptivas mais eficientes podiam

transtornar os costumes tradicionais e a fecundidade. Mas duvido que só essa explicação pela ignorância

técnica seja suficiente: uma sociedade que realmente queria limitar a sua fecundidade encontra os meios;

e, inversamente, o fracasso dos programas de controle da natalidade no Terceiro Mundo atesta que a

disponibilidade de técnicas contraceptivas não é suficiente para alterar a fecundidade dos casais. Será que

o essencial não seria a transformação da relação pais-filhos?

De fato, o senso de responsabilidade frente aos filhos parece ter aumentado do fim da Idade Média

até nossos dias: pode-se advinhá-lo pelos numerosos índices que são discutidos no terceiro capítulo deste

livro. Não sustento — como alguns autores têm feito recentemente3 — que o amor paternal ou maternal

fosse desconhecido antes de meados do século XVIII: temos, para épocas bem anteriores, testemunhos

inequívocos de sua existência. Assim, no século XVII os pais eram freqüentemente censurados por seu

amor excessivo pelos filhos: Madame de Sévigné é um exemplo muito conhecido.4

Mas a questão que estou tratando aqui é o estatuto do filho em face de seus pais e não a existência

perante tal e tal personagem de uma forte afeição paternal, maternal ou filial. Veja-se ainda a história

sagrada: o sacrifício imposto a Abraão só é uma terrível prova porque ele está extremamente ligado ao seu

filho. Mas o que distingue esse patriarca de um pai de hoje é o sentimento de que não deve nada ao filho.

É a Deus, criador de todos os seres, e especialmente a Isaac5 que ele deve tudo. Enquanto sentimos ter

deveres particulares para com aqueles que só existem por nossa causa e esperam tudo de nós, a antiga

cultura, até época recente, só falava dos deveres da criatura para com seu criador.

Paradoxalmente, o cristianismo, que tanto usou esse princípio, está também, possivelmente, na

origem do princípio inverso. Deus, afirma a religião cristã, é o verdadeiro criador dos filhos, Ele só os confia

a nós, e nós devemos a Ele o ocupar-nos dos filhos com cuidado e amor. Isto já se acha em São Paulo. Mas

é preciso esperar séculos para que, na realidade, a relação pais-filhos tenha se transformado. Talvez até os

séculos XVII e XVIII. Com efeito, só mais ou menos nessa época é que os catecismos e sermões

desenvolvem realmente esse tema.6 A etapa seguinte me parece menos importante: uma vez o senso das

responsabilidades bem inculcado e o novo comportamento parental moldado importavam pouco se a

gente se considerava devedor de Deus ou do filho. O fato é que a criança pode agora ser considerada um

fardo demasiadamente pesado para suportar e os casais têm razões para evitar a procriação no

2 Les Amours paysannes, Paris, Gallimard, col. "Archives", 1975, pp. 198-199.

3 Por exemplo, E. Shorter, Naissance de la famille moderne, Paris, Senil, 1977; E. Badinter, L'Amour en plus. Histoire de l'amour maternel,

séculos XVII-XX, Paris, Flammarion, 1980.

4 É preciso ser obcecado ou não entender nada do cristianismo severo do século XVII para acreditar que seu diretor de consciência reprovava à

marquesa ser sexualmente atraída por sua filha.

5 Sabe-se que Isaac nasceu por um milagre de Deus, numa idade em que sua mãe não podia mais procriar naturalmente.

6 J.-L. Flandrin, Familles, Paris, Hachette, 1976, pp. 133-138 e 171-176.

casamento.

Tanto que no curso do século XVIII as atitudes frente à morte se modificaram: sem parar, em

princípio, de acreditar em Deus e na vida eterna, parece que não se aceitou mais com a mesma resignação

o falecimento dos entes queridos; recentes estudos nos ensinam isso.7 Mesmo que eles não nos digam

muita coisa das reações face à morte dos lactentes, me parece que isso confirma a hipótese de que não

nos resignamos como antigamente. No século precedente, o sentimento da inocência da criança podia ser

uma razão para aceitar sua partida para o além; doravante é uma razão do não mais aceitá-lo. A moda se

dissemina entre as jovens mães das elites sócio-culturais de alimentar pessoalmente seus filhos, e de

recusar aos maridos, durante a amamentação, tudo o que poderia provocar uma concepção prematura,

julgada perigosa para o lactente. De acordo com os confessores do século XVIII, foi um dos principais

motivos dos casais que praticavam o coito interrompido. A verificação estatística desse fato pelo

testemunho dos casais é impossível, mas seria interessante fazê-la.

Se a fecundidade das relações conjugais se fazia com a ausência de técnicas contraceptivas eficientes

na antiga cultura, então as relações extraconjugais tinham que ser fecundas. A maior parte dos

historiadores e demógrafos parece ter adotado essa visão das coisas, e eles só falavam de atividades

sexuais fora do casamento baseando-se sobre as taxas dos nascimentos ilegímos. Se, ao contrário, as

coisas se explicam largamente em nível de intenções, precisa-se então examinar a hipótese de uma menor

fecundidade das atividades sexuais ilegítimas, porquanto elas tinham tradicionalmente por finalidade "só o

prazer", enquanto o comércio conjugal — conforme os moralistas eclesiásticos e laicos — tinha por

finalidade a procriação. Não se pode falar da vida sexual dos solteiros somente tomando por base a taxa de

nascimentos ilegítimos. Isso eu escrevi em 1969, em "Contraception, mariage et relations amoureuses",

artigo repetido no segundo capítulo do presente livro. Contestei também a idéia emitida por J. T. Noonan,

de que a classificação da contracepção e da masturbação entre os "pecados contra a natureza",

considerados como os mais graves pecados sexuais, tenham desviado não somente os casais, mas os

fornicadores e os adúlteros.

Esse artigo visava só relançar a pesquisa: eu o disse claramente nas primeiras e últimas páginas. Além

disso, ainda não tenho nenhuma idéia precisa do que poderia ter sido a vida sexual dos solteiros, eu não

tinha elementos para opor teses novas às teses que eu criticava. Também não consigo compreender ainda

hoje por que, a partir de 1972, diversos historiadores8 têm julgado útil atacar minhas pretensas teses. É

verdade que como eles as imaginavam e as formulavam a seu gosto, era fácil ridicularizá-las. É portanto

constrangido e forçado que me lancei nesse debate sobre a vida sexual dos solteiros que forma o quarto

capítulo desta coletânea. Não sei se devo finalmente me alegrar pela oportunidade de escrever, ou

lamentar a forma polêmica que adquiriu a minha contribuição às pesquisas e o abandono daquelas que eu

fazia na época, sobre o comércio conjugal.

Se devo aqui resumir as principais conclusões, sublinharia mais uma vez os limites e os perigos de

uma aproximação puramente quantitativa das coisas. Todo mundo tem uma vida sexual. O problema é

saber de que ela consiste, isto é, que formas toma a libido sob a dupla influência da repressão e do erótico,

que mais ou menos abertamente existem em todas as culturas; como, então, o desejo sexual é

estruturado, em que medida ele atinge seus fins, e o que resulta para o sujeito e para os objetos de seu

desejo.

Gostaria de lembrar ainda que o prazer entre a nubilidade e o casamento aumentou — a França e

sem dúvida em vários outros países da Europa ocidental — desde a remota Idade Média até o fim do

século XVIII,9 principalmente para as meninas. Finalmente, lembro que, dos últimos séculos da Idade

Média até o século XIX, sob os efeitos de uma repressão aumentada, o comportamento sexual dos

solteiros parece ter se transformado.

7 Penso especialmente no livro de Philippe Airès, L'Homme devant la mort, Paris, Seuil, 1977.

8 Particularmente J. Depauw, "Amour Illégitime et sociétes à Nantes au XVIIIe siécle", Annales ESC, jul.-out. 1972, p. 1182; e sobretudo A.

Burguière, "De Malthus à Max Weber: le mariage tardif et l'espirit d'entreprise", ibidem, pp. 1130-1132 e 1137.

9 P. Laslett sustenta que na Inglaterra as jovens sempre casavam tão tarde como no século XVII, sobre o que estou longe de ficar convencido.

Em compensação, nesse país da Revolução Industrial, a idade do casamento diminuiu desde o início do século XVIII.

No fim da Idade Média, os rapazes das cidades freqüentavam muito livremente as prostitutas — aliás

numerosas e baratas —, enquanto as meninas "honestas" não podiam sem grande perigo para sua honra

ter outros prazeres a não ser solitários. No meio rural um outro modelo: as relações com as prostitutas

eram sem dúvida muito menos importantes, mas rapazes e moças em idade de casar tinham liberdade de

se freqüentar e de se dedicar a flertes bastantes audaciosos, pelo menos em certas regiões. Tudo que se

refere a isso fica então hipotético: temos por enquanto somente indicações sobre as freqüentações de um

pequeno número de províncias, geralmente periféricas em relação ao reino da França, e o testemunho

sobre as práticas sexuais dos jovens são bastante discutíveis.

Em contrapartida, estamos melhor informados sobre a repressão: fechamento dos bordéis

municipais desde o século XVI e marginalização das prostitutas; supressão — em datas diversas conforme

as regiões — das antigas liberdades de freqüentação, interdição rigorosa das coabitações pré-nupciais e do

concubinato, tudo sob pena de excomunhão ou mesmo multas e prisão; enclausuramento dos

adolescentes nobres e burgueses em colégios onde os custumes são, pensa-se, mais facilmente

supervisionáveis. Esta repressão, que pode ser considerada como um aspecto importante da Reforma

católica na França, começou entretanto antes do concílio de Trento e se prolongou até o séculos XIX e XX:

no início do século XIX foi renovado na Savóia o decreto de excomunhão dos jovens que prativavam ainda

o "albergamento"; e foi no início do século XX que a polícia foi lançada contra os "hortelões da região da

Vendéia".

Em que resultou esse longo esforço de purificação dos costumes? Sublimação dos impulsos sexuais?

Rejeição e neurose? Sonhos eróticos mais ou menos obsedantes e masturbações solitárias? Não sei por

que se deveria escolher entre esses efeitos igualmente verossímeis da repressão. Suponho que

coexistiram, numa proporção que não é fácil determinar. Parece-me particularmente difícil apreciar a

importância da sublimação e menos de seguir Freud, que fuga excepcional —, ou de medir os progressos e

recuos de rejeição e da neurose, noções demasiadamente modernas para prender a atenção dos

contemporâneos. Duvido que esses fenômenos tenham jamais se relacionado à maioria dos solteiros; e

não vejo absolutamente motivo para crer que eles fossem mais consideráveis no século XVII que no século

XVIII ou XIX. Existe, por outro lado, uma grande quantidade de indícios dos progressos da masturbação

entre os séculos XIII e XX, e seu impulso é notado em todos os meios sociais. Ela me parece

psicologicamente ligada a um progresso do sonho solitário e da introspecção, que tem fortemente

marcado nossa cultura moderna e contemporânea.

Em nenhuma época, finalmente, a gravidez ilegítima nem as concepções pré-nupciais parecem nos

dizer o essencial sobre a vida dos solteiros. Como a estatística das crianças achadas, ela nos esclarece

sobretudo a atitude da sociedade em face da bastardia, do concubinato e das mães solteiras, grandes

assuntos da história social mais do que da história da sexualidade.

I - O amor

Os dois primeiros estudos deste capítulo, escritos em 1964, são obras de principiante e

têm um caráter prospectivo. Tratava-se, para mim, de marcar da maneira mais objetiva

possível as transformações na representação do amor, transformações que me propus

estudar em seguida de maneira profunda nas fontes manuscritas e impressas. "Sentimentos

e civilização" foi puplicado nos Annales ESC de setembro-outubro de 1965. "O amor e os

amores" é inédito.

"Os compromissos* de Troyes" é um artigo escrito em 1977 a partir de um lote de 225

processos que Béatrix Le Witta vinha estudando para seu consultório. Destinando-o à revista

Ethnologie Française (onde foi publicado no 4º trimestre de 1978), eu me prendia

particularmente às questões de rito. Mas pode-se também perceber concretamente a parte

que o amor podia ter na formação do casal e de interessantes evoluções a esse respeito

entre a primeira metade do século XVI e a segunda do século XVII. Primeiro fiquei

impressionado pelas evoluções favoráveis ao amor (cf. Les amours paysannes, pp. 53-57, e

Familles, pp. 167-168), enquanto Béatrix Le Witta tinha sobretudo ficado sensível às

evoluções contrárias. De fato, tanto uma como a outra dessas evoluções deve prender a

atenção. Nada é simples.

Este sentimento da complexidade das coisas marca o último estudo deste capítulo,

"Amor e Casamento no século XVIII", que foi anteriormente apresentado ao congresso de

French Historical Studies Society, em Berkeley, no início de abril de 1977, depois publicada

recentemente na revista XVIII siécle, nº 12, 1980. Enquanto os três estudos precedentes

eram análises de um grupo limitado, esta é uma síntese de minhas conclusões sobre o

assunto em 1977.

* A expressão em francês antigo é créantailles, que significa também promessa, acordo, garantia, caução, consentimento,

aprovação. (N.T)

2. Sentimentos e civilização

SONDAGEM NO NÍVEL DOS TÍTULOS DE OBRAS

São os sentimentos fatos da natureza? Será que nós compreenderíamos facilmente os sentimentos

dos homens do passado, pela simples razão que somos homens e trazemos em nós toda a natureza

humana? É o que dizem os clássicos e o que ainda parece pensar a maior parte dos historiadores. Quanto a

mim, parto de uma convicção contrária: não há compreensão possível do que o próximo sente, visto que

permanecemos estranhos à consciência que ele tem. Podemos descrever a aparência de uma conduta —

suas manifestações externas — em termos atuais; podemos estabelecer estatisticamente aparentes

relações entre estimulantes e comportamentos, e isso é de incontestável utilidade; mas só podemos

aproximar a realidade humana de uma conduta através da consciência do sujeito.

Ora, o acesso à interioridade não é irremediavelmente fechado ao estudo científico. Para ser final e

irredutivelmente original, cada conduta individual não é menos amplamente determinada pela cultura em

que ela floresce. Portanto, nossos impulsos só se realizam emprestando formas características de uma

cultura precisa; nossos sentimentos só nos são perceptíveis quando contidos em palavras, as imagens que

essa cultura nos oferecer. É dessas formas que deve partir uma explicação histórica da realidade psíquica.

Por essa ótica, me proponho a apresentar aqui um primeiro inventário das noções relativas ao amor

e à sexualidade na sociedade francesa do século XVI, e de fazer sentir que, presas isoladamente ou no seu

conjunto, elas são irredutíveis àquelas que circulam em nossa cultura atual.

Por onde começar o inventário do equipamento mental de uma sociedade? Por meio de que

documentos? Pois deve-se entender bem que as formas que englobam a consciência não aparecem todas

em qualquer moldura. Sobre algumas, especialmente no domínio que escolhemos, pesam interdições

sociais; e essas interdições são mais ou menos constrangedoras segundo o contexto. Há coisas que se

pensa mas não se diz; outras que se diz mas não se escreve; e algumas que se escreve mas se hesita em

publicar. Pensamentos, palavras, cartas particulares, textos impressos são de níveis tão diferentes que

mereceriam inventários particulares. Mas é em um outro nível ainda, o dos títulos de obras, que

empreendi esse primeiro inventário. Preciso indicar as propriedades características.

Ao nível dos títulos encontraremos as noções que se anunciam. Podemos supor que as interdições

pesarão mais; mas também que se encontrarão as noções mais valorizadas pela civilização. Pois, em

poucas palavras, um título deve informar sobre o conteúdo da obra e atrair o leitor — esses dois

imperativos existem tanto no século XVI como no século XX, e apesar das profundas transformações da

técnica do título — serão encontradas nos títulos noções privilegiadas em relação ao conjunto que

constitui o equipamento mental da sociedade em causa. Eu emitiria então a seguinte hipótese: a

freqüência de uma palavra ao nível dos títulos é sinal de irradiação lícita da noção que ela exprime. Sua

ausência ou sua raridade podem significar sua inexistência na linguagem da época, seu pouco valor ou, ao

contrário, a presença de uma proibição. Para analisar essas três possibilidades, é preciso geralmente fazer

pesquisas em outros níveis da língua. Todavia não me parece plausível que a freqüência ao nível dos títulos

seja um sinal de valor ou de potência mais seguro que em qualquer outro nível.

Dando assim o peso das palavras admitidas em uma sociedade cronológica e geograficamente

definida, os títulos constituem um nível útil de estudo sincrônico da liguagem. Eles são ainda mais úteis

para as pesquisas diacrônicas, o estudo das transformações, caros ao historiador, porque, se a freqüência

de uma palavra é sinal de força para a noção correspondente, as variações dessa freqüência serão sinais de

transformações da língua e da mentalidade. É claro que não se trata de constatar essas transformações só

ao nível dos títulos; trata-se de tomar consciência e de marcar a cronologia.

Mas essa série cronológica, relativamente homogênea enquanto nível de publicidade de expressão,

tem contudo sofrido modificações específicas que se precisa considerar.

Inicialmente, a técnica do título se tem modificado: passou-se do "título-índice" para o "título-

choque". No século XVI, os títulos são longos, porque tentam anunciar o que contém a obra. Muitos livros

de estudo, escritos em latim, apresentam um longo índice do qual sobressai, para designar o conjunto da

obra, o nome do autor mais ou menos abreviado e perdido tipograficamente. Um certo número de obras

literárias em francês tem um título análogo, porém mais legível. Quanto mais se avança no século, mais se

faz a distinção entre o nome do livro, ou título propriamente dito, e um subtítulo explicativo. Mas só nos

séculos XVII e XVIII é que os subtítulos são tipograficamente distintos e subordinados ao título. Hoje,

finalmente, isso quase desapareceu. Nossos títulos são mais curtos e melhor elaborados. Mesmo que

traiam o conteúdo da obra, as palavras usadas são melhor escolhidas que no século XVI.

Por outro lado, o número anual de títulos aumentou em proporções consideráveis, o que torna

delicada a comparação de freqüência. Finalmente, se a quase-totalidade dos títulos contemporâneos está

catalogada, não se sabe exatamente qual a proporção de títulos o século XVI nos transmitiu. Devido aos

desaparecimentos, a orientação do conjunto inventariado pode ter sido modificada. Felizmente temos

uma idéia da natureza dos livros desaparecidos: são principalmente livros pequenos, medíocres, populares,

que sem dúvida são majoritários na produção impressa no século XVI, mas apenas uma minoria dentre os

livros que nos foram transmitidos.

Nessas condições, muitas vezes convém substituir o estudo quantitativo pelo qualitativo. Buscar o

contexto do emprego mais que sua freqüência absoluta. Perceberemos muitas vezes a manifestação das

evoluções pela aparição de uma palavra em novos contextos, ou pela nova avaliação em um mesmo

contexto. Enfim, as variações de freqüência, válidas em um quadro cronológico onde os desvios de

homogeneidade são desprezíveis, não formam uma base segura quando se comparam os resultados de

duas sondagens sobre épocas diferentes. Apesar de tudo, a título prospectivo, é útil comparar os

resultados dos inventários conduzidos, pela mesma ótica, sobre épocas muito diversas como os séculos XVI

e XX. Desse modo, a atenção pode recair sobre problemas dos quais de outra forma não teríamos

suspeitado, e podemos esperar distinguir as transformações a longo prazo entre aquelas que nos fornece

um estudo contínuo sobre um período de um século ou de meio século.

Para a época atual, fiz o inventário dos vinte e dois mil títulos recenseados pelo catálogo Les livres de

l'année 1961. Para o século XVI, me servi dos catálogos de Baudrier e de A. Cartier, que descrevem cerca

de treze mil das quinze mil edições lionesas de que se conservaram traços. Essas edições lionesas

representam pouco mais de um quarto das edições francesas do século XVI que chegaram até nós.

Vinte e dois mil títulos curtos para 1961 e treze mil títulos longos para o século XVI representam dois

conjuntos de palavras numericamente vizinhos. De cada um desses dois conjuntos, levantei mais ou menos

250 palavras que entram no meu campo de estudo. Mas só falarei aqui daquelas que designam

sentimentos, atos ou instituições sociais: mais ou menos sessenta para cada conjunto.

Consciente de que essa distinção pode apresentar anacronismo, comecemos pelas palavras que se

aplicam às realidades positivas, externas ao sujeito, como os atos e os estados sociais. Isso porque eles

apresentam poucos problemas de tradução, e nosso conhecimento das transformações sociais permitirá a

apreciação, nesse campo, das oposições dos dois léxicos.

Certas diferenças se explicam pelas transformações conhecidas das nossas instituições e dos nossos

costumes. Mas essa explicação raramente é suficiente.

Não deixaremos de fazer uso desse recurso quando, atrás de uma palavra nova na língua, como strip-

tease, existe uma realidade incontestavelmente nova. Com efeito, qualquer que tenha sido a visão dos

jogos eróticos do século XVI, é certo que o strip-tease, com os seus ritos, suas tradições, seu caráter

institucional, não pode ter existido.

Quando a palavra é antiga, a evidência da explicação realista é menor. A noção do divórcio, por

exemplo, era conhecida no século XVI. Os teólogos o discutiam e certos príncipes o praticavam. Pode ser

que o acaso tenha impedido a aparição da palavra em nossos títulos lioneses, e que nós pudéssemos

encontrá-la um dia nos títulos parisienses ou genebreses. O mais improvável é que o acaso possa impedi-la

de aparecer nos títulos de 1960 ou 1962. Sua presença em cinco títulos de 1961 é praticamente uma

garantia, e o lugar que ela mantém como instituição e prática em nossa sociedade contemporânea nos

explica isso.

Com as noções de rapto e de casamento clandestino, receamos menos as peripécias do acaso mas,

ao mesmo tempo, a explicação realista deve passar por várias nuances.

O que encontramos ao nível dos títulos? As palavras "rapto", "encanto" e "casamento clandestino" se

encontram em oito títulos lioneses, enquanto nem "rapto" nem "casamento clandestino" aparecem em

1961. Pois não só essas palavras existem em nossa língua, mas um pouco dessas práticas ainda se pode

encontrar: moças jovens deixam a casa paterna para fugir com seus amantes, e certos casamentos se

fazem furtivamente em municípios onde os noivos são desconhecidos. Se podemos dizer que a realidade

do rapto ou do casamento clandestino não existe mais, é porque recortamos o real diferentemente, ou

porque ele não mais mantém, na vida de nossa sociedade, o mesmo lugar de antigamente.

Nosso direito, e atrás dele nossa consciência coletiva, conservam no campo do rapto somente dois

elementos não característicos da antiga realidade: a violência e a menoridade. A noção do rapto tem sido

amplamente substituída por noções de estupro e desvio do menor, ambos os casos ultrapassando o campo

do rapto.

A noção do casamento clandestino não se rompeu, mas deslocou-se um pouco e perdeu sua

importância. Nosso direito a mantém e faz mesmo dela a nulidade do casamento. Mas em verdade os

casamentos clandestinos em nossa sociedade não representam mais um problema angustiante. O Estado,

através dos seus órgãos mais importantes, não lhe dispensa mais atenção, como no século XVI. Esse

declínio da noção se explica pelas transformações profundas da estrutura social e da instituição do

casamento. Mas achamos importante demonstrar que os títulos revelam isso diretamente.

O desaparecimento da noção do adultério nos títulos de 1961 deve ter um significado análogo. É

evidente que a prática do adultério não desapareceu de nossa sociedade, mas não ocupa mais o mesmo

lugar que ocupava no século XVI. Frisamos que os títulos lioneses mencinam adultério e adulterium

somente no contexto jurídico. Ora, na prática judiciária atual, os julgamentos de divórcios substituíram o

processo de adultério. O adultério, no direito, é somente um caso de divórcio. A comparação dos títulos

jurídicos nos revela a substituição da noção-chave de adultério pela noção-chave do divórcio. Deve-se

entender que essa mutação deve ter alguma ressonância sobre nossa prática cotidiana das duas noções.

Acharei um começo da prova na presença da palavra "adultério" numa obra paraliterária do século XVI1 e a

presença da palavra "divórcio" no título de uma peça de teatro de 1961.2

Para outras realidades, os títulos podem revelar uma mudança de lugar na estrutura da nossa

existência — equivalente a uma mudança da natureza — por outros contrastes a que a presença ou

ausência das palavras, a seu nível, faziam alusão. É o caso do casamento, do estupro e do pecado sexual.

O casamento é, na sociedade do século XVI bem como na de hoje, uma instituição fundamental. As

palavras que aludem a ele são abundantes nos títulos do século XVI bem como nos atuais, enquanto seu

oposto, o celibato, quase não aparece.3 Essa abundância é portanto inegável: são encontradas três vezes

1 Excellente apologie et défense de Lysias orateur sur le meurtre d'Eratostène surpris en adultere: mi est traictée et comprinse toute la matière

des adultères insérée dans le droit civil. Traduicte de grec en françois par noble Jacques des Comtes de Vinteville Rhodien Conseiller du Roy au

Parlement de Bourgogne seand à Dijon, et commenté par M. Philibert Bugnyon, docteur es Droicts... (Lyon, B. Rigaud, 1576; BN, X 16 796).

2 La Tour aux divorces.

3 Só um título no século XVI: Responsio Bartholomaei La Tomi ad Epistolam quandam Martini Buceri de Disputatione Eucharistiae et

mais palavras relativas ao casamento nos títulos do século XVI que hoje,4 e o emprego dessas palavras

ocorre numa relação de três para um.5 Se bem que tenhamos trabalhado sobre totalidades pouco

comparáveis para poder fundar uma convicção sobre essa relação numérica, tal relação combinaria com a

diminuição do peso da realidade do casamento em nossa sociedade. O essencial, portanto, é o

deslocamento dessa realidade. Ele se manifesta pela diferença dos contextos e das associações onde a

noção aparece.

Primeiro traço notável: a existência, no século XVI, de uma abundante literatura polêmica sobre o

casamento, que põe em questão a instituição ou ridiculariza os casados.6 Ora, nem o questionamento nem

a veia cômica aparecem nos títulos atuais. A calma se estabeleceu.

O segundo traço é a presença do casamento nos títulos dos romances de cavalaria, em associação

com "aliança" e sobretudo "os amores".7 Observemos o plural: parece que na sociedade nobre o

casamento — o bom casamento — seria um valor importante da vida de aventura.

Finalmente no século XVI, as bodas têm um lugar considerável na literatura de ocasião.8 Além das

obrigações do poeta da corte, isso mostra o lugar da cerimônia, da festa, na idéia do casamento.

Nada disso se observa hoje. Depois do contexto literário, é nos contextos religiosos e jurídicos que

em 1961, como no século XVI, aparece mais freqüentemente a noção do casamento. Mas é encontrada em

associações diferentes. Nas obras jurídicas tratava-se, no século XVI, as questões da forma do casamento;9

hoje só aparecem as questões de fundo. No contexto religioso a palavra "casamento" estabelece uma

associação nova com "amor" — no singular, esta vez.10 Encontramo-la finalmente nos novos contextos —

filosófico ou médico — associada a "felicidade", "sexualidade", "fidelidade".11 Notamos, por fim, que no

contexto literário ela aparece freqüentemente na ocasião de reedições de obras clássicas ou já marcadas

pelo tempo.

Com as noções de pecado sexual e de estupro encontramos contrastes ainda mais sutis: a valorização

da palavra pelos títulos e o tom favorável, desfavorável ou equívoco da apresentação.

Invocatione Divorum et de Coelibatu Sacerdotum... (Lyon, G. e M. Beringer, 1544).

Dois títulos em 1961: Le Célibat des prêtres e Célibat et Sacerdote. Deve-se notar que por toda a parte a palavra aparece no mesmo contexto: o

problema do celibato dos padres. Será simples coincidência? Será continuidade verdadeira sobre mais de quatro séculos? Ou será o

ressurgimento de um antigo problema? Evidentemente, a questão não pode ser resolvida com base nessas duas sondagens.

4 Cf. Anexo I, p. 41.

5 Cf. Anexo 1, p. 41.

6 Cf. especialmente: Livre des lamentations de mariage et de bigamie, composé en latin par maistre Mahieu de Gand et translaté en poésie

françoise par Maistre Jehan Lefevre (Lyon, O. Arnoullet, s.d.). Les Quinze Joies de mariage (muitas edições). Les Ténèbres de mariage. Cy ensuyt

en brief langaige les ténèbres de mariage lesquelles furent sand mentir composées par un vray martir leque! fut dix ans en servage, comme

appartient en mariage (Lyon, Vve B. Chaussard, 1546; Chantilly, musée Condé). De l'heur et malheur de mariage: ensemble les loix connubiales

de plutarque, traduictes en françois par Jean de Marconville (...) reveu et augmenté. Mariage est honorable entre tous, et le lict sans macule,

Hebr. 13 (Lyon, B. Rigaud, 1583; Aix, Méjanes, G. 66 87). Muitas outras edições. L'Enfer des Escoliers, des Mal Mariez, des Putains et Ruffians,

des Soldats et Capitaines poltrons, des piètres Docteurs, des Usuriers, des Poetes et compositeurs ignorans. Tirez des oeuvres de Doni Florentin,

par Gabriel Chappuys Tourangeau (Lyon, B. Honorat, 1578; British Museum, 12 316.e. 21). (Outras edições lionesas em 1580 e 1583.) Les

Temps passé de Claude Mermet de Sainct Rambert en Savoye. Contenant... la consolation des mal mariez. De nouveau augmenté de la

lamentation de la vieille remariée, de l'advis de mariage et autres poèmes sentencieux et récréatifs. Reveu et corrigé par l'autheur mesme

(Lyon, Bouquet Basile, 1585; BN, Rés. Ye. 1641). Le Doctrinal des nouveaux mariez (Lyon, P. Mareschal, s.d.; BN, Rés. Ye. 336), etc.

7 Encontramos dez empregos de "casamento" e doze de "esposar". Por exemplo: Le Quatrième Livre d'Amadis de Gaule, auquel on peut voir

quelle issue eut la guerre entreprise par le Roy Lisnart contre Amadis. Et les mariages et aliances qui depuis en avindrent, au contentement de

maints amoureux et de leurs amyes (Lyon, B. Rigaud, 1574; BN, Rés. Y2. 1341 Lyon, B. Rigaud, 1575; château de Terrebasse). Le Troisième Livre

de Primaléon de Grèce... Auquel les faicts heroyques, mariages et merveilleuses amours d'iceluy sont tant bien deduites... (Lyon, J. Beraud,

1579; BN, Y2. 14 39. Lyon, B. Rigaud, 1587; château de Terrebasse). ... Propos amoureux contenans les discours des amours et mariage du

seigneur Clitophant et demoiselle Leucippe... (Lyon, 1556, 1572 et 1577).

8 Encontramos nove empregos de "casamento", cinco de "núpcias", dois de "esponsais" e um de "noivado", nas obras de circunstâncias semelhantes à seguinte: Discour de la magnifique réception et triomphante entrée de la Grande Duchesse de Toscane en la ville de Florence

avec les cérémonies de ,n couronnement et espousailles... (Lyon, B. Rigaud, 1558; Lyon Ville, .314 522).

9 B. Brissonii I.C. et suprema Pariensis Guria Advocati, de Ritu Nuptiarum líber singularis... (Lyon, Ph. Gaultier, dit Rouillé, 1564; BN, F. 5447).

10 L'Amour, sacrement de mariage des fils de Dieu.

11 Amour et Mariage é um ensaio literário; Sexualité et Fidelité dans le mariage, um ensaio filosófico; e Amour, Mariage et Bonheur, um estudo

de sexologia. Poderia parecer que "felicidade" não é novidade no contexto do casamento. Encontramos efetivamente várias vezes, no século

XVI, "felicidade e infelicidade no casamento". Mas há entre "contente" e "felicidade" uma modificação de conteúdo considerável. No século

XVI, "contente" significa sobretudo uma idéia de chance, de sorte, bem como em "felicidade". Contentamento é um evento, enquanto que em

"felicidade" há a idéia de um fim, de uma absoluta felicidade, que os homens do século XVI imaginavam existir somente num outro mundo.

Pela riqueza do vocabulário e o número de aparições, o estupro pareceria ter um lugar maior nos

títulos do século XVI que nos de hoje.12 Mas é evidente que não podemos considerar uma relação de dois

para um quando se trata de números absolutos, como quatro e dois, em que o acaso pode facilmente

ocorrer. Precisa-se então retornar aos títulos e ver se eles apresentam a noção de forma homogênea. Ora,

nos títulos do século XVI, que nesse caso são particularmente longos, o estupro ocupa um lugar

acessório,13 enquanto, ao contrário, os títulos atuais, na sua brevidade, o colocam em destaque.14 Percebe-

se, por outro lado, que se trata de estupros verídicos, nos títulos lioneses, enquanto os títulos de 1961

anunciam com complacência somente imagens, símbolos. Finalmente, tem-se a impressão de que a

realidade do estupro era mais familiar às pessoas no século XVI, porém a idéia do estupro, hoje, tem mais

peso.

O exame da noção do pecado sexual permite constatações análogas. Nos títulos do século XVI, se ela

aparece menos freqüentemente que nos atuais, o faz por intermédio de um vocabulário mais rico e

preciso,15 e apesar da extensão dos seus títulos, ela é quase tão bem valorizada quanto antes.16 O

contraste essencial está em outro aspecto: na clareza da noção no século XVI, seu mistério hoje. Nos títulos

lioneses é claro que se trata de pecado sexual, mesmo quando a noção não aparece senão por um lapso

tipográfico.17 Nos títulos atuais, só é permitido suspeitá-lo, com mais ou menos razão.18 E, principalmente

— a técnica do título não estando em questão —, há mais simplicidade e seriedade nas expressões do

século XVI, um certo sorriso também, do que uma busca de efeito nos títulos de hoje. A palavra parece ter

ganho em prestígio e mistério. E não estamos certos de que a realidade desconhecida que ele retoma deva

despertar horror.

É tempo de pesquisar as tendências dos nossos dois léxicos para o conjunto das realidades externas

ao sujeito. O léxico do século XVI dá a impressão de um universo mais claramente valorizado, enquanto

que o léxico de hoje revela duas tendências diferentes: um esforço para segurar o mundo com mais

objetividade, por palavras sem cargas afetivas, e, quando aparecem, uma ambivalência dessas cargas.

À evolução em direção de uma preocupação objetiva da realidade, temos encontrado um primeiro

caso a propósito das relações do adultério e do divórcio. Centrados sobre o adultério, os títulos do século

XVI jogam um anátema; deixando este centro de interesse, os títulos atuais se ocupam sem aparente

paixão da nova instituição que é o divórcio. Essa forma desapaixonada se manifesta mais nitidamente com

a noção de concubinato. Nos títulos lioneses, a noção aparecia por intermédio da palavra concubinarii,19

carregada de uma condenação violenta, enquanto hoje ela é tomada direta e objetivamente no título

Évolution contemporaine du concubinage.

Com esses dois exemplos, estamos no interior do contexto jurídico, passando somente do direito

canônico que o condena, ao direito civil, que observa. Não podemos ainda falar da atitude de conjunto da

sociedade. Mas eis aqui a mesma tendência em outros contextos a propósito de uma noção que parecia

12 Cf. Anexo I, p. 42.

13 Por exemplo, no título: Les Sept Saiges de Romme... et aussi comment la femme de l'empereur ala de vie à trespas. Et aussi comment il se

remaria à la filie du roy de Castille (...) et comment elle sceut que l'empereur avoit ung fils leque! il avoit commis à sept maistres pour le nourrir

et apprendre pour entre empereur après sa mort, dont elle fut fort courroucée et comment elle se dessira le visaige et accusa le fils de

l'empereur et dist qu'il la vouloit violer affin que l'empereur le fist mourir affin que se elle pouvoit avoir un filz qu'il fut empereur après le dexes

de l'empereur... (Lyon, O. Arnoullet, s.d.).

14 La publicité c'est le viol e Terre violée.

15 Cf. Anexo I, p. 42.

16 Sensuyt un beau mystère de Nostre Dame à la louange de sa três digne nativité, d'une jeune filie laquelle se voulut habandonner à péché

pour nourrir son père et sa mère en leur extrême pauvreté et est à dixhuit personnages dont les noms sensuyvent cy-après(...) (Lyon, O.

Arnoullet, 1543).

17 Na edição de 1551 de Histoire d'Aurelio et Isabelle se escreveu: "(...) quem tem mais ocasião de pecar, o homem com a mulher, ou a mulher

com o homem", em vez de escrever, como nas edições de 1555, 1574 e 1582, "quem tem mais ocasião de amar".

18 As águas do pecado, a imagem do pecado, o pecado contra a carne, o pecado de Adão e o pecado do mundo (t. 1, la Filie

pauvre).

19 D.N. Bermondi choveronii caesarei, Pontificijsque luris Doctoris praestantissimi... titulum de publicis concubinariis commentarij non minus

docti quam percommodi, his ad quos adulteriorum et stuprorum (quae sunt nephanda scaelera) pertinet animadversio (...) (Lyon, Senneton

Frères, 1550, Grenoble, F. 11 079).

ter estourado: a da sodomia.

Se excetuamos as palavras da linguagem familiar ou grosseira, tal como "bugre" — que não aparece

em nível de títulos —, a homossexualidade parece pouco mencionada no século XVI e somente através da

noção de sodomia. Essa ultrapassa o quadro das relações sexuais e não mostra toda complexidade. As

noções são pois diferentes, mas têm relações mais estreitas que adultério e divórcio.

O que encontramos nesse campo? Um título de difusão popular, contando a L'Histoire véritable du P.

Henry Mangot, jésuite, bruslé à Anvers le 12 avril 1601, estant convaincu d'estre sodomiste... A noção só

aparece pelo adjetivo "sodomista" implicando uma violenta condenação e os títulos lioneses não fazem

nenhuma outra alusão. Em 1961, ao contrário, a noção de homossexualidade aparece em dois títulos das

ciências médicas, sem nenhum traço de condenação.20 Não se trata de pretender que ela é hoje aceita

pelo conjunto da sociedade, mas que, pelo viés da pesquisa médica, aparece num contexto objetivo,

quando antigamente não se podia fazer alusão sem condená-la.

Esta evolução em direção a mais objetividade poderia levar à suposição de que as proibições sociais

são hoje menos pesadas e até mesmo inexistentes. Ao contrário, um certo número de proibições se

tornaram mais pesadas.

Dessa forma a noção de estupro perdeu em familiaridade o que ganhou em publicidade. A imagem

das relações genitais é, nos títulos lioneses, mais ou menos obscurecida pela imagem de uma violência

condenável,21 mas ela não é totalmente sublimada, simbolizada, como nos títulos de 1961. Constatamos

uma evolução análoga quando abordamos as relações genitais por seus efeitos biológicos, a reprodução da

vida.

Esse vocabulário é sem dúvida mais rico nos títulos de 1961 que nos títulos lioneses: a noção aparece

doze vezes contra quatro, com seis palavras contra três.22 Mas, sobre doze empregos, seis se relacionam a

animais, três à concepção imaculada da Virgem e um só se relaciona abertamente à geração dos homens.

Aqui está: Un contresens de la maternité: la fécondation artificielle. Percebe-se aqui também que a

imagem é bem escondida!

Sobre os títulos lioneses, a interdição parece pesar menos. De dois livros sobre medicina que

tratavam da reprodução dos seres humanos, num deles isso aparece nitidamente.23 Mais interessante

ainda, a imagem aparece bem naturalmente em uma obra literária, destinada a um grande público: o nono

livro de Amadis de Gaula. O membro da frase inteira merece ser citado:... de dois outros filhos e filhas

procriados inscientemente por Amadis na excelente Rainha Zahara do Cáucaso... Deve-se admitir que hoje

teria sido dito de forma diferente. A literatura do século XVI busca raramente na reprodução um tema de

inspiração,24 mas quando a encontra não faz nada para esconder a realidade.

Quando se pesquisa a preocupação direta das relações genitais sem a mediação — a tela — de seus

efeitos biológicos, não se acha nenhum caso nos títulos contemporâneos, ao contrário dos cinco casos

encontrados nos títulos lioneses. Mas não se consegue reter sem nuances essas cinco aparições.

Das três palavras portadoras da imagem, é coitus a mais nítida e crua, a qual também encontramos

três vezes. Mas observamos que se trata de uma palavra latina, confinada nas obras de difusão restrita. Em

seguida, nos três títulos, a palavra não aparece no mais alto nível de publicidade. O primeiro é um dos

intermináveis títulos-relação de assuntos freqüentes na época: Haec sunt opera Arnaldi Villa Nova, que in

20 La Morphologie des homosexuels et le Terrain organique de l'homosexualité, e le Sentiment de la faute chez l'homosexuel.

21 No título seguinte, o plural indica bem o caráter concreto desses estupros: Discurso das traições e deslealdades dos políticos de Paris que

tinham vendido essa cidade a Henry de Bourbon, chefe dos heréticos da França... Com os discursos das crueldades, violações, e sacrilégios que

cometeu nos bairros de Saint Germain, Saint Jacques e Saint Marceau...

22 Cf. Anexo I, p. 42.

23 De generatione et partu hominis, libri duo: authore Dominico Terelio, Medico Lucensi (Lyon, Marsilii, 1578; Amiens, Médecine, n? 604). Mas

num outro livro que fala sobre isso, a geração humana não aparece na página do título: Liber phisionomiae Magistri Michaelis scoti. No fim:

Michaelis scoti de procreatione et hominis physionomiae opus feliciter finit (Lyon, Guill, Balsarin, s.d.; Bordeaux). Não creio que isso seja devido

a uma preocupação de decência.

24 Da geração como tema de inspiração literária, encontramos pelo menos um exemplo no livro de R. Bretonnayau: La Génération de l´homme

et le Temple de l'âme, avec les autres oeuvres extraites de l'Esculape de Bretonnayau ... (Paris, A. l'Angelier, 1538; BN. Ye. 21 49) Como essa

obra não tivesse uma edição lionesa conhecida, não a consideramos em nossa sondagem.

hoc volumine continentur... E é entre uma quantidade de assuntos diversos que se consegue ler: De coitu.

Pode-se ver como ficaria esse título numa edição atual: Arnauld de Villeneuve, Oeuvres complètes. E por

motivos de pura técnica, a palavra "coitu" seria transferida para o índice.

A palavra aparece ainda nos títulos de duas monografias de Marzio Galeotti, publicadas numa

coletânea de 1552: Galeotus Martius Narniensis, De doctrina promiscua. O anúncio dessas monografias

poderia ter sido feito, como para as obras de Arnauld de Villeneuve, na página do título. Mas a evolução da

técnica do título, entre 1504 e 1552, os fez desaparecer. Todavia insistimos sobre essas duas monografias e

seu autor. Marzio Galeotti, falecido no início do século XVI, foi um médico humanista e astrólogo

florentino. Uma das suas monografias tem o título De mulieribus in viros conversis et maris aut foeminas in

coitu sit major voluptas. Por admirável que possa parecer hoje, o assunto desse estudo tinha sido tratado

pela maioria dos médicos da Antigüidade e do Renascimento. A outra monografia, mais original, tem o

mérito de pôr o dedo na interdição que nos interessa: De coitu et eius vocabulo supresso ab antiquis. Não

posso ainda dizer,25 infelizmente, que se trata de lembrar uma interdição antiga numa sociedade que se

teria libertado dela, ou de trazer à luz um segredo dos antigos.

Fora a palavra latina, a imagem das relações genitais é representada por dois verbos: "habitar" e

"tomar uma moça". Essas palavras podem atingir um público mais amplo que o precedente. Mas é preciso

notar que eles conhecem empregos que não têm nada a ver com a sexualidade; como se uma interdição

impedisse de criar ou de deixar circular nesse nível de alta publicidade uma palavra consagrada ao ato

sexual. Nem um nem o outro, no entanto, são realmente eufemismos ou metáforas.

Como "coito", o verbo "habitar" circula na linguagem médica da época com esse senso preciso. Ele

não aparece no mais alto nível de publicidade.26 Quanto a "tomar uma moça", essa expressão encontra-se

no título da moralidade, quer dizer, no contexto de uma ampla difusão, em um honesto nível de

publicidade.27 Mas a imagem é imediatamente encoberta por outra de violência condenável e castigada.

Finalmente, a interdição pode, ao nível de títulos, ser diretamente proclamada. Depois das alusões

de Marzio Galeotti, vejamos um título de 1584 com intenções mais claras: Val. Martialis epigramata, ab

omni rerum obscenitate verborumque turpitudine vindicata. Opera et industria Andrea Frusij societatis Jesu

Theologi. Esta obra tem uma segunda edição lionesa em 1593.

As duas expressões obscenitas rerum e turpitudo verborum não proclamam uma interdição

necessária ao nível dos títulos, mas dos textos. Seria útil precisar as formas, a cronologia, a extensão desse

empreendimento de purificação dos textos antigos. Este título só permite saber que a interdição pesa

tanto sobre as palavras como sobre as coisas. Na condição que outras expressões análogas não tenham

escapado, ele permite datar esse pudor cuidadoso. A data de 1584, em todo caso, combina bem com

aquilo que se sabe das orientações tridentinas e da obra educacional dos jesuítas.

Quando palavras análogas a turpitudo e obscenitas se encontram nos títulos atuais, isto não se deve

tanto a um relaxamento das interdições em nível de textos, mas porque foram vítimas ao nível de títulos.

Já no século XVII, era preferível indicar esse cuidado de purificação pela expressão ad usum Delphini; e

entre nós a palavra expurgado é amplamente suficiente.

Este estudo comparativo dos títulos do século XVI e de hoje deixa a impressão de um reforço da

interdição sobre a imagem das relações genitais e sobre as palavras que poderiam fazer alusões

demasiadamente realistas. E eu interpreto como desvio da atenção desse ponto culminante das relações

sexuais o florescimento de palavras relativas aos atos acessórios dessas relações. Não falemos do amor,

que concerne uma totalidade de relações — mais ou menos carnais, mais ou menos sentimentais —, e

retenhamos somente as palavras designando realidade fragmentária. Os títulos lioneses nos dão somente

25 Existem três exemplares dessa coleção, um na Biblioteca de Lyon, outra em Zurich, o terceiro no British Museum.

26 Encontramo-lo na seguinte coleção: Plusieurs Gentillesses pour faire en toutes bonnes compagnies et aussi plusieurs bonnes et utiles receptes

esprouvées par Symon de Millau (sic) (Lyon, Fr. et B. Chaussard, 1556; Arsenal, sc. et arts, 69 90). É no verso do rosto do livro que se encontra o

seguinte índice: Sensuyt plusieurs bonnes receptes de Maistres Symon de Millan parmi lesquelles:... Pour faire que ung homme débilité par

froideur puísse habiter...

27 Moralité nouvelle d'un Empereur qui tua son neveu qui avoit gris une filie à force. Et comment ledict Empereur estant sur son liei de mort la

saincte Hostie luy fut apportée miraculeusement... (Lyon, Vve B. Chaussard, 1544; Brit. Mus., C.20. e. 13 [53]).

uma "carícia", geralmente associada a "diversão" e "plano". Nesses empregos, parecem recordar palavras

doces trocadas entre amantes ou namorados em conjunto.

Os títulos de 1961 são diferentemente prolixos. Na ordem da palavra, eles apresentam talvez

"confidências", ainda que os contextos sejam difíceis de definir. De qualquer forma, são sobretudo as

doçuras sensuais evocadas, com as palavras "beijos", "abraçar", "carícias", "flerte", às quais se pode

acrescentar a rigor strip-tease.28 Na sua brevidade, os títulos atuais colocam essas palavras em alta e as

carregam de sonhos. É nesse sentido que se pode falar dos títulos muito mais sexualizados em 1961 que

no século XVI. De fato, trata-se de uma sexualidade fragmentária, acessória com a realidade principal

estando em sentido próprio sentidas como obscenas.

Se a consciência do obsceno foi exagerada, a realidade tabu é entretanto abordada hoje de duas

formas diferentes. Primeiro por intermédio de palavras tradicionalmente dedicadas à condenação, como