O Turbilhão por Coelho Neto - Versão HTML

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O TURBILHÃO

Coelho Neto

Ao Dr. Francisco Simões Corrêa

HOMENAGEM E GRATIDÃO

Dezembro, 1904

Coelho Netto

Simples Como a Verdade

1

Revistas as últimas provas do conto de Aurélio Mendes o Anacharsis dos "Idílios pagãos", Paulo

Jove arredou a cadeira e pôs-se de pé, desabafando. Doía-lhe a espinha e, como havia fumado

quase todo o maço de cigarros, tinha a boca amarga e áspera, os olhos ardidos, não só do fumo

e da claridade intensíssima das lâmpadas elétricas, como da fixidez atenta em que os mantinha

desde as sete e meia até àquela hora alta da noite.

Curvou-se de mãos nas ilhargas, d'ímpeto esticou os braços, arrojou-os à frente com um ahn!

surdo de atleta que exercita os músculos entorpecidos e desabou-os depois, com força,

sacudindo-se todo, virando, revirando a cabeça, como em ânsia angustiosa. Levantou-os, de

novo, acima da cabeça, as mãos juntas, estrincando os dedos enclavinhados e bocejou,

espichando-se nas pontas dos pés caindo depois, rijamente, sobre os tacões.

Já as primeiras páginas haviam descido para a clichagem. Embaixo, martelavam pancadas

crebas, como de matracas. A caldeira reboava num retroar soturno de caverna que repercutisse,

sem descontinuar, o gorgorejo possante de águas encachoeiradas.

Na sala da revisão, estreita e abafada, mal comportando as quatro mesas de serviço, os

revisores repousavam; apenas o Brites, esgalgado e míope, lia o antigo de fundo, todo em

períodos lamentosos augurando fome e lutas; e o Amaro, conferente, acusando a pontuação de

quando em quando batia na mesa pancadas secas com um lápis ou dizia claramente uma

palavra, repetindo-a devagar, sílaba a sílaba, enquanto o Brites, debruçado sobre a prova, fazia

a emenda resmungando.

O Malheiros, em mangas de camisa, suado, afogueado, derreava-se na cadeira, com a cabeça

no respaldo, fumando, de olhos distraidamente cravados no teto, de onde escorriam os fios

oscilantes das lâmpadas elétricas. O Bruno, abaçanado, raquítico, nervoso, sempre a calcar

sobre a mola flácida do pince-nez, que lhe escorregava do nariz tressuante, todo pendido para o

Freire, com uma rosa murcha à botoeira, silvava endecassílabos, preconizando a grande Arte do

Mendonça, o inimitável cinzelador do "Fauno Trêmulo".

Paulo enxugou a fronte e, tirando de um prego o colete e o paletó, lentamente, vergado de

fadiga, a bocejar, vestiu-os, com os olhos no entusiasta penegirista do Decadismo, que falava

precipitado com desabalados gestos, sem dar pelo estremunho do Freire que molemente com

uma ponta de cigarro ao canto da boca, sacudia a cabeça em afirmações condescendentes.

Na grande sala, ao lado, vozes morosas apregoavam letras e números.

A colmeia fervilhava. Os compositores - uns de pé, em mangas de camisa; outros em altos

bancos, em quatro filas paralelas, estendidas ao longo da sala, cabisbaixos, à luz branca e viva

das lâmpadas, precipitavam os dedos nos caixotins, enchendo os componedores com um

trepidar metálico de gotas d'água em zinco.

O Mário, d'óculos, apressado, ia de um a outro, examinando: inclinava-se sussurrando, como se

comunicasse segredos, e havia, por vezes, um zumbido de vozes surdas, interrompido pela

tosse cavernosa de um rapaz bronzeado, esguio e ossudo que, de instante a instante, ia à

janela escarrar e lá ficava, curvado, tossindo aos arrancos, cavadamente. como se tivesse o

peito devastado e oco.

O Sampaio, diante do mármore, a mascar o charuto, ia desligando os paquets para a paginação,

enquanto o Lúcio, retranca, besuntado de tinta, mangas arregaçadas, tirava as últimas provas

que os revisores esperavam.

Subitamente um bufo, como da expansão de uma válcula, subiu das oficinas, e foi depois um

chiado e logo um silvo de jato, e, lentamente, com rumor de ferragens, como à partida de um

comboio, as máquinas moveram-se, abalando o soalho em trepidações contínuas.

O Malheiros, dobrando-se, tomou entre as mãos enlaçadas um dos joelhos e suspirou:

"Não podia ouvir aquilo sem saudade: lembrava-se da sua viagem e pensava no Norte. Parecia-

lhe que se achava a bordo, no convés, estirado num banco, ao clarão da lua, ouvindo as fontes

pulsações da máquina que impelia o navio pelo mar luminoso." E, sonhando, deixava-se ficar

muito quieto, olhos semicerrados, viajando imaginariamente para o seu torrão longínquo: praias

longas, ondulando em dunas alvas, praias que o mar bravio lambe e assoalha de espumas,

donde os jangadeiros, cantando, arrastam as jangadas que, de velas pandas, aos galões,

partem, montando a vaga, perdendo-se nos horizontes azuis.

O Bruno, esse detestava a oficina: o "antro do Dragão". O prelo era: o Monstro devorador do

gênio; e, sempre que ouvia a crepitação das correias nas polias ou o rolar dos cilindros das

marinônis, murmurava, com ódio e nojo: "Lá está a besta mastigando!"

Nessa noite, mais irritado, irrompeu furioso:

- Eu podia estar na redação, ganhando mais e com outras regalias: escrevo com sintaxe e com

arte, tenho a minha porção de ciência e de literatura, coisas que não possuem muitos dos que

se inculcam, com vaidade, jornalistas; mas não quero: prefiro ficar por aqui, em nível inferior,

conservando a integridade perfeita do meu espírito; ao menos não se dirá que cevo o "Monstro"

que lá está experimentando as mandíbulas de ferro em folhas velhas, babando-as de saliva

negra, como a jibóia lubrifica a presa antes de a engolir. Faz apetite à espera da ração, o

estúpido.

"Eu sei que o escrito é um alimento indispensável ao espírito das gentes: entendo, porém, que

os intelectuais devem apenas preparar o néctar divino e não essa mixórdia em que entra tudo -

desde o espargo até a couve tronchuda.

"Vejam vocês: um artista como o Penante faz uma bela página de prosa ática - períodos polidos

a capricho, como só ele os sabe polir. Compõe o Mendonça, com a magnificência do seu

talento, um poemeto de rendilhados versos bizantinos. Escreve o Rocha um daqueles antigos

de original beleza, nos quais a gente encontra a Musa cantando, desolada. no serralho da

Política, como a Cativa, de Hugo, na alcáçova do Turco, e vêm esses primores aqui para cima,

na mesma cesta em que sobem as ignomínias das penas anônimas, como as rosas que

chegam do mercado num samburá entre repolhos e nabos.

"Aqui misturam-se com os artigos pífios, cuja sintaxe temos de arranjar, raspando-lhes os

solecismos - porque, meus amigos, a verdade é esta: nós somos como os ajudantes de cozinha,

que lavam as ervas das hortas tirando-lhes a terra e as lesmas. O mesmo rolo que passou sobre

as imbecilidades do a pedido, passa por eles; o mesmo componedor, onde se acomodaram

aqueles alexandrinos de ouro e aqueles períodos lapidares, acolhe a mofina salaz e covarde e o

atoucinhado anúncio, a ignomínia da charada e o sórdido folhetim desconchavado, sem nexo,

sem forma, e, depois, lá vai tudo, como um guisado. ser triturado, digerido e lançado, por fim, na

página, alfuja onde fermenta a estrumeira da civilização.

"Bolas! Arte é arte! A palavra é uma centelha, é preciso que tenha uma trípode. Prefiro ser

revisor. Não tenho cérebro para regalo da Besta que se contenta com a panelada farta e grossa.

O meu cérebro, se algum dia fornecer alimento ao animal, dará o néctar ideal, sem ingredientes

pulhas da horta indígena, como a mofina, ou da salsicharia universal, como os telegramas. Isso

é a Besta máxima da Vulgaridade. Lá está mastigando cérebros: o cérebro suntuoso do

Mendonça e o miolo infame do taverneiro, que anuncia malas de carne-seca ou sessões na sua

Beneficente. Que te saiba, bruto! essa polenta ignóbil."

Os companheiros riam vendo o Bruno, de mãos atafulhadas nos bolsos, indo e vindo no estreito

espaço que havia entre as mesas da revisão, a cuspilhar, resmungando contra aquela "moenda

infame".

O Malheiros gostava de provocá-lo, sublinhando-lhe os disparates:

- Ó Bruno, o monstro come cérebros e faz estrumeira ou prepara o guisado para o público? Vê

lá em que ficas.

- Fico em afirmar que é o realejo da palavra! - concluiu, indignado, o puritano da Arte.

Riram. E o Bruno foi resmungar, debruçado à balaustrada da escada que descia para a oficina.

Paulo conservava-se indiferente. Debalde o Bruno bramia e gesticulava, ele não estava de veia

alegre: sentia-se mole, exausto, com uma dorzinha de cabeça. Andara todo o dia, rua abaixo,

rua acima com receitas e medicamentos, porque a moléstia da mãe agravara-se com a umidade

daqueles dias, prendendo-a à cama. Não fora à Escola, estava abatido e com um vazio no

estômago como se estivesse em jejum.

Tomou o chapéu e o guarda-chuva a um canto, apanhou um embrulhinho na mesa e,

secamente, despediu-se dos companheiros atirando uma leve pancada ao ombro do Brites, que

respungou, sem levantar a cabeça: "Boa noite!" O Sampaio, vendo-o sair, perguntou com o

charuto nos dentes:

- Então, já?

- É verdade. - E foi descendo lentamente.

No primeiro andar, numa sala escura dos fundos, o pessoal do correio cortava as listas da

expedição e o Moraes, plantonista, gordo, pletórico, sempre empanzinado, que tinha fama nos

clubes de ser um garfo respeitável, para não ficar só na redação, lá estava encostado à

comprida mesa, roncando pilhérias com ânsias de asma e muita gosma.

Descendo mais alguns degraus, Paulo deteve-se, como sempre fazia para olhar um instante,

através das grades, a oficina toda tomada pelos complicados maquinismos - desde as marinônis

soberbas, juntas, como dois animais de raça, ocupando uma ala à parte, até os pequenos prelos

de mão que uma criança movia.

O motor, ao fundo, com a chaminé esgalgada como um pescoço de girafa, furava o teto

atravessado de longos eixos sobre os quais giravam polias movidas pelas correias, que eram

como os nervos daquele possante organismo.

No meio da sala, ao rés-do-chão, dois cilindros brancos rodavam rapidamente ligados por uma

larga faixa. Sobre um deles caía um estilicídio perene: eram os rolos de papel que, depois de

umedecidos, deviam ser levados às marinônis para que, impressos e cortados, saíssem aos

milheiros. com a primeira luz da madrugada, propagando sucessos e desastres.

Homens iam e vinham apressados, outros cercavam o mármore, onde jazia a página e, com

pedacinhos de papelão, iam acamando certos tipos para que ressaltassem na estereotipia;

outros levavam grandes folhas de estanho, reluzentes como prata e mergulhavam-nas nos

fundidores, onde se derretiam como se fossem de neve e, com o volteio daquelas rodas céleres

e as vozes e os passos dos que se moviam e o chiar das correias que estralejavam, de quando

em quando, um constante e estranho rumor de vida agitava a oficina onde as lâmpadas

suspensas brilhavam como grossas gotas de luz.

- Parado, coçando a barba, como em grande cuidado, um velho olhava para uma das marinônis,

em cujos cilindros já reluziam as matrizes. De repente afastou-se, tomou várias folhas de papel

tisnadas, andou com elas em volta do "Monstro" vendo, revendo, curvado, de cócoras. Meteu o

papel entre os cilindros, ergueu-se, deu um puxão à alavanca e a máquina moveu-se com

rapidez trepidando, a espichar aquelas folhas de papel que os rolos apertavam e impeliam

manchadas de tachas sórdidas, como as primeiras vasas anunciadoras do parto.

Paulo, satisfeita a curiosidade, desceu ouvindo sempre o estrondoso rumor do trabalho. Era o

"Monstro" do Bruno, pior que o touro brônzeo de Fálaris, porque do seu bojo saíam, não os

gemidos de uma só vítima, mas o clamor de toda a humanidade, a resenha da vida universal,

cuja percentagem de angústias sobreleva-se avassaladoramente à parte mínima de prazer. E,

olhando, parecia-lhe ouvir o arquejo doloroso do mundo, a zoada ansiosa do enxame humano

atroando, subindo daquelas finas lâminas flexíveis, como a voz cativa irrompe quando a

despertam nos tubos sensíveis do fonógrafo. Desceu.

No corredor, encostado à parede, com as pernas estiradas, um homem dormia, a cabeça

pendida sobre um dos ombros, os pés nus, imundos, o peito da camisa aberto, uma bolsa a

tiracolo. A porta, em torno dum negro que vendia café, às canecas, um grupo chalrava

alegremente, na treva.

Paulo subiu a Rua do Ouvidor obscura e calada.

Um vento frio soprava. O céu negro, sem estrelas, ameaçava aguaceiro e, como chovera

copiosamente à tarde, com ventania e trovões, poças d'água refletiam a luz dos combustores.

Um cão magro percorria a sarjeta farejando.

Na esquina da Rua dos Ourives estacionava a patrulha. Os soldados, emblocados nos capotes,

fumavam pachorrentamente, e os cavalos muito juntos, a cabeça baixa, pareciam dormir fitando,

de vez em vez, as orelhas agudas como se perscrutassem rumores no vento.

Uma luzinha tíbia, como de lamparina, atraiu para uma casa os olhares do retardatário. As

portas eram fortes e negras, como de ferro e, por um postigo engradado, via-se o interior de

uma ourivesaria com os mostradores atopetados de jóias de preço e de baixelas que reluziam.

Taroucando tamancos, dois homens passaram por ele discutindo e, já longe, romperam em

gargalhada estrondosa.

Chegando ao Largo de S. Francisco teve uma exclamação e deitou a correr para um bonde que

partia, quase vazio, com as cortinas descidas. Tomou-o na volta, apesar do aviso do condutor:

"Que ia recolher." Morando na Rua Senador Pompeu tanto lhe servia aquele como outro.

Sentou-se, acendeu um cigarro e, de pernas cruzadas, imaginando fortunas e aventuras, foi-se

deixando levar, como em sonho, sem ver, sem ouvir, alheio ao real que o cercava.

Repentinamente, porém, lembrou-se da mãe. Que seria dele se a boa velha morresse?

Achacada, sempre a gemer, arrastando a perna túmida e pesada, era ela, ainda assim, quem

lhe prestava auxílios, cuidando da casa, regulando as despesas, porque a irmã, sempre a

pensar em enfeites, fazendo e desfazendo penteados ao espelho, polindo as unhas, passava os

dias na cadeira de balanço, a ler romances e, à tarde, encharcada de essências, com muito pó-

de-arroz, debruçava-se à janela, para ver os trens e receber bilhetinhos que os rapazes metiam

por entre as rexas da persiana.

Era bonita e esbelta, de um moreno quente de crioula, tez fina e rosada, olhos negros, boca

pequena, sensual, de lábios carnudos e úmidos. Os cabelos, quando os desprendia, passavam-

lhe da cinta em ondas negras e reluzentes. Tinha uma voz lânguida, como ressentida de

tristeza; falava em tom dolente de queixa e o seu olhar quebrantado, sonolento, amortecia-se

em êxtases sob as longas pestanas curvas.

Paulo dominava-a com aspereza, exprobrando-lhe a vida desmazelada e, quando a velha, na

intimidade, referia-lhe algum pequenino escândalo de Violante, rompia, assomado, ameaçando

pregar a janela, atirar ao lixo todas aquelas caixas, todos aqueles vidros que entulhavam o

toucador. Mas a irmã tinha crises - rolava pela casa, aos gritos, rangendo os dentes, rasgando a

roupa, escabujando. E a boa velha, lamentando-se, corria os cantos, procurando remédios e, de

joelhos, com a cabeça da filha ao colo, beijando-a, chamava-a, pedindo ao outro que a não

tratasse com tanta aspereza, que tivesse pena dela, e instava para que, com afagos, procurasse

chamá-la à razão. Ele obedecia contrariado. E Violante, amuada e mais linda depois da

excitação nervosa, com os olhos mais brilhantes e a cor das faces mais viva, ia trancar-se no

quarto, resmungando ameaças.

Voluntariosa, criada aos joelhos do pai, que a tratava de "princesa", anunciando-lhe sempre um

noivo formoso e rico, que a havia de cobrir de sedas e carregá-la de jóias, foi acostumando o

espírito com estas idéias de nobreza e fausto; de sorte que, quando lhe morreu o pai, já

mocinha, sentiu-se como deserdada: foi como se, com ele, houvesse perdido uma fortuna que já

possuía e um noivo que já a visitava em sonhos, formoso como os príncipes dos romances que

ela devorava, revendo-se, com enlevo, em todas as heroínas.

Com a monte do pai, major de cavalaria, condecorado por feitos no Paraguai, todo o peso da

casa recaiu sobre Paulo que, então, concluía os preparatórios.

Abandonando a idéia de bacharelar-se no Ginásio, matriculou-se na Faculdade de Medicina,

conseguindo um lugar na revisão do Equador e algumas lições particulares, com o que fazia

uma soma regular que, reunida ao meio-soldo que a mãe recebia, dava para irem vivendo, se

não com luxo, ao menos com decência e fartura.

Posto que não achasse gravidade no estado da mãe, andava apreensivo, receoso, imaginando

complicações e, volta e meia, lá ia um médico à casa; eram, às vezes, colegas. E os frascos de

remédios enchiam prateleiras.

Com aqueles dias úmidos, Dona Júlia sofria atrozmente: mal podia mover-se na casa; sempre

acaçapada nas cadeiras, as mãos espalmadas nas coxas, a gemer, dando ordens à cozinheira,

que era a criada única que tinham. Ainda assim, se as dores abrandavam, lá ia ela para a

vassoura, varrer, limpar os móveis ou arranjar a sala, porque não podia ver um fósforo no chão,

nem um átomo de poeira nos seus velhos trastes do tempo do falecido. E, se a moléstia a

prendia à cama, lá mesmo, com a perna esticada e untada, com o cesto de costura ao colo, ia

cerzindo roupas, remendando meias ou reformando, pacientemente, os casacos da filha.

Profundamente religiosa, tinha no seu quanto, defronte da cama, sobre a cômoda, o oratório

ante o qual ardia, perene, a lamparina de azeite iluminando registros milagrosos e duas

imagens: a da Conceição e a do Senhor dos Passas.

Paulo ia pensando na boa velha e, quando o bonde passava pela Estrada de Ferro, saltou,

subindo a Rua do Dr. João Ricardo, deserta àquela hora da noite. Grossas gotas de chuva

bateram nas pedras, uma lufada de vento passou e, ao clarão de um relâmpago, o céu

apareceu negro, acastelado de nuvens. Levantou a gola do casaco e, com o guarda-chuva à

frente, como um escudo, a cabeça encolhida, partiu, rompendo a ventania.

2

Foi com surpresa pressaga que, ao avistar a casa, percebeu luzes por entre as persianas,

acusando desusada vigília e logo a idéia de um acidente grave sobressaltou-lhe o espírito.

Atravessou a rua a correr e bateu açodadamente à porta, aflito, ouvindo soluços e exclamações

desesperadas que vinham do fundo da casa. A cozinheira apareceu, embrulhada num xale, com

um lenço à cabeça. Ele entrou d'arremesso:

- Que é, Felícia? Que tem mamãe?

- Foi Nhá Violante que desapareceu, exclamou lamentosamente a negra.

Paulo ficou a olhar, num espanto, e, sem tirar o chapéu, avançou pelo corredor, direito à sala de

jantar, onde Dona Júlia, com a cabeça entre os braços, dobrada sobre a mesa, soluçava.

- Que é, mamãe? Que foi? Então Violante desapareceu? Como? Quando?

Ouvindo-lhe a voz, a velha senhora levantou o rosto demudado e, pondo nele os olhos rasos de

água, arrancou do peito um suspiro, pronunciando o nome da filha, com uma expressão de

imenso desespero. Paulo compreendeu imediatamente o horror do crime que haviam levado a

efeito na sua ausência. Teve um movimento impetuoso, lançando os olhos ao corredor, como se

quisesse partir no mesmo instante, voltar à noite fria, para seguir no encalço da fugitiva. Mas

Dona Júlia, abalada, rompendo em pranto convulso, lançou-lhe as mãos aos ombros,

encostando-lhe ao peito a cabeça, cujos cabelos brancos, desfeitos, esvoaçavam e, numa

queixa dorida, entrecortada, pôs-se a dizer: "Que nunca esperara aquilo de uma menina que ela

criara com tantos sacrifícios, privando-se de tudo para que nada lhe faltasse, trabalhando como

uma moura para poder satisfazer os seus caprichos de moça. Ah! nunca esperara tamanha

ingratidão!"

- Mas como foi? perguntou Paulo, sentando-se numa cadeira próxima.

- Não sei, meu filho, não sei. Eu estava deitada, passara pelo sono, um pouco aliviada, depois

do curativo. Acordei de repente com uma dor muito viva, umas alfinetadas que me subiam até o

peito, como se me estivessem picando. Quis levantar-me para ir buscar a pomada, que estava

em cima da cômoda, não pude: as dores eram muitas, tolhiam-me. Foi, então, que cheguei à

parede e bati, como sempre fazia. Bati, bati, chamei, e tão alto, que Felícia ouviu na cozinha, e

veio correndo, coitada! saber se eu queria alguma coisa.

"Ah! meu filho! Eu estava adivinhando, o coração dizia-me que havia acontecido alguma coisa.

Antes de cuidar de mim, mandei Felícia ao quarto de Violante. Não sei como não morri quando

a rapariga voltou espantada, dizendo que tua irmã não estava lá. Não sei como não morri. Foi

Deus que não quis. Fiquei sufocada, com um bolo no peito, como se o meu coração fosse

rebentar, e, nem sei como, saltei da cama e fui ao quarto dela. Ah! Paulo, meu filho, nunca

pensei que aquela menina fosse capaz de uma coisa assim."

O pranto abalou-a de novo, um pranto humilde, infeliz, cortado de gemidos. A negra, então, que

se conservava à distância, calada, ousou continuar, e Paulo boquiaberto, esgazeado, levantou a

cabeça e fitou nela os olhos.

- Ela nem se deitou: a cama está assim mesmo.

- E com quem foi?

- Quem sabe lá! - gemeu Dona Júlia - algum malvado.

- Eu bem dizia a mamãe que não desse tanta liberdade à Violante.

- Que havia eu de fazer? Ela é moça, todas as moças namoram. Nunca me passou pela cabeça

que minha filha fosse capaz de dar um passo como esse. E agora, meu Deus! que há de ser

dela?

Paulo, sem responder, ergueu-se, pôs-se a procurar alguma coisa pelos cantos, sobre os

móveis. "Meu chapéu...!?"

A negra adiantou-se:

- Vosmecê está com ele na cabeça, nhonhô.

Com o vento da noite, que entrava d'esfuzio pelo corredor, a chama do gás zumbia, ruflava

dobrando-se como a de um maçarico; bátegas de água ruflavam nos vidros. Paulo dobrou as

calças e, surdamente, pôs-se a rilhar os dentes, curvado, com o pé sobre uma cadeira. Dona

Júlia, ouvindo o rumor forte da chuva, que desabara, perguntou lacrimosa:

- Queres sair com este tempo?

- Então?

- Onde vais?

- Vou à polícia. Mas... mamãe não desconfia de alguém?

- Eu? eu, não; eu vivia sempre metida aqui dentro.

A negra resmungou: "Que Nhá Violante conversava de noite com um moço da vizinhança, um

que costumava passear de velocípede. As vezes, um soldado parava defronte, junto do muro da

Estrada, e ficava até tarde batendo a calçada".

- Um soldado?

- Ele tem farda, explicou a negra.

- E tu és capaz de reconhecê-lo, se o vires?

A negra fez um momo:

- Hum... eu sou, como não? mas eu tenho muito medo dessa gente, nhonhô. Ele é alto, tem

bigode preto. Mas nhonhô não me chame, sou uma pobre velha, ando por aí de noite sozinha.

Tenho muito medo dessa gente.

- Mas é preciso, Felícia.

- Mas não foi ele não, nhonhô; vosmecê pode ficar certo de que não foi ele; Nhá Violante não

gostava dele - cuspia, batia com a janela, fazia toda a sorte de desfeitas quando ele se punha a

rondar a casa. Não foi ele não, nhonhô. Quem foi não é daqui, fique vosmecê certo. Numa rua

passa tanta gente! Quem foi não é daqui, vosmecê há de ver.

Paulo encarava-a desconfiado, como se a suspeitasse de conivência no caso. Por fim,

resolvendo-se, caminhou alguns passos, mas, voltando-se, pediu à mãe que se recolhesse, que

se fosse deitar: Estava doente, não devia ficar ali fora exposta ao frio - podia ter alguma coisa

séria. A polícia havia de descobrir o raptor. E insistiu: Que ele bem dizia: tantas vontades haviam

de dar naquilo. Violante fazia o que entendia e, se ele falava, ai! porque era impertinente,

grosseiro e mais isto e mais aquilo. Ali estava o resultado. Pensou rapidamente no escândalo -

nos comentários da vizinhança, nos risinhos dos colegas, nas alusões dos companheiros de

trabalho.

- Vai, então, meu filho: tem paciência. Vai ver se ainda podes salvar aquela infeliz. E que Deus

te acompanhe. Nunca pensei que Violante fosse capaz de fazer isto comigo. Nunca pensei!

- Bem, mamãe. a senhora não consegue nada com lágrimas; vá deitar-se. Eu vou à polícia.

E baixinho, à negra, com voz trêmula, recomendou:

- Não a deixes, Felícia; tem paciência. Ela está doente, pode ter alguma coisa séria com este

choque.

- Vosmecê pode ir descansado.

- Até já, mamãe: e vá deitar-se.

Dona Júlia balançou a cabeça desanimadamente, e Paulo enfiou pelo corredor, por onde o

vento zunia. Na sala deteve-se, d'olhos altos, trincando os lábios, e, como a negra lembrasse o

sobretudo, voltou-se repentinamente:

- Hem?

- Por que vosmecê não leva o sobretudo? Está chovendo tanto.

- Não: não é preciso.

Escancarou a porta e mergulhou na escuridão tempestuosa, com o guarda-chuva diante do

peito, chapinhando em poças, sem ver, sem ouvir, atordoado e com os olhos cheios de lágrimas

que lhe rolavam pela face.

Diante da Central, obscura e deserta, elevando os olhos neblinados, viu que eram duas horas.

Nem um bonde, nem um tílburi: a praça estava vazia, à chuva. O vento, com uivos, em

fortíssimas rajadas, apanhando-lhe o côncavo do guarda-chuva, arrastava-o, como se o

quisesse levar, em monção propícia, mais depressa e direito ao destino. Em frente, a sombra

era densa e os lampiões, brilhando, irradiavam no aguaceiro como aranhas d'ouro em teias de

cristal.

Que seria dela? Onde andaria?! Tirou um cigarro do bolso, rebuscou a caixa de fósforos e,

como não a encontrasse, teve um ímpeto de cólera, atirando à lama o cigarro úmido e mole.

Caminhando, pensava: "Que poderia fazer a polícia sem uma indicação, com uma noite

daquelas? De manhã seria tarde; talvez mesmo àquela hora já a sua pobre irmã..." Deteve-se

subitamente, sustado por uma cólera violenta, d'olhos cravados no chão; trincou os lábios e um

impropério saiu-lhe da boca ressecada. "E a pobre velha? Que seria dela com tamanho

choque?"

Ouviu um tinido de campainha através do surdo rufar da chuva, voltou-se sôfrego: nada! Pôs-se

de novo a caminho, com mais ânsia, pelo meio da rua. Um Bêbedo resmungava, chafurdando

nas poças, aos trancos.

Passando por uma casa baixa, iluminada, ouviu falas. Sobressaltou-se-lhe o coração num

presságio. Talvez estivesse ali. Parou um momento, à escuta, e, atrevendo-se, espiou pelas

frestas da persiana e viu, no meio da saleta triste, sobre uma mesa, um pequenino caixão entre

velas. Uma mulher contemplava-o chorando e, em volta, outras mulheres, sentadas,

cochichavam. Foi-se.

Não! Violante devia estar em algum sítio confortável, algum hotel de luxo, com o sedutor.

Conhecia-a bem. Não sairia senão com quem lhe pudesse dar o fausto com que sonhava,

vendo as gravuras dos figurinos ou lendo as descrições dos romances. Bem certo estava de que

a irmã só se deixara arrastar à infâmia por vaidade, calculadamente, não por impulso d'alma.

Dobrou instintivamente a Rua da Constituição. Os seus passos ressoavam na rua deserta sem

que ele os ouvisse, atordoado com os pensamentos que lhe trabalhavam o espírito. Tomou pela

Rua do Núncio, desceu a do Visconde do Rio Branco e, achando-se na do Lavradio, houve nele

um renascimento de coragem, uma grande e desanuviada esperança. "Podiam encontrá-la

ainda pura. Os agentes conhecem todos os recantos e ela, talvez por pudor, resistisse, dando

tempo a que a salvassem." E, quase a correr, aos saltos, evitando os lameiros, lançou-se para a

polícia. A medida, porém, que se aproximava, como quem se avizinha de uma ilusão, ia-se-lhe a

esperança desfazendo n'alma.

Àquela hora o edifício parecia repousar em sono calmo: a própria sentinela, atabafada no

capote, com o capuz pela cabeça, agudo e negro, a lembrar um monge, estava encostada a um

dos umbrais, d'arma ao ombro, imóvel. Atirou-se pelas escadas e, em cima, no corredor, à meia

luz dormente de um bico de gás, viu dois homens num banco, cochilando. Um deles, porém,

mais pronto, ouvindo o rumor, abriu os olhos, pigarreou e, firmando-se, encarou-o carrancudo.

Paulo, quase sem hálito, pediu para falar ao delegado: Tinha urgência, era um caso grave.

- Se não é coisa de muita importância, o melhor é o senhor entender-se lá embaixo com o

tenente, porque o doutor está descansando.

- Não; é mesmo com o delegado que pretendo falar.

- Quem é o senhor? - perguntou o homem molemente, abotoando o colete, enquanto o outro,

que acordara, coçando com fúria a grenha hirsuta, engrolava escarros.

- Paulo Jove, estudante de medicina. - Já o homem caminhava quando, adiantando-se, ele

ajuntou, em tom confidencial: Olhe, diga que sou do Equador. Tenho urgência, é um caso grave.

O homem correu o reposteiro e desapareceu. Paulo voltou à escada, encostou-se à balaustrada,

com o guarda-chuva a escorrer. Só então pareceu dar pelas calças molhadas. Pôs-se a mirar os

pés e, tirando o lenço, passou-o pelo peito, pelos ombros, pelas coxas. Estava regelado e, por

vezes, uma dor fina atravessava-lhe a cabeça, como se a varasse um estilete.

Um soldado subia a escada, com a espada a bater nos degraus. Em cima respirou com força e

tomou à direita, lento, achamboado, desaparecendo num corredor, Impaciente, Paulo ia

chegando ao reposteiro. quando o homem, com uma voz gosmosa, o chamou:

- O senhor não pode entrar; espere um pouco.

- Pois não.

Afastou-se e pôs-se a passear, arrepelando os cabelos molhados, a pensar em Violante, vendo-

a, acompanhando-a na fuga, pelo braço de um homem misterioso que a levava, com ânsia

lasciva, os dois cobertos pela mesma capa, correndo, felizes, por entre árvores, como na

gravura idílica de Paulo e Virgínia. Vagarosamente, o que fora anunciar, entreabriu o reposteiro

e chamou-o: "Pode vir". Precipitou-se: quis deixar o guarda-chuva à porta, a escorrer, chegou a

encostá-lo; logo, porém, retomando-o, entrou em pontas de pés, tímido. O homem indicou-lhe

um sofá e foi encostar-se à mesa, bocejando. Pôs-se a olhar - a sala, em silêncio, estava

iluminada e, sobre a mesa, acumulada de papéis, havia um capote e embrulhos.

Aquele abandono dava-lhe uma impressão acabrunhadora e, como se aquela sala, que era o

vazadouro dos crimes, estivesse impregnada de um fluido mau, com um ambiente sinistro,

infeccionada pelas confissões dos réus, como as enfermarias dos hospitais ficam viciadas com

a respiração dos doentes, as idéias se lhe foram tornando sombrias. Já não era um doce idílio

que ele via introspectivamente, através da claridade da imaginação, que opera, como uma

lâmpada mágica, alumiando devaneios e conjecturas - era um crime: Violante a estorcer-se nas

mãos brutais de um homem, a gemer, a implorar, meiga e infeliz, com sangue a escorrer-lhe do

seio, com lágrimas nos olhos assombrados e, em torno dela, todo o horror de uma espelunca.

D'olhos muito abertos, a respiração tomada, viu sair de uma porta fronteira um homem pálido,

de barba ruiva, estremunhado, a ajustar ao corpo um robe de chambre de ramagens. O

introdutor disse, surdamente, como se não quisesse perturbar o silêncio da casa:

- É este moço.

Paulo adiantou-se para o delegado, que se sentara molemente, tomando na mesa uma

espátula, com a qual se pôs a bater na pasta.

- Sente-se - disse em voz pausada e fanha. - Estou às suas ordens.

O estudante chegou-se à mesa trêmulo, esfregando as mãos e, depois de haver lançado um

olhar ao contínuo, que se deixara ficar à porta, disse:

- Sou estudante de medicina, sr. doutor: Paulo Jove; trabalho no Equador. O que me traz aqui é

o desaparecimento de minha irmã.

O delegado cruzou as pernas e, sem levantar os olhos, friamente, perguntou:

- Desapareceu?

- Sim, senhor; hoje.

- A que horas?

- Das onze e meia para a meia-noite. Em casa não viram e minha mãe só deu pelo fato muito

tarde, quando a chamou.

- Foi só?

- Não sei, sr. doutor.

- Não é natural. - E, depois de uma pausa: Desconfia de alguém?

- Francamente. sr. doutor... - meneou com a cabeça negativamente e encolheu os ombros. -

Com a minha vida pouco paro em casa. Minha mãe, sempre doente ou a cuidar do serviço,

raramente aparece na sala. A criada falou em um soldado. - Deu d'ombros: - Mas não creio.

- Onde mora?

- Na Rua Senador Pompeu.

- Seu nome?

- Paulo Jove.

- E ela, a moça?

- Violante.

- Quantos anos?

- Dezoito.

- Dezoito?

- Sim, senhor.

O delegado ia garatujando em uma folha de papel; deteve-se e, sem levantar a pena,

murmurou:

- Traços.

- Como?

Ele repetiu devagar, insistindo:

- Traços.

- Ah! - E Paulo foi dizendo a altura da irmã, a graça do seu corpo flexível, a cor alambreada da

sua pele flexível, a abundância ondulante dos seus cabelos negros, o carmim dos seus lábios

polpudos, o negror das suas pupilas árdegas, a alvura dos seus pequeninos dentes, a languidez

do seu andar preguiçoso, o encanto da sua voz dengosa.

- Bem: vou mandar ver. O senhor não procurou o delegado da sua circunscrição?

- Não, senhor; vim diretamente aqui. Mas se o sr. doutor acha necessário...

Sem responder, o delegado arrepanhou o robe de chambre e, com o papel na mão, pôs-se de

pé.

- Tem pai?

- Não, senhor: morreu - era major de cavalaria.

- Pois sim, vou mandar ver; - e foi-se para a ponta do fundo, lento e derreado, tossindo.

Paulo ficou um momento hesitante, a olhar; ouviu o estralar de um móvel e um resmungo na

saleta onde entrara o delegado. Já com o chapéu na mão esteve ainda indeciso, como à espera

de uma resposta, até que, desanimado, dirigiu-se à ponta, correu o reposteiro e saiu. "Vou

mandar ver!..." E, repetindo as palavras do delegado, desceu as escadas, indignado e

desesperançado.

Chovia ainda. Carroças desciam a rua, aos solavancos, atroando o silêncio. Parado, com o olhar

disperso, numa inércia acabrunhada, como esquecido do seu próprio ser, ficou um instante à

porta, até que a frase indiferente do delegado repontou: "Vou mandar ver..." Teve um risinho

irônico; voltou-se para a escada, com ódio, repetindo entredentes: "Vou mandar ver..."

Impetuosamente abriu d'estalo o guarda-chuva, e ia, de novo, lançar-se a caminho, quando viu

um tílburi, que se aproximava vagaroso, ao passo tardo de um sendeiro esgrouviado, pobre

besta noctâmbula, velha e exausta, que só àquelas horas ermas, de trevas, saía com a ossada

e o mormo, para a tarefa que lhe valia o pasto e o abrigo na cocheira, até que, de todo inútil,

fosse tocada pelos moços e achasse um canto para morrer, ao claro sol, sob o azul macio do

céu. O cocheiro perguntou, em voz pigarrenta: "Para onde?" e Paulo, deixando-se cair na

almofada, deu-lhe o endereço.

Encolhido, sentindo a fria umidade da roupa, ia pensando na irmã: "Talvez a encontrasse em

casa, arrependida implorando o perdão". Via-a de joelhos, banhada em lágrimas, agitada pelos

soluços e a mãe a afagá-la, numa grande e transbordante felicidade. Mas o cocheiro

interrompeu-lhe o sonho:

- Que tempozinho! E anda por ai moléstia que é um horror!

- É verdade.

- A bexiga então... O senhor não imagina. Lá na minha rua dois casos. Ontem foi-se um

companheiro meu, deixando mulher e dois filhos. Um rapaz fonte que fazia gosto - vendia

saúde. Agora fica praí, sem amparo, a pobre rapariga, com dois pequenos agarrados à saia.

Mas que quer o senhor? um homem precisa, não pode estar a escolher. Ele apanhou um

freguês para Catumbi e lá esteve com o carro à espera, mais de uma hora, perto duma vala. Até

expirar não falou de outra coisa "que apanhara a moléstia naquela viagem. Que se não fosse o

demônio da vala..." Mas nós temos de ir a toda a parte, para isso é que saímos.

Atirou uma chicotada à anca ossuda da alimária, que arrancou a trote fazendo ranger o tílburi,

tão velho como ela, ameaçando desfazer-se em caminho, e continuou, inclinando-se, de vez em

vez, para atirar à rua grossas cusparadas.

- Também não há quem cuide da cidade. Veja o senhor isto: não há molas que resistam.

Uma das rodas ficara entalada numa fossa, o animal ladeava esforçando-se, e o cocheiro, a

fustigá-lo, cacarejava sacudindo as rédeas. Safando o veículo, o sendeiro partiu desabrido,

apesar dos psius! do cocheiro, que retesava as rédeas.

- Ainda tem fogo. Aqui tem o senhor um bicho que trabalha há doze anos e não é qualquer que

lida com ele. Tem ronha! Eu mesmo, às vezes, vejo-me atrapalhado.

Paulo não lhe dava atenção, preocupado, como estava, com o caso da irmã. Mas como fora

aquilo? A força?! Não! Violante não era uma criança que se deixasse arrebatar por um

desconhecido. Só? Também não! Para onde? E se houvesse saído para casar? Mas qual!

Tivesse o tipo tal idéia, certamente não a aviltaria em uma fuga, de mais a mais, sem motivo.

Fora contrariada? Não. Namorava, mas dizer que tinha amor a este ou àquele, isso não. Devia

ser algum desses bilontras - quantos conhecia ele! - que exploram raparigas, lançando-as no

vício. para viverem à custa da sua degradação. Um ímpeto de furor sacudiu-o: encheram-se-lhe

os olhos d'água. O cocheiro bocejou alto, atirando uma relhada ao flanco do animal que trotava.

Subiam a Rua do Dr. João Ricardo quando um silvo agudo cortou o silêncio da noite fria.

- Já o expresso!? - exclamou Paulo, em sobressalto. - Que horas serão?

- Deve andar perto das quatro.

- Como?! Já!

- Sim, senhor: não pode faltar muito.

Ao voltar o tílburi a rua, Paulo sentiu esvaziar-se-lhe repentinamente o coração como se todo o

sangue se houvesse escoado. Lá estava a luz sinistra filtrando-se através das persianas. Era o

sinal da vigília.

- Ali! disse.

O tílburi parou à porta e logo a janela abriu-se e a negra apareceu. com a trunfa muito branca e

disse para dentro: "É nhonhô..." Ele compreendeu que ainda esperavam a desaparecida; pagou

e desceu. O tílburi deu volta e foi-se lentamente, rangendo, como a desmantelar-se.

- Nada? perguntou à negra que lhe abria a ponta.

- Não, senhor.

Vindo da noite fria, sentiu uma impressão tépida, agradável, naquela sala iluminada e lúgubre. A

negra pôs-se a fechar a porta correndo o ferrolho e ele caminhou direito à sala de jantar,

desanimado, receoso, com o coração aos baques. Que havia de dizer à mãe que o esperava

ansiosa, confiada na sagacidade da polícia?

Para os simples a polícia é ainda um conforto porque só a vêem através das lendas. A polícia

tudo conhece e porque, raro em raro, descobre um criminoso, entende a pobre gente que

ninguém lhe escapa, tanto o assassino como o ladrão, o que mata como o que furta. A pobre

senhora acariciava a esperança de que, antes do nascer do sol, ali teria a filha, salva e pura.

Paulo bem a conhecia e receava desenganá-la. Antes de chegar à sala ouviu-lhe a voz

gemente:

- Então, meu filho?

Não respondeu e, quando a viu sentada em uma cadeira de vime, junto à mesa onde tinha um

dos braços estirado, abatida, com os olhos roxos de pranto, fitou-a mudo deixando-se cair em

uma cadeira.

- Nada...

- Nada?! Nem notícias, Paulo?

Esteve um instante a fitá-lo, desatando, depois, a chorar: um choro humilde, fraco, muito infeliz,

de criança, com a cabeça pendida sobre o colo farto que estremecia sacudido pelos soluços.

Paulo, comovido, com os olhos marejados, quis dizer algumas palavras de consolação - pôs-se

de pé, mas diante da mãe, cujo corpo tremia nos entrebuchos do pranto, emudeceu sem sentir

as lágrimas que lhe cresciam nos olhos. Lentamente, passando a mão pelos cabelos molhados,

foi caminhando cabisbaixo até a porta do quarto de Violante.

Deteve-se um momento, limpou os olhos e, tomando da mesa uma caixa de fósforos, fez luz e

entrou. Sobre o lavatório de vinhático, numa palmatória de cristal, havia um coto de vela;

acendeu-o.

A luz, que se foi, aos poucos, difundindo, lançou os olhos pelo interior desolado e, cruzando os

braços, ficou a olhar como se estivesse diante dum cadáver.

A cama estreita, alva, com um fino cortinado enastrado de fitas, tinha uma ligeira depressão; o

travesseiro macio, de paina, com a fronha de crivo, estava machucado. Um lenço jazia aos pés

da cama, amarfanhado e odorante.

Ela estivera ali deitada, e planejara a fuga, atenta aos rumores da casa e às pancadas do

relógio. Dali saíra, pé ante pé, atravessando a sala, passando sorrateiramente junto ao quarto

em que dormia a mãe e fora-se pelo corredor. Abrira a ponta, ganhara a rua e partira sem uma

lágrima, talvez sem o mais leve remorso.

Voltou-se: o lavatório estava em ordem, com os vidrinhos de essências, os vasos de flores, as

escovas, os pentes. Sobre a cômoda o retrato do pai, fardado, em grande gala, de pé junto a um

rochedo; e outros retratos de moças, de crianças; e cromos e a cestinha que ele lhe dera pelo

Natal com amêndoas.

No fundo, o guarda-vestidos entreaberto. Puxou a ponta, que rangeu, emperrada, e viu, a um

canto, sobre a caixa de chapéu, a boneca, muito loura, com os braços abertos, rindo, toda de

azul; e os vestidos escorridos nos cabides, a sombrinha, caixas, embrulhos. Afastou as saias,

sentindo um perfume morno e sensual de essência e de carne - faltava a de seda preta, a mais

nova. Fora com ela, a linda saia que ele lhe havia dado meses antes, no dia em que ela

completara dezoito anos, e que a mãe contara e cosera, cantarolando as suas modinhas tristes.

Não dizia palavra, apenas o seu rosto contraia-se em crispações nervosas e as pemas tremiam-

lhe. Fechou o móvel, sentou-se na cama, com os braços caídos, e viu-se ao espelho do

lavatório, demudado, os cabelos desfeitos, os olhos fundos e demorou o olhar, mirando-se.

Pouco a pouco, porém, foi-se-lhe a imagem desvanecendo e uma sombra passou-lhe pelos

olhos; agitou-se, e logo reviu-se, como em ressurgimento,

Fora, os soluços de Dona Júlia sucediam-se, a mais e mais angustiosos. "Que lhe hei de eu

dizer, meu Deus!" Não lhe acudia uma palavra, apertava a cabeça entre as mãos, como a

espremê-la, trincava os lábios e, de novo, cravava os olhos no espelho, revendo-se. E as jóias?

Puxou a gaveta da cômoda - lá estava a caixa de veludo em que ela costumava guardá-1as -

abriu-a: vazia! Meneou com a cabeça, contemplando o fundo de cetim negro, onde brilhavam

letras douradas, entre medalhas. Fechou-a e depô-la de leve na gaveta, sobre umas gazes

tênues. Afastando-se, sentiu que alguma coisa lhe fugia diante dos pés: baixou os olhos - era

uma velha botina acalcanhada com o cano engelhado. Perto do lavatório jazia a parelha. Eram