O Silêncio do Coração por Murilo Vianna - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

O SILÊNCIO DO CORAÇÃO

de Murilo Vianna

index-2_1.jpg

Título: O Silêncio do Coração

ISBN: 978-85-64471-005-4

Editora: Catrumano

Nome do autor:

Murilo de Mello Vianna

Informações para contato:

Celular: (13) 7805-2085

E-mail: murilo_vianna@hotmail.com

PREFÁCIO

Como alguém pode dizer como se deve agir após uma

tragédia? A vida não é uma equação matemática em que

pegamos todos os elementos e formamos um resultado que

sirva de resposta para todas as pessoas que necessitam (e

muitas vezes não querem) ouvir o que os outros têm a

dizer.

Brandon Browser era uma dessas pessoas que não

queria escutar o que tinham a dizer. Ele simplesmente

preferia ficar imune de todos os pêsames e lamentações

que seus conhecidos estavam oferecendo. Era como se seu

pequeno mundo melancólico, rancoroso e depressivo fosse

suficiente para confortá-lo pelo resto de sua vida. Como se

as variações de cores entre preto, branco e cinza fossem

bastante para colorir o seu coração. Não que ele tenha sido

realmente culpado quando. . bom, tudo o que aconteceu

será minuciosamente explicado em seu devido tempo, não

vamos apressar as coisas.

É claro que não foi somente Brandon Browser que

sentiu a fúria do destino, que chegou como uma onda

gigantesca arrebentando nas pedras de um píer. Todo seu

círculo de amizade e todos os familiares envolvidos

também ficaram envoltos nessa névoa que parecia não

querer ir embora. Mas apenas Brandon deixou a plenitude

da vida de lado. Largada como uma camisa velha ao pé da

cama, a vida que lhe fora proporcionada não tinha o

mesmo sentido e, muito provavelmente, nunca voltaria a

ser como antes.

Brandon sempre foi uma pessoa com um ótimo

humor. Sempre estava fazendo piadas sobre tudo o que era

possível, mesmo em horas que o ceticismo e a seriedade

tomavam conta do ambiente. Mas também era uma ótima

companhia para conversas com uma forte carga de

sentimento e conhecimento. Ele era simplesmente a

pessoa certa para todas as ocasiões possíveis. Porém agora,

ele não era mais o mesmo. Era apenas uma alma vazia, um

fantasma que vagava pelo seu quarto escuro remoendo as

profundezas de sua imaginação culpada. Seus olhos cor de

mel que regularmente eram confundidos com um tom

esverdeado, eram chamativos tanto quanto o olhar de um

falcão, mas deixaram ser cobertos pelo seu cabelo

comprido, que agora tomava conta da maior parte de seu

rosto bonito e delicado. Sua barba também estava por

fazer e raramente ele se alimentava da forma que deveria

para manter-se saudável, o que deixava seu pai Edward e

sua mãe Hilary bastante preocupados. Não era assim que

um jovem de vinte e um anos deveria levar a sua vida. Mas

quem pode dizer como se deve agir após uma tragédia?

Ele perdeu todo interesse no que antes costumava

chamar de passatempo. Brandon não tocava mais sua

guitarra, tampouco aparecia nos ensaios da sua banda com

Allan Green e David Sanders. A banda se chamava Atlanta

e, por sinal, era muito boa. Conquistava todos aqueles que

queriam ouvir um bom e velho rock’n’roll. E mesmo sendo

formada por apenas três pessoas, Atlanta tinha um som

pesado e forte, com o instrumental intenso se contrapondo

com a voz doce e melódica de Brandon nos vocais.

O trio se apresentava freqüentemente em Sant

Grove, onde moravam. Era uma pequena cidade onde a

exploração de madeira era a principal fonte de renda da

maioria dos trabalhadores. Tinha pouco mais de dez mil

habitantes, o que tornava os integrantes da banda Atlanta

meramente populares. De vez em quando se apresentavam

também em cidades próximas, mas isso só acontecia

quando havia um cachê suficiente para cobrir a gasolina

do carro de um dos integrantes.

É evidente que a banda não conseguia ser a

principal fonte de renda de Brandon e do resto dos

integrantes. Afinal, seria quase impossível pagar uma

conta de luz com a pequena quantia que restava para eles.

Por isso, ele trabalhava durante o dia na loja de seu pai

Edward. Era uma das maiores – se não a principal empresa

de automóveis que havia nos limites de Sant Grove – e era

notável que Edward estava progredindo nos negócios e

que o auxílio e ajuda do filho eram essenciais.

Tudo estava entrando nos conformes. Brandon e

Edward estavam cada vez mais unidos e tocando os

negócios adiante. O filho, que agora estava afundando em

seus piores pensamentos, outrora estava empolgadíssimo

em trabalhar na empresa do pai e continuar com os

projetos da banda Atlanta. Ele não precisava se esforçar

muito para ter uma vida que daria inveja a qualquer

pessoa. Afinal, tinha uma família incrível, ótimos amigos e

uma linda namorada.

Sim! Seu nome era Rachel Sawyer. Uma garota de

parar o transito, com olhos negros e cabelos castanhos

ondulados muito bem cuidados que cintilavam como a luz

do sol. Sua pele era branca como a neve e tinha estatura

baixa, o que fazia transparecer sua feminilidade. Como

Brandon gostava de dizer, ela era “a garota dos sonhos”. E

quem o visse com Rachel por pelo menos meio minuto,

conseguiria jurar que os dois eram feitos um para o outro,

que iriam se casar e envelhecer juntos até que os dois

deixassem para sempre as meias de tricô e os programas

caseiros.

O casal se conheceu quando os dois tinham apenas

dezesseis anos de idade. Após a mãe de Rachel falecer,

James Sawyer (pai de Rachel) se mudou com as duas filhas

para Sant Grove. A irmã mais velha, Denise Sawyer, tinha

acabado de se formar na escola e ingressado em medicina

na faculdade de Brunis, por isso, apenas a filha mais nova

acabou sendo matriculada na escola onde Brandon

estudara por toda a sua vida.

A percepção afetiva aconteceu de forma mútua

assim que os dois foram colocados na mesma classe. Como

uma reação química, os dois se completaram. E por mais

que fossem diferentes como água e óleo, os dois

conseguiram misturar seus corações rapidamente.

Ninguém poderia negar que eles eram o casal mais

adorável de todos. Brandon com seu bom humor imbatível

e Rachel com sua tímida e atraente seriedade.

Mas diferente da maioria de alguns casais, eles não

se prenderam em uma relação amorosa excludente. Pelo

contrário, Brandon e Rachel eram sociais e sempre faziam

programas com seus amigos. Talvez um bar, uma discoteca

com músicas eletrônicas ou um show de rock – onde, na

maioria das vezes, a atração principal era a banda Atlanta.

De qualquer forma, a cidade de Sant Grove, apesar de

pequena, sempre apresentava alguma coisa para se fazer,

independente do dia. Brandon costumava gostar muito de

sua rotina, até mesmo quando teve de comparecer às

breves aulas na faculdade, após terminar o colégio.

Brandon e Rachel tinham os gostos profissionais

muito parecidos, apesar de serem bem diferentes. Mas

como já diz o ditado: “Os opostos se atraem”, Brandon e

Rachel se atraíram mais uma vez pelo curso de Direito,

resolvendo assim, cursar a faculdade local de Brunis, já que

os dois não queriam deixar a cidade e ficar longe de seus

familiares. Sem falar que Denise poderia instruir os dois e

tornar a vida acadêmica deles muito mais fácil – como

realmente foi. Rachel foi quem se adaptou melhor em

relação às notas, mas isso não tira nenhum mérito de

Brandon, pois suas tarefas na empresa de Edward tinham

começado a crescer, até chegar um ponto em que ele não

conseguiria mais conciliar o trabalho com a faculdade.

Optou então, por ficar com seu pai nos negócios da família

Browser.

- Brandon – dizia Rachel com seus olhos negros

olhando para baixo. – eu vou entender se você não quiser

ficar comigo na faculdade.

Mas é claro que não era esse o pensamento de

Brandon e Rachel sabia disso. Nunca uma coisa dessas iria

acontecer. Rachel era a pessoa certa para Brandon e isso

também era recíproco. Mas ela costumava ter crises de

“preciso me inferiorizar para Brandon me supervalorizar” e

geralmente, esse era o motivo da maior parte das brigas

que ocorriam entre eles, que não eram muitas.

Brandon sentiria muita falta disso e de todas as

outras coisas que nunca voltariam.

Em todo o caso, o resto do mundo parecia estar se

emergindo novamente após a aquela amarga tragédia.

Apenas Brandon fazia questão de ficar ali preso, como se

não existisse saída. Talvez algumas pessoas o julguem

covarde, talvez outras acreditem em seus reais

sentimentos e creiam que não teria como ele se renovar e

continuar com sua antiga vida.

CAPÍTULO 1

O telefone toca naquela manhã com pouca

umidade na cidade de Sant Grove.

Brandon está deitado na cama de seu quarto, no

segundo andar de sua singela casa localizada na Rua

Walter Mountback. Ele abre seus olhos vagarosamente e

imagina “por que raios de motivo eu decidi vir morar

sozinho?”. Se existe uma coisa que ele realmente odeia, é

que alguém interrompa seu sono, principalmente se ele

estiver sonhando com algo bom e satisfatório. Mas ele

tinha plena consciência de que o telefone não iria ser

atendido sozinho.

Levantando-se com seu pijama azul-marinho

listrado, Brandon segue dando passos pequenos e

preguiçosos até a escrivaninha anexada à parede, com

alguns livros, seu notebook e o telefone que agora parecia

o objeto mais detestável de toda sua casa. Eram

exatamente 09h02, ou seja, muito cedo para Brandon

naquele sábado que aparentava muito ser um domingo

monótono.

Na noite anterior Brandon e Rachel tinham ido à

casa de Lilian Brooke – melhor amiga de Rachel. Lilian era

alta como um goleiro de futebol, com cabelos loiros e olhos

verdes. Ela tinha estudado com Brandon e Rachel no

colégio e sempre apoiou o relacionamento dos dois (como

fazia a maioria das pessoas). Agora, Lilian trabalhava

como modelo em uma agencia local e o motivo de ter

convidado os dois para comparecer em sua casa na noite

passada, fora justamente para comemorar uma matéria

que o jornal do estado tinha feito com ela.

Incluídos na pequena festa, também estavam Allan

e David, o que ocasionou em um pequeno concerto

acústico da banda Atlanta na residência de Lilian. É óbvio

então, que tal comemoração não terminou antes do início

da madrugada, muito pelo contrário. Assim, naquela hora

da manhã, era impossível cogitar quem poderia estar

querendo falar com ele tão cedo.

- Alô – Brandon atendeu o telefone com uma voz

preguiçosa, enquanto pensava quando ele finalmente

poderia voltar para sua cama. – quem fala?

- Aqui é Johnny Dallas. . – falou o indivíduo do

outro lado da linha.

Brandon continuou em silêncio, para mostrar que

ele não fazia a mínima idéia de quem era a pessoa que

estava falando, ou melhor, demonstrando seu desconforto

por tê-lo acordado de seu prazeroso sono.

- Você é Brandon Browser, certo? – perguntou o tal

Johnny. - eu estou organizando um show beneficente aqui

na cidade de Fordville e, bom.. – ele tentou achar as

palavras certas em menos de um segundo – gostaria de

saber se sua banda poderia tocar – completou o indivíduo,

fazendo com que Brandon agilizasse seu raciocínio

preguiçoso.

- Cara. . eu preciso falar com o pessoal da banda. –

disse Brandon.

E é lógico que ele precisava. A banda Atlanta tinha

essa regra entre os integrantes: nada será confirmado antes

de total aceitação entre todos. Brandon não poderia

simplesmente aceitar qualquer convite que chegasse,

mesmo que ele fosse um grande fã de eventos beneficentes.

- Certamente! – Johnny respondeu a Brandon,

passando seu número de contato e mais algumas

informações que poderiam ser necessárias. – Mas assim

que você tiver uma resposta, me ligue para acertarmos

todos os detalhes.

Brandon concordou.

A banda Atlanta já estava há um mês sem fazer

shows, então Brandon acreditou que David e Allan

concordariam com tal proposta, contanto que houvesse

cachê suficiente para a gasolina e estadia dos integrantes,

já que o concerto seria realizado numa cidade a pouco

menos de duas horas de distância de Sant Grove. Mas

agora não era hora de pensar em todos esses fatores. Se

desligando de todas as hipóteses de “o que será que eles

vão dizer?”, Brandon voltou para sua cama e tentou dormir

novamente.

Duas horas depois ele já se levantara para um novo

dia de sua vida.

Ainda com seu pijama predileto, desceu até a

pequena cozinha que ainda estava sendo decorada por sua

mãe Hilary. Ele apenas queria um espaço simples para ter

suas refeições. Mas Hilary – como a maioria das mulheres

que não trabalham fora de casa – é viciada em todos os

utensílios para decoração e dedica a maior parte do seu dia

procurando o que poderia deixar a casa de seu filho

impecável. Hilary Browser é uma mulher de cinqüenta e

três anos de idade, tem a pele branca, cabelos castanhos,

olhos verdes e uma altura normal para uma mulher. Não é

uma mulher de meia idade que chamaria sua atenção na

rua, mas seus cuidados e sua atenção com as pessoas são

bastante notáveis. Ela simplesmente gosta de deixar tudo

em sua melhor forma possível e uma dessas coisas era a

moradia que Brandon tinha acabado de conquistar.

Brandon sabia que em poucas horas, sua mãe

chegaria à sua casa com seu pai Edward a fim de fazer um

café da tarde com algumas rosquinhas compradas na loja

de conveniência do posto de gasolina ao lado de sua casa.

Sendo assim, ele sabia que tinha de tomar seu cereal

matinal com leite e informar seus parceiros de banda sobre

a possibilidade de um show, antes que Hilary chegasse

com sua obsessão de reunião familiar que aconteciam

todos os sábados e domingos.

Brandon abriu a geladeira e procurou, como um

animal faminto, alguma fruta que pudesse estar escondida

entre a salada do dia anterior, dois refrigerantes que

tomavam conta da maior parte superior da geladeira e

mais algumas coisas essenciais na sua vida, como queijo,

presunto e mais produtos que não são recomendados caso

você esteja querendo emagrecer. Mas Brandon já era

magro o suficiente e, mesmo se quisesse, nunca

conseguiria ficar de dieta, já que ele adorava comer. Porém,

dessa vez, ele teria de conter sua gula, pois não havia

nenhuma fruta deixada ao acaso para acompanhar seu

cereal com leite – e isso realmente o deixou irritado.

Após terminar a sua modesta refeição, subiu as

escadas de corrimões largos de madeira e se dirigiu ao

banheiro. Outra mania de Brandon, ou melhor, outra parte

de sua rotina diária, era tomar banho após seu café-da-

manhã. Ele simplesmente não conseguia evitar ficar se

sentindo sujo após uma boa noite de sono. Era como se seu

corpo clamasse pelo toque de água gelada. Mas ele já tinha

planejado que, assim que terminasse, iria ligar para Allan e

David e falar sobre a possibilidade de um show da banda

Atlanta.

*

Tudo já tinha entrado nos conformes e ficado do

jeito que Brandon desejara. Ele voltou ao telefone que

horas atrás o tinha impedido de dormir mais um pouco e

discou pausadamente o celular de Allan Green.

Brandon havia conhecido Allan quando era apenas

um garotinho de sete anos. Os dois eram vizinhos e

costumavam jogar baseball com outros garotos do bairro

na rua onde moravam. Quatro anos depois, Allan se

mudaria para outra rua que ficava mais de vinte minutos

de caminhada de onde os dois se conheceram. É lógico que

isso não foi capaz de separar os dois rapazes que eram fiéis

aos esportes de rua e às corridas de kart que aconteciam

todas as quintas-feiras de noite. Sem mencionar que os

dois não se desgrudavam durante toda a semana.

Allan Green parece um soldado que está prestes a

ir para a guerra. Ele tem cabelos raspados e olhos verdes, é

alto (mas não tanto quanto Lilian) e tem uma pequena

cicatriz logo abaixo de seu olho esquerdo. Allan também é

um ano mais velho do que Brandon, o que talvez tenha

criado certa influência sobre o melhor amigo.

Quando Allan comprou seu primeiro cd do rock,

mais precisamente o álbum In Utero da banda Nirvana,

Brandon chegou com o mesmo cd poucos dias depois. É

claro que ocorreu uma pequena discussão sobre quem

gostava mais de Nirvana, mas esta foi uma disputa em que

não houve vencedor ou perdedor. Os dois ficaram

admirados com a qualidade musical daquela banda,

mesmo contendo uma diferença muito pequena de acordes

e melodias nas canções que eram compostas por Kurt

Cobain. Eles sabiam que aquela banda era especial. O

desejo por música de Allan e Brandon começou a nascer a

partir daí. Eles sabiam que precisavam montar uma banda.

No mesmo natal daquele ano, Brandon ganhou uma

guitarra Fender de seu pai Edward e começou a praticar

todos os dias. Allan também já havia comprado seu

contrabaixo com o dinheiro que havia guardado da

mesada e então, em um curto espaço de tempo, os dois

começaram a tocar juntos suas músicas prediletas do

Nirvana e de outras bandas com que eles se identificavam.

Era evidente que os dois tinham uma sintonia

muito forte, tanto musicalmente quanto em questões de

amizade. Mas logicamente, era impossível formar uma

banda com apenas dois integrantes – pelo menos

impossível com apenas uma guitarra e um contrabaixo. Os

dois sabiam que era necessário pelo menos mais uma

pessoa.

- Cara – Allan falava freqüentemente. – como nós

vamos arranjar um baterista para nossa banda?

Era como se Allan perguntasse para uma parede.

Pois Brandon não fazia a mínima idéia. Nem mesmo

conhecia alguém que tinha os mesmos interesses musicais

que eles. Não bastava simplesmente eles chegarem para

qualquer ser humano e perguntar “Ei, você quer tocar

bateria em nossa banda?”. Precisavam ter calma, tudo

aconteceria em seu devido tempo.

O tempo é uma coisa engraçada. . uma hora

Brandon e Allan se preocupavam excessivamente em ter

um baterista para acompanhá-los, agora que o tinham,

estavam afastados dos palcos. Entretanto, Brandon sabia

que essa situação poderia se inverter – ele esperou

euforicamente o telefone tocando.

- Alô! – atendeu Allan naquele momento.

- Ainda bem que você atendeu essa porcaria. –

falou Brandon com certa impaciência. – achei que você iria

me deixar plantado aqui o dia inteiro esperando você

atender.

- Brandon, o que você quer? – perguntou ele de

uma forma mais impaciente do que Brandon perguntara

segundos antes. – eu estou almoçando com uma fã. . e

parece que depois daqui vamos para o Lugar Proibido. –

sussurrou ele ao telefone, maliciosamente.

O Lugar Proibido – como apenas Allan gostava de

chamar – era um tipo de “ninho do amor” que o mesmo

usava para levar suas fãs. Não que a banda Atlanta tivesse

um número grande de groupies, mas Allan fazia questão de

se relacionar afetivamente com qualquer garota que

demonstrasse o mínimo de interesse sobre ele.

- Então fale para essa nossa fã que a banda Atlanta

vai tocar em Fordville! – falou Brandon, exagerando em

sua carga de confiança.

Sem entender direito o que Brandon havia falado,

Allan o questionou sobre tal afirmação.

- É isso aí – continuou Brandon. – um tal de Johnny

Dallas me ligou hoje falando sobre um show beneficente. .

e acredito que ele vai pagar todas as despesas com

gasolina, estadia, você sabe. . não vamos precisar de nos

preocupar com nada.

É lógico que ainda tinham de perguntar a David se

seria possível a banda se apresentar no dia do evento.

Allan e Brandon não precisavam de mais nada além de uns

instrumentos afinados para se divertir e, é lógico, que

Allan aceitaria a proposta assim que a ouvisse. David, por

outro lado, era o integrante que mais apresentava

problemas em termos de horários disponíveis para ensaios

e shows que a banda poderia fazer. Ele estava cursando

Medicina – assim como Denise – e sempre tinha de

estudar ou fazer alguma pesquisa para não tirar notas

baixas. Brandon e Allan não se importavam com a

austeridade de David nos estudos, aliás, nenhum dos três

tinha a verdadeira intenção de levar a banda como uma

verdadeira profissão. Então, sempre apoiavam as decisões

que qualquer integrante da banda tomava. Sem mencionar

que David era um ótimo baterista e dava um peso

descomunal nas músicas da banda Atlanta – mesmo sendo

uma pessoa pequena e magra de cabelos penteados para o

lado. Allan até tinha inventado um apelido para David que

não teve sucesso entre a turma, mas de vez em quando,

ainda fazia questão de chamá-lo de Robin, pois ele parecia

muito com o coadjuvante do Batman.

- Você sabe que nem precisava ter me perguntado –

Allan explicou. – pois eu topo. . vamos arrebentar!

- Ótimo!

- E pode deixar que eu falo com o garoto prodígio.

– disse Allan com seu humor barato.

Os dois desligaram e Brandon ficou pensando que

Allan, naquela circunstância, começaria a se gabar para a

garota com quem ele estava, falando sobre seu show em

outra cidade. Não que isso significasse algo importante,

mas Allan sempre enfatizava os acontecimentos para que

as garotas pudessem pensar que ele era um músico que já

havia tocado pelos quatro cantos do país.

Minutos depois David ligou para Brandon. Os dois

tiveram uma breve conversa sobre o show e David disse

que estava tudo certo para a apresentação da banda

Atlanta, se eles não tivessem de dormir em um banco de

uma praça qualquer em Fordville, é claro.

Brandon estava empolgado, como já era de se

esperar. Ele estava sentindo saudades de ficar sob

holofotes e fumaças de palco que ofuscassem sua visão

sobre a platéia contagiante. Era uma ótima sensação para

uma pessoa que ama adrenalina – e Brandon a amava.

CAPÍTULO 2

Tudo já estava devidamente organizado para o

show. Além da banda Atlanta, aconteceria o show de mais

duas bandas – que por sinal, já tinham dividido o palco

com Brandon, Allan e David em alguns shows locais –

exposições de arte espalhadas pelo local do evento e

grupos de dança e teatro fazendo suas apresentações. O

evento beneficente que lutava pelo combate à fome nos

subúrbios aconteceria no final de semana inteiro,

começando no final de tarde de uma sexta-feira e

terminando apenas na noite do domingo. A banda Atlanta

tocaria no sábado, depois da apresentação de um grupo

teatral, tendo entrada gratuita para os integrantes da

banda e seus convidados, em todos os dias do evento.

Então, por que não convidar Rachel? – Brandon se

perguntou. Aliás, eles poderiam aproveitar um final de

semana diferente em Fordville, o que poderia ser bem

divertido e romântico.

A única viagem que Brandon havia feito com

Rachel, tinha sido há dois anos quando Edward teve de

comparecer a uma palestra em uma pequena cidade ao

lado de Nova Iorque para falar sobre empresas emergentes.

Aproveitando a oportunidade, a família Browser não

hesitou em comprar passagens de avião para Rachel, que

era considerada uma filha mais nova para Edward e Hilary.

Era uma ótima programação, já que levaria poucos

minutos de táxi do lugar da palestra até o centro da cidade

que não dorme. Era um pedido irrecusável para Rachel e

uma oportunidade incrível para Brandon. Aliás, ele

poderia aproveitar a viagem para conhecer lugares novos

ao lado da pessoa que mais importava em sua vida. E,

quem sabe, isso poderia acontecer novamente agora, na

cidade de Fordville.

É lógico que não há como fazer comparações entre

a gigantesca Nova Iorque e a pequena e humilde Fordville.

Mas, para quem está querendo aproveitar a companhia da

amada, o lugar não importa – desde que tenha um ótimo

restaurante à luz de velas para o casal fazer juras eternas

de amor.

Mas o convite à Rachel teria de esperar. Pois

Edward e Hilary tinham acabado de chegar para o chá da

tarde na casa de Brandon. Hilary estava carregando uma

sacola com pequenas luminárias e Edward segurava com

as duas mãos um enorme bolo de cenoura que sua esposa

havia feito na noite passada.

- Já preparou o café? – perguntou Edward com seu

bom humor, quando fora atendido.

- Boa tarde para vocês também. – disse Brandon.

Após beijar e cumprimentar o filho, Hilary foi logo

ajeitando as almofadas do sofá que ficava na sala, de frente

para a televisão de quarenta polegadas que Brandon

comprara duas semanas antes. A sala ainda estava um

pouco vazia. Fora a TV e o sofá, havia apenas uma pequena

mesa que comportava apenas quatro pessoas e suas

respectivas refeições.

- Quando você vai pintar essa parede? – perguntou

Hilary, perdendo seu olhar ao redor da residência.

- Começou. . – Edward disse, debochando da boa

vontade de sua mulher.

A campainha tocou antes que Hilary pudesse

intervir e retrucar o humor de seu marido falastrão.

Brandon foi atender quem quer que fosse.

- Olá família! – disse Rachel ao entrar pela porta

principal com um sorriso radiante.

- Olha quem apareceu para o chá da tarde. . –

Hilary disse entusiasmada, colocando os pratos e talheres

na mesa, enquanto Edward ligava a televisão no jogo de

baseball.

Rachel cumprimentou com um abraço afetivo

todos os que estavam presentes na casa de Brandon,

depois ajudou Hilary a preparar a mesa, como ela sempre

fazia.

- Eu achei que você iria ao cabeleireiro hoje de

tarde. – falou Brandon enquanto fixava seu olhar no belo

rosto de Rachel.

- Cancelei o horário – Rachel falou, dobrando os

guardanapos de pano. – Não estava com vontade de ficar

no salão durante horas. . acordei mal humorada.

Brandon engoliu seco. Ele sabia que quando Rachel

não estava de bom humor, sua vida se tornava um inferno,

no bom sentido. Sua namorada simplesmente ficava sem

disposição para fazer as coisas, o que fez Brandon repensar

se seria uma boa hora de comunicá-la sobre uma possível

viagem a Fordville. Mas desobedeceu a seus pensamentos

profundos e seguiu em frente mesmo assim.

- Eu tenho uma coisa bem legal para falar. . e que

talvez possa melhorar o seu ânimo – Brandon disse

pausadamente, esboçando um sorriso torto. – fomos

convidados a tocar em Fordville em um evento

beneficente.

- Então quer dizer que vocês vão voltar a fazer

shows? – Edward perguntou no mesmo momento em que

o time Seattle Mariners fez um home run.

A maioria dos empresários com certeza não ficaria

contente se um de seus empregados faltasse no trabalho.

Mas Edward era bastante temperamental e também

acreditava que o talento do filho como musico deveria ser

mostrado, principalmente se fosse por uma causa que

ajudaria os necessitados, como ocorreria no show de

Fordville. Sem mencionar que o trabalho de Brandon na

empresa de automóveis não era algo que deveria ser

resolvido com urgência, muito pelo contrário, ele poderia

ficar uma semana sem comparecer no estabelecimento

comercial, porém, teria que arcar com sua função

acumulativa quando voltasse. E para confortar mais sua

mente, o concerto seria no sábado, então, nada de

preocupações.

- Vamos! – disse Brandon.

- O que você acha de. .

- Ir junto comigo? – Brandon interrompeu

enquanto Rachel ainda elaborava sua frase.

Edward e Hilary se entreolharam e sorriram. Eles

simplesmente adoravam ver seu filho cego de tanto amor.

Era como se eles conseguissem enxergar a si próprios no

tempo de adolescentes.

- Bom.. eu terei que falar com James – completou

Rachel – mas acho que não terá problema, meu amor.

James Sawyer era um homem de cinqüenta e

quatro anos de idade, com cabelos curtos cacheados e um

volumoso bigode, fazendo-o parecer um homem austero e

rancoroso, na maior parte do tempo. Mas ele tinha uma

boa relação com Brandon, pois sabia que aquele garoto era

o melhor para a sua filha Rachel. Depois que sua esposa

Angelina faleceu por causa do câncer, James teve o

trabalho duplo de criar as filhas como pai e mãe,

conciliando ao mesmo tempo seu trabalho na

transportadora de madeira. Ele era muito apegado a

Denise e Rachel, pois era a única família que lhe havia

restado e as pessoas que ele mais amava. Mas de certa

forma, também era uma pessoa com pensamentos liberais

(quando sabia que Rachel estava sob os cuidados de

Brandon).

- Acho que seu pai não terá problemas com isso. –

Brandon disse exaltando sua felicidade.

- É. . acho que não – Rachel continuou. – Mas de

qualquer forma, vou perguntar e te aviso. Tudo bem meu

lindo mais lindo de todos? – Rachel disse em uma voz

idiota, mas completamente normal para pessoas

apaixonadas.

Brandon abriu um enorme sorriso, assentindo com

a cabeça.

- Venham comer! – exclamou Hilary posta a mesa,

interrompendo os olhares apaixonados de Brandon e

Rachel.

Todos se levantaram, sentaram à mesa, colocaram

café na xícara e degustaram um delicioso pedaço de bolo

de cenoura com cobertura de chocolate.

Quando terminaram, Brandon levou Rachel para

sua casa em seu Jipe preto. Ele entrou para mandar

saudações a Denise e James. Depois de completar tudo o

que queria fazer, tomou um copo d’água e foi embora para

sua casa. Ele ainda tinha de decidir os detalhes do show e

treinar um pouco em sua guitarra Fender.

A alegria de Brandon era contagiante.

*

Já estava tudo agendado. Rachel iria com Brandon

para Fordville e Allan iria de carona no carro de David.

Johnny Dallas arranjou um pequeno hotel para os

integrantes da banda passarem as noites no final de

semana em que eles se apresentariam. Importunado com

tal proposta, Brandon achou melhor ficar no Hotel Del

Mare, para ter dias mais agradáveis com sua namorada

Rachel Sawyer.

É lógico que ele apenas não ligou para o local e

agendou sua estadia sem saber todas as procedências.

Brandon era um cara esperto. Checou minuciosamente

todos os detalhes do hotel pela internet. E soube então,

que seria o local perfeito para passar o fim de semana com

Rachel. Allan e David certamente não se importaram com

a decisão de Brandon. Como poderiam? Só assim, sobraria

mais espaço e conforto para os não menos importantes da

banda. Sem falar que seria o “casado da banda” – como eles

gostavam de chamá-lo – que estaria fora, então eles

poderiam muito bem fazer uma festa íntima com qualquer

garota liberal que eles pudessem encontrar no show.

- Acho que você nunca deu uma notícia tão boa

para nós durante seus vinte e um anos de vida. – disse

Allan com a felicidade esboçada em seu rosto, enquanto

conversava com Brandon.

- Eu sei que vocês irão sentir minha falta.

- Nós não vamos. – completou David firmemente.

E com certeza não iriam mesmo, exceto é claro, se

Brandon faltasse no show da banda em Fordville. Mesmo

com o peso da batida de David e a imagem de cara barra

pesada de Allan, não há como negar que Brandon era o

mais notável e o mais querido pelas garotas (mesmo que

elas nunca fossem ter uma chance com o ele).

O evento beneficente em Fordville aconteceria na

semana seguinte. Sendo assim, os integrantes da Atlanta

resolveram adiar a gravação de sua nova canção, para que

eles pudessem ensaiar e fazer o melhor concerto possível.

Os ensaios da banda raramente demoravam mais de uma

hora. E como aconteciam nos dias de semana, os

integrantes tinham de ajustar seus respectivos horários

para poder ensaiar nos intervalos entre trabalho, faculdade

e outras funções que cada um possuia.

A família de David tinha um galpão que outrora era

usado como loja de flores. Mas a pessoa que costumava

alugar o recinto tinha se mudado para uma cidade fora do

estado. Então, enquanto os pais de David não arranjavam

mais uma pessoa para alugar o galpão, a banda Atlanta o

utilizava para seus “ensaios” – se é que pode se chamar

assim, já que geralmente tinha mais de cinco pessoas

assistindo. Rachel sempre ia com Lilian (que era alvo das

cantadas sem sucesso de Allan) e sempre havia alguns

amigos ou amigas de Allan e David. Era como um pequeno

show privado.

Em contrapartida, naquele primeiro ensaio para o

show em Fordville, somente os integrantes da banda

participaram. Eles queriam fazer uma surpresa para todos

os espectadores, pois tocariam uma música inédita, que

acreditavam ser uma das melhores que eles já haviam

criado até então. Brandon escrevera essa música e usara

Rachel Sawyer como sua musa inspiradora. Era uma

canção muito bonita de fato, que começava com acordes

lentos ao som do violão, mas que ganhava força

gradativamente até chegar no estribilho do refrão com a

voz de Brandon dando uma emoção muito verdadeira.

“Essa música vai fazer as pessoas lacrimejarem” – brincava

Brandon com seus companheiros de banda. Mas talvez

essa brincadeira tinha um fundo de verdade que Brandon

jamais poderia imaginar.

Eles repetiram aquela música dedicada a Rachel

naquele fim de tarde de segunda feira por pelo menos

umas cinco vezes. A banda queria deixar tudo

milimetricamente perfeito, para que ela saísse da melhor

forma no concerto. Aquele seria o dia em que Brandon

apresentaria essa música a todos, mas em especial, a uma

pessoa: Rachel Sawyer. Porém, além de tudo, a música não

seria entregue sozinha, junto viria algo muito mais

importante – um anel de ouro para toda a vida.

Ninguém (além de Edward e Hilary) sabia que

Brandon tinha um segundo plano para aquela noite. Pois

se soubessem, o ouvido de Brandon entraria em chamas

por causa de tantos “você vai se arrepender” que ele

escutaria. É claro que ele estava nervoso com toda essa

situação, mas Brandon estava certo – ele queria que Rachel

carregasse o sobrenome Browser junto dela. Os dois ainda

eram novos, mas já tinham uma opinião formada sobre

família e casamento. Sem mencionar que Brandon já estava

crescendo nos negócios com seu pai e já tinha até sua

própria casa. Bastava agora, uma companheira para dividir

sua vida. E ele já sabia: Rachel era a pessoa certa para ele

se casar e passar o resto da vida.

CAPÍTULO 3

A casa onde Rachel, Denise e James Sawyer

moravam era muito bonita em relação às casas vizinhas.

Do lado de fora da casa, um grande quintal vivo repleto de

flores e plantas chamava a atenção de qualquer criança

curiosa que passasse por lá. Por dentro, três andares

construídos pelo dinheiro da transportadora de James

mostravam a qualidade de vida que era possível ter

trabalhando nesse ramo em Sant Grove. O segundo e

terceiro andares davam espaço para quartos, banheiros e

um escritório que James usava para pesquisar o

andamento de seus negócios, o fluxo mercantil de madeira

e qualquer outro assunto de sua preferência. No primeiro

andar, havia uma sala que continha uma televisão, uma

mesa de mármore com alguns detalhes esculpidos e ao

lado, um enorme sofá capaz de suportar cerca de seis

pessoas, sem mencionar os quadros com paisagens de

lugares, fictícios ou não, que James adorava. A cozinha,

que ficava logo ao lado, era de certa forma exagerada para

uma família de três pessoas, que raramente eram

consumidas pela gula, exceto é claro, quando Brandon

ficava para o almoço, já que ele adorava o toque especial

que James Sawyer punha nos alimentos. O pai de Rachel

era um ótimo chefe de cozinha e sempre fazia questão de

cozinhar para os convidados.

Mas naquele dia em especial, Brandon não estava

indo à casa da família Sawyer para provar uma nova

receita de James. Era para algo muito superior a isso:

Brandon queria saber se James aprovaria que sua filha se

tornasse esposa de uma pessoa que estaria sempre ao seu

lado, nas horas boas e nas ruins.

Brandon estacionou seu Jipe ao lado da caixa de

correio da família. Seu coração estava batendo tão rápido e

tão forte que por um breve momento achou que iria sair do

seu peito e pular através de sua boca. Ele estava tremendo,

pois sabia que, por mais que James confiasse plenamente

nele, seria difícil ele abrir mão de sua filha mais nova. Mas

essa era a verdadeira vontade de Brandon. Ele já tinha

planejado tudo nos mínimos detalhes - naquela hora do

dia, Rachel e Denise tinham saído para fazer compras no

shopping que ficava no meio da estrada, a dez minutos de

Sant Grove (como elas haviam informado que fariam).

Então, só seria Brandon e James, como um duelo do Velho

Oeste.

A campainha tocou.

James abriu a porta.

- Oi Brandon – disse James ao vê-lo parado na

entrada de sua casa. – As meninas foram para o Golden

Market.

- Eu sei, mas o que eu queria mesmo era falar com o

senhor. – ele disse passando a mão em seus cabelos.

James abaixou sua sobrancelha pensando o que

aquele garoto gostaria de dizer a ele. Mas todas as

pequenas possibilidades que passaram por sua cabeça

seriam jogadas fora por completo após a grande surpresa

que estaria por vir.

- Lógico filho – respondeu James. – entre, por favor.

Brandon entrou e se sentou no sofá de frente para a

televisão que estava ligada, passando as notícias regionais

do dia.

- Você parece nervoso. – continuou James sem

notar que a preocupação de Brandon era muito maior do

que ele poderia imaginar.

Brandon assentiu com a cabeça olhando para

aquele homem que agora parecia intimidá-lo. E de fato

estava. Parecia muito mais fácil tocar guitarra e cantar da

forma mais sincera possível para milhares de pessoas do

que enfrentar um único homem de meia idade com olhos

fortes e chamativos.

- Para falar a verdade. . eu estou bem nervoso. –

disse Brandon desviando seu olhar.

James não falou nada. Apenas foi até a cozinha e

trouxe uma jarra com suco de laranja que acabara de fazer

e dois copos de vidro. Parecia estar calmo, mas seus

pensamentos explodiam em pedidos e desejos para Deus.

Ele não queria escutar algo como “Rachel está grávida”.

- O que houve? – perguntou a Brandon, após se

sentar no sofá e tomar um gole de seu suco.

Por alguns segundos, o homem que deveria falar

sobre a futura proposta de casamento, virou um garoto

indefeso que tremulava todas as partes de seu corpo. Mas

ele sabia que não poderia ficar ali imóvel sem fazer o que

tinha de fazer, então respirou fundo e deixou as palavras

saírem de sua boca, levando-as como o vento faz com as

folhas secas de outono.

- Senhor Sawyer – falou Brandon. – eu gostaria de

ter a permissão para pedir sua filha, Rachel Sawyer, em

casamento.

Instantaneamente, James começou a rir, como se

aquilo fosse uma piada contada por um palhaço de circo.

Porém, seu sorriso foi cessando gradativamente até ele se

tornar uma pessoa completamente séria. James agora sabia

de que Brandon tinha sido sincero em cada palavra.

- Ma. . – sua voz vacilou repentinamente. – mas. .

casamento? – ele perguntou num tom de voz desesperado,

sem acreditar no que seus ouvidos tinham escutado.

- Senhor. . eu tenho certeza de que sua filha é a

pessoa certa para mim.

James balançou a cabeça. Esse movimento seria

repetido também por todos seus amigos e colegas caso

Brandon contasse que estava pensando em se casar. Não

que achassem que ele e Rachel não formassem um belo

casal (pois isso seria idiotice), mas por achar que a vida

ainda guardava muitas surpresas para pessoas tão jovens

como eles.

- Eu não tenho dúvidas disso Brandon – falou

James. – mas não acha que você e Rachel são muito jovens

para se casar?

- Talvez sim, talvez não. . acho que o amor não tem

idade certa – Brandon respondeu. – porém, eu sei o que é

certo. É o meu amor pela sua filha. . eu quero passar a

minha vida inteira ao lado dela e sei que estou fazendo a

coisa certa.

Ele agora estava confiante. Por mais que James

achasse que aquilo não era o correto a se fazer, Brandon

não desistiria mesmo que fosse proibido e James tinha

percebido essa ambição naquele garoto.

- Brandon.. você acha que eu gostei disso? Não! Eu

não gostei – James falou com um olhar firme. – Mas se

você quer a minha permissão, você terá.

Brandon sorriu sutilmente. Deu um gole em seu

suco e apertou firmemente a mão de James.

- Eu não vou te desapontar, senhor.

- Eu sei que não vai. – James falou sorrindo. Ele

sabia que Brandon era uma pessoa de boa família e que

nunca decepcionaria sua filha.

Agora ele já poderia ir embora. Parte de sua missão

já estava completa. Mas o mais difícil ainda estava por vir.

O pedido.

Imagens passavam correndo como um trem bala

pela sua cabeça, pensando como seria o futuro dali pra

frente – ele vivendo junto com a pessoa que transformava

sua vida em um jardim de rosas, dormindo ao lado dela

todos os dias e quem sabe, em alguns anos, construir uma

bela família.

Edward e Hilary o esperavam na frente de sua casa

como se fossem duas crianças aguardando pelo presente

de Natal. Eles sabiam que Brandon iria falar com James e

queriam, mais do que nunca, saber se o filho deles iria se

tornar um homem por completo. Seria um passo enorme

em sua vida e na vida de sua futura esposa. Pois não seria

apenas felicidade que os dois teriam de enfrentar. Iriam ter

tempos difíceis, responsabilidades e todos os outros

fatores que o casamento traz. Mas os pais de Brandon

sabiam que seu filho estava preparado para enfrentar

qualquer coisa, desde que fosse do lado de Rachel Sawyer.

- E então. . o que ele disse? – perguntou Hilary

enquanto Brandon ainda saia de seu Jipe.

- Vocês não acham que são muito ansiosos? – ele

perguntou para seus pais.

- Fale logo – Edward disse. – eu sei que James ficou

feliz com o que você pediu.

- Bom.. feliz ele não ficou – disse Brandon,

fingindo uma cara entristecida, deixando seus pais aflitos.

– mas ele falou que me dá total permissão de casar com

Rachel.

Hilary e Edward fizeram um “aaaaaahhhhh” para

expressar a felicidade que eles estavam sentindo e o

abraçaram no mesmo instante. Os dois já tinham alertado

que não seria fácil abdicar de toda a sua juventude, mas

que ele teria sempre o apoio e suporte de seus pais em

qualquer hora que precisasse.

- Acho que isso pede por uma comemoração. –

Hilary falou alegremente.

- Calma mãe! – pediu Brandon – Rachel ainda nem

aceitou o meu pedido de casamento. . ela nem sabe nada

sobre isso ainda.

Mas o pedido não demoraria pra acontecer. Em

poucos dias, o evento beneficente de Fordville teria no

palco muito mais do que uma banda de rock

moderadamente agressiva. Teria um compositor e músico

apaixonado que estava pronto para conceder seu coração

para sempre. Brandon não conseguia parar de pensar na

reação de Rachel quando soubesse, diante de toda aquela

multidão. Ela era uma garota tímida na maior parte do

tempo e, aceitar um pedido de casamento na frente de

muitas pessoas, não seria uma tarefa fácil.

Logo após a notícia, enquanto Brandon ainda

radiava sua felicidade, Edward e Hilary entraram em sua

casa e por ali, permaneceram por três horas. Edward ficou

assistindo seu canal de esporte predileto e Hilary limpava

e arrumava a casa obsessivamente. Os dois só saíram de lá

quando Rachel ligou avisando que passaria para os dois

assistirem um filme que ela havia alugado na locadora

perto de sua casa, enquanto ela e sua irmã voltavam do

shopping. Hilary e Edward sabiam que ele não iria pedir a

mão dela naquele momento. Eles tinham certeza de que

Brandon prepararia algo muito romântico para tal ato, mas

apenas queriam deixar os dois a sós aproveitando a

companhia dos mesmos.

- Até mais filho. – Edward disse depois de beijar as

bochechas rosadas de Brandon.

- Qualquer coisa, apareça lá em casa com Rachel

para comerem alguma coisa. – Hilary completou.

- Tudo bem – respondeu Brandon – eu ligo.

Os dois saíram com o carro conversível de Edward

e desapareceram virando na rua mais próxima que cruzava

com a Rua Walter Mountback.

Poucos minutos depois, Rachel foi entregue por

sua irmã Denise na porta da casa de Brandon. Ele atendeu

a sua namorada e olhou fixamente em seus olhos negros,

mostrando um sorriso que esboçava sua verdadeira

felicidade.

- Oi amor. – Rachel o cumprimentou depois de dar

um beijo em sua boca.

Os dois entraram e se posicionaram no sofá para

ver o filme que Rachel tinha alugado. Mas Brandon sabia

que não iria conseguir pensar, nem prestar atenção no

filme, já que existia algo muito mais importante ao seu

lado. Ele apenas iria se fissurar com a companhia de sua

amada e ficar deslumbrado pelo fato dele se apaixonar

todos os dias de sua vida pela mesma garota.

- O que foi? – perguntou Rachel. – você parece mais

feliz.

- Estou normal. – ele respondeu, tentando omitir o

que realmente estava passando em sua imaginação.

Os dois se levantaram. Enquanto Rachel colocava o

filme no aparelho de DVD, Brandon subia as escadas de

sua casa até o seu quarto para pegar seu cobertor

preferido, que tinha uma capacidade surreal de esquentar

o casal apaixonado.

Os dois começaram a assistir o filme enquanto

ainda estavam cobertos até seus pescoços. Era um filme de

suspense que tinha passado no cinema havia pouco tempo

e acabara de sair nas locadoras. Não era um filme muito

interessante, o que fez Brandon pensar que não se faziam

mais filmes de suspense como antigamente. Poucos

minutos depois, ele já estava com os olhos fechados,

deitado no colo de sua namorada pensando “esse é o

melhor filme do mundo”.

CAPÍTULO 4

Após terminar todos os deveres que tinha de fazer

na loja de automóveis de Edward naquela quinta feita,

Brandon foi até a padaria mais próxima para comprar

alguma coisa que o alimentasse. Ele estava se sentindo

faminto, pois tinha comido apenas um pedaço de peixe e

um pouco de salada no seu almoço. Com seu estomago

roncando, comprou a maior baguete com recheio de

calabresa que estava à mostra. Ele foi dirigindo até sua

casa se deliciando com a casca crocante e a calabresa que

parecia derreter na sua boca, mas também estava

pensando quais as roupas que ele levaria para o show de

Fordville.

Em poucos minutos, a baguete de calabresa já não

existia mais, diferente da dúvida que ainda permanecia em

sua cabeça. De fato, ele só conseguiria extinguir aquele

ponto de interrogação que navegava em sua mente quando

abrisse seu guarda-roupa. Não que Brandon fosse apegado

em moda, mas o produtor da banda – Nick Geisel – era

bastante rigoroso com a imagem que os integrantes

transmitiam. Nick tinha cabelos lisos e compridos, olhos

azuis e uma barba grande, o que fazia parecer que ele fosse

um hippie de Woodstock, desejando ferozmente que cada

integrante da banda tivesse o seu estereótipo. Allan era o

rude e malvado da banda, David era o baterista com

influência nerd e Brandon o galã de novela com cabelo

jogado para o lado e charme imbatível.

Ao chegar em casa, Brandon afinou sua guitarra e

tocou-a por pelo menos trinta minutos. Era um ato

indispensável no meio de sua rotina. Acordes e solos

incandesciam a sua paixão pela música todos os dias.

Talvez, se seu pai não tivesse um negócio próprio,

Brandon trabalhasse como professor de guitarra e violão,

mesmo que em Sant Grove não existisse uma quantidade

considerável de pessoas interessadas em aulas musicais

para que ele pudesse fazer dinheiro com isso. De qualquer

forma, seu futuro econômico já estava garantido e, por

sorte, tal futuro não dependia de sua agilidade com

escolhas, pois havia uma ausência notável dessa habilidade

em Brandon.

Naquele dia em especial, ele se deparou com uma

gaveta repleta de camisas de bandas que ele idolatrava e

outras camisas simples com apenas um desenho pequeno

no peito ou uma estampa qualquer e, mesmo assim,

demorou muito para escolher cinco (quantidade suficiente

para passar um final de semana em Fordville). Brandon

teve de ligar para Rachel para saber qual camisa ficaria boa

para tocar naquele evento. Ela simplesmente falou que ele

deveria levar em sua mochila as cinco últimas que ela tinha

dado de presente a ele, ou seja, duas camisas de marca de

skate, uma com o desenho de uma guitarra localizada ao

lado esquerdo de sua barriga, uma camisa do The Beatles e

outra do The Doors. Ele realmente tinha adorado todos

esses presentes e não pensou duas vezes em levá-las, pois

sabia que Rachel era uma ótima estilista. Em relação às

suas calças boca de sino, a tarefa tinha sido muito mais

simples. Isso porque havia um estoque imenso, mas todas

eram muito semelhantes, o que fazia seus amigos

brincarem que seu guarda-roupa era como os que

aparecem nos filmes de cientistas malucos, onde todas as

roupas são jalecos brancos idênticos.

Ele separou uma meia dúzia de roupas íntimas,

meias e dois casacos pretos para levar consigo. E então,

sua bagagem para Fordville estava pronta.

*

Na manhã de sexta feita, Brandon e Rachel já

estavam com as malas dentro do Jipe preto de Brandon.

Allan e David iriam juntos no final da noite, quando David

terminasse todas as suas tarefas da faculdade. O baixista e

o baterista da banda Atlanta decidiram, por fim, dormir no

carro de David durante a estadia em Fordville e descartar o

hotel que Johnny Dallas tinha arranjado a eles, já que seria

cobrada a eles uma pequena taxa pelo serviço de quarto.

Por incrível que pareça, os dois estavam considerando isso

como uma das “maiores aventuras de suas vidas”. Brandon

já havia feito isso duas vezes antes, quando a banda teve

alguns de seus shows marcados em cidades bem próximas

a Sant Grove. Ele sabia que, de aventura, aquilo não tinha

nada. Muito pelo contrário, era apenas um convite de

graça para uma dor nas costas e torcicolo. Mas dessa vez,

Brandon não estava preocupado, ele ficaria muito bem no

Hotel Del Mare com sua namorada.

- Está pronta para a melhor viagem de sua vida? –

Brandon perguntou animadamente a ela.

- O que? – Rachel retrucou. – então quer dizer que

nossa lua de mel não vai superar uma viagem para

Fordville?

Mal ela sabia, que a Lua de Mel seria muito em

breve, caso tudo o que Brandon planejasse se

concretizasse naquele final de semana.

- Amor, nossa Lua de Mel é uma exceção. –

Brandon retrucou enquanto olhava para a porta de sua

casa, pensando se tinha pegado tudo o que ele precisava.

Os dois entraram no carro.

Após um beijo e uma troca intensa de olhares,

Brandon ligou o carro e partiu em direção a Fordville. O

som do carro tocava uma música de hardcore de alguma

banda independente. E mesmo ele sendo um grande fã das

bandas de rock clássicas, ele também apreciava aquilo que

poucas pessoas conheciam. Afinal de contas, sua banda

estava inclusa nesse meio underground. Mas era trabalho de

Brandon, David, Allan e inclusive Nick Geisel, levar a

mensagem que a banda Atlanta passava para o maior

número de pessoas possíveis.

A estrada até Fordville era bem tranqüila e

confortante. Poucos carros passavam por ali naquela hora

do dia e a maioria dos veículos eram caminhões que faziam

transporte de madeira, de gado, ou qualquer outro

produto economicamente forte naquela região. Também

era possível avistar placas de atenção com alces, esquilos e

capivaras que poderiam, a qualquer momento, atravessar

de um lado para o outro da estrada. Mas parece que

naquele dia, a fauna daquela floresta estava da forma mais

harmônica possível, pois Brandon e Rachel não avistaram

nenhum animal, exceto é claro, belos pássaros coloridos

que voavam intensamente à procura de alimento.

Em menos de duas horas, Brandon e Rachel já

tinham chegado a Fordville. Na entrada da cidade, existia

uma grande placa “Bem vindos a Fordville” com o desenho

de um crocodilo com óculos de sol fazendo piquenique.

Motivo disso, era o fato de que havia uma família de

crocodilos em um lago a menos de um quilômetro de

distância de onde Brandon e Rachel tinham passado. Por

incrível que pareça, os locais não se amedrontavam com

isso. A maioria das pessoas ia até o local para pescar,

tomar um lanche e botar a conversa em dia nos limites do

lago. O pai de Brandon já havia falado sobre tais

crocodilos, o que fez despertar a atenção do garoto. Mas

agora, os dois tinham algo a fazer - achar o Hotel Del Mare

e instalar suas pequenas bagagens de fim de semana.

Um senhor que aparentava ter pouco mais de

sessenta anos, com cabelos brancos e um volumoso

bigode, andava tranquilamente com seu cachorro, quando

Brandon parou ao seu lado para pedir algumas

informações.

- Com licença – Brandon falou. – o senhor poderia

me informa onde é o Hotel Del Mare? – perguntou

educadamente.

Aquele senhor olhou diretamente ao jovem

desinformado com uma cara de dúvida, o que fez Brandon

pensar que ele não saberia dar tal informação. Então,

quando ele já ia agradecer e se despedir, para que assim

pudesse abordar uma outra pessoa, o senhor grisalho

falou:

- Você tem de seguir por essa rua e no quarto

cruzamento. . hum.. – refletiu com seus olhos fechados – é

isso aí! – estralou os dedos. – Você tem de virar no quarto

cruzamento à esquerda.

Brandon olhou para Rachel com uma cara de

“devemos confiar nesse cara?”, mas ela apenas afirmou com

a cabeça.

- Obrigado senhor. – o casal agradeceu.

De qualquer forma, eles estavam lá para se divertir,

não para se preocupar com hotéis, serviços de quarto e a

que horas o café da manhã seria servido. Então o Jipe se

direcionou até onde aquele velho homem tinha avisado.

Como Rachel e Brandon já haviam imaginado, a

informação estada errada. Mas de qualquer forma, eles

estacionaram o carro e entraram em um restaurante

chamado Delicardio, que ficava na rua onde o senhor tinha

informado a suposta localização do Hotel Del Mare.

O restaurante estava cheio. Aparentemente, era

onde todas as pessoas que trabalhavam ali por perto

almoçavam. Isso só fez com que Brandon e Rachel se

alegrassem ainda mais, já que a comida (de acordo com o

cardápio) não custava caro e parecia ser deliciosa.

Os dois demoraram menos de dez minutos para

saber qual prato seria o escolhido. Então, chamaram uma

garçonete pouco acima do peso para anotar o que haviam

escolhido depois de tanto pensarem.

- Boa tarde – a garçonete gorda falou. – já

escolheram?

- Sim – Rachel disse sem hesitar. – nós vamos

querer esse filé de frango à parmegiana, por favor.

A barriga de Brandon roncou. Provavelmente ele

estava pensando naquele frango delicioso que estava vindo

ao seu caminho, já que tinha comido apenas uma maçã

naquela manhã de sexta feira.

- Alguma coisa para beber? – a garçonete

continuou.

Rachel acabou pedindo um suco de laranja e

Brandon, uma limonada com duas pedras de gelo e

bastante açúcar.

Em menos de quatro minutos os sucos já estavam

sendo colocados na mesa redonda pintada de vermelho.

Cinco minutos depois a comida era colocada no prato do

casal, fazendo com que Brandon não perdesse seu precioso

tempo para atacar seu alimento como um leão atrás de

uma zebra indefesa.

Não demorou muito tempo para os dois saírem do

restaurante, deixando alguns trocados de gorjeta para a

garçonete atenciosa.

- O que você acha de passar no lago do crocodilo? –

perguntou Rachel ao seu namorado.

- Pode ser uma boa idéia. – ele aderiu.

E realmente era uma ótima idéia. Pelo menos dessa

vez, não tinha como errarem o caminho. O lago era a maior

atração da cidade e havia placas espalhadas por todos os

cantos indicando qual direção você deveria tomar caso

fosse um turista procurando algo em especial na cidade de

Fordville.

Ao chegarem lá, Brandon sacou seu violão e Rachel

pegou uma toalha de praia para os dois se sentarem no

gramado perto da cerca que os separavam da beira do lago.

Uma ponte que cruzava o limite da moradia dos

crocodilos era habitada por velhos aposentados que

pescavam os peixes que ali passavam tranquilamente.

- Esse lugar é bem bonito. – Brandon disse.

Rachel assentiu, deitando em seu colo e sorrindo

para Brandon com um ar apaixonante.

Os dois permaneceram ali por volta de uma hora.

Tempo suficiente para Rachel adormecer sob os carinhos

de seu namorado, que a via dormir e pensava o quão bom

seria quando os dois estivessem ligados pelo matrimônio.

Quando saíram, decidiram ir ao Hotel Del Mare.

Aliás, eles pagaram a estadia pelos três dias, então, nada

mais justo do que aproveitar a mordomia do local.

Um casal de negros estava passando perto deles,

quando Rachel decidiu perguntar à mulher se ela sabia

exatamente onde ficava o lugar que eles estavam

procurando. Totalmente atenciosa e prestativa, a mulher

pegou uma página de caderno que estava guardada em sua

bolsa e escreveu o percurso que Brandon e Rachel

deveriam fazer. Após agradecer a ajuda, os dois partiram.

- Essa mulher é mais exata do que o Google Maps. –

brincou Brandon.

Rachel deu risada.

Brandon apenas olhava-a sorrir. Ele ficava

impressionado com a beleza e felicidade que sua namorada

transmitia. E para compensá-la, usaria toda sua paixão,

assim que chegassem ao Hotel Del Mare.

*

O hotel era de fato muito bonito. E por fora,

superava todos os panfletos e as fotos postadas no website

da empresa.

- Uau! – exclamou Rachel quando Brandon

estacionou o carro na entrada do hotel.

Imediatamente um chofer veio conduzir o carro até

o estacionamento e outro atendente apareceu para falar

com o casal que permanecia com os olhos brilhando.

O hotel tinha uma pequena estátua de um anjo na

entrada, com uma cachoeira desembocando em uma fonte

com peixes coloridos. O hotel era extenso como o colégio

em que Brandon estudara. Havia uma piscina no centro

onde crianças brincavam de voleibol com seus pais e

mergulhavam até onde conseguiam suportar, sem

mencionar as duas quadras para a prática de tênis, uma

para o basquete, o cassino e um enorme restaurante.

- É um hotel tão grande para uma cidade tão

pequena como Fordville. – Brandon disse impressionado.

Rachel concordou, também impressionada.

O custo da suíte que ele tinha escolhido não foi

barato, mas julgando pelos serviços que o hotel oferecia,

também não tinha sido caro. Ele simplesmente não

poderia ter feito uma escolha melhor para passar um bom

final de semana com a pessoa que ama.

- Aonde fica nosso quarto? – perguntou Rachel ao

assistente, empolgadíssima por dentro.

Imediatamente, ele os conduziu até à

recepcionista, que daria todas as informações que eles

necessitavam. Lá, uma mulher alta com cabelos castanhos

cacheados falou sobre o horário do café-da-manhã, almoço

e jantar, sem dispensar o horário e as regras do cassino.

Por fim, entregou a chave do quarto aos jovens turistas.

- O quarto de vocês é o 534. – a recepcionista disse.

Agradecidos, Brandon e Rachel pegaram suas

poucas bagagens e subiram pelo elevador principal, que

tinha um enorme espelho com detalhes em dourado na

borda, até chegar ao quinto andar, onde havia um enorme

corredor com vasos e quadros espalhados entre uma suíte

e outra.

O quarto escolhido por Brandon tinha uma cama

enorme de casal, duas camas de solteiro, um banheiro

exagerado demais para apenas um casal e um frigobar que

ficava debaixo de uma televisão de plasma. Sem mencionar

as poltronas, os utensílios distribuídos pelo quarto que era

de primeira classe e a varanda que dava uma bela visão

para as montanhas e os campos de Fordville.

- Amor – disse Rachel. – Que lugar incrível. . você é

demais. – disse se jogando aos seus braços.

- Eu sei que sou. – ele se gabou.

Os dois se beijaram e se jogaram na cama, largando

todos seus pertences no chão. Era final de tarde e os dois

estavam apenas aproveitando a companhia um do outro.

Juras eternas de amor foram feitas mais uma vez naquele

momento, com algo muito concreto por trás de todas essas

promessas.

CAPÍTULO 5

Na manhã de sábado Brandon acordou uma hora

depois do nascer do sol. Ele não estava sentindo uma

faísca de sono sequer, já que na noite anterior, ele e Rachel

beberam um vinho no quarto e foram cedo para cama,

fazendo apenas uma breve visita ao cassino, onde

apostaram poucos dólares numa mesa de pôquer – lá,

jogava um senhor com pouco mais de setenta anos e sua

filha. O homem se chamava Jesse Mackenzie, era careca,

usava óculos e vestia um terno preto, que o fazia parecer

com que fosse um professor de física ou matemática. Sua

filha, em contrapartida, era bem apresentável. Ela se

chamava Megan, tinha trinta e sete anos, cabelos loiros,

olhos verdes, um corpo muito bem cuidado e era

espantosamente linda para uma pessoa que já estava quase

chegando aos quarenta anos de idade. Os dois tinham feito

aquela viagem “pai e filha”, pois Megan tinha acabado de

voltar do Canadá, onde permanecera por oito anos. O jogo

com aquela pequena família tinha sido muito divertido,

mesmo com Brandon e Rachel perdendo tudo o que

tinham apostado. Mas, como o ditado diz: azar no jogo,

sorte no amor.

O cassino não era tão exuberante quanto o resto do

hotel, mas tinha os jogos mais clássicos como roleta, vinte-

e-um e diversas máquinas de caça-níquel. Naquela noite

(como em todas as noites de sexta feira) o cassino estava

aberto para qualquer pessoa, desde que tivesse idade

suficiente para entrar. Então, algumas dúzias de pessoas se

reuniram naquele local para tentar a sorte.

A primeira noite em Fordville já tinha sido

bastante agradável para Brandon e Rachel e isso só fazia

com que a vontade do jovem garoto em pedir sua amada

em casamento aumentasse. Mas ele não teria de esperar

mais. Seria naquela noite, ao final do show de sua banda

Atlanta.

Por falar na banda, David e Allan já deveriam estar

dormindo no carro em alguma rua pelas bandas de

Fordville, ou então, haviam cedido às tentações e ido para

o pequeno hotel ao lado de onde seria o evento beneficente

que Dallas tinha arranjado.

Brandon saiu do Hotel Del Mare para tentar

encontrá-los.

Rachel decidira ficar dormindo na suíte em que

estavam, já que depois de seu namorado, o travesseiro era

seu segundo grande amor. Ela raramente entendia o por

que Brandon gostava tanto de sair para caminhar àquela

hora da manhã. Simplesmente não fazia sentido alguém

trocar um bom descanso na cama por uma caminhada