O Termo Religião Cristã suas Mudanças Históricas e Implicações para a Compreensão Soteriológica n por Carlos Chagas - Versão HTML

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Carlos Roberto de Oliveira Chagas

O TERMO “RELIGIÃO CRISTÔ, SUAS MUDANÇAS

HISTÓRICAS E IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO

SOTERIOLÓGICA NO CRISTIANISMO

Instituto Metodista Izabela Hendrix – FATE-BH

Belo Horizonte

2008

2

Carlos Roberto de Oliveira Chagas

O TERMO “RELIGIÃO CRISTÔ, SUAS MUDANÇAS

HISTÓRICAS E IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO

SOTERIOLÓGICA NO CRISTIANISMO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como

Exigência parcial para a obtenção do grau de

Bacharel em Teologia no Instituto Metodista Izabela

Hendrix – FATE-BH

Orientador: Prof. Ms. Gilmar Ferreira da Silva

Belo Horizonte

2008

3

A todos que, por amor e em humildade, buscam a Verdade.

4

AGRADECIMENTOS

Àquele que me criou, que me assiste e que me espera no fim da minha caminhada.

Aos meus pais que sempre acreditaram em mim: Não tenho palavras para expressar...

À minha Lady: Talvez juntando a gramática de todas as línguas que existiram, existem e que

ainda existirá, quem sabe conseguirei dizer o quanto és minha vida!!! Te amo.

Aos meus irmãos Samuel e Paulinho por cada vibração.

À minha sogra Enilda pelas orações e carinho de mãe.

Às minhas cunhadas Rosane, Eliane, Cristiane e cunhado Carlos Ramalho e à Alessandra: Já

não mais os considero parentes emprestados, mas irmãos de sangue.

À minha igreja pelo sonho compartilhado.

Aos meus colegas de sala pelas dicas e “empurrãozinhos” e também pelo companheirismo.

Ao Pablo, Valéria e Amiel: Se Deus me deu a luz neste curso, vocês me deram cor.

Ao meu orientador Gilmar pela sapiência emprestada, dedicação e paciência. Valeu brother!!!

A todos os professores deste curso que me formaram um teólogo. Um abraço em lágrimas de

felicidade. A honra é toda de vocês!

Ao Ludgero por um dia ter cruzado meu caminho: Cara, você é de grande valia para mim.

Obrigado por existir.

Ao Ricardo Tavares e família pelo companheirismo: Parte da minha vida foi marcada pela

nossa amizade e com certeza o resto dela também. Agradeço a você por ainda andar ao meu

lado.

Ao Gustavo Lima: Realmente adquiri um ótimo estabelecimento... mas é porque você e seus

pais estão lá.

Ao Flávio Gomes ( in memoriam): Nunca te esquecerei.

Ao Ailton: Esta monografia existe porque você me ajudou... tanto pelo empréstimo de seu

Notebook quanto por suas dúvidas. Obrigado.

Ao Fernando e Carla: Vocês são especiais em minha vida.

A todos os meus amigos que, por falta de espaço nesta folha ou por falha na minha memória

RAM não foram citados. Contudo, todos estão em meu coração. Obrigado!

A todos que se preocupam com a paz e com a justiça; que buscam com humildade e

sinceridade a Verdade; aos que cheiram vida: Obrigado. Esta pesquisa é de vocês.

5

“Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? Diz o SENHOR. Não

fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus, e de Quir, os siros?”

(Amós 9:7)

6

RESUMO

O tema maior em que esta pesquisa se encaixa é o da relação entre o termo “religião” e

cristianismo. Especificamente, o objetivo é refletir sobre o termo “religião”, com seus

conceitos adquiridos através dos tempos juntamente com suas adaptações feitas pelas demais

religiões e mais especificamente pelo cristianismo. Nesta pesquisa busca-se traçar brevemente

a história do termo “religião” juntamente com cristianismo, sua história e seu

desenvolvimento e resultados obtidos nessa interação. Percebeu-se que nessa interação o

conceito de religião passou de qualitativo para algo substantivado, fazendo com que a idéia de

religião se tornasse algo diferente de tempos atrás. Refletiu-se sobre o cristianismo e sua

soteriologia mostrando possíveis problemas na teorização da mesma que se deu, em partes,

pela leitura reducionista de se ver como uma religião superior. Ao final da pesquisa conclui-se

que a religião cristã participa veemente da salvação, contudo sua dogmatização do tema é algo

ainda reduzido, pois não chega a uma conclusão plausível. Logo o cristianismo é uma religião

de experiência e resultante das experimentações da fé em Cristo Jesus, que é seu marco

principal e crivo para análise de todas as coisas.

Palavras-chave: Religião, cristianismo, religião cristã, salvação, ser humano, soteriologia,

desenvolvimento histórico, história.

7

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO................................................................................................ 08

2

RELIGIO E SUA TRANSFORMAÇÃO HISTÓRICA................................... 10

2.1 O termo “religio” e suas adaptações históricas.................................................. 10

2.2 O cristianismo como religião ............................................................................ 12

2.3 Dimensão salvadora do termo “religião”........................................................... 16

2.4 Síntese................................................................................................................ 18

3

A RELIGIÃO CRISTÃ E SUA DIMENSÃO SOTERIOLÓGICA

ATRAVÉS DA HISTÓRIA......................................................................................... 20

3.1 O cristianismo em surgimento .......................................................................... 20

3.2 O cristianismo Antigo........................................................................................ 23

3.2.1

Percepções soteriológicas no cristianismo antigo.................................. 25

3.3 O cristianismo da Idade Média.......................................................................... 26

3.3.1

O Escolasticismo: Sua importância para a eclesiologia da época.......... 27

3.3.2

Os pré-reformadores............................................................................... 30

3.3.3

Percepções soteriológicas no cristianismo medieval.............................. 31

3.4 O cristianismo moderno..................................................................................... 32

3.4.1

A Reforma.............................................................................................. 33

3.4.2

Sobre a Igreja Católica Romana............................................................. 34

3.4.3

Da Reforma para as igrejas protestantes: Características e doutrina..... 37

3.4.4

Percepções soteriológicas no cristianismo moderno.............................. 40

3.5 Síntese................................................................................................................ 41

4

SALVAÇÃO E RELIGIÃO: CONTRIBUIÇÕES PARA O DIÁLOGO

INTER-RELIGIOSO.................................................................................................... 42

4.1 A religião como progresso histórico.................................................................. 42

4.2 A salvação como dimensão divina e humana.................................................... 44

4.3 O elemento principal para a salvação no cristianismo....................................... 46

4.4 A religião cristã: codificação sobre o sagrado................................................... 47

4.5 Síntese................................................................................................................ 49

5

CONCLUSÃO.................................................................................................. 50

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................51

8

1- INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é mostrar como que o termo “religião” se transformou

através da história e como que nessa transformação o cristianismo, após usar o mesmo,

participou destas transformações, especialmente na sua compreensão soteriológica.

Por ser um tema amplo, o específico desta pesquisa é de identificar quais mudanças

significativas ocorreram no cristianismo ao se ver como religião e, diante disso, perceber as

implicações benéficas e maléficas que pode ocasionar ao mesmo e como a compreensão sobre

o que seja salvação fica condicionada. Portanto a pesquisa apropriou-se de alguns objetivos

específicos: 1) Apresentar o termo “religião” e suas modificações na história e no ato de sua

apropriação pelo cristianismo; 2) identificar, no decorrer da história do cristianismo, como sua

compreensão enquanto religião sobre salvação se transformou juntamente com o termo

“religião”; 3) apresentar o cristianismo como possibilidade política1 no que tange à sua

compreensão soteriológica.

A metodologia empregada é de pesquisas bibliográficas. Apesar de se pesquisar

especificamente a religião cristã o trabalho optou por não desprezar as demais religiões muito

menos inferiorizar o cristianismo diante das mesmas. Neste trabalho o termo cristianismo diz

respeito a toda comunidade que se identifica com Cristo, já que este é o marco inicial da

religião cristã.

O presente trabalho está estruturado em três capítulos, além da introdução e da

conclusão. No primeiro capítulo o objetivo foi de apresentar como o termo “religião” aparece

no surgimento do cristianismo e, após ser abordado por este, tal capítulo busca apresentar as

mudanças sutis, contudo significativas que ocorreram após esta apropriação. Julga-se como

importante tal averiguação já que o termo “religião” sofreu modificações por influências

externas. Tais modificações fizeram com que o cristianismo se portasse diferentemente

durante sua história.

Portanto no segundo capítulo julgou-se relevante apresentar como que se deu a história

do desenvolvimento cristão durante sua caminhada de fé, dando ênfase à sua soteriologia

desenvolvida no decorrer da história. Isso é de grande valia para perceber que em cada

momento histórico o cristianismo afirmava ter a revelação final sobre o que seja salvação e

como ela se dá. Entretanto sempre novas elaborações surgiam. Lendo o cristianismo com os

“óculos” do termo “religião” que foram apresentados no primeiro capítulo fica mais fácil

1 Entende-se por política como sendo uma habilidade no trato das relações humanas, com vista à obtenção dos

resultados desejados. Para maiores esclarecimentos ver dicionário Aurélio, verbete “política”.

9

perceber que o cristianismo mais participa da salvação do que consegue elaborar teoricamente

sobre ela.

Logo, o quarto capítulo trabalha a possibilidade de o cristianismo ser uma leitura

válida da salvação pelo fato de este experimentar, durante sua trajetória, a própria salvação.

Contudo o mesmo se detém em mostrar que o cristianismo não deve se pautar exclusivamente

em seus dogmas, que são resultados desta experiência, mas se pautar naquele do qual vem o

resultado, a saber, Jesus Cristo de Nazaré. O cristianismo é apresentado como resultado da

dimensão divina e humana da salvação, onde o mesmo é apresentado como progressivo e não

estático.

Interessa a esta pesquisa destacar que não se deve negar a importância das demais

religiões já que as mesmas fazem, com o mesmo intuito, a síntese entre revelação e realidade,

apesar de pressupostos diferentes entre si. Sendo assim o cristianismo é posto em pé de

igualdade podendo ser considerado superior apenas por questão de fé e não existencialmente

falando. Isso é crucial para contribuir para o diálogo inter-religioso. Nenhuma religião é

desprezada, contudo nenhuma religião é afirmada como sendo melhor que outra.

A pesquisa apenas se detém em analisar o cristianismo e sua relação com o termo

“religião”. Deste tempos remotos a humanidade buscou alguma forma de salvação através da

religião. O cristianismo participa desta história com o mesmo objetivo, contudo singular como

as demais religiões. O cristianismo possui diversas faces. Em cada face uma nova leitura

religiosa que não se iguala às demais e nem às anteriores, mas se identificam por certos

elementos que são inatos na sua composição.

10

2- RELIGIO E SUA TRANSFORMAÇÃO HISTÓRICA

O termo “religio” ou “religião” nem sempre possuiu o significado que hoje possui.

Será mostrado neste capítulo, como que se deu o surgimento e a posterior apropriação do

termo pelo cristianismo juntamente com suas elaborações mais sofisticadas para o mesmo.

Desde já é possível considerar que o termo, através da história, obteve grandes modificações e

estas interferiram grandemente na compreensão do mesmo, nunca mais proporcionando a

volta à conceituação que se tinha de início. Tais mudanças foram um processo histórico que

será mostrado a seguir.

2.1- O termo “religio” e suas adaptações históricas

Segundo Smith é equivocado aceitar o termo “religião” como sendo algo que

simplesmente explica a existência de certa instituição religiosa, ou que distingue uma

instituição das demais.2 O termo “religião” é de origem latina e passou por modificações após

sofrer uma transformação da palavra grega avle,gw, podendo ser datado até mesmo antes de

Cristo.3

Lucrécio, filósofo do século I a.C., buscava promover sua própria visão de mundo, e,

ao longo de seu poema de mais de seis mil versos, a palavra “religio”4 nasce denotando a

idéia de um ser celestial; um Ente Supremo. Contudo Cícero, nascido em 188 a.C.,

contemporâneo de Lucrécio, relaciona religião com os deuses gregos, dando à palavra

“religio” novo sentido, todavia se preocupando com uma posição de atitude.5

McGrath salienta que a definição do termo ainda está sendo discutida, entretanto “a

palavra ‘religião’ [...] se refere a ‘crenças e prática que possuem uma referência

sobrenatural’6”. Mas, Antony Giddens não aceita tal definição alegando que a idéia de

“religiões” é algo criado pela mente humana, bem como pode ser um fenômeno social.7 Smith

diz que “Religião [...] significa sujeição voluntária do ser humano a Deus”.8 A dificuldade na

definição se dá pela mutabilidade do termo através da história.9

2 Cf. SMITH, 2006, p.7-13.

3 Dando sentido de: “prestar atenção”; “cuidar de”. Cf. SMITH, 2006, p.187.

4 Apesar de escrita em latim em seus textos, não deixa de apresentar suas características helênicas. É empregada

oito vezes no singular e seis no plural. Cf. SMITH, 2006, p. 32-33.

5 Cf. SMITH, op.cit., p.32-34.

6 Cf. McGRATH, 2005, p.603.

7 Ibidem, p.603.

8 Cf. SMITH, op.cit., p.108.

9 Cf. McGRATH, op.cit., p.304-606.

11

No séc. I d.C. o termo “religio” sofre novas modificações. Nas palavras de Smith: “o

termo ‘religio’, após ter sido adotado pelos cristãos, tornou-se mais multifacetado do que

nunca e adquiriu profundidades bem novas. Mas ele não ganhou nada em clareza”.10 O termo

passou a ser usado em ritos e observâncias. Logo “um desenvolvimento inovador a partir

disso talvez seja o emprego de ‘religio’ para designar também a organização estrutural da

igreja, com seus diferentes níveis eclesiásticos”. O termo, que antes era usado para tratar

questões acerca de envolvimento com o outro ou com algo, que também se inclinava a

explicações sobre a realidade, agora já tem um significado mais amplo. Seu intuito agora é

trazer definição (conceito) e distinção (contraste) deixando para segunda instância a

preocupação com o envolvimento com “o outro”. O ápice da ampliação do sentido do termo

se dá no séc. IV. O termo “religio” passa a designar a organização estrutural da igreja com

seus diferentes níveis eclesiásticos.11

Ainda segundo Smith “pela primeira vez nessa área, aparece a noção extremamente

significativa de que, se é certo adorar a Deus de uma forma, então é errado fazê-lo segundo o

modelo alternativo do vizinho”.12 O termo “religio”, que antes era algo singular que se referia

à externalização dos sentimentos de coração de alguém, agora precisa ser usado no plural para

distingui-lo de outras instituições. Religião passa a ser instituição.13 Nas palavras de Smith:

Disso surgem dois desdobramentos. Um é o plural 'religiões', que é inviável

enquanto pensarmos em algo que acontece no coração das pessoas, como

piedade, obediência, reverência, adoração (nenhuma dessas palavras tem plural).

O plural aparece - ele se torna padrão a partir de meados do século XVII e

comum a partir do século XVIII - quando observamos de fora, abstraímos,

despersonalizamos e reificamos os diferentes sistemas de outras pessoas nos

quais não vemos sentido ou valor e cuja a validade nem sequer cogitamos em

aceitar. Em segundo lugar, há um outro conceito, o de uma ‘religião’ genérica,

para designar como uma entidade externa o sistema total, a soma de todos os

sistemas de crenças ou, simplesmente, a generalização de que existem. Esse é um

conceito formulado e usado primordialmente por pessoas que estão cansadas dos

confrontos ou estão receosos com todo o empreendimento.14

“Religio”, que antes buscava tratar assuntos universais (comum), passa então a tratar

de assuntos específicos e até mesmo diferenciados de grupos (individualidade). O termo é

utilizado para comparação de religiões. Se a partir do séc. IV já se tem modificações do termo

com relação aos grupos diferenciados pela sua cosmovisão, também dentro das religiões se

10 Cf. SMITH, 2006, p.35.

11 Ibidem, p.35.

12 Ibidem, p.36.

13 No sentido de organização de pensamentos.

14 Cf. SMITH, op.cit., p.50.

12

tem o termo “religio” “como um título, atribuído em especial a bispos ou outros clérigos”,15

como no cristianismo. O termo obteve tantas transformações que se chega a afirmar que “não

há evidências no Novo Testamento de que os cristãos primitivos estivessem conscientes de

estar envolvidos em uma nova religião”.16

O termo é trabalhado pelos Pais da Igreja em perspectiva platônica. Nesse contexto o

envolvimento ser humano-Deus, é apresentado nos termos de uma relação mística. Tal época

é considerada a mais “religiosa” da história do cristianismo, contudo, sobre o termo “religião”

não se deu tanta ênfase etimológica.17

2.2- O cristianismo como religião

Para se entender o efeito das transformações na confluência dos termos “religio” e

“cristianismo”, que é posterior àquele, deve-se antes ter em mente a origem do cristianismo.

Sua origem tem base na fé de um povo em Jesus de Nazaré, do qual veio uma nova

interpretação das Leis de Moisés. Mestre da Lei, Jesus passa a ser visto como Profeta, Senhor,

Messias, Filho do Homem e Filho de Deus. Tais títulos são conferidos a ele após serem

presenciados pelo povo milagres vindos de suas ações18 e de sua morte seguida da

ressurreição.19 Posteriormente, elaborações sobre Jesus como “Deus” surgem juntamente com

diversas outras interpretações teológicas sobre sua pessoa. Portanto, é em Jesus, também

chamado “Cristo”, que as bases do Cristianismo são encontradas.20

Antes de ser considerado como “religião”, o cristianismo era apenas uma reunião de

pessoas que confessavam, de diversas formas, sua fé no Cristo chamado Jesus.21 De acordo

com Hans Küng:

Será que alguém ainda se recorda da origem suspeita da palavra ‘cristão’?

Originou-se em Antioquia consoante o testemunho dos Atos dos Apóstolos. Ao

começar a circular na história universal, ‘cristão’ era o termo ofensivo mais do

que honroso epíteto.22

15 Cf. SOUTER apud SMITH, 2006, p.36.

16 Cf. SMITH, 2006, p.64.

17 Ibidem, p.34-41.

18 Cf. VERMES, 1995, p.9-17.

19 Cf. Mt 27.1 – 28.20; Mc 15.1 – 16.20; Lc 23.1 – 24.53; Jo 18.1 – 21.25.

20 Cf. KÜNG, 1976, p.104-105.

21 Ibidem, p. 99-102.

22 Ibidem, p.99. Ver também SMITH, 2006, p.75.

13

Küng destaca que ser cristão não está no fato de pertencer ao cristianismo, mas de

professar a sua fé no Cristo Jesus, e este de Nazaré.23 Nos primeiros séculos o que definia um

cristão era a sua fé no Cristo. O termo “cristão” é que significou o cristianismo e não o vice-

versa.24 Posteriormente e de forma sutil, o que definia quem era cristão ou não era o fato de

pertencer ou não ao cristianismo. O que antes era “religião cristã” passa a ser “cristianismo”

não se referindo mais à qualidade, todavia à instituição; denominação.25

Smith, após averiguar mais de seiscentos títulos de livros impressos em que aparecem

os termos “fé cristã”, “religião cristã” e “cristianismo” constatou que o mesmo acontece com

os termos “religião cristã”, que possui sentido mais pessoal, e “a religião cristã”, com o artigo

definido, que passa a ter conceito impessoal e institucionalizado. Com isso, “conceitos,

terminologia e atenção passam de uma orientação pessoal para um ideal, então para uma

abstração e, finalmente, para uma instituição”.26 A mudança é sutil, porém de grande efeito.

Segundo McGrath a adaptação do termo “religião” no cristianismo, ao seu modo de

ver o mundo, tornou-se viável até mesmo para as elaborações de fé. Ficou mais fácil a

sistematização das idéias quando o cristianismo deixou de ser apenas um movimento.27

Porém, o cristianismo, no decorrer de sua história passou a não observar mais o que antes era

seu ponto de valor: a liberdade do ser humano em Cristo.

A lei Judaica poderia ser utilizada como mecanismo de desumanização. E o

cristianismo era a testemunha de tal fato, até que este mesmo tornou-se escravizador do ser

humano, impondo leis e dogmas que já não mais tratavam do ser humano em relação a Deus e

sim do ser humano em relação ao cristianismo, agora portador exclusivo da salvação vinda de

Deus. Smith esboça algo sobre isto:

Em todo este estudo, pressupomos que é possível entender palavras empregadas

em determinadas situações históricas como expressivas de idéias nas mentes das

pessoas e que essas idéias eventualmente não são caracterizações finais do

universo em que vivemos. Dito em termos teológicos, levamos a sério a

possibilidade de que palavras utilizadas por pessoas não expressem

necessariamente conceitos na mente de Deus. O apelo por uma reavaliação

crítica de conceitos pressupõe que podemos ser as vítimas e podemos nos tornar

os senhores do raciocínio humano. [...] Esses termos representam conceitos na

mente de Deus, possuindo validade e permanência últimas. [...] Os conceitos

humanos mudam, e os dessas pessoas estavam mudando, em parte sob o impacto

de idéias novas, em parte sob o impacto de experiências novas, de coisas novas

que elas viam.28

23 Cf. KÜNG, 1979, p.20-21.

24 Cf. SMITH, 2006, p.75.

25 Ibidem, p.77.

26 Ibidem, p.78.

27 Cf. McGRATH, 2005, p.41-44.

28 Cf. SMITH, op.cit., p.100-101.

14

No Iluminismo a reorganização dos pensamentos de cunho mais racional se tornou

crucial. Dentre esses estudos o estudo filológico tornou um vasto campo para pesquisa.

Durante e depois do Iluminismo a crítica filológica buscou mostrar como os termos mudaram

de seu sentido chamado “original” e como essa mudança poderia modificar também aquele

quem iniciou a mudança. Destaca-se, neste aspecto o trabalho de Nietzsche.

Dotado

de

espírito crítico contra o cristianismo, ele escreveu a obra O Anticristo, onde através da

filologia e filosofia, ele busca mostrar as mudanças nos termos usado pelo cristianismo, dentre

estes, o próprio termo “cristianismo”.29

O estudo filológico serviu para mostrar que muitas mudanças ocorreram dentro do

cristianismo e na sua forma de pensar “religião”. O que antes era de valor no pensamento

cristão agora já não mais necessita ser. Infere-se que cristianismo, em seu início de história,

valorizava a história de Jesus,30 passando então para o conceito sobre Jesus,31 indo então para

a melhor categorização sobre o que falaram de Jesus Cristo,32 não esquecendo sobre quem faz

ou não parte da Igreja de Cristo,33 chegando à época atual valorizando ou um conjunto de

regras ou preceitos sobre Jesus Cristo e a Igreja,34 ou um conjunto de textos e valores

tradicionais adquiridos através da história.35

Sobre isso Smith diz que com o passar dos tempos a fé dos cristãos em Deus

especificamente não tinha a mesma importância como a fé que os cristãos tinham no

cristianismo. Portanto, quando estes cristãos já não mais encontravam plausibilidade nas suas

relações pessoais com Cristo, eles passaram a se dedicar à religião, e esta no sentido

institucional. Em tempos hodiernos cristãos dizem crer no cristianismo ao invés de dizer que

crêem em Deus e em Cristo; preferem proclamar as doutrinas cristãs em vez de salvação, boa-

nova e redenção encontradas no Evangelho cristão; por fim, praticar o cristianismo em vez do

amor. Além do mais, cristãos contemporâneos já têm em suas mentes que é no cristianismo

que se encontra salvação, no lugar que antes era ocupado pela agonia e amor de Deus. 36

Smith conclui: “Um cristão que leva Deus a sério deve reconhecer certamente que Deus não

29 Cf. NIETZSCHE. In: Os Pensadores. 1999, p.393-396.

30 Cf. At 4.8-12.

31 Diz-se sobre os credos Apostólico, Niceno e Calcedônio. Cf. GRUDEM, 1999, p.996.

32 Fala-se do período escolástico onde grandes teólogos católicos buscavam, filosoficamente, raciocinar sobre a

pessoa de Jesus bem como seus feitos. Cf. McGRATH, 2005, p.79-84.

33 Sobre a definição de “Igreja”. Cf. GRUDEM, 1999, p.1021.

34 Arremetendo o pensamento aos conceitos católicos. Cf. CNBB, 2007, p.38-69.

35 Referindo-se à confissão de fé protestante e sua alegação de que somente as Escrituras possuem total

autoridade.

36 Cf. SMITH, 2006, p.119.

15

se importa em absoluto com o cristianismo. Deus se preocupa com pessoas, não com as

coisas”.37

O cristianismo possui uma noção especifica de salvação. Inicialmente a igreja não se

preocupava com as demais “religiões” porque ainda não tinha nascido a idéia de “religião

enquanto instituição”. Ela se voltava à imitação de Jesus e à preocupação com a busca pelo

outro. Ao se mudar a compreensão do termo religião ficou claro que já não é mais o ser

humano, em sua iniciativa, que se liga em Deus, todavia a instituição religiosa que faz este

trabalho na forma que se compreende hoje.

Outro fator que deve ser analisado é que quando se muda o significado de um termo

como foi o de “religio”, demais termos ligados a este também têm seus significados mudados,

como é o caso do termo “fé”. Nos primórdios da fé cristã, este termo não dependia de uma

ligação com uma instituição, o que conseqüentemente não obrigava esta “fé” a se ligar a um

conjunto de regras para defini-la. Com a valorização da instituição pelo seu adepto é que este

termo não mais se viu livre de regras que agora passam a defini-lo como certo ou errado.38

Portanto, esta “fé” cristã passou a ser, com o passar dos tempos, uma forma de

expressar uma religião ou até mesmo ser uma religião. Sendo assim, dever-se-ia considerar

toda a fé presente no mundo hoje como religiões.

Segundo Smith apenas Mani estava consciente de estar fundando uma religião. Outras

religiões, como no caso dos muçulmanos, acreditam que o próprio Deus a fundou. E não só

esta, mas muitas outras também acreditam estar por uma fundação divina.39 Essa crença de

que Deus fundou pessoalmente uma religião exclui qualquer tentativa de mudança da mesma

pelas mãos humanas. O fato de religiões se comportarem dessa maneira não permite o ser

humano realizar melhorias na mesma que, segundo Smith, pode estar causando males aos seus

adeptos pelo fato de esta não observar as mudanças necessárias na religião, ou por não

observar as mudanças obtidas em sua caminhada que impedem ou deturpam novas

interpretações de fé.40

A mudança deve partir da própria religião quando esta percebe que o mesmo que a

moveu na busca de uma esperança moveu também os demais.41 Küng destaca que:

Cada religião em concreto é uma mistura de fé, superstição e descrença. Mas

poderá um cristão deixar de ver com que empenho e concentração os homens das

37 Cf. SMITH, 2006, p.120.

38 Ibidem, p.164-165.

39 Ibidem, p.102.

40 Ibidem, p.100.

41 Cf. KÜNG, 1976, p.75.

16

religiões universais se puseram incansáveis em busca da verdade e também a

encontraram?42

Segundo Smith a mudança na compreensão de que apenas a fé de alguém ou de algo é

certa deve começar a ser mudado dentro de seu próprio meio de convívio. Se alguém coloca a

sua palavra como sendo a de Deus e esta se corrompe através da história ficará evidente que

não só aquele que criou tal dogma ou regra virou vítima de si mesmo como também trouxe

consigo diversas outras vítimas.43 Portanto, se alguém preza pela vida do próximo, e aqui

entra o cristianismo, esse deve compreender que “o fim da ‘religião’, no sentido clássico de

seu propósito e objetivo, aquilo para o qual aponta e para o qual pode conduzir, é Deus”.44 O

cristianismo não deve deter a palavra de Deus, porém levar seus adeptos à mesma.

2.3- Dimensão salvadora do termo “religião”

Segundo Drewermann religião está muito ligada à salvação. Isso se dá pelo fato de

esta não se perguntar sobre o mundo, mas de tentar localizar para o ser humano lugares de

abrigo, amor, esperança ante a realidade da morte.45 Ele acrescenta que religião nasce após o

ser vivo “sentir a morte como um problema individual”46 e quando este se vê em relação com

a natureza.47 Durante anos, em todo o período moderno e início do contemporâneo, percebeu-

se o quanto a filosofia questionou a religião sobre uma definição sobre Deus, o ser humano,

suas relações, que implicaram várias vezes em conclusões negativas sobre religião e

divindade.48 Contudo a religião não foi abolida, tendo adeptos nas mais diversas instituições.

A religião, desde seus primórdios, teve na sua intenção, livrar o ser humano do medo e

da insegurança que a própria vida lhe oferece.49 É diante dessa ameaça que o ser humano, na

sua vontade de alcançar algo melhor para sua vida, devotando sua confiança em algo ou

alguém que o livre de tal mal. Mas ainda que o ser humano tenha essa vontade e ainda que

faça parte de uma religião, esta não tem o poder de ser sempre boa para si. A religião, quando

elaborada a partir de pensamentos errôneos sobre a realidade e o mundo que cerca esse

indivíduo juntamente com ações inapropriadas para com a natureza, passa a ser ineficiente e

42 Cf. KÜNG, 1976, p.74.

43 Cf. SMITH, 2006, p.100.

44 Ibidem, p.183.

45 Cf. DREWERMANN, 2004, p.28.

46 Ibidem, p.28.

47 Ibidem, p.73.

48 Cf. SAYÃO, 2001, p.36-39.

49 Cf. DREWERMANN, op.cit., p.77-78.

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até mesmo maléfica em seus propósitos.50 Portanto a religião não só liga o ser humano a Deus

como também ao seu meio de convívio, fortalecendo a passagem bíblica que diz: “ame o

Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e

de todas as suas forças. [...] Ame o seu próximo como a si mesmo”.51 A religião deve passar

por uma releitura de si mesma. Essa é a crítica de Drewermann que diz:

Tanto mais, porém volta-se para nós a questão se nós seres humanos queremos

permanecer do jeito que vemos por toda a parte, se podemos existir concordando

com a perspectiva de que também para nós seres humanos não deve haver um

mundo diferente. [...] Precisamos de uma alternativa para a biologia pura e

simples, para nos definir como seres humanos. Aí é que começa a religião, e aí

estaria o sentido da fé criacional dos cristãos.52

Porém Drewermann prefere dar ênfase a apenas uma característica da religião, que é

da interioridade da mesma no indivíduo, que o leva a perceber a realidade e então agir na

mesma de forma coerente. Não é de interesse aqui criticar tal visão, apenas de perceber sua

colocação como algo que mostra a responsabilidade do ser humano na religião. Para ele, Deus

coloca no ser humano essa responsabilidade para que o mesmo seja livre em suas ações,

todavia não fugindo de suas responsabilidades que coadunam com as de Deus. Logo, percebe-

se que não só o ser humano tem sua ação na religião, mas Deus também contribui com sua

parcela na dimensão religiosa.53

É da natureza da religião elaborar teses para o melhor entendimento possível da

realidade que cerca o ser humano. Com isso a religião passa a ter seu papel importante

enquanto instituição para o ser humano e para sua relação com o próximo, com seu meio,

consigo mesmo e com Deus. A instituição religiosa é relevante, não importando aqui sua

confissão de fé. Isto é perceptível tanto na leitura de Smith quanto na de Drewermann, que

tentaram deixar claro em suas pesquisas sobre diversas religiões e com mais afinco o

cristianismo. A religião, por ser uma elaboração histórica, tem por característica a opção de

escolhas durante sua caminhada de fé. Isso vale tanto para as escolhas do indivíduo quanto

para as escolhas da instituição.

A tradição cumulativa que Smith trabalha mostra a importância das elaborações

teológicas nas religiões. O ser humano, quando inserido na realidade de sua religião, promove

50 Cf. DREWERMANN, 2004, p.10-12, 41.

51 Cf. Mc 12.30-31a.

52 Cf. DREWERMANN, op.cit., p.92.

53 Ibidem, p.79.

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em si uma re-elaboração de sua identidade. O adepto da religião, seja qual for, passa a se ver

como uma nova pessoa, sendo definida e, ao mesmo tempo, definindo a religião.54

No cristianismo não é diferente. Sua forma de ação em determinado período histórico

provoca e sofre mudanças nas características, tanto do participante, quanto da instituição, a

qual é constituída de participantes.55 Küng mostra claramente como foi a mudança de

paradigmas na teologia cristã no auge da 2ª guerra mundial, que era anti-semita e, após

realizada as barbaridades com o povo judeu, a teologia anti-semita é deixada de lado para ser

adotada uma teologia mais inclusiva.56 Este período foi crucial para as mudanças nas

teologias em prática hoje. Isso ajudou na evolução da interpretação bíblica, onde passa a ser

aceito a Bíblia como um compêndio de textos que contam uma história sobre um povo e que

possui uma “revelação progressiva” sobre Deus e sobre suas ações.57

Para se pensar então em uma correta compreensão do desenvolvimento histórico do

cristianismo, e não só deste como das demais religiões, seria de grande relevância uma

observação no desenvolvimento histórico no qual o cristianismo foi submetido. Essa

observação ajudará nas abordagens sobre como entender a religião e seu processo

soteriológico.

2.4- Síntese

Foi abordada neste capítulo a transformação histórica que o termo “religião” sofreu

através da história. O termo, que antes era usado para falar de envolvimento qualitativo com o

“outro” passa a ser usado para designar certa organização estrutural religiosa. O termo passa

então a ter caráter mais substantivado e menos subjetivo. “Religião” passa a designar cargos

eclesiásticos denotando certo grau de importância na organização religiosa.

Nessa nova abordagem do termo “religião” o cristianismo passa a se desenvolver

adotando-o como termo discriminador das demais religiões. Com isso a religião cristã toma

novo enfoque para seu desenvolvimento deixando de lado o termo “Cristo” adotando a

expressão “religião cristão” chegando, por fim, no termo “cristianismo”.

No Iluminismo nasce a crítica ao cristianismo alegando que o mesmo se distanciou de

seu propósito anunciando mais o cristianismo que Cristo. O termo “religião”, no que tange à

salvação, passa a ensinar uma salvação institucionalizada no cristianismo e que o mesmo, por

54 Cf. SMITH, 2006, p.145-149.

55 Cf. KÜNG, 1976, p.142-143.

56 Ibidem, p.143-145.

57 Cf. COOK apud PIERATT, 1994, p.115-124.

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sofrer transformações na abordagem durante a história, mostra-se aberto às ações do ser

humano e a transformações pelo mesmo. A abordagem do termo ”religião” mostra-se flexível

às ações humanas, tendo então caráter humano e divino.

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3- A RELIGIÃO CRISTÃ E SUA DIMENSÃO SOTERIOLÓGICA ATRAVÉS DA

HISTÓRIA

O presente capítulo busca apresentar o desenvolvimento do cristianismo enquanto

religião institucionalizada bem como suas percepções soteriológicas em progresso juntamente

com sua história. Apresentar-se-á aqui como o termo religião foi transformado sutilmente

dentro do cristianismo e como que tal mudança mudou consideravelmente a compreensão

soteriológica do cristianismo.

Para isso contar-se-á com a abordagem da história do cristianismo feita por Tillich

uma vez que o mesmo busca expor o desenvolvimento do pensamento cristão acerca de Jesus

Cristo e sua obra. Sendo assim, com essa abordagem de Tillich fica mais fácil trabalhar a

relação entre pensamento cristão com desenvolvimento soteriológico da religião cristã sem se

esquecer do desenvolvimento à parte do termo “religião”.

Apesar de este capítulo buscar toda atenção no desenvolvimento cristão foi optado em

usar os estudos de Gaarder mesmo sabendo que sua obra não abarca somente o cristianismo.

Tal opção se deu porque ele consegue distinguir de forma relevante as diferenças entre as

religiões e entre o próprio cristianismo nas suas subdivisões.

Caminhar-se-á apresentando, por etapas históricas, o desenvolvimento cristão

juntamente com sua percepção soteriológica, mostrando assim sua complexidade crescente a

cada instante histórico.