O Termo Religião Cristã suas Mudanças Históricas e Implicações para a Compreensão Soteriológica n por Carlos Chagas - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

3.1- O cristianismo em surgimento

O cristianismo surgiu como uma religião a parte do judaísmo. Seguindo a releitura da

Lei que Jesus fez juntamente com uma nova ética pregada no sermão do monte,58 seus

seguidores fizeram com que o cristianismo tomasse um rumo totalmente particular, adotando

seus ritos, dogmas e metodologias nas elaborações das teologias. Logo, para que o

cristianismo surgisse como uma nova realidade este precisou de ferramentas para seu labor

teológico.

Em seu surgimento o cristianismo se utilizou de palavras como “kairos” para trazer

uma nova compreensão sobre o que seja o tempo dos homens (chronos) e o tempo de Deus.

Tais palavras são elaborações helênicas que foram apropriadas por Paulo e seus seguidores

58 Cf. KÜNG, 1976, p.140-146.

21

para dialogar com o espírito da época. Tal termo ajudou a igreja a se expressar juntamente

com sua revelação em Jesus Cristo, que segundo o pensamento cristão que já estava em vigor

na época, o advento “Cristo” era o kairós de Deus.59

Nos anos iniciais da era cristã o Império Romano era o império dominante. Este não se

interessava em religiões especificamente, apenas com a humanidade num todo. O Império

Romano detinha o conhecimento filosófico grego, o qual estava no auge nesta época, fazendo

com que, futuramente a igreja, após ser aceita como religião do Estado, adotasse esse método

de leitura da realidade. A filosofia helênica contava com estóicos, dos quais vinham a

preocupação com a moral e a ataraxia como o ideal do sábio, epicureus, que acreditavam que

o prazer era o bem soberano, neo-pitagóricos, mais voltados à matemática e à geometria

juntamente com as demais ciências de correspondentes numéricos, céticos, dos quais vinha a

crença de que o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, e neo-

platônicos, influenciados por Platão e pela sua teoria das idéias, dos quais visava toda a

meditação filosófica ao conhecimento do Bem, Bem este que era considerado suficiente para

a implantação da justiça e do Estado.60 A fonte do pensamento cristão se encontra aqui. Como

diz Tillich: “O cristianismo primitivo não foi influenciado tanto pela filosofia clássica, mas

pelo pensamento helênico”.61

O ceticismo também contribuiu bastante para o desenvolvimento cristão. Isso se dá

pelo fato do ceticismo não ser, nesta época, escolas totalmente voltadas à filosofia. Possuíam

rituais cúlticos por acreditarem que a sapiência vinha dos deuses. O ceticismo considerava

seus líderes como “grandes mestres” ou até mesmo como salvadores. Tal compreensão fez

com que os seguidores de Jesus creditassem a este as mesmas idéias creditadas aos líderes

céticos da época, mesmo sabendo que Jesus não era um cético.62

Ainda segundo Tillich as tradições platônicas juntamente com o estoicismo também

tiveram papéis importantes. Idéias como da transcendência, do mundo material e do essencial

e da providência influenciaram muito o cristianismo primitivo em suas elaborações de fé.

Ainda na idéia de mundo material e essencial grande influência exerceu Aristóteles no

cristianismo com sua idéia de que o divino é forma sem matéria, perfeito em si mesmo,

atraindo tudo a si em amor. Tais sumas ajudaram o cristianismo em seu desenvolvimento.63 Já

59 Cf. TILLICH, 1967, p.17.

60 Ibidem, p.18-19. Ver também FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário

da língua portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

61 Ibidem, p.18.

62 Cf. TILLICH, op.cit., 19-21.

63 Ibidem, p.21-22.

22

o estoicismo contribuiu com sua idéia de que todos participam do Logos universal64, portanto

todos são participantes em potência na razão. No quesito salvação, cristianismo e estoicismo

se chocam até hoje porque o cristianismo adotou a idéia da salvação por meio da intervenção

da graça divina enquanto os estóicos adotaram a salvação por meio da sabedoria.65

Devido o judaísmo ter feito a adoção da idéia sobre Deus como sendo um ser mais

transcendental, mais influenciada pelo helenismo e pelo fato da figura do Messias passar a ser

vista como um rei de um paraíso juntamente com o aumento dos nomes dados a Deus bem

como a aceitação do “Espírito de Deus” como figura de elaboração teológica de interação

entre o ser humano e o Deus transcendente a repercussão se dá fortemente no cristianismo em

seu início. Tendo Deus como totalmente transcendente faz com que santos eleitos pelos fiéis

da igreja passem a ser mediadores do povo bem como venerados, mas não adorados. A

teologia inicial do meio cristão passa a ter seus pilares nessas modificações últimas do meio

judaico.66

Apropriações de discurso feitas pelo judaísmo com relação às religiões vizinhas

também serviram para moldar no cristianismo certas características como: participações

místicas divididas em estágios para os iniciantes na religião; rigoroso processo de separação e

preparo para a participação de celebrações de cerimônias evitando assim qualquer tipo de

profanação do culto pré-estabelecido.67

Portanto em seu início o cristianismo passou por duas características metodológicas de

elaboração de fé cristã: a recepção das teologias advindas de meios externos do judaísmo e a

transformação das associações teológicas que culminaram nos textos do NT68. No que tange

às transformações teológicas, na cristologia percebe-se a associação de termos como

“Messias”, que em grego se traduz como

69

Christos , a Jesus pelos primeiros discípulos

extrapolando em partes a interpretação comum do termo na época70. O termo “Filho do

Homem” que pode ter sido usado pessoalmente por Jesus, diferente do termo Messias que foi

evitado por ele buscando não ser visto como libertador de seu país71, contudo o conceito não

era adequado para Jesus já que o “Filho do Homem” deveria vir em poder e grande glória.

“Filho de Davi” também foi usado, porém extrapolado de seu sentido original por Jesus

64 Considerado por eles como o poder divino. Ver TILLICH, 1967, p.22.

65 Cf. TILLICH, 1967, p.22-23.

66 Ibidem, p.24-26.

67 Ibidem, p.27-28.

68 Lê-se “Novo Testamento”.

69 Cf. GAARDER, 2000, p.155.

70 Cf. TILLICH, op.cit., p.28.

71 Cf. GAARDER, op.cit., p.155.

23

quando ele “disse que o próprio Davi considerava o Messias seu Senhor”.72 Outros títulos

como “Filho de Deus”, “Kyrios”, “mestre” e “Logos” também tiveram suas elaborações

seguidas de aplicações, todavia com limitações e adaptações.73 Tillich está com a razão em

dizer que a “grandeza do Novo Testamento consiste em ter sido capaz de usar palavras,

conceitos e símbolos surgidos na história das religiões, preservando ao mesmo tempo a pessoa

de Jesus interpretada por essas categorias”.74