O Teatro de Abílio Pereira de Almeida por Abílio Pereira de Almeida - Versão HTML

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O Teatro de

Abílio Pereira de Almeida

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O Teatro de

Abílio Pereira de Almeida

Paiol Velho

Santa Marta Fabril

... em moeda corrente do país

Introdução de Ceiça Campos

São Paulo, 2009

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Governador José Serra

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente Hubert Alquéres

Coleção Aplauso

Coordenador Geral Rubens Ewald Filho

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Apresentação

Segundo o catalão Gaudí, Não se deve erguer

monumentos aos artistas porque eles já o fize-

ram com suas obras. De fato, muitos artistas são

imortalizados e reverenciados diariamente por

meio de suas obras eternas.

Mas como reconhecer o trabalho de artistas

ge niais de outrora, que para exercer seu ofício

muniram-se simplesmente de suas próprias emo-

ções, de seu próprio corpo? Como manter vivo o

nome daqueles que se dedicaram à mais volátil

das artes, escrevendo, dirigindo e interpretan-

do obras-primas, que têm a efêmera duração

de um ato?

Mesmo artistas da TV pós-videoteipe seguem

esquecidos, quando os registros de seu trabalho

ou se perderam ou são muitas vezes inacessíveis

ao grande público.

A Coleção Aplauso, de iniciativa da Imprensa

Oficial, pretende resgatar um pouco da memória

de figuras do Teatro, TV e Cinema que tiveram

participação na história recente do País, tanto

dentro quanto fora de cena.

Ao contar suas histórias pessoais, esses artistas

dão-nos a conhecer o meio em que vivia toda

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uma classe que representa a consciência crítica

da sociedade. Suas histórias tratam do contexto

social no qual estavam inseridos e seu inevitá-

vel reflexo na arte. Falam do seu engajamento

político em épocas adversas à livre expressão e

as consequências disso em suas próprias vidas e

no destino da nação.

Paralelamente, as histórias de seus familiares

se en tre la çam, quase que invariavelmente, à

saga dos milhares de imigrantes do começo

do século pas sado no Brasil, vindos das mais va-

riadas origens. En fim, o mosaico formado pelos

depoimentos com põe um quadro que reflete a

identidade e a imagem nacional, bem como o

processo político e cultural pelo qual passou o

país nas últimas décadas.

Ao perpetuar a voz daqueles que já foram a pró-

pria voz da sociedade, a Coleção Aplauso cumpre

um dever de gratidão a esses grandes símbo-

los da cultura nacional. Publicar suas histórias

e personagens, trazendo-os de volta à cena,

também cumpre função social, pois garante a

preservação de parte de uma memória artística

genuinamente brasileira, e constitui mais que

justa homenagem àqueles que merecem ser

aplaudidos de pé.

José Serra

Governador do Estado de São Paulo

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Coleção Aplauso

O que lembro, tenho.

Guimarães Rosa

A Coleção Aplaus o, concebida pela Imprensa

Ofi cial, visa resgatar a memória da cultura

nacio nal, biografando atores, atrizes e diretores

que compõem a cena brasileira nas áreas de

cine ma, teatro e televisão. Foram selecionados

escritores com largo currículo em jornalismo

cultural para esse trabalho em que a história

cênica e audiovisual brasileiras vem sendo

reconstituída de ma nei ra singular. Em entrevistas

e encontros sucessivos estreita-se o contato en tre

biógrafos e bio gra fados. Arquivos de documentos

e imagens são pesquisados, e o universo que se

recons titui a partir do cotidiano e do fazer dessas

personalidades permite reconstruir sua trajetória.

A decisão sobre o depoimento de cada um na pri-

meira pessoa mantém o aspecto de tradição oral

dos relatos, tornando o texto coloquial, como se

o biografado falasse diretamente ao leitor .

Um aspecto importante da Coleção é que os resul -

ta dos obtidos ultrapassam simples registros bio-

grá ficos, revelando ao leitor facetas que também

caracterizam o artista e seu ofício. Bió grafo e bio-

gra fado se colocaram em reflexões que se esten-

de ram sobre a formação intelectual e ideo ló gica

do artista, contex tua li zada na história brasileira.

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São inúmeros os artistas a apontar o importante

papel que tiveram os livros e a leitura em sua

vida, deixando transparecer a firmeza do pen-

samento crítico ou denunciando preconceitos

seculares que atrasaram e continuam atrasando

nosso país. Muitos mostraram a importância para

a sua formação terem atua do tanto no teatro

quanto no cinema e na televisão, adquirindo,

linguagens diferenciadas – analisando-as com

suas particularidades.

Muitos títulos exploram o universo íntimo e

psicológico do artista, revelando as circunstâncias

que o conduziram à arte, como se abrigasse

em si mesmo desde sempre, a complexidade

dos personagens.

São livros que, além de atrair o grande público,

inte ressarão igualmente aos estudiosos das artes

cênicas, pois na Coleção Aplauso foi discutido

o processo de criação que concerne ao teatro,

ao cinema e à televisão. Foram abordadas a

construção dos personagens, a análise, a história,

a importância e a atua lidade de alguns deles.

Também foram exami nados o relacionamento dos

artistas com seus pares e diretores, os processos e

as possibilidades de correção de erros no exercício

do teatro e do cinema, a diferença entre esses

veículos e a expressão de suas linguagens.

Se algum fator específico conduziu ao sucesso

da Coleção Aplauso – e merece ser destacado –,

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é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o

percurso cultural de seu país.

À Imprensa Oficial e sua equipe coube reunir

um bom time de jornalistas, organizar com efi-

cácia a pesquisa documental e iconográfica e

contar com a disposição e o empenho dos artis-

tas, diretores, dramaturgos e roteiristas. Com a

Coleção em curso, configurada e com identida-

de consolidada, constatamos que os sorti légios

que envolvem palco, cenas, coxias, sets de filma-

gem, textos, imagens e palavras conjugados, e

todos esses seres especiais – que neste universo

transi tam, transmutam e vivem – também nos

tomaram e sensibilizaram.

É esse material cultural e de reflexão que pode

ser agora compartilhado com os leitores de

to do o Brasil.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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Paiol Velho

estréia 10 de janeiro de 1951

Santa Marta Fabril S.A.

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estréia 2 de março de 1955

... em moeda corrente do país

estréia 16 de dezembro de 1960

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Abílio Pereira de Almeida

O advogado doutor Olegário de Almeida já tinha

percorrido as cidades vizinhas a Tatuí, sua cida de

natal, e já era um profissional conhecido quando

resolveu estabelecer em definitivo sua banca de

advogado em São Paulo e mudar-se com sua

família: a mulher, dona Maria da Conceição, e

seus seis filhos (quatro homens e duas mulheres),

ainda crianças.

Foi nesse momento da vida familiar que, num

dia 26 de fevereiro, uma terça-feira de carnaval,

na antiga Travessa do Quartel, atualmente Rua

13

Felipe de Oliveira, numa casa onde se ergue hoje

o Palácio da Justiça, em frente à Praça Clóvis

Bevilacqua, nasceu o sétimo filho do casal, que

recebeu, na pia batismal, o nome de Abílio.

Alfabetização no Colégio Stafford, primário na

Escola-Modelo Caetano de Campos (como todos

os irmãos), secundário no Colégio São Luiz, no

qual teve sua primeira experiência teatral num

espetáculo de encerramento de ano letivo. Infân-

cia e juventude transcorrendo normalmente,

co mo qualquer outra dentro de uma família de

clas se média alta no início do século XX, nos mol-

des dos tradicionais troncos paulistas.

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Nas reuniões familiares, era quase sempre o

centro das atrações: suas primas e amigas lhe

pediam, invariavelmente, que dissesse coisas

engraçadas. Esse era o Abílio das reuniões fami-

liares: brincalhão, alegre, cheio de charme.

A vocação para o palco e as luzes se fez notar

logo cedo, ainda criança, uma vez que brincava

de teatro com sua irmã, Tuca, apenas dois anos

mais velha, mas grande companheira: ele escrevia

as histórias, ela fazia as roupas dos bonecos e eles

se divertiam encenando as pecinhas.

Chegada a hora do curso superior para terminar a

educação, Abílio optou pela advocacia. Influência

14

do pai? Seria compreensível em qualquer filho,

mas não num espírito independente e pronto

para contestar, como era Abílio. No primeiro

vestibular prestado na Faculdade de Direito do

Largo de São Francisco, uma surpresa: foi repro-

vado! Nova tentativa no ano seguinte e aí sim:

passou a ser um acadêmico. Antes de terminar

o segundo ano de Direito, sentou praça no 2°

Batalhão do Quinto Regimento de Infantaria,

sediado em Pindamonhangaba. Nessa cidade,

acabou fundando um clube acadêmico (uma vez

que era praticamente uma cidade universitária,

pois lá funcionavam uma escola normal e uma

escola de Farmácia e Odontologia, frequentada

por jovens de todo o interior paulista); também

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fundou um jornalzinho chamado O Martelo, do

qual era o editor-chefe. Para esse jornal escrevia

o artigo de fundo e a coluna social, a Dizque-

dizque, tendo sido seus comentários e fofocas

talvez os precursores de Ibrahim Sued e outros

jornalistas do mesmo ramo.

Ainda merece menção o curso de sargentos

aviadores feito na Escola de Aviação Militar que

se situava em Marechal Hermes, Campo dos

Afonsos, subúrbio do Rio de Janeiro, por ter sido

classificado em primeiro lugar desde o ingresso

até a formatura.

Participou ativamente, como tantos jovens que

15

acreditavam nos ideais de liberdade, ordem e

justiça, da Revolução Constitucionalista de 1932,

engajado na Aeronáutica. Voavam nos primeiros

modelos de avião, de dois lugares, de onde se

jogavam as bombas com as mãos.

Reiniciou seu curso de Direito quando se des-

ligou do exército. Formou-se com a turma de

1932 e são suas as palavras a respeito: Formei-

me pela Faculdade de Direito de São Paulo, do

Largo de São Francisco, colando grau em 5 de

Janeiro de 1933. Pertenci à gloriosa turma de

1932, sacrário da Revolução Constitucionalista.

Curso interrompido (...) se tudo corresse bem,

ter-me-ia diplomado em 1929. Ainda bem que

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escapei da turma de 1930, a da revolução do ano

porque, em virtude da dita cuja, todo mundo foi

aprovado por decreto e os respectivos bacharéis

receberam o cognome, felizmente já esquecido,

de bacharéis decretinos.

Abílio advogou muito no interior do Estado e

teve boas causas, principalmente em Araçatuba,

período que durou mais ou menos dois anos e

no qual ganhou muito dinheiro, que acabou

deixando nas mesas de jogo do Jockey Clube.

Advogou durante 20 anos, tendo sido um bom

profissional. Deixou a profissão apenas quando

os interesses e o tempo gastos com a Vera Cruz

16

o impediam de continuar.

Como advogado foi o responsável pela elabo-

ração do contrato de constituição das empresas

Teatro Brasileiro de Comédia e Companhia Cine-

matográfica Vera Cruz.

No seu entender, era eficiente, ganhou muitas

causas, mas nunca foi um jurista, tendo sido ape-

nas um prático.

O livro de sua autoria Prática Jurídico-comercial

mereceu 14 edições pela Companhia Editora

Nacio nal e, diz ele, era realmente bom, continha

tudo de que o advogado precisava e, principal-

mente, ajudava o aluno a colar nas provas.

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Seu escritório, que tinha seu pai, doutor Olegá-

rio de Almeida como fundador, foi instalado

primeiramente na Rua Senador Queirós, tendo

se mudado posteriormente para a Rua José

Bonifácio, 234, no centro de São Paulo, bem

perto da Faculdade e do Fórum, na Praça Clóvis

Bevilacqua, lugares habitualmente frequentados

pelos advogados.

A Escola de Comércio Álvares Penteado contou

com a colaboração de Abílio durante algum tem po

como professor de Técnica Jurídico-Comercial.

Foi responsável pela edição da Revista Judiciária

(publicação segmentada que circulou durante

17

quatro anos) e teve colaboradores como: Sílvio

Rodri gues, Plínio Barretto, Alexandre Correia e

Jorge Americano. Também foi juiz do Tribunal

de Impostos e Taxas de São Paulo no período

compreendido entre 1938 e 1939.

Sua biblioteca especializada era uma das melho-

res do ramo.

Um dia, porém, precisou de dinheiro e acabou

por vendê-la.

A respeito de si mesmo, como advogado, diz

Abílio: Muito circunstancialmente, eu era um

advogado, frequentava as tardes da Livraria Ja-

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raguá, que era o ponto de encontro da fina flor

da intelectualidade de São Paulo. Mas eu não

me colocava no meio dos intelectuais, eu nunca

me considerei um intelectual ou um literato,

eu era, e me considero até hoje, um bom advo-

gado, mesmo porque isso classifica bem o meu

temperamento. Eu queria deixar bem nítida essa

distinção: eu era um grande advogado sem ser

um jurista, porque eu considero que o jurista é

o conhecedor profundo do Direito e o advogado

é aquele que conhece as manhas forenses, que

sabe defender uma causa, que sabe levar um

cliente, que sabe ser eficiente.

Enquanto pôde conciliar essas atividades tão di-

18

ferentes e exigentes como a advocacia e o teatro,

seguiu desempenhando-as paralelamente e a

contento. No momento, porém, em que a Vera

Cruz entra em cena requisitando maior dedica-

ção de seu tempo, ele teve que optar: perdeu o

advogado, ganhou o homem de teatro/cinema.

Abílio deixou seu escritório para se dedicar ex-

clusivamente ao TBC e à Vera Cruz.

Sentado às mesas de jogo carteado do Clube Pau-

listano, sempre observando as pessoas como era

seu hábito, compôs muitos de seus personagens.

Em casa de primos, conheceu Lúcia Gama

Wright, uma jovem pequena e delicada, de

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marcante sangue inglês e suaves olhos azuis,

que veio a se tornar Lúcia Pereira de Almeida

e lhe deu dois filhos: Maria Luiza e Antonio de

Pádua (ou Maiza e Padu, seguindo o hábito da

família, que a todos dá apelidos).

A casa de Abílio vivia cheia de amigos. Fre-

quentavam-na, além de artistas de teatro e

cinema, personalidades do mundo das artes

em geral. Havia, ao mesmo tempo, pessoas

discutindo Direito num canto, outras jogando

baralho mais adiante, alguém tocando piano

ou simplesmente comentando as novidades

do teatro.

19

Depois de muitos anos exercendo os papéis de

advogado, autor, ator e tantos outros, já doen-

te, mal recuperado de uma operação de úlcera

gástrica e com o emocional abalado por duas

perdas trágicas em pouco espaço de tempo,

recolheu-se ao sítio de Vinhedo, lá passando,

sozinho ou cercado de jovens amigos, a maior

parte de seus dias. Aos poucos foi caindo em

depressão, pois, no dizer de Nydia Licia: Com

a operação do estômago e como era metido a

galã, de repente viu que tinha ficado velho, feio

e magro. Acrescenta Paulo Autran o que ouviu

de Abílio, em sua última visita feita a ele: A vida

perdeu o sentido.

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Sua última entrevista foi dada a Alberto Beut-

tenmuller, jornalista do Jornal do Brasil, que

assim escreveu: Um mês antes de sua morte,

ocorrida ontem em São Paulo, Abílio Pereira de

Almeida concedeu uma entrevista ao repórter

Alberto Beuttenmuller. Queixava-se do silêncio

em torno de seu nome e suas obras e lembrava

os bons tempos do Teatro Brasileiro de Comédia

e da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, dos

quais foi figura destacada. Paulo Autran não se

conforma com esse desfecho: Aquele homem bri-

lhante, inteligente, vivo... Foi uma pena mesmo.

Todo mundo gostava dele. A classe adorava o

Abílio; era um ótimo colega, uma pessoa adorá-

20

vel; eu não conheço ninguém que não gostasse

do Abílio, só os críticos. Foi um grande sucesso

de público; tenho pena de não ter companhia

naquela época.

Entre seus papéis particulares está a cópia de uma

carta, escrita em 14 de fevereiro de 1977 para

seu amigo Behar, na Argentina. É quase como

um documento que atesta o estado de espírito

em que se encontrava pouco tempo antes de

sua morte: depressão, desânimo, desilusão. E

todos sabemos o cuidado que devemos dispensar

a pessoas que se encontram nesse estado. Por

que, então, os que lhe estavam próximos não

se aperceberam disso? Abílio só lhes mostrava

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uma face: a piadista, satírica, irônica; a face do-

lorida, machucada, que sofria, essa era guardada

dentro dele a sete chaves, e só aparecia quando

a solidão apertava o cerco sobre sua vida. Tre-

chos dessa carta demonstram, de maneira clara,

toda a amargura que ele trazia no coração. Em

primeiro lugar, agradece a remessa de dinheiro

que o amigo lhe faz, dinheiro de direitos autorais

de sua peça Alô... 36-5499 que, na Argentina,

se chamou Deliciosamente Amoral e estava em

cartaz há 17 anos.

Fala superficialmente sobre o problema da cen-

sura que, à época (estávamos em plena ditadura

militar), vetava textos de ordem política ou

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social ao mesmo tempo que fazia vistas grossas

para a imoralidade e a obscenidade. Sucesso

faziam os que apelavam para o pornográfico

e o erótico, no seu entender.

Senti-me superado e velho. Acabaram-se to-

das as minhas veleidades. Resumindo minha

vida: sou um escritor superado, velho e pobre

a quem a gente nova chama de mestre, o que

já é um consolo.

Em seguida, comenta da sua tentativa de se isolar

no sítio, criando galinha e plantando uva. Elogia

o filho que soube fazer exatamente o contrá-

rio do que ele fez e hoje está numa situação

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tranquila. E, assim, tudo vai bem, menos eu

que, como você percebeu, estou em estado de

depressão, embora, materialmente, viva muito

razoavelmente. É que não me conformo com a

velhice, com a superação, com o fato de estar

fora de moda, enfim não me acostumo a essa

nova filosofia de vida em que não há lugar para

os velhos. É o tal de poder jovem.

Pede notícias e faz comentários sobre amigos

comuns, voltando a criticar-se: ... um imbecil

como eu, que tinha tudo para alcançar uma boa

notoriedade e afinal de contas fez muito e não

fez nada.

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Como final de conversa, desculpa-se e se justifica :

Desculpe-me pela péssima redação, muito impró-

pria para uma pessoa que tem a pretensão de

ser escritor. É que estou escrevendo espontanea-

mente, o que me vem à cabeça, e não estou

procu rando frases de efeito. Escrevo com o

coração e não com a cabeça.

Talvez nesse tempo é que ele tenha sentido mais

forte a diferença entre sua cabeça, sempre jovem,

e seu corpo, envelhecido, cansado e doente. Daí

para a depressão em que mergulhou foi apenas

um passo: não se conformando com isso, acabou

com o desgosto que vinha sentindo e, naquele

11 de maio, ao dizer para a família que estava

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voltando para o sítio, já tinha tudo preparado:

com um tiro no peito, Abílio saiu de cena, fechan-

do as cortinas de sua vida.

O teatro

Suas atividades como ator de teatro começam

bem cedo, ainda no Colégio São Luís, quando

participou de uma peça apresentada como en-

cerramento de ano letivo, dirigida pelo padre

Miguel Cerdá, que era seu professor de latim e

de geografia . Eu comecei como ator, mesmo nos

tempos do Colégio São Luís, naquelas peças das

festas de fim de ano, eu era um dos estrelos do

teatro de lá. Talvez tenha começado mais cedo

23

ainda, em casa, brincando de teatro com sua

irmã Tuca.

A carreira teatral propriamente dita começa

pelo amadorismo. Abílio ainda cursava a Fa-

culdade de Direito quando tomou parte, como

figurante, numa apresentação organizada por

Alfredo Mesquita: O Sarau no Paço de São

Cristóvão (1926), fantasia histórica escrita por

Paulo Setúbal. Era um espetáculo de luxo e bom

gosto. Nada mais. Era patrocinado pela Liga das

Senhoras Católicas.

Em 1936, outra apresentação em espetáculo tam-

bém de Alfredo Mesquita, no Teatro Municipal,

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A Noite de São Paulo, em que Abílio subiu ao pal-

co como ator. Em 1938, outra fantasia, também

de Alfredo Mesquita, A Casa Assombrada, na qual

Abílio fazia o papel de um rico fazendeiro.

Como essas apresentações estavam fazendo

suces so, Alfredo Mesquita partiu para uma

terceira fantasia, Dona Branca, na qual Abílio

interpreta o papel de pai de um poeta, vivido

por Décio de Almeida Prado. Em 3 de setembro

de 1943 é encenada, no Teatro Municipal, a peça,

de Lenormand, À Sombra do Mal, dirigida por

Alfre do Mesquita e tendo, no elenco, Abílio,

Carlos Vergueiro e outros.

24

É nessa época que se organiza o Grupo de Tea-

tro Experimental de Alfredo Mesquita que, mais

tarde, com outros grupos amadores, forma a

equipe que levou o sonho de um teatro paulista

à realidade. Aí foram plantadas as raízes do que

viria a ser o Teatro Brasileiro de Comédia.

Sobre a criação do GTE, assim se expressa Abílio:

Eu acho que foi um movimento paralelo com o

do teatro comandado pelo Pascoal Carlos Magno

no Rio de Janeiro, que ele iniciou lá no Teatro

do Estudante e com o movimento de Os Come-

diantes. Nós aqui fizemos o nosso teatro em

bases de renovação, procuramos separar todas

as técnicas do espetáculo, dando a cada um o

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que é seu, porque, antigamente, diziam que o

dono da companhia era o ator principal, era o

escritor, era o diretor, era até o bilheteiro. Então,

nós começamos a fazer um teatro, e a primeira

coisa que fizemos foi tirar o ponto. Depois foi

dar a cenografia a um cenógrafo, dar a direção

a um diretor, a direção de música a uma pessoa

entendida de música, cada um dentro de sua

atividade, e, nesse sentido, nós iniciamos aqui

uma renovação.

Pif-paf, a peça de estreia de Abílio, escrita em

1946 e encenada pelo GTE, tinha como tema o

jogo da moda, e mostrava a deterioração social

em que vivia a alta sociedade.

25

Como Pif-paf vinha fazendo muito sucesso, Abílio

foi chamado para dirigir e fazer o papel principal

de uma peça, A Mulher dos Braços Alçados, com

duração de 20 minutos e escrita em italiano por

Franco Zampari, com tradu ção para o português

de Paulo Assumpção.

Outra apresentação que mereceu muitos elogios

foi a sua caracterização de Harpagão, na peça

O Avarento, de Molière. Diziam que era assim

que o autor da peça tinha imaginado a persona-

gem : Marina Freire e Abílio Pereira de Almeida

chamaram a atenção no desempenho de O Ava-

rento, nova montagem do GTE; no papel-título

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Abílio compôs um avarento como Molière quis, isto

é, não um obcecado total, mas sim uma criatura

tomada pelo complexo de inferioridade e que, no

dinheiro, vê toda a sua projeção pessoal e social.

Depois de todas essas apresentações, que foram

levadas a cabo no exercício do mais puro amado-

rismo, vem uma que é marco do teatro paulista: é

inaugurado o Teatro Brasileiro de Comédia com

uma peça de Abílio, A Mulher do Próximo, na

qual ele, além de autor, é também encenador,

diretor-geral e ator, no papel de Alfredo.

Quando começou, com Pif-paf, foi aquele suces-

so; ele era uma pessoa que queria inovar: sua

26

linguagem era muito simples. Consciente de si

mesmo, nunca se meteu a ser um ator caracterís-

tico; era um galã de meia-idade, muito simpático;

tinha uma grande naturalidade de palco!

No ano seguinte, 1949, Abílio apresentou-se

como ator nos trabalhos: A Noite de 16 de Janei-

ro, policial de Ayn Rand, levado pelo Conjunto

de Arte Teatral, em maio, no papel de Lawrence

Regan ; e em Nick Bar, de William Saroyan, diri-

gido por Adolfo Celi, em junho, no papel-título.

Abílio dá seu próprio depoimento a respeito:

No fim de uma temporada de revezamento

dos diversos grupos teatrais amadores, o TBC

se profissionalizou e a primeira peça, se não me

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engano, foi uma peça do Saroyan, The Time of

Your Life, com o título brasileiro de Nick Bar,

numa tradução de Gustavo Nonemberg. Eu fiz

o papel do Nick.

O TBC mostrou, então, que se podia fazer um

teatro de qualidade de texto, de qualidade de

encenação e Adolfo Celi, chamado da Argentina

por Franco Zampari, foi o responsável por isso.

Salas teatrais lotadas; sucesso junto ao público

era patente, apesar das observações ferozes dos

críticos especializados ou a especializada, como

a chamava Abílio. Talvez fosse não só a empa-

tia que Abílio conseguia estabelecer com seus

27

espectadores como também a atualidade dos

assuntos tratados e a forma aparentemente leve

e descontraída de seu texto.

Em 1951, a Prefeitura de São Paulo promoveu

um concurso para autores teatrais, o Prêmio

Adhemar de Barros de Teatro. Foram classifi-

cadas para a final dez peças; depois de lidas,

examinadas, estudadas, a comissão de concurso,

composta por Ruggero Jacobbi, José Geraldo

Vieira e Almeida Sales, apresentou Moinho Novo

em primeiro lugar, classificando-a como uma

tentativa de inter pretação e transfiguração, em

linguagem dramática, de um aspecto da reali-

dade brasileira.

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Depois de abertos os envelopes que traziam a

identificação dos autores, que se apresentaram

com pseudônimos, foi assim estabelecida a clas-

sificação final:

1º – Moinho Novo, de Abílio Pereira de Almeida

2º – A Estrela do Mar, de Nelson Rodrigues

3º – A Torre, de Helena Silveira

4º – O Céu num Dilema, de Antonio Carlos Car-

valho

É o que diz a notícia publicada no jornal O Cor-

reio Paulistano, edição de 9 de janeiro de 1951.

28

Em relação a Abílio-autor, a opinião dada por

Nydia Licia a respeito do conjunto de seus tra-

balhos é a seguinte: A última peça que ele fez

para Cacilda e Walmor, ... em moeda corrente

do país, foi uma das melhores peças dele, senão

a melhor.

Entre elenco, autor e público havia um relacio-

namento muito bom. Terminado o espetáculo,

o público subia ao palco para cumprimentá-los.

Os atores eram acessíveis, recebiam muito bem o

público, que não tinha fanatismo; todos os que

estivessem ali para cumprimentá-los eram bem

recebidos.

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No entanto, quando da estréia de Santa Marta

Fabril S.A. isso não aconteceu. O artigo de Mat-

tos Pacheco para o Diário Popular, edição de

3 de março de 1955, sob o título Santa Marta

Fabril S.A. vai dar o que falar... Muitos aplausos

e poucos cumprimentos, diz bem da reação que

provo cou o novo texto de Abílio: Muitos aplausos

em todos os finais de ato, aplausos mesmo em

cena aberta, pareciam indicar que o público de

ontem, público de estreia, gostou de Santa Marta

Fabril S.A ., peça de Abílio Pereira de Almeida,

lançada pelo Teatro Brasileiro de Comédia. Mas

no final, quando terminou a representação, foi

bem diminuto o número de cumprimentos rece-

29

bidos pelo autor, lá embaixo, nos camarins. O

público grã-fino, por assim dizer, mal terminou o

espetáculo, deixou o teatro, sem descer aos basti-

dores para felicitar artistas e o autor, presente

à representação. (...) Nunca vimos tão vazios os

corredores do teatro.

O terceiro ato da peça, que se passa em 1948,

foi o que mais chocou o público; ao que Abílio

declara: Gosto muito do terceiro ato, estou con-

ten te, em linhas gerais, com o meu trabalho.

Suas verdades, duras talvez, mas que precisam ser

ditas. Não é uma peça contra a Revolução Consti-

tucionalista. Mas conta verdades. É contra, isso

sim, os adesistas, os que aderiram imediatamente

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no nome de seus interesses, ao governo federal.

Houve paulistas como os que eu retratei na mi-

nha peça...

São de Paulo Autran as palavras: Eu me lembro

muito bem (...) e as peças de Abílio Pereira de

Almeida: Paiol Velho, Rua S. Luiz, A Mulher do

Próximo, Pif-paf, várias peças do Abílio Pereira

de Almeida que eu considero também o primeiro

autor a criticar a sociedade paulista. Santa Marta

Fabril, por exemplo, tinha uma crítica bastante

contundente, uma crítica feita do ponto de vista

de um homem que pertence àquele nível e àque-

la sociedade que ele critica e que está informado

das ideias de seu meio, do meio burguês, da

30

burguesia rica de São Paulo, mas não deixa de

ser uma crítica. (...) ... Santa Marta chegou a ficar

um ano em cartaz.

Também Franco Zampari dá seu depoimento

sobre o sucesso de Santa Marta Fabril S.A. : Santa

Marta Fabril S.A., de Abílio Pereira de Almeida,

foi nosso maior êxito de bilheteria, trazendo ao

TBC de São Paulo um público de 45 mil pessoas,

quando o comparecimento habitual é de 25

mil, por espetáculo. Mas Abílio é uma exceção

entre os autores nacionais. Nenhuma outra peça

brasileira deu resultado financeiro e as perdas

variam entre 150 mil e 200 mil cruzeiros. Por isso

apresentamos poucos textos nacionais.

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Abílio procurava atender a todos da melhor

maneira possível. Muitas vezes mandou fazer

roupas para as atrizes porque as queria muito

bem vestidas. Ele se preocupava para que todo

mundo estivesse bem e de acordo com o texto

que estava sendo apresentado.

Cumpre notar que suas peças A Mulher do Pró-

ximo e Pif-paf, grande sucesso em São Paulo,

quando foram levadas para o Rio e montadas

no Teatro Municipal, não obtiveram o mesmo

sucesso. Explica-se: as peças foram escritas para

uma realidade de São Paulo; Abílio era um autor

paulista, escrevia sobre São Paulo, as coisas que

ele conhecia bem.

31

Quando havia escândalo motivado por alguma

peça sua, ele gostava, se divertia: era publici-

dade, completa Nydia Licia. Com uma ponta de

saudade, ela encerra seu depoimento: A gente

lembra muito dele nos camarins, os papos, as

conversas, há sempre uma coisa engraçada para

cada caso; ele contava casos, era muito divertido

o ambiente. Seu senso de humor era muito ácido:

criticava muito as coisas e não deixava passar

nada. A gente não sabia se ele estava caçoan-

do da gente ou do outro. Ele contava umas

histórias... A gente não sabia se tudo o que ele

contava era invenção dele ou era verdade... era

pra gozar as pessoas.

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Sem dúvida alguma, o ponto forte do autor

Abílio Pereira de Almeida é a construção dos

diálogos. Seus personagens falam, com extrema

naturalidade, aquilo que se ouve nas ruas ou

nos ambientes retratados em suas peças. Dessas

conversas surge a intenção mais profunda do

autor: a de retratar um determinado ambiente

e o que ocorre com as pessoas que nele vivem.

Seja a alta sociedade, como em seus primeiros

trabalhos, seja a classe média, como ... em moeda

corrente do país, ou nos ambientes relacionados

à política, como em O Bezerro de Ouro ou Círculo

de Champagne ou mesmo ao submundo como

O Clube da Fossa.

32

Como diz Décio de Almeida Prado em sua obra

Apresentação do Teatro Brasileiro Moderno: A

sua dialogação corre fluentemente, ao sabor das

circunstâncias, despreocupada, natural, condu-

zindo, entretanto, ao ponto visado. (...) Abílio

Pereira de Almeida parece-nos um autor com

muitas qualidades e em ascensão. Num momen-

to em que escasseiam comediógrafos nacionais,

qualquer progresso seu é também nosso. Ainda

persistem nas suas peças muitas imperfeições,

muito tatear à procura de caminho. Mas há na

sua atitude uma independência, um desejo de

aprender à custa dos próprios erros que é mui-

tíssimo simpática.

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Abílio sempre teve o cuidado de não interferir

na conduta de suas personagens; sempre se man-

teve neutro, nunca se pôs a falar no lugar delas

ou expôs suas próprias opiniões através delas.

Torna-se, assim, fiel à realidade, tão minucio-

samente observada. Abílio Pereira de Almeida

pode não ser profundo, mas é extremamente

exato, extremamente preciso. Não há, em Paiol

Velho, um gesto menos plausível, uma frase que

soe falso.

Com o passar do tempo e a chegada da maturi-

dade e depois do distanciamento em relação à

crítica, Abílio, apesar de continuar a escrever no

seu estilo de crítica social, retratando o ambiente

33

de sociedade que via e em que vivia, começa a

sofrer os ataques às suas peças por parte da crítica

especializada ou apenas a especializada, como

ele mesmo dizia.

Mas não foi apenas uma disputa por escrito,

entre autor e críticos, a que o trabalho O Bezerro

de Ouro despertou. Ainda na fase de ensaios,

no Teatro Leopoldo Froes, Felipe Carone, que

faria o papel principal, o Barão de Mastrorosso,

foi cercado por um grupo de homens, à saída

do teatro; ele foi espancado e massacrado com

duas pessoas da diretoria do Pequeno Teatro de

Comédia que iria levar a peça. Carone foi hospi-

talizado e, quando recebeu alta, declarou que

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não mais faria a peça. O grupo já havia recebido

várias ameaças para não encenar esse trabalho.

No dia seguinte ao do atentado, a polícia pren-

deu pessoas que rondavam o teatro e, embora

dissessem estar ali por acaso, apurou-se que duas

delas possuíam vínculo empregatício com uma

indústria famosa em São Paulo, àquela época,

e que, diziam, servira de inspiração para Abílio

construir sua história.

Retirando-se o ator principal e o diretor tendo

entregado a peça para o autor, ficaria claro que

esse trabalho não seria encenado. Os demais

atores, no entanto, firmaram pé dizendo: Agora

queremos levar O Bezerro de Ouro de qualquer

34

jeito. Trata-se de um problema de liberdade de

expressão que envolve todos os artistas do Brasil

e a nós, particularmente, porque vimos um de

nossos companheiros ferido física e moralmente

por forças estranhas à arte. O papel principal

foi dado, então, a Dionísio de Azevedo que foi

bastante elogiado pela crítica, não só pelo seu

lado profissional como também por sua presença

humana em cena.

Depois dessa experiência como empresário, é nes-

se momento de sua carreira que Abílio envereda

pelo terreno empresarial; constitui a empresa Flo-

rente, Massaini e Cia. Ltda., tendo a terça parte

dela. Levam ao palco Círculo de Champagne com

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um orçamento bastante alto, justificado pelo

autor que alega haver um determinado coque-

tel em cena para o qual se colocam no palco 40

pessoas. Diz ele, ainda, que a peça segue a linha

de seu trabalho anterior Santa Marta Fabril S.A. ,

nos dias de hoje (1964).

Há uma preocupação muito grande em Abílio:

divertir. Para isso lança mão de seus famosos

diálogos irônicos e seu estilo de ridendo castigat

mores (rindo, critico os costumes).

O ponto em que quase todos os críticos concorda-

vam era a facilidade com que Abílio estabelecia

relações de adequação entre suas personagens e

35

a realidade que ele conhecia e também a leveza

e fluidez de seus diálogos, o que em muito contri-

buía para essa aproximação com a realidade.

O grande senão do teatro de Abílio, na opinião

de críticos e de diretores que trabalharam suas

peças, é o fato de ele não se aprofundar em seus

textos. Ele dizia que depois iria rever e consertar

os erros, aprofundar-se no tema, mas como bom

brasileiro fiel à sua índole, foi deixando para

depois e acabou não fazendo mais.

Seu trabalho mais profundo em termos de

estu do da alma humana foi, sem dúvida, ... em

moe da corrente do país, montado em 1960,

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pela companhia de Cacilda e Walmor, no Teatro

Cacil da Becker, que ficava no prédio da Federa-

ção Paulista de Futebol, na Avenida Brigadeiro

Luís Antônio; essa peça foi encenada novamen-

te por diversos grupos amadores, tendo obtido

muito sucesso.

Como andava fazendo pesquisas históricas sobre

a independência do Brasil, que depois serviram

de base para o roteiro do filme Independência

ou Morte, Abílio escreveu Dom Pedro I, Impe-

rador do Brasil, que veio a ser representada por

um grupo amador do Clube Atlético Paulistano,

em dependências do próprio clube, em 1972.

Foi seu último trabalho. Permanece inédito seu

36

último texto Os Donos da Verdade, que trata

do poder jovem.

Mais tarde, em 1974, no depoimento que prestou

para o Museu de Teatro do Serviço Nacional de

Teatro, diz concordar com os críticos que falaram

mal de suas peças, o que era uma opinião diferen-

te, em desacordo com a do público que sempre

o prestigiou e a qual ele priorizava.

Depois de muito tempo afastado dos meios

artís ticos, magoado por ver seu nome esqueci-

do ou até mesmo omitido em declarações ou

reportagens sobre teatro e cinema, qual não

foi sua surpresa ao saber que seria homenage-

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ado pelo então secretário da Cultura, Ciência e

Tecnologia Max Feffer, com Alfredo Mesquita e

Ziembinski, numa informal cerimônia que teve

lugar no salão principal do Palácio dos Campos

Elíseos. Presentes atores (ex-alunos da Escola de

Arte Dramática), pessoal ligado ao teatro, além

de algumas autoridades.

A placa de prata que recebem pretende ser Um

tributo, ainda que tardio, aos responsáveis pela

base de nosso teatro atual. (...) Os homenageados

lembraram fatos do teatro nacional da época do

TBC, tendo Alfredo Mesquita (também fundador

do Grupo de Teatro Experimental, anterior ao

TBC) frisado que Pif-paf, peça de estreia de Abílio

37

Pereira de Almeida, foi a grande vitória do teatro

experimental. Foi com ela que se iniciou uma eta-

pa há muito esperada: a de se poder levar para o

teatro também peças de novos autores nacionais.

(...) Mais que companheiros de trabalho, nós três

formávamos uma trinca.

Desse modo, ainda que tardia e singela, a home-

nagem existiu e Abílio pôde sentir que não havia

sido totalmente esquecido, como pensara.

O Cinema

Posição firmada como ator de teatro, Abílio não

se contenta com isso. O começo da sua ativida-

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de como cineasta se deu com o próprio começo

das atividades da Vera Cruz, pois participou da

criação da Companhia e teve papel importante,

como advogado, na constituição dela como pes-

soa jurídica.

Até o fim da década de 40 a indústria cine-

matográfica brasileira estava sediada no Rio

de Janeiro. Com a implantação da Vera Cruz,

em uma granja em São Bernardo, o ambicioso

sonho paulista torna-se realidade, embora

por um pequeno espaço de tempo. Como não

podia ser chamada de Hollywood dos Trópi-

cos, pois esse nome foi dado à Atlântida, a

38

carioca das chanchadas, e como contava com

muitos italianos em seus quadros, só poderia

ser chamada de Cinecittà da América do Sul.

Começou assim, meio de brincadeira, com um

modesto capital de 7.500 contos, sem ninguém

pensar que a coisa ia crescer daquela maneira,

virar um negócio de tantos milhões e arruinar

completamente o Zampari, lembra Abílio, que

toma parte no primeiro filme rodado, Caiçara,

no qual faz o papel de José Amaro, um homem

que vai buscar uma esposa (Eliane Lage) no

orfanato. Filme de alto nível técnico e padrão

internacional, rodado em Ilhabela, estreia no