O Sonho de um Homem Ridículo por Fiódor Dostoiévski - Versão HTML

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O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO

( NARRATIVA FANTÁSTICA )

( 1877 )

PRIMEIRO

SOU UM HOMEM ridículo. Agora já quase me têm por louco. O que

significaria ter ganho em consideração, se não continuasse sendo um homem

ridículo. Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo

rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim... sim,

senhor, agora, não sei por quê, mas sinto por todos os meus próximos uma

ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso... não

precisamente nesse riso à minha custa, mas sim pelo carinho que me inspiram,

se não me fizesse tanta pena vê-los. É pena que não saibam a verdade. Oh,

meu Deus! quanto custa isso de ser um só a saber a verdade! Mas isto não

compreendem eles. Não, nunca compreenderiam isto.

A princípio fazia-me sofrer muito a idéia de parecer ridículo. Não o

parecê-lo, mas o sê-lo. Eu sempre fui ridículo, e eu já o sabia talvez desde que

nasci. Talvez já aos sete anos eu me apercebesse perfeitamente de que era

ridículo. Depois fui para a escola, e a seguir para a Universidade, mas... quanto

mais aprendia, mais obrigado me via a reconhecer a minha condição de

criatura ridícula. De maneira que todos os meus estudos universitários não

tinham outro objetivo senão o demonstrarem-me e explicarem-me a mim

próprio, nas minhas meditações, que eu era um ser ridículo. E, na vida,

acontecia-me o mesmo com a ciência. Todos os anos aumentava e se

fortalecia em mim o conhecimento da minha condição ridícula, em todos os

sentidos. Toda a gente se ria de mim. Mas ninguém sabia, nem suspeitava

sequer, que, se existia no mundo um homem que soubesse melhor do que

todos eles como eu era ridículo, esse homem era era eu próprio. E era

precisamente isso o que mais me enraivecia: que não soubessem. Mas disso

tinha eu a culpa. Fui sempre tão orgulhoso que por nada desse mundo o teria

confessado a ninguém. E esse orgulho ia crescendo também em mim com os

anos, e se eu me tivesse permitido confessar a alguém, fosse a quem fosse,

espontaneamente, que era um homem ridículo, teria imediatamente metido um

tiro na cabeça, na tarde do mesmo dia. Oh, quanto me fez sofrer, na minha

mocidade, o medo de não poder talvez conter-me e de dizê-lo de repente, eu

próprio, aos meus companheiros! Mas, com o andar do tempo, quando me

tornei um rapazote e, apesar de continuar reconhecendo cada vez melhor

todos os anos essa terrível condição minha, fui-me sentindo cada vez mais

tranqüilo... não sei por quê... precisamente por alguma razão que ainda hoje

ignoro. Talvez por, nessa altura, se ter introduzido na minha alma o receio

perante determinado conhecimento que humanamente era mais elevado que o

meu eu... e que foi a convicção adquirida de que tudo neste mundo é, afinal,

uno.

Havia já muito tempo que o pressentira, mas a convicção plena só

assentou no meu espírito no último ano e de uma maneira súbita. Senti de um

momento para outro que para mim tudo era indiferente, que tanto me fazia que

o mundo existisse como não. Pouco a pouco ia vendo e sentindo que não havia

nada fora de mim. Parecia-me que, de fato, a princípio tinham existido muitas

coisas, mas adivinhei igualmente depois que antes também não tinha havido

nada, e que se assim me parecera foi por alguma razão. E, pouco a pouco, fui-

me convencendo que daí para diante também não haveria nada. A partir dessa

altura até agora deixei de preocupar-me mais com os mortais e quase e quase

não voltei a dar-lhes atenção. O que não tardou a refletir-se sobre as coisas

mais insignificantes, pois ocorria-me, por exemplo, quando andava pelas ruas,

dar encontrões em toda a gente. E não se julgue que era por ir afundando em

meditações, isso não podia ser, porque eu já tinha de pensar em tudo, tudo me

era indiferente. Ainda se ao menos me tivesse entregue à resolução de

problemas! Mas não, nem um só resolvi na minha vida, e, isso, havendo-os aos

pontapés. Mas como tanto me fazia, os problemas afastavam-se de mim

sozinhos.

E mais para adiante, de repente, soube a verdade. Soube a verdade no

último mês de novembro, precisamente a três de novembro, e desde então não

se apagou da minha memória nenhum pormenor da minha vida. Foi numa noite

tão escura, tão escura como nunca vi outra tão tenebrosa. Voltava para casa,

aí pelas onze horas da noite, e ainda me lembro que ia pensando em que não

poderia haver noite mais escura e mais lôbrega. Até em sentido físico. Todo o

dia havia chovido, mas uma chuva extremamente fria e aborrecida, uma chuva

dessas que deprimem o ânimo a tal ponto que ainda me lembro de sentir

hostilidade contra os homens. E, de repente, a chuva parou e passou a sentir-

se uma umidade terrível, ainda mais úmida e mais fria que a chuva, e de todos

os lados levantou-se uma espécie de névoa que surgia de cada pedra da rua e

de cada esquina, quando, ao passar, uma pessoa se punha a olhar a rua de

longe. Ocorreu-me de repente pensar se os lampiões se teriam se apagado,

seria muito melhor, porque com as luzinhas do gás tudo se tornava mais triste,

pois a luz deixava ver tudo. Eu mal comera naquele dia e desde o escurecer

que tinha estado em casa dum engenheiro. Não tinha aberto a boca durante

todo esse tempo e calculo que a minha presença os aborrecesse. Falavam

não sei de que, e, de repente, puseram-se a altercar, enredando-se na

discussão. Mas, no fundo, nada daquilo os interessava, de maneira nenhuma,

isso sabia eu, e se se acaloravam era por se acalorarem. Eu, de repente, fui e

disse-lhes: “Deixem-se de discussões, que isso, para vocês, vem tudo a dar no

mesmo”. Eles, em vez de o levarem a mal, não fizeram mais nada senão rir-se

de mim. Porque eu não lhes tinha dito aquilo em ar de censura, mas porque

tudo me era indiferente. Eles percebiam claramente que para mim tudo me era

indiferente e achavam graça ao caso.

Enquanto eu, pelas ruas, ia pensando na extinção dos lampiões,

lembrei-me de erguer os olhos ao céu. Estava tremendamente escuro, mas

distinguiam-se com toda a nitidez umas grossas nuvens claras, que por ele

vogavam, desgarradas, desfeitas, e entre elas, no espaço vazio, grandes

manchas negras. De súbito descobri numa dessas manchas uma estrelinha.

Parei e pus-me a observá-la, atento. Fiz isso unicamente porque aquela

estrelinha me sugeriu uma idéia: decidi meter um tiro no corpo nessa mesma

noite. Já dois meses atrás o tinha decidido assim solenemente, e, apesar de

estar tão mal de dinheiro como estava, arranjara um bonito revólver, o qual

tinha carregado naquele mesmo dia. No entanto, tinham já passado dois meses

e o tal revólver continuava na minha gaveta, tão indiferente me era tudo, que

queria esperar por um momento em que assim não fosse, embora ignorasse o

motivo desse adiamento. E, quando voltava a casa todas as noites, durante

esses dois meses, julgava que ia ser essa a noite em que eu dava o tiro.

Estava sempre à espera do momento. E, de repente, aquela estrelinha sugeriu-

me a idéia e resolvi terminantemente meter a bala no corpo nessa noite. Não

sei é por que me teria a estrelinha sugerido tal idéia.

Mas sucedeu que, enquanto olhava o céu, uma menina me acotovelou.

A rua estava já deserta, completamente deserta, e não se via vivalma por

aqueles arredores. Apenas ao longe um cocheiro de drójki dormia sobre a

boléia. Pode ser que a tal menina tivesse apenas oito anos, trazia um

vestidinho muito fino, como agasalho trazia apenas um lenço, estava

completamente encharcada pela chuva, mas o que mais me chamou a atenção

foram os seus sapatinhos, rotos e molhados, de tal maneira que ainda me

parece estar a vê-los. Saltaram-me à vista, de um modo estranho. De repente,

a pequena bateu-me no braço e gritou não sei que. Não chorava, mas proferia

algumas palavras, que não podia articular bem por causa do frio, como num

ladrido, e todo o corpo lhe tiritava. Estava tão assustada, era tal o seu medo,

que no seu desespero não fazia mais senão balbuciar e gritar sempre o

mesmo: “Mã! Mã!”. Voltei-me para olha-la, mas não disse nada e segui o meu

caminho, ela deitou a correr atrás de mim, puxando-me constantemente pelo

braço e gritando nesse tom que, nas crianças assustadas, denota o desespero.

Conheço esse tom. Ainda que a pequenina não exprimisse claramente o seu

conflito por palavras, compreendi que a mãe estaria a morrer em casa ou que

ali devia ter acontecido outra desgraça horrível, e que ela saíra de casa para

pedir o auxílio de algum transeunte, a fim de encontrar alguma coisa com que

socorrer a mãe. Mas eu não segui na direção que ela me indicava, e até, pelo

contrário, comecei a afugentá-la do meu lado. A princípio disse-lhe que ia

procurar um guarda noturno. Mas ela abriu as duas mãos, implorante, e

continuou a correr atrás de mim, soluçante, ansiosa. Parecia que tinha medo

de perder-me. Eu então me adiantei e, de repente, bati com o pé no chão, e ela

deu um grito. Gritava angustiosamente: “Meu rico senhor, meu rico senhor!...”.

Mas depois parou e, de repente, deitou a correr pelo meio da rua, onde se via

um vulto, deixando-me a mim para importunar outro.

Subi ao meu quinto andar. Tenho aí um quarto que aluguei a uma

mulher. É um quarto miserável e pequeno, tem apenas uma clarabóia no teto.

O meu mobiliário compõe-se de um divã, forrado de oleado, de uma mesa,

sobre a qual tenho os meus livros, duas cadeiras e uma poltrona, esta, velha,

velhíssima, mas muito cômoda. Sento-me nela, acendo a luz e ponho-me a

pensar. No quarto contíguo, separado do meu apenas por um magro tabique,

há já três dias que dura o rega-bofe. Vivia aí um capitão reformado, que

também tinha hóspedes – seis homens. Estavam quase sempre jogando com

um baralho velho e gorduroso. Nas noites anteriores bateram-se, e de dois

deles sabia eu que se tinham mutuamente puxado os cabelos. A dona da casa

pensou queixar-se, mas não se atreveu, por ter medo do capitão. Além dos

sitos vizinhos, havia também na casa uma senhora muito franzina e magra,

uma provinciana com três filhos pequenos e que lhe adoeceram já aqui. Tanto

ela como as crianças tem um medo ridículo do capitão, e sempre que tem

hóspedes passam a noite em claro, tremendo e persignando-se, e o

menorzinho até sofre de convulsões, de tão medroso. O tal capitão, sei-o muito

bem, costuma algumas vezes pedir esmola aos transeuntes do Niévski

Próspekt, e não se preocupa absolutamente nada com arranjar emprego,

embora – coisa estranha-, durante todo o tempo que tem estado me casa,

nunca me tenha incomodado de maneira nenhuma. É certo que eu, desde o

princípio, evitei o seu convívio, e que fiz todo o possível por aborrece-lo da

primeira vez que veio ao meu cubículo, visitar-me, mas que gritem lá no seu

quarto quanto quiserem... isso é-me indiferente. Eu passo a noite inteira

sentado na minha poltrona, e, para dizer a verdade, nem os ouço... A tal ponto

consigo esquecer-me deles e dos seus gritos. Mas passo toda a noite em

claro... Há já um ano que isto acontece. Fico sentadinho na poltrona até que

clareia, e sem fazer nada. Ler, só leio de dia. Estou sentado e nem sequer

penso em nada, fico sentado tranqüilamente e deixo o pensamento vaguear. A

luz consome-se numa noite. Sento-me à mesa, pego no revólver e coloco-o na

minha frente. Ainda me lembro de que... quando o coloquei ali diante, perguntei

a mim próprio: “Sim?” E que respondi com toda a tranqüilidade: “Sim”. Por isso

decidi meter uma bala no corpo nessa mesma noite. Eu sabia que nessa

mesma noite haveria de esfacelar irremediavelmente a caixa craniana, mas

não sabia quanto tempo haveria de continuar ainda ali sentado até esse

momento. E, não há dúvida nenhuma de que teria um tiro na cabeça nessa

noite, se não fosse por causa daquela pequenina...

II

MAS VEJAM: apesar de tudo me ser indiferente, sentia, por exemplo, a

dor, sim, a dor, senti-a. Se alguém me tivesse batido, teria sentido a dor. E o

mesmo no terreno moral, se tivesse acontecido algo de triste, teria sentido

piedade, tal como antes de tudo se me ter tornado indiferente. Por isso,

daquela vez, senti compaixão, eu não tinha outro remédio senão prestar o meu

auxílio a uma pequenina, fosse como fosse. Por que não o tinha prestado

àquela? Porque, precisamente nesse momento, me ocorreu uma idéia: quando

ela me puxou pelo braço e me falou, surgiu-me um problema para o qual não

encontrava resposta. Era uma pergunta ociosa, mas, no entanto, aborrecia-me.

Punha-me de mau-humor, devido à conclusão lógica a que eu chegara, a

conclusão de que, uma vez que ia rebentar com a caixa dos miolos, tudo me

devia ser indiferente. Mas por que sentiria eu então de repente que nem tudo

me era indiferente e que tinha pena da pequenina? Ainda me lembro de que

me inspirava uma autêntica piedade, sim, até ao ponto de sentir uma dor muito

especial, inspirava-me piedade, uma dor que era absolutamente inverossímil e

intempestiva, na situação em que me encontrava. Não, não consigo descrever

bem o meu fugidio sentimento de então, mas esse sentimento ainda perdurava

no meu espírito depois de eu ter entrado no meu quarto e depois de estar já

sentado à mesa, e me encontrava tão agitado como havia muito não o estava.

Uma apreciação traía a outra. No entanto é evidente que eu, apesar de ser um

homem e não um zero, isto é, apesar de não me ter ainda transformado num

zero, é evidente, repito, que estou vivo... e, por conseguinte, ainda posso

aborrecer-me e sofrer sem sentir vergonha dos meus atos. Bem. Quanto a

mim... Mas se eu, por exemplo, me mato dentro de duas horas, que pode

importar-me essa pobre pequenina e que podem incomodar-me a vergonha e o

mundo inteiro? Transformo-me num zero, num zero absoluto. E poderia

realmente a consciência de que vou deixar de existir dentro em breve, e, por

conseqüência, de que tudo vai também deixar de existir, não ter a menor

influência sobre o sentimento de piedade que inspira esse ser, nem sobre o

sentimento de vergonha pela brutalidade em que uma pessoa tenha incorrido?

Foi só por isto que eu bati com o pé no chão e lancei aquele grito tão furioso,

porque queria demonstrar que eu... não só não sentia piedade alguma como

também era capaz de cometer a grosseria mais desumana, já que dali a duas

horas tudo estaria acabado e que já não existiria absolutamente nada.

Acreditar-me-ão se lhes disser que foi só por isso que a afugentei? Estou

absolutamente convencido disso. Naquele momento era para mim

absolutamente evidente que a vida e o mundo dependiam quase unicamente

de mim. Posso dizer mais ainda: que o mundo, agora, parecia quase criado

para mim apenas... pois quando tivesse dado o tiro, o mundo deixaria de existir,

pelo menos para mim. Isto para não falar sequer de que talvez realmente não

houvesse nada mais para ninguém, depois de mim, e que talvez o mundo

inteiro, quando o meu conhecimento se extinguisse, se desvanecesse

imediatamente como uma visão, como um simples atributo desse

conhecimento meu e deixasse de existir, pois talvez todo esse mundo e todos

esses homens sejam... unicamente eu mesmo. Lembro-me de que ia

abandonando todas essas novas perguntas, que me assaltam uma atrás da

outra, e pensava qualquer coisa completamente nova para mim. Tudo isto,

sentado na minha poltrona, sempre a pensar. E, de repente, entre outros,

ocorreu-me um pensamento estranho: se eu, por exemplo, tivesse vivido na

Lua noutro tempo, ou no planeta Marte, e cometido aí alguma ação

incrivelmente desonesta, a mais desonesta que imaginar se possa, e devido a

essa ação me tivesse visto aí ultrajado e desonrado de uma maneira como só

às vezes pode ver-se nos sonhos, sob o influxo de um pesadelo, e depois, na

Terra, não me abandonasse a recordação daquilo que eu tivesse feito nos

outros planetas, e soubesse, além disso, que jamais, fosse como fosse, havia

de voltar a esses outros planetas – pergunto então: “Quando eu olhasse a Lua,

cá da Terra, tudo seria para mim indiferente... ou não? Envergonhar-me-ia ou

não, então, dessas minhas ações?” Essas perguntas eram ociosas ou

supérfluas, visto que estava ali o revólver diante dos meus olhos, em cima da

mesa, e que eu sabia de certeza absoluta que aquilo havia de acontecer

infalivelmente... Mas, no entanto, essas perguntas pungiam-me e molestavam-

me. Parecia-me que afinal não podia morrer sem ter, de qualquer maneira,

resolvido esses problemas. Em resumo: aquela pequenina salvou-me, pois,

devido àquelas perguntas, adiei a minha morte. Entretanto, no quarto do

capitão reinava o silêncio, o dono da casa e os hóspedes tinham acabado de

jogar e preparavam-se para dormir, embora sem deixarem de resmungar ou de

insultar-se até ao fim, na sua bebedeira. E então sucedeu-me adormecer de

repente, coisa que nunca antes me acontecera, sentado na poltrona, junto da

mesa. Adormeci de um momento para o outro.

Como se sabe, os sonhos são uma coisa muito estranha. Percebemos

neles, com uma clareza assustadora, com uma artística elaboração, certos

pormenores, ao passo que passamos outros completamente por alto, como se

não existissem, sucedendo assim, por exemplo, com o tempo e com o espaço.

Creio que os sonhos não os sonha a razão, mas o desejo, não a cabeça, mas o

coração, e, no entanto, sobre que coisas tão complicadas passa às vezes a

minha razão, no sonho! Coisas absolutamente incompreensíveis. Por exemplo:

há cinco anos que morreu o meu irmão, mas eu costumo vê-lo freqüentemente

nos meus sonhos, toma parte em tudo quanto me interessa, falamos

longamente de tudo quanto se possa imaginar, mas, ao mesmo tempo, tenho

sempre a consciência e nunca me esqueço um momento que há já muito

tempo que o meu irmão está morto e enterrado. Mas a que é devido o fato de

eu não estranhar, de maneira nenhuma, a sua presença? Que não me espante

que o morto se sente junto a mim e que me fale? Por que não se revolta a

minha razão? Mas já chega. Vou agora falar-lhes do meu sonho. Sim, nesse

tempo tive eu aquele sonho, o meu sonho de três de novembro. Os senhores

dir-me-ão, agora, que se tratou apenas de um sonho. Mas é completamente

indiferente que fosse um sonho ou não fosse, uma vez que este sonho me

tivesse revelado a verdade? Porque uma vez que se reconheceu a verdade,

depois que ela se vê, já sabemos que é a verdade única, que fora dela não

pode haver nenhuma outra, quer estejamos adormecidos ou acordados. Pois

bem: se é um sonho, por mim, admito-o. Mas essa vida, que os senhores tanto

apreciam, estava eu disposto a deixá-la servindo-me do suicídio, ao passo que

o meu sonho, o meu sonho... ah, o meu sonho veio revelar-me uma vida nova,

grande, maravilhosa!

Atenção.

III

DIZIA EU que me deixara adormecer sem dar por isso, parecia-me que

não fazia outra coisa senão continuar meditando acerca desses problemas. De

repente, pego no revólver – isto é, pareceu-me que pegava nele em sonhos,

que o aponto ao coração, ao coração e não à cabeça, quando afinal eu decidira

antes meter um tiro na cabeça, irrevogavelmente na cabeça, e, para melhor

precisão ainda, na fonte direita. Depois de apoiar o cano contra o peito, esperei

um segundo, apenas um segundo, e a luz, a mesa e a parede começaram de

repente a cair-me por cima e a dançar. Apertei rapidamente o gatilho.

Costumamos sonhar às vezes que nos despenhamos de uma grande

altura ou que nos matam ou nos batem, mas não sentimos nenhuma dor,

nesses casos, a menos que uma pessoa se magoe na cama: nesse caso, sim,

sentimos uma dorzinha que nos acorda. Pois foi isso mesmo o que me

aconteceu no meu sonho de então: não senti dor, mas pareceu-me que, por

causa do tiro, tudo de mim...se tinha partido e de repente se desfazia, e tudo à

minha volta ficava mergulhado numas trevas pavorosas. Quedei-me, quase

cego e mudo, e compreendi que estava estendido sobre qualquer coisa dura,

de boca para cima, e não via nada nem podia fazer o menor movimento. E a

minha volta passavam pessoas, que gritavam, ouvia a voz de baixo do capitão

e a vozinha de soprano da dona da casa, e, de repente, outra pausa... e

começam a colocar-me no caixão, e sinto como os portadores do meu ataúde

cambaleiam ao caminhar, e ponho-me a pensar nisso, e de repente tomo pela

primeira vez consciência de que estou morto, de que sou um defunto, do que

não tenho a mínima dúvida, que não vejo nem posso mover-me, se bem que,

apesar de tudo, sinta e pense. Mas não tarda que me resigne, e, como

costumamos fazer nos sonhos, aceito a realidade sem ripostar.

Mas eis que me arrojam a uma cova profunda e me enterram. Todos se

retiram e fico ali sozinho, completamente só, o que pode dizer-se

absolutamente sozinho. Dantes, quando me punha a pensar no dia em que me

enterrassem, a idéia do sepulcro estava unicamente unida a uma sensação de

umidade e de frio. E assim era também agora, eu sentia muito frio, sobretudo

nas pontas dos dedos, mas, além disso, não sentia mais nada.

Jazia no sepulcro e, coisa estranha... não esperava nada, pois aceitava

sem contradição a idéia de que um morto nada tem que esperar. Mas aquilo

estava muito úmido. Não sei, entretanto, que tempo teria decorrido: se uma

hora, se alguns ou muitos dias. Quando, de repente... me vem bater no olho

esquerdo, que tinha fechado, uma gotinha de água fria, que se tinha infiltrado

pela tampa do caixão, decorreu um minuto e uma segunda gota me salpicou,

depois uma terceira, e assim sucessivamente, sempre, de minuto em minuto.

Isso produziu-me uma contrariedade violenta, e de repente senti uma dor física

no coração. “É a ferida – pensei - , foi aí que a bala se alojou”. Mas o gotinha

continuava a cair a cada minuto e sempre exatamente no meu olho esquerdo.

E então gritei, não com a minha voz, visto que não podia fazer movimento

algum, mas com todo o meu ser, para o autor de tudo aquilo que me sucedia:

- Ó quem quer que sejas, se é que existes e que há alguma coisa de

mais razoável do que aquilo que me sucede, ordena-lhe também que imponha

aqui o seu domínio. Mas se queres castigar-me pelo meu insensato suicídio

com a insensatez de continuar a existir, fica sabendo que nada do que me

esteja reservado pode comparar-me com o desprezo que eu sentirei em

silêncio, ainda que a minha tortura e o meu martírio possam durar milhões de

anos.

Gritei assim e depois calei-me. Teria durado perto de um minuto aquele

profundo silêncio e, passado esse tempo, tornou a cair sobre o meu olho

fechado a já costumada gota, mas eu sabia, sabia de um modo infinito e

inquebrantável, que tudo iria mudar imediatamente. E eis que, de súbito, se

abre o meu sepulcro. Isto é, eu não sei ao certo se me o teriam aberto, o certo

é que um ser obscuro, e para mim desconhecido, se apoderou de mim, e

partimos ambos para os espaços interplanetários. E de repente recuperei a

vista, era noite, noite profunda, e nunca, nunca eu tinha visto obscuridade

semelhante. Atravessamos os espaços siderais, já muito longe da Terra. Não

fiz pergunta alguma ao meu condutor, esperava e sentia um orgulho imenso.

Assegurei-me de que não tinha medo e quase desfalecia de gozo ao pensar

que não o tinha. Não sei quanto tempo teríamos voado assim pelos espaços,

nem consigo imaginá-lo bem, tudo aquilo aconteceu como costumam acontecer

as coisas nos sonhos, ultrapassando as lei da razão, o espaço e o tempo, e

ficando tudo limitado àquilo que o nosso coração sonha. Lembro-me de que, de

súbito, no meio daquelas trevas divisei uma luzinha.

- Será Sírius? – perguntei-lhe contra minha vontade, pois não queria

perguntar nada.

- Não, essa é a mesma estrelinha que tu viste entre as nuvens, quando

voltavas para casa – respondeu-me o ser que me conduzia, e do qual eu sabia

somente que tinha um rosto humano. Mas, coisa estranha: aquele ser não me

era simpático e inspirava até uma profunda aversão. Eu tinha contado com o

não-ser absoluto e, partindo dessa hipótese, tinha decidido suicidar-me. E

agora me encontrava nos braços dum ser que não era, evidentemente, um ser

humano, mas que nem por isso deixava de ser uma realidade, e era-o

efetivamente.

“Portanto há uma vida depois da morte! – pensei eu com essa estranha

rapidez daquele que dorme, se bem que a essência fundamental do meu

coração conservasse em mim toda a sua profundidade. – Já que tenho de

existir outra vez e outra vez tenho de viver, por mandato de não sei que

vontade inapelável, não quero que ninguém me vença nem me humilhe!”.

- Tu sabes que eu tenho medo de ti e é por isso que me desprezas –

disse de repente para o meu condutor. Não tinha podido conter-me e tinha-lhe

feito a humilhante pergunta que trazia implícita a confissão, e sentia no meu

coração a dor do meu vexame, como uma punhalada. O ser não respondeu à

minha pergunta, mas senti subitamente que ele não me desprezava nem se ria

de mim, e que nem sequer se apiedava, e que o nosso vôo tinha uma

finalidade, uma meta desconhecida e misteriosa, e que só a mim interessava. E

o temor cresceu no meu coração. Algo emanava do meu mudo condutor, em

silêncio, mas dolorosamente, sobre mim, e me oprimia o coração.

Atravessávamos obscuras e ignoradas esferas. Havia já muito tempo que

tinham desaparecido da minha vista as constelações conhecidas. Eu sabia que

nos espaços interplanetários há astros cujos raios de luz levam milhares e até

milhões de anos a chegar à Terra. Mas é possível que tivéssemos percorrido já

distâncias ainda maiores. Eu esperava não sabia o que, e a nostalgia torturava

o meu coração. E, de súbito, surgiu em mim um sentimento conhecido, familiar,

vi o Sol! Eu sabia que não podia ser o nosso Sol, o pai da nossa Terra, o que

engendrou a nossa Terra, mas compreendi, em virtude não sei de que, com o

meu ser, que aquele Sol era um Sol absolutamente como o nosso, que era a

sua reprodução e o seu duplo. Um doce, animador sentimento encheu de

prazer a minha alma, a preciosa, corpórea força da luz que me tinha

engendrado, encontrou repercussão na minha alma e fê-la ressuscitar, e eu

senti a vida, a vida de outrora, pela primeira vez depois do meu enterro.

- Visto que existe o Sol e é um Sol completamente igual ao nosso –

exclamei -, onde está a Terra?

E o meu companheiro apontou-me uma estrelinha que despedia um

brilho esmeraldino. Voávamos precisamente por cima por cima dela.

- Como é possível existirem no Universo tais cópias? Será essa,

verdadeiramente, a lei do Universo? E, se esta é a Terra, diz-me: será uma

Terra como a nossa... uma Terra também desditada e pobre, mas não menos

apreciada e querida, que inspire o mesmo doloroso amor aos seus mais

ingratos filhos, como a nossa Terra? – exclamei, tremendo com um amor

arrebatado, audaz, irreprimível, por aquela Terra sagrada, a lôbrega e

enxovalhada Terra que acabava de abandonar. E a figurinha da pequenina, que

eu espantara com um grito, surgiu instantaneamente na minha memória.

- Hás de ver com os teus próprios olhos – respondeu o meu

companheiro, e uma tristeza vibrava na sua voz.

Aproximávamo-nos velozmente do planeta. Este agigantava-se diante

dos meus olhos, e eu podia já distinguir os oceanos, perceber depois os

contornos da Europa, e, de repente, acordou no meu coração uma grande e

sagrada inveja.

- Como poderia existir uma cópia, e qual a finalidade da sua existência?

Eu amo e só posso amar essa Terra que acabo de deixar, na qual perduram

ainda as gotas daquele sangue, que ingrato!, derramei ao desprender-me da

vida. Mas nunca, nunca deixei de amar a nossa Terra, e talvez até aquela noite

em que a abandonei tivesse sido o momento em que a amei mais apaixonada

e dolorosamente! Existe também a dor nesta nova Terra? Será que, na nossa,

só podemos viver com a dor ou graças a ela? Não sabemos amar de outro

modo nem conhecemos outro amor. Eu quero dor para poder amar. Quero, sim,

neste momento apenas anseio por poder beijar, banhado em lágrimas, a Terra

que abandonei! E não quero, não aceito nenhuma outra vida senão a da nossa

Terra!

Mas o meu companheiro já me tinha deixado. Tinha chegado, sem me

ter apercebido, àquela outra Terra, à clara luz solar de um dia de paradisíaca

beleza. Creio que me encontrava numa daquelas ilhas que formam o

arquipélago helênico, se não era, porventura, algum ponto da costa que ali

circunda o mar Egeu. Oh! Era tudo tal como entre nós, simplesmente tudo

parecia encontrar-se numa disposição firme e resplandecer numa grande

vitória, santa e finalmente conquistada. O mar suave, de um azul-escuro, batia

suavemente contra o litoral e cingia-se contra ele com um imenso, visível e

quase inconsciente amor. As árvores sombrias apareciam em todo o esplendor

da floração, e estou convencido de que as suas folhas inumeráveis me davam

as boas-vindas com o seu leve e amistoso sussurro, murmurando-me

ignoradas palavras de amor. A relva ostentava uma verdura muito fresca e

brilhante; os pássaros cruzavam em bandos pelo ar, e os passarinhos

pousavam-me, sem ponta de medo, nos ombros e nos braços, e davam-me

alegres pancadinhas com as suas asinhas trêmulas, e, finalmente, eu olhava e

reconhecia também os homens daquela Terra feliz. As pessoas chegavam-se a

mim espontaneamente; rodeavam-me e davam-me beijos. Eram filhos do Sol,

filhos do seu Sol... Oh, e como eram bonitos! Nunca eu vi na nossa Terra

homens tão belos. Quando muito poderemos encontrar nas crianças, nos seus

mais tenros anos, um reflexo fraco e longínquo de semelhante formosura.

Esses homens felizes tinham rostos claros e cheios de luz. No seu rosto

transparecia a inteligência e um saber que, permita-se a expressão, parecia

completo até à tranqüilidade, e, no entanto, esses rostos respiravam um

alvoroço especial; tanto as palavras como a voz desses homens

demonstravam uma alegria pueril. Oh, ao primeiro olhar que pousei naqueles

rostos, compreendi logo tudo, tudo! Aquela era a Terra, a Terra não manchada

pelo pecado original, na qual viviam homens que não tinham pecado, e viviam

num Paraíso idêntico àquele em que, segundo todas as tradições da

Humanidade, viveram os nossos primeiros pais antes da “queda”, sem a

mínima diferença, a não ser que a Terra toda era, por todo lado, um só Paraíso.

Aqueles homens aproximavam-se de mim com afetuosidade, sorriam-me e

acariciavam-me; conduziam-me ao seu lar e todos se esforçavam, à porfia, por

me tranqüilizarem. Oh!, não me faziam pergunta alguma; pareciam saber de

tudo, e só ansiavam por afugentar, o mais depressa possível do meu rosto,

todo vestígio de dor.

IV

AGORA VEJAM: admitamos que tudo isso foi apenas um sonho. Mas a

sensação de amor, que aqueles homens belos e inocentes me demonstraram,

perdura em mim através do tempo, e eu sinto como esse amor, já distante,

tomba sobre mim. Vi-os, conheci-os, amei-os, e, mais tarde, sofri por eles. Oh!

compreendo, e compreendi-o desde o primeiro instante, que eu não poderia

entende-los em muitas coisas; parecia-me incompreensível, como parece aos

progressistas russos contemporâneos e aos maus petersburgueses, o fato de,

sabendo eles tanto como sabiam, não possuírem a nossa ciência. Mas não

tardei a comprovar que a sua ciência se nutria de conhecimentos diferentes

dos da Terra, e que as suas preocupações eram também de outra índole. Não

tinham desejos; estavam tranqüilos e contentes; não aspiravam, tanto como

nós, a conhecer a vida, pois a sua vida estava completamente preenchida. Mas

o seu saber era mais fundo e elevado que a nossa ciência, porque a nossa

ciência procura explicar a vida, pretende ser ela mesma a cimentá-la, para

mostrar aos homens como devem viver, e isto compreendi-o eu, ao passo que

eles já sabem como hão de viver, e isto percebo eu, ainda que não possa

compreender a sua ciência. Mostravam-me eles as suas árvores, mas eu não

podia sentir do mesmo modo que eles a grandeza do amor com que

contemplavam: tal como se as tais árvores fossem homens. E vejam: pode ser

que não me engane ao dizer que até falavam com elas. Sim, conheciam a sua

língua e estou convencido de que as árvores os entendiam. E olhavam da

mesma maneira todo o resto da Natureza e os animais que pacificamente

viviam com eles, e, longe de atacá-los, amavam-nos, vencidos pelo seu amor.

Apontavam para os outros e diziam-me qualquer coisa que eu não

compreendia; mas estou convencido de que estavam em relações com as

estrelas do Céu, não por meio do pensamento, mas de outro modo. Oh!,

aqueles homens não se esforçavam para que eu os compreendesse; amavam-

se sem necessidade disso; mas, além disso, eu sabia que tampouco eles me

compreenderiam jamais, e por isso nunca lhes falei da nossa Terra. Limitava-

me a beijar diante deles a Terra em que viviam, e a adorá-la, e eles viam isto e

deixavam que eu o fizesse, sem dizerem nada, sem se envergonharem de que

eu a amasse ao mesmo tempo que eles. Não sofriam por minha causa,

quando, arrasado em pranto, lhes beijava os pés, pois sabia o amor com que

me o pagavam. Às vezes perguntava a mim próprio, admirado: como poderiam

eles ofender, uma vez que fosse, um homem como eu, ou como poderiam

suscitar tampouco em mim um sentimento de inveja ou de ciúme? Às vezes

perguntava também a mim próprio como é que eu, como se fosse um

embusteiro e enganador, não lhes comunicava alguns dos meus

conhecimentos, de que, naturalmente, não tinham a menor idéia, para faze-los

cair no espanto, ou simplesmente por amor deles... Eram bonacheirões e

joviais como crianças. Vagueavam por entre os seus bosquezinhos magníficos

e floridas pradarias, entoando lindas canções, e sustentavam-se dos frutos das

árvores e do leite dos animais que os acompanhavam. Preocupavam-se

pouquíssimo com a alimentação e com o vestuário. O amor existia também

entre eles e geravam filhos; mas nunca verifiquei que fossem vítimas desses

arrebatamentos de cruel lascívia, que se apoderam de quase todos os homens

desta nossa Terra, de todos, sem exceção de nenhum, e que constitui a única

origem de quase todos os pecados da nossa humanidade. Alegravam-se com

os recém-nascidos, como novos co-participantes da sua felicidade. Não

conheciam nem a luta nem a inveja, e nem sequer sabiam o que isso fosse. Os

filhos dos outros eram também seus filhos, pois formavam todos uma só

família. Quase não tinham doenças, contando com a morte; e os seus velhos

extinguiam-se suavemente, como se dormissem, rodeados dos seres queridos,

deitando bênçãos, sorrindo e acompanhados pelos seus olhares claros e

alegres.

Nunca vi dor nem lágrimas à cabeceira dum moribundo, mas um amor

exaltado até ao êxtase, até um fervor tranqüilo e puro. Poder-se-ia quase

acreditar que até depois da morte continuavam em comunicação com os seus

mortos, e que ela não interrompia a sua vida terrena. Mal me compreendiam

quando eu os interrogava acerca da vida eterna; mas, pelos vistos, estavam

tão convencidos da sua existência que nem por um momento se lembravam de

pô-la em dúvida. Não tinham templos, mas mantinham-se numa identificação

vital com o Todo; não professavam crença alguma, mas possuíam a convicção

de que, quando as suas alegrias terrenas tivessem alcançado os limites da

natureza terrena, viria para todos eles, tanto para os vivos como para os

mortos, um mais íntimo contato com o Todo. Aguardavam alegremente esse

momento, mas não ansiavam por que chegasse nem sofriam por causa disso,

tinham já como que o seu gozo antecipado na sua alma, e comunicavam-no

entre si uns aos outros. À noite, antes de adormecerem, cantavam em coros

harmoniosos. Exprimiam nessas canções vespertinas os sentimentos que

experimentavam durante o dia, e gabavam e estimavam o dia que tinha

passado, despedindo-se dele. Louvavam a Natureza, a Terra, o mar e os

bosques. Louvavam-se e elogiavam-se mutuamente nas suas canções, da

mesma maneira que se louvam as crianças; as suas canções eram singelas,

mas punham nelas o seu coração e aos corações elas chegavam. E não só

nas suas canções, mas na sua vida toda, não faziam outra coisa senão

amarem-se uns aos outros. Era, na verdade, uma vida de amor recíproco, uma

vida grande, universal amor. Mas alguns dos seus cânticos, que tinham uma

expressão triunfal e inspirada, não consegui compreende-los. Por mais que

entendesse a sua letra, não podia penetrar todo o seu sentido. Eram

intangíveis para a minha razão, ainda que cada vez penetrassem mais fundo

no meu coração, sem que eu pudesse aperceber-me do que se passava.

Costumava dizer-lhes que já anteriormente eu tinha adivinhado tudo aquilo;

que já na nossa Terra o pressentimento de toda aquela aventura, daquele

jubiloso cântico de louvor, me tinha feito experimentar um entusiasmo estéril e

às vezes excessivo; que tudo aquilo eu o tinha visto já nos sonhos da minha

alma e nos meus sentidos; que lá longe, na nossa Terra, por mais de uma vez

me arrancara lágrimas o pôr do Sol; que sempre tinha havido dor no meu ódio

aos homens da nossa Terra. Por que não podia eu odiá-los, visto que não os

amava; por que não podia perdoar-lhes, por que me fazia sofrer amá-los, por

que podia amá-los odiando? Eles me escutavam, e eu via claramente que não

podiam imaginar nada disto, mas não me arrependia de ter-lhes falado nessas

coisas; sabia que eles compreendiam todo o poder da minha nostalgia por

aqueles a quem tinha abandonado. Sim, quando eu sentia pousar-se em mim o

seu diáfano e aprazível olhar, trespassado de amor, sentia como entre eles

também o meu coração se tornava puro e inocente como o seu, não lamentava

não poder entende-los. Faltava-me o alento, por sentir tão intensamente a

plenitude da vida, e ficava em silêncio adorando-os.

Oh! toda a gente se ri agora na minha cara e me afirma que não pode

ver-se nada semelhante ao que estou descrevendo; que, no meu sonho, mais

não fiz do que experimentar um sentimento elaborado pelo meu próprio

coração e que todos esses pormenores os devia ter arquitetado depois, já

desperto. E quando concordei e disse que podia ser que tivessem razão... sabe

Deus as gargalhadas, a hilaridade que as minhas palavras provocavam.

Naturalmente, eu estava apenas dominado pelo sentimento do sonho, e só

este único sentimento perdurava no meu coração, que sangrava. Mas, além

disso, as visões e as figuras reais do meu sonho, isto é, aquelas que eu vira

precisamente durante a hora do meu sonho, conservavam entre si tal

harmonia, eram tão perfeitas, tão encantadoras, sedutoras e belas, que, ao

acordar, como é natural, não era capaz de tornar a dar-lhes vida na nossa

pobre linguagem. Por isso tiveram, naturalmente, que empalidecer na minha

consciência e desvanecerem-se, e talvez por isso me sentisse realmente

obrigado a imaginar depois inconscientemente os pormenores, aos quais teria

encomendado decididamente a missão de reproduzir, dado o meu apaixonado

desejo, que era, de certo modo pelo menos, o sentimento principal. Mas, no

entanto, por que não acreditar que tudo foi real? Pode ser que fosse mil vezes

melhor, mais radiante e belo do que eu descrevo. Pode ser que fosse um

sonho, mas não é possível que o fosse completamente. Olhem, vou confiar-

lhes um segredo: talvez tudo isso nem sequer de longe fosse um sonho. Pois

sucedeu nisto algo do gênero, algo tão real até à saturação, que uma pessoa

nem sequer teria podido sonha-lo! Pode ser que fosse a minha alma que

engendrasse esse sonho; mas como poderia ela ter engendrado sozinha essa

terrível verdade que eu senti mais tarde? Como teria podido eu imagina-la ou

sonha-la o meu coração sozinho? Seria possível que o meu insignificante

coraçãozinho e a minha humilde e caprichosa razão tivessem podido ascender

a semelhante revelação da verdade? Oh!, julguem os senhores por si mesmos;

até este momento não falei no caso, mas agora vou dizer a verdade toda.

A conclusão foi eu ter.... estragado tudo aquilo.

V

SIM, SIM; a conclusão foi eu ter estragado tudo. Como isso foi... é que

eu não sei. Já não me lembro como é que sucedeu. O sonho durou milhares de

anos e apenas me deixou uma impressão de conjunto... Só me lembro de que

a queda do pecado original fui eu. Como uma espantosa trinquina, qual

pestífero bacilo que devasta a Terra, assim devastei eu toda aquela Terra

inocente e feliz. Aqueles homens aprenderam a mentir, tomaram gosto à

mentira e reconheceram como eram belos. Oh!, pode ser que, a princípio, o

fizessem inocentemente, por puro jogo, por diversão, que apenas se tratasse

de um bacilo; mas este átomo de mentira enraizou-se nos seus corações e foi

do seu agrado. Não tardou que dele derivassem a voluptuosidade, e esta

voluptuosidade engendrou a inveja, e esta, a crueldade. Oh!, não sei, não me

lembro já como, mas não tardou que se vertesse a primeira gota de sangue; a

princípio apenas sentiram espanto; mas depois assustaram-se e começaram a

afastar-se uns dos outros. Vieram as censuras e as incriminações.

Conheceram a vergonha e erigiram-na em virtude. Surgiu o conceito da honra

e cada bando se uniu à sombra da sua bandeira. Começaram a torturar os

animais, e os animais afastaram-se deles, foram ocultar-se nos bosques e

tornaram-se seus inimigos. Iniciou-se a luta pela separação, pela

particularização, pela personalidade, pelo “teu” e pelo “meu”. Começaram a

falar várias línguas. Conheceram a dor e tomaram-lhe o gosto; ansiavam pelo

sofrimento e diziam que a verdade só se comprava pelo preço do martírio.

Depois surgiu a ciência. Como se tinham tornado maus, deram em falar de

fraternidade e de humanidade, e compreendiam estas idéias. Como se tinham

tornado criminosos, inventaram a justiça e redigiram códigos para a encerrarem

neles, e, para assegurar o cumprimento desses códigos, ergueram a guilhotina.

Mal se recordavam daquilo que tinham perdido e não queriam acreditar que

alguma vez tivessem sido inocentes e felizes. Riam-se até da possibilidade

dessa sua felicidade passada e tachavam-na de sonho fantástico. Nem sequer

podiam fazer uma idéia desse estado, e acontecia, além disso, uma coisa

estranha: agora que tinham perdido toda a fé na felicidade pretérita e a

classificavam de fantasia, empenhavam-se a tal ponto a voltar a ser inocentes

e felizes que se ajoelhavam como crianças ante os desejos dos seus corações;

adoravam esses desejos, erguiam-lhes templos e oravam à sua própria idéia,

ao seu próprio “querer”, ao mesmo tempo que continuavam a acreditar, com

uma convicção inabalável, na possibilidade de cumprirem e realizar essa idéia,

apenas de implorarem por ela de joelhos. E, no entanto... se pudesse ter-se

dado o caso de voltarem outra vez àquele inocente e venturoso estado que

perderam; se alguém os tivesse consultado, perguntando-lhes: “Quereis voltar

a ele?”, ter-lhes-iam respondido resolutamente que não. A mim diziam-me:

“Bom, seremos mentirosos, maus e injustos; sabemo-lo e lamentamo-lo, e essa

é a nossa tortura, e talvez por isso nos atormentemos e castiguemos mais do

que faria esse Juiz misericordioso que há de julgar-nos no futuro, mas cujo

nome nos é desconhecido. Mas, em compensação, possuímos a ciência, e

graças a ela havemos de tornar a encontrar a verdade, e então aceitá-la-emos

já com consciência. O saber está acima do sentimento; o conhecimento da

vida... acima da própria vida. A ciência far-nos-á oniscientes; a onisciência

conhece todas as leis, e o conhecimento da lei da felicidade.... está acima da

própria felicidade.” Eram assim que eles me falavam, e, a avaliar por tais

palavras, cada um deles se tornaram mais apreciador de si mesmo que dos

outros; se tinha valorizado a si mesmo mais de que tudo no mundo; sim... e

não poderia ter sido de outro modo. Tornaram-se todos tão ciosos do seu eu

que cada um se afanava por rebaixar, oprimir e diminuir o eu do próximo, por

todos os meios possíveis, e só nisto se resumia a sua vida. Desenvolveu-se a

escravatura e surgiram até escravos voluntários; os fracos submeteram-se com

gosto aos mais fortes, mas com a condição de que estes os ajudassem a

subjugar os mais fracos do que eles. Surgiram entre eles profetas que lhes

falavam do seu orgulho chorando, da perda da medida e da harmonia do

sentimento do pudor. Mas eles riam-se e troçavam desses profetas e

acabavam por lapidá-los. Sangue sagrado correu sobre os umbrais do templo.

Mas também havia homens que começaram a discutir a maneira de voltar a

uni-los a todos, sem que deixassem, entretanto, de querer a si mesmos mais

que a ninguém, nem prejudicar aos outros, para que todos tornassem, assim, a

viver em comum, formando uma só amistosa e concorde sociedade. Esta idéia

foi, entre eles, causa de grandes guerras. Todos os beligerantes acreditavam

ao mesmo tempo que a ciência, a onisciência e o instinto da própria

conservação obrigariam finalmente os homens a unirem-se numa sociedade

razoável e cordata, para o que, no entanto, se esforçavam os “oniscientes”, a

fim de acelerar as coisas, por exterminar todos os não oniscientes e a quantos

não compreendiam a sua idéia, a fim de que não fossem um obstáculo para o

seu triunfo. Mas não tardou que diminuísse o sentimento geral da própria

conservação e surgissem voluptuosos e soberbos que proclamavam

abertamente que desejavam tudo ou nada. Registraram-se proezas de todo

gênero, e, quando não conseguiam nada com elas... restava o recurso do

suicídio. Houve religiões consagradas ao culto do não-ser e do próprio

aniquilamento, em honra do eterno repouso em o nada. Até que, por fim,

aqueles homens se cansaram dos seus absurdos esforços e nos seus rostos

se refletiu a dor, e proclamaram: a dor é beleza, pois só a dor tem sentido. E

cantaram a dor nos seus poemas. Eu andava numa agitação entre eles, torcia

as mãos e chorava; mas amava-os, no entanto, e talvez mais do que antes,

quando no seu rosto não assomava ainda nenhuma dor e eram belos e

inocentes. A Terra por eles manchada parecia-me então mais valiosa do que

antes, quando era um paraíso, e isso apenas porque nela aparecera a dor. Oh,

eu sempre amei a dor e a tristeza, mas só para mim, só para mim! Mas, como

agora sofriam eles também, chorava de compaixão. Estendia-lhes as minhas

mãos e, no meu desespero, acusava-me, amaldiçoava-me e desprezava-me a

mim próprio. Dizia-lhes que tudo aquilo era obra minha; que eu, apenas eu e

mais ninguém, é que tinha a culpa de tudo. Que eu lhes tinha levado a

corrupção, a peste e a mentira. Pedia-lhes que me crucificassem, ensinava-

lhes a armar uma cruz e a levanta-la. Eu não me podia matar a mim mesmo;

não tinha coragem para faze-lo; mas queria sofrer o tormento pelas mãos,

suspirava por derramar o meu sangue até à última gota no suplício. Mas eles

não faziam mais do que rir-se de mim, acabando por dizer que eu era um doido

acabado. Até me defendiam, dizendo que não tinham, agora, mais do que

aquilo que tinham desejado, e que tudo isso acontecera porque tinha,

fatalmente, de acontecer. E por fim declararam que eu constituía um perigo

para eles, e que, portanto, tinham resolvido encerrar-me num manicômio, se

não desistisse das minhas prédicas. Quando os ouvi dizer isto, foi tão grande a

dor que me trespassou a alma que o meu coração se confrangeu e eu me senti

morrer, e... foi então que despertei do meu sonho.

*

Era já manhã; o sol ainda não se tinha erguido, eram seis da manhã.

Acordei na minha poltrona; a luz tinha-se extinguido completamente; no quarto

contíguo dormiam o capitão e a sua gente, e na casa reinava um estranho

silêncio. A princípio estremeci, assombrado; nunca me tinha acontecido nada

de semelhante; até as coisas pequenas me impressionavam; por exemplo,

jamais adormecera dessa maneira, na poltrona. E depois... enquanto me punha

de pé e acabava de despertar, fixei de repente a vista no revólver, no revólver

carregado, mas no mesmo instante atirei-o para longe. Oh, vida, grande e

sagrada vida! Abri os braços e invoquei a verdade eterna; soluçava;

entusiasmo, um entusiasmo incomensurável enchia todo o meu ser. Sim, vida e

... anunciação! A anunciação ficou decidida para mim naquele mesmo

instante... decidida para toda a minha vida. Irei, irei e anunciarei! O que?... A

verdade, uma vez que a vi, que a vi com meus próprios olhos, e reconheci toda

a sua magnificência!

E desde então anuncio a boa nova!... Amo-os a todos, e, mais que a

ninguém, aqueles que se riem de mim. Por que amo mais a estes? Não sei,

nem tampouco posso explica-lo, mas é assim. Dizem que estou enganado...

Mas, se agora estou enganado, como será mais para diante? Sim, é provável

que tenham razão; estou enganado e quanto mais estiver, talvez seja pior.

Provavelmente ainda incorrerei em erro com freqüência, até aprender como é

que se deve predicar, isto é, com que palavras e com que atos, pois é difícil

sabe-lo. Agora já é para mim tão claro como a luz; mas escutem uma coisa:

quem é que não erra? E, no entanto, todos se afadigam por um mesmo objeto;

todos, desde o sábio ao último criminoso, simplesmente procedem de maneira

diversa. É esta uma verdade já velha; mas eis aqui outra nova: eu não posso

enganar-me, assim, tanto. Pois eu vi a verdade, sei-o; os homens podem

tornar-se belos e felizes sem que, para isso, tenham de deixar de viver na

Terra. Eu não quero nem posso crer que a maldade seja o estado normal do

homem. Mas eles troçam desta minha crença. Não acreditam em mim! Eu vi a

verdade! Não que a tenha descoberto com a minha inteligência, não: vi-a, o

que se chama ver, e o seu rosto vivo preencheu a minha alma para toda a

eternidade. Vi-a numa integridade tão completa que... como poderia acreditar

agora que essa verdade não possa existir também entre os homens? E como,

como poderia eu estar enganado? Talvez ande um pouco desorientado, é

possível também que empregue palavras estranhas mas isso não deve durar

muito; a imagem viva do que vi viverá em mim eternamente e servir-me-á de

norte e de guia. Oh!, eu estou muito contente e esperançado, e não me

cansarei de andar, ainda que peregrine durante mil anos. Olhem: a princípio,

queria esconder de vós que tinha sido o causador da sua perdição; mas isso

teria sido falta da minha parte... pois assim tínhamos já a primeira culpa. Mas a

verdade dizia-me ao ouvido que eu mentia, salvava-me do erro e dirigiu-me

para o caminho reto. Mas não consegui saber como é que alcançaram o

Paraíso, pois não consigo exprimi-lo por palavras. Perdi as palavras no sonho.

Pelo menos todas as palavras necessárias, as mais precisas. Mas isso não

importa; eu caminharei por esses mundos e anunciarei a boa nova, uma vez

que vi com os meus próprios olhos, ainda que não possa exprimir o que vi. Mas

é isto precisamente que não podem compreender os trocistas. “Teve um sonho,

como ele próprio diz; um delírio febril, uma alucinação.” Ah! Isso é sensato? E

ficam todos inchados. Um sonho? Mas que é um sonho? Não será a nossa

vida um sonho? Esperem, que vou dizer-vos ainda mais. Bem, admitamos que

isso nunca venha a realizar-se e que este paraíso não chegue nunca a ser uma

realidade (eu próprio admito isto!); bem, pois, apesar de tudo, continuarei

anunciando a boa nova. E, no entanto, como isso seria simples! Num dia, numa

só hora, tudo mudaria. Ama a Humanidade como a ti mesmo! Isto é tudo; isto é

tudo e nada mais é preciso; saberás depois como hás de viver. E, além disso,

só há uma verdade... uma verdade antiga, antiqüíssima, mas que é preciso

repetir uma e mil vezes, e que até agora não se arraigou nos nossos corações.

O conhecimento da vida está acima da vida; o conhecimento da lei da

felicidade... está acima da própria felicidade... Eis aí aquilo contra que se deve

lutar. E eu lutarei contra isso! Se todos quisessem, tudo mudaria sobre a Terra

num momento.

Mas ando ainda à procura daquela jovenzinha... E continuo, continuo....

FIM