O Terrível Ancião por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“O Terrível Ancião” – H.P. Lovecraft

Fonte: Um Sussurro nas Trevas, Francisco Alves - 1983

ra intenção de Angelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva fazerem uma visita ao Velho Ruim.

Esse ancião morava sozinho em

E

uma casa antiquíssima na Rua d’Água, perto do mar, e tinha a

reputação de ser ao mesmo tempo muito rico e muito frágil. Tratava-se de uma combinação de

qualidades muito atraentes para homens da profissão dos senhores Ricci, Czanek e Silva, que

ganhavam a vida praticando aquela atividade que o tempo dignificou: o roubo.

Os habitantes de Kingsport diziam e pensavam muitas coisas sobre o Velho Ruim que, em geral, o

mantiam a salvo das atenções de cavalheiros como o Sr. Ricci e seus companheiros, apesar do fato

quase certo de que ele ocultava uma fortuna de grandeza indefinida em algum local de sua morada

bolorenta e venerável. Com efeito, era pessoa estranhíssima, de quem se acreditava ter sido no

passado capitão de clípere das Índias Orientais; era tão velho que ninguém se lembrava do tempo

em que era jovem, e tão taciturno que poucos conheciam seu verdadeiro nome. Entre as árvores

retorcidas do pátio fronteiro de sua vetusta e desleixada vivenda, ele conservava uma estranha

coleção de grandes pedras, agrupadas de maneira esquisita e pintadas de modo a se assemelharem

aos ídolos de um obscuro templo oriental. Essa coleção afugentava, amedrontados, a maioria dos

meninos que gostavam de implicar com o Velho Ruim por causa de seus cabelos e de sua barba

branca, ou de quebrar as janelas de pequenas vidraças de sua casa com perversos petardos. No

entanto, haviam outras coisas que assustavam as pessoas mais velhas e mais curiosas que às vezes

se esgueiravam até a casa para olhar pelas vidraças empoeiradas.

Diziam essaspessoas que sobre uma mesa no andar térreo viam-se várias garrafas singulares, cada

uma delas tendo em seu interior um pedacinho de chumbo suspenso por um fio, à guida de pêndulo.

E diziam que o Velho Ruim conversava com essas garrafas, dirigindo-se a elas por nomes como

Jack, Cicatriz , Tomazão, Zé Espanhol, Peters e Imediato Ellis, e que sempre que falava a uma das

garrafas, o pequenino pêndulo de chumbo em seu interior produzia certas vibrações claras, como se

respondesse. Aqueles que tinham visto o Velho Ruim, alto e macérrimo, mantendo essas esquisitas

palestras não procuravam olhá-lo de novo. Mas Angelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva não

tinham sangue de Kingsport; pertenciam àquela geração alienígena, nova e heterogênea, que se

situava fora do cativante círculo da vida e das tradições da Nova Inglaterra, e viam no Velho Ruim

tão somente um barbudo trôpego e quase caduco, incapaz de caminhar sem a ajuda de sua bengala

nodosa e cujas mãos magras e débeis tremiam deploravelmente. A seu modo, na verdade até

compadeciam-se daquele sujeito solitário e impopular, de quem todos fugiam e para quem os cães

ladravam de maneira singular. Entretanto, trabalho é trabalho, e para um ladrão que dedicou sua

alma à profissão há uma atração e um desafio em um homem idoso e débil que não tinha conta no

banco e que pagava suas poucas compras na loja da cidade com ouro e prata da Espanha, cunhada

há dois séculos.

Os senhores Ricci, Czanek e Silva escolheram para sua visita a noite de 11 de abril. O senhor Ricci

e o senhor Silva deveriam entrevistar-se com o infeliz cavalheiro, enquanto o senhor Czanek

esperaria, a eles e à sua carga, presumivelmente metálica, com um carro na Rua do Cais, ao lado do

portão do alto muro nos fundos da casa do ancião. Foi o desejo de evitar explicações desnecessárias

no caso de inesperadas intrusões da força policial que levou a esse planos de partida serena e sem

alarde.

Tal como combinado, os três aventureiros puseram-se a caminho separadamente, a fim de evitar

quaisquer suspeitas malévolas posteriores. Os senhores Ricci e Silva se encontraram no portão de

entradada casa, na Rua d’Água, e embora não gostassem nada da maneira como a lua brilhava,

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iluminando as pedras pintadas através dos galhos florescentes das árvores retorcidas, tinham coisas

mais importantes em que pensar além de tolas superstições. Temiam que fossem obrigados a tarefas

desagradáveis para obrigar o Velho Ruim a se mostrar loquaz a respeito de seu tesouro de ouro e

prata, pois os velhos lobos-domar são notavelmente cabeça-dura e avarentos. Mas, afinal, ela era

velhíssimo e debilíssimo e havia dois visitantes.

Os senhores Ricci e Silva eram experientes na arte de persuadir pessoas obstinadas, e os gritos de

um homem fraco e excepcionalmente venerável poderiam ser abafados com facilidade. Assim

refletindo, chegaram até uma janela iluminada e ouviram o Velho Ruim conversar infantilmente

com suas garrafas com pêndulos. Depois, colocaram máscaras e bateram cortesmente na porta de

carvalho, manchada pelo tempo.

A espera pareceu interminável ao Sr. Czanek, que se remexia, impaciente, no carro coberto junto ao

portão dos fundos da casa do Velho Ruim, na Rua do Cais. Tinha o coração mais sensível do que o

dos comuns mortais, e não apreciou em nada os gritos medonhos que ouviu na casa antiga, pouco

depois da hora aprazada para a visita. Não havia ele recomendado aos colegas que mostrassem a

maior gentileza possível para com o patético ex-capitão? Nervoso, ele vigiava aquela estreita porta

de carvalho no muro revestido de hera. Freqüentemente consultava o relógio e se admirava com a

demora.

Haveria o ancião morrido antes de revelar onde ocultara seu tesouro, tornando forçosa uma busca

rigorosa? Ao Sr. Czanek não agradava esperar tanto tempo no escuro e em tal local. Percebeu então

passadas suaves ou arrastar de pés no caminho do outro lado do portão, ouviu que abriam de leve a

tranca enferrujada e viu a porta, estreita e pesada, abrir-se para o lado de dentro. E à luz pálida da única luz da rua, esforçou-se para ver o que os colegas tinham trazido de dentro daquela casa

sinistra, que parecia agora maior do que nunca.

Entretanto, ao olhar, não viu aquilo que havia esperado; pois não eram seus camaradas que estavam

ali, mas apenas o Velho Ruim, apoiado serenamente em sua bengala nodosa e tendo nos lábios um

sorriso tétrico. O Sr. Czanek jamais havia notado a cor dos olhos daquele homem; eram amarelos.

Coisas pequenas causam considerável agitação em cidadezinhas, e foi por isso que a gente de

Kingsport falou durante toda aquela primavera e todo aquela verão a respeito dos três corpos que

haviam sido trazidos pela maré, impossíveis de identificar, horrivelmente dilacerados, como por

obra de muitos cutelos, e horrivelmente mutilados, como que pisados por muitas botas cruéis. E

algumas pessoas até se detiveram a falar e fatos triviais como o carro abandonado que havia sido

encontrado na Rua do Cais, ou de alguns gritos notavelmente inumanos, provavelmente de algum

animal extraviado ou de um pássaro migrante, ouvido de noite por cidadãos despertos. Mas por todo

esse disse-me-disse ocioso de cidade pequena, o Velho Ruim não demonstrou qualquer interesse.

Era, por sua própria natureza, pessoa reservada, e quando se é idoso e débil, as reservas naturais

sem dúvida redobram. Ademais, um lobo-do-mar tão entrado em anos só podia ter sido testemunhas

de vintenas de fatos muito mais excitantes, nos dias longínquos de sua juventude já esquecida.

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