O choque dos mundos ou uma leitura materialista da peça 'And things that go bump in the night', de.. por Roberto Rillo Biscaro - Versão HTML

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dialogicidade logo no início reforça ainda mais o tom não realista da obra, até porque

essa falsa dialogicidade é traço recorrente do Expressionismo35.

Após reclamar que os netos esconderam sua dentadura em uma lata de biscoitos,

Grandfa expressa sua felicidade por estar prestes a livrar-se da família e ir para uma

casa de repouso. É nesse momento que se esboça um início de diálogo entre pai e filho,

mas isso dura quase nada, pois Fa boceja e adormece em seguida:

FA: (Falando em meio a um enorme bocejo) (...) À que horas eles vêm buscá-lo?

GRANDFA: Cedo... Tão logo as ruas estejam liberadas. Maldito toque de recolher. Eu poderia

ter ido hoje a noite mesmo.

FA: (Novamente bocejando.) Nós sentiremos saudade.

35 FRAGA, Eudinyr. op. cit. p. 31.

29

GRANDFA: Eu não. Eu deveria ter feito isso há anos Acontece que eu achava que você tinha

que me internar. Eu não sabia que podia fazê-lo por minha conta. (Curta pausa.) Bem, talvez você sinta um pouquinho de... Quero dizer, saudade... Você sabe, sangue do próprio sangue. (Pára de tricotar e olha) Minha conversa te dá sono, né?36

A estrutura da família nuclear burguesa está tão subvertida na peça que o ato de

internar um idoso em uma casa de repouso pode perfeitamente ser lido como um gesto

de caridade. Seria uma forma de livrar Grandfa daquele mundo odioso em que vive. A

omissão de Fa, no entanto, é tão descomunal que nem esse gesto o pai pôde esperar

dele, tendo que se internar por conta própria, amargando anos na vivenda sem saber que

podia fazê-lo. Se nem esse gesto de “carinho” Grandfa recebeu do filho, algo mais

concreto, mesmo que singelo – como um beijo, por exemplo - é impensável:

GRANDFA: (...) Eu certamente não espero que você esteja acordado quando eu partir de

manhã. Provavelmente não nos veremos por um bom tempo... Talvez não nos vejamos nunca mais... Bem, acho que é adeus agora... Eu não acho que você queira me beijar. (O primeiro ronco de Fa.) FILHO!

FA: (Respondendo imediatamente, meio grogue.) Estou escutando, Grandfa.

GRANDFA: Eu disse que... (Embaraçado.) Eu disse que não esperava que você quisesse me

beijar.

FA: Ora, ora, Grandfa.

GRANDFA: Eu achei que não. (Curta pausa.) As pessoas às vezes fazem isso, sabe?

FA: (O sono tomando conta dele novamente.) Sim, Grandfa.

GRANDFA: É um sinal de carinho... Um beijo. (...)37

Uma das raríssimas vezes em que um membro da família se dirige a outro

fazendo uso de um modo familiar e comum de tratamento entre parentes ocorre no grito

de Grandfa para acordar o filho. Em se tratando da transmissão de informações para a

platéia/leitor, o uso da palavra filho serve para que se inteirem do grau de parentesco

entre as personagens desde cedo a fim de que o efeito de estranhamento provocado pela

desintegração dessas relações se instaure o mais rapidamente possível. É claro que esse

efeito de estranhamento se dá porque as relações familiares naquela vivenda não se

36 Ibid. p. 5

37 Ibid. p. 5

30

baseiam no afeto, mas apenas na simples ligação sangüínea entre aquelas pessoas, o que

fere mortalmente o modo de representação da família. Ao invés do carinho desejado,

tudo o que Grandfa consegue é que escondam sua dentadura ou que o neto lhe acerte

uma bolada no estômago.

Nas (poucas) cenas em que existe algum carinho entre os membros da família,

constata-se algum elemento que irá tornar o ato vazio ou até mesmo ridículo,

interesseiro, fruto do desespero. Vejamos dois exemplos:

Em determinado momento do primeiro ato Fa pede um beijo de despedida a

Grandfa:

FA: (Acordando momentaneamente) Adeus, Grandfa. Venha me dar um beijo, Grandfa.

GRANDFA: (Fa já teve sua chance.) Eu estou fazendo tricô.

FA: ... Pobre Miss Nigéria... 38

Ora, o que ocorre nesta cena não é o esperado beijo carinhoso que Grandfa

ambicionara receber de seu filho, mas apenas uma reação involuntária de quem estava

em sono profundo. Tanto é assim que à recusa do pai em ir dar-lhe o beijo, Fa nem

menciona mais o assunto, e sim a Miss Nigéria, sobre a qual lera no jornal momentos

antes.

Cena mais contundente se passa entre Ruby e a filha Lakme. Ao trazer uma

xícara de café para a mãe, Lakme abraça-a pelo pescoço, beija-a na bochecha e diz:

“Oh, como eu amo minha Ruby! Ninguém ama a sua Ruby como eu amo a minha.”39

Pouco adiante, porém, as coisas começam a mudar drasticamente. Ruby sente uma

corrente de ar no porão e inquire a respeito da porta de acesso à casa, que, segundo ela,

deveria estar trancada. Diante da afirmativa da filha de que a porta estava realmente

aberta, Ruby pede à garota que vá fechá-la. A menina diz que a porta está sempre

aberta, que só é fechada praticamente à hora do toque de recolher. Nesse ponto da cena

entre as duas, McNally nos avisa em uma rubrica de que há uma briga se formando. Ao

perceber que a mãe está apavorada pelo fato de a porta estar aberta, Lakme vai se

38 Ibid. p. 14.

39 Ibid. p. 20-5. A fim de não sobrecarregar o texto com notas de rodapé, alerto o leitor de que as citações da cena entre Lakme e Ruby encontram-se todas nas paginas mencionadas nesta nota.

31

tornando cada vez mais impiedosa em seu ataque: “Por que você mesma não sobe lá e a

fecha, Ruby? Ou você está apavorada demais para subir lá de volta, agora que já está

aqui embaixo?” A mãe replica que a filha se arrependerá das coisas que está a dizer,

mas isso não detém a feroz Lakme: “Você vai cortar minha mesada? Vá em frente!

Compre a sua própria birita então! Fale pro Sigfrid comprar todas aquelas estúpidas

revistas de cinema.” Aproveitando-se da momentânea descompostura da mãe, a menina

segue “como uma metralhadora” :

Lakme: Me diz como eu vou me arrepender? Vá em frente! Diga-me. Porque eu não acho que vá

me arrepender, absolutamente. Você está aterrorizada demais para fazer qualquer um se arrepender de alguma coisa. Eu aposto que você tem medo até de nós. Não tem, Ruby, não tem?

RUBY: (Admitindo uma verdade feia e dolorosa.) Sim, se isso te faz mais feliz, sim!

LAKME: (Ainda não satisfeita com o sangue que derramou.) Você nunca faz nada. Não vai a

lugar algum, você não sai desta casa há... anos, praticamente! (...)

RUBY: (A raiva aumentando agora; a confissão do medo deveria ter satisfeito Lakme.) Já basta, Lakme.

LAKME: E olhe para você! Você tem feito isso ultimamente... olhado para você? Você

costumava ser linda. Você era uma rainha... uma rainha de verdade. Mas agora! E a sua mente! Ela está indo também. Você costumava falar, Ruby... fazer sentido...falar de verdade. E as pessoas ouviam você; elas conseguiam ouvir você. Mas isso era antes. Antes da bebida. Antes das revistas de cinema e de todo o lixo. Antes de começar a passar o dia todo na cama com uma garrafa e uma cópia de Screen Stars.40

Por que você não arruma um astro de cinema de verdade e o leva para lá, para variar? Alguém! Você nem mesmo leva Fa para cama desde... provavelmente desde mim!

RUBY: (Fora de controle.) EU DISSE QUE JÁ BASTA!

Neste instante o horrível som que avisa que faltam quinze minutos para o toque

de recolher faz Ruby ficar ainda mais apavorada, chegando a tremer. Lakme finaliza a

40 Uma vez que já mencionei a influência das técnicas do Expressionismo na composição da peça de McNally – e o farei outras vezes ao longo deste trabalho – não se pode deixar de lembrar nesta alusão às revistas de cinema, da personagem Mrs. Zero, de The Adding Machine (1923), de Elmer Rice, provavelmente a obra mais importante do Expressionismo teatral norte-americano. No longo monólogo de abertura da peça, Mrs Zero passa boa parte do tempo discorrendo sobre astros e estrelas, filmes e fofocas lidas em uma revista de cinema. Se em 1923 a crítica à alienação engendrada pela indústria cultural já era pertinente, imagine-se na década de sessenta, quando os métodos de persuasão e fascínio desencadeados por ela estavam muito mais sofisticados.

32

discussão sobre a porta argumentando que, se a fecharem, o hóspede que estão

esperando não poderá entrar. Também pondera com a mãe o quão horrível seria se

tivessem que permanecer reunidos na sala sem companhia externa. Propõe então que

façam as pazes:

LAKME: (...) Agora, beijar e fazer as pazes, Ruby!

(...)

LAKME: (Exigindo.) Ruby! Beijar e fazer as pazes! Beijar e fazer –

(Ruby a esbofeteia forte.)

RUBY: Beijar e fazer as pazes, Lakme. Beijar e fazer as pazes.

Ao criar essas cenas nas quais o afeto é vazio ou prenúncio para algum ato de

crueldade, McNally deliberadamente produz um efeito de distanciamento e

desnaturalização da idéia de que a família é por si só um ambiente de amor e segurança.

É necessário notar, entretanto, que, embora os momentos de desconstrução da

noção idealizada da família sejam os mais freqüentes, aqui e ali nota-se que, a seu

modo, existe certa dose de amor entre eles. Uma rubrica afirma que freqüentemente

Lakme e Sigfrid são muito bons amigos, a uma altura do diálogo em que a garota chega

a passar a mão na cintura do irmão afetuosamente.41 De outra feita, Grandfa produz um

som engraçado e isso põe Ruby em alerta, acreditando que o velho possa estar tendo

algum tipo de ataque. Nesse momento, nota-se certo desespero nela a despeito de todas

as agressões que perpetra contra o ancião.42 Muito caracteristicamente, a preocupação

de Ruby é rechaçada por Grandfa, que, na verdade, não tem mesmo motivo algum para

acreditar que seja genuína tão súbita atenção para com o seu bem-estar. Um pouco

adiante, quando Sigfrid está macambúzio, Ruby aproxima-se dele, segura seu rosto

cabisbaixo em suas mãos, e, beijando-lhe a testa, parece dizer sinceramente que o ama.

43

McNally dedicou a peça a seus pais. Alguém que absolutamente não cresse na

viabilidade de algum tipo de estrutura familiar provavelmente não teria feito tal

41 MCNALLY, Terrence. (b) op. cit. pp. 8-9.

42 Id. p. 17.

43 Ibid. p. 19.

33

dedicatória, a não ser que isso tenha sido uma ironia apenas entendida por seus

progenitores – e que, portanto, escapa totalmente às minhas possibilidades de discussão.

Minha conclusão – a qual detalharei mais adiante – é que, subjacente à desconstrução da

estrutura familiar apresentada no palco e que tanto chocou público e crítica palpita, uma

espécie de nostalgia por uma família organizada precisamente nos moldes tradicionais.

Defenderei a idéia de que esse anseio por uma estrutura familiar idealmente construída a

partir da noção de família nuclear patriarcal burguesa não apenas implode parte do

potencial subversivo que a peça contém, mas também é sinal da própria contradição

social que McNally tinha nas mãos para simbolicamente resolver.

Como já foi dito, ao entrar na sala, Fa desliga o intercom, através do qual

ouvíamos o monólogo de Ruby, sem se dar ao trabalho de tranquilizar a esposa

amedrontada com a suposta solidão. As indicações cênicas nos levam a supor que a

platéia não verá o rosto de Fa em momento algum, uma vez que este não o tira de detrás

do jornal que lê e ao sentar-se em uma poltrona o faz de costas para o público. O tema

da ausência do pai – com a conseqüência que representará para o próprio resultado da

peça, como veremos mais tarde - é, desse modo, eficazmente traduzido em forma pelo

dramaturgo.

Ele lê as notícias do jornal em voz alta:

FA: (...) Quinze mil mortos em... Nitanganyabba?... onde diabos quer que isso fique. Nós

tentamos retirar aqueles africanos de suas cabanas de palha. Dissemos para eles irem para um abrigo subterrâneo. Mas você acha que eles ouviriam o Tio Sam? Nem mortos! Quinze mil... assim! (...) E mais doze mil em Nova Delhi. Ao menos sabemos onde fico isso! Sempre tiveram um governo estável... aqueles indianos. Parece que um tumulto começou durante uma passeata de protesto... agitadores comunistas, diz o jornal, e eu não duvido... provavelmente estudantes... essa juventude!... todos os doze mil pisoteados ata a morte. Sabe, você deveria se interessar mais pelo noticiário internacional, Grandfa. É fascinante o que acontece nos dias de hoje. (...) Eles provavelmente jogarão os corpos naquele rio sagrado que têm por lá... como é mesmo o nome?... o Granja!... daí, eles simplesmente flutuarão até o mar. Diabos, é mais barato do que abrir todas aquelas covas, não é? Além do mais, não dá para ser muito mais

subdesenvolvidos do que aqueles indianos já são, né?44

44 Ibid. pp. 3-4.

34

Esse trecho nos dá a exata dimensão do momento histórico em que o mundo

ocidental capitalista encontrava-se no momento de produção da obra. Já se vivia na

chamada sociedade do espetáculo, que seria descrita na seminal obra de Guy Debord,

poucos anos depois 45 e por Fredric Jameson em vários textos ainda depois do pensador

francês. Um mundo que “crescera” assustadoramente, fazendo com que os indivíduos já

não mais tivessem noção exata de por que as coisas ocorriam do modo como ocorriam.

Um mundo onde as causas dos acontecimentos perdiam-se nas brumas da incerteza. Já

se vivia na sociedade da informação. Fa tem em suas mãos informações sobre o mundo

todo, porém sequer sabe onde estão localizados os eventos espetaculares – que se

transformam praticamente em entretenimento macabro - sobre os quais lê. Além disso,

tais informações vêm totalmente descontextualizadas de suas especificidades locais e

têm a profundidade de um pires, aumentando ainda mais a alienação de quem as lê, por

tornarem os receptores inteiramente dependentes das fontes divulgadoras dessas

informações e desenvolverem neles a falsa consciência de que agora são cidadãos “bem

informados”.

Para o contexto local dos EUA nos anos cinqüenta/sessenta, que logicamente

contribuirá para o destrinchamento da peça, o trecho contém dados importantes que

merecem ser salientados e comentados mais detidamente, juntamente com outros que

citarei mais abaixo. Neste trecho há referências a três coisas conseqüentes para a

urdidura da peça. As mortes na África levam-nos a compreender que a tal coisa não

mata só no local onde a família se encontra: os EUA. Não houve intenção por parte do

autor de criar um local espacial e temporalmente desconectado do seu país de origem.

McNally está falando explicitamente sobre os EUA a partir do próprio solo norte-

americano. A própria menção ao Tio Sam não deixa dúvidas quanto a isso. Aliás,

quando Fa menciona a tentativa de evacuação da população africana para abrigos

subterrâneos, ele usa a primeira pessoa do plural, sinal de que realmente funciona a

ideologia de que a população e o Estado são uma única coisa e têm os mesmos

interesses. O fato de a coisa estar atuando em outros locais do globo e os EUA terem

tentando “auxiliar” aquelas pessoas remete imediatamente à idéia do Destino Manifesto,

segundo a qual os EUA têm a função heróica – divinamente outorgada – de ser a nação

que zelará pela paz, segurança e bem-estar do “mundo livre”.

45 DEBORD, Guy. La société du spectacle. Collection Folio. Paris: Gallinnard, 1992.

35

Esse mundo, àquela altura, encontrava-se ameaçado pelo comunismo, pelo

menos sob a conveniente ótica alarmista dos governos ocidentais, mormente o norte-

americano. Daí a importância da menção de que o tumulto na Índia talvez tenha sido

causado por agitadores vermelhos. Na época, a imprensa não hesitava em atribuir

qualquer desvio da norma à influência dos comunistas. McNally não faz questão de

esconder as farpas que lança. Os comentários de Fa sobre a Índia dificilmente poderiam

atrair a simpatia de alguém que não fosse muito conservador. Desse modo, a menção

aos supostos agitadores comunistas pode acabar por ser recebida com certo sabor de

escárnio.

O terceiro elemento importante neste trecho é a ligação que Fa faz entre os

agitadores comunistas e os estudantes. À época de produção da peça os estudantes já

haviam começado a sair às ruas para protestar contra a Guerra do Vietnã e em prol do

movimentos pelos direitos civis. Porque esses jovens eram percebidos como perigosos

para a ordem vigente, não admira a ligação deles com os comunistas na cabeça de Fa.

Logo em seguida, outro trecho do jornal seguido de um pequeno diálogo com

Grandfa não apenas reforça algumas das idéias que apresentei até agora, mas também

nos possibilita uma tentativa de interpretação – ainda que provisória em nosso caso -

para a mortífera e assustadora coisa:

FA: Escute isso. “um indubitável movimento em direção ao oeste em sua –“ e então, entre

parênteses escreveram “O Horror, sic” O Horror! Olha, é um bom nome para a coisa... o Horror!...

vejamos agora... ah, sim... “movimento em direção ao oeste em sua rota é claramente discernível”, afirmou a repórteres de Washington hoje um porta-voz de alto escalão do Governo, o qual preferiu não revelar sua identidade. Oh! acrescentou o porta-voz anônimo.”

(...)

FA: (...) Para que lado fica o oeste?

GRANDFA: Nós somos o oeste.

FA: Você tem certeza?

GRANDFA: Nós somos o oeste... Grande vantagem!

FA: (sem expressão.) Oh.46

46 MCNALLY, Terrence. (b) op. cit. pp. 4-5.

36

Em vários momentos da peça, das profundezas de seu torpor soporífero, Fa

repete “Está se movendo para o oeste”, numa delas, inclusive, aos gritos. Essa ênfase no

movimento da coisa só nos pode levar a concluir que é uma espécie de leitmotiv da

peça. Ora, a URSS comunista localizava-se a leste dos EUA e um possível avanço dos

regimes “vermelhos” preocupava sobremaneira o governo norte-americano. Uma vez

que o comunismo havia sido há pouco mencionado por Fa, parece-me razoável supor

que a essa altura da peça uma possível leitura para definir a coisa seja precisamente o

“perigo” do comunismo soviético movimentando-se para o oeste, talvez materializado

na figura de um ataque radioativo que matava incessantemente. Não podemos esquecer

que os anos cinqüenta e início dos sessenta foram períodos férteis para a produção de

filmes, séries de TV, livros e histórias em quadrinhos nas quais monstros alienígenas ou

mutantes criados devido a descargas nucleares atacavam o solo norte-americano numa

clara alusão ao perigo representado pelas forças soviéticas. Como vimos, o próprio

governo estadunidense incentivava o medo através de um bombardeio de alertas sobre o

perigo que vinha de fora, e grande parte da população acreditava nele. No meio da feroz

discussão entre Lakme e Ruby devido ao fato de a porta da casa estar destrancada, a

menina questiona a mãe a respeito de como ter certeza de que a coisa não atacará

também à noite, depois do toque de recolher. Ruby esboça uma resposta: “Porque o

governo –47“, a qual é bruscamente cortada pela filha, que questiona a acuidade do

conhecimento do governo sobre a coisa. Pelo tom do diálogo, parece correto assumir

que Ruby iria usar o argumento de que o governo havia lhes informado que a coisa só

ataca no período noturno. Esse fato apresenta, assim, total paralelismo com os fatos que

ocorriam na vida de milhões de pessoas nos EUA durante a Guerra Fria.

Para superarem o tédio e dissiparem o perigo de se matarem uns aos outros,

Ruby, Sigfrid e Lakme recebem hóspedes todas as noites e submetem-nos a cruéis jogos

de humilhação. Hóspedes que são tratados - inclusive lingüisticamente - como “caça”,

uma vez que são chamados de game algumas vezes. A semelhança com a Virginia

Woolf, de Albee, é explícita: basta que nos lembremos de que no segundo ato desta peça

- aliás, intitulado Fun and Games - George propõe um jogo chamado “Get the Guests”,

especialmente montado para humilhar Nick e Honey48 .

47 Id. pp. 22-3.

48 ALBEE, Edward. The complete plays of Edward Albee: volume 1 1958-65. Woodstock/New

York/London: Overlook Duckworth, 2004. p. 249.

37

A noite que McNally escolheu para nos mostrar será diferente daquela na qual

George e Martha atormentam Nick e Honey, assim como também diferirá das noites

anteriormente vividas pelos membros da família e pelas “caças” em And Things that Go

Bump in the Night. Tal qual ocorrera na peça de Albee, após o festival de humilhações

os hóspedes da família de Ruby saíam da casa para seguirem suas vidas. A noite em que

se passa a peça de McNally irá além disso:

RUBY: Há apenas um problema, Sigfrid... apenas um. Eles sempre passam a noite aqui. Eles

jamais vão embora. Sempre ficam.

VOZ DE SIGFRID : Eu sei.

RUBY: Eles jamais vão para fora.

(...)

RUBY: Por que, Sigfrid? Por que nós os deixamos ficar a noite toda?

VOZ DE SIGFRID: Você sempre disse...

(...)

VOZ DE SIGFRID: ... Para não irmos longe demais.

RUBY: Eu disse isso?

VOZ DE SIGFRID: Nós temos um acordo a respeito disso. Nós três.

RUBY: Entendo. (Pausa.)

VOZ DE SIGFRID: Ruby?

RUBY: Sim?

VOZ DE SIGFRID: Em que você está pensando?

RUBY: Que poderíamos.

VOZ DE SIGFRID: Tentar?

RUBY: Sim.

VOZ DE SIGFRID: Não sei.

RUBY: É uma possibilidade.

VOZ DE SIGFRID: Sim.

RUBY: Desse modo, nós saberíamos. De uma vez por todas, saberíamos.

VOZ DE SIGFRID: Sim.

RUBY: Serviria a algum... propósito.

38

VOZ DE SIGFRID: Sim.

RUBY: Clarence (Pausa.)

VOZ DE SIGFRID: Veremos, Ruby. Veremos. (...)49

Como já havíamos sido informados de que é proibido andar pelas ruas depois

que escurece, e, além disso, a coisa só ataca nesse período, o fato de Ruby cogitar que o

hóspede daquela noite seja forçado a sair da casa significa que planeja levá-lo à morte.

Uma morte com tons de sacrifício, uma vez que Ruby deseja imolar o hóspede a fim de

descobrir o que é a “coisa lá fora” que os aterroriza tanto. O jogo da noite em que

transcorre a ação da peça, portanto, será distinto de todos os demais até então

perpetrados.

Uma vez transcrito o trecho que demonstra clarissimamente que a noite em

questão será uma noite em particular e não mais uma na vida daquelas personagens,

creio que seja momento apropriado para dirimir um crasso erro de interpretação

encontrado em um dos raros textos escritos a respeito desta obra de McNally. Em ensaio

que versa sobre as primeiras peças do dramaturgo, Howard Stein afirma que “[t]oda

noite a família oferece uma vítima ao “Bom Deus”, a qual é sacrificialmente

eletrocutada na cerca que protege o refúgio subterrâneo50”. Além do fato de tal

afirmação mostrar total falta de atenção ao texto – em tempo, cumpre alertar o leitor de

que em momento algum a família alude a um “Bom Deus”! -, ela oblitera um fato muito

importante para o entendimento a respeito de a qual tradição dramatúrgica pertence And

Things that Go Bump in the Night. A despeito dos vários elementos provenientes das

convenções Expressionistas e do Teatro do Absurdo, presentes na obra, a singularização

de um evento na vida das personagens a trará muito mais perto da convenção do teatro

realista do que poderia se supor à primeira vista. Tratarei disto mais adiante, quando

tivermos mais elementos dessas duas convenções que nos permitam um melhor

entendimento da afirmação que fiz. .

A “caça” escolhida para a noite é Clarence, o qual estudara com Sigfrid na sexta

série. O reencontro dos dois – narrado pelas personagens - se dá durante o dia em um

parque onde Sigfrid jogava bola com a irmã Lakme e Clarence passava em uma marcha

49 MCNALLY, Terrence. (b) op. cit. p. 26.

50 STEIN, Howard. The early plays of Terrence McNally. In. ZINMAN, Toby Silverman. op. cit. p. 21.

39

de protesto. Depois de alguma relutância, Clarence aceita ir à casa de Sigfrid. Mesmo

antes de o jovem ativista lá chegar, os insultos a ele começam, com Lakme comentando,

ora com o irmão, ora com Ruby o quão repulsivo achara o corpo de Clarence.

Sigfrid convenceu Clarence a visitá-lo, utilizando-se de sua beleza física para

atraí-lo sexualmente. Clarence relutou em aceitar o convite devido ao receio de se

envolver sexualmente com outro homem. Transgredir as convenções de gênero,

segundo o próprio Clarence, poderia prejudicar até mesmo sua atividade com o

“Movimento” do qual faz parte A natureza do Movimento nunca é explicada, mas

sabemos ser uma luta contra a coisa.

CLARENCE: Olha eu dando má reputação ao Movimento! Nós faremos um enorme protesto

pela manhã e eu sou secretário de esquadrão. Eu vou comandar um pelotão inteiro. A última coisa de que precisamos numa hora dessas é um secretário de esquadrão de vestido! Nós já temos oposição suficiente sem isso.51

Isso realmente poderia prejudicar Clarence, afinal de contas, “vivemos em uma

sociedade heterossexual52”, como afirmara Sigfrid. Nesta sociedade heterossexual, em

meados dos anos sessenta, a revelação da homossexualidade de alguém muito

provavelmente resultaria em sua destruição.

Foi o que ocorreu com o mais alto assessor de Lyndon Johnson, em outubro de

1964. A menos de três semanas das eleições presidenciais – as quais Johnson disputaria

– Walter Jenkins foi preso por cometer “gestos indecentes” em um banheiro no subsolo

da Associação Cristã de Moços em Washington, a cerca de duas quadras de seu

escritório na Casa Branca. O incidente teve vasta repercussão nacional e internacional,

gerando incontáveis pautas em todas as formas de mídia e literalmente destruiu a

carreira do homem de meia-idade.53 O fato de os tais “gestos indecentes” terem sido

cometidos com um homem nascido na Hungria – país que então se encontrava na esfera

soviética - atiçou ainda mais a fogueira da intolerância. Nos EUA, onde o macartismo

ainda era mais do que uma sombra, atos homossexuais eram considerados atividades

51 MCNALLY, Terrence. (b) op. cit. pp. 35-6.

52 Id. p.29.

53 EDELMAN, Lee. Tearooms and sympathy, or the epistemology of the water closet. In ABELOVE, Henry et al. (editors) The lesbian and gay studies reader. New York: Routledge, 1993. pp. 553-74.

40

anti-americanas, não apenas porque eram percebidos como anti-naturais e nocivos ao

país, mas também porque foram, em certa medida, percebidos como uma importação,

como um mal que viera do estrangeiro.

Em 1933, um certo Dr. La Forest Potter, em livro intitulado Strange Loves: A

Study in Sexual Abnormalities referia-se de forma nostálgica e idealizada ao período

anterior à Primeira Guerra nos EUA:

Antes da Guerra, costumávamos considerar a homossexualidade algo mais ou menos importado.

Nós nos considerávamos verdadeiros expoentes das tradições sãs e inabaláveis de nossos ancestrais pioneiros. Todos aqueles afortunados estrangeiros aos quais foi permitida a entrada em nossas terras estavam - ou assim pensávamos - imbuídos de nossa simplicidade prática. A mácula do desejo anormal –

assumindo que eles podiam estar assim contaminados quando aportaram neste país – imiscuiu-se no melting pot de nossas viris características masculinas ou desejável feminilidade.54

A Segunda Guerra também provocou mudanças drásticas que são de

importância para o entendimento da questão gay. Novamente, ocorreu outro contato

maciço com estrangeiros – acirrando a idéia do homossexualismo como prática anti-

americana posto que, vez mais, foi em grande parte atribuído à “degeneração” de povos

de além-mar. Além disso, o já citado rearranjo populacional que se processou devido à

necessidade de mão-de-obra nos grandes centros urbanos e que levou milhões às

grandes cidades também deve ser levado em conta. Boa parte desse contingente

populacional era gay. Sendo assim, estava facilitado o modo para que se descobrissem

uns aos outros e começassem a se integrar, aliviando o poderoso sentimento de

isolamento que era tão comum entre gays e lésbicas em cidades pequenas da época pré-

liberação. Em contrapartida, tornava-se cada vez mais fácil detectar os elementos

socialmente “desviantes”. Essa concentração e maior facilidade de constatação de uma

presença indesejada geraram a idéia de que os gays estavam aumentando em

quantidade. Em 1948, o Dr. Alfred C. Kinsey publicou o influente Sexual Behavior in

the Human Male, popularmente conhecido como The Kinsey Report, obra considerada

por muitos como aquela que fez com que a homossexualidade penetrasse de vez na

consciência da população norte-americana. Para alarme dos heterossexuais

54 POTTER, La Forest. Strange loves: a study on sexual abnormalities. New York: Padell, 1933. pp. 4-5.apud FONE, Byrne. Homophobia: a history. New York: Picador, 2000. p. 386.

41

homofóbicos, Kinsey afirmou que 37% da população masculina do país se engajava em

algum tipo de atividade homossexual entre a adolescência e a velhice e também que a

faixa de população que era exclusivamente homossexual girava entre quatro e dez por

cento. Além disso, desmentia a idéia da homossexualidade como algo importado, ao

afirmar que fazia parte do próprio tecido social da nação55. A reação ao Relatório

Kinsey foi incendiária: praticamente todos os grandes órgãos da imprensa publicaram

matérias onde o homossexualismo era execrado. A revista Newsweek, por exemplo, em

1949, publicou artigo no qual o jornalista afirmava que “uma atitude mais rígida deve

ser adotada se quisermos que o degenerado seja adequadamente tratado e curado. O

pervertido sexual não deve ser tratado com lenidade, mas sim como uma virulenta

espécie de criminoso56”. Temia-se que os gays estivessem se infiltrando em todos os

escalões da sociedade, colocando-a em risco. Alguma medida deveria ser tomada para

conter esse “avanço”.

Muito se fala na caça aos comunistas promovida pela macartismo57. Acontece,

porém, que os gays e lésbicas também foram alvo de feroz perseguição. Como o foco de

meu trabalho incide prioritariamente na questão gay, é a perseguição a este grupo que

discutirei. Não duvido que algumas sobrancelhas se ericem frente ao “sacrilégio” de não

falar diretamente sobre a caça aos comunistas. Entretanto, além de já se ter escrito

bastante sobre o assunto58, a perseguição aos gays está intimamente ligada àquela

engendrada contra os comunistas. Sendo assim, o não incidir do holofote sobre a

perseguição aos vermelhos é apenas ilusório.

Desde muito cedo, no período macartista, os gays foram eleitos como alvos de

atroz perseguição, a qual foi largamente patrocinada e incentivada pelo próprio governo

dos Estados Unidos. Em dezembro de 1950 o Senado publicou um relatório intitulado

55 FONE, Byrne. op. cit. p. 389.

56 Id. p. 390.

57A rigor, a perseguição aos comunistas já datava de pelo menos desde o início do século, podendo-se considerar como momentos de pico os anos dez, trinta e cinqüenta.

58 Embora eu reconheça que nunca é demais relembrar tais fatos a fim de que não sejam

convenientemente esquecidos, ocorre que já me deparei com diversos brasileiros que sequer cogitavam que os gays e lésbicas tivessem sido perseguidos pelo macartismo. Isso certamente acontece porque é sempre sobre os comunistas que recai a ênfase da perseguição. Assim, se não quero que a história da perseguição aos comunistas seja esquecida, nada mais justo do que não desejar que a dos gays e lésbicas também o seja.

42

Employment of Homosexuals and Other Sex Perverts in the U.S. Government59. Um

sub-comitê havia sido criado para realizar a tarefa - até então sem precedentes - de

conduzir uma investigação minuciosa a respeito do emprego de homossexuais e outros

“pervertidos” sexuais nos principais setores do governo estadunidense. Os objetivos da

investigação foram 1) determinar a extensão da presença de “pervertidos” em cargos

governamentais, 2) aventar razões que explicassem por que era indesejável que fossem

empregados pelo governo e 3) estudar a eficácia dos métodos utilizados para lidar com

o ”problema”.

O modo de lidar com o “problema” consistia em proibir a admissão de

“pervertidos” em cargos do governo e remover aqueles que fossem identificados como

indesejáveis. O relatório indica que o expurgo de “pervertidos” vinha sendo praticado

pelo menos desde 1947, mas a incidência de demissões por motivo de conduta

“escandalosa” aumentou dramaticamente no ano de 1950. Entre primeiro de janeiro de

1947 e primeiro de abril de 1950, 192 funcionários foram demitidos devido ao seu

comportamento sexual, ao passo que em apenas sete meses em 1950 – após primeiro de

abril, portanto – a mesma medida foi tomada contra 382 outros funcionários.

Candidatos a empregos públicos que possuíssem passagem pela polícia por prática

sexual “pervertida” não conseguiam emprego: entre primeiro de janeiro de 1947 e

primeiro de agosto de 1950, aproximadamente 1.700 candidatos a empregos federais

foram rejeitados tendo por base sua conduta sexual.

A alegação para a não contratação ou demissão de homossexuais era o fato de

serem percebidos como risco à segurança nacional. Primeiramente porque poderiam

aliciar os demais funcionários públicos, especialmente os mais jovens, para que se

engajassem em suas práticas “anti-naturais”. Segundo, e mais importante, porque

podiam ser vítimas de chantagem praticada por espiões internacionais, i.e., espiões de

governos comunistas, que usariam a ameaça de revelar suas secretas vidas sexuais a fim

de obterem informações que comprometeriam a segurança nacional. Um congressista

chamado A. L. Miller, por exemplo, afirmava que os espiões estrangeiros recebiam um

curso sobre homossexualidade e aprendiam como se infiltrar em círculos homossexuais.

59 BLASIUS, Mark and PHELAN, Shane. (eds.) We are everywhere: a historical sourcebook of gay and lesbian politics. New York and London: Routledge, 1997, pp.241-51.

43

Antes, porém, que o relatório do Senado fosse redigido, a ligação entre

comunismo e homossexualidade já começara a ser alardeada pela imprensa, atingindo,

conseqüentemente, milhões de pessoas. A duvidosa honra de ter sido o veículo

deflagrador dessa maciça onda homofóbica em meio à população coube ao New York

Times. Em matéria sobre uma investigação governamental a respeito do número de

servidores que haviam se exonerado por estarem sendo objeto de investigação, suspeitos

de serem riscos à segurança, o jornal não deixou de noticiar que alguns eram

homossexuais. E em abril, o diário publicou uma declaração do presidente do Comitê

Republicano Nacional, Guy George Gabrielson, afirmando que “os pervertidos sexuais

que têm se infiltrado em nosso governo nos últimos anos, são talvez tão perigosos como

os reais comunistas60.” Algumas semanas após a publicação dessa matéria, o senador

Joseph McCarthy, encabeçando a comissão que investigava a presença de comunistas

no governo, afirmou que no Departamento de Estado havia um funcionário

explicitamente homossexual, o qual constituía-se, portanto, em alvo fácil para

chantagistas61. Estava iniciada, no imaginário coletivo, a associação entre homossexuais

e comunistas como perigos máximos à nação americana. O período áureo do expurgo de

funcionários governamentais suspeitos durou de 1950 a 1955, deixando um saldo de

mais de 8.000 pessoas removidas de seus cargos62. Desse total, mais de seiscentos

foram culpados – muitas vezes, de modo fabricado – por “perversão sexual”.

No caso dos militares, a perseguição e eliminação de homossexuais de seus

quadros começaram a se tornar prática sistemática em dezembro de 1949. A partir

daquela data foram estabelecidas normas e regulamentos que definiam como os casos de

homossexualismo deveriam ser descobertos e tratados pelas Forças Armadas. A

magnitude do clima de histeria anti-homossexual pode ser percebida pelo depoimento

de A. Damien Martin, homossexual que se alistou na Força Aérea em 1951:

60 FONE, Byrne. op. cit. pp. 390-1.

61 Sobre o próprio senador McCarthy circulavam rumores a respeito de atividades homossexuais. Tais rumores não vieram a público, porém, antes de 1974.

62 Digo que o período áureo terminou porque de modo algum gays e lésbicas obtiveram garantia de

manutenção de seus empregos após o fim oficial do macartismo. Em 1958, por exemplo, um senador da Flórida conseguiu que dezesseis professores e funcionários fossem demitidos de uma universidade em Gainesville além de determinar a impressão por parte de um órgão estadual – usando verbas públicas, por conseguinte – de panfletos que tinham como objetivo alertar as crianças sobre os “perigos da

homossexualidade, presentes em todas as instituições de ensino” . ADAM, Barry. D. Op. Cit.p 59.

44

Há que se compreender que eu estava no meio de um dos piores expurgos anti-gay que a Força

Aérea jamais conheceu. Lembro-me de que no início dos anos cinqüenta, na base aérea de Kessler em Biloxi, Mississippi, houve um expurgo durante o qual as pessoas cometiam suicídio. A Força Aérea finalmente teve que parar porque pessoas delatavam outras apenas para se vingarem de uma coisa ou de outra. É um tanto difícil de compreender a mentalidade daquela época.63

Muito embora o período de perseguição aberta e ostensiva aos gays por parte de

agências do governo tenha arrefecido por volta de 1955, a ligação entre

homossexualidade e perigo à segurança nacional continuou em efeito durante muito

tempo. Na década de sessenta – e não esqueçamos que And Things that Go Bump in the

Night é de meados daquela década – 82% dos homens e 58% das mulheres ainda

acreditavam que apenas os comunistas e os ateus eram mais perigosos do que os

homossexuais. 64 Por esse motivo não surpreende um editorial do New York Times a respeito do caso envolvendo o assessor de Lyndon Johnson. Depois de recomendar

piedade para com os homossexuais – expressando a visão “liberal” do jornal -, o

jornalista Walter Kroxk segue uma linha argumentativa que não diferia em nada daquela

do período de apogeu do macartismo:

Mas seria irresponsável se o povo americano não se sentisse inquieto perante o fato de que um assessor do governo, que tem acesso às operações mais secretas envolvendo a segurança nacional, esteja entre esses infelizes que são mais facilmente alvos de chantagem, através da qual segredos de segurança são obtidos por agentes inimigos65.

Krock continua o artigo dizendo que, devido ao fato de o homossexualismo, na

época, ser cada vez mais entendido como uma doença emocional e um perigo à

segurança nacional, “não pode haver lugar entre os funcionários da Casa Branca ou

63 MARCUS, Eric. Making gay history: the half-century fight for lesbian and gay equal rights. New York: Perennial, 2002. p. 27. A “mentalidade daquela época” permaneceu existindo por muitas décadas ainda. Margaret Cruksahnk comenta sobre implacáveis processos de caça a gays e lésbicas nas Forcas Armadas em períodos tão recentes quanto 1989-91. Ver CRUKSHANK, Margaret. The gay and lesbian liberation movement. New York: Routledge, 1992. pp. 11-4.

64 FONE. Byrne. op. cit.406.

65 EDELMAN, Lee. In ABELOVE, Henry et al. (editors ) op. cit. p. 554.

45

nos altos escalões do governo, para uma pessoa de comportamento acintosamente

desviante66”.

Hoje em dia, apenas os ultra-conservadores ainda acreditam na ligação entre

homossexualidade e perigo à segurança nacional. No dia seguinte ao atentado ao World

Trade Center, o notório fundamentalista religioso de extrema direita, Jerry Falwell,

declarou à imprensa norte-americana que parte da responsabilidade pelos atentados era

dos gays, pois estes haviam deixado a nação americana “moralmente vulnerável e fraca”

a ataques estrangeiros que expressavam a “ira divina67”. É prática milenar atribuir a

culpa por calamidades de todo tipo àqueles que se engajam em comportamento

homoerótico. O que chocou no macartismo é que tal atribuição de culpa tenha sido

perpetrada por uma nação que sempre se quis democrática.

Diante de todo esse clima de pânico perante o “inimigo” homossexual e/ou

comunista entende-se perfeitamente por que Clarence preocupava-se com que sua

homossexualidade pudesse ser descoberta. Não apenas porque isso poderia depor contra

o “Movimento” em termos de reação da opinião pública, que é o que se pode inferir

pelas palavras do jovem, mas também porque poderia sofrer rejeição dentro do próprio

“Movimento”. Havia enorme resistência e preconceito contra os gays no Partido

Comunista, por exemplo68. A certeza de Clarence de que a subversão dos gêneros

poderia comprometer o “Movimento” antecedeu em alguns anos o que foi relatado por

Guy Hocquenghen, ativista gay francês que participou da invasão da Sorbonne em maio

de 68:

O comitê de ocupação da Sorbonne inquietava-se com a presença dos homossexuais em volta

dos mictórios. Isto poderia “desconsiderar” o movimento. No momento em que nos acreditávamos no ápice da liberação de todas as possibilidades, havia ainda aspectos de nossa vida que não era possível fazer aparecer.69

66 Id. p. 554.

67 O comentário de Falwell causou, porém, indignação até mesmo entre outros fundamentalistas, que o criticaram duramente. A indignação por parte da sociedade norte-americana foi tanta que Falwell viu-se obrigado a retratar-se publicamente.

68 MARCUS, Eric. op. cit. p.137.

69 HOCQUENGHEM, Guy. A contestação homosexual. Traduçao Carlos Eugênio Marcondes de Moura São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 30.

46

Em contrapartida, dentro do incipiente movimento homófilo70 dos anos

cinqüenta houve expurgo de membros que tivessem ligação com o Partido Comunista

em uma tentativa – hoje percebida como ingênua – de fazer com que essas organizações

não fossem vistas com maus olhos pelo FBI.71

Ora, se os gays representavam perigo para a segurança da sociedade norte-

americana e até mesmo para os movimentos ditos “progressistas”, fazia-se necessário

identificá-los, revelar-lhes a identidade a fim de que fossem tratados em clínicas

psiquiátricas, demitidos de seus empregos, despejados de suas casas, alienados de seu

círculo de amizades. Enfim, era necessário trazer o “inimigo” homossexual às claras.

Afinal, foi para isso que o expurgo patrocinado pelo governo aconteceu. Nesse processo

de identificação dos gays os estereótipos representaram papel assaz importante:

constituíam-se em receituário que deveria ser consultado a fim de identificar e

comprovar a suposta homossexualidade de alguém.

Etimologicamente, o termo estereótipo é composto por duas palavras gregas:

stereos (rígido) e túpos (traço). No século XIX, os psiquiatras utilizavam o termo

“estereotipia” para descrever repetições mecânicas e freqüentes do mesmo gesto,

postura ou fala. Parece, porém, que a palavra de origem francesa stéréotype “origina-se do jargão tipográfico, referindo-se a um molde metálico utilizado nas oficinas

tipográficas, que se destacava pela possibilidade de produzir uma mesma impressão

milhares de vezes, sem precisar ser substituído72”. Constata-se até agora a idéia de

repetição e rigidez contida nas acepções do termo até aqui expostas. É preciso, contudo,

estabelecer um conceito acadêmico do termo para que possamos estabelecer algumas

bases teórico-conceituais para a discussão do tema:

Estereótipos são representações sociais: são estruturas afetivas e cognitivas reificadas

a respeito de grupos sociais, as quais são largamente compartilhadas dentro da sociedade. Estereótipos emergem e proliferam dentro de um determinado contexto político-social de um dado momento histórico.

Eles não existem aleatoriamente na cabeça dos indivíduos. São social e discursivamente construídos ao 70 Durante os anos cinqüenta e parte dos sessenta, as então nascentes organizações gays relutavam em utilizar a palavra homossexual. Essa recusa jazia no fato de que pretendiam sugerir o mínimo possível de conotação sexual ao movimento.

71 MARCUS, Eric. op. cit. pp.44-5.

72 PEREIRA, Marcos Emanoel. Psicologia social dos estereótipos. São Paulo: E.P.U., 2002, p.43.

47

longo da comunicação cotidiana e, uma vez objetificados, tornam-se uma realidade independente e por vezes prescritiva73.

Hoje, quando tanto se discute a questão da alteridade em um planeta que

se quer globalizado, parece-me assaz importante que nos detenhamos, ainda que muito

brevemente, no fenômeno da estereotipação porquanto provoca cisão entre grupos.

Reforça – ou tenta preservar – a fronteira entre “nós” e “eles” em um mundo que insiste

em apontar para a idéia de que as fronteiras estão se dissolvendo.

No processo de estereotipação, os membros de um grupo investem os

membros de outros de uma série de características que estabelecem posições por vezes

de radical alteridade. Chamemos o grupo investidor de endogrupo e o grupo investido

das características de exogrupo. Ao proceder a essa investidura de características o

exogrupo passa a ser percebido da mesma forma; as individualidades são dissolvidas e

passa-se a imaginar todos os membros do exogrupo igualmente, donos de traços

imanentes, inerentes à própria condição de ser. É como se passasse a haver uma

essência, ativada desde o nascimento e que se perpetua por toda a vida, apenas e tão

somente pelo fato de o individuo ser filiado ao grupo. Ao promover essa diferenciação

entre grupos e essa essencialização dos indivíduos pertencentes a cada um deles, a

estereotipação atinge um paradoxo. Ela salienta a alteridade do exogrupo em relação ao

endogrupo, ao mesmo tempo em que a anula entre os membros do exogrupo.

Essa homogeneização do exogrupo tem como função cognitiva facilitar e

dinamizar a percepção de seus membros. Ao se pensar em um francês, por exemplo,

pensa-se em um bom cozinheiro; um italiano, em alguém que fala alto e é animado.

Dito desse modo, o fenômeno parece mais inócuo do que na realidade é. É verdade que

nem todos os estereótipos são negativos (embora para alguém em dieta, ser bom

cozinheiro talvez o seja!), entretanto estudos apontam para o fato de que diagnósticos

negativos são mais marcantes do que os positivos74. Que os franceses são mal educados

com turistas estrangeiros é bem mais lembrado do que o estereótipo de que são bons

cozinheiros. Claro está que, por serem criações historicamente definidas, dependentes

do contexto sócio-político, a ativação dos estereótipos depende muito do contexto em

73 AUGOUSTINOS, Martha & WALKER, Ian. Social cognition: an integrated introduction. London: Sage, 1995. p. 222.

74 HINTON, Perry. R. Stereotypes, cognition and culture. Philadelphia: Taylor and Francis Inc, 2000. p.

41.

48

que se encontram as pessoas. É muito provável que em um restaurante as pessoas

primeiramente se lembrem dos franceses como bons cozinheiros e só depois ativarão o

estereótipo da falta de polidez para com estrangeiros (isto se chegarem a fazê-lo).

Há, no entanto, um perigoso elemento subjacente na aparente inocuidade da

descrição da função cognitiva dos estereótipos. Essas explicações automáticas

proporcionadas por eles acabam por reforçar a manutenção do status quo, encobrindo,

por vezes, as causas reais de determinados problemas. Quando se diz que os baianos são

preguiçosos, tem-se uma desculpa perfeita para justificar a pobreza na qual se encontra

parte da população baiana. Por esse motivo, é preciso investigar a quem interessa que

tais estereótipos sejam perpetuados, uma vez que, se os mesmos são criações sociais,

também devemos sempre ter em mente que os diversos grupos que compõem o tecido

social estão em perene luta por status e poder. Sendo assim, por naturalizarem situações

por vezes opressoras, os estereótipos podem servir para que determinados grupos levem

sempre vantagem nesta luta que não cessa. Deste modo, sem uma abordagem

dialetizante pode-se incorrer no erro de acreditar que os estereótipos são neutros.

Precisamente por serem construções sociais, os estereótipos são transmitidos

culturalmente, primeiro na família, depois na escola e demais grupos sociais aos quais o

indivíduo vai se agregando. Quem, por exemplo, não presenciou cenas ou ouviu falar de

histórias em que pais ensinam as crianças que meninos não choram ou que determinada

coisa é “de menina” ou “de menino”? A despeito do que podem fazer crer os próprios

estereótipos, nenhum grupo é homogêneo; destarte, a transmissão e a absorção deles

logicamente não se processarão de modo homogêneo. Pessoas diferentes poderão

perceber os estereótipos de modos distintos. Os estereótipos que podem fazer sentido ou

definir um grupo para alguns não necessariamente o farão para outros.

Poderoso meio de disseminação de estereótipos no mundo contemporâneo é a

mídia, que, em suas diferentes modalidades, está presente na vida das pessoas das mais

diversas classes sociais, exercendo um forte papel homogeneizador. Embora as pessoas

ainda tenham a capacidade de não aceitarem ou perceberem todos os estereótipos de

forma semelhante, é preciso considerar que o constante bombardeio de informações e

imagens estereotipadas às quais se tem acesso diuturnamente pode contribuir

efetivamente para a padronização na forma como os indivíduos se percebem uns aos

outros.

A própria historicidade dos estereótipos determina que seja extremamente difícil

eles serem dirimidos. Se a uma determinada altura da história algum estereótipo existe é

49

porque há alguma necessidade para que isso ocorra. Não equivale a dizer que sejam

louváveis, muito pelo contrário. Creio já ter ficado claro que os estereótipos sempre

atendem aos interesses de algum grupo. Essa necessidade pode ser, portanto – e no mais

das vezes o é - uma necessidade de dominação de um grupo sobre outro, caso que

parece infelizmente ser tão freqüente. Por exemplo, em uma sociedade que valoriza

tanto a razão, a assertividade, qual a implicação de as mulheres serem percebidas como

mais emotivas, “mais coração” do que os homens?

Já me referi acima ao fato de os estereótipos delimitarem as fronteiras entre

“nós” e “eles”. Como minha pesquisa é sobre os gays, acho importante que nos

detenhamos um momento para podermos refletir um pouco sobre a necessidade que se

pode ter em construir o gay como um indivíduo fácil e rapidamente identificável.

Em seu livro Estigma, Erving Goffman estabelece duas categorias de

estigmatizados: os desacreditados e os desacreditáveis. Os primeiros são aqueles

portadores de estigmas facilmente identificáveis, como os negros e certos deficientes

físicos. Os desacreditáveis são aqueles indivíduos que possuem características

socialmente indesejáveis que não podem ser detectadas facilmente por não se

apresentarem fisicamente explicitadas como nos desacreditados75. Gays enquadram-

se no segundo grupo descrito pelo sociólogo norte-americano. A não adequação aos

parâmetros de gênero impostos socialmente não traz por si só a possibilidade

imediata de identificação. Gays são invisíveis porque é impossível dizer que um

homem é homossexual apenas olhando-se para ele, a não ser que escolha agir de um

modo culturalmente definido que o identifique como tal, como no caso dos

efeminados. Mesmo assim, as aparências podem ser enganosas... Por esse motivo, a

necessidade de se estabelecerem fronteiras supostamente precisas entre gays e

heterossexuais nasce da necessidade de

tornar visível o invisível, a fim de que não haja perigo de ele infiltrar-se entre nós, os

inadvertidos; assim como tornar rápido, firme e separado aquilo que, na realidade, é fluido e muito mais próximo da norma do que o sistema dominante de valores pretende admitir76.

75 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. 3.ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980. 51-2.

76 DYER, Richard. The matter of images: essays on representation. London: Routledge, 2000. p. 16.

50

É também a necessidade histórica que determina que os estereótipos mudem.

Pode levar tempo, mas eventualmente ocorrem mudanças no modo como os grupos se

percebem. Vezes há em que as mudanças são relativamente rápidas, como no caso dos

estereótipos com relação aos nipônicos que, de seres frágeis e cordatos passaram a

monstros durante a Segunda Guerra Mundial, depois se tornaram industriosos e motivo

de admiração pela rapidez de sua recuperação econômica e, finalmente, voltaram a ser

representados como mafiosos, “coincidentemente”, quando seus produtos entraram em

franca competição com os norte-americanos, freqüentemente vencendo-os na batalha

por mercados77.

Infelizmente o contato com membros dos grupos diferentes não necessariamente

traz redução ou eliminação da percepção estereotipada com relação ao exogrupo. Pelo

contrário, pode trazer exacerbação no modo estereotipado como são vistos. Isso porque

os indivíduos que se diferenciam do estereótipo que se tem do exogrupo tendem a ser

percebidos como exceções à regra. Quem não se lembra dos “pretos de alma branca”,

por exemplo?! Existe a tendência de se criarem subtipos para encaixar aqueles

percebidos como desviantes do estereótipo. “Ele é homossexual, mas se dá o respeito!”,

diz o liberal... Desse modo, corre-se o risco de que os “que não têm alma branca” ou

“não se dêem o respeito” sejam percebidos mais negativamente ainda em virtude das

exceções serem percebidas como entes que “apesar” de serem negros ou gays podem ser

enxergados em um patamar superior, a saber, mais próximos do endogrupo. Não digo

“dentro” do endogrupo porque, à primeira ação que não corresponder plenamente às

expectativas, pode ocorrer o também comuníssimo “tinha que ser preto mesmo!” ou o

gay deixa de ser homossexual e passa a ser ”viado” na fala do liberal.

Assim, ainda que os estereótipos não sejam necessariamente negativos, podem

facilmente levar ao preconceito e a atitudes preconceituosas, e isso também não pode

deixar de ser levado em conta.

Para se ter uma noção do que ocorria àquela época e perceber a importância que

os estereótipos desempenhavam na detecção de supostos gays, vejamos o exemplo de

uma matéria publicada na revista Life, em junho de 1964. Tratou-se de um dossiê sobre

o “mundo secreto” da “Homosexuality in América78”. Afirma o artigo que, apesar de 77 As representações jamais são tão simples e sua história nunca tão linear como parece a partir de meu texto. Nem todos os orientais que aparecem nos filmes, por exemplo, são vilões. Isso, inclusive, vai sofrer variação devido à idade das personagens e até mesmo em relação ao número delas na trama ou cena.

78 EDELMAN, Lee. In ABELOVE, Henry et al. (editors ) op. cit. p.556.

51

noventa por cento dos homossexuais não serem imediatamente óbvios, isto é,

efeminados, eles são apenas “quase” impossíveis de serem identificados. A palavra

“quase” confere à homossexualidade um caráter indelével, impossível de ser escondido.

O autor, em seguida, oferecia aos leitores alguns indícios que deveriam ser procurados a

fim de se detectar quem era gay. Fatalmente, ele teve de fazer uso de estereótipos, como

por exemplo, vestirem-se bem ou com roupas vistosas, etc.

Esse, no entanto, não é o único exemplo que pode ser arrolado. Também no

teatro os temas e personagens homossexuais estavam ganhando cada vez mais

visibilidade: na Broadway de forma algo velada, mas já bastante explícita fora dela.

Desse modo, era necessário um receituário para alertar platéias incautas.

Na Broadway do começo dos anos sessenta havia, por um lado, alguns autores

gays como Tennessee Williams e William Inge, cujas peças pareciam já não

conseguir disfarçar tão perfeitamente seu conteúdo homoerótico. Por outro lado,

surgiam novos dramaturgos que levavam subtextos gays “mal disfarçados” aos

palcos. Dentre esses novos dramaturgos situavam-se Edward Albee e Terrence

McNally (neste caso, o autor sequer procurou disfarçar o conteúdo homoerótico).

Todos eles, quer fossem consagrados, quer fossem estreantes, passaram a ser alvo da

crítica conservadora - a maior parte da crítica jornalística. É de 1963, o “guia de

utilidade pública” (?!) escrito por Howard Taubman, então crítico do New York