O Turbilhão por Coelho Neto - Versão HTML

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as botinas com que ela andava em casa.

Ficou a contemplá-las. Ah! Violante. Em súbito furor, atirou um murro à fronte rosnando: "Eu

devia ter sido mais severo, mas mamãe... Encolheu os ombros e, como se lhe houvesse

ocorrido uma idéia salvadora, levantou-se às pressas, abriu a gaveta do lavatório, mas ficou

inerte, a olhar uma infinidade de selos esparsos. Fora ele que os arranjara com o Prates dos

telegramas para a coleção que ela andava a fazer; estavam todos ali, em desordem, colados a

pedaços de jornais, em fragmentos de envelopes carimbados. E cartas? Ela devia tê-las. Então,

numa fúria, como um ladrão que tivesse pressa, receoso de ser surpreendido, pôs-se a abrir e a

fechar gavetas que, às vezes, emperravam e, nervosamente, revolvia retalhos, papéis finos

amarfanhados, ferros de frisar, cromos, grampos, alfinetes. Mas a voz lamentosa de Dona Júlia

chamou-o:

- Paulo!

Rápido, atarantado, lutou para fechar a gaveta do lavatório, que resistia, empenada, meteu-lhe o

peito e, com um impulso fonte, com o qual tremeram, tilintando, a louça e os cristais, levou-a ao

fundo, saindo imediatamente. Dona Júlia limpava os olhos.

- Paulo! repetiu.

- Que é, mamãe?

- E agora, meu filho, que havemos de fazer? - Ele pôs-se a torcer a toalha da mesa, sem dizer

palavra. - Então essa gente da polícia não pode salvar uma moça?

- Que hão de eles fazer, mamãe? Quem sabe lá! O delegado prometeu interessar-se por ela.

Mas a senhora sabe que também não é assim, de uma hora para outra. Eles vão procurar.

- E então?

- Se encontrarem obrigarão o homem a casar, seja ele quem for. Não há outra coisa a fazer.

- Ah! meu filho... E se for um ricaço? O dinheiro vence tudo. Os ricos governam e a minha pobre

filha é que fica para aí, perdida. Tu conheces tanta gente, Paulo... Tem pena de mim. Tem pena

de tua irmã.

E a pobre velha, de mãos postas, soluçando, deixou-se cair de joelhos, a implorar.

- Tem, Paulo, tem pena de mim. Que vergonha, meu filho! - e inclinou-se, com o rosto nas

mãos, os cotovelos fincados na cadeira. Paulo levantou-a:

- Eu farei tudo. mamãe; descanse. Nem conto com a polícia. Eu mesmo vou procurar Violante.

- Sim, meu filho; ela é tua irmã! Nem sabe o passo que deu. - Nervosa, trêmula, arrastando-se

para o quarto, pôs-se a dizer: Nem eu sei com que cara hei de aparecer amanhã a essa gente

da vizinhança.

Paulo já havia entrado no quarto quando ouviu o baque de um corpo. Precipitou-se,

sobressaltado, e foi achar a mãe de joelhos, com a cabeça derreada, de mãos postas, exorando

as imagens. Retrocedeu em pontas de pés, com um respeito sagrado e tornou ao seu quarto, na

sala de visitas. Felícia, sentada no tapete, as pernas esticadas, os pés hirtos, ressonava. A porta

estava entreaberta. Entrou, deu luz ao gás e, diante da estante atochada de livros, desabafou,

colérico:

- Cínica! E tudo por vaidade. É a mania do luxo. Uma moça pobre, que não pensava em outra

coisa senão em vestir-se... E eu que morresse! E a pobre velha que se estafasse! Ah! coisa

nojenta!

Encontrou-se à mesa, onde tinha o retrato da família, num quadro: o pai, a mãe, ele, ela:

pequenina, de vestido curto, com uma boneca nos braços, recaída sobre o colo de Dona Júlia,

ainda moça e forte. Tomou o quadro e pôs-se a contemplá-lo e, de novo, os olhos se lhe

encheram d'água.

O pai, muito severo, de pé, apoiado à espada, fitava-o duramente, como se o responsabilizasse

por aquele fato que deslustrava o nome que ele havia, com tanto brio, honrado na guerra e na

paz, legando-o puro aos filhos.

E Paulo, com um tremor nervoso, como se efetivamente aquela figura, animada por milagre, lhe

falasse, pôs-se a dizer baixinho, em sussurro: "Meu pobre pai! Meu pobre pai!" Mas os seus

olhos, empanados pelo pranto, buscavam a criança inocente que ali estava, linda e pura, com os

cachos dos cabelos muito negros, confundidos com os bucres louros da boneca.

Depois o quadro e, acendendo um cigarro, sentou-se na cama e ia tirar as botinas que, com a

umidade, se lhe haviam colado aos pés, quando ouviu os passos arrastados de Dona Júlia. A

velha empurrou a porta e entrou, d'olhos muito abertos, a arquejar, e foi logo perguntando:

- Tu falaste no soldado? Quem sabe se não foi ele? - Paulo encolheu os ombros e a velha,

sentando-se, continuou: Eu não atino com outra pessoa. Se não foi o soldado, foi alguém da

Estrada de Ferro.

- Qual da Estrada de Ferro!

Depois de uma pausa, ela insistiu:

- Para mim, foi o soldado. Eu, se fosse você, ia de manhã ao quartel.

Paulo explodiu:

- Pois mamãe acha lá possível que Violante, vaidosa como é, saísse de casa com um soldado?!

- Quem sabe, meu filho!

- Ora!... Ela não deu esse passo por amor. Violante não quer bem a ninguém, nem à senhora,

acredite. Se ela lhe tivesse um pouco de amizade, não saía de casa, como saiu, deixando-a de

cama. Aquilo é a criatura mais indiferente que eu conheço. Se mamãe tivesse ouvido os meus

conselhos, não estava agora aí chorando.

- Ora, Paulo... tinha de acontecer.

- Ah! Tinha de acontecer?... Não, não aconteceria se a senhora não lhe passasse tanto a mão

pela cabeça. Que fazia Violante aqui em casa? Era uma princesa: Dormia até as tantas e

passava os dias polindo as unhas ou colecionando folhetins dos jornais. Se a senhora a

obrigasse a coser e a arrumar a casa não aconteceria o que aconteceu. Mas ninguém tocasse

em dona Violante!

- Está bom, não queiras agora culpar-me. Eu fazia tudo isso porque sou mãe.

- Porque é mãe... Pois sim. E eu agora que deixe os meus afazeres e que ande por aí,

envergonhado, à procura da senhora minha irmã. - Levantou-se indignado: Eu não ponho mais

os pés na Escola! Essas coisas sabem-se logo e eu não tenho cara para aparecer aos colegas.

"É irmão de fulana, que fugiu." Eu não! - Voltou-se repentinamente para a velha, carrancudo:

Olhe, nós estamos aqui aflitos. E ela?...

- Sabe Deus se já não está arrependida! - suspirou a velha.

- Arrependida! Ela fez tudo com calma, levou todas as jóias.

- Levou!?

- Sim senhora, levou! - A mísera inclinou a cabeça sobre o colo com um suspiro; e Paulo

continuou: E ainda a senhora quer desculpá-la. Uma perversa!

- Não fales assim.

- Que é, então? Que lhe faltava aqui? Tinha até demais! Luxo?! - Exclamou curvando-se, com a

face contraída, os olhos flamejantes, as mãos espalmadas nas coxas: Ah! Isso não, porque eu

não havia de roubar. Isso não! - E pôs-se a passear pelo quarto. Desabafava. A sua cólera

contida transbordava e, como na expansão duma válvula há o vapor que se liqüefaz, havia

naquela fúria lágrimas disfarçadas; era o pranto que irrompia da cólera e a atitude infeliz de

Dona Júlia concorria poderosamente para aquela fraqueza. Tomou, ao acaso, um livro na

estante, folheou-o vagamente e, atirando-o à mesa, prorrompeu de novo: Quantas vezes

protestei contra aquela mania da janela? Diga! Uma pouca-vergonha. As outras moças chegam

à janela, é verdade, mas Violante era desde a manhã até as tantas da noite, todos os dias, até

com chuva. Nem sei que parecia. E a senhora? A senhora sempre a defendê-la, porque era

moça. Está aí.

- Mas tu queres agora culpar-me, Paulo? Eu podia ver?

- Justamente por isso.

- Ora, meu filho, se ela tinha essa idéia nem que eu ficasse agarrada à sua saia noite e dia havia

de levá-la a efeito. Tinha de acontecer e quando Deus quer...

- Deus! Aí vem a senhora com Deus. Pois sim. Eu é que não sei como há de ser agora.

- O quê?

- A minha vida. Tenho o jornal... Da Escola não falo, porque lá não ponho mais os pés.

- Então não te formas?

- Eu? Eu, não! Mas não sei como há de ser. Como poderei cuidar das minhas obrigações tendo

de andar por aí à procura de Violante? Não sei.

- Ela há de aparecer. Tenho fé em Deus.

- Vá esperando.

- Por que falas assim?! Nem parece que é tua irmã. Deixa lá, é sina de cada um.

- Ah! É sina de cada um. Pois sim...!

- É, meu filho: é sina de cada um.

Com tais palavras, para evitar as recriminações de Paulo, que não suportava "superstições e

crendices", foi-se do quarto, arrastando os passos.

Locomotivas silvavam manobrando, os galos amiudavam nos quintais vizinhos. Era a

madrugada. Paulo começou a despir-se, atirando a roupa desordenadamente. As artérias das

têmporas latejavam-lhe túrgidas, sentia um grande peso no cérebro. Apagou o gás e, no escuro.

sentado à beira da cama, com os pés nus roçando o soalho frio, pôs-se a arrepelar os cabelos e

viu, na sombra, vagamente, a cena da fuga: a irmã, de preto, com o embrulho das jóias, a

caminhar cautelosa, surdamente e desaparecer diluindo-se como uma névoa.

Deitou-se, cobriu-se, não tinha sono. E pensava: Onde iria? Como encontrá-la? Chegou-se mais

à parede e, d'olhos fechados, meditava quando ouviu os arrancados soluços de Dona Júlia no

quarto próximo. Pôs-se à escuta e os olhos foram-se-lhe enchendo d'água, uma opressão

pesou-lhe no peito como se lho fosse esmagando e, de repente. afundando a cabeça no

travesseiro, rompeu a chorar desesperadamente.

3

Eram seis horas da manhã quando acordou em sobressalto, como se houvesse sido

violentamente despertado. Sentou-se na cama esfregando os olhos, moído de fadiga e os fatos

da véspera afluíram-lhe à memória, nítidos e rápidos. A cena em casa, a caminhada através da

noite tormentosa, a subida à polícia, o delegado sonolento. Mas, pensando na mãe, pôs-se de

pé, descalço e saiu para a sala, já aberta e em ordem.

Tiniam na rua as campainhas das vacas, trens bufavam rodando pesadamente; às vezes um

silvo varava o silêncio. Havia sol. A luz dourada entrava pelas brechas das persianas brilhando

no verniz dos móveis e, muito longe, soavam sinos, cometas vibravam.

Ia para a janela, mas recuou pensando nos vizinhos, receoso de alguma pergunta e estava

parado, enrolando um cigarro, quando bateram à porta: era o lixeiro. Abriu; o homem passou às

pressas, meio curvado, murmurando "Bom dia" e foi-se pelo corredor, com o balde à cabeça.

Ele deixou-se estar, indo e vindo na sala estreita, até que o lixeiro tornou, sempre apressado, e

saiu. Pareceu-lhe tê-lo visto sorrir, um sorriso irônico de quem se regozija com o sofrimento

alheio. Teria ele sabido? Encostou-se à rótula olhando pelas rexas - o homem, trepado a uma

das rodas da carroça, despejou o balde e dobrou a tampa que bateu com estrépito, saltou à

calçada, deu volta, a correr, e, tomando as rédeas, incitou o animal que arrancou.

Na rua havia ainda grandes poças d'água, posto que os paralelepípedos, já enxutos,

aparecessem muito brancos, lavados. O céu, limpidamente azul, resplandecia com um brilho de

seda; subiam tufos de fumo das locomotivas, grossos, em rolos muito brancos, aos jatos, como

flocos que se iam esgarçando, diluindo-se no ar.

Irresoluto, tão alquebrado d'alma como de corpo, com o desânimo, que é a fadiga moral, onde

parava deixava-se ficar inerte, d'olhos imóveis, abandonado. Idéias contrárias debatiam-se-lhe

no espírito, sentimentos diversos disputavam: ora o ódio irritava-lhe os nervos, ora a piedade

umedecia-lhe os olhos.

Cabisbaixo, lentamente, com as mãos para as costas, seguiu pelo corredor e, na sala de jantar,

levantando a cabeça, viu, com surpresa, a mãe parada à ponta do quarto de Violante, a chorar

em silêncio, como se já não tivesse gemidos. Não lhe deu palavra; deixou-se cair em uma

cadeira e ficou-se a olhar, absorto. Felícia trouxe-lhe o café e ele, distraído, pôs-se a mexê-lo

vagarosamente.

Ouvindo bater à porta voltou-se ligeiro e disse à negra: que fosse ver, devia ser o caixeiro. Que

lhe falasse lá mesmo, não queria ninguém em casa. A negra seguiu pelo corredor enrolando a

trunfa em volta da carapinha grisalha e dura. Dona Júlia, sentando-se, disse, com uma doce

expressão de ternura:

- Ela não levou as jóias, Paulo,- foi só com os brincos e com o anel que usava sempre.

- Como não levou?!

- Não, estão aqui; - e mostrou uma caixa verde, que fora de sabonetes, explicando:

- Estavam no guarda-vestidos. Nem as jóias, nem a roupa: está tudo aí. - Paulo conservou-se

calado, d'olhos baixos, raspando o soalho com os pés. - Vais à polícia outra vez, não?

- Para quê?

A velha encarou-o boquiaberta.

- Como? Pois não vais?

- Eu, não. Que vou lá fazer? Para o homem dizer-me de novo: Que vai ver? Eu não.

- Mas, meu filho, se a polícia não fizer alguma coisa, quem poderá fazer? Queres que tua irmã

fique para aí, atirada no mundo, sem uma pessoa que tome as dores por ela? Se não queres ir

eu vou e tenho certeza de que hei de conseguir alguma coisa.

Felícia tornou à sala com os jornais que recebera do entregador. Paulo, em dois goles, sorveu o

café morno e, cruzando as pemas, tomou as folhas que a negra deixara sobre a mesa. Lançou

os olhos, com ânsia, à primeira página, percorrendo todas as colunas, à procura da notícia da

fuga de Violante. Bem podia algum repórter ter aparecido na polícia depois da sua saída

levando a informação escandalosa. Tranqüilizou-se, porém, lembrando-se da hora adiantada em

que se dera o crime - já todos os jornais deviam estar prontos e nem tão importante era o caso

para que o plantonista se arriscasse, por ele, a perder o correio.

Mais calmo, acendendo o cigarro, pôs-se a ler o Equador, achando aqui, ali, notícias que

revisara: um desastre no mar, uma tentativa de suicídio e o conto de Aurélio Mendes, ao alto da

primeira página, enchendo densamente as duas primeiras colunas.

Com o jornal diante dos olhos pensava nos companheiros. Que diriam eles quando a notícia,

saindo da composição, lhes chegasse às mãos? O Brites conhecia Violante, e o Bruno, que a

vira, uma vez, na redação, numa terça-feira gorda, ficara impressionado pelos seus olhos "que

ardiam" - Que diriam eles quando lessem a prova infame? E, como se já sentisse a vergonha

que lhe estava reservada, passou a mão pela fronte, depois, atirando um murro à mesa, ergueu-

se: "Não! Não volto!" exclamou respondendo a um pensamento. Dona Júlia levantou os olhos

marejados encarando-o em silêncio. "Não volto!" repetiu debruçando-se à janela que abria sobre

o quintalejo. Lá estavam os caixotes com violetas e malvas, à sombra do muro. Eram os

canteiros de Violante.

Ao fundo, num cercado de ripas, as galinhas cacarejavam assanhadas, com fome. Um gato

caminhava lentamente pelo muro, ao sol e, entre as folhas miúdas duma esponjeira, uma

camaxirra chilreava trêfega, na alegria da luz, entre o brilho das gotas da chuva, engastadas nas

folhas.

Paulo, com o rosto nas mãos, os cotovelos no beiral da janela, elevou o olhar pensativo. De vez

em vez sacudia a cabeça com um sorriso magoado. Amofinava-o aquela idéia dum possível

comentário dos companheiros na sala da revisão, perto dele: o Bruno, sensual, a invejar o

homem que arrebatara Violante; o Amaro, com quem tivera uma rusga, a rejubilar vingativo; o

Malheiros a rir, com a sua eterna ironia, e os compositores, até o Lúcio, retranca, toda aquela

gente a espetá-lo com olhares perversos ou curiosos. Talvez mesmo algum, mais ousado, lhe

pedisse pormenores oferecendo-se para ajudá-lo na pesquisa ou com um empenho para o

chefe, não porque o quisesse auxiliar, em desinteressada camaradagem, mas para entranhar-se

no escândalo, conhecer as minúcias, todos os pequeninos incidentes. "Não! Não volto!" E

encolheu os ombros.

Não eram somente os revisores do Equador, toda aquela multidão promíscua do jornal que lhe

aparecia, inclemente, a rir, num surdo remoque: eram os estudantes, seus colegas da Escola,

troçando o caso em volta do tabuleiro da Sabina, nos anfiteatros, nos corredores, até diante das

mesas de dissecção.

Nas ruas também, quando passasse, haviam de mostrá-lo: "É aquele!" E ririam, com escárnio,

da sua desonra; talvez o responsabilizassem por ela. Fariam dele um carrasco e da irmã uma

vítima - que fugira para evitar tormentos, que se libertara do verdugo, preferindo as misérias do

meretrício à vida humilhada e torturada. E ele, inocente, seguia, vexado, sob a dureza daqueles

olhares que lhe infligiam um injusto castigo. Teve um novo movimento de cólera e Dona Júlia,

que o olhava, perguntou:

- Que é?

Encolheu os ombros, deixando a janela e, molemente, abandonadamente, encostou-se à mesa

brincando com a colher que ficara na salva de metal. De repente, numa inspiração, exclamou:

- Vou procurar o Mamede.

- Mamede?! Para quê? perguntou a mãe.

- Para descobrir Violante.

- E Mamede sabe, meu filho!?

- Mamede? Mamede conhece toda a cidade, é íntimo dessa gente da polícia. Se com ele eu não

descobrir Violante, então... - esticou o beiço, desanimado. - A senhora bem sabe que ele foi

agente de polícia, era um dos melhores; saiu por causa do gênio.

- E sabes onde ele mora?

- Mora em uma estalagem, na Rua do Riachuelo. Vou já. Hoje é domingo; ele deve estar em

casa.

- Então, vai. E a polícia?

- Qual polícia! Penso lá em polícia!? Descanse. - Deu alguns passos e voltou-se: Olhe, se eu

tivesse dinheiro ainda bem, mas assim...

E caminhou para a cozinha. Felícia talhava a carne sobre a mesa encardida e acumulada; o

gato miava, fazendo voltas, com a cauda hirta e, numa gaiola, o gaturamo gorjeava, pulando,

todo arrufado e úmido do banho. Paulo saiu ao quintal e, descalço como estava, foi seguindo

direito ao banheiro. Felícia, vendo-o passar, correu com um par de tamancos e uma toalha

felpuda:

- Olhe, nhonhô.

Ele tomou os tamancos, atirou a toalha ao ombro e empurrou a porta do banheiro sombrio e

úmido. Despiu-se e, nu, passeando, a esfregar o peito, d'olhos no chão, esteve algum tempo a

pensar.

Na vizinhança, uma voz de mulher cantava; estalavam roupas batidas e, de instante a instante,

eram berros de locomotivas que chegavam, que partiam, arrastando comboios. Ficou debaixo

do chuveiro, hesitante, com frio; esteve um momento parado a olhar o crivo que pingava, depois

uma aranha, que se balançava na teia, a um canto, junto à caixa d'água; por fim, resoluto, puxou

a corrente e a água jorrou copiosa. Refrescado, saltou para a tábua e, envolvendo-se na toalha,

pôs-se a esfregar-se. Vestiu-se, calçou os tamancos e saiu.

Passando pela cozinha recomendou à Felícia que lhe arranjasse qualquer coisa para almoçar:

um bife e ovos - e, apressado, fechou-se no quarto para vestir-se. As botinas estavam

encharcadas; tomou uns sapatos amarelos e surpreendeu-se a assobiar, esquecido da agonia

que lhe toldava a vida, dantes tão calma e feliz naquela casinha alegre. Vestido, mirou-se

rapidamente ao espelho, compôs a gravata e passou à sala de jantar.

Felícia estendera a toalha e já o prato o esperava. Sentou-se; e arrastando uma cadeira para

junto dele, ficou a enrolar uma ponta da toalha, suspirando a espaços. Quando a negra

apareceu com o bife e os ovos ainda rechinando na frigideira, Paulo partiu o pão e pôs-se a

comer às pressas, sem levantar os olhos. Cigarras chiavam nas árvores vizinhas e na rua um

vendedor de frutas prolongava um pregão monótono.

- Que vais dizer ao Mamede?

- A verdade.

- Que ela fugiu de casa?

- Então?

Calou-se, pensativa. e tornou por fim, receosa:

- Não sei. Eu, por mim, não dizia. Mamede, com aquele vicio...

- Ora, vício. Mamãe há de ver.

- Enfim...

- A senhora pensa que a polícia é uma coisa e ela é outra. Olhe o Alves.

- Que Alves?

- Um colega meu. Um copeiro levou-lhe de casa todas as jóias da mãe e das irmãs e depois? O

Alves fez tudo e , até hoje, não conseguiu da polícia outra resposta senão: "Que os agentes

estão na pista do gatuno!" Vai já para um ano, e o Alves tem dinheiro para gastar. A senhora

pensa que é só chegar lá e pedir? Pois sim! Vou arranjar-me com o Mamede. Se hei de gastar

com um desconhecido, gasto com ele , que é amigo, e com mais probabilidade de êxito, porque

Mamede pode ser tudo, mas estima-nos.

- Isso é verdade, concordou Dona Júlia, ajuntando: e tem obrigação. Seria um ingrato se não

nos estimasse.

A palestra foi-se tornando calma entre mãe e filho, como se houvessem esquecido o desgosto.

Dona Júlia chegou a notar que um dos punhos do filho tinha uma mancha de ferro e propôs

substituí-lo.

- Não, serve este mesmo, - disse ele levantando-se e batendo forte com os pés para ajeitar os

sapatos. Ainda mastigando, recebeu de Felícia a xícara de café; tomou-o em três goles e,

dirigindo-se a Dona Júlia, disse-lhe: E agora não fique para aí chorando: almoce descansada.

Eu vou ver. Tenho esperança de conseguir alguma coisa com o Mamede.

Tomou o chapéu, mas Dona Júlia adiantou-se com a escova.

- Espera um pouco, não vás assim! - e pôs-se a escová-lo vagarosamente.

- Lembre-se de sua saúde; a senhora anda doente. Eu estou aqui. Não vá agora amofinar-se

por uma ingrata, que nem é digna da sua amizade. Eu, palavra de honra, se não fosse pela

senhora, nem me abalava - que se arranjasse. - Dona Júlia curvara-se para escovar-lhe as

calças.

- Isso não! É minha filha, é tua irmã!

- Pois sim...

- É teu sangue.

- Meu sangue, não! - negou indignado. - Não, que eu trabalho, faço pela vida. não ando a

embonecar-me. Mas ela há de ver o bonito... - Oh!

- Não fales assim, Paulo! Deixa-a. Deus é grande! - E passando-lhe a mão pelas costas, para

tirar um fiapo que esvoaçava repetiu: Deus é grande e é pai.

Paulo tomou a bengala e partiu.

- Deus te acompanhe! murmurou a velha.

Ele esteve um momento indeciso, a pensar nos vizinhos, imaginando uma resposta para os que

lhe perguntassem pela irmã, mas resolvendo-se, abriu a porta e saiu, de cabeça baixa, como

preocupado, para evitar os cumprimentos.

A cidade, depois da noite de chuva, muito arejada e lavada, tinha um aspecto asseado e

agradável. O sol tépido brilhava num puro azul e, pelos telhados vermelhos do casario, aqui, ali,

clarabóias dardejavam ofuscantes. Um realejo melancólico resmoneava ao longe. Paulo

atravessou a rua sem voltar os olhos. Ouvia vozes na vizinhança - uma mulher que silvava

psius! os gritos frenéticos de uma criança, latidos de cães. Quando dobrou a esquina sentiu-se

aliviado, tranqüilo, como se houvesse escapado a um perigo; moderou o andar.

No quartel estrondava um dobrado entusiástico. Instintivamente foi ritmando os passos pela

música; de repente, porém, como se se sentisse observado, fez uma leve parada e seguiu

devagar, fugindo aos compassos, até que se achou diante da estação Central.

Gente escoava em massa para o largo, chalrando: pequenos apregoavam jornais, perseguindo

os passageiros que chegavam dos subúrbios. Homens, sentados ou acocorados diante de

cestas de frutas, acamavam maçãs rosadas ou conversavam alegremente. Grandes tabuleiros

de doces atraíam a garotada, os doceiros apregoavam, afugentando as moscas que

esvoaçavam em torno dos pães louros, lentejoulados d'açúcar cristalizado e os engraxates, de

joelhos junto das caixas, que batiam, chamavam os transeuntes. Bondes faziam a curva, outros

seguiam cheios e os de São Cristóvão cruzavam-se, apinhados, com gente nos estribos.

Os carros, em fila, estendiam-se ao longo do terreno vago e em torno de um quiosque cocheiros

discutiam em algazarra; outros, atracados, mediam forças ou gingavam em meneios

capoeirosos, enquanto um pequeno, junto a um dos carros, estalava um chicote, rindo-se

quando a água de uma poça espirrava para os lados, lamacenta e negra.

Os montes, muito azuis, tinham uma nova alegria. A Tijuca, desanuviada, cravava o seu cimo no

céu; e o parque em frente, denso e verde, parecia de um arvoredo tenro: lisa era toda a

folhagem, como nascida naquela manhã; a grama verdejava viçosa, como se por ali houvesse

andado a primavera mondando as plantas, recolhendo versas e ramalho para mostrar, em todo

o esplendor da beleza, a sua residência mais amada.

Ia atravessando a rua quando uma matula de garotos arremangados, descalços, brandindo

paus, aos berros, abalou da estação, a correr em direção ao quartel, donde partiam, vibrando na

serenidade da manhã luminosa, clangores fortes de metais. Deteve-se, empolgado por aquele

troar de guerra, que os ecos iam prolongando gloriosamente. Era um batalhão que saía,

precedido pela cainçada lépida, que ladrava.

A molecada esperta, aos saltos, corcoveando, em destros arremessos, bradava atirando,

desviando golpes, numa excitação de luta e a banda rompeu estrondosa como uma muralha

resplandecente que se movesse, seguindo para o campo fronteiro, onde já se haviam reunido

grupos de curiosos.

Apareceram depois os oficiais a cavalo - um dos ginetes, negro e luzidio, caracolava garboso:

logo depois o primeiro pelotão, com as baionetas rútilas inclinadas, formando um revérbero e

passavam, com intervalos, serenamente, pelotões sobre pelotões, até que houve um claro e a

bandeira verde, solta ao vento, palpitou vitoriosa. Retiniram cometas, novos pelotões desfilaram:

por fim vários soldados, num bando desordenado, saíram na coda e um carneiro, lanzudo e

gordo, precipitou-se rebolando entre cães que ladravam, engalfinhando-se, numa alegria

estróina. Bondes esperavam travados até que o batalhão atravessou a rua airosamente.

A um brado do comandante, que sofreava o corcel, os pelotões recuaram ficando toda a tropa

em linha, imóvel e direita. Súbito, num relâmpago, moveram-se as baionetas fazendo uma linha

perpendicular, cintilante. Uma pancada atroou, os tambores rufaram e um dos oficiais, à rédea

frouxa, partiu em revista à formatura.

Os passageiros voltavam-se nos bondes para olhar e Paulo, entretido, acompanhava as

manobras quando se lembrou do Mamede. Lançou um olhar rápido ao relógio da estação - eram

oito e meia. Foi-se lentamente até ao portão do parque, sempre a ouvir a música guerreira que

estrugia como um hino forte à luz magnífica do sol.

As aléias estavam ainda úmidas e marcadas de pegadas, mas que frescor na folhagem! O lago,

liso e cristalino, refletia o céu e um ganso, alvo de neve, nadava sem mesmo frisar a água

dormida. O relvado cintilava emperlado de gotas límpidas e um aroma silvestre de bosque

virgem saturava o ar fino.

Ele seguia contemplativo, sentindo o hálito das árvores, cercado pela vegetação forte, refeita

com a rega farta da noite.

Passarinhos cantavam nos ramos, iam dum a outro, perseguindo-se; uniam-se no ar como

trocando beijos e lá iam, de novo, juntos, d'asas frementes, metiam-se num meandro folhudo,

onde, por certo, tinham o ninho agasalhado. Folhas caíam girogirando, flores murchas

manchavam a relva, amareleciam ou ensangüentavam as alamedas.

Num banco um casal espairecia vendo o filho, um pequenito enfezado, ir e vir, arrastando a

bengala, a fazer garatujas na areia. Súbito, porém, um som rouco e fanho de buzina e um retinir

de tímpano alarmaram os dois felizes: o homem levantou-se, tomou o petiz nos braços, mas não

teve tempo de voltar ao banco porque dois ciclistas, curvados sobre as máquinas, pedalando

com fúria, passaram rápidos, com uma leve crepitação da areia.

Homens caminhavam passo a passo, como convalescentes e uma velha negra, abordoada a um

pau, trêmula e tarda, passou com resmungos, num solilóquio de idiota, a cabeça toda branca, a

pele engelhada, os olhos sumidos, enevoados no fundo das órbitas. Paulo chegava à praça

central quando alguém lhe falou. Era um vizinho, empregado no Correio:

- Por aqui?

- É verdade.

- Os seus, bons?

- Graças a Deus. E os seus?

- Assim... - tocou no boné e seguiu ligeiro, gingando. Outros ciclistas deslizavam, uns céleres,

como em vôo rasteiro, outros lentamente, ziguezagueando, oscilando ora à direita, ora à

esquerda, esbaforidos, suados.

Bem felizes eram aqueles que por ali andavam descuidados! Para eles a natureza ria, o sol era

alegre, jacundos os passarinhos, as flores obrantes e no sorriso de enlevo manifestavam a

alegria de viver. Tudo, em torno, acenava-lhes afortunadamente. Só ele ia magoado, com a

alma denegrida, fugindo aos homens, receoso das próprias coisas, porque aquelas mesmas

árvores, aquele mesmo céu, aqueles mesmos pássaros pareciam recebê-lo com ironia

pungente vendo-o infeliz, toldando com a sua tristeza a alacridade daquela manhã triunfal.

Um velho maltrapilho cochilava num banco, sob a ramagem verde e basta duma árvore em flor,

com o cajado entre as mãos engelhadas. Era um triste, talvez, tinha também o seu drama; mas

abriu os olhos lentamente, cravou-os no céu e, como um sino ressoasse perto, sonoro e grave,

tirou o chapéu desabado, descansou-o no banco, persignou-se e , baixando a cabeça branca, de

emaranhados e amarelecidos cabelos, ficou imóvel.

Dominado por aquela figura venerável de crente, Paulo descobriu-se, mas com vergonha dos

transeuntes, que o podiam tomar por um carola, pôs-se a passar a mão pelos cabelos - no

íntimo, porém, fazia votos a Deus, àquele Deus de Misericórdia que a voz grave do sino

recordava no esplendor da manhã.

Vivamente outros sinos, mais límpidos, bimbalharam em festivo repique, e lá iam os devotos ao

som do reclamo, como ovelhas correndo à buzina do pastor, por entre os pedrouços e a urze

brava do monte, aos quais bem podem ser comparadas as agruras da vida.

Quando chegou ao portão, em frente aos Bombeiros, teve de recuar à zoada das trompas de

outros ciclistas, que vinham em caravana, apostando, uns mais avançados, rindo, galhofando

em tom de vitória. Atravessou a rua e, fustigado pela preocupação, amiudou os passos.

Subindo a Rua do Senado por entre o casario pobre, vendo às janelas os bustos arremangados

das caseiras e, na calçada, os homens que gozavam a sua manhã de folga, em mangas de

camisa, os braços nus, guedelhudos e fortes, tinha, por vezes, palpites de que a irmã estava

refugiada em uma daquelas casas. Ouvia-lhe o riso, reconhecia-lhe o timbre da voz fresca e

lânguida; voltava os olhos e, rapidamente, devassava interiores modestos.

Num botequim, junto à barreira esbarrondada, abancados a mesas sórdidas, preguiçavam

madraços, e, mais adiante, numa casa de pasto, escura e lôbrega, ao longo de compridos

bancos, trabalhadores almoçavam chalrando estrondosamente.

Enxames de moscas esvoaçavam na calçada e um velho, sentado no limiar de uma casa, com a

perna esticada, envolta em estropalho imundo, alrotava, estendendo a mão aos transeuntes.

Paulo atirou-lhe uma moeda.

Ganhando o aclive da Rua do Riachuelo, seguiu lentamente, curvado, chegando ao alto alagado

em suor.

4

A estalagem em que morava o Mamede, antiga chácara senhorial, abria por um portão nobre,

com leões de louça nos pilares de pedra. Era um imenso e rumoroso viveiro, alveolado de

renques de casotas baixas, de porta e janela, ao fundo de um jardinete, em umas escavacado e

seco, em outras caprichosamente plantado até a cerca de ripas que o limitava.

Largo, vasto, subindo em capinzal para a montanha, o terreno era o logradouro comum,

gramado em quadros ou com coradouros de pedra sob uma verdadeira teia de cordas onde

trapejavam roupas.

No aclive, encostado à barranca, havia um estábulo e mais ao fundo, num cercado de pau-a-

pique, muares soltos espojavam-se entre carroças tombadas sobre os varais. Tinas jaziam

acanteiradas em fila ou de borco. Sentia-se o descanso domingueiro.

Só uma mulher, vermelha, anafada, com um largo chapéu de homem à cabeça, as saias

arrepanhadas na cintura grossa, mostrando as pernas fortes e os pés rijos, em tamancos,

ensaboava, jogando violentamente o busto, rebolindo os quadris nutridos. Os seios desabavam-

se-lhe, moles e trêmulos, no papo da camisa e os seus braços másculos mergulhavam e

reapareciam enluvados d'espuma.

Um mulato calvo, d'óculos, quase no limiar de um dos casebres, aproveitando a luz, cosia à

máquina, cantarolando; e uma negra, sentada acaçapadamente, com o pito nos beiços, chupava

fumaças distraídas, olhando o céu azul.

Ao fundo, alta e agreste, a montanha impunha-se e, por um caminho íngreme, escavado, uma

cabra, aos galões, galgava o alcândor.

Fortum acre de barrela saturava o ar. Poças d'água cinzenta alumiavam ao sol em todo o vasto

enxurdeiro.

Paulo sabia que a casa do Mamede era uma das últimas, querendo, porém, certificar-se

perguntou a um pequeno que, em camisola e descalço, arrastava um comboio feito com caixas

de fósforos. O interrogado partiu correndo e estendeu o braço indicando uma casinha pintada de

azul, a cuja frente, além da cerca de ripas, verdejava uma latada.

- É ali.

Paulo agradeceu e encaminhou-se saltando um rego onde dormia, estagnada, uma água negra,

velada e pútrida. Antes de bater esteve a olhar, como à espera de alguém. Cantavam na

vizinhança, em tom monótono de acalento. Adiantou-se e bateu, tímido a principio, depois forte,

bradando:

- Ó de casa!

- Quem é? - rosnaram de dentro, e um mulato espadaúdo, picado de bexigas, em mangas de

camisa, cabelo em poupa, apareceu à porta, sungando as calças. Logo que viu o estudante

abriu os braços, com alegria ruidosa:

- Ó nhozinho! Que milagre! Vosmecê por aqui? - E, sério, inclinando-se, com o sobrolho

carregado: Alguma novidade lá em casa?

Paulo afirmou com a cabeça e o mulato, boquiaberto, num assombro, ficou algum tempo a mirá-

lo; de repente, porém, passando-lhe o braço pelas costas, chamou-o: Mas entre, nhozinho;

entre. Fez uma volta repentina na soleira e, sorrindo, com os dentes muito brancos, observou,

pernóstico: não repare, isto é casa de pobre... e Ritinha ainda nem fez a limpeza.

Paulo encolheu os ombros e, deixando o chapéu a um canto, sentou-se numa cadeira tosca,

que tinha o forro de palha muito esgaçado.

- Vai um golinho de café? - Paulo aceitou. - Isto é que é... Sempre o mesmo, hem, nhozinho?

Bom como o velho. - E, atirando o corpo para trás, com um gesto largo do braço, descaído e

lépido: Em casa de pobre não há outra coisa. Mas é bom! - afirmou com seriedade cômica. - Um

instantinho.

Correu um leve reposteiro de chita escura, de ramagens, e desapareceu, gingando.

Paulo lançou os olhos à sala. Estreita, com uma janela e a porta à frente, duas portas ao fundo,

encobertas pelos reposteiros de chita que o vento tufava; uma mesa de pinho, a cômoda com

imagens de gesso e quinquilharias, quatro cadeiras e um banco com assento de couro. Nas

paredes: cromos de antigas folhinhas, gravuras recortadas e uma cópia da Batalha de Avaí. A

um canto, um feixe de bengalões mosqueados.

Na janela, empanada por uma cortina de filó, dois vasos de barro com malvas e, numa gaiola,

um pássaro triste, amorrinhado, olhava o céu, piando. Um gato cinzento, esgrouviado, espichou-

se, corcoveou e veio vindo, com preguiça, pelos varais da latada; ao vê-lo, porém, deteve-se,

desconfiado, fitando-o, e, sem perdê-lo de vista, agachou-se, cravou as unhas nas ripas,

raspando com frenesi; de repente, num salto, desapareceu no telhado.

Mas o mulato tornou, com a sua alegria ruidosa: "Que Ritinha estava arranjando o café", e,

tomando de cima da mesa uma ponta de cigarro, acendeu-a e sentou-se cavalgando o banco,

de pernas abertas, descaído, os cotovelos nos joelhos, o queixo entalado nas mãos, e

perguntou com mistério:

- Então que houve, nhozinho?

- Violante fugiu de casa, Mamede.

O mulato empinou-se num ímpeto de espanto e, hirto, d'olhos esbugalhados, exclamou:

- Como, nhozinho!? Não me diga isto! Nhá Violante...! Com quem?

- Não sei.

- Quando, nhozinho?

- Ontem à noite.

- E vosmecê não desconfia de alguém?

- Ora, Mamede, eu, com a vida que tenho, pouco paro em casa. Não sei.

- E a velha?

- Mamãe, coitada!

- Ora, Nhá Violante! Uma menina que parecia uma santa... Vosmecê já foi à polícia?

- Fui ontem. Mas não confio naquela gente. O que eu quero é que tu me auxilies. Só conto

contigo.

- Comigo!? - exclamou o mulato vaidoso, espalmando a mão no peito.

- Sim, tu conheces essas coisas. Contigo tenho certeza de descobrir o patife.

O mulato encolheu-se, modesto.

- Ah! nhozinho, também não é assim como vosmecê pensa, - disse escarvando a cabeça; - não

é assim. Se a gente ainda tivesse uma dica... - Encolheu-se, pensativo, mordicando os grossos

beiços, levantando o bico das chinelas. De repente, firmando-se, explicou: Aqui só há um meio -

é a gente conversar com os cocheiros. Ela, com certeza, foi de carro, eu sei; ninguém faz essas

coisas senão de carro e cocheiro é como mulher: não guarda segredo - o que um faz está na

boca de todos. O meio é a gente sair pescando aqui, ali, nos pontos. Mas para isso é preciso

andar com essa malandragem e esse serviço não é para um moço como vosmecê.

- Como não? Por quê?

O mulato sorriu superiormente, bambaleando-se:

- Não, nhozinho, eu mexo as coisas cá no meu lado, vá vosmecê tocando lá por cima. Essa

gente miúda é o diabo! repetiu. Perto dum moço como vosmecê nenhum abre o bico, não se

arranca isto, - e mostrou a unha aguda do polegar. - Comigo não, sou cabra da mesma romaria,

ando no lote com eles e com uma misturadinha e uma pabulagem destripo o mais mitrado. Para

mim o melhor mesmo é pegar os cocheiros. A gente vai no rasto, farejando, até botar a mão em

cima do mestre, depois... o resto é nada. Mas com vosmecê, não. Vosmecê atrapalha os

cálculos. Moço assim direito... qual! dizem logo, isso é tira, está sondando. Eu conheço os

casos; - e riu. Logo, porém, reassumindo a gravidade, perguntou: E na vizinhança? A gente não

pode apanhar alguma coisa? Vosmecê não tentou?

- Não.

- Pois é preciso, nhozinho. Então é assim que vosmecê quer pegar o meco? É preciso.

Nesse momento uma mulatinha cor de canela, afastando o reposteiro, apareceu com a

bandejinha de café.

Muito nova, teria dezoito anos, pele fina, cetínea, olhos negros, faceiros e pestanudos, cabelo

liso, abundante, roliça e lânguida. Os seios rijos espetavam o corpinho de cassa, e, pelas

mangas frouxas, viam-se-lhe os braços morenos, torneados e nos punhos finas pulseiras de

prata com berloques tinindo. Mamede apresentou-a:

- Esta é a minha barbiana, Ritinha, a mulata de mais caídos que eu conheço; - e atirou uma

palmada ao quadril da rapariga, que fugiu com o corpo graciosamente.

- Olha, Rita, este é o filho do meu major. Eu vi este menino assim - e esticou o braço forte

mostrando a altura - brincou muito aqui nos meus joelhos, era doido por mim. Nem vosmecê se

lembra, hem, nhozinho?

Paulo, sorvendo o café, fez um aceno afirmativo; mas o mulato, estirando as pernas,

arregaçando as calças, duvidou:

- Qual! Vosmecê era muito miúdo. - Ritinha sentou-se com a bandeja nos joelhos, mirando-o.

Mamede, porém, entregando-lhe as xícaras, atirou-lhe nova palmada, que ela rebateu, ligeira,

com um momo. - Vai um bocadinho lá dentro, mulata; nós estamos aqui numa menestra.

Ritinha levantou-se molemente e, com o seu andar quebrado, desapareceu; pouco depois a sua

garganta mandou à sala a melodia de uma modinha sertaneja.

- Então, nhozinho, vosmecê não acha que eu penso bem? Eu vejo fundo nessas coisas.

Vosmecê toca lá de cima, eu vou trabalhando cá por baixo, com o meu povo: assim, sim.

Fechamos o bicho num cerco e, seja ele quem for, quanto mais graúdo melhor, há de chegar à

fala. E depois, se eu puser os luzios nele, vosmecê pode ficar certo de que o mestre cumpre a

obrigação. Ah! isso cumpre! Olhe, nhozinho, não é por vosmecê estar presente, mas pergunte à

Ritinha se eu não vivo aqui falando lá de casa: do velho, da velha, de vosmecê, de Nhá Violante.

Eu estimo vosmecês mesmo, não é prosa, estimo! Vosmecês cresceram nos meus braços, e

então? Deus me livre! Achando, vosmecê pode ficar tranqüilo, porque o trucha ou cumpre a

obrigação apagando a mancha, ou eu... ahn! Vosmecê não me conhece ainda, nhozinho. Eu

não sou homem de muita conversa, esteja certo disso; não sou, mas quando digo, faço, nem

que saiba ir parar no inferno. Assim como assim, a gente vive em qualquer parte, vive mesmo,

mas com uma ânsia no coração, isso é que não, não é comigo.

Encolheu os ombros, esguichou, por entredentes, uma cusparada para o quintalejo e ergueu-se.

- Vou pôr os manos em serviço e se eu, com eles, não descobrir, também a polícia não

descobre, isso juro!

Afastou a cortina e bradou:

- Ritinha, que é da cana? Vosmecê não bebe?

- Não.

- Pois fique descansado, nhozinho, que eu vou trabalhar com gosto. Hoje mesmo começo, hoje

é bom dia, que é domingo. É verdade que eu tenho um negocinho nas corridas, mas não há

dúvida: primeiro a minha gente. Mas que maluquice de Nhá Violante! Uma moça bonita, que

podia fazer um casamento importante...

"Mas é essa malandragem que anda por aí solta, desencaminhando as moças. A cidade está

perdida, só mesmo um chefe teso, que mande varrer tudo, a torto e a direito. É uma pelintragem

que faz medo: uns pindaíbas, sem lasca de guita, muito engravatados, batendo a calçada e

fazendo estrupícios. E por isso que há tanta perdição por aí.

"Muitas vezes vosmecê lê nos jamais que um homem enfiou uma língua de ferro no bucho do

outro, à toa. À toa?! pois sim, trate de indagar e há de ver. Só um maluco mata por matar, há

sempre uma razão. Eu mesmo já tenho estado para esfriar mais de um, por causa de desaforos,

não com a Ritinha, qu'isso, então, era logo; por causa de outras coisas. Foi algum vagabundo

que virou a cabeça de Nhá Violante, mocinha nova, sem experiência do mundo... - Suspirou: Eu,

de quem tenho mais pena é da velha... Tão boa, coitada! Uma santa!"

- Passou toda noite em claro, chorando.

- Imagino! Eu sei como ela é para vosmecês! Eh! quando um dos filhos tinha qualquer coisa,

uma febrinha de nada... Nossa Senhora! ficava que até fazia pena, quanto mais com isso agora.