O consumo virtual e o eu frente a novas tecnologias de informação por Jaqueline Reinert Godoy, Gláucia Valéria Pinheiro - Versão HTML

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O CONSUMO VIRTUAL E O EU FRENTE A NOVAS TECNOLOGIAS DE

INFORMAÇÃO

Jaqueline Reinert Godoy1, Gláucia Valéria Pinheiro de Brida2

RESUMO: O consumo virtual é resultado das atuais inovações tecnológicas no campo da informação e comunicação, como a internet, e da globalização da economia. O objetivo deste trabalho é compreender as conseqüências das novas tecnologias de informação, em especial a internet, na subjetividade, a partir da experiência do consumo virtual. Foram realizadas entrevistas semi-dirigidas com vinte pessoas, entre 25 e 54 anos de idade, na cidade de Maringá, que atendem aos critérios do consumidor virtual. A análise das entrevistas mostrou que o modo como o consumidor virtual percebe sua experiência e se relaciona com as tecnologias envolvidas neste comportamento demonstra uma falsa percepção de controle do tempo e in teração social, uma fragilidade egóica, que interfere no modo como ele apreende e simboliza sobre o real, se caracterizando como “múltiplos eus”. Ao se identificar com essas inovações tecnológicas, surge então um novo modelo subjetivo de homem, caracterizado pela inovação e evolução constantes, tão eficiente quanto a tecnologia que utiliza.

PALAVRAS-CHAVE: Internet, Inovações tecnológicas, Consumo virtual, Subjetividade INTRODUÇÃO

A Revolução das Tecnologias da informação das últimas décadas aproxima-se da

Revolução Industrial, pelo menos no que diz respeito àquela de suas vertentes que maior impacto teve nas ultimas décadas - a da conexão dos computadores em rede – que

chamaremos de Revolução da Internet. O que esses dois processos revolucionários têm em comum é a geração de novos espaços de vida, as alterações de amplo alcance nos

estilos de agir, de viver e de ser dos homens e mulheres que lhes foram contemporâneos e a proliferação de vocábulos que expressam novos interesses, novas necessidades, novas formas de vida, novos relacionamentos e novos conflitos. Essas revoluções são marcadas pela descontinuidade, que parece ser a grande responsável pela transformação no modo de vida, quanto pelas profundas transformações sociais recentemente

introduzidas pela nova ordem digital (Nicolaci-da-costa, 2002).

Para Silveira (2004) as transformações das novas tecnologias da informação não

são apenas tecnológicas, mas também econômicas, sociais e culturais que abrangem

todo o planeta, fenômeno conhecido como globalização, e que tem como resultado uma sociedade em rede, através da mídia e da internet.

Entre os efeitos da internet no dia a dia das pessoas, temos o aumento

significante do consumo virtual. De acordo com estudo realizado pela consultoria IDC

Digital Marketplace Model and Forescast, em 2008 quase metade dos internautas farão uso das lojas virtuais para suas compras. Em quatro anos, os consumidores on-line

passarão à casa do 1 bilhão de pessoas e movimentarão US$ 1,2 trilhão. Entre as

atividades favoritas dos usuários da internet estão: pesquisa, compras e envio de e-mail.

O presente trabalho é resultado de uma pesquisa que teve como objetivo

compreender as conseqüências das novas tecnologias de informação, em especial a

1 Discente do Curso de Psicologia do Centro Universitário de Maringá – CESUMAR, Maringá – PR.

Programa de Iniciação Cientifica. jaquelinereinert@hotmail.com

2 Docente do curso de Psicologia do Centro Universitário de Maringá – CESUMAR, Maringá – PR.

glauciabrida@cesumar.br

internet, na subjetividade, a partir da experiência do consumo virtual. Para tanto, foram realizadas entrevistas semi-dirigidas com vinte pessoas com idade superior a 25 anos, residentes na cidade de Maringá, região Norte do Paraná, e que realizam compras

através da internet. As entrevistas foram analisadas a partir de autores que abordam o consumo em uma perspectiva crítica, e as conseqüências das novas tecnologias de

informação na subjetividade.

MATERIAL E MÉTODOS

Para a compreensão das conseqüências das novas tecnologias da informação na

subjetividade, a partir da experiência de consumo virtual foram realizadas entrevistas semi-dirigidas com vinte sujeitos entre 25 e 56 anos, residentes na cidade de Maringá, região Norte do Paraná, que realizam compras através da internet. Os dados coletados nas entrevistas verificaram inicialmente questões referentes ao perfil do consumidor virtual, bem como aspectos relacionados ao modo como o sujeito se relaciona com essa nova tecnologia.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para Nicolaci-da-costa (2002) o uso intensivo da rede, pode provocar um

isolamento social, em virtude da substituição de relacionamentos e atividades reais por relacionamentos e atividades virtuais. Entre umas conseqüências psicológicas da longa permanência diante do computador utilizando a internet é o vício, caracterizado por alterações de comportamento, compulsão, a dependência e os problemas pessoais e

sociais que são características do vício. Pode trazer também o isolamento social

desencadeando a solidão e depressão.

Outra conseqüência do consumo virtual é o consumo exacerbado que gera o

consumismo, onde o indivíduo compra sem limite causando perturbações no

comportamento. Para Baptista (1998) as perturbações de comportamento que envolve

uma maior dificuldade no controle de impulsos são facilitadas pelas possibilidades de satisfação imediata do impulso. E muitos dos locais comerciais da Internet têm vindo a investir largamente na concretização de sites de fácil utilização, em que as compras se fazem de forma quase imediata o acesso facilitado e imediato a muitas coisas, introduz uma noção do aqui e agora. Na obtenção de satisfações pessoais, que entra em forte competição com a capacidade para adiar a gratificação pessoal em prol de objetivos mais complexos ou superiores.

As inovações tecnológicas e o uso da internet , traz impactos na vida homem

moderno. Para Simmel (1902, apud Nicolaci-da-costa,2002) o cotidiano dos indivíduos no espaço virtual é permeado por um excesso de estímulos, racionalidade, a frieza, o

anonimato, a reserva, o isolamento, o cálculo, a mobilidade, a pontualidade e a

praticidade. Essas inovações contribuem para comportamentos e novos traços psíquicos.

Para Nicolaci-da-costa (2002) esses novos espaços correspondem a novas

necessidades, novas demandas, sociabilidade e sobrevivência, que tem como

conseqüência novas formas de agir e de viver. Entre essas conseqüências a autora

aborda a emergência de um novo modelo de organização psíquica em derivação o uso da internet. Para Turkle (1995 apud Nicolaci-da-costa 2002) essa organização psíquica se constitui em um modelo dos “múltiplos eus”, em que os indivíduos vivem, a exemplo do que ocorre nos computadores, como se pudessem abrir várias “janelas” ao mesmo tempo, ou seja podem fazer várias atividades ao mesmo tempo.

Embora Kovacs e Farias (2004) afirmam que no comércio eletrônico não ocorre

interação social, os entrevistados acreditam não haver uma diminuição da interação social no consumo virtual, apresenta ndo uma distorção na percepção dessa relação ao acreditar que ela continua existindo com o computador. Com essa falsa percepção, o consumidor permanece mais restrito em relação à interação social, podendo originar o que Nicolaci-da-costa (2002) denominou isolamento social, em virtude da substituição de

relacionamentos e atividades reais por relacionamentos e atividades virtuais.

Assim como ocorre com a percepção da interação social, podemos observar

também que o consumidor virtual apresenta uma distorção na percepção de controle

sobre o tempo gasto com o acesso à internet, pois a maioria dos entrevistado relatam permanecer mais tempo na internet do que o planejado, embora afirmam ser diretivos em seu acesso a internet apenas com a finalidade de compra efetiva. Essa contradição no discurso revela que a falta de tempo das pessoas e o desejo de ser tão rápido e eficiente quanto a máquina, faz com que ao utilizar essa ferramenta, o consumidor virtual acredite ser mesmo tão rápido e eficiente qua nto o computador.

Nos entrevistas também se observa que essa percepção de uso do tempo, ao

consumir pela internet, vem acompanhada de sentimentos de gratificação. É a felicidade do consumidor eficiente, como pode ser observado no relato desta entrevistada: “a Internet é pra mim algo que te deixa comunicado com o mundo, e eu não preciso gastar muito tempo pra fazer compras, então eu me sinto bem por que eu estou gastando o

pouco tempo comprando o que eu necessito”.

Esse relato ilustra também como a internet oferece a sensação de estar

comunicado com o mundo. No virtual o espaço é percebido como mais acessível, sem os limites do espaço real, constituído de ruas e distancias, o espaço virtual é constituído de janelas e imagens. Esse predomínio do imagético virtual pode interferir no processo de simbolização dos sujeitos e estreitamento de suas possibilidades perceptuais (Caniato e Abeche, 2008), levando a uma fragilização egóica.

Diante de um contexto influenciado pelo impacto de novas tecnologias na

subjetividade, em particular, o mundo da rede de internet e as relações virtuais. A constituição da identidade ocorre através de embates entre forças psicológicas e sociais no desenvolvimento da individualidade, onde a formação desta atualmente caracteriza-se em função da rapidez em que as mudanças hoje ocorrem em nosso cotidiano, marcado

pelo surgimento de novas tecnologias de informação. Nas entrevistas observamos que para os consumidores virtuais se identificam com as novas tecnologias e com principal traço de caráter: a evolução. Assim o uso da internet para o consumo, é necessário para acompanhar a evolução que ocorre em função do desenvolvimento da tecnologia de

informação.

CONCLUSÃO

Ao investigar o comportamento de consumo virtual, e as conseqüências das noivas

tecnologias na subjetividade, observa-se uma distorção na percepção do controle do tempo. As tecnologias de informação têm contribuído para a sobrecarga de trabalho, a maioria dos entrevistados relatou a constante falta de tempo, e o consumo virtual ao se apresentar como uma ferramenta ágil dá a esse sujeito uma sensação de ser eficiente, de aproveitar melhor o tempo, o que é seguido de um sentimento de gratificação. Por outro lado houve momentos de contradição nas entrevistas, quando os sujeitos relatam

permanecer um tempo maior no espaço virtual do que o planejado, demonstrando que

esse controle sobre o tempo não é real. Pois a maioria dos usuários acessa a internet mesmo sem a intenção de compra, mas para saciar sua curiosidade sobre tendência do mercado e inovações, o que é percebido como um aproveitamento de seu tempo.

Outros aspectos também parecem ser percebidos de forma distorcida como a

percepção de interação social e comunicação, apesar do isolamento, característico dessa forma de consumo. Isso parece relacionado ao fato da internet oferecer aos sujeitos a sensação de estar comunicado com o mundo. No virtual o espaço é percebido como mais acessível, sem os limites do espaço real, constituído de ruas e distâncias, o espaço virtual é constituído de janelas e imagens. Esse predomínio do imagético virtual pode interferir no processo de simbolização dos sujeitos e estreitamento de suas possibilidades

perceptuais (Caniato e Abeche, 2008), levando a uma fragilização egóica.

Essa fragilidade egóica e a diversidade de possibilidades da internet leva o sujeito a se perceber como se tivesse “múltiplos eus”, como se fosse computadores que podem fazer várias atividades simultaneamente, como várias “janelas” abertas ao mesmo tempo, acreditando estar utilizando a internet como aproveitamento do seu tempo limitado

(Turkle, 1995 apud Nicolaci-da-Costa, 2002). Ao se identificar com essas inovações tecnológicas, surge então uma identidade “moderna”, um novo modelo subjetivo do

homem, caracterizado pela inovação e evolução constante, e tão eficiente quanto a tecnologia que utiliza.

REFERÊNCIAS

CANIATO, Ângela; ABECHE, Regina Perez C. O Poder da Imagem Televisiva na

Construção da Subjetividade. Contato, Curitiba, ed.56, p. 22-23, Mar./Abr.2008.

KOVACS, Michelle H.; FARIAS, Salomão A. de. Dimensões de riscos percebidos nas

compras pela internet. RAE electron. , São Paulo, v. 3, n. 2, 2004 . Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S167656482004000200013&l ng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 24 Jul 2008.

NICOLACI-DA-COSTA, Ana Maria. Revoluções tecnológicas e transformações subjetivas.

Psic.: Teor. e Pesq. , Brasília, v. 18, n. 2, 2002 . Disponível em:

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010237722002000200009&lng=

pt&nrm=iso>. Acesso em: 18 Jun 2008.

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