O ciúme por Manuel Maria Barbosa du Bocage  - Versão HTML

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O Ciúme

Bocage

Agora, que ninguém vos interrompe,

Lágrimas tristes, inundai-me o rosto,

Mais do que nunca assim o quer meu Fado.

Enquanto o gume de mortal desgosto

Me não retalha os amargosos dias,

Debaixo destas árvores sombrias

Grite meu coração desesperado,

Meu coração cativo,

Que só tem nos seus ais seu lenitivo.

Alterosas, frutíferas palmeiras,

Vós, que na glória equivaleis aos louros,

Vós, que sois dos heróis mais cobiçadas

Que áureos diademas, que reais tesouros,

Escutai meus tormentos, meus queixumes,

Meus venerosos, infernais ciúmes,

Ouvi mil penas, por Amor forjadas,

Mil suspiros, mais tristes

Que todos esses, que até'qui me ouvistes.

Aqueles campos, aprazíveis campos,

Que além verdejam, de meu mal souberam

A desgraçada mas suave origem;

Ali de uns olhos os meus ais nasceram,

Ali de um meigo, encantador sorriso,

Que arremeda o sereno paraíso,

Brotaram mil infernos, que me afligem,

Que as entranhas me abrasam,

Que meus olhos de lágrimas arrasam;

Ali de uns lábios, onde as Graças brincam,

Ouvi suspiros, granjeei favores,

Ali me disse Anarda o que eu não digo;

Ali, volvendo os ninhos dos Amores,

Cravou nesta alma, para sempre acesa,

As perigosas frechas da beleza;

Ali do próprio mal me fez amigo,

Ali banhou meu rosto

Parte do coração, desfeita em gosto,

Novas campinas testemunhas foram

De nova glória, de maior ventura,

Tal, que julguei, logrando-a, que sonhava.

Entre as doces prisões da formosura,

Entre os cândidos braços deleitosos,

Meus crestados desejos amorosos

No alvo rosto, que o pejo afogueava,

No néctar... Ah! Que eu morro,

Se em vós, furtivos êxtases, discorro.

Amor! Amor! Teus júbilos excedem

Da loira abelha os engenhosos favos,

Mais gratos são, que as flores, teus sorrisos.

Gostei todos os bens que aos teus escravos

Fazem tão leve a rígida cadeia,

Tão doce a chama, que no peito ondeia;

Mas oh! Cruéis teus dons, cruéis teus risos,

Princípio do tormento,

Que já me tem delido o sofrimento.

Miserável de mim! Qual o piloto,

Que lera nos azuis, filtrados ares

Indícios de uma sólida bonança,

E eis que vê de repente inchar os mares,

Vestir-se o céu de nuvens, donde chove

O fogo vingador, que vibra Jove,

Tal eu, quando supus mais segurança

No meu contentamento,

O vi fugir nas asas de um momento.

Anarda, Anarda pérfida, teus olhos,

Onde Amor traz escrita a minha Sorte,

Teus mimos por mim só não são gozados!

Oh desesperação, pior que a morte!

Oh danados espíritos funestos,

De hórridos vultos, de terríveis gestos,

Moderai vossa queixa, e vossos brados,

Que as penas do profundo

Também, também se encontram cá no mundo.

Ver outro disputar-me o caro objecto,

Em cujas lindas mãos pus alma e vida,

Não me arranca suspiros: o tormento,

Que no peito me faz mortal ferida,

O maior dos tormentos, ó perjura,

É ver que de outrem sofres a ternura,

É ver que dás calor, que dás alento

A seus mimos e amores

C'um riso, percursor de mil favores.

Tu não foges de mim, tu não te esquivas

Destes olhos, que em ti cativos andam;

Delícias, onde pasma o pensamento,

Doces instantes meu ciúme abrandam;

Mas ah! Não é só minha esta ventura,

Meu vaidoso rival a tem segura.

Que indigna variedade! Em um momento

Teus olhos inconstantes

Acarinham sem pejo a dois amantes.

Honra, virtude, agravo e desengano

Me gritam n'alma que sacuda os laços,

Que tanto sofrimento é já vileza.

Oiço-os, protesto desdenhar teus braços,

Protesto, ingrata, converter meus cultos

Em mil desprezos, irrisões e insultos;

Mas ah protestos vãos! Baldada empresa!

Sou a amar-te obrigado:

Não é loucura o meu amor, é Fado.

Canção, vai suspirar de Anarda aos Lares;

Mas se não lhe firmares

O instável coração, deixa a perjura,

E iremos sossegar na sepultura.

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