O Teatro de Abílio Pereira de Almeida por Abílio Pereira de Almeida - Versão HTML

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Cine Marabá e em outras 15 salas em São Paulo,

no dia 1º de novembro de 1950; impressiona

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profundamente a crítica especializada e o gran-

de público que comenta: Existe agora cinema

no Brasil. O Estado de S. Paulo de 28/10/50 tam-

bém registra que Caiçara constituiu realmente

o início do grande cinema brasileiro.

Sobre a primeira experiência no cinema, diz

Abílio: Após muitos testes, eu fui convidado

para fazer um papel muito importante em Cai-

çara, que foi o primeiro filme da Vera Cruz. Eu

contracenava sempre com o Carlos Vergueiro e

a Eliane Lage, que era minha mulher no filme.

Eu não entendia absolutamente nada de cine-

ma, de decupagem, nem de script , de cenas; era

absolutamente nulo, estava a zero no cinema,

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de modo que assisti a aquilo tudo com muita

curiosidade e comecei a trabalhar em locação.

Eu já tinha muita experiência de teatro, não

só de amador, mas de profissional, no qual eu

representava e dirigia.

O segundo filme da Vera Cruz também conta com

Abílio no papel principal; para a composição da

personagem, foi feita uma modificação no seu

visual: o bigode foi raspado e os cabelos foram

encrespados; fica difícil reconhecê-lo. Seu perso-

nagem, Tonico, sofre de bronquite e tosse muito;

tosse que chega a incomodar e preocupar os de-

mais. Só que não é a personagem que sofre de

bronquite e sim Abílio; foi um recurso utilizado

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para justificar os terríveis acessos de tosse que

ele sofre em cena. Esse filme é uma adaptação

de sua peça Paiol Velho, que, no cinema, recebeu

o nome de Terra é Sempre Terra, drama realista

e profundamente humano.

Abílio continua contando sua experiência num

setor novo pelo qual tinha uma grande curio-

sidade; talvez tenha sido esse o desafio que o

levou a acreditar e lutar para que a Vera Cruz

ocupasse o lugar que lhe era devido no meio

artístico de então.

Quando chegou a hora de rodar um filme cômi-

co, depois dos três dramas anteriores, já havia a

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ideia: as peripécias de um motorista de caminhão,

pobre, e a vida que ele enfrenta à direção do

seu veículo. A idéia era de Tom Payne e para o

papel principal ainda não havia sido escolhido

o ator. Ao assistir a um programa de televisão

enquanto almoçava, na cantina da Vera Cruz,

Renato Consorte teve sua atenção chamada

para um novo rosto: era um comediante novo,

tinha feito muito sucesso no rádio e começava

a aparecer na televisão, em programas ao vivo.

Chamado para testes, revelou-se seu grande

talento; nem precisou dizer muita coisa: era o

tipo que estavam procurando. Assim, Mazzaro-

pi começou sua carreira no cinema. O tipo que

foi criado para Sai da Frente foi conservado em

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todos os outros filmes de Mazzaropi, mesmo

depois do fim da Vera Cruz. Ele o fez em filmes

do Massaini e nas próprias produções. Abílio fez

o script exclu sivamente para ele e Sai da Frente

teve uma continuação, Nadando em Dinheiro,

em que o motorista de caminhão (Isidoro) re-

cebe uma herança bem grande de um parente

até então desconhecido e fica rico de repente. O

filme é a trajetória de Isidoro nas rodas da alta

sociedade. Mazzaropi fez, ainda, para a Vera

Cruz, Candinho e O Gato de Madame, ambos

com roteiro e argumento de Abílio.

Um dos últimos trabalhos de Abílio para o cine-

ma foi a pesquisa histórica sobre os acontecimen-

41

tos de 1822, na Corte, no Rio de Janeiro, e que

provocaram a Proclamação da Independência do

Brasil. Abílio mergulhou de corpo e alma nessa

pesquisa e, como resultado, tivemos o argumen-

to de mais um filme, bem cuidado e caprichado,

como todos os da Vera Cruz: Independência ou

Morte, que estreou como parte das comemo-

rações do sesquicentenário da Independência

do Brasil.

O grande problema da Vera Cruz, desde seu

primeiro filme, foi o custo de produção. Como

Zampari visava ao mercado internacional (e

nin guém compreendia seu raciocínio, muito me-

nos a imprensa), trouxe técnicos e uma equipe

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preocupada com o cinema perfeccionista, com

um custo de produção altíssimo, incompatível

com a nossa realidade. Havia, também, o proble-

ma da demora em aprontar os filmes; trabalha-

vam, em cada filme, equipes de 40 a 50 pessoas;

havia vários assistentes organizados num rígido

sistema hierárquico.

Com todo esse gasto e sem bilheteria suficiente

para dar o retorno, a Vera Cruz não aguentou

muito tempo; Zampari ainda tentou uma saída,

colocando lá o seu dinheiro, mas não conseguiu.

Quebrou a Vera Cruz, quebrou o Zampari e que-

brou o TBC, uma vez que a contabilidade dos três

era uma grande mistura. E aconteceu a quebra

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da Vera Cruz quando Zampari vinha voltando da

Europa com dois prêmios internacionais conquis-

tados por Sinhá Moça e O Cangaceiro.

O Banco do Estado cancelou os financiamentos

e colocou Abílio à frente da Vera Cruz, coisa que

não durou muito tempo dada, principalmente, a

forma errada de trabalho, adotada desde o início

de suas atividades.

Outro grande problema que havia era a questão

da distribuição de filmes: dava-se o filme para o

concorrente distribuir. Abílio, para contornar a

situação, montou a Brasil Filmes, paralela à Vera

Cruz, para distribuir os filmes. Quando ele deixou

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a Vera Cruz, o novo diretor voltou a trabalhar

com a Columbia e o problema surgiu outra vez.

Foi assim que se acabou a Vera Cruz e o sonho

nacional de uma indústria de cinema de padrão

internacional, da qual, começando como ator,

Abílio terminou como diretor-superintendente.

Ceiça Campos

Agosto de 2006

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Ao leitor

Quando me pediram para escolher três peças

de meu pai para serem publicadas, escolhi Paiol

Velho, Santa Marta Fabril S.A. e ... em moeda

corrente do país.

Paiol Velho foi o seu trabalho mais elogiado pela

crítica teatral da época e se transformou em argu-

mento para o segundo filme da Companhia Cine-

matográfica Vera Cruz, Terra é Sempre Terra.

Santa Marta, por ser a saga de uma família tipi-

camente paulista, na fundação e gerência de

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uma empresa familiar, com todos os problemas

que um choque de gerações produz e as conse-

quências que traz.

E ...em moeda corrente foi escolhida por sua

atualidade porque, apesar de ter sido escrita

nos anos 60, traduz os mesmos problemas que o

nosso país enfrenta até hoje.

Devo dizer que este trabalho foi executado em

família, pois meu irmão, Padu, digitalizou e revi-

sou toda a obra, e minha prima, Ceiça Campos,

fez a pesquisa para o texto em sua dissertação

de mestrado e continua a fazer, agora para sua

tese de doutorado.

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Meus agradecimentos especiais vão para a Co-

leção Aplauso, que nos deu a oportunidade de

compartilhar com o grande público o que estava

esquecido e perdido entre papéis empoeirados;

agora meu pai deverá ocupar o lugar que merece

entre os escritores brasileiros, o que me deixa

muito feliz.

Maiza

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Zeni Pereira e Cacilda Becker em Paiol velho

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Paiol Velho

Peça em três atos

Estréia: São Paulo, 10 de janeiro de 1951

Teatro Brasileiro de Comédia (TBC)

Personagens e elenco da estreia

(por ordem de entrada em cena)

Lina

Cacilda Becker

Tonico

Carlos Vergueiro

Bastiana

Zeni Pereira

Lourenço

Milton Ribeiro

Mariana

Rachel Moacyr

João Carlos

Maurício Barroso

Dr. Boaventura

A. C. Carvalho

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Quinzinho Pereira

Fredi Kleemann

Tabelião

Glauco de Divitis

Tio Jorge

Eugênio Kusnet

Direção

Adolfo Celi

Cenários

Bassano Vaccarini

Execução cenários

Arquimedes Ribeiro

Supervisão guarda-roupa

Cleide Yaconis

Diretor de cena

Pedro Petersen

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Primeiro ato

Cena I

Cinco horas da manhã. A cena está escura. Ape-

nas alguma claridade do raiar do dia que entra

pelas frestas das janelas e portas. Ouvem-se os

ruídos do alvorecer na fazenda. O piar dos pás-

saros, o canto do galo, o cacarejar das galinhas,

etc. O casal ainda dorme, mas o marido, que está

à frente, já começa a se remexer como quem vai

acordar. A cama range a cada instante, a cada

movimento, desafinando com a sinfonia da alvo-

rada lá fora. O homem desperta, afinal; senta-se

na cama, de frente para o público, pés no chão,

boceja e espreguiça-se, dando mostras de antigo

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cansaço e do profundo esforço que está fazendo

para se levantar. Veste pijama ordinário, de listas,

e meias nos pés. Consulta o cebolão que está na

mesinha de cabeceira. Durante o ato, vai-se fa-

zendo, paulatinamente, a luz do dia em cena.

Tonico

Lina... Lina... (mais alto) Lina...

Lina

(Sem se mover) Huuummm...

Tonico

Venha quentar o café para mim. (Lina não se

mexe) Lina... (berrando)

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Lina

(Berrando também) Que é?

Tonico

Levanta. Venha ver o café.

Lina

Ahhh... (e continua dormindo)

(Tonico levanta-se vagarosamente, espreguiça-se

com ruído. Assim que larga o leito, a mulher toma

o meio da cama, juntando os dois travesseiros e

continua dormindo)

Tonico

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(Sacudindo os ombros de Lina) Lina. Levanta,

mulher. Passa de cinco horas.

Lina

(Erguendo o busto, lançando chispas de ódio)

Não me amole. Levanto nada.

Tonico

Como não se levanta? Venha me ver o café.

Lina

Vá acordar a Bastiana.

Tonico

A Bastiana está muito pesada; me pediu para

levantar mais tarde estes dias, até ter o filho.

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Lina

Pesada nada... Aquela vagabunda... Acorde

ela...

Tonico

(Vai pesadamente à cadeira. Veste as calças da

roupa sobre as calças do pijama) Vagabunda...

Mas vai ter um filho...

Lina

(levantando a cabeça, furiosa) É?... E que tem

isso?

Tonico

É isso mesmo. Vai ter um filho.

53

Lina

E eu não? De quem é a culpa? Minha ou sua?

Nunca tive outro homem para saber.

Tonico

Cale a boca.

(Tonico vai iniciar a sua toalete despindo o pale-

tó do pijama. Tira o paletó da cadeira, joga-o na

cama. Desce a bacia, enchendo-a com água do

jarro, e lava as mãos, as axilas, com grande alari-

do. Termina o trabalho com duas ou três boche-

chadas de água do jarro. Procura uma toa lha que

não encontra e acaba se enxugando com o paletó

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do pijama. Penteia rapidamente os cabelos, veste

a camisa e o paletó, pega o relógio e está pronto

para a luta quotidiana. É homem judiado, de as-

pecto doentio, entre 35 e 40 anos. Cursou até o

4º ano de ginásio. Seu nome é Antonio Loferato

Tonico. O diálogo continua enquanto Tonico faz

a sua toalete e se veste)

Lina

E por que você se queixa de não ter filho? É

melhor assim.

Tonico

Eu queria... Um macho... Para ficar com esta fa-

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zenda... Depois de mim.

Lina

Mas a fazenda não é sua, Tonico.

Tonico

Ainda não. No papel ela não é minha. Mas de

justiça é. Meu pai tomou conta dela durante 30

anos. Eu nasci aqui. Trabalho aqui. Vou morrer

nesta terra. Ela é minha de coração... E vai ser

minha no duro, com tabelião e tudo...

Lina

E a patroa, Tonico? A viúva?

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Tonico

Que patroa nada. Há dez anos que não vem para

cá. Nem para ver a fazenda. Não ligam, nem ela

nem o filho.

Lina

Me deixa, vai acordar a Bastiana que é melhor.

Tonico

Olha, Lina; se eu quisesse já podia ser fazendeiro.

Dinheiro eu tenho.

Lina

Então que está esperando?

55

Tonico

Esperando, não. Juntando. Juntando. Com mais

dois anos tenho dinheiro para comprar isso aqui.

E bater na ficha.

Lina

Juntando. Juntando. Roubando, isso sim.

Tonico

(com um berro) Cale a boca.

Lina

Então não me amole. Vá s’embora. Me deixa

dormir.

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Tonico

(Pensando alto) Roubando mesmo. Mas rouban-

do do que é meu. Quem não trabalha não ganha.

Isso é que é direito. A terra só devolve, quem não

dá, não recebe.

Lina

É, mas dinheiro roubado não dá sorte.

Tonico

O meu não é roubado. Roubado é o deles, que

sempre viveram à custa do trabalho dos outros.

Meu pai morreu pobre, sem um tostão. Tive que

largar os estudos e vir pegar no pesado para

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poder comer. Enquanto isso, eles gastavam na

Europa. Eu não hei de morrer pobre, que não sou

besta. Se der para todos, eles também ganham.

Se não der... Paciência. Roubado é o deles...

Lina

É o seu, Tonico. Não adianta... E você já está

caindo na boca do mundo!

Tonico

Que boca do mundo, nada! Ninguém sabe de

nada. É só palpite. Prova ninguém tem.

Lina

Muita gente sabe.

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Tonico

Quem?

Lina

O Lourenço disse que você é o administrador

mais ladrão que ele viu. Que rouba no custeio

e na safra.

Tonico

Como é que você tem dessas conversas com

aquele tipo?

Lina

Eu não. Foi a Bastiana, ela me contou.

Tonico

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Que mais disse ele?

Lina

Sei lá. Que você já deve estar rico de tanto roubar

a viúva. Que roubar viúva não é vantagem.

Tonico

Cachorro! Mas eu pego ele!

Lina

Pega nada. Homem sem razão não briga.

Tonico

Para a rua ele vai. E hoje mesmo. Cachorro. Come-

ça a falar, a falar. Até chegar aos ouvidos da

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patroa. Não. Vai para a rua. Antes que seja tarde.

Vagabundo ... (Tem um mal-estar que o obriga a

sentar-se na cadeira. Pausa) Pois é, eu me mato

no serviço, de sol a sol, como um escravo. E quer

que o dinheiro vá para eles. Tó... (faz o gesto)

Só o que eles fazem é vender pedaço de terra.

Quando meu pai era o administrador o Paiol

velho era três vezes o que é hoje... A fazenda

não dava e eles a gastar. A fazer grã-finagem...

Quando a coisa apertava, lá se ia um pedaço para

um vizinho. Mas agora vão vender é para mim.

Lina

Você vai comprar a fazenda com o dinheiro

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deles.

Tonico

Cale a boca. Eles que venham tomar conta,

venham levantar de madrugada, todos os dias.

O dinheiro é muito meu, ganho com o suor do

meu rosto.

Lina

Não adianta, Tonico. Você sabe que não é seu. E

o Lourenço também.

Tonico

(Levantando da cadeira e avançando ameaçador)

Peste. Eu te sento o braço.

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Lina

(Aceitando o desafio, topando a parada) Senta.

Tonico

(Forçando a calma) Vai ver o café para mim.

Lina

Estou cansada. Acorda a Bastiana. (Vira-se de

bruços e continua a dormir)

Tonico

Sua peste. Mulher só para comer. (Espera a res-

posta que não vem. Murmurando) O Lourenço

me paga, canalha... (Pára, olha, pensa, toma a re-

solução e sai do quarto para ir acordar a Bastiana,

59

que dorme no quarto depois da cozinha. Panca-

das no quarto da Bastiana. Ouve-se um toque de

sino ao longe, ao compasso da alvorada)

Voz de Tonico

Bastiana... Bastiana...

Voz de Bastiana

Huuummm...

Voz de Tonico

Levanta, Bastiana, que está na hora.

Voz de Bastiana

Pede pra dona Lina, estou doente, seu Tonico.

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Voz de Tonico

Ela não pode. Vamos, Bastiana.

Voz de Bastiana

Eu também não posso... Estou muito pesada...

Estou doente.

Voz de Tonico

Deixe estar. Eu me arranjo. Sempre me arranjo so-

zinho. (Movimento na cozinha de quem procura

as coisas. Tonico aparece na sala com um pedaço

de pão na mão. Pancadas na porta)

Voz de Lourenço

60

Seu Tonico. Seu Tonico. (Tonico abre a porta. Já

é dia claro)

Lourenço

(entrando) Com licença. Bom dia, seu Tonico.

(Lourenço é camarada da fazenda, de 25 a 30

anos)

Tonico

(Enfezado) Ah! Lourenço. Preciso ter uma con-

versa com você. (Dá uns passos e senta-se calma-

mente na cadeira de balanço)

Lourenço

Que é que há, seu Tonico?

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Tonico

Não tenha pressa. Temos muito que falar. E você

precisa aproveitar este seu último dia. (Lourenço

vai dizer qualquer coisa, quando Tonico continua

com mais força) A começar por aqui, que é que

você vem amolar a gente a esta hora da manhã?

Lourenço

Tenho um recado pro senhor.

Tonico

E não podia esperar, na casa das máquinas?

Lourenço

É um recado importante... Desde ontem à noite...

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Estive na cidade...

Tonico

(Gritando) Então fala, homem! Que recado é

esse?

Lourenço

A patroa vem aí com o filho.

Tonico

(Com um ligeiro sobressalto) Hein? Que foi?

Lourenço

Eu estava no armazém. Fui buscar o arame farpa-

do . Dona Mariana telefonou de São Paulo. Vem

com o doutor João Carlos.

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Tonico

Quando?

Lourenço

Devem chegar hoje, pelo noturno.

Tonico

Onde é que vou botar essa gente? A sede está

toda escangalhada. Também, faz dez anos que

não vêm aqui e chegam assim, de repente? Por

que você não avisou antes?

Lourenço

Quando cheguei da cidade já era noitinha. O

senhor estava dormindo. Não adiantava nada.

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Tonico

Eu é que sei se adiantava ou não... Temos que

dar um jeito. Têm que ir para a sede mesmo.

Que me importa! Vá com o seu pessoal dar um

jeito naquilo.

Lourenço

(Sem se mover) Sim senhor.

Tonico

(Gritando) Já! Que está esperando?

Lourenço

Mas o senhor disse que tinha umas conversas

comigo.

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Tonico

Ah! É mesmo. (Senta-se, procurando ganhar tem-

po enquanto pensa) Também, não havia pressa...

É... É verdade... Você tem razão... Bem... Você

quer mesmo saber? Já ia me esquecendo. (Muda

de tom, achando a saída) Pois é, Lourenço, você

sempre gostou da lavoura, não é? Depois, tem

o seu pessoal...

Lourenço

É, sim senhor.

Tonico

Pois eu estive pensando na sua situação aqui no

Paiol velho. Podia dar um jeito de melhorar a sua

63

vida. Você não estava querendo ser meeiro?

Lourenço

Querer eu queria, mas é que...

Tonico

Mas é o quê?

Lourenço

Aqui não tem lugar... Depois...

Tonico

Depois o que, Lourenço?

Lourenço

Depende... Não é?

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Tonico

Depende do quê? Vamos, desembuche, ho-

mem...

Lourenço

Depende... Da terra, da lavoura... E das condi-

ções... Não é, seu Tonico?

Tonico

Se eu quero melhorar a sua situação não darei

um abacaxi a você.

Lourenço

É verdade.

64

Tonico

Que tal a gleba do Riachão?

Lourenço

Muito boa. Bom café. Mas lá está o Manoel

Vieira.

Tonico

Pois ele está de mudança. Já não dá mais nada.

Está velho e o pessoal dele está debandando.

Perdoei a dívida dele na fazenda e vai largar

tudo. Amanhã mesmo já não está mais aí.

Lourenço

Quer dizer que o senhor me quer dar a meia do

Riachão?

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Tonico

Com você faço melhor negócio que com o Vieira.

Dou a meia no café e pode ficar com a roça por

sua conta. São 8 mil pés de café muito bons e

quatro alqueires para você plantar o que quiser.

Negócio de pai para filho, não é?

Lourenço

É verdade. De pai para filho, seu Tonico.

Tonico

Nós vamos lá. Se for preciso uma reforma na casa,

você pode fazer por conta da fazenda.

Lourenço

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É negócio fechado, seu Tonico?

Tonico

Fechado. Pode preparar a mudança. Tudo o que

o Vieira deixar lá é seu. Mas quero trabalho bem

feito, para uma boa colheita.

Lourenço

Deixa isso comigo, seu Tonico. Foi por isso que o

senhor disse que era o meu último dia?

Tonico

(Embaraçado) É... Foi... Pois então... Você não vai

se mudar para lá?

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Lourenço

É isso mesmo.

Tonico

Agora vai. Vê se arruma na sede dois quartos só

pra dormir. Dá uma limpeza no banheiro. Depois

vou ver o serviço.

Lourenço

E a cozinha?

Tonico

Deve estar toda arrebentada. Eles vêm comer

aqui em casa. Não tem outro jeito. Vá já, corre.

66

Lourenço

Sim senhor. (Chega até a porta, para, pensa e

resolve) Muito obrigado, seu Tonico.

Tonico

Não precisa agradecer. Sei que você não gosta

de mim. Que fala mal de mim, mas não faz mal.

Faço isso pela Bastiana. Vai ter um filho; você vai

se casar com ela, não?

Lourenço

É. Agora eu posso casar, sim senhor. Antes não

podia. Nem lugar na casa tinha para ela. Agora

sim, ela também vai para o Riachão.

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Tonico

E você não vai mais falar de mim?

Lourenço

Deixa disso, seu Tonico. Deus me livre. O senhor é

meu padrinho. (Tonico dirige-se ao quarto. Lina

mergulhada nos travesseiros)

Tonico

Lina, dona Mariana vem aí com o filho.

Lina

(Levantando o busto) Hein?

Tonico

É isso mesmo. A dona está chegando pelo no-

67

turno. (Lina senta-se na beira da cama. Está de

combinação ordinária, de morim. Descabelada)

Lina

E agora?

Tonico

Mandei o Lourenço arrumar um pouco a sede.

Lina

Xi! Mas aquilo não tem jeito.

Tonico

Tem sim. Vá lá ajudar o serviço. Eles que venham

comer aqui.

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Lina

Será que vem passar muito tempo?

Tonico

Sei lá. A velha não agüenta, nem o filho. Ficam

uns dias e vão embora.

Lina

Vai ver que o moço vem tomar conta.

Tonico

Se vier, melhor. Você não tem nada com isso.

Eu, do Paiol velho, não saio. Vamos ver o que

vai acontecer.

68

Lina

E Lourenço?

Tonico

Que é que tem?

Lina

Nada...

Tonico

Nada mesmo. Ele é meu amigo.

Lina

Hum!... (Lina já pôs o vestido e os sapatos. Bas-

tiana surge na porta da cozinha para a sala. É

uma mulatinha desgrenhada; está grávida, bem

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barriguda. Parece que com dores, se contorcendo

toda)

Bastiana

Dona Lina, acuda, dona Lina. (Mal pode suster-

se de pé, apóia-se na soleira da porta. Lina sai

correndo do quarto e vai à sala e, com esforço,

carrega Bastiana para o quarto, depois da cozi-

nha) Eu acho que está na hora. É melhor chamar

gente.

Tonico

(Entra na sala) Vou chamar sua mãe, Bastiana,

para ajudar você. (Observa as duas, se afastando)

Mais um para carpir café.

69

Cortina

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Cena II

Abre a cortina. Onze horas da manhã. A mesa

está posta para o almoço. Quatro pessoas. Dona

Mariana está sentada na cadeira de balanço. É

uma senhora cinqüentona, de aparência distinta,

grã-fina. Lourenço está de pé.

Lourenço

Está tudo arranjado. Reservei o leito. O auto vem

aí às duas e meia. O noturno passa às 4 horas.

(Entrega uns bilhetes e um dinheiro)

Mariana

É, dá muito tempo. Isto é para você, Lourenço, e

70

muito obrigada. (Dá-lhe uma pelega de 50)

Lourenço

(aceitando o dinheiro) Deus lhe abençoe, dona

Mariana. Com licença.

Mariana

Espere um pouquinho. Queria ter uma conversa

muito particular com você. Posso confiar em você,

Lourenço?

Lourenço

Então, dona Mariana?

Mariana

Pois é, você sabe que seu pai foi muito amigo

nosso.

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Lourenço

Sim senhora.

Mariana

Sua mãe também. Morreu nos meus braços.

Lourenço

Eu me lembro, dona Mariana. Mas depois a se-

nhora nunca mais veio para cá.

Mariana

É verdade. Com a morte do meu marido as coisas

mudaram.

Lourenço

71

O doutor Carlos era muito bom. Todos gostavam

dele.

Mariana

Pois é. Eu queria saber uma coisa, Lourenço.

Você promete não passar essa conversa para

adiante?

Lourenço

Então, dona Mariana, está prometido.

Mariana

Olhe aqui, não compreendo certos negócios que

o Tonico tem feito nesta fazenda. Como é que

o algodão da Bela Vista, nossa vizinha, deu 150

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arrobas por alqueire e o nosso, que era igual,

deu 80?

Lourenço

Eu não sei... Que era igual, era... Não sei. Acho

que foi na apanha... Ficou atrasada... Perdeu

muito.

Mariana

E como é que vendem por 28 cruzeiros, quando o

da Bela Vista alcançou 35 por arroba, na mesma

ocasião?

Lourenço

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Home, dona Mariana, isso é cá com o seu Tonico.

Parece que choveu... Que o nosso algodão estava

muito sujo...

Mariana

E o café? Será que brocou tanto assim?

Lourenço

Como é que eu posso saber? Que brocou, brocou,

a senhora sabe.

Mariana

Acho tudo muito esquisito. Todas as fazendas da

vizinhança estão indo muito bem. Esta, não tem

dado nem pro custeio.

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Lourenço

Eu não sei. Agora que o doutor João Carlos vai

tomar conta, ele vai ver... A senhora sabe... O seu

Tonico anda muito doente. Uma vez ele teve um

ataque aqui. Nós chamamos o seu doutor, era do

coração. Sangue grosso, como se diz na roça.

Mariana

Eu sei que ele é hipertenso. Mas isso não tem

nada com a broca do café.

Lourenço

É. Não tem nada, não senhora.

Mariana

O que é que você acha, Lourenço? Diga para

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mim, não tenha medo. Olhe que você pode vir

a ser o administrador.

Lourenço

(Custando para responder, embaraçado) É... Eu

acho... Eu não sei... É... Acho que a doença dele

atrapalha um pouco.

Mariana

Está bem, Lourenço. Meu filho vai ficar aqui. As

coisas têm que melhorar.

Lourenço

(saindo) Com licença. (Entra Lina. Está bem arru-

mada, com o vestido novo que a patroa lhe deu.

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É uma mulher apetitosa, com sensualidade e

insatisfação na fisionomia)

Mariana

Gostou do vestido? Fica-lhe muito bem. O Tonico

vai gostar.

Lina

Tonico não liga para essas coisas, dona Mariana.

Mariana

Ele não liga a você?

Lina

Qual o que, dona Mariana. Liga nada. Eu, para

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ele, sou coisa. Pior que coisa. Ele só quer saber

é de trabalhar.

Mariana

Não é assim. E você aparecendo bem vestidinha,

bonitinha como você é, ele mudará de idéia.

Lina

Que o que, dona Mariana. Tonico não é homem

de ligar para mulher. Gente de roça não tem

tempo para isso.

Mariana

Quando as coisas melhorarem você virá passar

uns dias em São Paulo comigo. Conhece São

Paulo, Lina?

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Lina

(Negando com a cabeça) Mesmo aqui na cidade,

só fui umas três vezes. Faz dois anos que não vou

ao cinema. Sei que nunca mais vou sair deste

buraco.

Mariana

O Paiol velho não é buraco, Lina, e foi uma fa-

zenda muito bonita.

Lina

Desculpe, dona Mariana, não disse por mal.

Mariana

Não tem importância. Compreendo. Meu marido

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não gostava disto aqui. E ele era o dono. Só pen-

sava em viajar, divertir-se, gozar a vida. Morreu

em boa hora.

Lina

Não diga isso. Morreu tão moço. Em boa hora

por quê?

Mariana

Porque morreu no momento em que ficou pobre

e Carlos nunca poderia ser um homem pobre.

Nasceu rico e para ser rico.

Lina

E nós aqui nascemos na pobreza. Com tudo a

gente se acostuma.

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Mariana

A quem o diz! A que horas João Carlos saiu?

Lina

Com o toque do sino. Às cinco horas da manhã.

Saíram os dois a cavalo. Foram primeiro ao Ria-

chão.

Mariana

Queira Deus que João Carlos tome gosto pela

vida de fazenda. Tenho medo. É a única coisa

que lhe resta. Uma fazenda velha, crivada de dí-

vidas. (Ouve-se o ploque-ploque dos cavalos que

se aproximam. Lina sai para a cozinha. Entram

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João Carlos e Tonico. O moço é bonitão, forte e

elegante)

João Carlos

Puxa! Esta vida de fazendeiro com quatro horas

no lombo de um cavalo, todos os dias, não é para

qualquer um!

Mariana

Você logo se acostuma. Sente-se, seu Tonico, o

senhor também deve estar cansado.

Tonico

Não posso, dona Mariana, tenho que ir com o

Lourenço na casa das máquinas.

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Mariana

Deixe para depois do almoço. Ah, é verdade,

o Lourenço me arrumou a passagem, leito e

tudo.

João Carlos

Então você vai hoje mesmo?

Mariana

Às duas e meia o automóvel vem me buscar.

Tonico

Mas a senhora só ficou dois dias. Nem dá para

matar as saudades. Também, naquele descon-

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forto!

Mariana

Estava muito bom, e a Lina é ótima cozinheira.

Mas tenho que ir mesmo. Preciso cuidar do fi-

nanciamento lá em São Paulo.

Tonico

A senhora prorrogou o penhor?

João Carlos

E arranjou dinheiro para o custeio deste ano.

Tonico

Sim senhor! Muito boa!

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