O Teatro de Ivam Cabral por Ivam Cabral - Versão HTML

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Quatro textos para um teatro veloz

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Quatro textos para um teatro veloz

Ivam Cabral

São Paulo, 2006

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Governador

Cláudio Lembo

Secretário Chefe da Casa Civil

Rubens Lara

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretora Financeira e

Administrativa

Nodette Mameri Peano

Chefe de Gabinete

Emerson Bento Pereira

Coleção Aplauso Teatro Brasil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Projeto Gráfico

Carlos Cirne

Assistência Operacional

Andressa Veronesi

Editoração

Aline Navarro

Tratamento de Imagens

José Carlos da Silva

Revisor

Sárvio Holanda

Dante Pascoal Corradini

Amâncio do Vale

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Apresentação

“O que lembro, tenho.”

Guimarães Rosa

A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa Oficial, tem como atributo principal reabilitar e resgatar a memória da cultura nacional, biogra-fando atores, atrizes e diretores que compõem

a cena brasileira nas áreas do cinema, do teatro e da televisão.

Essa importante historiografia cênica e audio-

visual brasileiras vem sendo reconstituída de

manei ra singular. O coordenador de nossa cole-

ção, o crítico Rubens Ewald Filho, selecionou,

criteriosamente, um conjunto de jornalistas

especializados para rea lizar esse trabalho de

apro ximação junto a nossos biografados. Em

entre vistas e encontros sucessivos foi-se estrei -

tan do o contato com todos. Preciosos arquivos

de documentos e imagens foram aber tos e, na

maioria dos casos, deu-se a conhecer o universo

que compõe seus cotidianos.

A decisão em trazer o relato de cada um para

a pri meira pessoa permitiu manter o aspecto

de tradição oral dos fatos, fazendo com que a

memó ria e toda a sua conotação idiossincrásica

aflorasse de maneira coloquial, como se o biografado estivesse falando diretamente ao leitor.

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Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator importan te na Coleção, pois os resultados obti dos ultra-passam simples registros biográ ficos, revelando ao leitor facetas que caracteri zam também o

artista e seu ofício. Tantas vezes o biógrafo e o biografado foram tomados desse envolvimento,

cúmplices dessa simbiose, que essas condições

dotaram os livros de novos instru mentos. Assim, ambos se colocaram em sendas onde a reflexão

se estendeu sobre a forma ção intelectual e ide-

ológica do artista e, supostamente, continuada

naquilo que caracte rizava o meio, o ambiente

e a história brasileira naquele contexto e mo-

mento. Muitos discutiram o importante papel

que tiveram os livros e a leitu ra em sua vida.

Deixaram transparecer a firmeza do pensamento

crítico, denunciaram preconceitos seculares que

atrasaram e conti nuam atrasando o nosso país,

mostraram o que representou a formação de

cada biografado e sua atuação em ofícios de lin-

guagens diferen ciadas como o teatro, o cinema e a televisão – e o que cada um desses veículos lhes exigiu ou lhes deu. Foram analisadas as distintas lingua gens desses ofícios.

Cada obra extrapola, portanto, os simples relatos biográficos, explorando o universo íntimo e

psicológico do artista, revelando sua autodeter-

minação e quase nunca a casualidade em ter se

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tornado artis ta, seus princípios, a formação de sua persona lidade, a persona e a complexidade de seus personagens.

São livros que irão atrair o grande público, mas que – certamente – interessarão igualmente aos

nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi discutido o intrincado processo de criação que

envol ve as linguagens do teatro e do cinema.

Foram desenvolvidos temas como a construção

dos personagens interpretados, bem como a

análise, a história, a importância e a atualidade de alguns dos personagens vividos pelos biografados. Foram examinados o relaciona mento dos

artistas com seus pares e diretores, os proces-

sos e as possibilidades de correção de erros no

exercício do teatro e do cinema, a diferenciação fundamental desses dois veículos e a expressão

de suas linguagens.

A amplitude desses recursos de recuperação

da memória por meio dos títulos da Coleção

Aplauso, aliada à possibilidade de discussão de instru mentos profissionais, fez com que a Imprensa Oficial passasse a distribuir em todas as biblio tecas importantes do país, bem como em

bibliotecas especializadas, esses livros, de grati-ficante aceitação.

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Gostaria de ressaltar seu adequado projeto

gráfi co, em formato de bolso, documentado

com iconografia farta e registro cronológico

completo para cada biografado, em cada setor

de sua atuação.

A Coleção Aplauso, que tende a ultrapassar os cem títulos, se afirma progressivamente, e espe ra contem plar o público de língua portu guesa com

o espectro mais completo possível dos artistas,

atores e direto res, que escreveram a rica e diver-sificada história do cinema, do teatro e da televisão em nosso país, mesmo sujeitos a percalços

de naturezas várias, mas com seus protagonistas

sempre reagindo com criati vidade, mesmo nos

anos mais obscuros pelos quais passamos.

Além dos perfis biográficos, que são a marca

da Cole ção Aplauso, ela inclui ainda outras séries: Projetos Especiais, com formatos e características distintos, em que já foram publicadas excep cionais pesquisas iconográficas, que se origi naram de teses universitárias ou de arquivos

documentais pré-existentes que sugeriram sua

edição em outro formato.

Temos a série constituída de roteiros cinemato-

gráficos, denominada Cinema Brasil, que publi cou o roteiro histórico de O Caçador de Dia mantes, de Vittorio Capellaro, de 1933, considerado o

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primeiro roteiro completo escrito no Brasil com

a intenção de ser efetivamente filmado. Parale-

lamente, roteiros mais recentes, como o clássico O caso dos irmãos Naves, de Luis Sérgio Person, Dois Córregos, de Carlos Reichenbach, Narradores de Javé, de Eliane Caffé, e Como Fazer um Filme de Amor, de José Roberto Torero, que deverão se tornar bibliografia básica obrigatória para as escolas de cinema, ao mesmo tempo em

que documentam essa importante produção da

cinematografia nacional.

Gostaria de destacar a obra Gloria in Excelsior, da série TV Brasil, sobre a ascensão, o apogeu e a queda da TV Excelsior, que inovou os proce-dimentos e formas de se fazer televisão no Brasil.

Muitos leito res se surpreenderão ao descobrirem que vários diretores, autores e atores, que na

década de 70 promoveram o crescimento da TV

Globo, foram forjados nos estúdios da TV Ex-

celsior, que sucumbiu juntamente com o Gru po

Simonsen, perseguido pelo regime militar.

Se algum fator de sucesso da Coleção Aplauso merece ser mais destacado do que outros, é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o percurso cultural de seu país.

De nossa parte coube reunir um bom time de

jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa

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docu mental e iconográfica, contar com a boa

vontade, o entusiasmo e a generosidade de nos-

sos artistas, diretores e roteiristas. Depois, apenas, com igual entu siasmo, colocar à dispo sição todas essas informações, atraentes e aces síveis, em um projeto bem cuidado. Também a nós

sensibilizaram as questões sobre nossa cultura

que a Coleção Aplauso suscita e apresenta – os sortilégios que envolvem palco, cena, coxias, set de filmagens, cenários, câme ras – e, com referência a esses seres especiais que ali transi tam e se transmutam, é deles que todo esse material de vida e reflexão poderá ser extraído e disse minado como interesse que magnetizará o leitor.

A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter

criado a Coleção Aplauso, pois tem consciência de que nossa história cultural não pode ser

negli genciada, e é a partir dela que se forja e se constrói a identidade brasileira.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente da

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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Para Rodolfo García Vázquez, Silvanah Santos e Germano Pereira – irmãos de alma e de sina.

Para Irineu, Ivani, Irani, Dimi e Cláudio.

Para meus pais, José Francisco e Eunice.

Ivam Cabral

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Introdução

Ivam Cabral não é um dramaturgo, mas um ator

que escreve eventualmente para o teatro. Escreve quando a necessidade o instiga, como foi o caso

de De profundis. Escreve quando é desafiado por uma idéia arrebatadora, categoria em que

entram Os cantos de Maldoror. Escreve quando busca exorcizar demônios, gaveta em que se en-caixa A herança do teatro. Escreve quando reflete sobre o comportamento humano, o nosso comportamento, e o desastroso legado que gerações de homo sapiens (?) estão deixando umas para as outras, registrando sua visão sombriamente

13

esperançosa, ou vice-versa, em Faz de conta que tem sol lá fora.

O teatro de Ivam Cabral não é o de alguém preo-

cupado com a eternidade literária, não visa às

academias. Quer, isso sim, o palco. Quer a ence-

nação, o diretor, os atores, a produção. Ator de sólida técnica e arrebatadora ousadia, Ivam é

hoje um dos intérpretes mais completos e madu-

ros de sua geração. Há 17 anos, no Teatro dos

Satyros, que fundou ao lado de Rodolfo García

Vázquez, constrói uma sólida biografia, que não

esmorece diante de nenhum desafio.

Atuar ao lado de Ivam é uma aventura.

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Em cena, ele nunca pede menos que o absoluto.

A absoluta entrega ao personagem, a absoluta

possibilidade de incorporar o acaso à represen-

tação. É um ator que combate como poucos o

tédio da repetição, Ivam não repete. A cada noite recria, reinventa as personagens que vive. Dono

de um incrível rigor, de uma seriedade que no

trabalho beira o fervor religioso, está sempre

pronto a mostrar a verdade do trabalho do ator,

com uma rara disponibilidade. Onde outros

atores recuam, intimidados pela entrega exces-

siva ao papel, ao público, à vida, Ivam avança.

E estabelece um exemplo de domínio de cena,

de conhecimento íntimo do jogo teatral.

14

A dramaturgia de Ivam obedece a essas carac-

terísticas. É visceral e pulsante. Mas o trabalho dramatúrgico desse artista requer a encenação, o diálogo com a direção e com seus intérpretes.

Qualquer texto teatral demanda isso, sem dúvi-

da. Mas em dramaturgias como a de Ivam Cabral

a peça não é redigida com vistas à sua autonomia literária. A escrita está endereçada totalmente

à cena. Ainda assim, as peças, quando lidas,

revelam uma intensa capacidade de construir

desafios. São obras instigantes, que mexem com

a imaginação do leitor, que tratam de questões

urgentes. A liberdade, o direito à diferença, a

natureza do mal e seu exercício, a angústia de

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viver, o prazer de viver, todas essas questões são abordadas nas peças que integram este volume.

São assuntos que o ator/autor disseca com a mes-

ma paixão com que elabora suas personagens.

São mergulhos profundos em indagações que estão na cabeça de todos os seres pensantes do

planeta neste momento. A diferença é que o

artista dá forma a elas. E não nos promete saídas fáceis. O teatro de Ivam Cabral explora abismos.

Boa aventura, leitor.

Alberto Guzik

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Prefácio: Lux in Tenebris

Ivam Cabral merece a ousadia da Coleção Aplauso em incluí-lo na série, mesmo que ele diga não ser um dramaturgo. Ivam, às vezes, assume um dis-curso defensivo. Timidez. O fato é que não pára

de fazer coisas como ator, diretor e, sim, autor de duas peças prontas e duas adaptações de textos

conhecidos: Oscar Wilde e Lautréamont.

A percepção dramática na elaboração do enredo,

a definição exata dos personagens e a origina-

lidade dos assuntos estão bem delineados em

Faz de conta que tem sol lá fora e A herança do teatro.

17

Na primeira, duas pessoas fazem confidências

sobre a vontade de chorar em dia de chuva. Na

se gunda, um letreiro em néon sinaliza o tem-

po passando para gente que age em função

dos tormentos que se abatem sobre suas vidas

miúdas (empregada doméstica, vendedora de

flores, empregado de estacionamento, um enig-

mático, Dramaturgo Fracassado, entre outros).

O realismo é sempre perpassado por um sopro

de fantasia.

O escritor crê na impalpável dimensão noturna

metropolitana onde gatos e aparências – incluin-

do-se a sexual - são pardos.

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Prefere filtrar esse cotidiano uma condescendên-

cia não diretamente ideológica. O protesto social está subentendido.

É quase Fellini, mas nem tanto. O universo do

cineasta italiano é o dos provincianos um tanto

puros e protegidos pela escala humana da cidade.

Na Rimini de celulóide, a família do adolescente e a prostituta gorda se conhecem. São Paulo, ao

contrário, é pura impiedade anônima, daí a sua

face criminal. Com personagens em trânsito, na

exis tência e na cidade, Ivam integra a drama-

turgia dos anos 90, que sucede à da virada dos

anos 60 para a década de 70, que teve em Plínio

Marcos a sua figura referencial. O conjunto delas 18

forma um teatro de sobreviventes. Se em Plínio

eles são cruéis ao limites do não humano, Ivam

prefere os indefesos, fixando-os entre o lirismo e a crônica policial.

O teatro é o campo por excelência dos perde-

dores e nele cada autor se revela na descrição das quedas. Enquanto Jean Genet ritualiza a perver-são e Plínio fala de prostitutas massacradas, Ivam Cabral cuida dos desgarrados portadores da loucura mansa que os anestesia dos sofrimentos.

Mais um artista com a província na memória afeti-va, e que sempre a levará consigo. Observa a solidão de concreto com olhos que viram paisagens

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amenas ainda que melancólicas (como Leilah

Assumpção, José Vicente de Paula, Antonio

Bivar, Mário Prata e Timochenco Wehbi, todos

da chamada Geração 70). Ivam é paranaense da pequena e bonita Ribeirão Claro, na divisa

com o Estado de São Paulo. Sua vida por ele

mesmo: “Em Ribeirão eu fazia muito teatrinho

com o pessoal da Cruzada Eucarística e também

do Lions. Cresci sabendo que iria embora de lá

quando fizesse 18 anos com o propósito de me

profissionalizar no teatro. Com 19 anos estava

morando em Curitiba, fazendo Administração de

Empresas e trabalhando no Banestado. Morava

próximo do Teatro Guaíra. Era freqüentador mais

que asssíduo. Um dia, vi um anúncio do primeiro

19

vestibular do Curso Superior de Artes Cênicas. Me inscrevi, passei e acabei por me formar”.

Os personagens e autores de O assalto, de José Vicente, Fala baixo senão eu grito, Leilah, O cordão umbilical, de Prata, A vinda do Messias, de Timochenco contam histórias semelhantes. Todos

eles, e Ivam, são interioranos e poderiam cantar o poema Mamãe, coragem do piauiense Torquato Neto musicado por Caetano Veloso:

Mamãe, mamãe não chore

A vida é assim mesmo eu fui embora

Mamãe, mamãe não chore

Eu nunca mais vou voltar por aí

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Mamãe, mamãe não chore

A vida é assim mesmo

Eu quero mesmo é isto aqui

Mamãe, mamãe não chore

(...)

Mamãe, mamãe não chore

Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz,

Mamãe, seja feliz

Mamãe, mamãe não chore

(...)

Eu por aqui vou indo muito bem,

De vez em quando brinco carnaval

E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim

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E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim

Ivam: “Assim que me formei no curso de teatro

arrumei minhas coisas e me mandei para São

Paulo. Cheguei sozinho e não conhecia ninguém.

Arrumei um quarto numa pensão na Liberdade e

saí por aí. Para me sustentar, consegui um trabalho numa distribuidora de livros. Fui à ECA/USP

buscar informações sobre o curso de mestrado

e vi um anúncio que procurava atores. Era um

grupo do Rodolfo García Vázquez. Fiz o teste,

passei e comecei a trabalhar com o Rodolfo no

início do ano de 1989. Em junho deste mesmo

1989 nós dois criamos Os Satyros”.

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Enfim, a história acabou bem e a mãe de Ivam

não chorou. Assiste aos espetáculos do filho

que, se não brinca tanto o carnaval, fundou um

teatro. É lá que se abrigam os anjos caídos dos

textos de Sade, Lautréamont, Wilde, Plínio, Mário Bortolotto, a alemã Dea Loher de A vida na Praça Roosevelt, e do próprio Ivam.

Os dramaturgos dos anos 90 recolocaram em pau-

ta a degradação social das grandes cidades. O que era explicitado quase só por Plínio Marcos ganhou o interesse desses novos autores que se voltam

para a violência das periferias e para a transfor-mação dos pequenos delitos em crimes horrendos.

Parte deles retoma o fio do isolamento, o mesmo

21

sentimento de desamparo e estranheza caracterís-

tico das peças dos dramaturgos dos anos 70.

A figura do jovem sem rumo é recorrente em

cena (bastam os exemplos conhecidos de À margem da vida, de Tennessee Williams e A his tória do zoológico, de Edward Albee). O tea tro brasileiro posterior ao engajamento de es querda de

Gianfrancesco Guarnieri (Eles não usam black-tie) e Oduvaldo Vianna Filho, entre outros, nos anos

50 e 60, voltou-se, sobretudo em São Paulo para

a aglomerada solidão poetizada por Tom Zé.

A imagem da selva de pedra foi revista por escritores que vivenciaram dias de anonimato em

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pensões modestas e empregos de circunstância

na cidade que plantei pra mim / e que não tem mais fim”. Há variações de enfoque com incursões pelas crises existenciais e morais da classe média. É o que faz, por exemplo, Consuelo de

Cas tro em À flor da pele e Caminho de volta, e Maria Adelaide do Amaral, a partir de Bodas de papel. Ou seja, de meados de 1968 à atualidade duas gerações forjaram a dramaturgia da migra-

ção província para a capital, dos atritos entre

tempe ramentos sensíveis e a rudeza nos contatos humanos e das fugas da realidade pelos vícios,

fetiches, sexo e, no limite, crime. Há as exceções de Samir Yazbek, Bosco Brasil, Otavio Frias Filho 22

e Alcides Nogueira, mais dedicados às questões ideológicas, históricas e culturais. Contribuições que só enriquecem esse quadro.

Mas o peso da entropia social, da guerra de to dos contra todos, influi decisivamente nos auto res de agora que descrevem o que se passa na periferia

e nos cortiços centrais. Da favela à Cra co lândia (o quadrilátero paulistano da droga) es tão

arma dos os cenários de Fernando Bonassi, Amir

Labaki, Nilton Bicudo, Pedro Vicente, Leonardo

Alckmin, Mário Bortolotto, Jarbas Capusso Filho

e Ivam Cabral. Cada um ao seu jeito. Entre a

surdina das dores particulares e a brutalidade dos estupradores. A pluralidade de estilos – e sem o enquadramento ideológico do passado – permite

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abordagens psicológicas, fantasias mais ou menos absurdas, mas verossímeis, recortes sociológicos e, até a auto-referência comportamental traduzida

no teatro da questão gay.

Ivam escolheu o registro da marginalidade, mas

não a dos que praticam a violência consciente e

assumida. Ao contrário, é a inquietante fragili-

dade das suas figuras que incomoda. Os repentes

erráticos de viúvos, sem teto, solteirões, travestis, gente de programa e suicidas em potencial baixam sobre esses enredos como a luz da rua.

É “nos delírios nervosos / dos anúncios lumino-

sos”, do samba canção de Lupiscínio Rodrigues,

que transitam pobres diabos risíveis, patéticos

23

e alucinados. Ivam Cabral chora e ri por eles.

Pela mulher que carrega os ossos da filha para

enterrar no Nordeste, por aquela outra que só

tem um gato por companhia.

Fora do próprio texto, acolhe no palco de Os

Saty ros a sexualidade cambiante e áspera de Filo-sofia na alcova, Sade, A vida na Praça Roosevelt e Os can tos de Maldoror, de Lautréamont, tradu-zido pelo poeta Cláudio Willer, que ajustou às

suas necessidades de ator, e De profundis, de Oscar Wilde, original em prosa que recriou como

uma peça sua.

Essas duas co-autorias estão incluídas no presente volume.

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A característica mais forte do teatro de Ivam

Cabral talvez seja mesmo o lirismo em clima de

absurdo. Algo do universo infantil e cruel de

Fernando Arrabal mesclado pela louca vaidade

dos fracassados que se enganam para sobreviver.

Como em Bastidore s, de Chico Buarque:

“Cantei, cantei

Nem sei como eu cantava assim

Só sei que todo o cabaré

Me aplaudiu de pé

Quando cheguei ao fim”

O devaneio de Ivam não ofusca, porém, sua com-

paixão quase religiosa pelos desvalidos. Demons-

24

tra sempre afeto pelos amalucados que arrastam

suas esquisitices pelas esquinas. Vê nos prostitutos de todas as tendências o comportamento do

hermafrodita de Lautréamont, “aquele de ener-

gia viril e dono de graça de uma virgem celeste”.

Aqui se reúnem em uma só pessoa, o ator, o autor e o realizador de uma estética teatral – em parce-ria com Rodolfo García Vázquez – que incorpora

sofisticados conhecimentos musicais, literários e de artes plásticas e a simpatia irônica pelo mais deslavado kitsch. Tem-se assim o Cabaré europeu, mordaz e triste e esse outro pobretão e latino,

às vezes engraçado. O material posto em cena

lembra um pouco tudo: expressionismo alemão,

Goya, Fassbinder, Herzog, Fellini, o barroco, o

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carnaval e a arte popular do Brasil. Na síntese, uma outra linguagem, a dos Satyros.

Ivam Cabral é o poeta desse território em lusco-

fusco. Vive mergulhado no ambiente que criou e

que depende muito do seu talento em transfigu-

rar em alguma esperança o que é, possivelmente,

um fim de mundo.

Jefferson Del Rios

abril 2006

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Faz de conta que tem sol lá fora

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Silvanah Santos

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Faz de conta que tem sol lá fora

Peça teatral em ato único, de Ivam Cabral.

Faz de conta que tem sol lá fora foi selecionado em 2002 para o projeto Agora metrópolis, pro-movido pelo Teatro Ágora, em São Paulo/SP. No

dia 7 de abril de 2003, aconteceu a estréia do

espetáculo, no mesmo espaço. A ficha técnica

era a seguinte:

Elenco: Beatriz Bolonha e Nilton Bicudo

Direção: Aline Meyer

Cenário e Figurinos: Aline Meyer, Beatriz Bolo-29

nha, Carlos Baldim e Nilton Bicudo

Iluminação: Paulo Barcellos

Trilha Sonora: Aline Meyer e Nilton Bicudo Realização: Teatro Ágora

Ainda em 2003, houve nova produção do texto.

O espetáculo estreou em Curitiba/PR, no Espaço

dos Satyros, no dia 12 de setembro, com a seguin-te ficha técnica:

Elenco: Silvanah Santos e Cristóvão de Oliveira Cenário, Sonoplastia, Iluminação e Direção: Rodolfo García Vázquez

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Figurinos: Silvanah Santos

Produção Executiva: Dimi Cabral e Gisa Gutervil Projeto Gráfico: Juarez Zaleski e Fabio Biscaia Realização: Companhia de Teatro Os Satyros Patrocínio

Prefeitura Municipal de Curitiba

Fundação Cultural de Curitiba

Projeto Residências Culturais.

Apoiadores

Viação Itapemirim Penha

Charlotte Hair

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Studio Corpo Livre

Ouro Verde Hotel

Editora Gráfica

Dramatis Personae

Ele

Ela

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Cristóvão de Oliveira e Silvanah Santos

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Cristóvão de Oliveira e Silvanah Santos

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(Uma campainha que toca)

ELE

Oi.

ELA

Oi.

ELE

Incomodo?

ELA

A porta estava aberta. Entre.

ELE

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Posso?

ELA

Eu disse pra você entrar.

(Pausa)

ELA

Oi.

ELE

Te cumprimentei quando cheguei.

ELA

Como?

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ELE

Disse oi quando cheguei.

ELA

(Sorrindo) Sim, você disse.

ELE

Eu posso me sentar?

ELA

Ah, claro. Você pode ficar à vontade.

ELE

Eu não estou muito bem.

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ELA

Eu percebi.

ELE

(Nervoso) O quê?

ELA

Que você não estava muito bem.

ELE

É. Sempre quando chove.

ELA

Eu sei.

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ELE

Sabe mesmo?

ELA

Fico aqui e vejo tudo.

ELE

Sei.

ELA

Isso é a miraculosa potência do tempo.

ELE

Sei.

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ELA

(Casual) Eu também choro quando chove.

ELE

Mas hoje eu ainda não chorei.

ELA

Se quiser, fique à vontade.

ELE

Posso? Me sentar?

ELA

Pode. E chorar também.

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ELE

Chorar não posso.

(Pausa)

ELE

Nem falar tô podendo. Mas quis vir aqui. Ouvi

música.

ELA

É, eu tava ouvindo música.

ELE

Triste, né?

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ELA

Um pouco. É porque hoje eu chorei. Então penso

coisas tristes, acabo ouvindo tristezas também.

ELE

Como eu.

ELA

É, como você.

ELE

Por isso a gente se aproximou.

ELA

Por causa da tua música. Sempre tão triste...

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ELE

Mas hoje era você que ouvia músicas. E eu não

podia chorar...

ELA

Sempre pode.

ELE

Posso nada. Da última vez chorava enquanto

chovia. E enquanto chorei a chuva não passou.

ELA

Faz de conta que tem sol lá fora.

ELE

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Mas é noite.

ELA

É só fazer de conta.

ELE

É, talvez resolva.

ELA

Então a gente fecha a cortina. Assim. Pronto.

Agora tem sol. Não existe mais tristeza.

ELE

Ficou escuro aqui.

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ELA

(Acendendo o abajur) Eu acendo o abajur. Mas

tenho velas também. Nos dias de calor eu deixo

as minhas velas durante vinte e quatro horas

no refrigerador. Assim, elas não pingam ao se

queimarem e duram mais... (Pequena pausa)

Você quer?

ELE

O que?

ELA

Que eu acenda uma vela?

38

ELE

Não é preciso.

ELA

Aprendi isso com a minha mãe.

ELE

Aprendeu o quê?

ELA

A guardar as velas no refrigerador.

ELE

Ah, sei.

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ELA

Mas aprendi outras coisas práticas também. Sabia que o vinagre é bastante útil para purificar o ar de uma sala viciada pela fumaça do cigarro?

ELE

Não sabia, não.

ELA

É sempre bom saber destas coisas.

ELE

Você fuma?

39

ELA

Não.

ELE

Como eu.

ELA

Mas eu gosto de inovações, sabe? Principalmente

quando elas proporcionam conforto, bem estar

e beleza. Gosto de aprender coisas úteis.

(Pequena pausa)

ELE

Você se sentaria perto de mim?

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ELA

Me sentaria se antes você dissesse o seu nome.

ELE

É verdade. Você não sabe o meu nome. E eu não

sei o seu...

ELA

(Rindo muito) Minha mãe dizia sempre que exis-

tem apenas duas maneiras de sermos imparciais

e sem preconceitos. A primeira é sermos ignoran-

tes. A segunda, completamente indiferentes.

40

(Os dois riem. Pausa)

ELA

Minha mãe... Sempre dizendo da importância

de termos nos associado à biblioteca do Clube

das Moças. Dizia a todo mundo: “Vejam só este

volume luxuosamente encadernado”. E quando

chegava uma nova amiga, ela era a primeira a

insistir que teria o imenso prazer em inscrever a novata no clube de sócias. Tinha tantas amigas,

ela, minha mãe... A casa sempre cheia de amigas.

Era tanta confusão que eu comecei a ficar com

medo de fechar a porta. Tinha sempre medo de

ficar sozinha. Por isso a porta, sempre aberta.

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ELE

É verdade. Tua porta está sempre entre aberta.

ELA

Tenho medo de fechar. A porta.

ELE

Do quê?

ELA

O medo?

ELE

Sim. Medo do quê?

41

ELA

De ficar presa aqui. Credo cruz, nem pensar nisso eu gosto.

(Pausa)

ELA

Houve uma vez. Um homem. Eu tinha nove

anos. Quando menstruei pela primeira vez. Meu

cunhado, marido da minha irmã. Trabalhava na

polícia. E cuidava de mim. Mexia comigo, assim,

por entre as minhas pernas. E eu morava com ele

e minha irmã. Ele me proibiu de fechar a porta.

Desde este dia comecei a ficar com medo de ficar presa, trancada.

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ELE

E ele? O cunhado?

ELA

Me protegia. E eu gostava. Acho que foi meu pri-

meiro amor. Tem uma foto dele. Aqui. Foi tirada

dias antes de ele morrer. Assassinado. Um tiro

aqui, na nuca. Um só. E acabou tudo.

ELE

Sempre acaba.

ELA

Sim, acabou. Então eu tinha quinze anos e tomei

uma caixa de Valium inteirinha. Fiquei em coma

42

por quinze dias e quando acordei pensei que

tinha morrido. Comecei a viver este sonho.

(Pausa)

ELA

(Sempre olhando para a fotografia) Apren di

muitas coisas com ele. E com minha tia também.

A irmã mais nova da minha mãe. Linda, ela.

A úni ca que sabia de tudo. Era puta, ela. Tra-

balhava num lugar chique, tinha dinheiro, era

rica. Aprendi tantas coisas... (Mudando de tom)

Homem só serve pra escarrar dentro da gente.

(Severa) De quatro nunca. Isso acaba com uma

mulher. (Séria) E tinha um tal que queria ir com Ivam Cabral miolo.indd 42

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nós duas. Minha tia me levava, mas eu ficava

num canto lendo a Bíblia, proibida de olhar. E eu lia muito. E rápido. Não olhava pra eles, apenas ouvia. Os gemidos. Os dele eram sempre mais

altos. Os da minha tia eram musicais. Gemia como música. Ele não. Ele berrava enquanto eu lia os

salmos, que eram os seus preferidos. (Pausa lon-

ga) É... Morreu. Um dia tomou pinga misturada

a veneno de ratos. Morreu feito uma ratazana.

E eu estava ao seu lado. Comecei a rezar pra ela.

Do breve missal romano dos domingos e festas,

que era o que ela mais gostava: Gloria in excélsis Deo et in terra pax hominibus bonae voluntáris.

Laudamus te. Benedicimus te. Adoramus te.

43

Glorificamus te... (Melancólica, olhando mais

profundamente a fotografia) E eu fiquei sozinha, perdida nesse mundo.

ELE

Mas e a sua mãe?

ELA

Continuou por aí...

(Pausa longa)

ELA

Morreu também. Coitada. Nem bicho merecia o

final que ela teve.

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ELE

E o que aconteceu com ela?

ELA

Ah, vou te contar tudo. Tudinho. Espera aí. (Me-

xendo em uns papéis de uma gaveta) Tenho aqui

tudo guardado. Documentado. Este é o meu te-

souro. Meu verdadeiro tesouro.

ELE

E que tesouro é esse?

ELA

44

Os recortes dos jornais. Ela ficou famosa no país inteiro. Foi até capa de revista. Veja aqui. (Entregando-lhe uma pasta com recortes de jornais

velhos) Olhe como era linda a minha mãe.

ELE

Linda mesmo.

ELA

Foram três que pegaram ela. Você conhece o

ferro velho do Latino-América?

ELE

Aquele da esquina?

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ELA

Este mesmo. Então, foi lá. Tava toda recortada,

dentro de uma mala. Não deu tempo de os três

fugirem. Foram presos com a mala na mão.

ELE

E por que fizeram isso?

ELA

Ninguém conseguiu explicar. Falaram apenas que

estas coisas é comum em cidades como a nossa.

ELE

É sempre comum mesmo. Acontecem muitas

coi sas.

45

ELA

Sei lá. Nada me tira da cabeça de que foi por

causa de uma história que ela leu num dos li-

vros da Biblioteca das Moças. (Confessional) Era proibido, o livro.

ELE

Entendo.

ELA

Mas pode ser especulação minha também, não

é? Pensam tantas coisas da gente... Você não viu o que andaram dizendo do novo síndico? É...

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(Professoral) Qual deve ser o verdadeiro dever

de um líder?

ELE

Não sei.

ELA

(Convicta. Feliz) Manter a sua liderança, não se contentar com as posições conquistadas e com

os louros obtidos.

ELE

E como você sabe isso?

46

ELA

Ih, sei de muitas, muitas coisas.

(Silêncio)

ELA

Você ouviu falar na Recoleta?

ELE

Nunca ouvi, não.

ELA

É um cemitério de Buenos Aires. Tem cada histó-

ria linda lá.

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ELE

Que histórias?

ELA

Tem uma história... (Sonhadora)... De uma noiva

que morreu no dia em que completava dezoito

anos. Ia se casar na semana seguinte. Morreu

enquanto se preparava para ir ao Teatro Colón.

Dizem que foi envenenada pela mãe que tinha

um caso com seu noivo. Imagina só. Envolver-se

com o próprio genro? Então, o pai que gostava

muito da filha e que não sabia nada da ligação

de sua mulher com o genro, mandou enterrar a

filha vestida de noiva. E construiu um palácio pra ela. Um regalo, só. Em plena Recoleta.

47

ELE

Você sabe de muitas coisas.

ELA

Sei, sim. E você sabia o que era regalo?

ELE

Não sabia, não.

ELA

(Com muito orgulho, saboreando as pala vras)

É uma coisa especial, moderna. Não é uma pa-

lavra linda?

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ELE

Especial ou moderna?

ELA

Não. Regalo. (Soletrando) Re-ga-lo. (Pequena

pausa) Foi a última palavra que a minha mãe

me disse. Que ia comprar uma coisa pro jantar

que era um re-ga-lo. E saiu. Foi encontrada dias depois dentro daquela mala.

ELE

É... Você sabe muitas coisas.

ELA

48

Sei muito, sim. Sempre fui estudiosa. (Pausa) Mas você veio aqui por causa da sua tristeza...

ELE

Por causa da chuva também.

ELA

É. Por causa da chuva também.

ELE

Me lembro dos domingos. Dá tristeza.

ELA

Também me entristeço aos domingos... Me lem-

bra tanta coisa... (Sonhadora) Domingo... Sempre Ivam Cabral miolo.indd 48

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o principal dia da semana e era o dia em que

se celebrava o mistério de Cristo ressuscitado.

E tinha também o Domingo de Ramos, o primei-

ro domingo da Quaresma. A procissão, as velas

acesas, as pessoas cantando e entoando seus

lamentos. (Pequena pausa) Nossa, dá até arrepio

de lembrar. Você sabe rezar em latim?

ELE

Não, nunca aprendi.

ELA

Eu rezava. Muito. Só em latim.

49

(Silêncio)

ELE

(Tirando umas fotografias do bolso do casaco)

Tem aqui umas fotografias. Você quer vê-las?

ELA

Acho que não. Você me desculpe, mas fico triste

com fotografias.

ELE

Entendo.

(Pausa)

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ELA

Você aceita um chá?

ELE

(Tirando de um dos bolsos de seu casado) Eu

trouxe umas bolachas. Você quer?

ELA

Se você aceitar o chá...

ELE

Aceito.

ELA

50

Chá preto ou camomila?

ELE

É camomila que acalma?

ELA

Acalma muito.

ELE

Então quero.

ELA

Você vê esta chaleira? Tem sempre água esquen-

tando nela. Vê este pretume aqui, nas bordas?

De tanto a coitada ficar no fogo.

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ELE

A noite toda?

ELA

Às vezes, o dia inteiro também.

(Ela serve o chá)

ELE

Bom.

ELA

Bom demais. Eu adoro chá.

ELE

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Você quer bolachas?

ELA

Com licença.

ELE

Fique à vontade.

ELA

Você acredita mesmo que existe perigo no uso

dos raios X? Minha mãe dizia que, apesar de

ser uma das armas mais poderosas da medicina,

os raios X eram muito perigosos. E que a gente

deveria pensar muito antes de permitir qualquer

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exame radiológico. (Pausa. Pensativa, enquanto

come as bolachas) Você quer ouvir música?

ELE

Aquela?

ELA

A mesma.

ELE

Quero.

(Ela coloca um disco numa vitrola. Uma música

muito triste)

52

ELE

Me lembra tanta coisa.

ELA

O que?

ELE

A música.

ELA

Me lembra o Hyde Park.

ELE

O que é isso?

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ELA

Não conhece o Hyde Park? É o pulmão de Lon-

dres. Londres você conhece?

ELE

Também não.

ELA