O cálculo econômico de valor das firmas no mercado de trabalho: estudos de caso no setor de... por Lucas Rodrigues Azambuja - Versão HTML

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U IVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊ CIAS HUMA AS

DEPARTAME TO DE SOCIOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

LUCAS RODRIGUES AZAMBUJA

O Cálculo Econômico de Valor das Firmas no Mercado de Trabalho:

estudos de caso no setor de tecnologias da informação.

EXEMPLAR REVISADO

São Paulo

2013

U IVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊ CIAS HUMA AS

DEPARTAME TO DE SOCIOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

O Cálculo Econômico de Valor das Firmas no Mercado de Trabalho:

estudos de caso no setor de tecnologias da informação.

LUCAS RODRIGUES AZAMBUJA

Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação de

Sociologia do Departamento de Sociologia da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São

Paulo, para a obtenção do título de Doutor em Sociologia.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Nadya Araujo Guimarães

EXEMPLAR REVISADO

“De acordo” do orientador

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Nadya Araujo Guimarães

Assinatura:________________________________

São Paulo

2013

À minha avó Laurabela Cardoso de Area Leão e à minha tia Sonia

Maria de Area Leão Pereira, falecidas ao longo dessa trajetória.

À memória daquele que mais do que um amigo foi meu segundo pai, Luiz

Germano Seifritz.

AGREDECIMENTOS

Agradeço às seguintes pessoas e organizações:

Professora Dr.ª Nadya Araujo Guimarães pelo valioso processo de orientação ao

longo do doutorado. Processo esse que incluiu a ajuda e paciência para comigo, mesmo

em decisões fora da alçada da tese, por exemplo, o objetivo de buscar após este

doutorado a carreira diplomática e, em 2011, de voltar para Porto Alegre. Devo ainda

agradecer a atenção dispensada para me integrar na sua equipe de pesquisa, formada por

seus alunos e orientandos. Sem dúvida através desses anos, essa relação de orientação

constituiu uma enorme contribuição para minha formação intelectual e para uma ética

de trabalho.

Aos participantes das Oficinas de Sociologia Econômica e do Trabalho (OSET)

que prestaram enorme contribuição para realização e aprimoramento das ideias

constantes nesta tese. Críticas de ótimos níveis sempre estiveram presentes quando era

minha vez de ser sabatinado neste maravilhoso momento em que, por “culpa” da

Professora Nadya, eram reunidos o mais livre e desafiador debate acadêmico com a

confraternização e camaradagem. Agradeço a todos de coração por “tolerarem” e até

“incentivado” o tom “lucasiano” das minhas críticas e sugestões sobre seus trabalhos.

Agradeço, então, aos colegas André Nahoum, Gustavo Taniguti, Ian Prates, Jaime

Santos Júnior, Laura Chartain, Murillo Marschner Alves de Brito e Rogério Barbosa.

Aos que não somente contribuíram durantes os encontros da OSET como, também, no

Seminário Redes e Trabalho, realizado no Centro de Estudos da Metrópole: Ana

Carolina Andrada, Ivo Torres Costa, João Santoro, Jonas Bicev, Monise Picanço e

Priscila Vieira.

Serei eternamente grato pelo apoio e carinho de minha mãe, Regina Lúcia Area

Leão Rodrigues. Ao meu pai, Harvey De Valentin Azambuja, pelos exageros

gastronômicos e por ter me incutido o hábito da leitura. À minha irmã, Mariana

Rodrigues Azambuja. Ao carinho da minha madrinha, Ana Patrícia Vieira Seifritz e de

sua mãe, Ana Emy Vieira Seifritz (não esqueci que estou devendo todos aqueles litros

de leite que tomei quando era criança!) e de seu irmão e meu padrinho Carlos Cézar

Vieira Seifritz (policial íntegro e churrasqueiro de mão cheia!).

Aos antigos colegas de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

(UFRGS), Daniel Gustavo Mocelin e Leandro Raizer. Também minha orientadora na

graduação e mestrado, Professora Dr.ª Cinara Rosenfield, pela inspiração cujo trabalho

ao seu lado foi lapidar para que eu tenha chegado até aqui. Por fim, à Professora Dr.ª

Sonia M. K. Guimarães por ter me apresentado à Professora Nadya, pelo aceite de

participar da banca examinadora desta tese e pelo continuo contato, iniciado quando fui

seu aluno no mestrado, que contribuiu de maneira decisiva para minha formação.

Aos amigos de longa data, ainda dos tempos do colégio, e “confrades ogros”,

especialmente Pedro Vargas Fernandes e Emilio Oliveira, que ajudaram com os

contatos para pesquisa de campo.

Agradeço a disponibilidade por participarem da qualificação de doutorado e,

agora, na banca examinadora da tese, os Professores Dr. André Portela Souza e Dr.

Ricardo Abramovay.

Também agradeço à Professora Dr.ª Flávia Consoni. Por seus valiosos

comentários da versão inicial de um dos capítulos da tese, durante um dos encontros da

OSET, e por ter aceitado participar da banca examinadora desta tese.

Gostaria de agradecer aos profissionais e empresas de tecnologias da informação

na qual foram realizados os estudos de caso. Sem eles esta pesquisa não teria sido

possível.

Por fim, agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e

Tecnológico (CNPq) pelo subsídio financeiro através da bolsa de doutorado. O apoio

financeiro do Centro de Estudos da Metrópole. O apoio recebido pelo Ministério do

Trabalho e do Emprego na disponibilização da consulta da base RAIS. E ao apoio

recebido do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo.

De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a

rigidez do método. a verdade, era tempo. Que isto de método, sendo, como é, uma

coisa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um

pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor

de quarteirão.

MACHADO DE ASSIS

Individual valuation is the keystone of economic theory. For, fundamentally,

economics does not deal with things or material objects. Economics analyzes the logical

attributes and consequence of the existence of individual valuations. “Things” enter

into the picture, of course, since there can be no valuation without things to be valued.

But the essence and the drive force of human action, and therefore of the human market

economy, are the valuations of individuals. Action is the result of choice among

alternatives, and choice reflects values, that is, individual preferences among these

alternatives.

MURRAY

. ROTHBARD

RESUMO

Nas últimas décadas, cientistas sociais vêm defendendo a ideia de estarmos

presenciando o início de uma nova etapa do desenvolvimento histórico do capitalismo, a

chamada nova economia. Entre outros aspectos, aponta-se para mudanças profundas no

âmbito das organizações e do trabalho, que foram provocadas pelo impacto do

surgimento e difusão das tecnologias da informação. Nesse sentido, esta tese escolhe

por contribuir em torno do conhecimento sobre a nova economia a partir de um

interesse analítico bem delimitado, a saber, compreender o cálculo econômico de valor

realizado por firmas de tecnologia da informação, quando estas comparecem no

mercado de trabalho. Tal interesse analítico se operacionaliza através de três perguntas

de pesquisa: Quais são e como as condições engendradas por redes sociotécnicas das

firmas de tecnologias da informação estruturam as suas capacidades de cálculo

econômico de valor? Quais valores econômicos e economicamente relevantes, essas

firmas lançam mão para definir o valor e, por conseguinte, a sua demanda no mercado

de trabalho? E quais procedimentos e práticas elas adotam para classificar e julgar a

oferta de trabalho e planejar a realização de sua demanda diante dessa oferta? Visando

responder essas três perguntas, procedeu-se à realização de quatro estudos de casos em

empresas de diferentes segmentos de atividade econômica das tecnologias da

informação. Os quatro casos estão localizados no município de Porto Alegre (RS) ou na

sua região metropolitana. Com base na análise dos dados coletados nesses estudos, a

tese encerra refletindo sobre o valor do trabalho como mercadoria no contexto da nova

economia e também sobre o desenvolvimento de uma abordagem de sociologia

econômica voltada para o comportamento da firma no mercado de trabalho e a sua

capacidade de cálculo econômico de valor.

Palavras-chave: nova economia, demanda de trabalho, mercado de trabalho, firmas,

redes sociotécnicas.

ABSTRACT

In the last decades, an increasing number of social scientists have defended the

idea that we are witnessing the beginning of a new stage of the historical development

of capitalism, the so-called new economy. Among other aspects it has been recognizing

profound changes within organizations and the labor world that are related by the

impact of the emergence and diffusion of information technologies. The present thesis

chooses to contribute in the comprehension of the new economy trough a well-defined

analytical interest, namely, understand the economic calculation of values that are

realized by information technologies firms in the labor market. This analytical interest is

reflected through three research questions: Which are and how the conditions articulated

by socio-technical networks of firms, structure their abilities to economic calculation of

values? What economic and economic relevant values these firms resort to set the value

and therefore their demand in the labor market? And what procedures and practices

these firms adopt to classify and judge the supply of labor and plan the realization of

their demand? In order to answer these three questions, we carried out four case studies

with companies from different segments of economic activities in information

technologies. All of these cases are located at city of Porto Alegre (RS) or at the

metropolitan area. Based on the analysis of data collected in these four case studies, the

thesis closes with a reflection on the value of labor as a commodity in the context of the

new economy and also discussing the development of an economic sociology approach

about firms’ behavior in the labor market.

Key-words: new economy, labor demand, labor market, firms, socio-technical

networks.

LISTA DE SIGLAS

ADSL – Asymmetric Digital Subscriber Line

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento

BR - Brasil

CBO – Classificação Brasileira de Ocupações

CLT – Consolidação das Leis do Trabalho

CNAE – Classificação Nacional de Atividades Econômicas

DP – Departamento de Pessoal

EUA – Estados Unidos da América

FINEP – Financiadora de Estudos e Pesquisas

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

ITI-BR – Indústria de Tecnologias da Informação – Brasil

ITI-RS – Indústria de Tecnologias da Informação – Rio Grande do Sul

MTE – Ministério do Trabalho e Emprego

NSE – Nova Sociologia Econômica

OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico

PE – Personnel Economics

P&D – Pesquisa e Desenvolvimento

PJI – Pessoa Jurídica Individual

PMT – Produtividade Marginal do Trabalho

PPA – Professional Profile Assessment

PUC – Pontifícia Universidade Católica

RAIS – Registro Anual de Informações Sociais

RH – Recursos Humanos

RMPA – Região Metropolitana de Porto Alegre

RS – Rio Grande do Sul

STI-BR – Serviços de Tecnologias da Informação – Brasil

STI-RS – Serviços de Tecnologias da Informação – Rio Grande do Sul

TPM – Teoria da Produtividade Marginal

TI – Tecnologias da Informação

TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação

UERGS – Universidade Estadual do Rio Grande do Sul

UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul

UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos

USP – Universidade de São Paulo

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - % de Estabelecimentos RAIS Negativa - Brasil .............................. 96

Gráfico 2 – Taxa de Crescimento Anual do No. de Estabelecimentos - Brasil .. 97

Gráfico 3 – Taxa de Crescimento Anual dos Vínculos de Trabalho por

Segmentos de TI e Grandes Setores - Brasil ...................................................... 99

Gráfico 4 - Distribuição de Estabelecimentos por Faixas de Vínculos de

Trabalho – Brasil, 2010 .................................................................................... 100

Gráfico 5 – Distribuição de Vínculos de Trabalho por Tamanho de

Estabelecimentos – Brasil, 2010 ....................................................................... 101

Gráfico 6 – Distribuição dos Vínculos por Faixa de Tempo em Meses – Brasil,

2010 .................................................................................................................. 102

Gráfico 7 – Valor Nominal Médio de Salários - Brasil .................................... 103

Gráfico 8 - % de Vínculos por Faixa Etária – Brasil, 2010 .............................. 105

Gráfico 9 - % de Vínculos por Escolaridade – Brasil, 2010 ............................. 106

Gráfico 10 – Valor Médio do Salário Nominal para Trabalhadores com Curso

Superior Completo - Brasil ............................................................................... 108

Gráfico 11 – Valor Médio do Salário Nominal para Trabalhadores com Ensino

Médio Completo - Brasil .................................................................................. 108

Gráfico 12 - % de Vínculos de Trabalho por Tamanho de Estabelecimentos – BR

e RS, 2010 ......................................................................................................... 110

Gráfico 13 - % de Vínculos por Faixa de Tempo em Meses – BR e RS, 2010 112

Gráfico 14 – Taxa (%) de Crescimento Anual do No. de Estabelecimentos – BR

e RS ................................................................................................................... 113

Gráfico 15 – Taxa (%) de Crescimento Anual do No. de Vínculos de Trabalho

Demandados nos Segmentos de TI – BR e RS ................................................. 114

Gráfico 16 – Valor Nominal Médio de Salários – BR e RS ............................. 115

Gráfico 17 - % de Vínculos por Faixa Etária– BR e RS, 2010 ........................ 116

Gráfico 18 - % de Vínculos por Escolaridade– BR e RS, 2010 ....................... 117

Gráfico 19 – Valor Médio do Salário Nominal para Trabalhadores com Curso

Superior Completo– BR e RS ........................................................................... 118

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Setor de TICs segundo CNAE 2.0 .................................................... 86

Tabela 2 – Setor de Tecnologia da Informação e Comunicação ........................ 92

Tabela 3 – Serviços de Tecnologia da Informação ............................................. 93

Tabela 4 – Indústria de Tecnologia da Informação ............................................ 94

Tabela 5 – Participação dos Estabelecimentos de TI nos Grandes Setores - Brasil

............................................................................................................................ 97

Tabela 6 – Participação do No. de Vínculos de Trabalho por Estabelecimentos

de TI nos Grandes Setores – Brasil ..................................................................... 98

Tabela 7 – Média de Tempo em Meses dos Vínculos de Trabalho - Brasil ..... 102

Tabela 8 – Participação (%) de Vínculos Não Desligados – Brasil ................. 103

Tabela 9 – Participação (%) Feminina nos Vínculos de Trabalho Demandados –

Brasil ................................................................................................................. 104

Tabela 10 – % de Vínculos de Trabalho Demandados com Curso Superior

Completo - Brasil .............................................................................................. 107

Tabela 11 – % de Vínculos de Trabalho Demandados com Ensino Médio

Completo - Brasil .............................................................................................. 107

Tabela 12 – Participação do No. Estabelecimentos de TI do RS no Setor de TI

Brasileiro ........................................................................................................... 109

Tabela 13 – Participação do No. de Vínculos de Trabalho Demandados em

Estabelecimentos de TI do RS no Setor de TI Brasileiro ................................. 110

Tabela 14 – Média do No. de Vínculos Ativos por Estabelecimentos de TI – BR

e RS ................................................................................................................... 111

Tabela 15 – Média em Meses de Tempo dos Vínculos de Trabalho – BR e RS

.......................................................................................................................... 112

Tabela 16 – % Anual de Vínculos Não Desligados – BR e RS ........................ 113

Tabela 17 – Participação Feminina nos Vínculos de Trabalho– BR e RS ....... 115

Tabela 18 – Média de Idade em Anos – BR e RS ............................................ 116

Tabela 19 – % de Vínculos de Trabalho com Curso Superior Completo – BR e

RS ..................................................................................................................... 118

Tabela 20 – No. de Entrevistados e de Entrevistas por Estudos de Caso ......... 124

Tabela 21 – Aproximação dos Casos em Relação às Características

Organizacionais Típicas da Nova Economia .................................................... 133

Tabela 22 – Agentes humanos e dispositivos de cálculo na rede sociotécnica da

EC1 ................................................................................................................... 149

Tabela 23 – Agentes humanos e dispositivos de cálculo na rede sociotécnica da

EC2 ................................................................................................................... 162

Tabela 24 – Agentes humanos e dispositivos de cálculo na rede sociotécnica da

EC3 ................................................................................................................... 174

Tabela 25 – Agentes humanos e dispositivos de cálculo na rede sociotécnica da

EC4 ................................................................................................................... 184

Tabela 26 – Valores Econômicos Calculados pela EC1 ................................... 206

Tabela 27 – Valores Econômicos Calculados pela EC2 ................................... 216

Tabela 28 – Valores Econômicos Calculados pela EC3 ................................... 227

Tabela 29 – Valores Econômicos Calculados pela EC4 ................................... 237

Tabela 30 – Valores Econômicos e Economicamente Relevantes Calculados

pelas Empresas de TI ........................................................................................ 244

Tabela 31 – Rede Sociotécnica e Operações de Cálculo de Valor da EC1 ...... 250

Tabela 32 – Rede Sociotécnica e Operações de Cálculo de Valor da EC2 ...... 260

Tabela 33 – Rede Sociotécnica e Operações de Cálculo de Valor da EC3 ...... 268

Tabela 34 – Rede Sociotécnica e Operações de Cálculo de Valor da EC4 ...... 276

Tabela 35 – Agentes humanos e dispositivos de cálculo nas redes sociotécnicas

das empresas estudadas ..................................................................................... 295

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 15

1. O CÁLCULO ECONÔMICO ENTRE A SOCIOLOGIA E A ECONOMIA ........... 27

1.1. O mercado de trabalho entre a sociologia e a economia ...................................... 29

1.2. O comportamento da firma no mercado de trabalho, segundo a visão econômica

ortodoxa ...................................................................................................................... 32

1.3. O cálculo econômico entre a atomização e a rede social ..................................... 39

2. MODELO SOCIOLÓGICO DE ANÁLISE DO CÁLCULO ECONÔMICO ........... 47

2.1. Valores na economia e o trabalho como mercadoria ........................................... 47

2.2. A perspectiva de redes sociais para uma abordagem do cálculo econômico ....... 57

2.3. A rede sociotécnica e a capacidade de agência calculadora das firmas ............... 67

3. NOVA ECONOMIA E TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO ............................... 75

3.1. Transformações econômicas recentes e o protagonismo das tecnologias da

informação .................................................................................................................. 75

3.2. Firmas de tecnologias da informação: uma definição e os seus papéis no mercado

de trabalho ................................................................................................................... 85

3.3. Contextualização e caracterização das firmas e da demanda de trabalho de

tecnologia da informação – Brasil e Rio Grande do Sul. ............................................ 91

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ............................................................. 121

4.1. Procedimentos e técnicas de coleta e análise de dados ...................................... 121

4.2. Inserção nas empresas e limites da pesquisa ..................................................... 126

4.3. Hipóteses de Trabalho ....................................................................................... 129

5. CARACTERIZAÇÃO DOS CASOS ....................................................................... 132

5.1. Estudo de Caso 1: uma indústria de TI .............................................................. 133

5.2. Estudo de Caso 2: uma empresa de software por encomenda e customizável .. 137

5.3. Estudo de Caso 3: uma empresa de software customizável ............................... 141

5.4. Estudo de Caso 4: uma empresa de consultoria e desenvolvimento de software

sob encomenda .......................................................................................................... 144

6. AS REDES SOCIOTECNICAS DAS FIRMAS ...................................................... 148

6.1. Estudo de Caso 1: uma rede sociotécnica em transição e instável .................... 148

6.2. Estudo de Caso 2: uma rede sociotécnica compartimentada e rotinizada ......... 162

6.3. Estudo de Caso 3: uma rede sociotécnica em formação e estável ..................... 174

6.4. Estudo de Caso 4: uma rede sociotécnica complexa e adensada ....................... 184

7. OS VALORES NA DEMANDA DA FIRMA NO MERCADO DE TRABALHO 205

7.1. Estudo de Caso 1: “tradicionais” valores econômicos ....................................... 206

7.2. Estudo de Caso 2: valores econômicos estruturados da nova economia ........... 216

7.3. Estudo de Caso 3: valores econômicos em formação da nova economia .......... 227

7.4. Estudo de Caso 4: valores econômicos e economicamente relevantes .............. 236

8. A CAPACIDADE DE CÁLCULO DE VALOR DAS FIRMAS ............................ 246

8.1. Estudo de Caso 1: o cálculo de valor mais longe da nova economia ................ 250

8.2. Estudo de Caso 2: o cálculo de valor estruturado da nova economia ................ 260

8.3. Estudo de Caso 3: o cálculo de valor em formação da nova economia ............. 268

8.4. Estudo de Caso 4: o cálculo de valor adensado da nova economia ................... 275

CONCLUSÕES ............................................................................................................ 287

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 301

ANEXO ........................................................................................................................ 312

15

I TRODUÇÃO

Nas últimas décadas, uma quantidade crescente de autores das Ciências Sociais

vem analisando uma série de transformações no campo da economia e do trabalho. É

cada vez mais consensual entre esses autores, a ideia de estarmos presenciando o início

de uma nova etapa do desenvolvimento histórico do capitalismo. Nesse sentido,

argumenta-se, de diferentes maneiras, em favor do surgimento de um novo paradigma

de produção e desenvolvimento, isto é, de uma nova economia. Essa última, então,

recebeu diversos nomes, por exemplo, sociedade pós-industrial (BELL, 1973),

capitalismo informacional (CASTELLS, 2007), capitalismo cognitivo (COCCO;

GALVÃO; SILVA, 2003), pós-fordismo (HARVEY, 1996); pós-modernidade1

(JAMESON, 1985); economia do conhecimento (POWELL; SNELLMAN, 2004) e

sociedade da informação (MASUDA, 1982). Cada qual dessas perspectivas tem

registrado, de uma maneira ou de outra, a perda da centralidade no desenvolvimento

econômico da grande indústria voltada para o consumo de massa; a revolução

tecnológica em torno do surgimento e difusão das tecnologias da informação; alterações

nos modelos de gestão e da produção das empresas, afastando-se do chamado

paradigma “taylorista-fordista2”; transformações nas condições e nas relações de

trabalho e de emprego, marcadas pela tendência à flexibilização ou à precarização,

dependendo da corrente de interpretação que se considere.

Se estamos presenciando um contexto de profundas transformações econômicas,

tal como sugere a literatura mencionada acima, e sendo o mercado elemento essencial e

característico da economia capitalista, torna-se importante analisar os processos que

dizem respeito ao seu funcionamento e, deste modo, identificar tendências e lógicas de

funcionamento da nova economia. Em outros termos, “[w]hether one talks about the

new economy, the information economy, the knowledge economy or […] the service

economy, one is expressing the possibility of a profound transformation of the rules by

which markets function […]” (CALLON, MÉADEL; REBEHARISOA, 2002, p. 196).

1 Em contraposição, Giddens (1991) não vê nas transformações contemporâneas uma nova etapa

de desenvolvimento social e econômico, mas uma continuidade na evolução da sociedade moderna, ou

seja, é menos o surgimento de uma nova etapa e mais a realização da continuidade de uma lógica de

desenvolvimento histórico. Kumar (1997) também advoga que as transformações recentes não deram

início a uma nova etapa histórica, mas que estamos presenciado a “radicalização da modernidade”.

2 Para uma breve definição do paradigma de produção taylorista-fordista, ver Pereira e Oliveira

(2001).

16

Mercados são espaços nos quais indivíduos e organizações – ora na posição de

ofertantes, ora na de demandantes – transacionam bens e serviços, frequentemente

através do uso de moeda. Logo, para que essas transações ocorram, é preciso que os

agentes econômicos definam quais, como e o quanto valorizam bens e serviços. Em

outros termos, “[f]or products to be sold in markets, customers must value them and

assess their value in relation to other products. Firms must produce products and

position them in the market where customers will consider them valuable” (ASPERS;

BECKERT, 2011, p. 3). De maneira simples, as transações de mercado ocorrem quando

os agentes são capazes de responder à pergunta: quanto vale isso? Portanto, a definição

e o funcionamento dos mercados estão intrinsecamente conectados ao processo de

atribuição de valor, ou seja, mercados são interações sociais em condições de

competição, nas quais indivíduos e firmas atribuem valor e preço a produtos, para,

então, adquirir direitos de propriedade sobre bens e serviços em troca de dinheiro

(ASPERS, 2011; BECKERT, 2009; FLIGSTEIN, 2001).

Portanto, a existência dos mercados é indissociável ao processo de atribuição de

valor a bens e serviços; logo, é pertinente o exame empírico desse processo em

contextos mercadológicos centrais e peculiares à nova economia. Assim, com esta

pesquisa pretendemos somarmo-nos aos que refletem sobre como agentes calculam o

valor de bens e serviços na nova economia.

Adotamos nesta pesquisa a perspectiva de que o valor de um bem ou serviço é

determinado pelo processo subjetivo de avaliação realizado por indivíduos e firmas em

condições de competição no mercado. Entretanto, não partilhamos a perspectiva da

chamada teoria econômica neoclássica que considera as preferências de indivíduos e

firmas como exógenas (VARIAN, 2006, p. 1-143), ou seja, a economia neoclássica

adota o pressuposto que os agentes econômicos adentram no mercado com preferências

fixas e estáveis. Portanto, essa perspectiva não oferece uma explicação para o nosso

interesse de pesquisa, a saber, compreender a formação do modo como os agentes

avaliam e valorizam um bem ou serviço. Para a perspectiva econômica ortodoxa ou

neoclássica, os agentes entram no mercado com esse processo já definido, isto é, suas

preferências já estão formadas e são estáticas, apenas respondendo às variações nos

preços relativos das mercadorias3.

3 É preciso mencionar que a teoria econômica contemporânea cada vez mais vem se interessando

pela questão da formação das preferências dos agentes (FEHR; HOFF, 2011) e como elas são afetadas por

variáveis extraeconômicas (AKERLOF; KRANTON, 2000).

17

Entretanto, mesmo no contexto de mercado, não devemos reduzir à formação

dos preços a resposta à pergunta que nos importa – a saber, como os agentes calculam o

valor de bens e serviços? Ou seja, os agentes econômicos precisam considerar, além do

preço, quais produtos têm valor para eles e o que eles precisam saber acerca dos

produtos, ou seja, quais informações precisam obter sobre um produto para calcular seu

valor. Em outros termos, o agente consumidor toma decisões também a partir de

considerações sobre a qualidade do produto e o classifica em relação a outras

mercadorias consideradas do mesmo gênero ou equivalentes.

Ademais, o valor no mercado não é somente valor monetário (preço). Como nos

mostra Patrick Aspers e Jens Beckert (ASPERS, 2011; BECKERT, 2009; ASPERS;

BECKERT, 2011), o processo de avaliação no mercado pode ser estar assentado em

valores de ordem política, estética, cultural e/ou moral. Esses valores não-econômicos

podem inclusive estabelecer aquilo que é socialmente aceitável ser transacionado no

mercado, por exemplo, o caso da constituição do mercado de seguro de vida, analisado

por Viviana Zelizer (1978), que mostra como as empresas tiveram que lidar com valores

religiosos e morais a respeito do caráter sagrado de questões relacionadas à vida e à

morte, onde considerações financeiras eram tidas como algo que profanava e

vulgarizava essas questões. Podemos ainda citar o estudo de Peter Gourevitch (2011)

que mostra como valores éticos e morais estruturam o funcionamento e a precificação

em mercados de consumo de produtos tidos como “social ou ambientalmente

responsáveis”. Claramente inspirados em Max Weber, Aspers e Beckert (2011) definem

que quando valores advindos de fora da esfera econômica passam a estruturar a

constituição e/ou funcionamento de mercados, eles tornam-se valores economicamente

relevantes”.

Além disso, o valor econômico possui diferentes parâmetros através dos quais

um bem se torna economicamente valioso para um indivíduo ou firma. Assim sendo, os

valores econômicos podem ser divididos entre aqueles que são formados por atributos

físicos e materiais dos bens e serviços ofertados nos mercados e os que são

fundamentados em critérios simbólicos ou imateriais que o consumo ou a posse do bem

ou serviço expressariam (ASPERS, 2011; ASPERS; BECKERT, 2011; BECKER,

2009).

Com base nessas perspectivas, entendemos nesta tese que o ato de avaliação

(que pode estar assentado em diferentes valores econômicos ou economicamente

relevantes) de bens e serviços é uma capacidade dos agentes que a exercitam

18

permanentemente quando comparecem nos mercados. Mas, como se exercita tal

capacidade? O que exatamente o agente realiza nesse processo? Em uma palavra, ele

calcula.

Se a perspectiva de Aspers e Beckert nos permitiu melhor abordar a questão dos

valores; a noção de “cálculo econômico”, tal como é formulada por Michel Callon, nos

será de grande valia. O autor define “cálculo econômico” como uma capacidade de

agência que se exerce por meio de três operações: 1) a de listar possíveis cenários sobre

a realidade (sendo cada cenário composto por uma lista de atores e produtos e uma

distribuição dos últimos entre os primeiros); 2) a de hierarquizar esses possíveis

cenários (o que evidencia o objeto da preferência dos agentes, e lhes confere conteúdo);

3) a de identificar e descrever as ações necessárias para a produção de cada um dos

cenários possíveis (CALLON, 1998, 2004; CALLON; MUNIESA, 2005).

Denominamos estas três operações como, respectivamente, classificar, julgar e

planejar.

Portanto, o cálculo econômico é a forma que assumem os processos de

avaliação4 em contextos de mercado, ou seja, por meio de operações de classificar,

julgar e planejar. Essas, por sua vez, se escudam, assentando-se, nos diferentes tipos de

valores a que aludimos acima, tanto os econômicos como os economicamente

relevantes; eles dotam de sentido cada uma das três operações que conformam o cálculo

econômico. Assim sendo, poderíamos dizer que as variações nas modalidades de

cálculo econômico no mercado refletem as variações nas combinações de valores postas

em prática pelos agentes.

Se o cálculo econômico é “o quê” o agente faz no mercado e a atribuição de

valor estabelece “com o quê” ele o faz, como todo esse processo se torna possível?

Quais são as suas condições de possibilidade?

Apresentou-se, até aqui, que os processos de avaliação e o de cálculo econômico

são subjetivamente determinados. Entretanto, convém desde logo resalvar, que

reconhecer a determinação subjetiva que opera nesse processo não pode levar a concluir

que a atribuição de valores e o cálculo sejam possíveis em razão de uma capacidade

cognitiva natural de um agente individual e socialmente atomizado. Através da

perspectiva de análise de redes da Nova Sociologia Econômica (GRANOVETTER,

4 Callon estabelece também essa relação de identidade, mas denomina o processo de avaliação de

qualifying (CALLON, MÉADEL; RABEHARISOA, 2002, p. 202-7).

19

1985, 2005; MIZRUCHI, 2009) e da teoria do ator-rede (CALLON, 1998, 2004;

LATOUR, 1999, 2006; LAW, 1999) podemos dizer que essa é uma capacidade de

agência socialmente construída e, assim, recusar toda e qualquer naturalização dos

processos subjetivos de cálculo e de definição de valor, reivindicando o seu caráter

socialmente construído. Como se verá adiante, capacidades de agência como as do

cálculo econômico de valor, são resultado de possibilidades engendradas por redes de

relações sociais e sociotécnicas, isto é, são resultado de relações entre humanos e não-

humanos (como, por exemplo, os artefatos tecnológicos, os conhecimentos científicos e

os instrumentos e protocolos técnicos). Utilizaremos, doravante, a categoria “redes

sociotécnicas” para referir àquelas mesoestruturas que criam as condições de

possibilidade para o cálculo de valor. Assim faremos por reconhecer que, o conceito de

redes tal como formulado por Michel Callon tem a virtude de contemplar tanto relações

sociais entre pessoas (foco da análise de redes consagrado pela Nova Sociologia

Econômica) como as relações entre pessoas e agentes não-humanos.

Chegando a este ponto, podemos resumir o quadro teórico e analítico adotado

por esta pesquisa em quatro proposições principais:

1) o funcionamento dos mercados é indissociável do modo como os agentes

conferem valor a bens e serviços;

2) os agentes organizam suas preferências tanto com base em valores

econômicos (das mais diferentes modalidades), como em valores não-

econômicos, mas que são economicamente relevantes;

3) a sistemática de avaliação de bens e serviços se sustenta em três

operações que conformam o cálculo econômico, as de classificar, julgar e

planejar;

4) o cálculo econômico de valor é uma capacidade subjetiva que, como tal,

se constitui numa capacidade de agência; mas sua possibilidade está

condicionada pelas chances engendradas por meio de redes

sociotécnicas.

Anteriormente mencionamos que o interesse analítico desta pesquisa consiste

nos processos de avaliação de bens e serviços na nova economia. Portanto, com base

nessa sumária exposição do marco teórico de interpretação, podemos compreender que,

tal interesse de pesquisa se faz por meio do exame da relação entre três elementos: os

tipos de valores utilizados pelos agentes, as suas operações de cálculo e as redes

sociotécnicas nas quais esses agentes estão imersos.

20

Todavia, essas definições analíticas são ainda insuficientes em razão de deixar a

formulação do problema desta pesquisa em termos demasiadamente genéricos. Isso

porque ficam sem respostas algumas perguntas importantes, quais sejam: Quando

aludimos à necessidade de compreender como os agentes avaliam bens e serviços, a

quais bens ou a quais serviços estamos nos referindo? Que tipos de agentes econômicos

interessam, as firmas ou os consumidores? Agentes econômicos atuando em que tipos

de mercados? O que é mesmo a nova economia? Vale dizer, quais segmentos de

atividade melhor a representam? Em suma, há que seguir além na busca por precisar os

termos e fixar o escopo da questão analítica que moverá este estudo.

A maior parte da literatura que se debruça sobre os processos recentes de

mudança econômica tem destacado o rompimento com o modelo de organização da

economia centrado na lógica taylorista-fordista da indústria de produção de massa, com

suas sólidas hierarquias organizacionais, elevada centralização, alto grau de

especialização das tarefas no processo produtivo e com suas rígidas relações de trabalho

e de emprego. Conquanto preocupada em não recair no determinismo tecnológico, essa

literatura não resiste em atribuir às tecnologias da informação um protagonismo no

encaminhamento e lógica dessas transformações econômicas recentes, que estariam

rompendo com o paradigma anterior.

Dentre outros, o trabalho de Manuel Castells (2007) se destaca ao defender que,

no que ele chama de “capitalismo informacional”, o desenvolvimento e funcionamento

da economia passam a estar centrados na capacidade de geração de novas tecnologias

que atuem na produção, processamento e circulação do conhecimento e informação;

diferente do capitalismo industrial movido pelos investimentos em fontes de energias e

pelo incremento no uso de capital físico no processo produtivo. Por isso mesmo, ressalta

Castells, se antes o conhecimento só tinha valor por sua aplicação em tecnologias que

maximizassem a produtividade, no capitalismo informacional, ele importa por sua

capacidade de desenvolver tecnologias propulsoras da produção e processamento da

(própria) informação e conhecimento, daí a centralidade e protagonismo das tecnologias

da informação.

Todavia, essa perspectiva não confere atenção principal às dinâmicas internas

dos mercados. Quiçá, por isso mesmo, pudéssemos novamente recorrer ao repertório

analítico de Michel Callon, em seu esforço por oferecer uma perspectiva de análise

sobre a nova economia centrada na compreensão do funcionamento dos mercados

(CALLON, 2007; CALLON; MÉADEL; RABEHARISOA, 2002). Vejamos.

21

Através da noção de “economia de qualidades”, Callon define a nova economia

em termos de um contexto no qual a organização e o funcionamento dos mercados

dependem de relações sociotécnicas crescentemente complexas e que reúnem maior

variabilidade de agentes para interagirem no processo de (re)qualificação de produtos,

ou seja, no processo de definição e cálculo do valor dos bens e serviços ofertados.

Assim pensando, atribui um caráter central e peculiar às tecnologias da informação na

economia de qualidades, uma vez que sua função seria justamente a de coordenar as

relações sociotécnicas requeridas pelos processos de (re)qualificação de produtos.

A perspectiva de Callon sobre a nova economia é, portanto, centrada na

compreensão do funcionamento dos mercados, destacando a crescente complexidade de

relações sociotécnicas nos processos que definem o valor de bens e serviços neles

ofertados. Por isso mesmo, torna-se de importância estratégica para as empresas,

analisarem e saberem mobilizar as relações sociotécnicas crescentemente complexas,

pois assim definem adequadamente o valor de seu produto no mercado e, por

conseguinte, concretizam a sua oferta, isto é, “conquistam” o consumidor. Desse modo,

Callon coloca no centro da sua concepção sobre a nova economia – ou sobre a

economia de qualidades, como prefere – o processo de cálculo e definição de valor, e

nele destaca o papel das tecnologias da informação.

Ora, este é exatamente o ponto que se propõe investigar nesta tese e a pista

analítica aberta por Callon será central nesse sentido. Isso porque esta pesquisa além de

estabelecer o valor estratégico da mobilização de redes sociotécnicas na definição do

valor do de produtos, também empreende o esforço de investigar como os mecanismos

de cálculo e os de estabelecimento de valor se manifestam igualmente quando empresas

chegam ao mercado de trabalho na condição de compradoras do insumo que lhes será

fundamental, o trabalho. Em outros termos, se para as firmas como ofertantes é

fundamental saberem lidar com relações sociotécnicas crescentemente complexas para

definir e calcular o valor do seu produto; compreende-se que os processos de cálculo,

informados por valores e assentados em redes sociotécnicas, são igualmente importantes

quando as empresas produtoras daquelas tecnologias vitais nas economias de qualidade

lançam-se em busca dos trabalhadores que precisam contratar para a produção de tais

produtos, de tão elevado valor estratégico.

Nesse sentido, o foco no comportamento e transações travadas pelos agentes no

mercado de trabalho, não pode ignorar as óbvias transformações que ocorreram nos

processos produtivos e nas relações de trabalho. Em especial a Sociologia do Trabalho

22

tem se dedicado à tarefa de registrar e compreender mudanças como a flexibilização

e/ou precarização das relações de trabalho (CARNOY; CASTELLS; BENNER, 1997;

DRUCK; FRANCO, 2007; KALLEBERG, 2009; NORONHA, 2003; SILVA, 2009), os

processos de reestruturação das empresas (BUDROS, 2002; GUIMARÃES, 2004;

KATZ, 1997; RAMALHO; SANTANA, 2006); novos regimes de disciplina e controle

da força-de-trabalho (ALVES, 2009; KOVÁCS, 2002; ROSENFIELD; ALVES, 2011),

a perda ou reconfiguração do poder dos sindicatos (COSTA, 2005; LARAGEIRA,

2003) e os efeitos na conduta dos agentes correlatos à experiência do desemprego de

longa duração (GUIMARÃES, 2009b). A Sociologia do Trabalho tem procurado

compreender esses e outros temas de pesquisa, em conexão com as transformações nos

modelos de organização produtiva que caracterizam a nova economia e com as

mudanças nas instituições e regulações estatais que afetam as relações laborais.

Entretanto, ao contrário desta pesquisa, as análises de Sociologia do Trabalho quando

consideram a firma, não focalizam o seu comportamento no mercado de trabalho, mas

as transformações que ocorrem nos seus modelos de gestão e nas relações e condições

de trabalho. Por outro lado, quando essa área do conhecimento sociológico dedica

atenção ao mercado de trabalho, ela o faz, principalmente, com vista à experiência do

trabalhador nas relações que tem lugar nesse mercado ou, então, compreendendo

mudanças estruturais em aspectos do funcionamento dos mercados de trabalho, por

exemplo, desigualdades salariais, tempo de desemprego, discriminação, etc. Portanto,

não é que a Sociologia do Trabalho ignore completamente a firma e o mercado de

trabalho, mas sim não realiza um esforço analítico específico para compreender o

comportamento da empresa nesse mercado.

Em contrapartida, a Nova Sociologia Econômica (NSE) mais frequentemente

assume o enfoque de compreender o comportamento dos agentes econômicos, entre eles

a firma, nos processos internos ao funcionamento dos mercados, inclusive o de trabalho.

Cabe destacar que, em 1974, o estudo seminal dessa corrente abordava o mercado de

trabalho ao analisar a influência das redes de relações sociais na procura e obtenção de

um emprego (Granovetter, 1994). Desde então, a grande maioria das pesquisas de

sociologia econômica sobre o mercado de trabalho tem enfocado o lado da oferta desse

mercado, isto é, o comportamento e os resultados econômicos obtidos pelos

trabalhadores e profissionais5. Outro aspecto do mercado de trabalho que tem recebido

5 Para um resumo da literatura de sociologia econômica sobre análise de redes e mercados de

trabalho, ver (GRANOVETTER, 1988; STEINER, 2006, p. 65-71).

23

crescente atenção na NSE, mas que se relaciona mais diretamente com o lado da

demanda, é o papel dos chamados intermediários na formação das ofertas ocupacionais,

isto é, agências de emprego e firmas de recrutamento e seleção e sites de vagas de

emprego na Internet (AUTOR, 2001; BICEV, 2010; GUIMARÃES, 2009a;

NAKAMURA et. al., 2009; STEVENSON, 2009; VIEIRA, 2009). Mesmo assim,

podemos afirmar que, no caso do mercado de trabalho, estudos de sociologia econômica

que abordam especificamente o comportamento da firma são escassos e, por isso, foi

escolhido esse enfoque pouco explorado.

Por fim, a Economia em seus modelos analíticos sobre o funcionamento e

resultados econômicos do mercado de trabalho leva em consideração, como será tratado

adiante, o comportamento da firma. Entretanto, pouca ou nenhuma atenção é dada ao

nosso interesse analítico, as condições (extraeconômicas) de possibilidade e formação

das modalidades de cálculo econômico de valor que as firmas executam no mercado de

trabalho. Todavia, a economia do trabalho tem pontos relevantes sobre o

comportamento das firmas no mercado de trabalho que precisam ser considerados por

uma abordagem sociológica como a adotada nesta tese. Ademais, será evidenciado que

a economia do trabalho tem desenvolvido pesquisas interessantes sobre a influência das

redes de relações sociais no funcionamento do mercado de trabalho (CALVÓ-

ARMENGOL, 2006; IOANNIDES; LOURY, 2004).

Portanto, através da literatura sociológica identificamos uma série de

transformações no seio das empresas no contexto da nova economia e também

vislumbramos a influência de variáveis extraeconômicas no comportamento dos agentes

e no funcionamento do mercado de trabalho. Assim, o estudo que aqui se apresenta

encontra sua razão de ser analítica e sua novidade interpretativa no esforço por trazer

para o centro da análise de maneira a bem compreender o cálculo econômico de valor

realizado por firmas de tecnologia da informação quando estas comparecem no

mercado de trabalho.

Por meio dele trataremos de responder às seguintes questões:

Quais são e como as condições engendradas pelas redes sociotécnicas

das firmas de tecnologias da informação estruturam as suas capacidades

de cálculo econômico de valor?

Quais valores econômicos e economicamente relevantes, as firmas de

tecnologias da informação lançam mão para definir o valor e, por

conseguinte, a sua demanda no mercado de trabalho?

24

Quais modalidades de cálculo de valor, isto é, quais procedimentos e

práticas essas firmas adotam para classificar e julgar a oferta de trabalho

e planejar a realização de sua demanda diante dessa oferta?

Acreditamos que só respondendo a essas perguntas é que estaremos

analiticamente capacitados a bem refletir sobre o valor do trabalho como mercadoria no

contexto da nova economia e, também, contribuir para o desenvolvimento de uma

abordagem de sociologia econômica voltada para o comportamento da firma no

mercado de trabalho.

Os resultados deste esforço se organizam, nesta tese, num conjunto de nove

capítulos. O primeiro é intitulado “O Cálculo Econômico entre a Sociologia e a

Economia” e é composto por três seções. Na primeira seção, vamos tratar das principais

diferenças teóricas entre a abordagem econômica neoclássica e a de sociologia

econômica no que diz respeito em compreender o mercado de trabalho. Na segunda

seção, uma vez que essa tese se situa no campo da sociologia econômica, trata-se de

resumir a perspectiva econômica neoclássica sobre a firma no mercado de trabalho para

bem esclarecer a especificidade da abordagem sociológica. Por fim, a última seção do

primeiro capítulo traz a já tradicional crítica teórica sobre se pensar o comportamento

dos agentes nos mercados como socialmente atomizados. Apontaremos para a crescente

tendência de redefinição da diferença entre a teoria econômica e a sociológica nesse

aspecto. Portanto, o objetivo geral do capítulo 1 é situar esta pesquisa em amplas

questões teórico-metodológicas entre Sociologia e Economia, quando se trata de

compreender o comportamento dos agentes nos contextos de mercados, especialmente o

de trabalho.

Composto por três seções, o capítulo 2 chama-se “Modelo Sociológico de

Análise do Cálculo Econômico”. Nesse capítulo esclarecemos melhor os termos que

configuram o quadro analítico desta tese. Na primeira seção, com base especialmente

em Patrick Aspers e Jens Beckert, vamos discorrer sobre a noção de processo de

definição de valor nos mercados e, em seguida, abordaremos essa questão a partir de

aspectos que configuram o trabalho como uma mercadoria de tipo peculiar. A segunda e

terceira seções são, respectivamente, sobre a ideia de redes sociais e a de redes

sociotécnicas como condições de possibilidade para capacidades de agência, tais como o

cálculo econômico de valor. Na seção dois vamos expor como as pesquisas da NSE

sobre o papel das redes sociais no funcionamento dos mercados de trabalho, fornecem a

uma primeira pista interpretativa para pensá-las como mesoestruturas que articulam

25

condições para os agentes exercerem certas capacidades nas relações e escolhas que têm

lugar no mercado de trabalho. Por fim, com base na perspectiva calloniana, iremos

discorrer sobre a noção de cálculo econômico, de redes sociotécnicas e o modo como

essa abordagem teórica foi adaptada para o caso da firma no mercado de trabalho.

“Nova Economia e Tecnologias da Informação” é o título do terceiro capítulo.

Na primeira seção, articulando seletivamente algumas correntes de interpretação da

nova economia, vamos destacar determinadas mudanças recentes na economia e no

mundo do trabalho, consideradas relevantes para esta pesquisa no sentido de bem

compreender o contexto em que se move a sua unidade de análise, a firma no mercado

de trabalho. Também demonstraremos como, de uma maneira ou de outra, essas

correntes atribuem um papel de destaque para as tecnologias da informação nesse

cenário de transformações. Na segunda seção, discutiremos como se pode definir o que

são as firmas de tecnologias da informação e as possíveis posições que elas ocupam no

mercado de trabalho. Na última seção deste terceiro capítulo, para melhor contextualizar

os estudos de caso realizados na tese, vamos tratar de caracterizar o mercado de trabalho

e as firmas de tecnologias da informação através de dados secundários do Ministério do

Trabalho e Emprego, tanto paro o Brasil como para o Rio Grande do Sul.

O quarto capítulo trata dos procedimentos metodológicos adotados. Na primeira

seção, definimos quais são as técnicas de coleta e de análise dos dados. Após, na seção

seguinte, descrevemos o processo de negociação para autorização de pesquisa junto às

empresas-tipo analisadas. Com isso, visamos tornar explícitos os limites e possíveis

vieses na realização dos quatro estudos de caso. Na última seção, elaboramos as

hipóteses de pesquisa que balizaram a interpretação dos dados e as conclusões

alcançadas.

Os capítulos de 5 a 8 estão organizados cada qual em quatro seções dedicadas

para exposição dos resultados da análise de dados para cada um dos estudos de caso. No

capítulo 5, intitulado “Caracterização dos Casos”, como o próprio nome já diz, consiste

numa descrição sistemática através de cinco dimensões: localização e história da

empresa; produtos e organização do trabalho; posição de mercado e estratégias de

negócios; tamanho e estrutura ocupacional da firma; e a estrutura e as práticas de gestão

do trabalho que são encaminhadas pelo setor de recursos humanos da empresa. O sexto

capítulo analisa e expõe os agentes humanos e não-humanos que compõem as redes

sociotécnicas de cada caso estudado. Intitulado “Os Valores da Demanda da Firma no

Mercado de Trabalho”, o sétimo capítulo obviamente traz a definição dos tipos de

26

valores que orientam e compreendem a demanda que a firma procura realizar no

mercado de trabalho. O oitavo capítulo encerra a análise de dados dos estudos de caso e

tem como título “A Capacidade de Cálculo de Valor das Firmas”. Trata-se de um

capítulo que disserta sobre a análise tanto da formação da demanda de trabalho em

termos dos valores econômicos e economicamente relevantes, como das operações de

cálculo econômico de valor que cada firma estudada executa ao comparecer no mercado

de trabalho visando concretizar a sua demanda.

Ao final, no nono capítulo, vamos expor as conclusões alcançadas a partir das

hipóteses aventadas e discorreremos sobre como o estudo contribui para refletir sobre o

valor do trabalho como mercadoria no contexto da nova economia e da construção de

uma abordagem sociológica sobre o cálculo econômico.

27

1. O CÁLCULO ECO ÔMICO E TRE A SOCIOLOGIA E A

ECO OMIA

Conforme mencionado na Introdução, a nova sociologia econômica (NSE)

possui poucos estudos sobre o comportamento da firma no mercado de trabalho6 e,

apesar do seu foco no funcionamento dos mercados, existem poucos estudos a respeito

da capacidade de cálculo dos agentes; por outro lado, a própria noção de cálculo pode

ser situada no debate que configura a relação entre a Nova Sociologia Econômica e a

chamada teoria econômica ortodoxa ou neoclássica7. O objetivo deste capítulo será

situar nossa pesquisa no debate teórico entre a NSE e a economia ortodoxa, mostrando

como podemos contribuir nessa reflexão.

Ao final do século XX, o modo como a NSE se consolida como uma área

específica do conhecimento sociológico ocorre através da crítica da chamada teoria

econômica neoclássica8. O debate entre as duas disciplinas não é algo novo e ele se

organizou mais ou menos dentro da seguinte forma: “[...] economists often view

sociology as being too broad and diffuse and see the behavior that sociologists examine

as being too complex (at least initially) for modeling. Similarly, […] sociologists view

economics as being too narrow and based on unrealistic assumptions” (WINSHIP;

ROSEN, 1988, p. S5). A Nova Sociologia Econômica tem, portanto, sua formação e

desenvolvimento marcados por essa postura.

6 Se a firma é pouco estudada pela sociologia econômica no que diz respeito ao contexto do

mercado de trabalho, já sobre outros aspectos não podemos dizer o mesmo, por exemplo, mudanças e

modelos organizacionais (DIMAGGIO; POWELL, 2004; GUILLÉN, 2001; WHITLEY, 2004), relações e

cooperação interfirmas (MIZRUCHI, 1996; POWELL, 2002), modelos de governança (DAVIS;

DIEKMANN; TINSLEY, 2004; FLIGSTEIN; BRANTLEY, 1992), capacidade e estratégias de inovação

(ARBIX, 2010; FERRARY; GRANOVETTER, 2009; SAXENIAN, 2000).

7 A noção de ortodoxia é geralmente utilizada como um sinônimo de mainstream, isto é, para

sinalizar a abordagem dominante na teoria econômica. A recorrente equivalência, especialmente na

bibliografia de sociologia econômica, entre teoria neoclássica e ortodoxia precisa ser repensada. Davis

(2006) e outros economistas defendem a tese de que, desde meados da década de 1980, a corrente

neoclássica tem sido suplementada por outras abordagens. Assim, o mainstream ou ortodoxia econômica

vem se tornando cada vez mais multiparadigmática. Por uma questão de diálogo com a literatura de

sociologia econômica, adotamos ainda a perspectiva que considera teoria econômica ortodoxa e

neoclássica como praticamente sinônimos, pois queremos chamar a atenção para certa interpretação do

pensamento econômico. Contudo, adiante deixaremos claro nossa posição de que a sociologia econômica

deva repensar o que são ortodoxia e teoria neoclássica.

8 Outro elemento que perpassa a constituição da NSE como uma especialidade da Sociologia,

sobretudo no contexto acadêmico norte-americano, é a relação com a abordagem sociológica clássica

sobre os fenômenos econômicos. Alguns autores da NSE irão postular uma distinção com a tradição

clássica (GRANOVETTER, 1990; ZELIZER, 1988), enquanto que outros irão enfatizar pontos de

continuidade (STEINER, 2006; SWEDBERG, 1991).

28

No chamado manifesto fundador de Mark Granovetter (1985) esse

posicionamento é assumido quando o autor caracteriza como uma abordagem “sub-

socializada” aquilo que, na sua interpretação, pode ser considerado a teoria econômica

ortodoxa. Com essa caracterização, Granovetter procura chamar a atenção para o

suposto caráter irrealista do postulado neoclássico de considerar a ação econômica

como socialmente atomizada, isto é, livre da influência da estrutura de relações sociais.

Essa postura é tão presente na NSE que na introdução da segunda edição de um dos

mais importantes manuais de sociologia econômica, os autores contrapõem essa última

à teoria econômica ortodoxa através dos seguintes pontos: o conceito de ator, o conceito

de ação econômica, constrangimentos da ação econômica, relação economia e

sociedade, objetivos de análise, modelos empregados e tradições intelectuais

(SMELSER; SWEDBERG, 2005, p. 4-6). Ao passarem por cada um desses pontos, os

autores fazem questão de demarcar as diferenças entre Sociologia e Economia mais ou

menos dentro da lógica explicitada na citação acima9. É verdade que Smelser e

Swedberg (2005, p. 3-4) fazem a ressalva, relativizando tal contraposição, que ambas as

ciências desenvolveram variações e refinaram seus postulados e pressupostos teórico-

metodológicos básicos. Entretanto, mesmo assim, os autores adotam uma postura que