O brincar da criança moradora na vila rural por Marina Tiemi Kobiyama Sonohara; Aline Fernanda Sar - Versão HTML

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O BRINCAR DA CRIANÇA MORADORA NA VILA RURAL

Marina Tiemi Kobiyama Sonohara1; Aline Fernanda Sartori Kanegusuku2; Keila

Mary Gabriel Ganem3

RESUMO: A vila rural surgiu como uma opção do governo do Estado do Paraná para a retirada das famílias de trabalhadores rurais volantes das periferias,

devolvendo-as ao seu próprio meio, promovendo um sentido de vida com mais

dignidade. Partindo deste pressuposto , verificou-se de que forma são realizadas as atividades lúdicas neste ambiente e como a vila rural participa (interfere) no

processo. Fizeram parte deste estudo seis crianças do sexo masculino e seis

crianças do sexo feminino totalizando doze crianças moradoras da vila rural. Essas crianças foram divididas em faixas etárias: com idades entre três e cinco anos, seis e sete anos e oito a dez anos de idade. Através do levantamento das informações, constatou-se as crianças moradoras da vila rural possuem uma percepção mais

apurada de seu ambiente, do espaço em que vivem, da singularidade, da

valorização das pequenas coisas, do vivenciar o desenvolvimento dos animais e

das plantas, da criação de brincadeiras, ou seja, tem uma infância caracterizada pelo lúdico que faz uso de espaço e elementos naturais. No que diz respeito ao

manuseio de materiais pedagógicos, não se diferenciam das crianças que moram na

cidade, ao contrário, apresentam facilidades demonstrando o mesmo interesse.

PALAVRAS-CHAVE: Lúdico, vila rural, criança.

INTRODUÇÃO

Partindo do pressuposto que a vila rural surgiu como uma opção do governo

para a retirada das famílias de trabalhadores rurais volantes das periferias,

devolvendo-as ao seu próprio meio, promovendo um sentido de vida com mais

dignidade, verificou-se de que forma são realizadas as atividades lúdicas das

crianças neste ambiente e como a vila rural participa (interfere) neste processo. A partir da divulgação de problemas ambientais na natureza ocasionados pela

interferência do homem, iniciou-se grande interesse pela área da vila rural.

O desenvolvimento acontece em um ambiente restrito a poucas moradias,

sem recurso de lazer, internet ou atividades extracurriculares, buscou-se investigar o contexto em que as atividades lúdicas estão inseridas, assim como caracterizar as condições em que ocorre o processo de socialização.

As inter-relações entre a criança e o ambiente na vila rural, permitirá sugerir

políticas públicas mais eficientes que colaborem para o desenvolvimento mais

adequado da criança, possibilitando maior integração deste indivíduo à sociedade.

1 Discente do Curso de Psicologia. Departamento de Psicologia do Centro Universitário de Maringá –

Cesumar, Maringá – Paraná. Bolsista PROBIC. marina_sonohara@yahoo.com.br

2 Discente do Curso de Psicologia. Departamento de Psicologia do Centro Universitário de Maringá –

Cesumar, Maringá – Paraná. nanda_sartori@hotmail.com

3 Docente do Curso de Psicologia. Departamento de Psicologia do Centro Universitário de Maringá –

Cesumar, Maringá – Paraná. keilagabriel@cesumar.br

MATERIAL E MÉTODOS

O propósito da presente pesquisa foi de realizar um estudo do tipo qualitativo

e descritivo, visando à compreensão e interpretação dos fatos e informações

levantadas em um estudo de campo. A análise se sustentou no referencial sócio-

histórico e dentro das teorias do desenvolvimento infantil.

Fizeram parte deste estudo seis crianças do sexo masculino e seis crianças

do sexo feminino totalizando doze crianças moradoras da vila rural. Essas crianças foram divididas em faixas etárias: com idades entre três e cinco anos, seis e sete anos e oito a dez anos de idade.

O material utilizado como instrumento para obtenção de dados foi a entrevista

por pautas e observação participante. Esta entrevista apresentou certo grau de

estruturação, já que se guiou por uma relação de pontos de interesses explorados ao longo de seu curso. Foram realizadas perguntas diretas permitindo o livre

discurso do entrevistado. Através da observação participante foi possível obter maior acesso a várias informações juntamente com a cooperação do grupo. Os objetivos

desta observação foram revelados desde o inicio da atividade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante a observação participante, de forma geral as crianças com idade

entre 3 a 5 anos, fixaram-se em atividades que remetem a situação escolar embora ainda não freqüentem a escola, tais como: leitura de livros, pintura com canetinha e tinta guache, recorte com tesoura, desenhos e colagem. Começavam uma atividade

e a interrompiam passando a outra, sem nunca concluir a primeira, ficando apenas na exploração de objetos. Interagiram com outros sujeitos e eventualmente, olhavam ou pediam ajuda ao observador.

As crianças com idade entre 6 e 7 anos selecionaram materiais para as

brincadeiras que remetem à situação escolar, tais como: papel sulfite, pincéis, tinta guache e livros. Exploraram todo o material e depois se fixaram em brinquedos

específicos que se assemelham às tarefas domésticas e seu dia-a-dia de criança

como, por exemplo: “kit-cozinha”, ferro de passar roupas, brincar de boneca, casinha.

As brincadeiras não tinham início – meio e fim, começavam uma atividade e a

interrompiam, passando a outra, sem concluir a primeira como, por exemplo:

desenhos inacabados, brincavam um pouco e desistiam rapidamente abandonando

o objeto em qualquer lugar e escolhendo outro para brincar. Eventualmente

selecionavam materiais figurativos como: câmera fotográfica, dado mágico e pula-

pula.

A atividade e material escolhidos pelas crianças com idade entre 8 e 10 anos

como a leitura dos livros e massa de modelar repetem a situação escolar com

criatividade. Exploraram todo o material inicialmente e depois se fixaram em algum brinquedo como jogos para brincar, estabelecendo regras, fazendo estimativas e

cálculos mentais durante o jogo. Utilizaram o corpo na medida do necessário,

movimentando-se, trocando de posição, ocupando bem o espaço, bem como

utilizando a coordenação grossa e fina necessária às atividades. Brincaram sozinhos e com seus colegas em uma socialização harmoniosa e, observavam

constantemente o observador sem dirigir-lhe a palavra.

Foram indicadas como brincadeiras preferidas das crianças moradoras da vila

rural em seu dia a dia a bicicleta, a casinha, a bola, a televisão e a boneca.

No aspecto social, percebemos como afirma Rappaport, Fiori e Davis (1981)

e Wadsworth (2003) o inicio do desligamento da família em direção a uma

sociedade de crianças na fase pré-escolar, onde a criança começa a se interessar por outras de sua mesma idade, porém caracterizado por um brincar paralelo, um

fazer as coisas juntos, mas sem interação nas atividades lúdicas como na escola, ou seja, várias crianças brincando juntas, mas cada uma brincando sozinha com o seu brinquedo, não considerando o outro como uma pessoa com sentimentos,

atitudes e vontades diferentes da suas próprias. Já no final dessa fase há um

declínio do egocentrismo intelectual e inicio do pensamento lógico através da

formação de esquemas conceituais. Bem como, um grande declínio da linguagem

egocêntrica, como demonstram as crianças com idade de 7 anos com o uso de

linguagem socializada, uma linguagem intercomunicativa, uma clara troca de idéias.

Isto é, a interação social com as crianças do grupo e a presença do conflito dos próprios pensamentos com os pensamentos dos outros, obriga a criança a verificar e a questionar os seus pensamentos, e a fonte desse conflito a “interação social” entre os colegas é um fator importante para gradativamente dissolver o egocentrismo

cognitivo.

Rappaport, Fiori e Davis (1981) e Wadsworth (2003) relatam que o perío do

das operações concretas de Piaget de 8 a 10 anos de idade passa a ser cada vez

mais social e menos egocêntrica ao se fazer o uso da linguagem, tornando-se num

ser verdadeiramente social, pois o uso da linguagem é um meio comunicativo onde os conceitos são verificados ou negados através das trocas de argumentações com

os outros nesta interação, constatado através das atividades lúdicas e na

observação na escola.

A percepção das crianças moradoras da vila rural em seu ambiente, no

espaço em que vivem, na singularidade, na valorização das pequenas coisas, no

vivenciar o desenvolvimento dos animais e das plantas, na criação de brincadeiras é muito mais rico do que o da criança moradora da vila urbana. O ser criança no campo está vinculado ao próprio lugar como relata Souza (2004), é correr livre, desfrutar da natureza, ter os animais como companhia e brinquedo, ou seja, é ter uma infância caracterizada pelo lúdico que faz uso de espaço e elementos naturais.

A criança leva à escola todo o seu conteúdo de significações que são

trabalhadas nas salas de aulas, como relata Ribeiro (2006, p. 6) “Vemos, portanto, a importância de levarmos em consideração, nas situações de ensino-aprendizagem,

a forma como a criança significa o que lhe é ensinado” através da imaginação e

criatividade, como podemos constatar nos trabalhos expostos nas paredes da sala

de aula a produção de textos com desenhos, textos realizados de acordo com suas

limitações, mas com riquezas de detalhes nos desenhos, transportado de sua vida real.

CONCLUSÃO

As crianças da vila rural exploram muito mais o meio em que vivem dos que

as crianças moradoras da vila urbana. No que diz respeito ao manuseio de materiais pedagógicos, não se diferenciam das crianças que moram na cidade, ao contrário,

apresentam facilidades como elas e demonstram o mesmo interesse.

REFERÊNCIAS

FERNANDES B. M.; PONTE, K. F. As vilas rurais do estado do Paraná e as novas ruralidades. Obtido via internet em: www4.fct.unesp.br/nera/uso_restrito.php, 2008.

RAPPAPORT, C. R. FIORI, W. R.; DAVIS, C. Psicologia do desenvolvimento, vol. 1

São Paulo: EPU, 1981.

REIS, I. O. Projeto Vilas Rurais, Programa Gestão Publica e Cidadania. Obtido via internet em:inovando.fgvsp.br/conteudo/documentos/20experiencias1997/14%20-

%20vilas.pdf, 2008

RIBEIRO, S. A. O viver e o brincar de crianças no contexto rural. In: I Congresso Internacional Pedagogia Social. Anais eletrônico faculdade de Educação,

Universidade de São Paulo.obtido via internet em: www.scielo.br, 2007.

SOUZA, E. L. A literatura regional e a representação da infância rural. Obtido via internet em www.cchla.ufpb.br/paraiwa/05-emilene.html , 2008.

WADSWORTH, B. J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget, São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

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