O Último Capítulo por Machado de Assis - Versão HTML

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Último Capítulo, de Machado de Assis

Fonte:

ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:

Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.

Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa

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ÚLTIMO CAPÍTULO

Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o

motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por

orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume

excelente: em primeiro lugar, é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile, de onde

um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo lugar, a imprensa recolhe e

divulga os bilhetes póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes uma semana

mais.

Pois apesar da excelência do costume, era meu propósito sair calado. A razão é que,

tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra última pudesse levar-

me alguma complicação à eternidade. Mas um incidente de há pouco trocou-me o plano, e

retiro-me deixando, não só um escrito, mas dois. O primeiro é o meu testamento, que acabo

de compor e fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O segundo é

este resumo de autobiografia. E note-se que não dou o segundo escrito senão porque é

preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou ininteligível, sem algum

comentário. Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre

que possuo em Catumbi, alugado a um carpinteiro, seja o produto empregado em sapatos e

botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinário. Não

explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do legado

brotou do incidente de há pouco, e o incidente liga-se à minha vida inteira.

Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do sargento-mor Salvador

Deodato de Castro e Melo e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos falecidos. Sou natural

de Corumbá, Mato Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho, portanto, cinqüenta e um

anos, hoje, 3 de março de 1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Há uma locução

proverbial, que eu literalmente realizei. Era em Corumbá; tinha sete para oito anos,

embalava-me na rede, à hora da sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar

frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma

das paredes, e deu comigo no chão. Caí de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o

nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava ocasião de vir abaixo,

aproveitou a comoção e caiu também. O ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu

pai caçoou muito comigo. O cônego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná conosco, soube do

episódio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exatamente este

absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era

um simples início de coisas futuras.

Não me demoro em outros reveses da infância e da juventude. Quero morrer ao

meio-dia, e passa de onze horas. Além disso, mandei fora o rapaz que me serve, e ele pode

vir mais cedo, e interromper-me a execução do projeto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria

pelo miúdo alguns episódios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que apanhei por

engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival

derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da

aleivosia do outro; mas aplaudiram secretamente a ilusão. Também não falo de alguns

achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu

pobríssimo, e minha mãe não lhe sobreviveu dois meses. O cônego Brito, que acabava de

sair eleito deputado, propôs então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veio comigo, com a idéia

de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo a ação constante do

caiporismo.

Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de idade. Um cônego da

Capela Imperial lembrou-se de fazer-me entrar ali de sacristão; mas, posto que tivesse

ajudado muita missa em Mato Grosso, e possuísse algumas letras latinas, não fui admitido,

por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que

aceitei com resolução. Tive até alguns auxílios, a princípio; faltando-me eles depois, lutei

por mim mesmo; enfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma

exceção na minha vida caipora, porque o diploma acadêmico levou-me justamente a coisas

mui graves; mas, como o destino tinha de flagelar-me, qualquer que fosse a minha

profissão, não atribuo nenhum influxo especial ao grau jurídico. Obtive-o com muito

prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do

pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sozinha as algibeiras. Não,

senhor; tinha ao lado dela umas outras, dez ou quinze, fruto de um namoro travado no Rio

de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viúva mais velha do que eu sete ou oito

anos, mas ardente, lépida e abastada. Morava com um irmão cego, na rua do Conde; não

posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dois deles até

liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estilo elegante da viúva,

mas realmente para que vissem as finas coisas que ela me dizia. Na opinião de todos, o

nosso casamento era certo, mais que certo; a viúva não esperava senão que eu concluísse os

estudos. Um desses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabéns, acentuando a

sua convicção com esta frase definitiva:

— O teu casamento é um dogma.

E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cinqüenta mil-

réis; era para uma urgente precisão. Não tinha comigo os cinqüenta mil-réis; mas o dogma

repercutia ainda tão docemente no meu coração, que não descansei em todo esse dia, até

arranjar-lhos; fui levá-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os cheio de gratidão. Seis

meses depois foi ele quem casou com a viúva.

Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar um

tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazê-lo; cheguei a vê-los, moribundos,

arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hipotética; na realidade, não fiz nada. Eles

casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascensão da lua de mel. Eu fiquei relendo as

cartas da viúva. "Deus, que me ouve (dizia uma delas), sabe que o meu amor é eterno, e que

eu sou tua, eternamente tua..." E, no meu atordoamento, blasfemava comigo: — Deus é um

grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé dele, e por isso desmentiu a viúva; — nem

outro dogma além do católico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu

explicava a perda da namorada e dos cinqüenta mil-réis.

Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo foi

comigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se ele também. Vi-lhe o dedo em

tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que,

valendo alguma coisa, eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes

vencedores são em geral mais gratos que os outros, a sucessão de derrotas foi arredando de

mim os demandistas. No fim de algum tempo, ano e meio, voltei à Corte, e estabeleci-me

com um antigo companheiro de ano: o Gonçalves.

Este Gonçalves era o espírito menos jurídico, menos apto para entestar com as

questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa

elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão, esgueirava-se, descia à

copa e ia palestrar com os criados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa

lucidez, com a presteza de compreensão nos assuntos menos árduos ou menos complexos,

com a facilidade de expor, e, o que não era pouco para um pobre diabo batido da fortuna,

com uma alegria quase sem intermitências. Nos primeiros tempos, como as demandas não

vinham, matávamos as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a melhor

parte era dele, ou falássemos de política, ou de mulheres, assunto que lhe era muito

particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma questão de hipoteca. Tratava-se da

casa de um empregado da alfândega, Temístocles de Sá Botelho, que não tinha outros bens,

e queria salvar a propriedade. Tomei conta do negócio. O Temístocles ficou encantado

comigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me

rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras coisas e convidou-me a jantar no

domingo próximo. Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, moça de dezenove anos, bem

bonita, embora um pouco acanhada e meio morta. Talvez seja a educação, pensei eu.

Casamo-nos poucos meses depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na igreja, entre

as barbas rapadas e as suíças lustrosas, pareceu-me ver o carão sardônico e o olhar oblíquo

do meu cruel adversário. Foi por isso que, no ato mesmo de proferir a fórmula sagrada e

definitiva do casamento, estremeci, hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me

ditava...

Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e

elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as

qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela

ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empresa. Rufina (permitam-

me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de

Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a

multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem

eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e

sem que, no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro no

segundo. Era a passividade do sonâmbulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o

casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um

magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de

casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-

se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza;

mas estava casado.

Felizmente — ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora, é, na verdade,

uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um

modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as

qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes,

nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para

dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das francesas", como então

se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e

horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria

nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava

no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo, não

lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto

estas coisas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino.

Outro felizmente; e este não é só uma transição de frase. No fim de ano e meio,

abotoou no horizonte uma esperança, e, a calcular pela comoção que me deu a notícia, uma

esperança suprema e única. Era o desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha

vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento

régio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ébano e marfim, obra

acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas

cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e

esperei, esperei, pronto a bailar diante dele, como Davi diante da arca... Ai, caipora! a arca

entrou vazia em Jerusalém; o pequeno nasceu morto.

Quem me consolou no malogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do

pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciência, disse-me; serei

padrinho do que vier. E confortava-me, falava-me de outras coisas, com ternura de amigo.

O tempo fez o resto. O próprio Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de

ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.

— E pensas que não? redargüi.

Gonçalves sorriu; ele não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha

tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começara a converter-

se à advocacia, já arrazoava autos, já minutava petições, já ia às audiências, tudo porque era

preciso viver, dizia ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria

longamente dos ditos dele, e das anedotas, que às vezes eram picantes demais. Eu, a

princípio, repreendia-o em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem é que não

perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que ele mesmo se foi

refreando, e dali a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado,

disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo, respondeu que sim, e acrescentou sorrindo, embora

frouxamente, que era indispensável casar também. Eu, à mesa, falei do assunto.

— Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?

— É caçoada dele, interrompeu vivamente o Gonçalves.

Dei ao diabo a minha indiscrição, e não falei mais nisso; nem ele. Cinco meses

depois... A transição é rápida; mas não há meio de a fazer longa. Cinco meses depois,

adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.

Coisa singular: — em vida, a nossa divergência moral trazia a frouxidão dos

vínculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o

seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina apareceu-me como a esposa que desce do

Líbano, e a divergência foi substituída pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que

enchia a minha alma, e enchi com ela a vida, onde outrora ocupara tão pouco espaço e por

tão pouco tempo. Era um desafio à má estrela; era levantar o edifício da fortuna em pura

rocha indestrutível. Compreendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo

exterior, era naturalmente precário: as telhas caíam com o abalo das redes, as sobrepelizes

recusavam-se aos sacristães, os juramentos das viúvas fugiam com os dogmas dos amigos,

as demandas vinham trôpegas ou iam-se de mergulho; enfim, as crianças nasciam mortas.

Mas a imagem de uma defunta era imortal. Com ela podia desafiar o olhar oblíquo do mau

destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes asas de

condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direção da

noite e do silêncio...

Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns

objetos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ela morreu,

cinco meses antes. Achei uma multidão de coisas minúsculas, agulhas, linhas, entremeios,

um dedal, uma tesoura, uma oração de São Cipriano, um rol de roupa, outras

quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas:

eram do Gonçalves... Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e adeus. Ninguém

imagina como o tempo corre nas circunstâncias em que estou; os minutos voam como se

fossem impérios, e, o que é importante nesta ocasião, as folhas de papel vão com eles.

Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados, as relações interrompidas;

menos ainda outros acintes ínfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não

podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não existia na terra,

e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um

charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado,

fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia

risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito

bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas,

para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, interior e

superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança.

Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um

vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.

A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou

finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século,

nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas

da que termina, miséria ou guerra de classes; crises da arte e da política, nada vale, para ele,

um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de

um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar

de tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de botas.

Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiais dirão que estou doido,

que o delírio do suicida define a cláusula do testador; mas eu falo para os sapientes e para

os malfadados. Nem colhe a objeção de que era melhor gastar comigo as botas, que lego

aos outros; não, porque seria único. Distribuindo-as, faço um certo número de venturosos.

Eia, caiporas! que a minha última vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!

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