O cálculo econômico de valor das firmas no mercado de trabalho: estudos de caso no setor de... por Lucas Rodrigues Azambuja - Versão HTML

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procura mais contrapor Sociologia e Economia, destacando como a primeira possui uma

perspectiva mais abrangente (e por isso mais completa) a respeito dos fenômenos da

vida econômica.

A noção de cálculo econômico talvez seja o exemplo mais claro dessa tendência

dicotômica. Em Smelser e Swedberg identificamos uma postura recorrente entre os

sociólogos da economia em considerar que, primeiro, essa noção é característica da

abordagem neoclássica e seu reducionismo e, segundo, que a sociologia seria portadora

de uma perspectiva mais abrangente, pois ela reconhece a existência do cálculo, porém

afirmando que o comportamento econômico somente se torna explicável levando

consideração outros elementos, ou seja, esse conceito seria insuficiente para

compreender a ação econômica.

Por parte de economistas ortodoxos, Edward Lazear (2000a), por exemplo,

sustenta a tese que a diferença entre a ciência econômica e as demais ciências sociais

9 Podemos citar autores que fazem de outras maneiras essa contraposição entre Sociologia e

Economia. Por exemplo, Beckert (1996) que defende a tese de que a sociologia econômica estaria melhor

“equipada” para lidar com a questão da incerteza na ação econômica. Assim, Sociologia e Economia se

contraporiam ao tratamento e profundidade com que ambas abordam o problema da incerteza na ação

econômica. Sobre diferentes maneiras e graus de influência das teorias econômicas na sociologia

contemporânea, ver Baron e Hannan (1994).

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residiria, entre outras coisas, no uso do construto teórico-metodológico de indivíduos

racionais calculando como maximizar utilidade. Lazear chega a afirmar que esse

construto, mais as ideias de equilíbrio e de eficiência, proporcionariam à Economia um

status de ciência mais próximo ao que encontramos na Física, especialmente do ponto

de vista do grau de predições que suas teorias oferecem.

Alternativamente, partimos de outra postura com relação a esse debate que pode

ser sintetizada através da seguinte pergunta: e se o sociólogo considerasse a ação

econômica como essencialmente o exercício de cálculo? Trata-se, então, de esboçar

uma perspectiva sociológica sobre a agência econômica calculadora, visando

indiretamente à formulação de outro tipo de relação e leitura da teoria econômica por

parte da sociologia.

Tal como explicitamos na Introdução, estudamos o cálculo de valor que a firma

exercita no mercado de trabalho; assim, cabe mostrar como essa dualidade entre

Economia e Sociologia se manifesta no estudo desse tipo de mercado e de seus agentes

para melhor situar nosso estudo no debate teórico.

1.1. O mercado de trabalho entre a sociologia e a economia

Para compreender a manifestação da contraposição entre Sociologia e Economia

no tema do mercado de trabalho é preciso entender o debate sobre o valor heurístico da

noção de “mercado de concorrência perfeita” e os pressupostos comportamentais que

essa noção implica. Grosso modo, afirma-se que a teoria econômica ortodoxa estabelece

que os mercados sejam dotados das seguintes propriedades: são espaços portadores de

uma dinâmica própria, são livres da influência do contexto social e possuem agentes

tomando decisões de maneira racional e motivados pelo interesse pessoal. Essas

propriedades são possíveis dentro das condições presentes no chamado mercado de

concorrência perfeita, quais sejam: 1) a existência de um número suficientemente

grande de indivíduos e firmas de modo que nenhum deles possa sozinho manipular os

resultados das transações no mercado; 2) produtos e serviços homogêneos para que

nenhum consumidor ou demandante prefira outro vendedor ou ofertante por razões que

não seja o preço; 3) indivíduos e firmas socialmente isolados (atomização) e

independentes para que não haja conluio ou coerção; 4) indivíduos e firmas conscientes

do seu interesse e com nível suficiente de informação para tomar decisões de maneira

racional (BEAMISH; BIGGART, 2006, p. 244).

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Diversos cientistas sociais e economistas heterodoxos afirmam que essas

condições são exceções, não a regra, na realidade empírica dos mercados. Os

economistas ortodoxos contra-argumentam arguindo que o modelo de mercado de

concorrência perfeita importa por seu valor heurístico e não empírico, já que, se

construíssemos uma teoria que retivesse todas as situações e condições observadas

empiricamente nos mercados, tal teoria seria inútil já que será tão complexa quanto à

realidade que deveria descrever abstratamente. Nesse sentido, o modelo de mercado de

concorrência perfeita ofereceria uma teoria parcimoniosa e elegante com capacidade

preditiva satisfatória (BORJAS, 2010, p. 8).

Desde meados da década de 1930, a economia do trabalho vive um debate entre

abordagens neoclássicas e abordagens institucionalistas (BOYER; SMITH, 2001). Os

partidários dessas últimas defendem que a economia do trabalho deva ser uma ciência

empírica e indutiva, centrada em reunir dados através de estudos de casos concretos que

possam construir uma base para análise da realidade do trabalho dentro das suas

particularidades históricas e contextuais. Os institucionalistas defendiam que a teoria

econômica convencional não dava conta da complexidade e particularidades observadas

nos mercados de trabalho e que, ao reunirem dados que contradissessem as predições e

pressupostos do modelo teórico ortodoxo, os economistas teriam que mudar esse último

para comportar o estudo do mercado de trabalho.

Por sua vez, os economistas neoclássicos do trabalho defendem a utilização de

modelos teóricos dedutivos, a-históricos e centrados no nível dos comportamentos

individuais de firmas e trabalhadores, vistos como agentes racionais e maximizadores10.

Seguindo a perspectiva epistemológica de Alfred Marshall, esses economistas afirmam

que através da análise teórica, não da coleta de dados, que devem ser logicamente

deduzidas as hipóteses e conclusões a respeito do funcionamento e resultados

econômicos no mercado de trabalho11 (BOYER; SMITH, 2001, p. 201). O empírico

serve, então, para testar a capacidade preditiva dos modelos teóricos construídos a partir

de pressupostos acerca do comportamento dos agentes econômicos e do funcionamento

dos mercados.

10 Grosso modo, dizer que um agente é maximizador é afirmar que frente a um conjunto de

possíveis escolhas, o agente vai preferir aquela que lhe trará maior retorno, maior bem-estar possível vis-

à-vis ao esforço/custos necessários para obtê-lo. Assim, do ponto de vista teórico-metodológico, os

conteúdos das escolhas não são tão relevantes quanto saber que as escolhas serão sempre consistentes

com essa lógica de maximização de resultados.

11 Essa mesma visão é até hoje sustentada nos manuais de economia do trabalho escritos por

autores de perspectiva ortodoxa. Nesse sentido, ver Borjas (2010, p. 2-10).

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Tal como mencionado acima, os economistas neoclássicos do trabalho também

defendiam que o propósito dos modelos teóricos não era representar a realidade na sua

complexidade, mas o de torná-los capazes de extrair os elementos essenciais dessa

complexidade, de modo a possibilitar predições sobre os fenômenos observados.

Posto a discussão nesses termos, aparentemente estaríamos presos ao seguinte

dilema: ao reconhecermos que em geral os mercados de trabalho apresentam

características que fogem ao modelo de concorrência perfeita, somos levados a

desacreditar as capacidades racionais e calculadoras dos agentes no mercado de

trabalho. Por outro lado, reconhecer a capacidade explicativa e preditiva dos modelos

teóricos que assumem que firmas e trabalhadores tomam decisões racionais, calculando

como maximizar seus ganhos, implicaria em fechar os olhos para o fato de que os

mercados de trabalho funcionam a partir de outras condições que não aquelas previstas

no modelo de concorrência perfeita.

Portanto, ambas as perspectivas são incompletas. A sociológica se limita, na

maior parte das vezes, em denunciar o caráter empiricamente fictício do cálculo

econômico e da noção de mercado de concorrência perfeita. A econômica insistindo na

utilidade heurística desses conceitos. As duas perspectivas perdem de vista, então, a

possibilidade de refletir acerca de um importante problema teórico, qual seja: quais

condições empiricamente verificáveis dotam os agentes econômicos de capacidade de

cálculo? Essa pergunta evita a armadilha de adotar apenas uma visão, a crítica da noção

de cálculo ou a “doutrinária” tomando-a como um pressuposto. Implícita na pergunta

formulada acima, a proposição de que uma perspectiva sociológica deva tomar a

capacidade de cálculo econômico como um objeto empírico de análise, evitando a

posição de crítica ou doutrinária. Tal perspectiva deve desenvolver conceitos capazes de

identificar empiricamente essa capacidade e de compreender as suas condições de

possibilidade. Esta tese deu alguns passos nessa direção.

Talvez seja a firma o agente que melhor ilustra esse dilema e, portanto, seja o

caso mais adequado para refletirmos a respeito da questão mencionada acima. É difícil

negar que ela é um ator cuja raison d’être é gerar ganhos econômicos crescentes e que

suas tomadas de decisões não sigam uma lógica de cálculo visando à maximização da

produtividade e do lucro. É, portanto, quase evidente que não faz nenhum sentido dizer,

por exemplo, que uma firma irá contratar trabalhadores se isso não lhe trouxer ganhos.

Mas, também, perguntamos: o cálculo econômico da firma é compreensível somente

nesses termos? Se reconhecermos que, na maior parte das vezes, os mercados de

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trabalho apresentam condições diferentes (ou até mesmo opostas) às do modelo de

concorrência perfeita, como incorporar à explicação o reconhecimento de que as firmas

exercem sua capacidade de cálculo? Ou seja, como ela é capaz de calcular o valor das

ofertas disponíveis no mercado de trabalho? Pensamos que a perspectiva sociológica

desenvolvida aqui consegue superar esse impasse analítico e conceitual.

Assim, a perspectiva adotada nesta tese reconhece que as firmas são agentes que

calculam visando maximizar seus ganhos, isto é, elas calculam o valor relativo das

ofertas no mercado de trabalho; e, ao mesmo tempo, que os mercados de trabalho

apresentam características que fogem às do modelo de concorrência perfeita. Veremos

adiante na primeira seção do Capítulo 2, as especificidades da mercadoria e do mercado

de trabalho, mas antes, para melhor compreender o significado da abordagem

sociológica do cálculo econômico, cabe melhor definir a abordagem econômica

ortodoxa que diz respeito ao comportamento da firma no mercado de trabalho.

1.2. O comportamento da firma no mercado de trabalho, segundo a

visão econômica ortodoxa

Na perspectiva ortodoxa é a “teoria da produtividade marginal” (TPM) que

descreve e explica o comportamento da firma no mercado de trabalho, ou seja, a

demanda de trabalho (BOYER; SMITH, 2001; BORJAS, 2010). O principal objetivo

desta teoria é compreender o processo de tomada de decisão das firmas no que respeita

a contratar mão de obra; nesse sentido, ela não se interessa pela maneira através da qual

as firmas demandam trabalho, mas apenas por determinar quanto ela irá demandar e

quando irá parar de demandar. Dito de maneira diferente, a TPM visa compreender a

decisão de uma firma sobre demandar e contratar trabalhadores, mas não através de que

práticas ela recruta, seleciona e contrata esses trabalhadores.

A TPM está baseada numa concepção do mercado de trabalho como um

mercado de concorrência perfeita12. Disso decorre representá-lo como um espaço onde

interagem dois tipos de agentes, que ali exercem a sua capacidade de cálculo, são eles,

os trabalhadores e as firmas. No entanto, eles exercem essa capacidade a partir de

interesses conflitantes, ou seja, os trabalhadores vão querer vender sua força-de-trabalho

12 Reiterando o que foi sublinhado antes, isso não quer dizer que não se reconheça que, do ponto

de vista empírico, os mercados de trabalho apresentem condições opostas às do modelo de concorrência

perfeita, e nem que outros fatores deixem de ter influência no funcionamento desses mercados. Significa

apenas que, diante da complexidade da realidade empírica, assume-se que os mercados de trabalho são

mercados de concorrência perfeita, pois isso permite fazer predições consistentes com ao que se observa

no mundo real. Nesse sentido, ver BORJAS (2010, p. 2-10).

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ao maior preço possível enquanto as firmas vão querer comprá-la ao menor custo.

Sendo um mercado de concorrência perfeita, à medida que trabalhadores procuram

emprego e firmas procuram trabalhadores, “[...] t hese conflicting desires are ‘balanced

out’ and the labor market reaches an equilibrium” (BORJAS, 2010, p. 4, grifos do

autor).

Essa perspectiva ainda reconhece o governo como um ator importante, pois

impõe regulações que ajudam a definir “as regras do jogo” das transações que ali têm

lugar. Exemplos dessas regulações é a fixação de um salário mínimo, os impostos

incidentes sobre os salários ou sobre a folha de pagamento, as leis que limitam ou

favorecem o trabalho de imigrantes, as regulações que definem a contratação segundo

critérios raciais, de gênero ou de idade, protegendo minorias ou grupos sociais

específicos, ou criando barreiras de ingresso ou de permanência no mercado, só para

citar algumas iniciativas onde fica evidente o poder regulador das instituições

governamentais13. “All these actions will change the equilibrium that will eventually be

attained in the labor market” (BORJAS, 2010, p. 5).

Segundo a TPM, a firma é um agente que busca maximizar seu lucro e o faz

através de decisões de produção que maximizem a sua sintonia com os desejos e

necessidades do consumidor14. Entre tais decisões estão incluídas as escolhas no que

concerne contratar e demitir trabalhadores. Portanto, “[...] the firm’s demand for labor is

a derived demand, a demand derived from the desires of consumers” (BORJAS, 2010,

p. 4, grifos do autor).

Assim, para compreender a demanda de trabalho de uma firma é preciso

considerar o trabalho como um dos insumos que compõem a sua função de produção;

essa, por sua vez, pode ser entendida como a quantidade de empregados/horas e de

capitais (terra, máquinas, ferramentas, matérias-primas e energia) que a firma utiliza

para produzir bens ou serviços e, assim fazendo, atender os desejos dos consumidores

dos seus produtos finais.

Essa abordagem do trabalho como um insumo implica na adoção de dois

pressupostos. Primeiro, a decisão sobre o número de empregados/horas numa função de

13 Sindicatos, segundo essa perspectiva, podem ser considerados como um ator relevante para

análise desde que representem uma parcela significativa da força-de-trabalho.

14 Cabe destacar que, para a economia do trabalho ortodoxa, no caso da análise do

comportamento da demanda de trabalho, toma-se a estratégia de negócios da firma como apenas

composta pelas decisões de produção, isto é, escolhas sobre a quantidade empregada de trabalhadores e

capital (BORJAS, 2010, p. 89). Nessa questão reside uma importante crítica da Nova Economia

Institucional à teoria neoclássica, a saber, a firma seria muito mais do que simplesmente uma função de

produção, mas uma estrutura de governança (WILLAMSON, 2000, p. 602-604).

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produção tomará sempre em conta a produtividade dos mesmos; assim, por exemplo, 10

trabalhadores contratados por oito horas deverão ser equivalentes em produtividade a 20

trabalhadores contratados por quatro horas. Visando a simplificação, considera-se essa

proporcionalidade e, para TPM, apenas é considerado o número de trabalhadores

contratados pela firma. Segundo, apesar de se reconhecer que os trabalhadores são

heterogêneos em termos de qualificação, experiência e função, contribuindo

desigualmente para produtividade da firma, o outro pressuposto adotado é que

diferentes tipos de trabalhadores produzem um mesmo insumo para firma, chamado

“trabalho”. Deste modo, considerando o trabalho como um insumo homogeneamente

ofertado, o que importa para análise são apenas as decisões em termos da quantidade

deste insumo que irá ser contratada.

Um dos conceitos mais importantes para se compreender a demanda da firma

pelo insumo trabalho é o de “produtividade marginal do trabalho” (PMT). A PMT é

definida como o acréscimo de produtividade que uma firma consegue ao contratar mais

um trabalhador, mantidos constantes os outros insumos da função de produção. A PMT,

por sua vez, está submetida à “lei dos rendimentos decrescentes” que estabelece: “As

more and more workers are added to a fixed capital stock (that is, to a fixed number of

machines and a fixed amount of land), the gains from specialization decline and the

marginal product of workers declines” (BORJAS, 2010, p. 91). Se a lei dos rendimentos

decrescentes não fosse verdadeira, a firma, sendo um agente maximizador, continuaria

contratando trabalhadores indefinidamente.

Outro conceito muito importante para compreender a TPM é o de “firma

perfeitamente competitiva”. Isso quer dizer que, a TPM pressupõe que a demanda desse

tipo de firma tem um peso suficientemente pequeno no seu segmento econômico, de tal

modo que “[...] the price of the output [...] is unaffected by how much output this

particular firm produces and sells, and the price of labor […] and capital […] are also

unaffected by how much labor and capital the firm hires” (BORJAS, 2010, p. 91). Uma

vez que uma firma perfeitamente competitiva não possui meios para influenciar os

preços, só pode maximizar seu lucro e produtividade empregando a correta quantidade

de seus insumos, o trabalho entre eles.

Apoiando-se nos pressupostos antes indicados e nas condições que os conceitos

acima mencionados estabelecem, a teoria da produtividade marginal afirma que o

comportamento da firma no mercado de trabalho respeita e é compreensível nos termos

da seguinte lógica: “[...] a profit-maximizing firm is posited to stop hiring when the

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value of labor’s marginal product falls below the cost of hiring this extra labor

(BOYER; SMITH, 2001, p. 206). Dito de maneira de outra maneira, a demanda de

trabalho de uma firma depende dos ganhos em produtividade que ela adquire ao

empregar certa quantidade de trabalhadores vis-à-vis ao custo que assume ao adquirir

essa quantidade no mercado de trabalho; quando os custos superam os ganhos, a firma

vai parar de demandar mão de obra.

O que chama atenção nessa proposição aparentemente simples é a quantidade de

pressupostos e condições que se precisa levar em conta para que ela seja verdadeira. Em

particular, dois deles se destacam: o da “firma perfeitamente competitiva” e o que prevê

que o trabalhador oferece um insumo (ou mercadoria) homogêneo, o trabalho.

Poderíamos citar uma série de casos empíricos nos quais a firma tem condições de

influenciar os preços seja no mercado de produtos, seja no mercado de trabalho.

Poderíamos ainda elencar inúmeras razões que confirmam que a mercadoria trabalho é

tudo menos um insumo homogeneamente ofertado pelos trabalhadores, de tal modo que

o custo (preço) desse insumo é um dos fatores que determinam a demanda de trabalho

de uma firma, ou seja, diferentes valores entram no cálculo da firma.

Entretanto, nenhuma dessas ressalvas consegue desacreditar completamente a

simples e poderosa proposição da teoria da produtividade marginal de que uma firma irá

empregar trabalhadores na medida em que isso represente ganhos para ela, isto é, algum

valor. É nesse aspecto que nosso interesse analítico se torna relevante: se a lógica de

cálculo da firma não é refutável completamente em razão da diferença entre a realidade

empírica e os pressupostos comportamentais que a TPM assumi para compreender o

cálculo econômico da firma nas transações que têm lugar no mercado de trabalho;

então, é preciso compreender que outros elementos dão condições e moldam essa

capacidade de cálculo. Em outros termos, concordamos com a TPM que a firma calcula

o valor do insumo trabalho para ela, mas pensamos que esta perspectiva não fornece

uma adequada compreensão sobre quais condições e como a firma calcula (sendo essa

uma forma de descrever o interesse analítico desta tese).

Cabe destacar que, segundo a perspectiva ortodoxa, é possível compreender o

comportamento das firmas em posição de monopsônio (isto é, firmas que não são

perfeitamente competitivas nos mercados onde são demandantes) em termos de um

cálculo maximizador de ganhos de produtividade marginal (VARIAN, 2006, p. 503-

510). Se por um lado, esse aspecto relativiza nossa afirmação sobre a quantidade de

pressupostos que a TPM se baseia para descrever o comportamento da firma no

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mercado de trabalho, por outro lado, isso reforça nosso argumento de que a noção de

cálculo é analiticamente poderosa. Portanto, nossa pergunta permanece pertinente: o que

faz com que as firmas exerçam sua capacidade de calcular valor no mercado de

trabalho? O fato que tanto em condições de perfeita competição como em condições

imperfeitas, a lógica do comportamento da firma seja passível de ser descrita em termos

de cálculo econômico de valor, indica que em qualquer uma dessas condições exista

algo que faça a firma se portar com base nessa capacidade de agência. Cabe, então, a

nossa pergunta sobre quais são os elementos que permitem a firma exercer essa

capacidade.

Pode-se ainda contra-argumentar que a teoria da produtividade marginal e os

pressupostos e conceitos ortodoxos que ela adota, apenas fornecem um modelo de

explicação para um dos aspectos da demanda de trabalho das firmas, a saber, o da

quantidade de força-de-trabalho a ser demandada ou dispensada. Outros aspectos

relevantes estariam, assim, sendo deixados de lado, por exemplo, como explicar as

escolhas que elas fazem sobre como remunerar os trabalhadores? (salário fixo ou

remuneração por desempenho?); ou as escolhas que se referem ao regime de tempo sob

o qual a firma irá demandar o trabalho? (por jornada fixa ou variável? por vínculo

indeterminado ou por tempo determinado?); ou ainda sobre as qualidades e critérios que

a firma deve valorizar nos ofertantes de força-de-trabalho e que definirão o processo de

seleção dos candidatos a uma vaga de emprego.

Frente a essas e outras questões, poder-se-ia argumentar que para compreender o

modo como firmas escolhem realizar a sua demanda de trabalho seria necessário

afastar-se dos pressupostos que descrevem as suas escolhas em termos de cálculo de

valor. Todavia, a chamada “Personnel Economics” (PE) tenta oferecer respostas a

perguntas dessa natureza, mantendo-se fiel aos pressupostos ortodoxos da teoria

econômica sobre o comportamento dos agentes.

A PE estuda diferentes práticas de gestão de recursos humanos das firmas

(LAZEAR; SHAW, 2007), mas, para fins do enfoque desta pesquisa, vamos tratar dessa

perspectiva através do modo como ela analisa uma dessas práticas que mais diretamente

se refere ao comportamento da firma no mercado de trabalho, as formas e sistemas de

remuneração elegidas15.

15 Sobre o modo como a PE compreende outras práticas de gestão de recursos humanos, ver

Lazear (2000b) e Lazear e Shaw (2007).

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Ao examinar as escolhas das firmas sobre formas de remunerar seus

empregados, a PE o faz a partir de quatro pressupostos da teoria econômica ortodoxa:

First, personnel economics assumes that both the worker and the firm

are rational maximizing agents, seeking utility and profits. Of course,

the economic approach allows for constraints or imperfections, such

as imperfect information and transaction costs, and permits an

individual's utility to be influenced by a variety of factors such as

personal identity, competition, and peer pressure. Second, personnel

economists assume that labor markets and product markets must

reach some price-quantity equilibrium […]. Third, efficiency is a

central concept of personnel economics. […] Fourth, personnel

economists emphasize the use of econometrics and experimental

design to identify underlying causal relationships (LAZEAR; SHAW,

2007, p. 91-92).

Novamente chama a atenção a quantidade de condições e pressupostos que

precisam ser assumidos para que as proposições acerca do comportamento da firma no

mercado de trabalho sejam formuladas. É verdade que, como se lê na citação acima, os

autores fazem uma ressalva com relação ao pressuposto de agentes que calculam como

maximizar utilidade ou lucros. Porém, admitir a existência de todos aqueles elementos

que interferem na capacidade de cálculo não diminui a força e a centralidade analítica

deste pressuposto para PE:

Constrained maximization is the basic building block of all theories in

personnel economics. Our empirical analyses in the field are attempts

to test models that are based on maximizing behavior. Even when

evidence suggests that the theories are wrong, we do not drop the

assumption of maximization. Instead, our approach is to think more

carefully about the nature of the model set up, but not about the

rationality of the individuals making choices. Economists are rarely

willing to assume that individuals simply do not know what they are

doing (LAZEAR, 2000b, p. F612).

Portanto, os autores da PE não abdicam do pressuposto teórico-metodológico do

cálculo maximizador de valor, mesmo reconhecendo que há elementos que interferem.

Porém, a manutenção desse e outros pressupostos permitem à PE, segundo seus autores,

desfrutar da principal vantagem da ciência econômica frente às demais ciências sociais,

qual seja: produzir modelos abstratos e parcimoniosos com alto poder de predição. Essa

capacidade é central porque, segundo Lazear (2000b, p. F612-F616), fornece condições

à PE se tornar uma ferramenta útil aos gestores de empresas, ou seja, oferecer medidas

cientificamente embasadas de caráter prescritivo.

Desse modo, a PE procura explicar as escolhas das empresas entre, por exemplo,

pagar seus funcionários um salário fixo ou uma remuneração variável por desempenho.

Tal decisão é uma função dos seguintes fatores:

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1) é provável que uma firma escolha remunerar seus funcionários pelo

desempenho, quando forem baixos os custos de medir o desempenho dos

trabalhadores. Por exemplo, é mais fácil medir o desempenho de um

vendedor do que o de um contador;

2) a escolha entre as formas de remuneração é realizada em função do

interesse da firma em selecionar trabalhadores com o perfil “certo”, ou

seja, firmas interessadas em funcionários com habilidade de atrair novos

clientes ou produzir inovações serão mais propensas a adotar sistemas de

remuneração por desempenho para atrair empregados com essas

capacidades, sabedores de que terão rendimentos maiores e crescentes;

3) a adoção de sistemas de remuneração por desempenho é mais provável

em firmas que demandem profissionais com capacidades escassas e

valorizadas no mercado de trabalho. Assim, em vez de uma empresa

competir com outras oferecendo salários maiores, ela atrai esses

trabalhadores garantindo uma remuneração de acordo com o desempenho

desse profissional. Assim, a diferença de rendimentos do trabalhador

passa a depender do seu desempenho na firma;

4) firmas em mercados de trabalho com boa parte dos ofertantes

(trabalhadores) com baixa qualificação, provavelmente irá adotar

sistemas de remuneração por desempenho como meio de selecionar

aqueles trabalhadores mais dispostos em se comprometer com a

produtividade da firma.

Em suma, “the choice between pay-for-performance and salary is determined by

concerns of economic efficiency in different employment settings, including the level of

measurement costs and the value of screening out workers to specific employers

(LAZEAR; SHAW, 2007, p. 100). Em outros termos, a PE entende que as firmas

escolhem um ou outro sistema de remuneração em função de um cálculo maximizador

de valor (sendo esse valor a maior eficiência ou a produtividade) frente às

características da oferta no mercado de trabalho.

Tanto na PE como na TPM, a capacidade de cálculo é tomada como um

pressuposto comportamental dos agentes e o que é estudado são os resultados de

escolhas conduzidas a partir desse pressuposto frente a certos tipos de condições de

mercado, ou seja, não é o como e nem o porquê dos agentes tomarem decisões através

ou não do exercício da capacidade de cálculo que essa perspectiva se preocupa, mas são

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os resultados das escolhas (em que momento e em que quantidade uma firma irá

contratar?) ou quais decisões são tomadas frentes a certas condições de mercado; tal

como o Nobel de economia, Hebert Simon, afirma ao se referir ao modo particular

como a economia ortodoxa estuda o comportamento humano: “[...] economics has

largely been preoccupied with the results of rational choice rather than the process of

choice” (1978, p. 2).

Assim, esta tese se situa num esforço para mostrar como uma abordagem de

sociologia econômica pode contribuir ao analisar um aspecto deixado para trás pela

economia ortodoxa quando essa toma o cálculo como um pressuposto comportamental,

a saber, o estudo das condições de possibilidade e das formas pelas quais as firmas

exercerem a capacidade de cálculo econômico de valor no mercado de trabalho. Em

suma, em vez de tomar o cálculo como pressuposto comportamental, fazemos dele um

objeto de investigação.

Tal objetivo não pode ser alcançado se adotarmos aquela perspectiva tradicional

da NSE que se contenta em denunciar o caráter reducionista e fictício do modelo de

interpretação da economia neoclássica baseado na escolha racional através do cálculo

maximizador. Simultaneamente, não devemos descartar as ferramentas de análise da

sociologia econômica e nem simplesmente transpor os conceitos e métodos da

Economia; pois, se fizéssemos assim, não teríamos meios de constituir o cálculo

econômico como objeto de análise.

1.3. O cálculo econômico entre a atomização e a rede social

Grosso modo, a economia ortodoxa assume os pressupostos da teoria da escolha

racional ao entender o comportamento dos agentes como o resultado de escolhas

calculadas visando à maximização de valores relativos ao interesse pessoal – no caso

das firmas lucro e ganho de produtividade são os valores. A realização dessas

capacidades dos atores na ação econômica dependeria em boa parte da existência de

condições oferecidas pelo modelo de “mercado de concorrência perfeita” 16. Entretanto,

uma vez que assumimos que essas condições são empiricamente raras, como

poderíamos explicar que os agentes exerçam a capacidade de cálculo, sem incorrermos

na posição ingênua que afirma que é da natureza do indivíduo calcular e maximizar

valores? No seminal artigo de 1985, Mark Granovetter irá defender a tese que as

16 Cabe lembrar que, a teoria econômica ortodoxa também descreve o comportamento dos

agentes econômicos em termos de escolhas racionais em mercados em condições imperfeitas, por

exemplo, com a presença de agentes em posição do monopsônio.

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transações de mercado são realizadas a partir das condições estruturadas pelas redes de

relações sociais, não pelas condições previstas no modelo de concorrência perfeita.

Assim, compreender as condições de possibilidades para o cálculo econômico através

das redes sociais configura uma alternativa para constituir tal capacidade como objeto

de análise e não como simplesmente um pressuposto.

O referido artigo de Granovetter pode ser considerado como fundador na

consolidação da chamada perspectiva de análise de redes sociais na Nova Sociologia

Econômica. Essa perspectiva é um tipo de sociologia estrutural que estuda os efeitos das

relações sociais sobre o comportamento individual e grupal. Ela defende que as

estruturas sociais, através de restrições e oportunidades, afetam mais o comportamento

humano que as normas culturais e outros fatores subjetivos. Nesse sentido, a identidade

das pessoas e seu comportamento não são o resultado de seus atributos culturais,

demográficos e/ou cognitivos, mas da morfologia da rede social na qual estão inseridas

(MIZRUCHI, 2009).

Na Nova Sociologia Econômica, a perspectiva de redes situa-se em

contraposição à concepção da teoria econômica ortodoxa no que diz respeito à

concepção da última sobre os mercados como espaços onde agentes, socialmente

atomizados, fazem escolhas e se engajam em transações impessoais e anônimas. A

abordagem de redes contra-argumenta que esses espaços são constituídos de atores

(firmas, trabalhadores, consumidores, etc.) em relações sociais, sendo afetados por essas

últimas nos seus comportamentos.

Ronald S. Burt (2004), Mark Granovetter (2005), Joel M. Podolny (2001), Brain

Uzzi (1996), Harrison C. White (1981) e outros pesquisadores de sociologia econômica

e acólitos desse tipo de abordagem, procuraram evidenciar como as características e

morfologia das redes de relações sociais, a posição do agente na rede e as qualidades

dos laços sociais ali tecidos afetam o comportamento dos agentes e o decurso dos

processos econômicos17. Assim sendo, mostram como essas redes influenciam aspectos

do funcionamento dos mercados (confiança, circulação de informações, hierarquias,

sistemas de classificação, reprodução de normas, etc.) e como elas determinam os

resultados econômicos como preços, salários, acesso à tecnologia e inovação, entre

17 Os autores da NSE situados na perspectiva de redes possuem, também, discordâncias a

respeito do papel e como as relações sociais afetam os fenômenos da vida econômica. A título de

exemplo sobre essas diferenças, ver Granovetter (1985, nota 2, p. 487) ou Ioannides e Loury (2004, p.

1062-66).

41

outros (FOURCADE, 2007; FLIGSTEIN; DAUTER, 2007; BEAMISH; BIGGART,

2006).

Tanto na NSE como na teoria social, a abordagem de redes possui diferenças e

aproximações com a chamada teoria da escolha racional cujos pressupostos são

largamente adotados pela teoria econômica ortodoxa. Um ponto comum entre as duas

perspectivas é presumir “[...] que, em geral, as variações do comportamento individual

são explicadas por diferenças entre as estruturas de oportunidade com que se deparam

os agentes e não por variações da sua composição interna [...]” (HEDSTRÖM18 apud

MIZRUCHI, 2009, p. 144).

A análise de redes sociais não assume nenhum tipo de premissa quanto à

racionalidade dos agentes, mas, ao mesmo tempo, não há nada nela que exclua a

racionalidade.

As principais diferenças entre o modelo estrutural e o modelo de

escolha racional são que, no primeiro (1), as preferências humanas são

consideradas endógenas, ou seja, a formação das preferências é tida

como algo a ser explicado, e no segundo (2), a ação humana é tida

como sendo afetada por estruturas sociais explicitamente definidas

(MIZRUCHI, 2009, p. 145).

Em contrapartida, a perspectiva econômica ortodoxa não exclui a possibilidade

de inserir o papel das redes sociais no comportamento humano. Vejamos essa questão.

Segundo Granovetter (1985), a perspectiva ortodoxa da economia – que ele

denomina de subsocializada – só pode manter o pressuposto da atomização em função

da forma como ela utiliza a noção de mercado de concorrência perfeita para resolver o

“problema hobbesiano da ordem”, que é por ele definido nos seguintes termos: a

realização de transações econômicas e sociais necessita de ordem promovida pela

confiança entre indivíduos e pela ausência de maleficência; mas, se os indivíduos são

atomizados, não há nada que os faça confiar uns nos outros e nem evitar que se engajem

em condutas oportunistas. Ainda segundo Granovetter, para Thomas Hobbes, o

problema da ordem poderia ser resolvido através de uma forma de autoridade

autocrática, que fizesse os indivíduos respeitar as regras em função da ameaça e

execução da coerção e, assim, findasse por promover a confiança. Já a resposta da

economia neoclássica para esse dilema, tal como compreende Granovetter, afirma que:

repressive political structures are rendered unnecessary by

competitive markets that make force or fraud unavailing. Competition

determines the terms of trade in a way that individual traders cannot

18 HEDSTRÖM, P. Introduction to this special issue on rational choice theory. Acta Sociologica,

v. 36, n. 3, p. 167-169, 1993.

42

manipulate. If traders encounter complex or difficult relationships,

characterized by mistrust or malfeasance, they can simply move on to

the legion of other traders […] ; social relations and their details thus

become frictional matters (GRANOVETTER, 1985, p. 484)

Assim, para Mark Granovetter, os pressupostos da atomização e do mercado de

concorrência perfeita são mutuamente complementares. Alternativamente, ele

desenvolve a perspectiva do “enraizamento social dos mercados e da ação econômica”

que “[...] stresses instead the role of concrete personal relations and structures (or

‘networks’) of such relations in generating trust and discouraging malfeasance

(GRANOVETTER, 1985, p. 490). É, então, nas redes sociais que se encontram as bases

para que as transações econômicas de mercado se desenrolem; assim, as escolhas dos

agentes nos mercados e os resultados econômicos observados nesses dependem das

estruturas sociais nas quais estão inseridos. A partir de Granovetter pensamos que as

condições produzidas pelas redes sociais são elementos fundamentais para explicar a

capacidade de e o modo como os agentes econômicos exercem o cálculo de valor.

Cabe destacar que Granovetter alerta para o risco de se incorrer num certo

“funcionalismo otimista” que conferiria às relações sociais um papel de produtoras da

ordem necessária ao funcionamento dos mercados. Para evitar esse equívoco é preciso

reconhecer dois pontos: 1) que as redes de relações sociais não estão generalizadas de

modo uniforme pelos diferentes âmbitos da vida econômica, já que elas penetram em

diferentes graus nos vários setores da economia, abrindo espaço para ocorrência de

desconfiança, oportunismo e desordem; 2) que relações sociais também podem ser

meios para emergência de disputas, oportunismo e maleficência porque, ao confiarmos

numa pessoa, nos colocamos sempre numa posição vulnerável. Além disso, o conluio só

é possível através de uma estrutura de relações pessoais. A perspectiva do enraizamento,

por conseguinte, “[...] makes no sweeping (and thus unlikely) predictions of universal

order or disorder but rather assumes that the details of social structure will determine

which is found” (GRANOVETTER, 1985, p. 493)19.

Portanto, para Granovetter (1985, p. 505-06), o criticável na perspectiva

ortodoxa da economia não é o reducionismo psicológico e comportamental que ela

incorpora ao assimilar a teoria da escolha racional e, sim, é que, ao fazê-lo, desconsidera

o papel das relações sociais e pressupõe a atomização dos agentes econômicos.

19 Adiante ao retomarmos alguns estudos sobre a relação entre redes e discriminação e

desigualdades no mercado de trabalho, veremos que o alerta para não se incorrer num otimismo

funcionalista com relação ao papel das redes na economia é válido para racionalidade, ou seja, as redes

sustentam tanto comportamentos e escolhas econômicas racionais como irracionais, por exemplo, a

discriminação de gênero ou racial.

43

Portanto, não há nada nessa perspectiva teórica que impeça o que estamos propondo:

compreender o exercício do cálculo de valor das firmas no mercado de trabalho,

analisando as condições produzidas pelas redes sociais das quais elas fazem parte. Em

outros termos, propomos que a capacidade de cálculo da firma depende do modo como

sua ação econômica está socialmente enraizada.

Todavia, antes de esboçar um modelo de análise baseado na perspectiva de redes

sociais, precisamos repensar a crítica de Granovetter ao conceito sub-socializado de

ação econômica, porque já encontramos desenvolvido na Economia um conjunto de

pesquisas e modelos teóricos de análise de redes, baseados em muitos dos principais

pressupostos neoclássicos.

Alguém familiarizado quase exclusivamente com a literatura de sociologia

econômica se surpreenderá ao constatar que exista uma tradição (inicialmente dispersa)

de estudos na economia a respeito do papel das redes sociais de informação no processo

de procura/obtenção de emprego. A revisão bibliográfica feita por Ioannides e Loury

(2004) deixa claro esse fato logo no início do artigo, mostrando a existência de uma

primeira geração de estudos em economia (que começa nos meados da década de 1970 e

se estende à de 1990) a respeito da relação entre redes sociais e o processo de

procura/obtenção de emprego.

Segundo esses dois autores, essa primeira geração de estudos evidenciou o que

eles chamam de alguns “fatos estilizados”: 1) o uso de amigos, familiares e conhecidos

para procurar trabalho é ubíquo entre as populações e tem crescido ao longo do tempo;

2) o uso dessas relações sociais para procurar emprego é variável em função de

características demográficas e no espaço; 3) geralmente procurar emprego através de

relações sociais é mais produtivo e vantajoso; 4) parte da variação de sucesso na procura

de emprego entre grupos demográficos é devido ao uso de redes sociais; 5) em

contraposição ao quarto fato, algumas pesquisas mostraram que nem toda variação no

sucesso da procura de emprego entre grupos demográficos pode ser explicada em

função do uso de redes sociais; 6) há um crescente uso da Internet como um método de

procura de emprego que interfere e até mesmo vem substituindo o uso de redes sociais

para esse fim; 7) há diferenças entre países no que concerne ao uso de redes sociais

tanto por parte de trabalhadores como de firmas (IOANNIDES; LOURY, 2004, p.

1057-61).

Todos esses fatos são até hoje alvo de debates e pesquisas no campo da análise

de redes em sociologia econômica e em economia do trabalho; mostrando, portanto, que

44

uma contraposição entre Sociologia e Economia precisa ser reavaliada e que seja aberto

o caminho para maior intercâmbio disciplinar.

Conforme Ioannides e Loury (2004, p. 1060-61), essa primeira geração de

estudos de redes sociais não possuía uma clara orientação e embasamento nas teorias

econômicas. Entretanto, as pesquisas mais recentes reverteram essa característica,

estruturando por meio dos pressupostos e conceitos da economia neoclássica, a análise

dos papéis das redes sociais no funcionamento do mercado de trabalho. As pesquisas

têm utilizado os postulados ligados às noções de eficiência, escassez e equilíbrio, junto

ao recurso do modelamento matemático, para precisar o impacto de aspectos e

características específicas das redes sociais no funcionamento e resultados econômicos

observados nos mercados e organizações econômicas20 (JACKSON, 2007). A utilização

dessas noções é mais evidente num grupo de estudos de análise de redes que Ioannides e

Loury (2004, p. 1076-78) denominaram de pesquisas sobre “formação estratégica de

rede e redes endógenas de informação de emprego”. O principal objetivo e contribuição

dessa linha de pesquisa é a construção axiomática de modelos sobre processos

relacionados a certas características e propriedades (densidade, forma topológica, etc.)

das redes e, também, a respeito da formação e extinção dessas últimas como uma função

de escolhas de agentes estratégicos.

Ainda mais surpreendente é que, utilizando conceitos e pressupostos ortodoxos,

os economistas de análise de redes reconheceram um fato diretamente relacionado à

crítica de Granovetter sobre a noção subsocializada de ação econômica da teoria

neoclássica, tornando essa crítica um tanto quanto anacrônica frente ao

desenvolvimento dos modelos teóricos econômicos de redes:

The rise of what might called “social economics” comes very much

from the realization by economists that there are many economic

interactions where the social context is not a second-order

consideration, but is actually a primary driver of behaviors and

outcomes. […]

Although the widespread realization of the importance of the

embeddedness of economic activity in social settings has been

fundamental to sociologists for some time, […] it was largely ignored

by economists until the last decade. The recent interest comes from

many economic models having been pushed to their limits, and the

consequent discovery that social circumstances can help explain

observed economic phenomena […] (JACKSON, 2007, p. 19).

20 Além de uma questão de espaço, a utilização de modelos matemáticos impossibilitou fazermos

uma resenha dos principais achados e modelos teóricos dessa literatura de análise econômica de redes.

Nesse sentido, ver Ioannides e Loury (2004, p. 1066-84), Calvó-Armengol (2006), Jackson (2007; 2010).

45

Economistas chegaram a essa conclusão sem abrir mão de postulados ortodoxos

como o de equilíbrio, eficiência, recursos escassos e do uso de modelamento

matemático. Portanto, eles encontraram uma forma de absorver uma tese advinda da

sociologia econômica sem abandonar aspectos teórico-metodológicos característicos da

sua disciplina, ou seja, enriqueceram os tradicionais modelos teóricos econômicos com

a noção de enraizamento social das atividades econômicas.

Ademais, essa literatura da economia de análise de redes faz uso do postulado

ortodoxo do agente racional (cálculo) maximizador para explicar algo que a sociologia

pouco vem se debruçando: as razões do surgimento e término de redes sociais

(IOANNIDES; LOURY, 2004, p. 1063; PODOLNY; RAUCH, 2007, p. 4-6). Matthew

Jackson (2007, p. 20-21) elucida esse ponto ao afirmar:

[…] much of the economic study of interactions in a social context lies

within a “rational choice” framework. […] One of the basic

presumptions that underlies much of the economic modeling of

network formation is the view that the individuals involved in

networks choose whom to interact with. […] This choice perspective

traces the structure and the properties of networks back to the costs

and benefits that they bestow upon their participants.

Em suma, o que essa perspectiva econômica de análise de rede afirma é que a

emergência, reprodução e desestruturação de redes sociais são uma função do cálculo

maximizador de utilidade dos agentes, isto é, uma rede só surge e permanece se ela

representa ganhos marginais em relação aos custos que os indivíduos assumem ao

participarem dela.

Nesse ponto é que reside uma diferença entre Sociologia e Economia que

adotamos e, por meio dela, construímos o cálculo econômico como objeto de

investigação. Essa diferença não se refere às concepções atomizadas ou não de ação

econômica, mas de considerar as redes como constitutivas das preferências, interesses e

da racionalidade dos agentes (abordagem sociológica) ou se as redes são formadas de

acordo com o cálculo maximizador de preferências e interesses dados (abordagem

econômica). Em outros termos,

Economic conceptions of networks also seemed to treat an actor's

links within a network as something apart from the actor's self, a fact

that seemed increasingly to trouble sociologists from the mid-1990s

on, as they came to conceptualize networks as constituent elements of

identity. Because the sociologists believed that networks informed and

shaped preferences, they thought it made little sense to treat networks

as a form of capital that is analytically separate from an actor and

thus something in which an actor chooses to make or not make

investments (PODOLNY; RAUCH, 2007, p. 3)

46

É essa diferença que estrutura a abordagem sociológica desenvolvida nesta tese,

ou seja, ela incorpora um elemento importante da teoria econômica ortodoxa, a saber,

que a ação econômica comporta um elemento de cálculo no processo de escolha visando

maximizar utilidade ou lucro (valores). Se a economia toma esse elemento como um

pressuposto para explicar a rede, nossa abordagem sociológica adota-o como objeto de

investigação incorporando o seu pressuposto de enraizamento social da ação econômica.

Portanto, alternativamente à noção de mercado de concorrência perfeita, o cálculo

econômico passa ser uma capacidade de agência explicável em função da rede na qual

essa última está inserida.

47

2. MODELO SOCIOLÓGICO DE A

ÁLISE DO CÁLCULO

ECO

ÔMICO

2.1. Valores na economia e o trabalho como mercadoria

Praticamente ninguém seria capaz de negar que vivemos em uma economia na

qual os mercados desempenham um papel central e crescente na organização das

relações econômicas. Vimos no capítulo anterior que a perspectiva econômica ortodoxa

compreende os mercados a partir de uma série de elementos, condições e características

que formariam o chamado “mercado de concorrência perfeita”, mas essa definição não

pode ser considerada como uma definição dos mercados per se, ela consiste em um

modelo teórico que diz mais sobre alguns postulados sobre o sistema de preços, os bens

transacionados, o comportamento e a racionalidade dos atores. Em outras palavras, não

são concretamente os mercados que estão sendo definidos, mas o funcionamento de um

modelo de trocas econômicas que é definido em termos de pressupostos abstratos sobre

o comportamento humano frente a determinadas condições e regras.

Assim, essa perspectiva se preocupou principalmente em desenvolver provas

matemáticas e dedutivas sobre a eficiência de alocação das transações levadas ao cabo

por meio das empiricamente improváveis condições estabelecidas pelo modelo teórico

de “mercados de concorrência perfeita”, em vez de realmente definir os mercados a

partir da análise do seu funcionamento concreto (BERCKERT, 2009, p. 245-246).

O reconhecimento dessa limitação não pode servir de justificativa para nos furtar

de adotar uma definição dos mercados e, nesse sentido, entendemos que a Nova

Sociologia Econômica apresenta alguns elementos para uma definição analítica dos

mercados com base em um sólido arcabouço de conhecimentos empíricos e teóricos

(FLIGSTEIN; DAUTER, 2007; SWEDBERG, 2005).

Justamente por estar fundamentada nesse acúmulo da produção do conhecimento

e também por tratar de definir os mercados com base no funcionamento que de fato eles

apresentam é que escolhemos adotar aqui a conceituação desenvolvida por Patrik

Aspers: “A market is a social structure for the exchange of rights in which offers are

evaluated and priced, and compete with one another, which is shorthand for the fact

that actors – individuals and firms – compete with one another via offers” (2011, p. 4,

grifos do autor). Nessa definição podemos identificar elementos fundamentais que

diferenciam os mercados de outros modelos de intercambio econômico existentes na

48

sociedade. Segundo essa perspectiva, as trocas mercantis seriam aquelas que são

realizadas a partir da existência de direitos de propriedade sobre o que está sendo

transacionado, de indivíduos e firmas exercitando capacidade de avaliação para decidir

entre diferentes ofertas, da competição entre os agentes na condição de ofertantes e da

precificação de bens e serviços. Entre esses elementos, o interesse analítico desta tese

repousa sobre um deles, a saber, o cálculo de valor (processo de avaliação) que os

agentes exercitam diante de um conjunto de ofertas acessíveis em um mercado, isto é,

quais valores orientam a sua demanda por certo tipo de mercadoria e como eles

calculam esses valores na oferta disponível desses bens. Mais especificamente, estamos

interessados no cálculo de valor de firmas quando comparecem, a partir do papel de

demandantes, no mercado de trabalho.

Como os bens adquirem valor no mercado é uma questão seminal na fundação

da ciência econômica e do pensamento social moderno. Assim, por exemplo, a

economia política clássica, com Adam Smith ([1776] 1904) e David Ricardo ([1817]

2004), propôs a teoria do valor-trabalho que defendia a ideia de que o valor de um

produto era determinado pelo trabalho necessário para produzi-lo. Karl Marx ([1867]

2006) tomou de empréstimo essa tese e, a partir dela, formulou sua teoria da exploração

do trabalho. Essa teoria postula que, sendo a quantidade de trabalho a origem do valor

dos bens, seria na exploração do trabalho, através do processo e relações de produção,

que o empresário retiraria seu ganho, ou seja, o lucro advindo do processo de mais-

valia, que consiste em quantidade de trabalho não paga pelo empresário ao trabalhador.

Nesse sentido, cabe esclarecer que Marx fala em quantidade socialmente necessária de

trabalho, que seria formada nas interações de troca que têm lugar nos mercados.

Entretanto, mesmo remetendo ao mercado uma parte do processo de definição do valor,

esse último ainda é objetivamente determinado pelos processos de produção que

definem as quantidades necessárias de trabalho para produção de bens por parte de cada

firma concorrente. É com posse desse valor que as firmas vão ao mercado e nele

concorrem em termos de valor de troca e, simultaneamente, determinam a quantidade

socialmente necessária de trabalho (MARX, 2006, p. 53-172). Portanto, a crítica que

será explicitada adiante, ainda se mantém mesmo considerando esse aspecto da teoria da

exploração e do valor-trabalho de Marx21.

21 Para uma fascinante crítica à teoria do valor-trabalho e da exploração, ver Eugen Von Böhm-

Bawerk (2010).

49

Smith, Ricardo e Marx partilham da noção de que os produtos possuiriam um

valor intrínseco, determinado pela quantidade de trabalho necessária para sua produção.

Nesse sentido, a teoria do valor-trabalho ignora que o valor dos bens é formado

extrinsecamente ao objeto, isto é, “[t]his theory misses the essential point that economic

value expresses a relationship between the qualities of products offered in the market

and the wants of customers and seller” (ASPERS; BECKERT, 2011, p. 9, grifo do

autor).

A partir da ideia de que o valor de um bem ou serviço não é objetivamente, mas

subjetivamente determinado, estabeleceu-se a base da moderna teoria econômica; mais

especificamente a chamada Revolução Marginalista, ancorada na ideia de utilidade

marginal (valor como a utilidade do último produto adquirido), que foi desenvolvida

separada, mas contemporaneamente por William Jevons ([1871] 1996), Carl Menger

([1871] 2007) e Léon Walras ([1874] 1953). Uma vez que o valor não é ancorado num

critério objetivo como a quantidade de trabalho, a esfera, o “espaço” no qual ele é

determinado deixa de ser o das relações de trabalho e de produção para ser, em última

estância, a das relações que têm lugar no mercado entre os agentes (firmas e indivíduos,

ora na condição de ofertantes, ora na de demandantes) e as com os produtos

demandados e suas qualidades. Portanto, para entender o funcionamento dos mercados

é necessário, dentre outras coisas, compreender esse processo no qual as ofertas de

produtos ou de serviços recebem um valor, ou seja, as transações de mercado ocorrem

quando os agentes são capazes de responder à pergunta: quanto vale isso?

É nesse sentido que Patrick Aspers e Jens Beckert entendem a questão do

processo de definição de valores como uma das condições para existência e

funcionamento dos mercados – o que eles chamam de “ordem social dos mercados”

(ASPERS, 2011; ASPERS; BECKERT, 2011; BECKERT, 2009). Em primeiro lugar é

preciso ter em mente que os mercados não existem porque simplesmente os seres

humanos teriam uma natural propensão para realizarem trocas de produtos. Para os

mercados existirem é necessário que alguns “problemas de coordenação” sejam

resolvidos, isto é, “[h]ow is it possible that economic activities can be coordinated

through markets despite the heterogeneous and partly antagonistic motives and

interests of the participants? ” (BECKERT, 2009, p. 246).

Pensamos que, de certo modo, o que essa dupla de sociólogos faz é desenvolver

teoricamente na sociologia econômica, a linha de reflexão que Mark Granovetter (1985)

inaugura ao mencionar o “problema hobbesiano da ordem” nos mercados, tal como

50

vimos na seção 3 do capítulo 1. Nesse sentido, entendemos que Aspers e Beckert

avançam em relação à Granovetter ao estabelecer que as condições de existência do

mercado e, por conseguinte, do seu funcionamento, não estão restritas somente a um

problema de confiança e de risco de maleficência entre os agentes, que, segundo a

perspectiva de Granovetter, sua resolução passaria pelo enraizamento social da ação

econômica22. Ambos (ASPERS, 2011; BECKERT, 2009) tratam das condições

extraeconômicas na formação dos mercados e no seu funcionamento através de um

conjunto mais extenso de ferramentas de análise; por exemplo, eles não apenas

consideram as influências das redes de relações sociais na formação e funcionamento

dos mercados, mas também tentam articular no modelo de análise os condicionantes

advindos das instituições, cultura, cognição e poder.

Não é nossa ambição compreender por completo a formação e funcionamento do

mercado de trabalho relacionado à área das atividades econômicas das tecnologias da

informação. Parcimoniosamente escolhemos por analisar um dos processos ligado a

essa realidade porque, tal como expusemos na introdução desta tese, pensamos que

articule uma faceta analítica ainda pouco explorada pela literatura sociológica, a saber, a

firma como demandante no mercado de trabalho. Assim sendo, destacamos que nosso

interesse analítico reside em examinar através das condições de possibilidade

engendradas por redes sociotécnicas, a capacidade das firmas de tecnologias da

informação exercerem o cálculo econômico de valor quando comparecem como

demandantes no mercado de trabalho.

Retomando, o que é, então, o “problema do valor” como condição para a

formação e funcionamentos dos mercados? De maneira geral, esse problema se refere

ao lado da demanda em um mercado – isso não quer dizer que ele não seja influenciado

pelos agentes que ofertam – e à questão da formação e dos modos de realização das

preferências dos demandantes. Para que as transações de mercados se concretizem, o

demandante se vê na posição de ter que estabelecer critérios que liguem as suas

preferências e interesses (que, ao seu turno, conformam a sua demanda) às inúmeras

qualidades que uma sorte de produtos poderá conter e, desse modo, possa ser capaz de

julgar entre quais das ofertas concorrentes no mercado é a melhor para ele, isto é, tomar

uma decisão.

22 Para melhor compreender a relação crítica entre a perspectiva do enraizamento social da ação

econômica de Granovetter com a da ordem social dos mercados, ver Beckert (1996).

51

Basicamente esse é o processo de cálculo de valor que se refere ao problema da

constituição e funcionamento dos mercados, pois ele não ocorre automaticamente por

alguma força natural. Tal como se sabe desde a Revolução Marginalista na Economia, o

valor de uma mercadoria não se encontra objetivamente determinado em alguma

propriedade do objeto ou da produção desse objeto que representa um tipo de

mercadoria; assim sendo, cabe àquele que demanda estabelecer qual é o valor de um

produto ou serviço. Nesse sentido, o problema reside no fato de que os bens e os

serviços não possuem um valor objetivamente determinado, os indivíduos demandantes

são sempre chamados para decidir o que é e o que não é fonte de valor nas inúmeras

qualidades de um bem ou um serviço (ASPERS, 2011; ASPERS; BECKERT, 2011;

BECKERT, 2009).

Estamos lidando, em última análise, com um problema que a ciência econômica

ortodoxa não considera, qual seja, a formação de preferências. Nos modelos teóricos

ortodoxos, as preferências já estão dadas e são estáveis. Tal como vimos no caso do

mercado de trabalho na seção 1.2, através do pressuposto de que as preferências são

exógenas ao modelo é também justificável considerar que os bens e serviços em um

mercado são homogeneamente ofertados, isto é, as decisões são tomadas apenas em

função de considerações de quantidade e de preços relativos, uma vez que as

preferências sobre os mesmos já estão formadas. O que a perspectiva de sociologia

econômica destaca é que para haver essa homogeneidade, indivíduos e firmas na

posição de demandantes precisam decidir o(s) critério(s) que conferem valor a uma

sorte de bens ou serviços e, dessa maneira, dando sentido à comparação em termos de

preços relativos e quantidades.

Para não sermos injustos com a literatura, cabe destacar dois autores, incluindo

um economista, que também abordaram essa questão de como os agentes econômicos

exercem o procedimento de cálculo de valor. O economista Lucien Karpik (2010)

elabora uma teoria sobre o que ele denomina “mercados de singularidades”, isto é,

mercados que envolvem a transação de produtos e serviços nos quais atribuir um valor

e, principalmente, um preço é um processo complexo, pois são demasiadamente únicos

e, por isso, não possuem critérios claros e estabelecidos sobre como avaliá-los. Em

outros termos, “[s]ingularities are multidimensional, uncertain, and incommensurable;

the consumer is searching for the 'right' or a 'good' singularity; quality competition

prevails over price competition; and the market is opaque” (KARPIK, 2010, p.20).

52

Singularidades são, portanto, serviços que, nos seus respectivos mercados, não

há um sistema de sinais pré-estabelecido para acessar de antemão a qualidade dos que

ofertam esses serviços, por exemplo, médicos, psicólogos, advogados, restaurantes de

luxo; ou seja, serviços nos quais os consumidores tomam decisões através de

julgamentos em termos de o “bom” ou de o “melhor”. Singularidades são também

produtos como obras de arte, vinhos, roupas de alta-costura, entre outros; pois esses

produtos apresentam a particularidade de que determinar as suas qualidades que o fazem

valiosos seja incerta e difícil para os seus consumidores.

Consideramos que o limite que essa perspectiva representa em relação ao nosso

interesse analítico é que ela é elaborada explicitamente para uma modalidade específica

de mercado cujas características poucos se relacionam com as do mercado de trabalho;

especialmente quando o autor menciona que nos mercados de singularidade os preços

têm pouca ou nenhuma influência no comportamento da demanda. Ademais, a

economia das singularidades trata, segundo Karpik (2010, p. 3-31), de mercados que a

economia neoclássica ignora; ora, tal como vimos no capítulo anterior, o mercado de

trabalho não somente é considerado pelos modelos teóricos neoclássicos como tem sido

fonte de importantes inovações teórico-metodológicas, por exemplo, a incorporação da

análise de redes para explicar o seu funcionamento (CALVÓ-ARMENGOL, 2006;

IOANNIDES; LOURY, 2004).

David Stark (2009) também apresenta uma interessante contribuição a respeito

do modo como bens e serviços adquirem valor. Entretanto, esse sociólogo analisa esse

processo de geração de valor a partir de uma perspectiva bem específica, a saber, o

modo como firmas descobrem o que é valioso (STARK, 2009, p. 3-19). Assim, apesar

de Stark focalizar, tal como este estudo, no cálculo de valor das firmas; ele está lidando

com um enfoque diferente, qual seja: enquanto procura-se nesta tese saber como as

firmas calculam o valor de coisas que já estão no seu horizonte de demanda, Stark está

mais interessado sobre como as firmas descobrem o valor de coisas que elas ainda não

conheciam. Simplificando, enquanto esta pesquisa trata do cálculo de valor da firma

como demandante, a perspectiva de Stark “dá um passo atrás” para compreender como

firmas descobrem e produzem o valor de um bem ou um serviço. Portanto, o estudo de

Stark está então lidando mais com questões relacionadas à produção de inovações

mercadológicas.