O Terror por Arthur Machen - Versão HTML

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Arthur Machen

O TERROR

seguido de

ORNAMENTOS EM JADE

O G RANDE DEUS PÃ

CHANCELA NEG RA

TRADUÇÃO E POSFÁCIO

José Antonio Arantes – O Terror, Ornam entos em Jade

José Manuel Lopes – O Grande Deus Pã

ÍNDICE

PREFÁCIO

O TERROR

ORNAMENTOS EM JADE

O GRANDE DEUS PÃ

A NOVELA DA CHANCELA NEGRA

A DEMANDA DO MISTÉRIO

FONTES CONSULTADAS

PREFÁCIO

1. Algumas notas biográficas

Arthur Machen, cuj o nom e de batism o era Arthur Llewely n Jones (1863-

1947), sendo Machen o apelido de solteira de sua m ãe, é um escritor galês que

atingiu o auge da sua carreira no m undo anglófono, na últim a década do século

XIX, com a publicação de um a série de contos que poderíam os inserir no

Fantástico Vitoriano. Nestes contos ou novelas, que se apresentam na m aior parte

das vezes com o rom ances condensados, vários elem entos se cruzam , capazes de

revelarem o seu interesse pelas tradições celtas, pela colonização rom ana da

Inglaterra e do País de Gales, bem com o por um a com plexa tradição de contos

orais, em especial da sua região, m as de m atriz profundam ente europeia. De

facto, a sua estréia literária data de 1881, com a publicação de Eleusinia, um

longo poem a sobre os Mistérios de Eleusis.

Já residente em Londres, Machen torna-se um conhecido tradutor para

inglês de certos m arcos da literatura francesa, com o o Heptameron de Margarida

de Navarra, e as fam osas Mémoires de Casanova, a ponto de essas m esm as

traduções virem a adquirir, durante largos anos, um estatuto de « traduções

consagradas» não m uito diferente das traduções de Baudelaire, para francês, dos

contos de Edgar Allan Poe.

Todavia, foi na década de 1890, com a publicação de « O Grande Deus Pã»

num a reconhecida editora londrina, que ele se tornou m ais conhecido com o um

« escritor decadentista» e um a voz bem em blem ática da sua época. Esta novela,

de chocante conteúdo m órbido e sexual, em breve conheceu um a segunda

edição e obteve um a grande popularidade. Efectivam ente, é nesta m esm a

década que ele publica os outros contos/novelas que incluím os no presente

volum e: « A Luz m ais Interior» em 1894, « A Novela da Chancela Negra» em

1885, bem com o um a prim eira versão do fam oso « O Povo Branco» , cuj a

presente tradução se baseia no texto revisto pelo autor, em 1904.

O alvor do século XX é-lhe m arcado pela m orte da sua prim eira m ulher,

que m orre de cancro em 1899, após um longo período de sofrim ento. Um ano

m ais tarde, Machen ingressa na j á lendária Ordem Herm ética da Aurora

Dourada, continuando a publicar outros contos que poderíam os inserir no m esm o

gênero. O ponto de viragem dá-se talvez j á durante a Prim eira Guerra Mundial,

em que Machen, com o j ornalista a tem po inteiro, adopta um a atitude m ais

realista, ainda que o seu conto « O Terror» , publicado em 1917, tenha elem entos

fantásticos. Curiosam ente, trata-se do conto por detrás do film e Os Pássaros de

Alfred Hitchcock, a ser publicado com o parte de um segundo volum e nesta

m esm a coleção.

Se bem que nos anos 20 ele tenha publicado alguns rom ances e um a

prim eira autobiografia, Far Off Things (1922), os gostos literários j á tinham

claram ente m udado e o Fantástico Vitoriano j á não usufruía de um m esm o

público, especialm ente quando a ficção inglesa com eçava a atingir o m ais alto

ponto do seu Modernism o e Virginia Woolf se tornara um m odelo de escrita.

Assim , por volta do final da década, as reedições das suas obras com eçam a

rarear e Machen entra num a crise financeira da qual apenas conseguiu sair em

1943, aquando do seu octogésim o aniversário, em que um grupo de escritores

am igos, entre eles T. S. Eliot, se j untou para o hom enagear e proceder a um a

cam panha de angariação de fundos que lhe veio a perm itir um final de vida

confortável.

2. Traduzir Machen

Nos textos deste autor, por estranho que nos possa parecer, lem os, quase em

sim ultâneo, não apenas um a única narrativa m as várias. É com o se diante de nós

se revelasse um a série de planos, nunca inteiram ente transparentes m as

translúcidos. Ficam os de facto presos, com o leitores, a um a sucessão de ecos e

cenários, regozij ando-nos com todos os m om entos de positivo « ruído» que todas

essas interferências nos possam causar.

Lem os, em prim eiro lugar, apenas um enredo, tal com o este nos surge à

superfície de contos específicos — verdadeiras novelas ou rom ances habilm ente

condensados —, para depois nos com eçarm os a aperceber de todo um historial

de obsessões e fantasm as reprim idos da Época Vitoriana, em que a sexualidade

engendra m onstros e as experiências científicas se tornam assustadoras. Bem

para lá deste segundo plano, no entanto, encontram -se as práticas « alquím icas»

ainda bem presentes nestes textos dos finais do século XIX — escritos por um

m em bro da Aurora Dourada —, form ando um a terceira instância na qual, ainda

que um certo significado herm ético nos possa escapar enquanto leitores

contem porâneos, o sentim os todavia a ressoar num outro lado de nós, não tão

facilm ente captável ou definível.

De facto, não é nada fácil traduzir Machen, tentando transpor o que na forte

condensação dos seus textos nos surge, não tanto a um nível explícito, m as

sobretudo nas suas sucessivas reverberâncias, apelando, no que diz respeito ao

sentido, para um a expansão m ais participante do que aí está escrito, através da

qual o leitor se torna, sim ultaneam ente, co-narrador e cúm plice. Sem dúvida, o

tradutor, tam bém inserido neste j ogo de planos e de espelhos, ir-se-á debater não

apenas com a significação de palavras específicas, que a princípio lhe poderão

surgir na sua óbvia m aterialidade, m as com frases e inúm eros segm entos que,

neste caso, form am extensíssim os parágrafos, sem elhantes a intrincadas « caixas

m isteriosas» .

Com efeito, se com o tradutores os tentam os visualizar, quase

fantasm aticam ente, existe algo que terá que ser transposto, não tanto ao nível da

« letra» , m as de um sentido que nunca para de nos escapar logo que o tentam os

tornar fixo. Regressam os deste m odo, ou assim pensam os, à obj ectividade

ilusória de um a dada página, num a tentativa de recuperarm os o fôlego que nela

teríam os perdido, através de todos os seus m últiplos patam ares. Relem os então o

texto no original e na versão traduzida, que j á im aginávam os revista e acabada,

para verificarm os que esse m esm o texto — agora j á m ais nosso — é ainda e

quase sem pre « um a outra coisa» , quer no que diz respeito ao original

aparentem ente im utável m as sem pre m últiplo — dado que o activam os a cada

leitura —, quer no que se prende com a sua tradução; isto é, com essa escrita a

que j á « dem os um a outra voz» , m as que se poderá sem dúvida m elhorar a cada

revisão, sem que nenhum a (tal com o o produto final que por vezes nos arrancam

das m ãos para as tipografias) sej a definitiva. Nunca o será de facto, pois tal

com o na Crítica Literária poderem os sem pre acrescentar novas expansões, se

não um a revisitada e reform ulada interpretação inicial, no caso da tradução

literária, as revisões sucessivas poder-nos-iam levar a tais extrem os, que

acabaríam os, através de um excesso de rigor, por nos depararm os com um texto

traduzido que, paradoxalm ente, pouco teria j á que ver com o original, m as onde

o m esm o continuasse a ser apaixonadam ente alucinado.

Ora, o m eu desej o de um a tradução obj ectiva, que se tenta, não obstante,

afirm ar com o um a tentativa eufórica e utópica de fazer coincidir « as vozes» do

autor com as do tradutor, pressupõe sem pre, ou quase sem pre, um inevitável

sentido de perda, algo que nós nos vem os sem pre condenados a ter que adm itir.

Nenhum a tradução, porém , poderá pretender que o resultado do seu

trabalho possa vir a ser recepcionado tal com o na época em que o original foi

escrito. Tal atitude pressuporia um agudizar de certas tendências histéricas que j á

se encontram inerentes a qualquer voz tradutiva. Não lem os, nem poderem os

pretender ler, com o se lia na Inglaterra de finais do século XIX. Irem os tentar, é

certo, recorrer, sem pre que tal se j ustifique, a certas expressões passadas, a

registos de fala que, na m aioria dos casos, acabam por ecoar o nosso

conhecim ento acerca de textos da m esm a época que, tanto quanto possível,

possam os inserir num contexto sem elhante ou paralelo. Assim , este Machen em

português, o m esm o que eu aqui « transponho» , insere-se inevitavelm ente na sua

época, m as tam bém , dado que passou pelas m udanças necessariam ente im postas

por um a tradução recente, na nossa pós-m odernidade, no espaço em que se

esgarçam teorias, discursos e sobretudo as tentativas (quase sem pre autoritárias)

de um único texto definitivo, que apenas nos traz de volta todas as j á

ultrapassadas certezas do Positivism o e da ciência velha. Assim , a tradução que

vos coloco nas m ãos, caros leitores, ainda que enferm ando de todos os defeitos

inerentes a um a « filtragem » de natureza interlinguística — m as beneficiando

tam bém de um a série de inform adas opções pessoais inerentes a um a certa

distância tem poral —, será « esse outro texto» a que a nossa especulação nunca

cessará de se prender: esse em que tudo se transformasse, sem que nada, no

entanto, se perdesse.

José Manuel Lopes

O TERROR

1- O ADVENTO DO TERROR

Depois de dois anos, voltam o-nos m ais um a vez para as notícias m atutinas

com um a sensação de apetite e alegre expectativa. Houve em oções no início da

guerra; a em oção do horror e de um destino que parecia ao m esm o tem po

inacreditável e certo. Isso se deu quando Nam ur sucum biu e as hostes alem ãs

invadiram com o cheia os cam pos franceses e se acercaram m uito perto dos

m uros de Paris. Depois sentim os a em oção do j úbilo quando chegou a boa notícia

de que a m edonha m aré havia recuado, que Paris e o m undo estavam salvos, ao

m enos por algum tem po.

Assim , durante dias, aguardam os outras notícias tão boas com o essa, ou

m elhores. Foi o general von Kluck cercado? Hoj e não, talvez am anhã sim . No

entanto, os dias se tornaram em sem anas, as sem anas se prolongaram em m eses;

a batalha do Ocidente parecia paralisada. De vez em quando, faziam -se coisas

que pareciam esperançosas, com a prom essa de acontecim entos ainda m elhores.

Mas Neuve Chapelle e Loos se reduziram a desapontam entos à m edida que se

contavam histórias a seu respeito; as form ações em linha no Ocidente

perm aneceram , para todos os propósitos práticos de vitória, im obilizadas. Nada

parecia acontecer, nada havia para ler, exceto o registro das operações, que

eram claram ente fúteis e insignificantes. As pessoas se perguntavam qual era o

m otivo dessa inação. Os esperançosos diziam que Joseph Joffre tinha um plano,

que ele estava "cauteloso"; outros declaravam que estávam os sem m unição;

outros, m ais um a vez, que os novos recrutas ainda não estavam prontos para a

batalha. De m odo que os m eses passaram , e quase dois anos de guerra se haviam

com pletado quando a inerte linha de frente inglesa com eçou a se m exer e

estrem ecer com o se despertasse de um longo sono, e com eçou a avançar,

esm agando o inim igo.

***

O segredo da longa inação do exército britânico foi bem m antido. De um

lado, foi rigorosam ente protegido pela censura, que severa, e às vezes severa a

ponto da absurdidade — "o capitão e os [...] partem ", por exem plo —, tornou-se,

em especial nesse aspecto, feroz. Assim que as autoridades se deram conta do

significado real do que estava ocorrendo, ou com eçava a ocorrer, um a circular

crivada de realces foi enviada aos donos de j ornais da Grã-Bretanha e da

Irlanda. Advertia cada um deles que poderiam com partilhar o conteúdo da

circular com apenas um a única outra pessoa, sendo essa pessoa o editor

responsável do j ornal, o qual deveria guardar segredo acerca do com unicado,

sob pena das m ultas m ais severas. A circular vetava qualquer m enção a

acontecim entos que tivessem ocorrido, ou que pudessem ocorrer; vetava

qualquer tipo de alusão a esses acontecim entos ou qualquer indicação de sua

existência, ou da possibilidade de sua existência, não só na im prensa com o

tam bém em qualquer outra form a. O assunto não podia ser m encionado em

conversas; dele não se podia fazer qualquer insinuação, por m ais obscura que

fosse, em cartas. A própria existência da circular, à parte seu obj eto, tinha de ser

um segredo absoluto.

Essas m edidas foram bem -sucedidas. Um abastado proprietário de j ornal do

norte, um tanto excitado ao final da Festa dos Tecelões (que, ressalte-se, se

realizou com o de costum e), arriscou-se a dizer para um hom em ao lado: "Seria

terrível, não seria, ser...". Suas palavras foram repetidas, com o prova,

lam entavelm ente, de que chegara a hora de o "velho Arnold" se recom por; e ele

foi m ultado em m il libras esterlinas. Depois houve o caso de um obscuro

sem anário publicado na cidade adm inistrativa de um distrito agrícola do País de

Gales. O Meiros Observer (com o o cham arem os) era publicado nos fundos das

instalações de um proprietário de papelaria, e enchia as quatro páginas com

relatos de exposições de flores do lugar, feiras de artigos de fantasia em

vicariatos, relatos de conselhos paroquiais e raras m ortes por acidente em

balneários.

Esse órgão inform ativo im prim iu um tópico, o qual ninguém notou, que se

assem elhava m uitíssim o aos tópicos que j ornalecos do interior havia m uito

costum avam publicar, que dificilm ente poderia dar um a pista a alguém — a

alguém , quer dizer, não de todo inform ado do segredo. Na verdade, essa notícia

foi parar no j ornal porque o proprietário, que tam bém era o editor, incautam ente

deixou os últim os procedim entos desse assunto em particular para o assistente,

que era o pau-para-toda-obra-m or do estabelecim ento: e o assistente acrescentou

um a pitada de boato que ele ouvira na feira e a qual preenchera dois centím etros

da últim a página. Mas o resultado foi que o Meiros Observer parou de ser

publicado, devido a "circunstâncias desfavoráveis", com o explicou o proprietário,

que nada m ais disse. Nada m ais, quer dizer, em term os explanatórios, m as um

bocado m ais em term os da execração de "m alditos abelhudos".

Agora, um a censura que sej a suficientem ente m inuciosa e totalm ente

im piedosa pode fazer m ilagres no que diz respeito a ocultar [...] o que se desej a

ocultar. Antes da guerra, teria sido possível pensar o contrário; teria sido possível

dizer que, com ou sem censura, decerto tom ar-se-ia conhecim ento da ocorrência

do hom icídio em X ou da ocorrência do assalto ao banco em Y; se não por m eio

da im prensa, ao m enos por m eio do boato ou da notícia passada boca a boca. E

isso seria aplicável à Inglaterra de há trezentos anos e às prim itivas áreas tribais

de hoj e. Recentem ente, porém , habituam o-nos a um a tal reverência à palavra

im pressa e a um a tal confiança nela que a velha capacidade de divulgar notícias

oralm ente ficou atrofiada. Proíba-se a im prensa de m encionar o fato de que João

foi assassinado e é incrível com o algum as pessoas saberão disso, e das que

souberem quão poucas acreditarão no que ouviram . Conhecem os um hom em no

trem que afirm a que lhe contaram algo acerca de um hom icídio em Southwark.

É enorm e a diferença entre a im pressão com que ficam os de um a com unicação

casual com o essa e a proporcionada por m eia dúzia de linhas im pressas com

nom e, rua, data e todos os fatos do caso. Gente que viaj a de trem reconta todo

tipo de histórias, m uitas delas falsas. Jornais não publicam relatos de assassínios

que não foram com etidos.

Adem ais, há outro m otivo que levou ao segredo. Devo ter dado a entender que o

antigo ofício do boato não existe m ais. A m im m e farão lem brar da estranha

lenda dos "russos" e da m itologia dos "anj os de Mons". Mas gostaria de observar,

em prim eiro lugar, que a am pla divulgação desses dois disparates dependeu dos

j ornais. Se não existissem j ornais ou revistas, russos e anj os teriam feito apenas

um a breve e vaga aparição das m ais obscuras — alguns poucos teriam sabido

deles, nem tantos desses poucos teriam acreditado neles, deles se teriam falado

por um a ou duas sem anas e, desse m odo, teriam desaparecido.

E depois, m ais um a vez, o próprio fato de que por um tem po se acreditou

nesses boatos fúteis e nessas histórias fantásticas foi fatal para a credibilidade de

qualquer rum or que tivesse se espalhado pelo país. As pessoas botaram fé duas

vezes; viram indivíduos sérios, hom ens de boa reputação, pregar e preconizar os

notáveis procedim entos que haviam salvado o exército britânico em Mons, ou

testem unharam trens, repletos de russos de casacos cinzas, atravessarem o país a

altas horas da noite: e agora havia um sinal de algo m ais espantoso do que

qualquer um a das lendas desacreditadas. Mas dessa vez não havia um a palavra

sequer de confirm ação nos j ornais diários ou sem anários, ou nas revistas

paroquiais, de m odo que os poucos que souberam riram -se ou, sendo sérios,

foram para casa e fizeram algum as anotações para ensaios sobre "A psicologia

do tem po de guerra: delírios coletivos".

***

Não segui nenhum a dessas direções. Pois antes de a circular secreta ter sido

em itida, m inha curiosidade havia, de algum m odo, sido despertada por um

determ inado parágrafo relativo a um "Acidente fatal com conhecido piloto-

aviador". A hélice do avião havia sido despedaçada, aparentem ente num a colisão

com um bando de pom bos. As pás haviam sido quebradas e o m otor caíra com o

chum bo na terra. E, logo após ter lido essa notícia, tom ei conhecim ento de

algum as circunstâncias bastante estranhas relacionadas a um a explosão num a

grande fábrica de m unições num condado do centro da Inglaterra. Pensei na

possibilidade de haver um a conexão entre os dois diferentes acontecim entos.

Am igos que se prestaram a ler esse relato m e cham aram a atenção para o

fato de que determ inadas frases que em preguei pudessem dar a im pressão de

que atribuo todos os obstáculos da guerra na frente ocidental às circunstâncias

extraordinárias que m otivaram a em issão da circular secreta. Claro que não é

este o caso, pois havia inúm eros m otivos para a im obilidade de nossas fileiras de

outubro de 1914 a j ulho de 1916. Essas causas eram bastante óbvias e haviam

sido abertam ente debatidas e lam entadas. Mas, detrás delas, havia algo de

im portância infinitam ente m aior. Faltavam -nos hom ens, m as hom ens estavam

sendo adm itidos em abundância no novo exército. Estávam os m al providos de

proj éteis, m as, quando se anunciou publicam ente a escassez, o país tratou de

corrigir o problem a com m uita eficácia. Poderíam os assegurar o reparo das

deficiências de nosso exército — no que respeitava a hom ens e m unição — se o

novo e inacreditável perigo pudesse ser superado. Foi superado. Sem dúvida,

talvez, deixou de existir. E agora o segredo pode ser revelado.

Eu disse que m inha atenção foi atraída pela notícia da m orte de um

conhecido piloto-aviador. Não tenho o hábito de guardar recortes de j ornais,

lam ento dizer, de m aneira que não posso precisar a data desse acontecim ento.

Tanto quanto sei, ocorreu por volta do final de m aio ou do com eço de j unho de

1915.0 parágrafo do j ornal que anunciava a m orte do capitão-aviador Western-

Rey nolds era bastante sum ário. Acidentes, e acidentes fatais, com os hom ens que

estão tom ando o ar de assalto por nós não são, lam entavelm ente, tão raros a

ponto de requererem um a nota elaborada. Mas o m odo pelo qual Western-

Rey nolds foi de encontro à m orte m e pareceu extraordinário, porquanto revelava

um novo perigo no elem ento que tínham os recentem ente conquistado. Ele foi

derrubado, com o eu disse, por um bando de aves; de pom bos, com o pareceu pelo

que se encontrou nas pás ensanguentadas e despedaçadas da hélice. Um a

testem unha ocular do acidente, um colega oficial, contou que Western-Rey nolds

partira do aeródrom o num a tarde clara, praticam ente sem vento. Estava indo

para a França. Tinha feito o traj eto de um lado para outro um a dezena de vezes

ou m ais, e se sentia perfeitam ente seguro e à vontade.

— O "Wester" atingiu logo um a grande altura, e a gente m al conseguia ver o

aparelho. Eu estava m e virando para ir em bora quando um dos colegas gritou:

"Nossa! O que é aquilo?". Apontou para o alto, e a gente viu o que parecia ser

um a nuvem negra que vinha do sul a um a velocidade espantosa. Logo percebi

que não era um a nuvem . Vinha num rem oinho e num ím peto bem diferente de

qualquer nuvem que j á vi. Mas por um segundo não consegui distinguir

exatam ente o que era. A form a se alterou e se transform ou num a enorm e m eia-

lua, e girava e m udava de direção com o se procurasse algum a coisa. O hom em

que gritou tinha pegado os binóculos e observava com o m áxim o esforço. Depois

gritou que se tratava de um enorm e bando de aves, "m ilhares delas". Elas

continuaram girando e buscando a grande altura no ar, e nós as observávam os,

achando-as interessante m as não achando que fariam qualquer diferença para o

Wester, que estava quase fora de visão. O aparelho dele não passava de um

ponto. Então os dois braços da m eia-lua se uniram tão velozes quanto um raio e

aquelas m ilhares de aves dispararam com o um a m assa sólida pelo céu lá no alto,

e se afastaram para algum lugar nor-noroeste. Então Henley, o hom em com os

binóculos, gritou: "Ele caiu!", e com eçou a correr e eu o segui. Pegam os um

carro e no cam inho Henley m e disse que tinha visto o avião se estatelar, com o se

tivesse caído daquela nuvem de aves. Na hora ele pensou que as aves tinham

travado as hélices, ou coisa assim . E foi esse o caso, com o se soube.

Encontram os as pás das hélices todas quebradas e cobertas de sangue, e penas e

ossos de pom bos estavam introduzidos entre as pás, aferrados a elas.

Essa foi a história que o j ovem piloto-aviador contou certa noite para um

pequeno grupo de pessoas. Não falou "em sigilo", portanto não hesito em

reproduzir o que ele disse. Naturalm ente não tom ei nota textual da conversa, m as

tenho um a certa habilidade para m e lem brar de conversas que m e interessam , e

creio que a reprodução está bastante próxim a da história que ouvi. E é preciso

observar que o aviador contou a história sem nenhum sentim ento ou qualquer

indicação de sentim ento de que o inacreditável, ou quase o inacreditável,

acontecera. Tanto quanto sabia, disse ele, era o prim eiro acidente do tipo. Pilotos-

aviadores na França tiveram dificuldade um as poucas vezes com aves — ele

achava que se tratava de águias — que voaram m alevolam ente na direção deles,

m as o

coitado do velho Wester fora o prim eiro hom em a se defrontar com um bando

de m ilhares de pom bos.

— E quem sabe não serei o próxim o? — acrescentou. Mas por que procurar

encrenca? De qualquer form a, vou estar dizendo adeus am anhã à tarde.

Bem , ouvi a história com o quem ouve todos os tipos de prodígios e terrores do

ar; com o o que ouvi há alguns anos sobre "bolsões de ar", estranhos abism os ou

vácuos na atm osfera nos quais pilotos caíam , expondo-se a grande risco. Ou

com o o que ouvi da experiência do piloto que voou sobre as m ontanhas do

condado de Cum berland, no início do verão de 1911, e, no que navegava bem

acim a dos pontos culm inantes, foi repentina e im petuosam ente lançado para o

alto, o ar quente dos rochedos colidindo com o avião com o se fosse um a explosão

da cham iné de um a fornalha. Tínham os acabado de com eçar a navegar um a

estranha região; devíam os esperar encontrar aventuras estranhas, perigos

estranhos. E aqui um novo capítulo nas narrativas desses perigos e dessas

aventuras se abrira com a m orte de Western- Rey nolds. E, sem dúvida,

engenhosidade e perspicácia logo encontrariam um m odo de oferecer oposição

ao novo perigo.

Foi, creio, cerca de um a sem ana ou dez dias após a m orte do piloto aviador

que m inha ocupação m e levou a um a cidade do norte, cuj o nom e talvez sej a

m elhor que perm aneça desconhecido. Minha m issão era investigar algum as

acusações de extravagância feitas contra os operários, ou sej a, contra o pessoal

encarregado do m aterial bélico dessa cidade em particular. Dizia-se que os

hom ens que costum avam ganhar duas libras esterlinas e dez xelins por sem ana

estavam agora recebendo de sete a oito libras, que a "um punhado de m oças"

estava sendo pago duas libras em vez de sete ou oito xelins, e que, por

consequência, havia um a orgia de descabida extravagância. As m oças,

contaram -m e, com iam chocolates ao preço de quatro, cinco e seis xelins de

libra, as m ulheres estavam encom endando pianos de trinta libras esterlinas que

elas não eram capazes de tocar, e os hom ens com pravam correntes de ouro por

dez e vinte guinéus cada um a.

Escarafunchei na cidade em questão e descobri, com o de hábito, que havia um a

m istura de verdade e exagero nas histórias que ouvira. Gram ofones, por

exem plo: não se pode considerá-los estritam ente indispensáveis, m as estes

estavam , sem dúvida, sendo vendidos com regularidade, m esm o as m arcas m ais

caras. E achei que havia um núm ero m uito grande de carrinhos de bebê à vista

nas calçadas; carrinhos da m oda, pintados com discretos tons de cores e

dispendiosam ente equipados.

— E com o é que o senhor pode ficar surpreso com o fato das pessoas querer

se aventurar um pouco? — perguntou-m e um operário. — A gente tá vendo

dinheiro pela prim eira vez na vida, e é dinheiro vivo. E a gente trabalhou duro pra

isso, e arriscou a vida pra ganhar ele. Ouviu falar da explosão aqui perto?

Mencionou um a fábrica nos arredores da cidade. Evidentem ente, nem o

nom e da fábrica nem o da cidade foram divulgados. Houve um a breve notícia da

"Explosão na fábrica de m aterial bélico no Distrito do Norte: várias vítim as". O

operário m e contou a respeito disso, acrescentando alguns detalhes terríveis:

— Não deixaram os parentes ver os corpos. Botaram eles nos caixão com o

encontraram eles tal e qual. O gás se encarregou de tudo.

— O senhor quer dizer que pretej ou o rosto deles?

— Não. Tavam todos com o se partidos em pedaços.

Tratava-se de um estranho gás.

Fiz ao hom em da cidade do norte todo tipo de perguntas sobre a

extraordinária explosão da qual m e falara. Mas não tinha m uito m ais para contar.

Com o j á observei, os segredos que não podem ser im pressos são em geral

profundam ente guardados. No verão passado, havia pouquíssim as pessoas fora

dos altos círculos oficiais que sabiam algum a coisa acerca dos "tanques", dos

quais todos falam os m ais tarde, em bora esses estranhos instrum entos de guerra

estivessem sendo exercitados e testados num parque não longe de Londres.

Portanto, o hom em que m e contou sobre a fábrica de m aterial bélico era, m uito

provavelm ente, típico de sua profissão, por não saber nada m ais acerca do

desastre. Descobri que era um fornalheiro em pregado num a siderurgia no outro

lado da cidade, longe da fábrica destruída. Nem sequer sabia o que se fabricava

lá; algum tipo perigoso de explosivos, supôs. A inform ação que ele m e deu na

verdade não passava de um m exerico horripilante, que ele provavelm ente ouvira

de terceira, quarta ou quinta m ão. O detalhe horrível dos rostos, "com o se

partidos em pedaços", tivera um a violenta im pressão nele, só isso.

Desisti dele e peguei um bonde elétrico até o local do desastre, um a espécie

de subúrbio industrial, a uns sete quilôm etros da cidade. Quando perguntei onde

ficava a fábrica, disseram -m e que não era um a boa idéia ir até lá, um a vez que

lá não havia ninguém . Mas localizei-a; um barracão tosco e m edonho no centro

de um pátio cercado, e um portão fechado. Procurei sinais de destruição m as

nada encontrei. O telhado estava praticam ente intato. E de novo m e ocorreu que

se tratava de um estranho acidente. Houve um a explosão de um a violência

suficiente para m atar os operários dentro do prédio, m as no prédio em si m esm o

não havia vestígios de danos.

Um hom em saiu pelo portão e o trancou. Com ecei fazendo- lhe um a espécie

de pergunta, ou, antes, com ecei a "preparar" um a pergunta: "Dizem que aqui

aconteceu um a coisa terrível", ou um a frase convencional assim . Não fui além

disso. O hom em m e perguntou se eu tinha visto um policial descendo a rua.

Respondi que sim , e tive a oportunidade de im ediatam ente prosseguir no m eu

intento ou de sem dem ora ser acusado de espionagem . "E m elhor a gente andar

logo com esse treco", foi, creio, o conselho dele, e o acatei.

Bem , eu m e achava, literalm ente, encostado contra um a parede de tij olos.

Refletindo sobre o problem a, só consegui supor que o fornalheiro, ou seu

inform ante, tinha torcido as palavras que contavam a história. O fornalheiro

dissera que os rostos dos m ortos tinham sido "partidos em pedaços". Isso poderia

ser um a perversão inconsciente de "corroídos". Essa palavra poderia descrever

m uito bem o efeito de ácidos fortes e, tanto quanto sei a respeito dos processos de

fabricação de m unição, esses ácidos podem ser usados e explodir, com

resultados terríveis, em algum estágio delicado de m istura.

Foi um ou dois dias depois que m e lem brei do acidente com o piloto aviador,

Western-Rey nolds. Num desses instantes, que são m ais breves do que qualquer

m edida do tem po, ocorreu-m e a possibilidade de um a ligação entre os dois

desastres. Mas havia

um a desarrazoada im possibilidade, e a pus de lado. E, no entanto, creio que o

pensam ento, por m ais tolo que parecesse, continuou a m e ocorrer. Foi a luz

secreta que por fim m e guiou através de um som brio em aranhado de enigm as.

Por volta dessa época, na m edida em que a data pode ser determ inada, todo

um distrito, pode-se dizer todo um condado, foi assolado por um a série de

calam idades extraordinárias e terríveis, que se tornaram ainda m ais terríveis

porquanto continuaram por algum tem po m istérios inescrutáveis. Não se sabe ao

certo, na verdade, se esses acontecim entos m edonhos não perm anecem ainda

m istérios para m uitos dos que neles estiveram envolvidos. Porque, antes de os

habitantes dessa região do país terem tido tem po de relacionar um indício a outro,

a circular foi em itida e, dali por diante, ninguém soube distinguir o fato inconteste

da conj etura precipitada e extravagante.

O distrito em questão se situa no extrem o oeste do País de Gales. Vou cham á-

lo, por conveniência, Meirion. Há lá um a cidade praieira de algum a reputação

entre turistas, por cinco ou seis sem anas no verão, e, espalhados no condado, há

uns três ou quatro vilarej os antigos que parecem estar em lenta decadência,

apáticos e pardacentos com os efeitos dos anos e da negligência. Lem bram - m e

do que li acerca de cidadezinhas no oeste da Irlanda. A gram a cresce entre as

pedras irregulares das calçadas, as placas no alto das vitrinas das loj as pendem ,

m etade das letras dessas placas falta, aqui e ali um a casa foi dem olida, ou caiu

em ruínas, um a vegetação silvestre brota entre as pedras tom badas e o silêncio

reina em todas as ruas. E, é preciso m encionar, no passado esses lugares não

foram m agníficos. Os celtas j am ais foram hábeis na arquitetura e, segundo m e

consta, essas cidades, tais com o Towy, Merthy r Tegveth e Meiros, devem ter

sido antes m uito parecidas com o que são agora, aglom erados de casas hum ildes,

pobrem ente construídas, m al- conservadas e descam badas.

E esse punhado de cidades se situa, esparsam ente, num a região silvestre onde o

norte é dividido a partir do sul por um a cadeia de m ontanhas ainda m ais

silvestres. Um a dessas cidades fica a cerca de vinte e cinco quilôm etros de

qualquer estação. As outras são,

sem dúvida, rem otam ente ligadas por ferrovias de via única, servidas por

escassos trens que se detêm e titubeiam e hesitam na lenta viagem pelos

desfiladeiros das m ontanhas, ou param por m eia hora ou m ais em solitários

barracos cham ados estações, situados no m eio de pântanos solitários. Há alguns

anos viaj ei com um irlandês num a dessas linhas esquisitas, e ele olhou para a

direita e viu o pântano com os capinzais am arelos e azuis e as águas estagnadas, e

olhou para a esquerda e viu um a encosta acidentada, com taludes de pedra

cinzenta. "Não posso acreditar", disse, "que ainda estou nos sertões da Irlanda."

Aqui, portanto, vê-se um a região selvagem , dividida e esparsa, um a terra de

colinas estranhas e vales secretos e ocultos. Sei da existência de fazendas nesta

costa que devem estar separadas por duas horas de um a cam inhada árdua e

difícil de qualquer outra habitação e que não são visíveis de qualquer outra casa.

E no interior, m ais um a vez, as fazendas são com frequência cercadas por densos

bosques de freixos, plantados por hom ens num passado longínquo para proteger

as cum eeiras dos ventos inclem entes que sopram das m ontanhas e dos ventos

tem pestuosos que sopram do m ar; de m odo que tam bém esses lugares estão

ocultos, adivinhados apenas pela fum aça da queim a de lenha que se eleva por

entre as folhagens verdes circundantes. E preciso que um londrino os vej a para

crer neles; e m esm o assim m al pode acreditar no isolam ento absoluto.

Assim é, fundam entalm ente, Meirion, e esta terra, no início do verão do ano

passado, o terror invadiu — um terror am orfo, do tipo que hom em algum j am ais

conheceu.

Com eçou com a história de um a m enina que peram bulou pelas azinhagas

para colher flores num a tarde ensolarada e j am ais retornou ao chalé na colina.

2- MORTE NO VILAREJO

A m enina que se perdeu tinha saído de um solitário chalé que se situa no

declive de um m orro alcantilado conhecido com o Allt,

nom e que significa altitude. O terreno circundante é agreste e acidentado.

Aqui crescem toj os e sam am baias; ali há o vale pantanoso de canas e j uncos,

assinalando o curso do arroio que brota de um a nascente oculta; acolá a

concentração de m acegas densas e em aranhadas, os postos fronteiriços da

floresta. Nesse terreno áspero e irregular, um a vereda conduz à azinhaga no

fundo do vale; além dela o terreno torna a subir e se eleva até os paredões de

rocha que sobranceiam o m ar, a cerca de uns quatrocentos m etros de distância.

A m enininha, Gertm de Morgan, perguntou à m ãe se poderia ir à azinhaga colher

flores púrpuras — tratava-se de orquídeas -— que lá cresciam , e a m ãe lhe dera

autorização, desde que voltasse à hora do chá, porque faria um a torta de m açã

para o chá.

Ela j am ais voltou. Supôs-se que tivesse atravessado a estrada e ido até a beira

do penhasco, possivelm ente para colher cravinas, que na época estavam em

plena floração. Devia ter escorregado, diziam , e caído no m ar, seiscentos m etros

abaixo. E, diga-se, havia, sem dúvida, algum a verdade nessa conj etura, em bora

bastante longe de toda a verdade. O corpo da m enina deve ter sido levado pela

m aré, porque nunca foi encontrado.

A conj etura de um passo em falso ou de um escorregão fatal na relva

escorregadiça que se estende pelo declive abaixo até as rochas foi aceita com o a

única explicação possível. As pessoas acharam o acidente estranho, porque, em

geral, as crianças que vivem perto de rochedos e do m ar se tornam precavidas

m uito cedo, e Gertrude Morgan estava para com pletar dez anos de idade.

Entretanto, os vizinhos diziam : "E isso que deve ter acontecido, e é um a grande

pena, não resta dúvida". Mas essa explicação não se sustentaria quando, um a

sem ana m ais tarde, um j ovem e robusto lavrador não voltou para casa depois do

trabalho. Seu corpo foi encontrado nas rochas a uns treze quilôm etros do

penhasco de onde a m enina teria caído. Estava voltando para casa por um

cam inho que costum ava percorrer toda noite de sua vida, por oito ou nove anos,

perfeitam ente seguro nas noites escuras, conhecendo cada palm o dele. A polícia

perguntou se ele bebia, m as era abstêm io; se sofria de ataques, m as não sofria. E

não fora assassinado por causa de riqueza, um a vez que lavradores não são ricos.